
Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte.
Kenzaburo Oe
Trecho do discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura de Kenzaburo Oe em 1994.

"A vida consiste em aprender a viver de maneira autônoma, espontânea e livremente: para isso é preciso reconhecer-se a si mesmo – estar familiarizado e à vontade consigo mesmo. Isso significa, basicamente, aprender quem somos e aprender o que temos para oferecer ao mundo contemporâneo e, depois, aprender como fazer para que essa oferta seja válida.
A finalidade da educação é mostrar a uma pessoa como se definir autêntica e espontaneamente em relação ao seu mundo – não é impor uma definição pré-fabricada do mundo e, menos ainda, uma definição arbitrária do próprio indivíduo. O mundo é feito de pessoas que estão plenamente vivas dentro dele: isto é, de pessoas que podem ser elas mesmas nele e podem nele estabelecer umas com as outras uma relação viva e frutífera. O mundo, portanto, é mais real na proporção em que as pessoas nele são capazes de ser mais plenamente e mais humanamente vivas: isto é, mais capazes de fazer um uso consciente e lúcido de sua liberdade. Basicamente, essa liberdade deve consistir, antes de tudo, na capacidade de escolherem suas próprias vidas, de se encontrarem no nível mais profundo possível. Uma liberdade superficial de vagar sem destino, ora aqui, ora ali, de experimentar isto e aquilo, de fazer uma escolha de distrações (…) é simplesmente um simulacro. Pretende ser uma liberdade de “escolha” ao passo que se esquiva da tarefa básica de descobrir quem é que escolhe. Não é livre porque não está querendo enfrentar o risco da autodescoberta.”
Thomas Merton
In: Amor e Vida
Ed. Martins Fontes Editora, S. Paulo, 2004.
p. 3-4
FASCINAÇÃO
Se a mão te aperto trêmula, gelada,
Minh’alma inteira embebe-se na tua;
Quando me fitas teu olhar tranqüilo
Todo o meu sangue ao coração recua.
Quando te cravo os olhos meus, pudica
Baixas os teus com um olhar tão triste!...
Não devo amar-te; no entretanto eu te amo!
- E quem a tal fascinação resiste?...
Sinto em minh’alma comoções estranhas
Quando a descuido o teu olhar me lanças:
Creio-me outro, mais gentil, mais puro;
Sonho mil sonhos cheios de esperanças.
Na branca flor que no jardim floresce,
Na rola que soluça na folhagem,
Do céu no azul, no verde do cipestre:
Por toda a parte vejo a tua imagem.
Às vezes julgo surpreender-te um gesto
Que o ser me afoga em ondas de alegria;
Mas logo, pobre sonhador, conheço
Que o sonho mente e mente a fantasia.
Tu és a luz da minha vida, a crença
Que a minha morta mocidade chora;
Minh’alma adeja na amplidão, suspensa,
Quando não vejo o teu sorrir de aurora....
De aurora, sim! - pois a neblina imensa
Em que me envolvo - toda se adelgaça
Ao teu sorriso angelical e às vezes
Que ao pé de mim o teu vestido passa.
Sinto que te amo desse amor vertigem
Que num momento a vida nos consome:
Sinto ao teu nome estremecer-me o seio...
- Tem-me sido fatal teu doce nome!
Nunca disseste uma palavra, nunca
Um gesto só traiu teu pensamento:
Não sei como este amor me irrompeu n’alma!
Mas sei bem que ele faz o teu tormento.
Foi como o sutil fluido que evapora
A natureza em plena primavera:
Um nada que resume a vida inteira,
Um riso, um som que passa, uma quimera!
Eu sei que o nosso amor seria um crime
Perante o mundo e a própria consciência:
Seria atar o riso à desventura
O perturbar-te a angélica inocência.
Assim pois, meu amor, guarda os teus sonhos
E as castas ilusões da mocidade
Para o mortal que os fados te destinam:
Que ele te dê - por mim - a felicidade.
Que ele alcatife o teu passar de flores;
Que o sonho teu... Meu Deus! oh como o invejo
Que entenda, oh anjo, o teu menor sorriso
E que adivinhe o teu menor desejo...
Eu fugirei para remotas plagas,
Onde o não veja, pálido, a teu lado!...
Mas lá tão longe, em toda a parte e sempre
Hei de arrastar o meu grilhão pesado!
(Miosótis, 1877)
Teixeira de Melo
Fonte: http://www.academia.org.br/

Bom Dia
Amanheceu, que surpresa
Me reservava a tristeza
Nessa manhã muito fria
Houve algo de anormal
Tua voz habitual
Não ouvi dizer
Bom dia!
Teu travesseiro vazio
Provocou-me um arrepio
Levantei-me sem demora
E a ausência dos teus pertences
Me disse, não te convences
Paciência, ele foi embora
Nem sequer no apartamento
Deixaste um eco, um alento
Da tua voz tão querida
E eu concluí num repente
Que o amor é simplesmente
O ridículo da vida
Num recurso derradeiro
Corri até o banheiro
Pra te encontar, que ironia
E que erro tu cometeste
Na toalha que esqueceste
Estava escrito bom dia
Composição: Herivelto Martins
Sem Diploma
Bendito aquele que estuda
porque estudar é importante,
embora o ignorante
tem sempre um santo que ajuda,
às vezes a sorte muda,
quando existe um santo forte,
cada qual procura um norte,
por isso não encabulo
- que a tava que bota culo
é a mesma que bota sorte!
Meu tetravô foi fronteiro,
meu bisavô domador,
o meu avô - alambrador
e o meu pai foi carreteiro;
a mim não sobrou dinheiro
pra cursar a faculdade,
mas tive a felicidade
graças ao nosso senhor
e me tornei payador
pra guardar a identidade!
O estudo é muito bonito
e até muito necessário,
mas este cantor primário,
cruzando o pago infinito,
continua - a trotezito,
mesmo sem ser diplomado
e me sinto conformado,
o que é meu - ninguém me toma,
pois duvido que um diploma
torne um burro advogado!
Como é lindo colar grau
num salão de faculdade,
embora essa qualidade
não transforme o bom em mau,
o Jayme Caetano Braun,
dessa linha não se afasta,
a inspiração não se gasta
nem me torna mais cruel,
eu conquistei um anel
o de gaúcho - e me basta!
Jayme Caetano Braun
In: Payadas e cantares
Martins Livreiro Editor.

Estrofes do solitário
Basta de covardia! A hora soa...
Voz ignota e fatídica revoa,
Que vem... Donde? De Deus.
A nova geração rompe da terra,
E, qual Minerva armada para a guerra,
Pega a espada... olha os céus.
Sim, de longe, das raias do futuro,
Parte um grito, pra — os homens surdo, obscuro
Mas para - os moços, não!
É que, em meio das lutas da cidade,
Não ouvis o clarim da Eternidade,
Que troa n'amplidão!
Quando as praias se ocultam na neblina,
E como a garça, abrindo a asa latina,
Corre a barca no mar,
Se então sem freios se despenha o norte,
É impossível — parar... volver — é morte
Só lhe resta marchar.
E o povo é como - a barca em plenas vagas,
A tirania - é o tremedal das plagas,
O porvir - a amplidão.
Homens! Esta lufada que rebenta
É o furor da mais lôbrega tormenta. .
- Ruge a revolução.
E vós cruzais os braços... Covardia!
E murmurais com fera hipocrisia:
— É preciso esperar...
Esperar? Mas o quê? Que a populaça,
Este vento que os tronos despedaça,
Venha abismos cavar?
Ou quereis, como o sátrapa arrogante,
Que o porvir, n'ante-sala, espere o instante
Em que o deixeis subir?!
Oh! parai a avalanche, o sol, os ventos,
O oceano, o condor, os elementos...
Porém nunca o porvir!
Meu Deus! Da negra lenda que se inscreve
Co'o sangue de um Luís, no chão da Grève,
Não resta mais um som!...
Em vão nos deste, pra maior lembrança,
Do mundo - a Europa, mas d'Europa - a França.
Mas da França - um Bourbon!
Desvario das frontes coroadas!
Na página das púrpuras rasgadas
Ninguém mais estudou!
E no sulco do tempo, embalde dorme
A cabeça dos reis - semente enorme
Que a multidão plantou! ...
No entanto fora belo nesta idade
Desfraldar o estandarte da igualdade,
De Byron ser o irmão...
E pródigo - a esta Grécia brasileira,
Legar no testamento - uma bandeira,
E ao mundo - uma nação.
Soltar ao vento a inspiração de Graco
Envolver-se no manto de 'Spartaco,
Dos servos entre a grei;
Lincoln - o Lázaro acordar de novo,
E da tumba da ignomínia erguer um povo,
Fazer de um verme - um rei!
Depois morrer - que a vida está completa,
- Rei ou tribuno, César ou poeta,
Que mais quereis depois?
Basta escutar, do fundo lá da cova,
Dançar em vossa lousa a raça nova
Libertada por vós ...
Castro Alves

Máximas do Barão de Itararé
De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
Quem empresta, adeus...
Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.
Quem só fala dos grandes, pequeno fica.
Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.
Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra ).
Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.
Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
Os juros são o perfume do capital.
Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.
Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.
Cobra é um animal careca com ondulação permanente.
Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.
É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.
A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.
Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.
O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.
Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
Mulher moderna calça as botas e bota as calças.
A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
Pão, quanto mais quente, mais fresco.
A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.
A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Barão de Itararé (Apparício Torelly)
Extraído de "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé", Distribuidora Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1985, págs. 27 e 28, coletânea organizada por Afonso Félix de Souza.

