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Fernando Pessoa: 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nela é que espelhou o céu.

Fernando Pessoa

In: Poesias
Seleção de Sueli Barros Cassal
L&PM Pocket, Porto Alegre, 2009
p. 11



- Postado por: Rodrigo às 13h39
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Fernando Pessoa: 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935

Ó sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Extraído do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética - Cancioneiro", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 140.



- Postado por: Rodrigo às 12h17
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Fernando Pessoa: 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935

Isto

Dizem que finjo ou minto
Tudo que escrevo. Não.
Eu simplesmente sinto
Com a imaginação.
Não uso o coração.

Tudo o que sonho ou passo,
O que me falha ou finda,
É como que um terraço
Sobre outra coisa ainda.
Essa coisa é que é linda.

Por isso escrevo em meio
Do que não está ao pé,
Livre do meu enleio,
Sério do que não é.
Sentir? Sinta quem lê!

Fernando Pessoa

In: Poesias
Seleção de Sueli Barros Cassal
L&PM Pocket, Porto Alegre, 2009
p. 43



- Postado por: Rodrigo às 12h11
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Oscar Wilde: 16 de outubro de 1854 — 30 de novembro de 1900

"[...] Até hoje dificilmente o Homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade. ... tal solidariedade (na dor) é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida na sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na saúde e na liberdade. ... Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por uma amigo, mas é preciso uma natureza muito superior ... para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo. [...]"

Oscar Wilde

In: O Retrato de Dorian Gray
Traduzido por Enrico Corvisieri,
Editora Nova Cultural, 2003



- Postado por: Rodrigo às 12h01
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Cartola: 11 de outubro de 1908 — 30 de novembro de 1980

AS ROSAS NÃO FALAM

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim

Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim

Queixo-me às rosas, que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai

Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos por fim...

Composição: Cartola

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=BSObDOETrgU



- Postado por: Rodrigo às 11h59
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William Blake: 28 de novembro de 1757 — 12 de agosto de 1827

O Tigre

Tigre, tigre que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?

Em que longínquo abismo, em que remotos céus
Ardeu o fogo de teus olhos ?
Sobre que asas se atreveu a ascender ?
Que mão teve a ousadia de capturá-lo ?
Que espada, que astúcia foi capaz de urdir
As fibras do teu coração ?

E quando teu coração começou a bater,
Que mão, que espantosos pés
Puderam arrancar-te da profunda caverna,
Para trazer-te aqui ?
Que martelo te forjou ? Que cadeia ?
Que bigorna te bateu ? Que poderosa mordaça
Pôde conter teus pavorosos terrores ?

Quando os astros lançaram os seus dardos,
E regaram de lágrimas os céus,
Sorriu Ele ao ver sua criação ?
Quem deu vida ao cordeiro também te criou ?

Tigre, tigre, que flamejas
Nas florestas da noite.
Que mão, que olho imortal
Se atreveu a plasmar tua terrível simetria ?

William Blake

Tradução de Ângelo Monteiro



- Postado por: Rodrigo às 11h54
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Coelho Neto: 21 de fevereiro de 1864 — 28 de novembro de 1934

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.

Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!

Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!

Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto



- Postado por: Rodrigo às 11h48
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Érico Veríssimo: 17 de dezembro de 1905 — 28 de novembro de 1975

O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" - murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

Érico Veríssimo

In: Solo de clarineta - Memórias
(1º volume) - 1973



- Postado por: Rodrigo às 11h44
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Carlos Drummond de Andrade - O homem observado

O HOMEM OBSERVADO

O pardal pousou na janela e ficou espiando o interior do quarto, onde havia muitos livros.

O homem, debruçado sobre a mesa, não percebeu a chegada do pardal.

Ao olhar distraidamente na direção da janela, viu o pássaro imóvel e observador.

O homem não se alterou. Prosseguiu no trabalho, que era o de tirar coisas invisíveis da cabeça e colocá-las no papel.

O pardal prestava atenção ao movimento do braço e da cabeça, que às vezes havia um sinal afirmativo, outras negativo. Também reparou que os lábios dele ora se contraíam ora esboçavam um sorriso.

Nisto passou bem meia hora. O pardal não tinha pressa, e o homem continuava na sua operação. De repente, o homem pegou do papel onde botava as coisas invisíveis que tirava do cérebro e, com um gesto brusco, fez dele uma bola e atirou-a ao chão.

- Diabo desse pardal que não me deixa escrever o que eu quero! – exclamou.

- Eu estava achando linda a brincadeira deste homem, e ele me assustou – queixou-se o pardal, batendo em retirada.

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade - Prosa Completa
Contos Plausíveis
Editora Nova Aguilar
p. 142-3



- Postado por: Rodrigo às 08h58
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Apparício Torelly: 29 de janeiro de 1895 – 27 de novembro de 1971

Máximas do Barão de Itararé

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.

Quem empresta, adeus...

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

Quando pobre come frango, um dos dois está doente.

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.

Quem só fala dos grandes, pequeno fica.

Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.

Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra ).

Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Os juros são o perfume do capital.

Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.

Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.

Cobra é um animal careca com ondulação permanente.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.

É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.

A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.

Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.

O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

Mulher moderna calça as botas e bota as calças.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Pão, quanto mais quente, mais fresco.

A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Barão de Itararé (Apparício Torelly)

Extraído de "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé", Distribuidora  Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1985, págs. 27 e 28, coletânea organizada por Afonso Félix de Souza.



- Postado por: Rodrigo às 08h50
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Raduan Nassar: 27 de novembro de 1935

"O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero."

Raduan Nassar

In: Lavoura Arcaica (1975)



- Postado por: Rodrigo às 08h48
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Marceline Desbordes-Valmore - Les Roses de Saadi

As Rosas de Saadi

Quis, de manhã, trazer-te as rosas que colhi;
Porém, tantas eu pus nas cintas que cingi
Que os apertados nós não puderam contê-las.

Rebentaram os nós. As rosas que voaram
No vento para o mar juntamente rumaram.
Depois, seguiram a água e não voltei a vê-las.

Tomando rubra cor, as vagas se inflamaram:
E as minhas roupas, ah, o quão se perfumaram...
É noite, sente em mim o saudoso odor delas.

Marceline Desbordes-Valmore

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Concepção e Tradução de Renta Cordeiro
São Paulo, Ed. Landy, 2002
p. 42



- Postado por: Rodrigo às 20h27
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Augusto Gil - Balada da Neve

BALADA DA NEVE

Batem leve, levemente,
como quem chama por mim.
Será chuva? Será gente?
Gente não é, certamente
e a chuva não bate assim.

É talvez a ventania:
mas há pouco, há poucochinho,
nem uma agulha bulia
na quieta melancolia
dos pinheiros do caminho...

Quem bate, assim, levemente,
com tão estranha leveza,
que mal se ouve, mal se sente?
Não é chuva, nem é gente,
nem é vento com certeza.

Fui ver. A neve caía
do azul cinzento do céu,
branca e leve, branca e fria...
– Há quanto tempo a não via!
E que saudades, Deus meu!

Olho-a através da vidraça.
Pôs tudo da cor do linho.
Passa gente e, quando passa,
os passos imprime e traça
na brancura do caminho...

Fico olhando esses sinais
da pobre gente que avança,
e noto, por entre os mais,
os traços miniaturais
duns pezitos de criança...

E descalcinhos, doridos...
a neve deixa inda vê-los,
primeiro, bem definidos,
depois, em sulcos compridos,
porque não podia erguê-los!...

Que quem já é pecador
sofra tormentos, enfim!
Mas as crianças, Senhor,
porque lhes dais tanta dor?!...
Porque padecem assim?!...

E uma infinita tristeza,
uma funda turbação
entra em mim, fica em mim presa.
Cai neve na Natureza
– e cai no meu coração.

Augusto Gil

In: Luar de Janeiro, 1909



- Postado por: Rodrigo às 00h45
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Gregório de Matos: 7 de abril de 1636[?] — 26 de novembro de 1696

SACRA

A Jesus Cristo Nosso Senhor

Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Porque quanto mais tenho delinqüido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida e já cobrada
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na sacra história,

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, pastor divino,
perder na vossa ovelha a vossa glória.

* * *

Anjo no nome, Angélica na cara

Anjo no nome, Angélica na cara
Isso é ser flor, e Anjo juntamente
Ser Angélica flor, e Anjo florente
Em quem, se não em vós se uniformara?

Quem veria uma flor, que a não cortara
De verde pé, de rama florescente?
E quem um Anjo vira tão luzente
Que por seu Deus, o não idolatrara?

Se como Anjo sois dos meus altares
Fôreis o meu custódio, e minha guarda
Livrara eu de diabólicos azares

Mas vejo, que tão bela, e tão galharda
Posto que os Anjos nunca dão pesares
Sois Anjo, que me tenta, e não me guarda

* * *

REPROVAÇÕES

Se sois homem valoroso,
Dizem que sois temerário,
Se valente, espadachim,
E atrevido, se esforçado.

Se resoluto, - arrogante,
Se pacífico, sois fraco,
Se precatado, - medroso,
E se o não sois, confiado.

Se honesto sois, não sois homem,
Impotente, se sois casto,
Se não namorais, fanchono,
Se o fazeis, sois estragado.

Se não luzis, não sois gente,
Se luzis, sois mui pregado,
Se pedis, sois pobretão,
E se não, fazeis Calvários.

Se andais devagar, mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, efeminado.

Se falais muito, palreiro,
Se falais pouco, sois tardo,
Se em pé, não tendes assento,
Preguiçoso, se assentado.

E assim não pode viver
Neste Brasil infestado,
Segundo o que vos refiro
Quem não seja reprovado.

Gregório de Matos

In: Poemas Satíricos - Gregório de Matos
Ed. Martin Claret, 2002



- Postado por: Rodrigo às 00h33
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Mário Lago: 26 de novembro de 1911 - 30 de maio de 2002

“Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo:
nem ele me persegue, nem eu fujo dele.
Um dia a gente se encontra.”

