Belas Mensagens
Afrânio Peixoto: 17 de dezembro de 1876 — 12 de janeiro de 1947


 

Sorriso da Sociedade

Não tenho motivos para modificar minha definição de Literatura... A Literatura, ou as belas-artes, comparei-as ao sorriso da sociedade porque só nas épocas felizes a gente sorri. Nas de apreensão e tortura não há sorriso. O erro dos que, sem atentarem bem para ela, combateram e combatem minha definição, está em que eles supõem que eu tenha dito "sorriso do homem", quando o que eu escrevi foi "sorriso da sociedade". Está claro que não poderia nunca dizer que a Literatura é o sorriso do homem: primeiro porque este, para mim, não existe, não passa de simples elo de uma cadeia infinita; e, segundo, porque não ignoro que toda grande obra é feita, com a gestação, na dor. Mas só um ambiente social tranqüilo e feliz permite o aparecimento de um livro notável. No tempo de Balzac, como havia abastança social, o autor de Père Goriot pôde dedicar-se a criar vida para gozo da sociedade. E só uma sociedade feliz aplaudiria Balzac. Das torturas de sua doença e de suas prisões na Sibéria, no cárcere e no hospital, Dostoiévski, através de seus livros, saía de si para a sociedade que o admirava.

Insisto que o equívoco está em imaginarem que eu tenha escrito que a Literatura é o sorriso do homem. Só um louco diria isso, pois, de acordo com semelhante conceito, apenas os soberanos, os ricos, os poderosos fariam letras. E é sabido que estes, em geral, nada produzem que se aproveite. Uma raiz atormentada, no fundo da terra, desabrocha nas flores de um vergel. A arte é o sorriso da sociedade. Pouco importa que o artista, pessoalmente, sofra. "De minhas penas fiz canções aladas", disse Henrique Heine, e a sociedade feliz, que o admirava, o aplaudiu. Agora, nem os ricos, os poderosos, os felizes conseguem realizar obra de arte, porque a sociedade sofredora não sorri... A Literatura não pode vir da indiferença ou da preocupação. A poesia já morreu, ao menos provisoriamente. Os romances são reportagens ou confissões. Quando muito, vidas romanceadas. Ensaios e mais ensaios... Em Bizâncio era gramática e teologia. Agora, no Brasil, política e ortografia. A volta da Literatura será prenúncio de bom tempo. Que venha!

Afrânio Peixoto

Fonte: http://www.academia.org.br/



21h15 |




Érico Veríssimo: 17 de dezembro de 1905 — 28 de novembro de 1975

Eu queria fazer um livro não da vida como ela é, mas como eu queria que ela fosse. Um livro para a gente pegar e ler quando quisesse esquecer a vida real... Eu entendo a Arte como sendo uma errata da vida. A página tal, onde se lê isto, leia-se aquilo... ("Um Lugar ao Sol")

* * *

Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’. ("O escritor diante do espelho")

* * *

O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" - murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

Érico Veríssimo

In: Solo de clarineta - Memórias
(1º volume) - 1973



21h13 |




Olavo Bilac: 16 de dezembro de 1865 - 28 de dezembro de 1918


 

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho"!
E em que Camões chorou, exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999.
p.154-155



21h10 |




Silva Ramos: 6 de março de 1853 — 16 de dezembro de 1930

DESENCONTRO

Quantas vezes me viste sem te eu ver,
E quantas eu te vi que me não viste...
E só agora, ao ver que me fugiste,
Eu vejo o que perdi, em te perder.

Estranha condição do estranho ser
Que alegre vive nesta vida triste:
Que só saibamos em que o bem consiste,
Quando o bem só consiste no morrer.

Quão feliz eu seria, se, na hora
Em que te vi, te visse como agora,
Ideal, nos meus sonhos ideais!...

Se o que eu sinto por ti sentir pudera,
Então, sorrindo, eu te diria: Espera,
E hoje, chorando, não te espero mais.

Rio, 1886

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/

* * *

NÓS

(A Hilda ten Brink)

Eu e tu: a existência repartida
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.

Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.

Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.

O mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu eternamente.

Rio, 1888

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/



21h10 |




Oscar Niemeyer: 15 de dezembro de 1907 - 5 de dezembro de 2012

Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

 

Oscar Niemeyer



21h09 |




Leonardo Boff: 14 de dezembro de 1938

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."

Leonardo Boff

In: Casamento entre o céu e a terra.
Ed. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001
p. 09



21h43 |




Adélia Prado (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935)

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".

Carlos Drummond de Andrade

* * *


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado



21h40 |




C. J. Heinrich Heine: 13 de dezembro de 1797 - 17 de fevereiro de 1856

Der Doppelgänger "O Duplo"

A noite é calma, a rua dorme,
Esteve na casa minha amada a habitar;
Ela deixou a cidade há tempo enorme,
A casa, porém, permanece em seu lugar.

Há também um homem, que mira o firmamento
E retorce as mãos, presa da amargura.
Contemplar sua face causa-me tormento,
A lua me desvela minha própria figura.

Tu, meu duplo! tu, pálido amigo!
Por que zombas da minha dor de amar,
Que me torturou neste lugar
Por tantas noites, em tempo ido?

Heinrich Heine

Tradução: Priscila Manhães Lerner e Carlos Eduardo Ortolan



21h39 |




Barbosa Lessa: 13 de dezembro de 1929 — 11 de março de 2002


O João-de-barro é um passarinho de nada.

Como deve ser brabo, para ele, o esforço de levar no bico, por dias a fio, pedacinhos de barro e pedacinhos de capim. Mas não afrouxa o tutano, ajeita daqui, ajeita dali, voa para cá, voa para lá, traz, põe terra, não cansa, voa de novo, empurra com o biquinho os grãozinhos de terra, bate as asinhas doloridas de cansaço, se agiganta, vem a chuva ameaçando por tudo abaixo, ele remenda o que a chuva estragou, recomeça, vem o gavião voando para acabar com a vidade dele, ele foge, quando gavião vai embora ele volta, segue em frente, traz mais barro, chega ao topo, dá os remates finais...

E olha lá, num amanhecer de primavera, o rancho todo construído e ele piando de felicidade ao lado da companheira. E agora podem vir chuvas, que isto não tem mais importância.

E pode vir o gavião de novo, que os filhos estão dormindo com toda a segurança numa caminha de penas. Que lindeza!

Se o joão-de-barro, que é um passarinho flaquito, pode fazer tudo isso com seu biquinho de nada, por que não poderá um homem construir sua felicidade? Basta querer!