SERPENTÁRIO
a serpente dos meus dedos
beija o rosto que mantenho
no sem fundo dos espelhos
onde a luta é meu desejo
a serpente dos meus dedos
cria mundos sem inícios
curvas sobre precipícios
duro pacto do difícil
a serpente dos meus dedos
no vislumbre de uma aurora
que anuncia a incerta hora
sobre si mesma se enrola
a serpente dos meus dedos
inaugura junto à vida
gritos danças alegrias
lancinantes dores frias
a serpente dos meus dedos
traz a força dos venenos
que com a noite correm lentos
e com o dia tornam denso
o meu corpo em combustão
Sandro Ornellas
Sandro Ornellas, nasceu em 1971, em Brasília-DF e mora em Salvador-BA. Autor de Simulações (poemas, Fundação Casa de Jorge Amado, 1998) e Trabalhos do Corpo (poemas, Letra Capital, 2007). É ensaísta e professor de literatura da UFBA. Escreve o blog "Simulador de Vôo" (http://simuladordevoo.blogspot.com/).

Aedh Wishes For the Cloths of Heaven
Had I the heavens’ embroidered cloths,
Enwrought with golden and silver light,
The blue and the dim and the dark cloths
Of night and light and the half light,
I would spread the cloths under your feet:
But I, being poor, have only my dreams;
I have spread my dreams under your feet;
Tread softly because you tread on my dreams.
Se tivesse eu os panos bordados dos céus,
Entremeados com luz dourada e de prata,
O azul e os panos não ofuscantes e escuros
Da noite e da luz e da metade-luz,
Eu espalharia os panos debaixo dos teus pés:
Mas eu, sendo pobre, tenho somente os meus sonhos;
Eu espalhei os meus sonhos debaixo dos teus pés;
Pisa com cuidado porque pisas nos meus sonhos.
* * *
A ROSA DO MUNDO
Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.
Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.
Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

William Butler Yeats
Trad: José Agostinho Baptista

DEFENSA DE UM INCONSTANTE (CANÇONETA)
Desterra teus vãos ciúmes,
festejo a quantas são belas;
mas sempre a rainha delas
és tu, Armânia cruel.
De teu semblante as lindezas
adoro noutros semblantes:
são meus passos inconstantes,
é meu coração fiel.
Não to nego, com Armia
Falo às vezes em segredo;
Não to nego, este arvoredo
Viu-me com Lilia brincar:
Porém com Lilia só brinco,
por ter nos brincos teus modos;
de Armia os segredos todos
os teus me fazem lembrar.
Furtei (confesso, e tu viste)
dois beijos, ou três a Estélla;
gabavam-me os beijos dela,
quis ver, se eram como os teus.
Toquei no seio de Tirse
se rosa uns botões fechados;
Tu és bela em teus enfados,
quis ver, como era nos seus.
Se a Ismene pedi cabelo,
foi só, por também ser louro;
fui rico do teu tesouro,
sem o obter da tua mão.
Amo em Gertrúria o teu riso
amo os teus olhos em Jônia;
preso nas cartas de Aônia
tua escrita, e discrição.
Um só coração me coube,
e tu és a flor das belas!
Nem mesmo entre os braços d'elas
te fora infiel jamais.
Por distração tenho às outras
vezes mil teu nome dado:
e até hoje inda a teu lado
não tive enganos iguais!
Meu pensamento amoroso
é qual Favónio entre as flores,
que a mil susurrando amores,
elege a rosa entre mil;
Por todo um jardim vagueia,
mas guarda a afeição saudosa:
passa, e lembra-nos da rosa,
da rosa ingênua, e gentil.
Quanto mais julgas, ingrata,
perder a tua conquista,
tanto mais se aumenta a lista
dos teus triunfos sem par.
De meu coração te queixas
serem sem conto as rainhas!
São escravas, que não tinhas,
que vão teu carro puxar.
Dez Análias te abandono,
Jônias duas, seis Temires,
e após estas, quantas vires
de semblante encantador.
Armânia, sobre áureas rodas,
por tuas rivais tirada,
sobe, de mirto c'roada,
ao Capitólio de amor!
Lá, sobre as aras do nume,
jura um prêmio aos meus ardores.
Quanto amará teus favores
quem tanto os desdens te amou!
Depois, sofre que ame sempre
em teu sexo a todos grato,
os pedaços de um retraio,
que a natureza quebrou.

António Feliciano de Castilho

Luz
Te ver não preciso:
olho a lua,
a luz é tua,
é teu sorriso!
(31/12/2009)

Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

Andante
Ai que vontade de amar, de amar, de amar
como uma bola de sabão
que morre colorida
num dia totalmente azul!
* * *
As palavras
É preciso apanhá-las
quando orvalho e metal
explodem da glande
sob as vistas de sagitário.
É preciso.
Antes que um réptil afoito
roce a folha
e a gota caia,
é preciso apanhá-las.
Para o sono dos que dormem
com a terra,
é preciso.
Washington Queiroz

Um Amor Puro
O que há dentro do meu coração
Eu tenho guardado pra te dar
E todas as horas que o tempo
Tem pra me conceder
São tuas até morrer
E a tua história, eu não sei
Mas me diga só o que for bom
Um amor tão puro que ainda nem sabe
A força que tem
é teu e de mais ninguém
Te adoro em tudo, tudo, tudo
Quero mais que tudo, tudo, tudo
Te amar sem limites
Viver uma grande história
Aqui ou noutro lugar
Que pode ser feio ou bonito
Se nós estivermos juntos
Haverá um céu azul
Um amor puro
Não sabe a força que tem
Meu amor eu juro
Ser teu e de mais ninguém
Um amor puro

Composição: Djavan
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=RbPRn8dxy-w

(...) - Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.
Lewis Carroll
In: Alice no País das Maravilhas

Fazer da brisa um traje sem medida
E do arco-íris fazer um tobogã.
Amar as mínimas coisas da vida.
E ter no olhar as luzes do amanhã. (Sem título)
* * *
Criação
Crie canários belgas na varanda
Onde os meninos brincam de ciranda.
Crie esses bois de chifres de açucenas
Que pairam no céu das manhãs serenas.
Crie cavalos da Andaluzia
Num sítio de cristal e fantasia.
Crie raiz no amor de uma mulher.
E espere calmamente o que vier.
Affonso Manta
In: O Retrato de um Poeta

O GRITO
Não sei o que está acontecendo comigo, diz a paciente para o psiquiatra.
Ela sabe.
Não sei se gosto mesmo da minha namorada, diz um amigo para outro.
Ele sabe.
Não sei se quero continuar com a vida que tenho, pensamos em silêncio.
Sabemos, sim.
Sabemos tudo o que sentimos porque algo dentro de nós grita. Tentamos abafar este grito com conversas tolas, elocubrações, esoterismo, leituras dinâmicas, namoros virtuais, mas não importa o método que iremos utilizar para procurar uma verdade que se encaixe nos nossos planos: será infrutífero. A verdade já está dentro, a verdade se impõe, fala mais alto que nós, ela grita.
Sabemos se amamos ou não alguém, mesmo que esteja escrito que é um amor que não serve, que nos rejeita, um amor que não vai resultar em nada. Costumamos desviar este amor para outro amor, um amor aceitável, fácil, sereno. Podemos dar todas as provas ao mundo de que não amamos uma pessoa e amamos outra, mas sabemos, lá dentro, quem é que está no controle.
A verdade grita. Provoca febres, salta aos olhos, desenvolve úlceras. Nosso corpo é a casa da verdade, lá de dentro vêm todas as informações que passarão por uma triagem particular: algumas verdades a gente deixa sair, outras a gente aprisiona. Mas a verdade é só uma: ninguém tem dúvida sobre si mesmo.
Podemos passar anos nos dedicando a um emprego sabendo que ele não nos trará recompensa emocional. Podemos conviver com uma pessoa mesmo sabendo que ela não merece confiança. Fazemos essas escolhas por serem as mais sensatas ou práticas, mas nem sempre elas estão de acordo com os gritos de dentro, aquelas vozes que dizem: vá por este caminho, se preferir, mas você nasceu para o caminho oposto. Até mesmo a felicidade, tão propagada, pode ser uma opção contrária ao que intimamente desejamos. Você cumpre o ritual todinho, faz tudo como o esperado, e é feliz, puxa, como é feliz. E o grito lá dentro: mas você não queria ser feliz, queria viver!
Eu não sei se teria coragem de jogar tudo para o alto.
Sabe.
Eu não sei por que sou assim.
Sabe.
Martha Medeiros
In: Montanha Russa

Noventa por cento da nossa felicidade depende unicamente da saúde. Com ela, tudo se torna uma fonte de prazer. Sem ela, ao contrário, nenhum bem do mundo, seja qual for, é desfrutável.
Arthur Schopenhauer

Quando você for capaz de abençoar silenciosamente todas as pessoas e fazê-lo amorosa e indiscriminadamente, você encontrará uma cura rápida para o problema da ambição. Em lugar de sentir-se pouco à vontade na presença de determinadas pessoas ou de uma multidão, você se sentirá bem. Por quê? Porque você estará atraindo a Graça para si mesmo. Oscar Wilde percebeu isso quando disse: "Não podemos buscar o amor. Ele nos chega espontaneamente quando damos amor aos outros."
Paul Brunton

Auld Lang Syne
Adeus, amor, eu vou partir
Ouço ao longe um clarim
Mas, onde eu for, irei sentir
Os teus passos junto a mim
Estando em luta, estando a sós
Ouvirei a tua voz
A luz que brilha em teu olhar
A certeza me deu
De que ninguém pode afastar
O meu coração do teu
No céu, na terra, aonde for
Viverá o nosso amor

Composição: Robert Burns
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Dq0YJ5nHS5w

Desafinado
Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita, mas tua beleza também pode se enganar
Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu
Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural
O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão
Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração
Composição: Tom Jobim
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=n81JA6xSbcs