Mário Lago

(última entrevista ao Jornal do Brasil)

* * *

ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Covarde, sei que me podem chamar
Porque não calo no peito esta dor
Atire a primeira pedra ai, ai, ai
Àquele que não sofreu por amor

Eu sei que vão censurar o meu proceder
Eu sei, mulher, que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar
Ai, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir

Composição: Ataulfo Alves e Mário Lago

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=LGZQbEcHgPs



- Postado por: Rodrigo às 00h24
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Clarice Lispector - Aprendendo a viver

Mas há vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata.

Clarice Lispector

In: Aprendendo a viver
Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 2004
p. 164



- Postado por: Rodrigo às 09h23
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José Rodrigues Trindade: 25 de novembro de 1947 — 21 de maio de 2009

Casa No Campo

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

Composição: Zé Rodrix e Tavito

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=75LcZFvLRrQ



- Postado por: Rodrigo às 09h15
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Robert Fulghum - All I Really Need to Know I Learned in Kindergarten

"TUDO O QUE HOJE PRECISO REALMENTE SABER, APRENDI NO JARDIM DE INFÂNCIA"

          Tudo o que hoje preciso realmente saber, sobre como viver, o que fazer e como ser, eu aprendi no jardim de infância. A sabedoria não se encontrava no topo de um curso de pós-graduação, mas no montinho de areia da escola de todo dia. Estas são as coisas que aprendi lá:

1. Compartilhe tudo.
2. Jogue dentro das regras.
3. Não bata nos outros.
4. Coloque as coisas de volta onde pegou.
5. Arrume sua bagunça.
6. Não pegue as coisas dos outros.
7. Peça desculpas quando machucar alguém.
8. Lave as mãos antes de comer.
9. Dê descarga. (esse é importante)
10. Biscoitos quentinhos e leite fazem bem para você.
11. Respeite o outro.
12. Leve uma vida equilibrada: aprenda um pouco, pense um pouco... desenhe... pinte... cante... dance... brinque... trabalhe um pouco todos os dias.
13. Tire uma soneca a tarde; (isso é muito bom)
14. Quando sair, cuidado com os carros.
15. Dê a mão e fique junto.
16. Repare nas maravilhas da vida.
17. O peixinho dourado, o hamster, o camundongo branco e até mesmo a sementinha no copinho plástico, todos morrem... nós também.
18. Agradeça a Deus antes de dormir (seja lá qual for sua crença)

          Pegue qualquer um desses itens, coloque-os em termos mais adultos e sofisticados e aplique-os à sua vida familiar, ao seu trabalho, ao seu governo, ao seu mundo e ai verá como ele é verdadeiro, claro e firme. Pense como o mundo seria melhor se todos nós, no mundo todo, tivéssemos biscoitos e leite todos os dias por volta das três da tarde e pudéssemos nos deitar com um cobertorzinho para uma soneca. Ou se todos os governos tivessem como regra básica devolver as coisas ao lugar em que elas se encontravam e arrumassem a bagunça ao sair. Ao sair para o mundo é sempre melhor darmos as mãos e ficarmos juntos.

Robert Fulghum

Sítio do escritor: http://www.robertfulghum.com/



- Postado por: Rodrigo às 09h13
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J. Maria Eça de Queirós: 25 de novembro de 1845 – 16 de agosto de 1900

"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho"

Eça de Queirós

In: O Primo Basílio


 Marisa Monte – Amor I love you:
http://www.youtube.com/watch?v=ni-tGSSYqyo



- Postado por: Rodrigo às 09h06
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Tom Jobim - Desafinado

Desafinado

Quando eu vou cantar, você não deixa
E sempre vêm a mesma queixa
Diz que eu desafino, que eu não sei cantar
Você é tão bonita, mas tua beleza também pode se enganar

Se você disser que eu desafino amor
Saiba que isto em mim provoca imensa dor
Só privilegiados têm o ouvido igual ao seu
Eu possuo apenas o que Deus me deu

Se você insiste em classificar
Meu comportamento de anti-musical
Eu mesmo mentindo devo argumentar
Que isto é Bossa Nova, isto é muito natural

O que você não sabe nem sequer pressente
É que os desafinados também têm um coração
Fotografei você na minha Rolley-Flex
Revelou-se a sua enorme ingratidão

Só não poderá falar assim do meu amor
Este é o maior que você pode encontrar
Você com a sua música esqueceu o principal
Que no peito dos desafinados
No fundo do peito bate calado
Que no peito dos desafinados também bate um coração

Composição: Tom Jobim

 Ouça esta música aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=n81JA6xSbcs



- Postado por: Rodrigo às 20h42
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Mario Quintana - Pequeno Esclarecimento

Pequeno Esclarecimento

Os poetas não são azuis nem nada, como pensam alguns supersticiosos, nem sujeitos a ataques súbitos de levitação. O de que eles mais gostam é estar em silêncio - um silêncio que subjaz a quaisquer escapes motorísticos e declamatórios. Um silêncio... Este impoluível silêncio em que escrevo e em que tu me lês.