* * *

Hino Tradicionalista

Eu agradeço à Salamanca do Jarau
por me ensinar o que aprendeu do "Velho" Blau:
com alma forte e sereno coração
achei meu rumo pra sair da escuridão.
Vi uma luz que se tornou fogo-de-chão,
sorvi a luz no ritual do chimarrão,
e hoje sei o que é a Cordialidade
que nos conduz á real felicidade.

Avante, cavaleiro mirim!
Em frente, veterano peão!
Lado a lado, prenda e prendinha,
todos juntos dando a mão.
Avante, seguindo os avós!
Em frente, trazendo os piás!
Coisa linda é se ver gerações
convivendo em santa paz.

E dá uma gana de sair dançando,
ou gritando com força juvenil:
"Viva a Tradição Gaúcha
dos campeiros do Brasil!
dos campeiros do Brasil!
dos campeiros do Brasil!"

Barbosa Lessa

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=jECilok1cU4&feature=related



21h37 |




Pedro Luís P. de Sousa: 13 de dezembro de 1839 — 16 de julho de 1884

O LEQUE DE MARFIM

Ela estava bonita a enlouquecer a gente!
Viva, fresca, feliz... gostei de vê-la assim!
Da música ao murmúrio estremecia ardente
E, rindo, machucava o leque de marfim.

Seus olhos eram negros, veludosos, puros...
Dois abismos! Dois céus! Fitei-os a tremer!
Costumado a trilhar caminhos sempre escuros,
Tenho medo da luz... Meu Deus, eu não quis ver.

Mas ela fascinava... Era um olhar, mais nada...
Rebelde, o coração nessa hora me traiu!
Aos dedos dessa virgem a ânfora sagrada
Entornando perfume à luz do sol se abriu.

Encostei-me ao piano. A chácara viçosa
Entoava das flores lânguida canção.
Eu cismava... - sei lá! - no céu, no mar, na rosa...
E minh'alma se foi nas asas da paixão.

Bem como o viajante em regiões polares
Que recorda chorando o seu torrão natal,
E avista de repente, incendiando os mares,
O divino esplendor da aurora boreal,

Assim eu triste, só, sem sombra d'esperança,
Dos gelos da descrença aonde vim parar
Sondei aquele riso! Amei essa criança,
Foi-me aurora de amor o negrejante olhar.

Brilhe embora uma vez... Banhou-me a luz divina
Vale uma eternidade um dia sempre assim...
Sempre hei de me lembrar da cândida menina
Que rindo machucava o leque de marfim.

9 de abril

Pedro Luís Pereira de Sousa

Fonte: http://www.academia.org.br

Arte: P. Picasso - "A Mulher com leque"



21h36 |




José de Alencar: 1 de maio de 1829 — 12 de dezembro de 1877

(...)" Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano nessa vida errante e nômade, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de música, de recordações históricas, de contemplações de arte.

Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus.

Trouxemos das nossas peregrinações um raio de sol do Oriente, um reflexo de lua de Nápoles, uma nesga do céu da Grécia, algumas flores, alguns perfumes, e com isto enchemos o nosso pequeno universo.

Depois, como as andorinhas que voltam com a primavera para fabri­car o seu ninho no campanário da capelinha em que nasceram, apenas ela recobrou a saúde e as suas belas cores, viemos procurar em nossa terra um cantinho para esconder esse mundo que havíamos criado.

Achamos na quebrada de uma montanha um lindo retiro, um verda­deiro berço de relva suspenso entre o céu e a terra por uma ponta de rochedo.

Aí abrigamos o nosso amor e vivemos tão felizes que só pedimos a Deus que nos conserve o que nos deu; a nossa existência é um longo dia, calmo e tranquilo, que começou ontem, mas que não tem amanhã."

José de Alencar

In: Cinco Minutos
Série Bom Livro. Editora Ática - São Paulo - 1995
p. 47



21h35 |




Gustave Flaubert: 12 de dezembro de 1821 – 8 de maio de 1880



Ah! é que te amo! — respondia ela — Amo-te a ponto de não poder passar sem ti, sabes? Tenho às vezes vontade de te ver, quando toda a força do amor me dilacera. E pergunto-me “Onde estará ele? Fala talvez com outras mulheres? Elas lhe sorriem, ele se aproxima...” . Oh, não! Nenhuma te agrada, não é? Há mulheres mais belas, mas eu sei amar-te melhor! Sou tua serva e tua concubina! Tu és meu rei, meu ídolo! Tu és bom, és belo, és inteligente, és forte!

Gustave Flaubert

In: Madame Bovary
Tradução de Araújo Nabuco
São Paulo: Martins editora, 1997



21h34 |




Pagu / Patricia Rehder Galvão: 9 de junho de 1910 — 12 de dezembro de 1962

Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?

Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não

Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.

 

* * *

Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

 

* * *

Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

A

Patricia Rehder Galvão

A

Fonte: http://www.pagu.com.br/blog/home



21h34 |




J. Antônio Camões: 10/11 de Dezembro de 1777 — 18 de Janeiro de 1827

O TESTAMENTO DE D. BURRO, PAI DOS ASNOS (Fragmentos)

(...)
Na pobre estrebaria em que me vejo,
cheio de pulgas, piolhos, percevejos,
eu D. Burro, pai dos asnos calcitrantes,
que o mundo vai deixar dentro de instantes,
vendo-me já tanto de anos carregado,
no mais triste e lastimoso estado,
sem abrigo de pai nem de parentes,
da cabeça já calvo, e já sem dentes,
do meu dono desprezado, e abatido,
ingrata satisfação de o ter servido;
vendo que neste mundo me não resta
coisa com que fazer a minha festa,
remédio não hei já senão prestar-me
fazer minha viagem, preparar-me:
essa viagem de todos tão temida,
pois os dias termina, acaba a vida.
É certo que minha alma irracional
não goza os privilégios de imortal,
mas como de cá vou pra não tornar,
e várias coisas tenho d'arranjar
- além de amigos meus e de parentes
(não que bem descendentes ou ascendentes);
por isso tomarei sequer urna hora,
na qual sem dúvidas e sem demora,
para exemplo a futuros e vindouros,
dispor eu possa bem de meus tesouros.
Como é fácil anular um testamento
o meu quero fazer com fundamento.
Por que o não posso fazer por minha mão,
impedido de angústia e de aflição,
ao Senhor Vigário eu peço mo escreva,
não porque ele favor algum me deva,
mas por ser sua letra mui par'cida
com a que eu escrevia em minha vida
quando pra amanuense seu me preparava,
pois só tal amanuense lhe quadrava.
(...)
Quarenta anos, pouco mais, tenho de idade:
sempre foram pra mim d'austeridade;
nunca neles senti barriga cheia
em almoço, jantar, merenda ou ceia.
Só quando era pequeno, lá no Corvo,
minha avó me frigiu um dia um ovo.
Estando pra o comer, eis de repente
meu avô chega, velho e impaciente,
e não só o papou ele dum bocado
mas até minha avó pôs em tal estado
que a pobre prometeu com juramento
não se embaraçar mais co'o meu sustento.
(...)
Meu corpo quero seja sepultado
aí no canto dum qualquer cerrado,
onde de mim lembrança mais não possa haver;
mas porquanto bem pode suceder
o almotacé pra o açougue me mande ir,
e à sua ordem ninguém pode resistir,
cada um de por si vá preparado
pra me levar de carne o seu cruzado.
Mas saiba quem a leve, lá por teimas:
comendo-a, morre cheio de almorreimas;
porque não pode ser que, em tal idade,
minha carne não cause enfermidade.