Alma Paulista
Foi por me sentir genuinamente desidentificado com qualquer sentimento nacionalista ou patriótico, ou com qualquer espécie de regionalismo, que escrevi e cantei coisas como: "Não sou brasileiro, não sou estrangeiro / Não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum, sou de lugar nenhum / Não sou de São Paulo, não sou japonês / Não sou carioca, não sou português / Não sou de Brasília, não sou do Brasil / Nenhuma pátria me pariu", ou "Riquezas são diferenças", ou "Aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes / Orientupis orientupis / Ameriquítalos luso nipo caboclos / Orientupis orientupis / Iberibárbaros indo ciganagôs / Somos o que somos, somos o que somos / Inclassificáveis, inclassificáveis".
Ao mesmo tempo, creio só terem sido possíveis tais formulações pessoais pelo fato de eu haver nascido, crescido e vivido sempre em São Paulo. Por essa ser uma cidade que permite, ou mesmo propicia, esse desapego para com raízes geográficas, raciais, culturais. Por eu ver e viver São Paulo como um gigante liquidificador onde as informações diversas se misturam, se atritam gerando novas fagulhas, interpretações, exceções.
Por sua multiplicidade de referências étnicas, linguísticas, culturais, religiosas, arquitetônicas, culinárias...
São Paulo não tem um símbolo que dê conta de sua diversidade. Nada aqui é típico daqui. Não temos um corcovado, um berimbau, uma arara, um cartão postal. São Paulo são muitas cidades em uma - do Brás a Pinheiros, do Morumbi à Freguesia do Ó, de Osasco ao Jardim Europa, da Consolação ao Pacaembú, da Móoca a Higienópolis, do Paraiso ao Ipiranga, da Vila Madalena à Liberdade. De um bairro a outro pode mudar tudo - a paisagem, os rostos, os letreiros, as praças, as lojas, o jeito, os sotaques.
Sempre me pareceram sem sentido as guerras, as fileiras nazistas, os fundamentalismos, a intolerância ante a diversidade, a xenofobia nacionalista, a "macumba para turista" de que falava Oswald de Andrade. O nacionalismo sempre me pareceu ligado ao desejo de poder, enquanto as manifestações que positivam a convivência com as diferenças são para mim sintomas de potência individual diante do mundo.
Assim, fui me sentindo cada vez mais um cidadão do planeta; sem nacionalidade, sem raça, sem religião. Acabei atribuindo parte desse sentimento à formação miscigenada do Brasil.
Acontece que a miscigenação brasileira parece ter se multiplicado em São Paulo com feições de imigrantes de muitos outros povos (judeus italianos coreanos africanos árabes alemães portugueses ciganos nordestinos indígenas latinos etc.), num ambiente urbano que foi crescendo para todos os lados, sem limites.
Até a instabilidade climática daqui parece haver contribuido para essa formação aberta ao acaso, à imprevisibilidade das misturas.
Ao mesmo tempo temos preservados inúmeros nomes indígenas designando lugares, como Ibirapuera, Anhangabaú, Butantã, etc. Primitivismo em contexto cosmopolita, como quis e soube vislumbrar Oswald.
Não é a toa que partiram daqui várias manifestações culturais que souberam conceituar e positivar essa condição de hibridez antropológica, social e cultural. A Antropofagia, a poesia Concreta, a Tropicália ("um neo-antropofagismo" - segundo depoimento de Caetano na época - gestado em São Paulo, apesar dos inúmeros protagonistas baianos).
São Paulo fragmentária, com sua paisagem recortada entre praças e prédios; com o ruído dos carros entrando pelas janelas dos apartamentos como se fosse o ruído longínquo do mar; com seus crepúsculos intensificados pela poluição; seus problemas de trânsito miséria e violência convivendo com suas múltiplas ofertas de lazer e cultura; com seu crescimento indiscriminado, sem nenhum planejamento urbano; com suas belas alamedas arborizadas e avenidas de feiura infinita.
São São Paulo meu amor, como quis Tom Zé.
São Paulo meu horror, como no Pavilhão 9.
São Paulo de muitas faces, para que façamos a nossa, a partir de sua matéria múltipla e mutante.
Talvez isso constitua alguma forma de identidade.

Arnaldo Antunes
Fonte: http://www.arnaldoantunes.com.br/

Promessa de Amor
Construirei para ti uma casa terrestre,
feita de pão e luz e música,
onde caibas apenas tu
e não haja espaço para os intrusos
E quando, à noite nos amarmos,
como se amaram
o primeiro homem e a primeira mulher,
mandarei que repiquem os tambores
- para que saibam todos que voltaram ao mundo
o primeiro homem e a primeira mulher.
Luanda
João Melo

Declaração de Amor
Minha flor minha flor minha flor. Minha prímula meu pelargónio meu gladíolo meu botão-de-ouro. Minha peónia. Minha cinerária minha calêndula minha boca-de-leão. Minha gerbera. Minha clívia. Meu cimbídio. Flor flor flor. Floramarílis. Floranêmona. Florazálea. Clematite minha. Catléia delfínio estrelítzia. Minha hortensegerânea. Ah, meu nenúfar. Rododendro e crisântemo e Junquilho meus. Meu cíclame. Macieira-minha-do-japão. Calceolária minha. Daliabegônia minha. Forsitiaíris tuliparrosa minhas. Violeta... Amor-mais-que-perfeito. Minha urze. Meu cravo-pessoal-de-defunto. Minha corola sem cor e nome no chão de minha morte.

Carlos Drummond de Andrade
In: Carlos Drummond de Andrade - Poesia Completa
Ed. Nova Aguilar, Rio de Janeiro: 2007.
p. 1225

Nome
algo é o nome do homem
coisa é o nome do homem
homem é o nome do cara
isso é o nome da coisa
cara é o nome do rosto
fome é o nome do moço
homem é o nome do troço
osso é o nome do fóssil
corpo é o nome do morto
homem é o nome do outro

Arnaldo Antunes
In: Na Virada do Século - Poesia de Invenção no Brasil
São Paulo, Ed. Landy, 2002
p. 69

Antes de Você
Antes não pensava em você
Agora tudo é uma lembrança sua
Nunca me preocupei com você
Hoje já não faço outra coisa
Não saio mais pra passear
Só quero ir aonde você está
Um livro não é bom,
Não quero ouvir um som
Não acho nada na TV
Não me lembro como eu era antes de você...
Não penso em sair pra passear
Só quero ir aonde você está
Com amigos eu não falo
Não volto ao trabalho
Como pude me esquecer?
Não me lembro como eu era antes de você...
Não tenho fome, não quero beber
Quero saber se você já dorme
Tudo passa, a noite deve passar também
Não me lembro como eu era antes de você...
Composição: Paulo Miklos
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=3xH244S6YPM

LXVI
Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não querer-te chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
e a medida de meu amor viageiro,
é não ver-te e amar-te, como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro,
seu raio cruel, meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero, amor a sangue e fogo.

Pablo Neruda
In: Cem Sonetos de Amor
Tradução de Carlos Nejar
Porto Alegre, L&PM Pocket, 2009
p. 79

Quando olho para mim não me percebo.
Quando olho para mim não me percebo.
Tenho tanto a mania de sentir
que me extravio às vezes ao sair
das próprias sensações que eu recebo.
O ar que respiro, este licor que bebo,
pertencem ao meu modo de existir,
e eu nunca sei como hei de concluir
as sensações que a meu pesar concebo.
Nem nunca propriamente reparei
se na verdade sinto o que sinto. Eu
serei tal qual pareço em mim? Serei
tal qual me julgo verdadeiramente?
Mesmo ante as sensações sou um pouco ateu,
nem sei bem se sou eu quem em mim sente.

Fernando Pessoa
In: Livro dos Sonetos (1500-1900)
Porto Alegre, L&PM, 1996
p. 99

"- O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano -nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?"
George Orwell
In: A Revolução dos Bichos

Frieza
Os teus olhos são frios como espadas,
E claros como os trágicos punhais;
Têm brilhos cortantes de metais
E fulgores de lâminas geladas.
Vejo neles imagens retratadas
De abandonos cruéis e desleais,
Fantásticos desejos irreais,
E todo o oiro e o sol das madrugadas!
Mas não te invejo, Amor, essa indiferença,
Que viver neste mundo sem amar
É pior que ser cego de nascença!
Tu invejas a dor que vive em mim!
E quanta vez dirás a soluçar:
"Ah! Quem me dera, Irmã, amar assim!..."

Florbela Espanca
In: Poesia de Florbela Espanca
Porto Alegre, L&PM Pocket, 2008
p. 26
Ouça este poema narrado por Miguel Falabella:
http://www.youtube.com/watch?v=7d21grKBrSE

Estrelas
São tão remotas as estrelas, que
apesar da vertiginosa velocidade da luz, elas se
apagam e continuam a brilhar durante séculos.
Morrem os mundos...Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da cultura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...
Mas, pra nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias..
Pelos séc'los emfora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade -
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos,
Da minh'alma e revolta imensidade...
E sois ainda todos os enganos
E toda a luz e toda mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos..
Se acaso uma alma se fotografasse
De sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos...Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos:
Amigo, tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando - deste grupo bem no meio -
Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.

Euclides da Cunha

INÊS DE MANTO
Teceram-lhe o manto
para ser de morta
assim como o pranto
se tece na roca
Assim como o trono
e como o espaldar
foi igual o modo
de a chorar
Só a morte trouxe
todo o veludo
no corte da roupa
no cinto justo
Também com o choro
lhe deram um estrado
um firmal de ouro
o corpo exumado
O vestido dado
como a choravam
era de brocado
não era escarlata
Também de pranto
a vestiram toda
era como um manto
mais fino que roupa
1967 – Barcas Novas
Fiama Hasse Pais Brandão

"Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca via as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para as doces alegrias, e quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, por todos os lados, o meu cruel destino..."

Edgar Allan Poe
Publicado postumamente na edição de setembro de 1875 do Scribner's Magazine.