Mario Quintana

In: Mario Quintana - Poesia Completa
A vaca e o hipogrifo
Editora Nova Aguilar
p. 525-6



- Postado por: Rodrigo às 09h10
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António Gedeão: 24 de Novembro de 1906 — 19 de Fevereiro de 1997

Lágrima de preta
  
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para a analisar.

Recolhi a lágrima
com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.

Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.

Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.

Ensaiei a frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:

nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.

 Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=WC6UecdUPSw

* * *

Pedra Filosofal

Eles não sabem que o sonho
é uma constante da vida
tão concreta e definida
como outra coisa qualquer,
como esta pedra cinzenta
em que me sento e descanso,
como este ribeiro manso
em serenos sobressaltos,
como estes pinheiros altos
que em verde e oiro se agitam,
como estas aves que gritam
em bebedeiras de azul.

Eles não sabem que o sonho
é vinho, é espuma, é fermento,
bichinho álacre e sedento,
de focinho pontiagudo,
que fossa através de tudo
num perpétuo movimento.
 
Eles não sabem que o sonho
é tela, é cor, é pincel,
base, fuste, capitel,
arco em ogiva, vitral,
pináculo de catedral,
contraponto, sinfonia,
máscara grega, magia,
que é retorta de alquimista,
mapa do mundo distante,
rosa-dos-ventos, Infante,
caravela quinhentista,
que é cabo da Boa Esperança,
ouro, canela, marfim,
florete de espadachim,
bastidor, passo de dança,
Colombina e Arlequim,
passarola voadora,
pára-raios, locomotiva,
barco de proa festiva,
alto-forno, geradora,
cisão do átomo, radar,
ultra-som, televisão,
desembarque em foguetão
na superfície lunar.
 
Eles não sabem, nem sonham,
que o sonho comanda a vida,
que sempre que um homem sonha
o mundo pula e avança
como bola colorida
entre as mãos de uma criança.

António Gedeão

 Ouça este poema por Manuel Freire:
http://www.youtube.com/watch?v=2DA-mzhk0s4



- Postado por: Rodrigo às 09h05
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João da Cruz e Sousa: 24 de novembro de 1861 — 19 de março de 1898

Amor

Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.

Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...

E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor -- na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.

Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!

Cruz e Souza



- Postado por: Rodrigo às 08h51
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Luís Carlos Mordegane - Voz do coração

Voz do coração

Se amares profundamente
Jamais terás do que te arrepender.
Muitas são as vezes
Em que as pessoas choram
Por não terem ao menos
Tentado ir em frente.
Outras, choram por não terem
Deixado uma sólida base
Para poderem retornar.
Porém, quem manda é o coração...
Faças tudo que ele mandar,
Solta-te, sorria, seja feliz!
Faz do teu hoje,
O melhor e o mais feliz
Dia da tua vida.
Nunca esquecendo
Que ele não vai voltar
E que, o ideal será lembrá-lo
Com a alegria advinda das coisas boas.
Pois o amanhã está por vir
E o caminho a ser percorrido,
Será de luz e harmonia
Se caminhares ao lado
Da pessoa amada.
Jamais menosprezes
Os presentes que recebes do Pai.
Mereces o melhor!... Creia.
Sempre serão Suas palavras,
Aquelas, ditas com a voz do coração.

Luís Carlos Mordegane

Fonte: http://mordegane.com.br/index.php?option=com_content&task=category§ionid=1&id=13&Itemid=29



- Postado por: Rodrigo às 20h57
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Cesar Veneziani - Forma

Forma

Se a forma te torna
beleza fora de norma,
e a alma plena te faz serena
musa em prosa ou poema,
resta aos instintos meus
ante os prodígios teus
dar graças a Deus!


(17/11/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h34
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Cecília Meireles - Serenata

Serenata

Permita que eu feche os meus olhos,
pois é muito longe e tão tarde!
Pensei que era apenas demora,
e cantando pus-me a esperar-te.

Permite que agora emudeça:
que me conforme em ser sozinha.
Há uma doce luz no silencio,
e a dor é de origem divina.

Permite que eu volte o meu rosto
para um céu maior que este mundo,
e aprenda a ser dócil no sonho
como as estrelas no seu rumo.

Cecília Meireles



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Adoniran Barbosa: 6 de agosto de 1910 — 23 de novembro de 1982

Tiro ao Alvaro

De tanto leva "frechada" do teu olhar
Meu peito até parece sabe o quê?
"Táubua" de tiro ao Álvaro
Não tem mais onde fura

Teu olhar mata mais do que bala de carabina
Que veneno estriquinina
Que peixeira de baiano
Teu olhar mata mais que atropelamento de "automóver"
Mata mais que bala de "revórver"

Composição: Adoniran Barbosa

 Ouça esta música por Elis Regina aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ACg4OxVDr_w



- Postado por: Rodrigo às 10h07
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Sathya Sai Baba (23 de novembro de 1926)

“O silêncio é a única linguagem do homem realizado. Pratiquem moderação no falar. Isto irá ajudá-los de muitas formas. Isto vai desenvolver Prema (Amor Divino), pois muitos desentendimentos e separações surgem de palavras descuidadas. Quando seus pés escorregam, a ferida pode sarar; mas quando a língua escorrega, a ferida causada no coração de outros durará por toda vida. A língua é responsável por quatro grandes erros: falsidade, escândalo, encontrar faltas nos demais e falar demasiadamente. Todos estes males devem ser exterminados para que exista Shanti (Paz) para o indivíduo, bem como para a sociedade.”