Herdeiros

Item. Precisando nomear testamenteiros,
o Capitão Silvestre é o primeiro;
Felipe António fique de segundo;
e suposto que me acho moribundo,
sempre nomeio terceiro aristocrácio,
meu compadre o Alferes Francisco Inácio.
P'lo trabalho de testamentaria,
peças lhes deixo da maior valia:
ao primeiro, meu óculo de alcançar,
um óculo tão distinto e singular
que com ele até mesmo observava
quantas cricas de burra encontrava.
(...)
Item. Ao segundo meu testamenteiro,
eu deixo quinze réis em bom dinheiro,
porém co'a obrigação, todos os anos,
de os pagar aos padres franciscanos
por mesada daquele pouco tempo
em que estive de estudante no convento.

Item. Ao terceiro, pouco tenho que deixar,
pois são muitos os que têm de me herdar,
e os meus bens, como sabem, poucos são.
Mas pra fugir a toda a ingratidão
as canelas lhe deixo duma perna
e meu terçado feito já pela moderna.
Em o tendo não mais use espadim,
pois é traste que nem servia a mim.

- Obrigações primeiras satisfeitas,
usemos com os outros às direitas.
(...)
Item. Ao Padre Tesoureiro mando dêem
meu couro pra chamarra que não tem;
pois se há de comprar baeta em loje,
faca uma cor de burro quando foge.
E depois, quando deste mundo eu for,
não quero mais ouvir que ante o Ouvidor
aparece com calças à maruja,
que é ação muito feia, muito suja.
Se o Ouvidor até 'qui dissimulou,
foi força de prudência de que usou;
pois eu se ouvidor fosse não sofria
uma tão temerária grosseria.
(...)
Item. Deixo ao Sr. Juiz por bem da lei
quantas lágrimas neste mundo eu chorei,
as quais ordeno sejam misturadas
co'aquelas que têm sido derramadas
por tanto pobre a quem sua mercê
cadeias, ferros manda que se dê.
(...)
Item. Meu contraparente João Bernardo,
pra ostentação maior de seu estado,
mando se dê depois da minha morte
meu rabo, que lhe sirva de chicote.
E se não se contentar com esta deixa,
pra que de mim não forme alguma queixa
dar-lhe-ão mais uma dúzia de bolotas
e couro das minhas pernas pra umas botas.

Item. A António Furtado Nunes, meu parente,
a quem Deus não fez como a outra gente,
deixo por minha morte duas pipas
do miolo que me saía pelas tripas.
(...)
Item. A minha prima Maria Joaquina
deixo dois gamelões da minha urina:
o caldo só, pois os cascos não,
porque estes meus também não são.
Com ela poderá dar uma calda
e alvejar quando quiser a sua fralda.
(...)
Item. A José Paciente e a Francisco Dente,
deixo em legado pio o meu pendente,
uma jóia de tanta estimação
que render não pode menos de um tostão.
(...)
Item. A João Castelo e sua irmã Isabel,
o meu sangue para um sarapatel;
mas com a rigorosa obrigação
que pelo olho do eu mo chuparão,
pois não quero se me faça anatomia
nem do corpo mo tirem por sangria.
(...)
O meu olho do eu já o deixei
a meu primo José, porém errei
em deixar-lho para ele assobiar,
pois nisso os beiços podem bem bastar.
Mando pois que embrulhado em um papel
o remetam a Alexandre Pimentel;
que o ponha no lugar do que não tem,
e só assim lhe pago o mal com bem.
(...)

José Antônio de Camões

In: Livro dos Poemas
Organização Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 254-8



21h41 |




Alfred de Musset: 11 de Dezembro de 1810 — 2 de Maio de 1857


À LAURA

Se não me amavas, ó mocinha ensandecida.
Que murmuravas tu nas noites tão fatais?
Era por tua língua a idéia escarnecida?
Que queriam o choro, a garganta oprimida.
Os clamores e os ais?

Ah! Se tão-só o prazer te arrancava ternuras,
Se era tão-só o prazer que no instante aflitivo
Nos meus lábios a arder, cobrias de branduras,
Qual amante exclusivo;

Se os sentidos com a alma, os beijos com os prantos
Vão dos lábios ao peito, assim, de par em par;
E se precisas para encontrar nisso encantos
Sobre o altar do prazer a dita profanar:

Ah! Laurinha, a quem amo idolatradamente,
Se o demônio feroz da noite insonolente
Sem a máscara a arder nem mesmo um passo dava,
Por que o invocavas, já que tu, tu não me amavas?

ALFRED DE MUSSET

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Concepção e Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo, Ed. Landy, 2002
p. 56



21h37 |




Noel Rosa: 11 de dezembro de 1910 — 4 de maio de 1937

Dê a quem você ama
asas para voar,
raízes para voltar,
motivos para ficar.

* * *

Até Amanhã

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
Até amanhã, até já, até logo

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Eu sei me livrar do perigo
Num golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo
Até amanhã, até já, até logo

Composição: Noel Rosa



21h36 |




Carlos Gardel: 11 de dezembro de 1890 — 24 de junho de 1935

 

El día que me quieras

Acaricia meu sono
o suave murmúrio
do teu suspirar.
Como ri a vida
se os teus olhos negros
me querem olhar
E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece

No dia que me quiseres
A rosa que enfeita
se vestirá de festa
com sua melhor cor
E ao vento os sinos
dirão que tu já és minha
E loucas as fontes cantarão teu amor

Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo

No dia que me quiseres
não haverá mais que harmonia
será clara a aurora
e alegre a nascente
Trará quieta a brisa
rumor de melodias
e nos darão as fontes
seu canto de cristal
No dia que me quiseres
adoçará suas cordas o pássaro cantor
florecerá a vida
não existirá mais a dor

Composição: Carlos Gardel / Alfredo Le Pera

Ouça esta música aqui por Luis Miguel (1994):
http://www.youtube.com/watch?v=QvyIG57knJI