AS PALAVRAS
São como um cristal,
as palavras.
Algumas, um punhal,
um incêndio.
Outras,
orvalho apenas.
Secretas vêm, cheias de memória.
Inseguras navegam;
barcos ou beijos,
as águas estremecem.
Desamparadas, inocentes,
leves.
Tecidas são de luz
e são a noite.
E mesmo pálidas
verdes paraísos lembram ainda.
Quem as escuta? Quem
as recolhe, assim,
cruéis, desfeitas,
nas suas conchas puras?
* * *
O SORRISO
Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.
* * *
DESPERTAR
É um pássaro, é uma rosa,
é o mar que me acorda?
Pássaro ou rosa ou mar,
tudo é ardor, tudo é amor.
Acordar é ser rosa na rosa,
canto na ave, água no mar.
* * *
ENCOSTAS A FACE...
Encostas a face à melancolia e nem sequer
ouves o rouxinol. Ou é a cotovia?
Suportas mal o ar, dividido
entre a fidelidade que deves
à terra de tua mãe e ao quase branco
azul onde a ave se perde.
A música, chamemos-lhe assim,
foi sempre a tua ferida, mas também
foi sobre as dunas a exaltação.
Não ouças o rouxinol. Ou a cotovia.
É dentro de ti
que toda a música é ave.
Eugénio de Andrade
Fonte: http://www.fundacaoeugenioandrade.pt/

O TESTAMENTO DE D. BURRO, PAI DOS ASNOS (Fragmentos)
(...)
Na pobre estrebaria em que me vejo,
cheio de pulgas, piolhos, percevejos,
eu D. Burro, pai dos asnos calcitrantes,
que o mundo vai deixar dentro de instantes,
vendo-me já tanto de anos carregado,
no mais triste e lastimoso estado,
sem abrigo de pai nem de parentes,
da cabeça já calvo, e já sem dentes,
do meu dono desprezado, e abatido,
ingrata satisfação de o ter servido;
vendo que neste mundo me não resta
coisa com que fazer a minha festa,
remédio não hei já senão prestar-me
fazer minha viagem, preparar-me:
essa viagem de todos tão temida,
pois os dias termina, acaba a vida.
É certo que minha alma irracional
não goza os privilégios de imortal,
mas como de cá vou pra não tornar,
e várias coisas tenho d'arranjar
- além de amigos meus e de parentes
(não que bem descendentes ou ascendentes);
por isso tomarei sequer urna hora,
na qual sem dúvidas e sem demora,
para exemplo a futuros e vindouros,
dispor eu possa bem de meus tesouros.
Como é fácil anular um testamento
o meu quero fazer com fundamento.
Por que o não posso fazer por minha mão,
impedido de angústia e de aflição,
ao Senhor Vigário eu peço mo escreva,
não porque ele favor algum me deva,
mas por ser sua letra mui par'cida
com a que eu escrevia em minha vida
quando pra amanuense seu me preparava,
pois só tal amanuense lhe quadrava.
(...)
Quarenta anos, pouco mais, tenho de idade:
sempre foram pra mim d'austeridade;
nunca neles senti barriga cheia
em almoço, jantar, merenda ou ceia.
Só quando era pequeno, lá no Corvo,
minha avó me frigiu um dia um ovo.
Estando pra o comer, eis de repente
meu avô chega, velho e impaciente,
e não só o papou ele dum bocado
mas até minha avó pôs em tal estado
que a pobre prometeu com juramento
não se embaraçar mais co'o meu sustento.
(...)
Meu corpo quero seja sepultado
aí no canto dum qualquer cerrado,
onde de mim lembrança mais não possa haver;
mas porquanto bem pode suceder
o almotacé pra o açougue me mande ir,
e à sua ordem ninguém pode resistir,
cada um de por si vá preparado
pra me levar de carne o seu cruzado.
Mas saiba quem a leve, lá por teimas:
comendo-a, morre cheio de almorreimas;
porque não pode ser que, em tal idade,
minha carne não cause enfermidade.
Herdeiros
Item. Precisando nomear testamenteiros,
o Capitão Silvestre é o primeiro;
Felipe António fique de segundo;
e suposto que me acho moribundo,
sempre nomeio terceiro aristocrácio,
meu compadre o Alferes Francisco Inácio.
P'lo trabalho de testamentaria,
peças lhes deixo da maior valia:
ao primeiro, meu óculo de alcançar,
um óculo tão distinto e singular
que com ele até mesmo observava
quantas cricas de burra encontrava.
(...)
Item. Ao segundo meu testamenteiro,
eu deixo quinze réis em bom dinheiro,
porém co'a obrigação, todos os anos,
de os pagar aos padres franciscanos
por mesada daquele pouco tempo
em que estive de estudante no convento.
Item. Ao terceiro, pouco tenho que deixar,
pois são muitos os que têm de me herdar,
e os meus bens, como sabem, poucos são.
Mas pra fugir a toda a ingratidão
as canelas lhe deixo duma perna
e meu terçado feito já pela moderna.
Em o tendo não mais use espadim,
pois é traste que nem servia a mim.
- Obrigações primeiras satisfeitas,
usemos com os outros às direitas.
(...)
Item. Ao Padre Tesoureiro mando dêem
meu couro pra chamarra que não tem;
pois se há de comprar baeta em loje,
faca uma cor de burro quando foge.
E depois, quando deste mundo eu for,
não quero mais ouvir que ante o Ouvidor
aparece com calças à maruja,
que é ação muito feia, muito suja.
Se o Ouvidor até 'qui dissimulou,
foi força de prudência de que usou;
pois eu se ouvidor fosse não sofria
uma tão temerária grosseria.
(...)
Item. Deixo ao Sr. Juiz por bem da lei
quantas lágrimas neste mundo eu chorei,
as quais ordeno sejam misturadas
co'aquelas que têm sido derramadas
por tanto pobre a quem sua mercê
cadeias, ferros manda que se dê.
(...)
Item. Meu contraparente João Bernardo,
pra ostentação maior de seu estado,
mando se dê depois da minha morte
meu rabo, que lhe sirva de chicote.
E se não se contentar com esta deixa,
pra que de mim não forme alguma queixa
dar-lhe-ão mais uma dúzia de bolotas
e couro das minhas pernas pra umas botas.
Item. A António Furtado Nunes, meu parente,
a quem Deus não fez como a outra gente,
deixo por minha morte duas pipas
do miolo que me saía pelas tripas.
(...)
Item. A minha prima Maria Joaquina
deixo dois gamelões da minha urina:
o caldo só, pois os cascos não,
porque estes meus também não são.
Com ela poderá dar uma calda
e alvejar quando quiser a sua fralda.
(...)
Item. A José Paciente e a Francisco Dente,
deixo em legado pio o meu pendente,
uma jóia de tanta estimação
que render não pode menos de um tostão.
(...)
Item. A João Castelo e sua irmã Isabel,
o meu sangue para um sarapatel;
mas com a rigorosa obrigação
que pelo olho do eu mo chuparão,
pois não quero se me faça anatomia
nem do corpo mo tirem por sangria.
(...)
O meu olho do eu já o deixei
a meu primo José, porém errei
em deixar-lho para ele assobiar,
pois nisso os beiços podem bem bastar.
Mando pois que embrulhado em um papel
o remetam a Alexandre Pimentel;
que o ponha no lugar do que não tem,
e só assim lhe pago o mal com bem.
(...)
José Antônio de Camões
In: Livro dos Poemas
Organização Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 254-8

"Aquele que fala irrefletidamente,
assemelha-se ao caçador que dispara sem apontar."
Montesquieu
* * *
Quero saber se você vem comigo
Quero saber se você vem comigo
a não andar e não falar,
quero saber se no fim alcançaremos
a incomunicação; por fim
ir com alguém a ver o ar puro,
a luz listrada do mar de cada dia
ou um objeto terrestre
e não ter nada que trocar
por fim, não introduzir mercadorias
como faziam os antigos colonizadores
trocando baralhinhos por silêncio.
Pago aqui eu por teu silêncio.
De acordo, eu te dou o meu
com uma condição: não nos compreender.

Pablo Neruda
In: Últimos Poemas
(O Mar e os Sinos)

Meu amor, meu amor
Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.
Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.
Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento
este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.
José Carlos Ary dos Santos

SE
Se és capaz de manter tua calma, quando,
Todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti, quando estão todos duvidando,
E para estes no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso.
Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a derrota e o triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma a estes dois impostores
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
Em armadilhas as verdades que disseste
E, as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;
Se és capaz de arriscar numa única parada,
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perdes e ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar, seja o que for que neles ainda existe
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
Resta a vontade em ti, que ainda te ordena: persiste!
Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
E, entre reis, não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
Se és capaz de dar, segundo por segundo
Ao minuto fatal todo valor e brilho:
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo,
E - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu Filho!

Rudyard Kipling
Tradução de Guilherme de Almeida
Ouça este texto aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=bLLhIg-7ALM

A Morte
E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.
Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.
Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.

Miguel Torga
In: Nihil Sibi, 1948

Quando os homens se ocupam corretamente, o prazer deles emerge do seu trabalho, como pétalas de uma flor fértil; quando eles estão confiantemente esperançosos e compassivos, suas emoções são sólidas, profundas, perpétuas e vivificam a alma, como a pulsação material do corpo.
John Ruskin

A vida ainda é o maior dos jogos de que dispomos. Mas devemos vencê-lo a cada minuto, a cada movimento no tabuleiro. Toda vez que o desespero surge e sussurra algo para nós, devemos tapar os ouvidos. Nascemos para dominar - não para sermos dominados. A fé pode conhecer o desespero e também vencê-lo. Devemos considerar nossas dificuldades não como obstáculos para nos derrubar, mas como algo a ser conquistado.
Paul Brunton
In: Meditações para pessoas que decidem, Ed. Pensamento

(...) Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. (...)