Sathya Sai Baba

Fonte: http://www.sathyasai.org.br/ensinamentos/



- Postado por: Rodrigo às 10h00
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

37.

o tempo traz
o tempo tira
o tempo falta
o tempo vigora
o tempo voa
o tempo não passa
o tempo é a favor ou contra
conforme a hora

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 45



- Postado por: Rodrigo às 10h48
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Elisa Lispector - A Última Porta

"Justamente daquilo que me induz ao silêncio é que é preciso falar, porque o silêncio não esvaziado da carga que as palavras contêm em si, em vez de aplacar o sofrimento, me estrangularia. Falando, sei que me exponho. No entanto, apego-me às palavras porque ainda constituem o meu único sustentáculo"

Elisa Lispector

In: A Última Porta
p. 111



- Postado por: Rodrigo às 10h46
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Fernando Pessoa - Sou um evadido

Sou um evadido

Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.

Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?

Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.

Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.

5-4-1931

Fernando Pessoa

In: Poesias Inéditas, (1930-1935). 
Lisboa: Ática, 1955



- Postado por: Rodrigo às 10h41
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André Gide: 22 de novembro de 1869 — 19 de fevereiro de 1951

Timidamente [...], com medo de que você se aproxime de mim, eu me mantenho bem longe.

[...] Então você vem, apesar de tudo, e eu não posso mais fugir, e a sua mão pega a minha mão inutilmente fugitiva, depois devagar e com ternura a acaricia. [...]

E você ficava de olhos baixos; eu tentava me desvencilhar, em vão, da sua mão obstinadamente terna.

E tudo isso era tão estranhamente doce que eu acordei como de um pesadelo.

André Gide

In: Les cahiers d'André Walter.
"Bibliothèque de la Pléiade".
Paris: Gallimard, 1986
p. 85-86



- Postado por: Rodrigo às 10h00
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Manuel Bandeira - Versos Escritos n`Água

Versos Escritos n`Água

Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.

Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...

Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.

Manuel Bandeira

In: Estrela da Vida Inteira – Poesias Reunidas,
7a. ed. - Livraria José Olympio Editora, 1979



- Postado por: Rodrigo às 11h50
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Adelino Fontoura - Atração e Repulsão

ATRAÇÃO E REPULSÃO

Eu nada mais sonhava nem queria
Que de ti não viesse, ou não falasse;
E como a ti te amei, que alguém te amasse,
Coisa incrível até me parecia.

Uma estrela mais lúcida eu não via
Que nesta vida os passos me guiasse,
E tinha fé, cuidando que encontrasse,
Após tanta amargura, uma alegria.

Mas tão cedo extinguiste este risonho,
Este encantado e deleitoso engano,
Que o bem que achar supus, já não suponho.

Vejo, enfim, que és um peito desumano;
Se fui até junto a ti de sonho em sonho,
Voltei de desengano em desengano.

Adelino Fontoura

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 11h45
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Carrego o peso da lua,
Três paixôes mal curadas,
Uma saara de páginas
Essa infinita madrugada.

Viver de noite
Me faz senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.

Esse, eu mesmo carrego.

Paulo Leminski



- Postado por: Rodrigo às 11h43
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Voltaire: 21 de Novembro de 1694 - 30 de Maio de 1778

"Os voluptuosos careiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantém relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos."

Voltaire

In: Dicionário Filosófico.
São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.
p. 23



- Postado por: Rodrigo às 11h33
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Olhos Nos Olhos - Chico Buarque

Olhos Nos Olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Composição: Chico Buarque

Ouça esta música aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=tNe3HqZiyyw



- Postado por: Rodrigo às 10h40
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Cesar Veneziani - Às vezes feliz

Às vezes feliz

Hoje me peguei feliz,
me perdoem mas é verdade.
Às vezes isso acontece...
O colorido de uma flor,
as nuvens com o céu, com o Sol,
o sorriso de uma criança,
um objetivo alcançado,
um beijo/carinho de alguém especial...
Às vezes algum destes eventos
desencadeia um estado de alegria,
de satisfação,
de bem-estar,
que entorpece e transforma,
faz crer em coisas não críveis,
faz nascer um sentimento de euforia,
bolsões de esperança
que preenchem os interstícios que separam
a mediocridade dos dias...

Cesar Veneziani

In: Asas
Editora UTOPIA, 2009
p. 41

 "Às vezes feliz" – Cesar Veneziani
http://www.youtube.com/watch?v=iSl3YKNWvZo

+ http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h34
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Leon Tolstoi: 9 de setembro de 1828 - 20 de novembro de 1910

"Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça de petróleo e de carvão; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão... Porque até na cidade, a Primavera é Primavera."