21h35 |




Alexander Solzhenitsyn: 11 de Dezembro de 1918 — 3 de Agosto de 2008

“No fim da guerra civil, e como sua conseqüência natural, abateu-se sobre a região do Volga um ano de fome como nunca se tinha conhecido. Como isso não adorna muito a coroa de glória dos vencedores desta guerra, falam sobre ele entre os dentes e sem ir além de duas linhas. E no entanto essa fome chegou até ao canibalismo, até aos pais comerem os seus próprios filhos. Nunca uma fome assim tinha sido conhecida na Rússia, nem sequer no ‘Tempo dos Tumultos’ (então, como testemunham os historiadores, os cereais mantinham-se debaixo da neve durante vários anos, sem serem colhidos). Um só filme sobre essa fome poderia projetar uma luz nova sobre tudo o que vimos e tudo o que sabemos acerca da Revolução e da guerra civil. Mas não há nem filmes, nem romances, nem estudos estatísticos – é algo que se procura esquecer, que não embeleza”

Alexander Solzhenitsyn

In: Arquipélago Gulag, pg. 331-332



21h35 |




Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando".

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.

O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.

Resultado: não funciona.

Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.

Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.

É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector

In: Aprendendo a viver
EDITORA ROCCO, 2004
p. 166-8

Ouça este texto na voz de Aracy Balabanian:

http://www.youtube.com/watch?v=8lSoxrWsnZw

* * *

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."

In: Um Sopro de Vida,
4. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978,
pp. 154-155

* * *

(...) O jade me permite a divindade. Seu verde trans­passável me santifica em bizantino ícone. Eu, de mãos postas e juntas diante de meu rosto sério e transpa­rente e meu diadema então são as tranças entrelaçadas de meus vigorosos e tranqüilos cabelos negros. O jade é a minha espada desembainhada pelo harakiri de minha humilde alma orgulhosa que se mata porque tem muito pouco de tudo, é paupérrima, mas tem o orgulho soberano da morte.
Mas — mas só o diamante corta o vidro.
E agora vou dizer uma coisa muito séria, preste atenção: caco de vidro é jóia rara. E o espatifo dele é som de se ouvir ajoelhado que nem som de sinos. Elegantes sinos que são coisas jóias também. Sinos são as jóias da igreja. E o badalo de sinos é um badalar de ouro que espatifa no ar brilhantes e pássaros azuis.
Cavalo de fogo é o rubi em que eu mergulho tão profundo que se me rompo toda.
E a esmeralda? Esmeralda é de se trincar com os dentes, e espatifá-la em mil trocinhos de verdes e miú­dos filhos de esmeralda.
Topázio é a transparência de teu olhar.
A pedra? pedra que está no chão? É jóia que veio do céu em turbilhão e ali parou até que eu viesse e a visse e a apanhasse e a apalpasse como coisa minha, coisa de meu coração.
E a safira? tem um reflexo que cega os olhos dos incautos que a compram como se fossem brilhantes. Eu nunca vi uma safira. Só sei por ouvir falar. Mas no dia em que eu me defrontar com uma safira — ah! vai ser espada contra espada e vamos ver se é de mim que o sangue há de jorrar.
A pulseira me escraviza, oh doce escravidão de mulher ao seu homem preferido.
Platina é a mais cara. Mas não te quero, és feroz na tua frieza branca. Prefiro jóia barata de mulher pobre que compra na feira seus brilhantes leivados da mais pura água dos esgotos turvos.
Ametista, eu não te beijo porque não sou a tua serva.
Ônix! príncipe negro das rosas, tu me amargas e nado nas águas — trevas da tua posse ferrenha, oh luto de rainha! aranha preta penugenta. Maldita sejas, pedra preta de sangue, coágulo de humores e miasmas.
Água-marinha? meu primeiro namoradinho tinha olhos azuis de água-marinha. Mas eu não chegava perto dele: tinha medo. Porque água quieta é água funda e me dava calafrios.

In: Um Sopro de Vida
RJ: Ed. Nova Fronteira, 1978
p. 120-122

* * *

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano."

In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - 1969

* * *

Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

In: A descoberta do mundo

Editora Nova Fronteira
RJ: 1994
p. 144



20h24 |




Thomas Merton: 31 de Janeiro de 1915 - 10 de Dezembro de 1968

"A vida consiste em aprender a viver de maneira autônoma, espontânea e livremente: para isso é preciso reconhecer-se a si mesmo – estar familiarizado e à vontade consigo mesmo. Isso significa, basicamente, aprender quem somos e aprender o que temos para oferecer ao mundo contemporâneo e, depois, aprender como fazer para que essa oferta seja válida.

A finalidade da educação é mostrar a uma pessoa como se definir autêntica e espontaneamente em relação ao seu mundo – não é impor uma definição pré-fabricada do mundo e, menos ainda, uma definição arbitrária do próprio indivíduo. O mundo é feito de pessoas que estão plenamente vivas dentro dele: isto é, de pessoas que podem ser elas mesmas nele e podem nele estabelecer umas com as outras uma relação viva e frutífera. O mundo, portanto, é mais real na proporção em que as pessoas nele são capazes de ser mais plenamente e mais humanamente vivas: isto é, mais capazes de fazer um uso consciente e lúcido de sua liberdade. Basicamente, essa liberdade deve consistir, antes de tudo, na capacidade de escolherem suas próprias vidas, de se encontrarem no nível mais profundo possível. Uma liberdade superficial de vagar sem destino, ora aqui, ora ali, de experimentar isto e aquilo, de fazer uma escolha de distrações (…) é simplesmente um simulacro. Pretende ser uma liberdade de “escolha” ao passo que se esquiva da tarefa básica de descobrir quem é que escolhe. Não é livre porque não está querendo enfrentar o risco da autodescoberta.”

Thomas Merton

In: Amor e Vida
Ed. Martins Fontes Editora, S. Paulo, 2004.
p. 3-4



20h20 |




Celestino Alves: 6 de abril de 1929 - 10 de dezembro de 1991


"No meu entender, não há tempo para pensar duas vezes, é mobilizar a maior quantidade de tratores que se possa, com firmas empreiteiras, da União, dos Estados, dos municípios e mesmo das propriedades da região, localizá-los nas imediações da Barragem de Sobradinho, no Rio São Francisco, marcar o rumo do alto Piranhas, na Paraíba, passando pelo Alto Pajeú, no Pernambuco, escavando o chão e levando água. À proporção que a água for entrando pelo sertão adentro, vai gerando riquezas e dando mão-de-obra, tirando o homem da emergência e levando-o ao trabalho produtivo". ("O Nordeste e as secas", Brasília, Gráfica do Senado Federal, 1983, p. 10)

Celestino Alves



20h18 |




Emily Dickinson: 10 de Dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886

Joyful - to whom the Sunrise
Precedes Enamored - Day -
Joyful - for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!