Clarice Lispector
In: Felicidade Clandestina
Ed. Rocco, Rio de Janeiro, 1998

(...) As épocas que desejo, as épocas que venero, as civilizações que admiro são aquelas em que o lado bom da natureza humana pode desdobrar-se em sua plenitude. São aquelas civilizações que criam para o homem todas as possibilidades de ele provar que foi feito à imagem de Deus, e não aquelas que só lhe exploram a cobiça, a paixão do poder, a hipocrisia, a fraqueza, o medo, a pusilanimidade. Entre umas e outras nenhuma natureza bem dotada pode hesitar. Só se comprazem com as últimas as naturezas enfermiças, os ressentidos, os pintores de cartões postais, os escribas, os pequenos artistas malogrados, os perdidos para a capacidade de amar e de admirar, que buscam no nivelamento compulsório e disciplinar da natureza humana o corretivo das desigualdades naturais que lhes pesam como opróbrio e injustiça.
Pertenço, julgo pertencer, aos que não perderam de todo a capacidade de amar e admirar. Conheço as minhas possibilidades, conheço também as minhas limitações. Não me magnifico daquelas, não me desespero destas. Não trago o fardo pesado de ódios e rancores. Já hoje, não sei de ninguém a quem não possa apertar fraternalmente a mão.
Viana Moog
Trecho do discurso de posse na Academia Brasileira de Letras - Terceiro ocupante da Cadeira 4, eleito em 20 de setembro de 1945 (Fonte: http://www.academia.org.br/)

Meu momento
Com calma, bem tranquilo levo, a vida!
E a alma faz aquilo que apetece.
Sou livre no pensar ou numa prece,
Antítese a amar sua ferida.
Rimando som alegre, alma contida,
Voando ao vento leve e sem estresse,
Em verso que hoje fiz como quem tece
No verso de quem faz vida sofrida.
E ouvindo o doce som do sentimento,
Zunindo à posse então deste momento,
Imploro a permanência do querer.
Adoro a negligência do passado.
No túmulo, bem fundo, está enterrado.
Incrédulo, meu mundo hoje é prazer.

Cesar Veneziani
In: Asas
Ed. Utopia, Brasília, 2009
p. 75
+ http://cesar.veneziani.zip.net/

Aço
Sou a imagem do estio.
A inércia é que me move.
Não faz calor nem frio:
chove.
Meu interior sombrio
repele o que me envolve.
Nem a cheia do rio
solve.
Isso terminaria
com um único passo
da lâmina mais fria:
aço.
Mas minha covardia
leva ao papel e ao traço.
Daí, então, poesia
faço.

Cesar Veneziani
In: Asas
Ed. Utopia, Brasília, 2009
p. 74
+ http://cesar.veneziani.zip.net/

Faço o que posso
Queria te dar o Sol
para aquecer teus dias,
mas como não posso,
te aqueço com o calor do meu abraço...
Queria te dar a Lua e as estrelas
para iluminar tuas noites de sonhos,
mas como não posso,
te ilumino com a luz da paixão
que meus olhos libertam...
Queria te dar o perfume das flores,
para marcar teus caminhos mas como não posso,
te dou o doce odor do prazer compartilhado...
Queria te dar os suaves sons de todas as músicas
para embalar tua vida inteira,
mas como não posso,
sussurro baixinho ao teu ouvido:
te amo!

Cesar Veneziani
In: Asas
Ed. Utopia, Brasília, 2009
p. 23
+ http://cesar.veneziani.zip.net/

Fim ou começo?
Fim.
Uma lágrima que cai.
Uma briga, uma discussão.
Um ato impensado.
A perda da confiança.
A rotina, o dia-a-dia.
O estar junto frequente.
O gostar de estar.
A saudade quando ausente.
O fogo, o calor.
O arrepio, a pele em convulsão.
O primeiro beijo.
O olhar, a atração.
Começo.

Cesar Veneziani
In: Asas
Ed. Utopia, Brasília, 2009
p.21
+ http://cesar.veneziani.zip.net/

RISO E LÁGRIMA
Há uma lágrima, sempre atenta, em nossos olhos.
LUÍS EDMUNDO
Morre na alma um sorriso e a lágrima, sentida,
surge, treme, de leve, e traz à vossa face
o signo natural da tristeza que nasce
e não pode viver tão secreta, escondida.
Muitas vezes, porém, nas horas em que a vida
alegre se vos faz, como se se ocultasse
viverá - quem o sabe? - inútil, esquecida.
E assim, quando esqueceis a vossa desventura
a tristeza se esvai e a lágrima procura
ocultar-se, qual flor que nasceu entre abrolhos.
No entanto, para mim, há destas variedades:
passo a vida a cantar para matar saudades,
vivo sempre a sorrir com lágrimas nos olhos...
Dentro da noite, 1915
* * *
A SINTAXE DO ADEUS
O frio que a morte traz
quem o sente não é o morto.
O morto apenas esfria.
É o frio do calafrio...
E são os vivos que sentem.
Também os vivos têm medo
de olhar nos olhos do morto.
Ah, o terrível segredo.
E alguém, com dedos de rosa
vem e automaticamente
pra que o morto não nos veja,
lhe fecha as pálpebras como
a duas pétalas e adeus.
A-deus quer dizer sem Deus.
* * *
POEMA IMPLÍCITO
O que a vida nos faz
supor esteja atrás dos objetos.
A presença do oculto,
o que a fotografia não nos diz.
As coisas
que não chegou a me dizer Lenora
a que foi
morar no reino dos pássaros mudos.
E que mais me feriram justamente
porque não chegaram a ser ditas.
Os gritos, esculpidos na boca
das figuras de pedra.
Tudo o que é implícito.
Tudo o que é tácito.
Não gosto dos explícitos
Gosto dos tácitos.
Daqueles que me dizem tudo
sem me dizer uma única palavra.
Não amo os lógicos,
os socráticos.
Amo os lunáticos,
os de cabeça virgem
e lírica.
Não amo os pássaros que cantam,
amo os pássaros mudos.
A face perdida, 1950

Cassiano Ricardo
Fonte: http://www.academia.org.br/

(...) Sei agora por que não confiei nele no primeiro dia. Suas ações não possuem nem sentimento nem imaginação. São motivadas por meros hábitos de viver, assimilar e analisar. Ele é um gafanhoto. Agora pulou para minha vida. Minha sensação de desagrado se intensifica. Quando tenta me beijar, eu fujo.
Ao mesmo tempo admito a mim mesma que ele conhece a técnica de beijar melhor do que ninguém que já conheci. Seus gestos nunca erram o alvo, nenhum beijo jamais se perde. Suas mãos são hábeis. Minha curiosidade por sensualidade é despertada. Sempre fui tentada por prazeres desconhecidos. Ele tem, como eu, um senso de cheiro. Eu o deixo aspirar-me, depois escapo. Finalmente deito-me imóvel no sofá, mas quando o desejo dele aumenta, tento fugir. Tarde demais.

Anaïs Nin
In: Henry e June
Tradução de Rosane Pinho
Coleção L&PM Pocket, 2007

- Eu acredito que os problemas sociais vêm de duas áreas: uma é da família, que forma o tecido social humano. Todos entendem que realmente a pessoa tem muito do que foi na primeira infância. Nós temos que cuidar desse tecido social, porque não adianta só 'ter'. Se 'ter' fosse suficiente, não haveria tanto desastre na classe média e na alta, onde não falta comida. A outra área é a das políticas públicas. Eu creio que na área do tecido social a pastoral está fazendo um bom trabalho. Na área de políticas públicas, estamos vendo que podemos fazer também, mudando modelos de atenção.
* * *
- Eu acho que o voluntariado está dentro da gente, o que falta é ser despertado. Qualquer pessoa tem vontade de ser voluntária, porque o voluntário dá, mas ganha muito mais quando trabalha com o espírito.
* * *
- (...) Nessa época, eu tinha cinco filhos e já era viúva há cinco anos, estava numa fase emocional equilibrada, tocando o barco para a frente. Eu disse para os meus filhos: "Eu sempre durmo cedo, mas hoje preciso ficar acordada. Vou tomar um café e fazer o plano que vai salvar milhões de crianças no mundo". Eu falei mais ou menos o que era ensinar as mães a cuidar dos filhos. Eles foram dormir, eu fiz o café e fiquei trabalhando. (...) De noite eu me sentei e pensei: "Qual é a estratégia para chegar ao coração das mães?" Eu pensei na multiplicação dos pães e peixes. Como é que se multiplicou o pão e o peixe? Dois peixes deram para cinco mil pessoas, segundo o evangelho de São João. Eles se organizaram em pequenos grupos (como a comunidade de base de anos atrás), e trouxeram o que tinha entre eles. Eram dois peixes e cinco pães. Como alimentar aquela gente toda? Foi dada a eles uma bênção, e depois distribuíram. Não foi Jesus que distribuiu, foram os discípulos. Ele fez a avaliação: "Vede se todos estão satisfeitos". Eu sempre achei que, na saúde pública, o sistema de informação deveria ser mais claro, transparente, mais utilizável. Usava-se o sistema de informação para ver se as mães realmente estavam atendendo aos filhos como deveria ser.
Zilda Arns
In: Jornal O Pasquim 21 - número 1 - 19/02/2002 - A equipe do Pasquim21, foi composta por Ziraldo, Zélio, Luís Pimentel, Zezé Sack e Caco Xavier, convidou para participar desta primeira entrevista os jornalistas Marcelo Auler, Lena Frias e Fritz Utzeri, além de Fabio Pereira, estudante da PUC/Rio. Frederico Rozario fotografou.
Fonte: http://www.rebidia.org.br/novida/entrevista_pasquim.htm

Rumor de Asas, Longínquo...
Rumor de águas, longínquo... Asas de talagarça
preta (é agouro o rumor de asas pretas)... A lua
é uma virgem com pés de prata, toda nua
e fria... É fria a noite... Anda pelo ar, esparsa,
a carícia mortal da desgraça... É uma garça
de graciosa esbeltez Salomé... Vede-a... A sua
graça as almas encanta... E o quente sangue estua
pelos flancos do amante... Arde na viva sarça
das luxúrias o olhar de Herodes... E a princesa
dança... De sete véus é o seu adorno... E acesa
em volúpia, não há poder que lhe resista...
E toda sedução, toda febre e desejos,
a princesa é uma flor que se desfaz em beijos
rubros na fria boca em sangue de Batista
Lindolfo Collor
In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 418
Precisa-se
A
Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector

James Joyce
Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias,
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo
Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.
Jorge Luis Borges
In: Poesia
Tradução de Josely Vianna Baptista
Ed. Companhia das Letras