Leon Tolstoi

In: Ressurreição (1899)



- Postado por: Rodrigo às 10h32
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João Guimarães Rosa: 27 de junho de 1908 — 19 de novembro de 1967

 

"Amor perdido é amor que não foi achado: não-amor. Não o amor-mor, o mor amor. Mas falso amor, algum engano. O falso amor é um biombo, o mor-amor é um ribombo."

João Guimarães Rosa

In: Ave, Palavra.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1978, 2ª ed.
p. 25



- Postado por: Rodrigo às 08h40
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João Guimarães Rosa: 27 de junho de 1908 — 19 de novembro de 1967

"Amor é mistério sem fim:
não existe o que explique".

Rabindranath Tagore

_________________

"Sionésio e Maria Exita - a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse o dia de Todos os Pássaros."

João Guimarães Rosa

In: Primeiras Estórias.
Rio de janeiro, Nova Fronteira, 1995, 25ª ed.
p. 142



- Postado por: Rodrigo às 08h40
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João Guimarães Rosa: 27 de junho de 1908 — 19 de novembro de 1967

Um chamado João

João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?

“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender? “ 

Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?

Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?

João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?

E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos? 

Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino? 

Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?  

Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Carlos Drummond de Andrade

Publicado no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1968.



- Postado por: Rodrigo às 08h36
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João Guimarães Rosa: 27 de junho de 1908 — 19 de novembro de 1967

Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.

João Guimarães Rosa

In: Grande Sertão: Veredas



- Postado por: Rodrigo às 08h36
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Emma Lazarus: 22 de julho de 1849 — 19 de novembro de 1887

The New Colossus

Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tossed to me,
I lift my lamp beside the golden door!"

* * *

O Novo Colosso

Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com membros conquistadores a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher majestosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
"Mantenham antigas terras sua pompa histórica!" grita ela
Com lábios silentes. "Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres,
As vossas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado."

1883

Emma Lazarus



- Postado por: Rodrigo às 08h33
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Toquinho / Vinicius de Moraes - Sei lá... a vida tem sempre razão

Sei lá... a vida tem sempre razão

Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.

Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.

A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.

De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.

Composição: Toquinho / Vinicius de Moraes

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=bK1kgWp65IA



- Postado por: Rodrigo às 21h41
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Marcel Proust: 10 de Julho de 1871 - 18 de Novembro de 1922

Muitas vezes não prestamos bastante atenção, no momento, em coisas que já então podiam parecer-nos importantes; não ouvimos bem uma frase, não notamos um gesto, ou senão os esquecemos. E quando, mais tarde, ávidos por descobrir a verdade, remontamos em dedução, folheando nossa memória como uma coleção de testemunhos, chegamos a essa frase, a esse gesto, é impossível nos lembrarmos; recomeçamos vinte vezes o mesmo trajeto, mas inutilmente: o caminho não vai mais adiante.

Marcel Proust

In: A Fugitiva (1925)

(Arte: Jeune homme à la fenêtre - G. Caillebotte)



- Postado por: Rodrigo às 09h36
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Cora Coralina - Mãe

Mãe

Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.

Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.

Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

Cora Coralina



- Postado por: Rodrigo às 09h01
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Richard Carlson - Sinta-se à vontade por não saber

SINTA-SE À VONTADE POR NÃO SABER (76)

Existiu, certa vez, uma aldeia que contava, entre seus habitan­tes, com um velho homem muito sábio. Os aldeões contavam com a sabedoria desse homem para provê-los de respostas a suas perguntas e preocupações.

Um dia, um fazendeiro da aldeia foi ao homem sábio e disse, num tom frenético: "Homem sábio, me ajude. Uma coisa horrível me aconteceu. Meu boi morreu e eu não tenho outro animal para me ajudar a arar o campo! Esta não é a pior coisa que poderia me acontecer?" O homem sábio respondeu: "Talvez sim, talvez não." O homem correu de volta para a aldeia e contou a seus vizinhos que o homem sábio tinha fica­do maluco. Estava claro que esta era a pior coisa que poderia lhe ter sucedido. Por que será que ele não via isso?

No dia seguinte, no entanto, um cavalo jovem e forte foi visto nas proximidades da fazenda do homem. Como ele não tivesse nenhum boi para ajudá-lo, ele teve a ideia de aproveitar o cavalo para o lugar do boi - e foi o que fez. Que felicidade para o fazendeiro! Nunca arar um campo tinha sido tão fácil. Ele voltou ao homem sábio, para se desculpar. "Você estava certo, homem sábio. Perder meu boi não foi a pior coisa que po­deria me acontecer. Foi uma bênção disfarçada! Eu nunca poderia ter capturado meu novo cavalo se isso não me tivesse acontecido. Você há de concordar que esta é a melhor coisa que poderia ter ocorrido." O homem sábio tornou a dizer: "Talvez sim, talvez não." De novo, não, pensou o fazendeiro. Agora não havia dúvidas que o homem sábio estava enlouquecendo.