*

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

In: Emily Dickinson - Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
Ed. L&M POCKET
p. 61

* * *

Senti um féretro em meu cérebro

Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar - a pisar - até eu sonhar
Meus sentidos fugindo -

E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício -
Bateu - bateu - até eu sentir
Inerte o meu juízo

E eu as ouvi - erguida a Tampa -
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço dobrou

Como se os Céus fossem um sino
E o Ser apenas um Ouvido
E eu e o silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui -

Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão -
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo - então -

In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp

* * *

Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.

Emily Dickinson



20h17 |




Zé Geraldo, (Rodeiro, 9 de dezembro de 1944)

Encantamento

o brilho no olhar
no primeiro momento
uma grande ternura
envolve o pensamento
às vezes é alivio
às vezes é tormento
um dia é sorriso
no outro é lamento

quando vira paixão
trás versos com o vento
é força para o corpo
pra alma é alimento
cresce e desabrocha
no mais forte sentimento

bem mais forte que a paixão
assim me disse o vento
mais forte que a paixão
é o encantamento

Composição: Zé Geraldo



20h16 |




Aníbal Monteiro Machado: 9 de dezembro de 1894 — 20 de janeiro de 1964

"Eu adorava ficar ali. Acompanhava o movimento do jogo. Torcia. Metia-me no meio dos jogadores. Só faltava gritar. Não sei como ninguém dava pela minha presença. A bola saltava às vezes o muro e ia aninhar-se no capinzal de fora. Um dos jogadores cobria-se de uma capa escura e saía a buscá-la. O jogo então recomeçava forte. De repente, fora de propósito, parava.

- Que houve? quem apitou?

Ninguém apitara. Era eu que soprara no apito do juiz. Muitas e muitas vezes intervinha sem que ninguém soubesse, só para animar, só para mostrar que me achava ali, vendo, participando. Substituído o juiz, as marcações continuavam desencontradas. Ninguém desconfiava. Antes de raiar a madrugada, esvaziava-se o campo. Os "fantasmas" seguiam para o eito e eu ficava... Ficava..."

Aníbal Monteiro Machado

In: O defunto inaugural - Relato de um fantasma



20h14 |




Almeida Garrett: 4 de Fevereiro de 1799 — 9 de Dezembro de 1854

Seus Olhos

Seus olhos - se eu sei pintar
o que os meus olhos cegou –
não tinham luz de brilhar,
era chama de queimar;
e o fogo que a ateou
vivaz, eterno, divino,
como o facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
ao mesmo tempo: mas grave
e de tão fatal poder,
que, num só momento que a vi,
queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais do meu ser,
senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett

In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 141



20h08 |




Natsume Soseki: 9 de fevereiro de 1867 - 9 de dezembro de 1916

"A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo".

* * *

(...) “Tentei imaginar uma grande paixão do professor (pela esposa, sem dúvida). Relembrando o que ele afirmara, de que a paixão era delito, isso parecia ter sentido. Mas o professor disse que amava a sua esposa. Então não havia por que sentir essa indisposição, um distanciamento perante a sociedade. As palavras dele, “A lembrança de ter se ajoelhado algum dia diante de alguém faz com que se queira mais tarde pôr os pés na cabeça desse alguém”, cabiam às pessoas da sociedade em geral e não pareciam caber para descrever a relação entre os dois.”

Natsume Soseki

In: Coração - “Kokoro”
Tradução de Junko Ota
Editora Globo, 2008



20h07 |




John Milton: 9 de dezembro de 1608 - 8 de novembro de 1674

 

"(...) Ao lado um do outro, ali ambos se deitam:
Nem Adão (como julgo) as costas vira
À linda esposa, nem aos ritos sacros
Do conjugal amor Eva se exime, —
Embora a hipocrisia austera e falsa,
Fonte de abusos, a seu modo entenda
A inocência, a pureza, a dignidade,
E de impuro coa mancha vitupere
O que o supremo Deus declara puro,
Impõe a muitos, deixa livre a todos.
(Existe a geração por lei divina:
Quem abstinência dela nos ordena,
Destrói a humana espécie, a Deus insulta.)

Salve, amor conjugal, mistério imenso,
Origem pura da progênie humana,
Possessão do homem exclusiva no Éden
Onde o mais era dos viventes todos!
Para os brutos a adúltera lascívia
Foi por ti desterrada dentre os homens;
Por ti foram primeiro conhecidas,
E no pudor e na razão fundadas,
As doces relações, pia ternura,
Que o pai, o filho, e irmãos, entre si prendem.

Manancial das domésticas doçuras,
Longe de mim chamar-te ou culpa ou mancha,
Ou crer-te impróprio do lugar mais puro!
Foi julgado o teu leito casto e sacro
Nos tempos de hoje, nos passados tempos;
Os patriarcas e os santos o gozaram.

O verdadeiro amor ali só usa
De finas setas de ouro, e sempre ondeia
Seu vivo fogo na sagrada pira;
Sempre adejando coas purpúreas asas
Só ali se compraz, ali só reina, —
E não no riso insípido, ilusório
Que o insano compra em lupanar fortuito,
Nem das cortes nos frígidos namoros,
Nas dissolutas máscaras, nas danças,
Nas serenatas que pasmado entoa
(Tiritando de frio) o louco amante
À bela toda orgulho e mui credora
De que ele, desprezando-a, lhe fugisse!

Os dois esposos, abraçados ambos,
Deixam-se então dormir ao som que trinam
Os rouxinóis por toda a noite amena,
E imensas chovem do florido teto
Nos alvos membros nus purpúreas rosas
Que a manhã prontamente recupera."

John Milton

In: O Paraíso Perdido, 1667



20h05 |




Maria de Arruda Müller: 9 de dezembro de 1898 — 4 de dezembro de 2003

Aspiração

Bojando a vela sobre o mar sem alma,
Vai, asa branca, ao ritmo do vento.
Circunfletindo, oscila e corta a espalma
Imensidão que espelha o firmamento.

No ar rarefeito treme a leve palma...
Se a tempestade vier, o oceano é cruento...
E ela não sente quando a tarde é calma,
Insídias de borrasca em céu sedento.

Quisera ver minha alma - neste instante -
Como a vela boiar, e se sumindo
No horizonte, indo além, bem mais distante...

E indo a vogar meu pensamento com ela,
Livre da ronda das paixões (que lindo!)
Como a alvura que aclara a branca vela.