"- A história - disse Stephen - é um pesadelo do qual estou tentando despertar." (p. 39)
* * *
"Você acha minhas palavras obscuras. A escuridão está em nossas almas você não acha?" (p. 57)
* * *
"Toda a vida são muitos dias, dia após dia. Nós caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, mas sempre nos encontrando." (p. 237, 238)
* * *
"- Mas não adianta - diz ele. - Força, ódio, história, tudo o mais. Isso não é vida para homens e mulheres, insulto e ódio. E todo mundo sabe que é exatamente o oposto disso que vale realmente a vida.
- O quê? - diz Alf.
- O amor - diz Bloom." (p. 366)

James Joyce
In: Ulisses.
Tradução Bernardina da Silveira Pinhero.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2005

Hoje o Blog Belas Mensagens completou o 2º ano de vida. Sinto-me muito feliz por ter redescoberto o prazer da literatura e ter feito tantas amizades virtuais. Esse é o maior presente: ligar o computador e ler os comentários de vocês, saber que há pessoas de diversos lugares do mundo que passaram por aqui, leram as minhas publicações, emitiram sua opinião... Obrigado por fazerem parte do meu mundo!
Não tenho discurso, apenas uma constatação: é muito bom ter chegado até aqui, e com a sensação de que há muito para ainda percorrer. Agradeço aos fieis leitores do Belas Mensagens, os amigos mais perseverantes que tenho.
Gostaria de agradecer do fundo do coração a todos aqueles que dedicaram o seu tempo, por menor que seja, para visitarem meu blog, fazendo sugestões, críticas ou elogios. Espero poder compartilhar inúmeras outras marcas com vocês. Muito obrigado por tudo!
Rodrigo

(...) Sim, os antigos passam e os novos hão de lançar ao mundo o tesouro das promessas estonteantes. Enquanto não o fazem, todavia, e os frutos mais verdes amadurecem na árvore donde caem os frutos sazonados, continuem velhos e moços, homens de várias escolas e várias idades, a trabalhar como possam, como devem, porque todos cabem, afinal, passadistas ou modernistas, na última escola inventada pelo bom senso francês - le vitalisme -, em que apenas se distinguem as formas vitais da arte, as produções vivazes do espírito, sem qualquer delimitação cronológica ou estética. Desta maneira, longe dos faciosos e dos fanáticos, aqui está o ideal de toda a gente: le vitalisme. Idosos ou juvenis, façamos da revivescência e das suas ilusões o nosso modus vivendi, um princípio de germinação literária, de atividade pensante.
Celso Vieira
Fonte: http://www.academia.org.br/

Coração de pedra
Não tem olhos de ver para a eterna beleza,
o sorriso de Deus que ilumina a existência;
não lhe fala à alma rude a suave pureza
que reponta e sorri nos lábios da inocência;
a flor não o interessa, ou surja na devesa,
onde acaso a plantou a mão da Providência,
ou soberba pompeie, onde o Belo se preza,
requinte de arte pura ou prodígio da ciência.
É que o vêzo do lucro, o seu deus verdadeiro,
lhe deu ao coração consistência de pedra
e aos olhos lhe roubou o poder da visão.
Só lhe sobe à alma torpe o ouro, a moeda, o dinheiro...
Templo erguido a Mamona, a piedade não medra
na profunda aridez do seu vil coração.
Bento Prado Júnior

O Verão e as Mulheres
Talvez tenha acabado o verão. Há um grande vento frio cavalgando as ondas, mas o céu está limpo e o sol é muito claro. Duas aves dançam sobre as espumas assanhadas. As cigarras não cantam mais. Talvez tenha acabado o verão.
Estamos tranqüilos. Fizemos este verão com paciência e firmeza, como os veteranos fazem a guerra. Estivemos atentos à lua e ao mar; suamos nosso corpo; contemplamos as evoluções de nossas mulheres, pois sabemos o quanto é perigoso para elas o verão.
Sim, as mulheres estão sujeitas a uma grande influência do verão; no bojo do mês de janeiro elas sentem o coração lânguido, e se espreguiçam de um modo especial; seus olhos brilham devagar, elas começam a dizer uma coisa e param no meio, ficam olhando as folhas das amendoeiras como se tivessem acabado de descobrir um estranho passarinho. Seus cabelos tornam-se mais claros e às vezes os olhos também; algumas crescem imperceptivelmente meio centímetro. Estremecem quando de súbito defrontam um gato; são assaltadas por uma remota vontade de miar; e certamente, quando a tarde cai, ronronam para si mesmas.
Entregam-se a redes; é sabido, ao longo de toda a faixa tropical do globo, que as mulheres não habituadas a rede e que nelas se deitam ao crepúsculo, no estio, são perseguidas por fantasias e algumas imaginam que podem voar de uma nuvem a outra nuvem com facilidade. Sendo embaladas, elas se comprazem nesse jogo passivo e às vezes tendem a se deixar raptar, por deleite ou preguiça.
Observei uma dessas pessoas na véspera do solstício, em 20 de dezembro, quando o sol ia atingindo o primeiro ponto do Capricórnio, e a acompanhei até as imediações do Carnaval. Sentia-se que ia acontecer algo, no segundo dia da lua cheia de fevereiro; sua boca estava entreaberta: fiz um sinal aos interessados, e ela pôde ser salva.
Se realmente já chegou o outono, embora não o dia 22, me avisem. Sucederam muitas coisas; é tempo de buscar um pouco de recolhimento e pensar em fazer um poema.
Vamos atenuar os acontecimentos, e encarar com mais doçura e confiança as nossas mulheres. As que sobreviveram a este verão.
Março, 1953.
Rubem Braga
Extraído do livro "A Cidade e a Roça", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1964, pág. 27.
CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA
Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
Oswald de Andrade
In: Pau-Brasil (1925)
4a. edição - São Paulo - Ed. Globo, 1991

Adoração
Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo,
Como quem volta de áspero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!
Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como lâmpada sagrada,
Bem-vindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!
Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!
Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!
Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
É uma adoração!
Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar!
* * *
O Seu Nome
Ela não sabe a luz suave e pura
Que derrama numa alma acostumada
A não ver nunca a luz da madrugada
vir raiando, senão com amargura!
Não sabe a avidez com que a procura
ver esta vista, de chorar cansada,
A ela... única nuvem prateada,
única estrela desta noite escura!
E mil anos que leve a Providência
a dar-me este degredo por cumprido,
por acabada já tão longa ausência,
ainda nesse instante apetecido
será meu pensamento essa existência...
E o seu nome, o meu último gemido.
João de Deus
In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 54

Divisão
Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado: as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. O resto dos moveis — são tão poucos! — podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.
A vitrola está tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.
Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.
Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E conseqüentemente com a estante também.
Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.
Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.
Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.
Sergio Porto
In: A casa demolida
Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1968,
p. 201

Gauchinha
Gaúcha, gauchinha
Minh'alma é de você
Minh'alma inteira
No meu coração
eu quero, quero, quero
um farrapinho da sua bandeira
Um churrasquinho eu farei pra nós dois
e um chimarrão depois, não vejo mal
Que tal?
E contemplando os seus olhos gentis
eu hei de ser o brasileiro mais tela
Um farrapinho da sua bandeira
Um farrapinho só, não vejo mal
Que tal?
E conquistando o seu lindo perfil
eu hei de ser o Eduardo VIII do Brasil
Composição: Lamartine Babo
* * *
Eu Sonhei Que Tu Estavas Tão Linda
Eu sonhei que tu estavas tão linda
Numa festa de raro esplendor
Teu vestido de baile lembro ainda
Era branco, todo branco, meu amor
A orquestra tocou uma valsa dolente
Tomei-te aos braços
Fomos dançando
Ambos silentes
E os pares que rodeavam entre nós
Diziam coisas
Trocavam juras
A meia voz
Violinos enchiam o ar de emoções
De mil desejos uma centena de corações
Pra despertar teu ciúme
Tentei flertar alguém
Mas tu não flertaste ninguém
Olhavas só para mim
Vitória de amor cantei
Mas foi tudo um sonho... acordei!
Composição: F. Mattoso e Lamartine Babo
* * *
Hino do Carnaval Brasileiro
Salve a morena
A cor morena do Brasil fagueiro
Salve o pandeiro
Que desce do morro prá fazer a marcação
São, são, são
São quinhentas mil morenas
Loiras, cor de laranja, cem mil
Salve, salve
Teu carnaval, Brasil
Salve a loirinha
Dos olhos verdes cor das nossas matas
Salve a mulata
Cor de canela, nossa grande produção
São, são, são
São quinhentas mil morenas
Loiras cor de laranja, cem mil
Salve, salve
Teu carnaval, Brasil
Composição: Lamartine Babo
* * *
O teu Cabelo não Nega
O teu cabelo não nega mulata
Porque és mulata na cor
Mas como a cor não pega mulata
Mulata eu quero o teu amor
Tens um sabor bem do Brasil
Tens a alma cor de anil
Mulata mulatinha meu amor
Fui nomeado teu tenente interventor
Quem te inventou meu pancadão
Teve uma consagração
A lua te invejando faz careta
Porque mulata tu não és deste planeta
Quando meu bem vieste à terra
Portugal declarou guerra
A concorrência então foi colossal
Vasco da gama contra o batalhão naval
Composição: Lamartine Babo

Rios sem discurso
Quando um rio corta, corta-se de vez
o discurso-rio de água que ele fazia;
cortado, a água se quebra em pedaços,
em poços de água, em água paralítica.
Em situação de poço, a água equivale
a uma palavra em situação dicionária:
isolada, estanque no poço dela mesma;
e porque assim estanque, estancada;
e mais: porque assim estancada, muda,
e muda porque com nenhuma comunica,
porque cortou-se a sintaxe desse rio,
o fio de água por que ele discorria.
O curso de um rio, seu discurso-rio,
chega raramente a se reatar de vez;
um rio precisa de muito fio de água
para refazer o fio antigo que o fez.
Salvo a grandiloqüência de uma cheia
lhe impondo interina outra linguagem,
um rio precisa de muita água em fios
para que todos os poços se enfrasem:
se reatando, de um para outro poço,
em frases curtas, então frase e frase,
até a sentença-rio do discurso único
em que se tem voz a seca ele combate.