Mais uma vez, no entanto, o fazendeiro não sabia o que o aguardava. Alguns dias mais tarde, o filho do fazendeiro esta­va andando a cavalo e caiu. Quebrou a perna e não poderia mais ajudá-lo na colheita. Oh, não, pensou o fazendeiro. Agora, morreremos de fome. O fazendeiro foi de novo ao homem sábio. Desta vez ele disse: "Como é que você sabia que capturar o cavalo não foi uma coisa boa? Estava certo nova­mente. Meu filho se machucou e agora não poderá me ajudar na colheita. Estou certo de que esta foi a pior coisa que pode­ria ter me acontecido. Desta vez você será obrigado a concor­dar." Mas, da mesma maneira que nas vezes anteriores, o homem sábio olhou calmamente para o fazendeiro num tom compassivo e repetiu, "Talvez sim, talvez não". Enraivecido pelo fato do homem sábio ser tão ignorante, afinal, o fazendei­ro voltou bufando para a aldeia.

No dia seguinte chegaram tropas ao vilarejo, para levar todos os homens jovens e saudáveis para uma guerra que tinha acabado de estourar. O filho do fazendeiro foi o único jovem da aldeia que não teve que ir. Ele viveria, onde os outros, com toda certeza, estavam fadados a morrer.

A moral que esta história nos traz é uma lição poderosa. A verdade é que nós não sabemos o que irá nos acontecer - apenas acreditamos saber. Muitas vezes criamos grandes casos a partir de coisas insignificantes. Montamos roteiros em nossas mentes de todas as coisas terríveis que podem nos acontecer. Na maior parte das vezes, estamos errados. Se não perdermos a tranquilidade e nos mantivermos abertos para as oportunida­des, podemos estar certos que, eventualmente, tudo terminará bem. Lembre-se: talvez sim, talvez não.

Richard Carlson

In: Não faça tempestade em copo d'água... e tudo na vida são copos d'água... (Tradução de Joana Mosela)
Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1998
p. 207-9



- Postado por: Rodrigo às 08h52
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Heitor Villa-Lobos: 5 de março de 1887 — 17 de novembro de 1959

"Quem o viu um dia comandando o coro de quarenta mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

Carlos Drummond de Andrade

* * *

"Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo".

"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias".

Heitor Villa-Lobos

 Ouça aqui "Trenzinho Caipira":

http://www.youtube.com/watch?v=IZnQj9yWTlo



- Postado por: Rodrigo às 07h20
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Rachel de Queiroz: 17 de novembro de 1910 - 4 de novembro de 2003


 
Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como
um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi
escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana
exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

Rachel de Queiroz



- Postado por: Rodrigo às 07h17
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Manuel A. de Almeida: 17 de novembro de 1831 — 28 de novembro de 1861

(...) Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:

Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor
.

Manuel Antônio de Almeida
 
In: Memórias de um Sargento de Milícias
Capitulo VII, Tomo II – Remédio aos Males
Ateliê Editorial, 2000
p. 240



- Postado por: Rodrigo às 07h09
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José de Sousa Saramago (Azinhaga, 16 de Novembro de 1922)

"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

José Saramago

In: Viagem a Portugal
Ed. Companhia das Letras



- Postado por: Rodrigo às 08h51
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José de Sousa Saramago (Azinhaga, 16 de Novembro de 1922)

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

In: Os Poemas Possíveis



- Postado por: Rodrigo às 08h49
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António F. Aleixo: 18 de Fevereiro de 1899 — 16 de Novembro de 1949

A vida é uma ribeira;
Caí nela, infelizmente…
Hoje vou, queira ou não queira,
Aos trambolhões na corrente.

Crês que ser pobre é não ter
Pão alvo ou carne na mesa?
Mas é pior não saber
Suportar essa pobreza!

O luxo valor não tem
Nos que nascem p’ra pequenos:
Os pobres sentem-se bem
Com mais pão luxo a menos!

A esmola não cura a chaga;
Mas quem a dá não percebe
Ou ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.

A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.

O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!

Quantas, quantas infelizes
Deixam de ser virtuosas…
E depois são seus juízes
Os que as fazem criminosas!...

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…

Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!

Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.

Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!

Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.

Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!

António Aleixo

Fonte: http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt



- Postado por: Rodrigo às 08h45
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Antônio Candeia Filho: 17 de agosto de 1935 — 16 de novembro de 1978

Preciso Me Encontrar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...

Depois, depois
Que eu me encontrar
Quando eu me encontrar

Composição: Candeia



- Postado por: Rodrigo às 08h43
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Émile Durkheim: 15 de abril de 1858 — 15 de novembro de 1917

"A construção do ser social, feita em boa parte pela educação, é a assimilação pelo indivíduo de uma série de normas e princípios — sejam morais, religiosos, éticos ou de comportamento — que balizam a conduta do indivíduo num grupo. O homem, mais do que formador da sociedade, é um produto dela".