Maria de Arruda Müller



20h05 |




Florbela Espanca: 8 de Dezembro de 1894 — 8 de Dezembro de 1930

Amar!

Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: aqui… além…
Mais este e aquele, o outro e toda a gente….
Amar! Amar! E não amar ninguém!

Recordar? Esquecer? Indiferente!…
Prender ou desprender? É mal? É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar.

E se um dia hei de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder… pra me encontrar…

Florbela Espanca

In: Poesia de Florbela Espanca - Vol. 2
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2008
p. 80

* * *

Confissão

Aborreço-te muito. Em ti há qualquer cousa
De frio e de gelado, de pérfido e cruel,
Como um orvalho frio no tampo duma lousa,
Como em doirada taça algum amargo fel.

Odeio-te também. O teu olhar ideal
O teu perfil suave, a tua boca linda,
São belas expressões de todo o humano mal
Que inunda o mar e o céu e toda a terra infinda.

Desprezo-te também. Quando te ris e falas,
Eu fico-me a pensar no mal que tu calas
Dizendo que me queres em íntimo fervor!

Odeio-te e desprezo-te. Aqui toda a minh’alma
Confessa-to a rir, muito serena e calma!
……………………………………………………
Ah, como eu te adoro, como eu te quero, amor!…

Florbela Espanca

In: Poesia de Florbela Espanca - Vol. 1
Porto Alegre: L&PM Pocket, 2002
p. 108

* * *

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

In: Livro de Soror Saudade



20h04 |




Antônio Carlos Jobim: 25 de janeiro de 1927 — 8 de dezembro de 1994

Desafinado

Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita, mas tua beleza também pode se enganar

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

Composição: Tom Jobim

Ouça esta música aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=n81JA6xSbcs



20h01 |




John Lennon: 9 de Outubro de 1940 — 8 de Dezembro de 1980

Love / Amor

Love is real, real is love / O amor é real, real é o amor
Love is feeling, feeling love / O amor é sentir, sentir amor
Love is wanting to be loved / Amar é querer ser amado

Love is touch, touch is love / Amar é tocar, tocar é amor
Love is reaching, reaching love / Amar é alcançar, alcançar amor
Love is asking to be loved / Amar é pedir para ser amado

Love is you / Amor é você
You and me / Você e eu
Love is knowing / Amor é saber
We can be / Que nós podemos ser

Love is free, free is love / Amor é livre, livre é o amor
Love is living, living love / Amar é viver, viver amor
Love is needing to be loved / Amar é precisar ser amado

Composição: John Lennon

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=2GmVajkqLNU



20h00 |




J. C. Ary dos Santos: 7 de Dezembro de 1937 — 18 de Janeiro de 1984

 

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

José Carlos Ary dos Santos



20h00 |




Carlos de Laet: 3 de outubro de 1847 — 7 de dezembro de 1927

(...) O indiferentismo religioso, senhores, é uma das feições da apatia, da astenia moral que infirma a quadra contemporânea. Houve um filosofo (Romilly Junior) que definiu a tolerância como a virtude dos fracos. Não era da tolerância, era do indiferentismo que ele queria falar. Nas sociedades decadentes o homem que crê e que espera, é uma espécie de fóssil, digno talvez de admiração, mas fatalmente condenado à celebridade dos museus. A dúvida, a transigência, a indiferença não exigem a força da afirmação e por isto mesmo são muito cômodas. Em literatura aceitam-se todas as enormidades, todas as imundícies e só se faz questão de forma; perdeu-se na arte o sentimento do grandioso; em filosofia guerreiam-se os ideais, apenas se admite o que nos entra pelos olhos ou pelos ouvidos; na política endosam-se todas as opiniões vencedoras, bajulam-se todos os fatos consumados; em religião todas as seitas são boas, e tanto vale o erro como a verdade... Nesta baixura alagadiça, onde amolecem os caracteres, é que uma falsa democracia estabeleceu a sua cátedra de pestilência...

Carlos de Laet

In: Indiferentismo Religioso - Publicado em 1905, pelo Circulo Católico. Escola Tipográfica Salesiana, Niterói



19h59 |




Roy Orbison: 23 de abril de 1936 — 6 de dezembro de 1988


Oh, Pretty Woman

Pretty woman, walkin' down the street
Pretty woman, the kind I like to meet
Pretty woman, I don't believe you, you're not the truth
No one could look as good as you, mercy

Pretty woman, won't you pardon me
Pretty woman, I couldn't help but see
Pretty woman, that you look lovely as can be
Are you lonely just like me?

Pretty woman stop awhile
Pretty woman talk awhile
Pretty woman give your smile to me

Pretty woman yeah, yeah, yeah
Pretty woman look my way
Pretty woman say you'll stay with me

'Cuz I need you, I'll treat you right
Come with me baby, be mine tonight

Pretty woman, don't walk on by
Pretty woman, don't make me cry
Pretty woman, don't walk away, hey, ok
If that's the way it must be, ok

I guess I'll go on home, it's late
There'll be tomorrow night, but wait
What do I see?

Is she walkin' back to me?
Yeah, she's walkin' back to me
Oh, oh, pretty woman

Composição: Roy Orbison / Bill Dees

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=_PLq0_7k1jk



22h43 |




Manuel Acuña: 27 de agosto de 1849 - 6 de dezembro de 1873

Nocturno a Rosario

I

¡Pues bien!, yo necesito
decirte que te adoro,
decirte que te quiero
con todo el corazón;
que es mucho lo que sufro,
que es mucho lo que lloro,
que ya no puedo tanto,
y al grito que te imploro
te imploro y te hablo en nombre
de mi última ilusión.

II

Yo quiero que tú sepas
que ya hace muchos días
estoy enfermo y pálido
de tanto no dormir;
que ya se han muerto todas
las esperanzas mías,
que estan mis noches negras,
tan negras y sombrias,
que ya no sé ni dónde
se alzaba en porvenir.

III

De noche cuando pongo
mis sienes en la almohada,
y hacia otro mundo quiero
mi espíritu volver,
camino mucho, mucho
y al fin de la jornada
las formas de mi madre
se pierden en la nada,
y tú de nuevo vuelves
en mi alma a aparecer.

IV

Comprendo que tus besos
jamás han de ser míos;
comprendo que en tus ojos
no me he de ver jamás;
y te amo, y en mis locos
y ardientes desvaríos
bendigo tus desdenes,
adoro tus desvíos,
y en vez de amarte menos
te quiero mucho más.

V

A veces pienso en darte
mi eterna despedida,
borrarte en mis recuerdos
y huir de esta pasión;
mas si es en vano todo
y mi alma no te olvida,
¿qué quieres tú que yo haga
pedazo de mi vida?
¿qué quieres tú que yo haga
con este corazón?