João Cabral de Melo Neto
In: A educação pela pedra e depois.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1997, p.21.
Pregão Turístico de Recife
A Otto Lara Resende
Aqui o mar é uma montanha
regular redonda e azul,
mais alta que os arrecifes
e os mangues rasos ao sul.
Do mar podeis extrair,
do mar deste litoral,
um fio de luz precisa,
matemática ou metal.
Na cidade propriamente
velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários
de cada lado de um rio.
Com os sobrados podeis
aprender lição madura:
um certo equilíbrio leve,
na escrita, da arquitetura.
E neste rio indigente,
sangue-lama que circula
entre cimento e esclerose
com sua marcha quase nula,
e na gente que se estagna
nas mucosas deste rio,
morrendo de apodrecer
vidas inteiras a fio,
podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é a morte mas a vida.

João Cabral de Melo Neto
In: Serial e antes
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1997
p. 119-120

Questão de Pontuação
Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);
viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):
o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto
In: Folha de S. Paulo
Revista Serafina - 27.09.2009
Seleção de Frederico Barbosa
p. 33
As Mãos de Meu Pai
As tuas mãos tem grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
— como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram
/ na nobre cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai, essa
/ beleza que se chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos
/ braços da tua cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente,
/ vieste alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra o vento?
Ah, Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura das tuas mãos nodosas...
essa chama de vida — que transcende a própria vida...
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma...

Mario Quintana
In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 210
Eu
Eu sou a que no mundo anda perdida,
eu sou a que na vida não tem norte,
sou a irmã do Sonho, e desta sorte
sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa tênue e esvaecida,
e que o destino amargo, triste e forte,
impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguém vê...
Sou a que chamam triste sem o ser...
Sou a que chora sem saber por quê...
Sou talvez a visão que alguém sonhou,
Alguém que veio ao mundo pra me ver,
e que nunca na vida me encontrou!

Florbela Espanca
In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 110

Quando você detesta alguém, você detesta algo nele que faz parte de você mesmo. O que não está em nós não nos incomoda.
Herman Hesse

“O silêncio é a única linguagem do homem realizado. Pratiquem moderação no falar. Isto irá ajudá-los de muitas formas. Isto vai desenvolver Prema (Amor Divino), pois muitos desentendimentos e separações surgem de palavras descuidadas. Quando seus pés escorregam, a ferida pode sarar; mas quando a língua escorrega, a ferida causada no coração de outros durará por toda vida. A língua é responsável por quatro grandes erros: falsidade, escândalo, encontrar faltas nos demais e falar demasiadamente. Todos estes males devem ser exterminados para que exista Shanti (Paz) para o indivíduo, bem como para a sociedade.”
Sathya Sai Baba
Fonte: http://www.sathyasai.org.br/ensinamentos/

De cara lavada - 177
hoje me desfiz dos meus bens
vendi o sofá cujo tecido desenhei
e a mesa de jantar onde fizemos planos
o quadro que fica atrás do bar
rifei junto com algumas quinquilharias
da época em que nos juntamos
a tevê e o aparelho de som
foram adquiridos pela vizinha
testemunha do quanto erramos
a cama doei para um asilo
sem olhar pra trás e lembrar
do que ali inventamos
aquele cinzeiro de cobre
foi de brinde com os cristais
e as plantas que não regamos
coube tudo num caminhão de mudança
até a dor que não soubemos curar
mas que um dia vamos
Martha Medeiros
Texto extraído do livro "Martha Medeiros - Poesia Reunida", L&PM Editores - Porto Alegre, 1999, pág. 127.
46.
Não vejo, não respiro, escuto ou penso
Sinto só; quem não sente não m'intende
Um receio fatal a voz me prende
Pelas veias me corre um fogo intenso.
Ao meu fogo se opõe um gelo imenso
E quanto mais o lume em mim se acende,
Mais o susto gelar-me em vão pretende,
Mais luto contra amor, e menos venço.
Dize, Inconstante, dize, não te custa
A desamar o que algum dia amaste?
Ou fui, quando te amei, acaso injusta?
Se das Rochas de Sintra, onde juraste
Eterna fé, o aspecto não te assusta,
Tira delas a chama que apagaste.
Marquesa de Alorna
In: Sonetos
Organização: Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: 7Letras, 2007
p. 141

" Um dia, veio à corte do Príncipe de Birkasha, uma dançarina e seus músicos. ... e ela foi aceita na corte... e ela dançou a música da flauta, da cítara e do alaúde. Ela dançou a dança das chamas e do fogo, a dança das espadas e das lanças; e ela dançou a dança das flores ao vento. Ao terminar, virou-se para o príncipe e fez uma reverência. Ele então, pediu-lhe que viesse mais perto e perguntou-lhe: Linda mulher, filha da graça e do encantamento, de onde vem tua arte e como é que comandas todos os elementos em seus ritmos e versos?
A dançarina aproximou-se, e curvando-se diante do príncipe disse: Majestade, respostas eu não tenho às vossas perguntas. Somente isso eu sei: a alma do filósofo vive em sua cabeça, a alma do poeta vive em seu coração, a alma do cantor vive em sua garganta, mas a alma da dançarina habita em todo o seu corpo." (O Errante)
Khalil Gibran
In: Os Mais belos pensamentos de Gibran
Seleção e trad. Mansour Challita
ACIGI

"(...) Puxou-me pelas orelhas, levou-me para o quarto, sem jantar, disse-me, com dureza, "que um homem que mentia não era um homem", pôs-me de castigo uma semana, preso em casa, sem pôr os pés fora, na varanda que fosse. Aluísio, insensível à minha prisão, folgava, não parecendo sentir a falta do companheiro. Era de vê-la a facilidade indiferente com que supria, nos seus brinquedos, a minha pessoa ausente. Da janela do meu quarto, enquanto descansava as mãos doloridas de copiar, com boa letra e sem nenhum erro, as trinta páginas da minha geografia, que papai, pela manhã, antes de sair, inflexivelmente, me marcava, ficava vendo-o correr, subir às árvores, com desembaraço e agilidade. E invejava-o surdamente. Tinha dez anos."
Oscarina, 1931
Marques Rebelo

"O desespero humano é um espinho cravado no coração. Inútil a gente debater-se, que dói mais ainda. Então sento-me no chão, os braços em torno das pernas, a cabeça pousada sobre os joelhos, e volto a ser a menina que teme o escuro da noite e chora calada sua solidão..."
Elisa Lispector
In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 31

Basta Pensar em Sentir
Basta pensar em sentir
Para sentir em pensar.
Meu coração faz sorrir
Meu coração a chorar.
Depois de parar de andar,
Depois de ficar e ir,
Hei de ser quem vai chegar
Para ser quem quer partir.
Viver é não conseguir.

Fernando Pessoa
In: Poesias Inéditas

Asa Branca
Quando oiei a terra ardendo
Qual a fogueira de São João
Eu preguntei a Deus do céu,ai
Por que tamanha judiação
Que braseiro, que fornaia
Nem um pé de prantação
Por farta d'água perdi meu gado
Morreu de sede meu alazão
Inté mesmo a asa branca
Bateu asas do sertão
"Intonce" eu disse adeus Rosinha
Guarda contigo meu coração
Hoje longe muitas légua
Numa triste solidão
Espero a chuva cair de novo
Pra mim vortar pro meu sertão
Quando o verde dos teus óio
Se espanhar na prantação
Eu te asseguro não chore não, viu
Que eu vortarei, viu
Meu coração
Composição: L. Gonzaga / Humberto Teixeira
* * *
Kalu
Kalu, Kalu
Tira o verde desses óios di riba d'eu
Não me tente se você já me esqueceu
Kalu, Kalu
Esse oiá despois do que se assucedeu
Com franqueza só não tendo coração
Fazê tar judiação
Você tá mangando di eu
Com franqueza só não tendo coração
Fazê tar judiação
Você tá mangando di eu
Composição: Humberto Teixeira
* * *
Adeus Maria Fulô
Adeus, vou me embora meu bem
Chorar não ajuda ninguém
Enxugue seu pranto de dor
Que a seca mal começou
Adeus, vou me embora Maria
Fulô do meu coração
Eu voltarei qualquer dia
E só chover no sertão
E os dias da minha volta
Eu conto na minha mão
Adeus Maria Fulô
Marmeleiro amarelou
Adeus Maria Fulô
Olho d'água estorricou
Composição: Humberto Teixeira / Sivuca
Humberto Teixeira compôs Kalu, para a cantora Dalva de Oliveira e Adeus, Maria Fulô, com Sivuca, para Carmélia Alves. É nacionalmente conhecido como parceiro de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião. Um grande sucesso da dupla é a composição Asa Branca, lançada em 1947.

"Agora sei que causa do amor é o bem, e o que é bem define-se por conhecimento, e não se pode amar senão aquilo que se apreendeu como bem."
* * *
"O limite entre o veneno e o medicamento é bastante tênue, os Gregos chamavam a ambos pharmacon."
* * *
"Pode-se pecar por excesso de loquacidade e por excesso de reticência. Eu não queria dizer que é necessário esconder as fontes da ciência. Isso me parece antes um grande mal. Queria dizer que, em se tratando de arcanos dos quais pode nascer tanto o bem como o mal, o sábio tem o direito e o dever de usar uma linguagem obscura, compreensível somente a seus pares. O caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem do mal."