VI

Y luego que ya estaba
concluido el santuario,
la lámpara encendida
tu velo en el altar,
el sol de la mañana
detrás del campanario,
chispeando las antorchas,
humeando el incensario,
y abierta allá a lo lejos
la puerta del hogar...

VII

¡Que hermoso hubiera sido
vivir bajo aquel techo.
los dos unidos siempre
y amándonos los dos;
tú siempre enamorada,
yo siempre satisfecho,
los dos, un alma sola,
los dos, un solo pecho,
y en medio de nosotros
mi madre como un Díos!

VIII

¡Figúrate qué hermosas
las horas de la vida!
¡Qué dulce y bello el viaje
por una tierra así!
Y yo soñaba en eso,
mi santa prometida,
y al delirar en eso
con alma estremecida,
pensaba yo en ser bueno
por ti, no más por ti.

IX

Bien sabe Díos que ese era
mi más hermoso sueño,
mi afán y mi esperanza,
mi dicha y mi placer;
¡bien sabe Díos que en nada
cifraba yo mi empeño,
sino en amarte mucho
en el hogar risueño
que me envolvió en sus besos
cuando me vio nacer!

X

Esa era mi esperanza...
mas ya que a sus fulgores
se opone el hondo abismo
que existe entre los dos,
¡adiós por la última vez,
amor de mis amores;
la luz de mis tinieblas,
la esencia de mis flores,
mi lira de poeta,
mi juventud, adiós!

Manuel Acuña



22h42 |




Oscar Niemeyer: 15 de dezembro de 1907 - 5 de dezembro de 2012

Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

 

Oscar Niemeyer



22h41 |




Salvador de Mendonça: 21 de julho de 1841 — 5 de dezembro de 1913


O ÚLTIMO PORTO

I

Barca dos sonhos, minha companheira
Dos dias de tormenta e de bonança,
Em seu seio o mar calmo te balança;
Vamos longe vogar, barca veleira.

Atrás fica o passado em nossa esteira,
Vai-nos à proa o lume da esperança,
Do passado a saudade nos alcança,
Mas a esperança como vai ligeira!

Na vasta solidão do mar, enquanto
Rememoro a existência dolorosa,
Surgem dias de gozo puro e santo.

Cresce a luz da esperança radiosa,
Vamos dormir dos astros sob o manto,
Barca dos sonhos, pétala de rosa.

II

Barca dos sonhos, pétala de rosa,
Vamos dormir das ondas nos arminhos,
E por baixo de nós monstros marinhos
Cortam do abismo a senda tenebrosa

Ao longe em negra linha temerosa
Outros monstros de ferro amplos caminhos
Fecham nos mares amplos, e sozinhos
Ditam a lei da força imperiosa.

Dá-me a cota de malha, o meu montante,
O rijo elmo encantado de Mambrino
E o meu leal e heróico Rocinante.

Se monstros combater é meu destino,
Tenho pra luta o braço meu possante,
Para a vitória um protetor divino.

III

Desta vitória o protetor divino
Vem do Oriente como a luz do dia,
E do sol ao fulgor que se irradia
Entoa o mundo redimido um hino.

Ouves acaso esse tanger de sino,
Que vem de longe, além da penedia?
É o triste tocar da Ave-Maria.
Na velha torre que me viu menino.

Vês como o sol se esconde no poente
E doura apenas o perfil da serra,
Barca dos sonhos a vagar silente?

Aproa à costa que meu lar encerra,
Pois quero agora repousar contente
No seio amado e bom da minha terra.

Julho de 1912

Salvador de Mendonça

In: Revista da Academia Brasileira de Letras, ano III, nº 7, 1912



22h37 |




Alexandre Dumas: 24 de julho de 1802 - 5 de dezembro de 1870

"Mas também nunca dissestes que não me amáveis; e, com efeito, dizer-me tais palavras seria da parte de Vossa Majestade a maior das ingratidões. Pois, dizei-me, onde encontrareis um amor semelhante ao meu, um amor que nem o tempo, nem a ausência, nem o desespero lograram extinguir; um amor que se contenta com uma fita que caiu, um olhar perdido, uma palavra solta?"

In: Os Três Mosqueteiros (1844)

* * *

"Só tenho dois adversários; não direi dois vencedores, porque com persistência submeto-os: são a distância e o tempo. O terceiro, e o mais terrível, é a minha condição de homem mortal. É a única coisa que me pode deter no caminho que sigo e antes de atingir o alvo que busco; tudo o mais está previsto. Aquilo a que os homens chamam os caprichos do destino, isto é, a ruína, a mudança, as eventualidades, tenho-os todos previstos, e se alguns me podem atingir, nenhum me pode derrubar. A não ser que morra, serei sempre o que sou. Aqui tem porque lhe digo coisas que nunca ouviu, mesmo da boca dos reis, porque os reis necessitam de si e os outros homens temem-no. Quem é que não diz para consigo, numa sociedade tão ridiculamente organizada como a nossa"

Alexandre Dumas

In: O Conde de Monte Cristo



22h36 |




Rainer Maria Rilke: 4 de dezembro de 1875 — 29 de dezembro de 1926



Hora Grave

Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.

Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.

Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

Rainer Maria Rilke

Tradução: Paulo Plínio Abreu

* * *

Dançarina Espanhola

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Rainer Maria Rilke

(Tradução: Augusto de Campos)



22h32 |




Vítor Mateus Teixeira: 3 de março de 1927 — 4 de dezembro de 1985

NOITE DE CHUVA

Cai a noite
O vento é frio
Chove lá fora
Dentro de casa
Um silêncio agonizante
Ligo a tv, o toca-disco nada melhora
Por que a saudade de você a cada hora
Amor tem sido a coisa muito mais importante

Não há mais lua
Chego a pensar que todas as noites serão assim
Só haverá tempo bom céu estrelado
Quando você voltar de novo para mim

Quisera agora
Expressar palavras ao seu ouvido
Todas palavras mais românticas que existem
Também ouvir você dizer amor querido
Igual a mim tem chorado e tem sofrido
Eu não seria nunca mais um homem triste

Se fosse agora
Toda esta chuva que cai lá fora ia parar
Só outra chuva dentro de casa ia cair
As dos meus olhos de alegria iam derramar

Noite de chuva
Noite de dor noite de saudade
Quando esta noite poderia ser a melhor do mundo
Se você estivesse aqui do meu lado que felicidade
A noite de chuva poderia ser a noite da bondade
Se pudesse eu com você trocar o amor mais profundo

Noite de chuva
É madrugada e como posso amanhecer
Neste sufoco nesta agonia então lhe peço
Volte meu bem se não quiser me ver morrer

Composição: Teixeirinha



22h31 |




Thomas Hobbes: 5 de abril de 1588 - 4 de dezembro de 1679


"O desprezo ou pouca preocupação com a desgraça alheia é o que os homens chamam crueldade, que deriva da segurança da própria fortuna. Pois considero inconcebível que alguém possa tirar prazer dos grandes prejuízos alheios, sem que tenha um interesse pessoal no caso.

A tristeza causada pelo sucesso de um competidor em riqueza, honra ou outros bens se se lhe juntar o esforço para aumentar nossas próprias capacidades, a fim de igualá-lo ou superá-lo, chama-se emulação. Quando ligada ao esforço para suplantar ou levantar obstáculos ao competidor chama-se inveja."

Thomas Hobbes

In: Leviatã



22h30 |




Hannah Arendt: 14 de Outubro de 1906 — 4 de Dezembro de 1975

"As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos, não somente do ofício do político ou do demagogo, mas também do estadista".

Hannah Arendt



22h30 |




Heloneida Studart: 25 de abril de 1932 — 3 de dezembro de 2007

(...) A família toda passava as férias numa casa de praia em Iguape. No caminho parava num boteco pé-de-chinelo para tomar café com broa onde tinha um cartaz na porta: “Mulher aqui só diz três coisas: ‘Xô, galinha’, ‘Entra, menino’ e ‘Sim, senhor’”. Fiquei muito impressionada com isso. Outra frase que me deixou profundamente revoltada era de minha tia solteirona: “Heloneida, fique certa que mulher não tem querer”. Eu tinha 7 anos e resolvi que ia passar a minha vida mostrando que mulher tinha querer sim!

Heloneida Studart

Fonte: Jornal do Brasil, 25/10/2005



22h29 |




Marcelo Fromer: 3 de dezembro de 1961 — 13 de junho de 2001


 

Palavras (1989)

Palavras não são más
Palavras não são quentes
Palavras são iguais
Sendo diferentes
Palavras não são frias
Palavras não são boas
Os números pra os dias
E os nomes pra as pessoas
Palavra eu preciso
Preciso com urgência
Palavras que se usem
em caso de emergência
Dizer o que se sente
Cumprir uma sentença
Palavras que se diz
Se diz e não se pensa
Palavras não têm cor
Palavras não têm culpa
Palavras de amor
Pra pedir desculpas
Palavras doentias
Páginas rasgadas
Palavras não se curam
Certas ou erradas
Palavras são sombras
As sombras viram jogos
Palavras pra brincar
Brinquedos quebram logo
Palavras pra esquecer
Versos que repito
Palavras pra dizer
De novo o que foi dito
Todas as folhas em branco
Todos os livros fechados
Tudo com todas as letras
Nada de novo debaixo do sol

Marcelo Fromer / Sérgio Britto

Fonte: http://www.titas.net/discografia/



22h27 |




Robert L. Stevenson: 13 de novembro de 1850 – 3 de dezembro de 1894

(...) “Dia a dia, com a moral e com o intelecto, aproximava-me a passos firmes dessa verdade, por cuja descoberta incompleta fui condenado a tão espantoso naufrágio: o homem não é autenticamente um, mas sim dois. E digo dois, porque o meu próprio conhecimento não foi mais além. Outros seguirão o meu exemplo, outros me superarão e atrevo-me a profetizar que no fim o homem será reconhecido como um ser habitado por seres múltiplos, incongruentes e autônomos. Da minha parte, e devido às características da minha existência, avançava forçosamente numa única direção. Aprendi a reconhecer a primitiva dualidade do homem na minha própria pessoa.”

Robert Louis Stevenson

In: "The Strange case of Dr. Jekyll and Mr.Hyde" (O Médico e o Monstro)



22h27 |




Edmond Rostand: 1 de abril de 1868 — 2 de dezembro de 1918


A Sarah Bernhardt

Só tu, somente tu, nestes tempos funestos,
escadarias reais sabes, nobre, descer,
mantos cingir, armas terçar, flores trazer,
rainha da atitude e princesa dos gestos!

Nestes tempos sem flama, ouvem-se os teus protestos:
morres de amor, sobes ao céu, sabes dizer,
ora braços de sonho, ou de carne, a estender,
e, é Fedra aparecer, todos somos Incestos.

Ávida de sofrer, para as paixões renasces.
Todos vimos jorrar teu pranto, em borbotões,
lágrimas nossas, a correr em tuas faces.

Mas tu sabes também, Sarah (por que segredos?)
Que, às vezes, vêm pousar, nas representações,
os lábios de Shakespeare nos anéis dos teus dedos!

Edmond Rostand

In: Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou
Tradução de Modesto de Abreu
Rio de Janeiro, Ed. Vecchi, 1966
p. 102



22h25 |




Anita Catarina Malfatti: 2 de dezembro de 1889 — 6 de novembro de 1964

"Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade[...] Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da educada estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura."

Anita Malfatti

(Arte: A estudante russa, 76 x 61 cm, 1915 - Anita Malfatti)



22h25 |




Mark Twain: 30 de Novembro de 1835 — 21 de Abril de 1910

“Uma certa Amy Lawrence desapareceu do seu coração sem deixar atrás de si o mais leve rastro. Pensara amá-la até a loucura, julgara a sua paixão uma espécie de idolatria, e agora via que não passava de uma simples inclinação. Levara meses a conquistá-la e, quando, uma semana antes, ela se decidira a aceitá-lo, julgara-se o menino mais feliz do mundo. Isso acontecera há uns escassos sete dias, e agora, ali, num instante, ela deixou de fazer parte da sua vida, como uma estranha que tivesse passado por ele”.

Mark Twain

In: As aventuras de Tom Sawyer
Trad. Luísa Derouet
Nova Cultural, 1a. edição
p. 24-25



22h22 |




Fernando Pessoa: 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935

 

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nela é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

In: Poesias
Seleção de Sueli Barros Cassal
L&PM Pocket, Porto Alegre, 2009
p. 11



22h20 |




Cartola: 11 de outubro de 1908 — 30 de novembro de 1980

AS ROSAS NÃO FALAM

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas, que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos por fim...

Composição: Cartola

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=BSObDOETrgU



22h20 |




Oscar Wilde: 16 de outubro de 1854 — 30 de novembro de 1900

"[...] Até hoje dificilmente o Homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade. ... tal solidariedade (na dor) é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida na sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na saúde e na liberdade. ... Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por uma amigo, mas é preciso uma natureza muito superior ... para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo. [...]"

Oscar Wilde

In: O Retrato de Dorian Gray
Traduzido por Enrico Corvisieri,
Editora Nova Cultural, 2003



22h19 |




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