Umberto Eco
In: O Nome da Rosa
Editora: Record, 1986
págs. diversas

Ponderação do Rosto e Olhos de Anarda
Quando vejo de Anarda o rosto amado,
vejo ao céu e ao jardim ser parecido
porque no assombro do primor luzido
tem o sol em seus olhos duplicado.
Nas faces considero equivocado
de açucenas e rosas o vestido;
porque se vê nas faces reduzido
todo o império de Flora* venerado.
Nos olhos e nas faces mais galharda
ao céu prefere quando inflama os raios,
e prefere ao jardim, se as flores guarda:
enfim dando ao jardim e ao céu desmaios,
o céu ostenta um sol, dois sóis Anarda,
um maio o jardim logra; ela dois maios.
Manuel Botelho de Oliveira
In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 138
* (Mit.) Divindade romana que presidia a floração primaveril.

713.789
O bom das segundas-feiras, do primeiro de cada mês e do Primeiro do Ano é que nos dão a ilusão de que a vida se renova... Que seria de nós se a folhinha estivesse marcando hoje o dia 713.789 da Era Cristã? 
Mario Quintana
In: Mario Quintana - Poesia Completa, Nova Aguilar (Da Preguiça como Metodo de Trabalho), p. 648

Que é - simpatia
Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.
Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.
São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.
Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!
Casimiro de Abreu

MORNING AT THE WINDOW
They are rattling breakfast plates in basement kitchens,
And along the trampled edges of the street
I am aware of the damp souls of housemaids
Sprouting despondently at area gates.
The brown waves of fog toss up to me
Twisted faces from the bottom of the street,
And tear from a passer-by with muddy skirts
An aimless smile that hovers in the air
And vanishes along the level of the roofs.
* * *
MANHÃ À JANELA
Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.
As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

T. S. Eliot
Tradução: Ivan Junqueira

"Aprendi que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Isso ajudou-me muito na vida, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas verticais..."

Albert Camus
In: Futebol: sol e sombra, de Eduardo Galeano, editado pela Livros de Areia, 2006. Edição original: El futbol a sol y sombra (1995).

São Paulo, 1º de setembro de 1978.
"Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor. Nunca amei uma pessoa. E tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho, por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês. Um dia, vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil: vou ser o mais feliz de vocês. Henfil"

In: Cartas da Mãe
Ed. Codecri, 1980.
Assista aqui as três partes do documentário 'Cartas da mãe' (Fernando Kinas & Marina Willer - 2003) sobre o Brasil dos últimos 30 anos contada através das cartas que o cartunista Henfil escreveu para sua mãe, Dona Maria. Estas cartas, publicadas em livros e jornais, são lidas pelo ator e diretor Antônio Abujamra enquanto desfilam imagens do Brasil contemporâneo. Política, cultura, amigos e amor são alguns dos temas que elas evocam, criando um diálogo entre o passado recente do Brasil e nossa situação atual:
http://br.youtube.com/watch?v=VUgpEL9Cauo
http://br.youtube.com/watch?v=hU8tTMxKPMo
http://br.youtube.com/watch?v=3N0CQdK_6po

Manhã
acordei - ela dormia
amanhecia
a coberta ao lado
ela encolhida
cobri-lhe
ela se ajeitou
gemeu de mansinho
como quando um carinho
lhe faço
talvez o cansaço
não deixe que desperte
dormindo ela é arte
depois que o sol
fizer o dia invadir o quarto
a luz alterará as cores
e se fará outra estrofe
com seu despertar
Cesar Veneziani
(17/01/2009)
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

Soneto 141
Sendo sincero, não te amo com meus olhos
que em ti notam mil erros no cotejo;
mas ama o coração esses escolhos,
a adorar-te apesar do que ora vejo.
Nem de ouvi-lo teu tom de voz me prende,
Nem terno instinto pede baixo abrigo,
nem gosto ou cheiro o meu desejo acende
de festa sensual a sós contigo.
Mas cinco humores, cinco sentidos tomem,
que ao coração não hão-de desviá-lo
de te servir, descontrolando um homem,
escravo de teu peito e teu vassalo.
Só o meu mal posso contar por ganho;
de quem me faz pecar, o mal apanho.

William Shakespeare

Fico te olhando
Entre espanto e medo
Me irrito e enterneço ante tua dependência passiva
Você que ainda não me olha
Já grita na minha barriga, me transforma
E observo no meu corpo
Me pergunto se já reclamas mais espaço
No meu pescoço um laço
Não quero te tratar como um prêmio
Nem te oferecer em sacrifício
Nem te fazer produto de um vício de amor
Quando mais te pressinto é na insônia, na taquicardia
Quase te ouço respirar
Transpiro, louca tento te adivinhar
Pulsas no meu sangue como um peixe pula no mar
Te desejo
Tenho medo do poder de te matar
Teu grito acorda as noites que se embaralham nos nós das redes
Puxo feroz contra as marés
A ver se agarro duas estrelas
Te ofereço... Te enfeito os pés
Débora Duarte
Praia de Morigasaki
Estou com meu amigo
na praia de Morigasaki.
Forte é o perfume do mar,
frente às ondas que se afastam.
Temos dezenove anos.
Que caminho seguiremos?
Ficamos filosofando
enquanto as horas se vão.
Meu amigo se perturba
no seu jeito desvalido:
"O que eu quero seguir
é o caminho de Cristo!"
No luar, os olhos brilham,
bate firme o coração:
as ondas chegam de novo.
No barranco que desmorona
a relva ainda cresce espessa.
Não sei que insetos zunem.
Vamos compor hoje à noite
alguns poemas ou canções?
Nossa música terá
o tom das antigas cortes?
Nada diz o meu amigo.
Que caminho escolherei
para que eu chegue a voar
lá pelos jardins da lua?
O amigo enxuga as lágrimas.
Reparto a sua tristeza,
sua solidão. Mas me ergo
e lhe peço que façamos uma jura:
a de enfrentar a vida,
a de amar a vida,
ainda que ela nos doa.
Então o amigo sorri:
"Comigo podes contar!"
Um mundo bem diferente
o meu amigo procura.
Mas eu tenho o meu caminho.
Num palco uma canção nova
Que nunca chega ao seu fim
e os cabelos ficam brancos
conversando com a lua.
Boa sorte, meu amigo.
Em nosso primeiro encontro -
quando há de ser ninguém sabe -
Silenciosos partiremos
para diferentes rumos.
Ondas de prata vão e vêm
na praia de Morigasaki.

Daisaku Ikeda
In: Cantos do Meu Coração, Poemas e Fotografias de Daisaku Ikeda, Rio de Janeiro, Editora Record, 1995. págs. 29-30

Oração do Perdão
Buscando eliminar todos os bloqueios que atrapalham minha evolução, dedicarei alguns minutos para perdoar. A partir deste momento, eu perdôo todas as pessoas que de alguma forma me ofenderam, injuriaram, prejudicaram ou causaram dificuldades desnecessárias. Perdôo, sinceramente, quem me rejeitou, odiou, abandonou, traiu, ridicularizou, humilhou, amedrontou, iludiu.
Perdôo, especialmente, quem me provocou até que eu perdesse a paciência e reagisse violentamente, para depois me fazer sentir vergonha, remorso e culpa inadequada. Reconheço, que também fui responsável pelas agressões que recebi, pois várias vezes confiei em indivíduos negativos, permiti que me fizessem de bobo e descarregassem sobre mim seu mau caráter.
Por longos anos suportei maus tratos, humilhações, perdendo tempo e energia, na tentativa inútil de conseguir um bom relacionamento com essas criaturas.
Já estou livre da necessidade compulsiva de sofrer, e livre da obrigação de conviver com indivíduos e ambientes tóxicos. Iniciei agora, uma nova etapa de minha vida, em companhia de gente amiga, sadia e competente: quero compartilhar sentimentos nobres, enquanto trabalhamos pelo progresso de todos nós.
Jamais voltarei a me queixar, falando sobre mágoas e pessoas negativas. Se por acaso pensar nelas, lembrarei que já estão perdoadas e descartadas de minha vida íntima definitivamente. Agradeço pelas dificuldades que essas pessoas me causaram, que me ajudaram a evoluir, do nível humano comum ao espiritualizado em que estou agora.
Quando me lembrar das pessoas que me fizeram sofrer, procurarei valorizar suas boas qualidades e pedirei ao Criador que as perdoe também, evitando que sejam castigadas pela lei da causa e efeito, nesta vida ou em outras futuras. Dou razão a todas as pessoas que rejeitaram o meu amor e minhas boas intenções, pois reconheço que é um direito que assiste a cada um me repelir, não me corresponder e me afastar de suas vidas.
(Fazer uma pausa, respirar profundamente algumas vezes, para acúmulo de energia).
Agora, sinceramente, peço perdão a todas as pessoas a quem, de alguma forma, consciente e inconscientemente, eu ofendi, injuriei, prejudiquei ou desagradei. Analisando e fazendo julgamento de tudo que realizei ao longo de toda a minha vida, vejo que o valor das minhas boas ações é suficiente para pagar todas as minhas dívidas e resgatar todas as minhas culpas, deixando um saldo positivo a meu favor.
Sinto-me em paz com minha consciência e de cabeça erguida respiro profundamente, prendo o ar e me concentro para enviar uma corrente de energia destinada ao Eu Superior. Ao relaxar, minhas sensações revelam, que este contato foi estabelecido.
Agora dirijo uma mensagem de fé ao meu Eu Superior, pedindo orientação, em ritmo acelerado, de um projeto muito importante que estou mentalizando e para o qual já estou trabalhando com dedicação e amor.
Agradeço de todo o coração, a todas as pessoas que me ajudaram e comprometo-me a retribuir trabalhando para o meu bem e do próximo, atuando como agente catalisador do entusiasmo, prosperidade e auto realização. Tudo farei em harmonia com as leis da natureza e com a permissão do nosso Criador, eterno, infinito, indescritível que eu, intuitivamente, sinto como o único poder real, atuante dentro e fora de mim.
Assim seja, assim é e assim será.
Observação: Orar diariamente, após o banho e antes de dormir. Pedir para que durante o sono recebas sabedoria divina, compaixão divina e força divina. Jamais durma com o corpo físico "sujo" e sem alimentar a alma. Orações e mantras são alimentos da alma.

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