Émile Durkheim

Fonte: Revista Nova Escola, 166, out/03



- Postado por: Rodrigo às 08h40
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Osho - Escute seu coração

A nova humanidade precisa criar a atmosfera certa, onde homens e mulheres sejam amigos, companheiros de viagem, completando-se uns aos outros. A jornada se torna uma alegria, uma canção, uma dança. E se homens e mulheres em total harmonia puderem gerar crianças, essas crianças serão os "super-homens" que sonhamos por milhares de anos. Mas o super-homem só pode ser criado a partir do todo harmonioso da energia do homem e da mulher. Então ele nascerá iluminado.

No passado, as pessoas tinham de procurar iluminação. Mas se uma criança nasce de um casal que está em harmonia, em absoluto amor, nascerá iluminada. Não pode ser de outra forma. A iluminação será o seu começo: a partir do primeiro passo, ela irá além da iluminação. Procurará novos espaços, novos céus.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Ed. Gente, 2006
p. 53



- Postado por: Rodrigo às 10h19
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Frederico Barbosa - Raro Cantar

Raro Cantar

Para Sylmara

Primeiro:

"Primeiro, a cidade nos escondia
sob os relógios do cotidiano.
Objetos sólidos nos disfarçavam:
paredes, fachadas, portas fechadas.

Alguns lugares privilegiados,
Como avenidas ou praças imensas,
ocultavam, em olhares dispersos,
nossa fome do outro, sonho adiado.

Ainda assim nos víamos: incapazes
de sim: de fugir do sono do longe.
Cheios de dedos dos medos passados,
nos perdíamos na diversidade.

Depois:

Depois, outra coragem nos desvia
dos desencontros, mar sutil de engano.
Miragens líqüidas nos resgatavam:
ondas, estradas, lembranças aladas.

Densa paisagem: sonho projetado
por olhos sem margens, poro que pensa.
Desejos, reflexos, nexos diversos
nos revelavam em gestos calados.

Agora sim víamos: capazes
de sim:de surgir no sono do longe.
Cheios de nós, cegos entrelaçados,
brotávamos luz, em meio à cidade.

Hoje:

Hoje, continuamos, dia a dia, 
Raro cantar de amor entre os escombros. 
Margens sólidas e escapes se cavam 
na tragédia impressa e apressada.

Em nosso canto íntimo, cercados 
de livros, brancas sombras, recompensas, 
Vivos esforços, às vezes um verso, 
tramamos nós ao vento, desatados.

Insistimos, como pouco tenazes, 
no sim: de fulgir no sono sem longe. 
Cheios do resto, sem certo traçado, 
plantamos planos de velhas idades".

Frederico Barbosa

In: Cantar de Amor entre os Escombros
Ed. Landy, 2002.
p. 63-65



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Fagundes Varela - Armas

Armas

Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
-Qual a mais firme das armas?-
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?...
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: - a língua humana!-

Fagundes Varela

In: Clássicos Da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 125-126



- Postado por: Rodrigo às 10h14
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Paulinho da Viola, (Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1942)

Coração Imprudente

O que pode fazer
Um coração machucado
Senão cair no chorinho
Bater devagarinho pra não ser notado
E depois de ter chorado
Retirar de mansinho
De todo amor o espinho
Profundamente deixado

O que pode fazer
Um coração imprudente
Se não fugir um pouquinho
De seu bater descuidado
E depois de cair no chorinho
Sofrer de novo o espinho
Deixar doer novamente

Composição: Paulinho Da Viola / Capinam



- Postado por: Rodrigo às 08h27
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Augusto dos Anjos: 20 de abril de 1884 — 12 de novembro de 1914

Vandalismo

Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.

Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.

Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!

Augusto dos Anjos

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999.
p.177



- Postado por: Rodrigo às 08h23
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Bruno Tolentino: 12 de novembro de 1940 — 27 de junho de 2007

O ESPÍRITO DA LETRA
 
Ao pé da letra agora, em minha vida
há a morte e uma mulher... E a letra dela,
a primeira, me busca e me martela
ouvido adentro a mesma despedida

outra vez e outra vez, sempre espremida
entre as vogais do amor... Mas como vê-la
sem exumar uma vez mais a estrela
que há anos-luz se esbate sem saída,

sem prazo de morrer na luz que treme?!
O monstro que eu matei deixou-me a marca
suas pernas abertas ante a Parca

aparecem-me em tudo: é a letra M
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme...

Bruno Tolentino

In: A balada do cárcere
Rio de Janeiro: Topbooks, 1996



- Postado por: Rodrigo às 08h21
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Fernando Pessoa - Sossega, coração! Não desesperes!

Mon coeur est plein
 - je veux pleurer! *

LAMARTINE

________________________

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa
2-8-1933

In: Poesias Inéditas



- Postado por: Rodrigo às 10h36
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Carlos Drummond de Andrade - Intimação

Intimação

- Você deve calar urgentemente
as lembranças bobocas de menino.
- Impossivel. Eu conto o meu presente.
Com volúpia voltei a ser menino.

Carlos Drummond de Andrade

In: Boitempo I
Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987
p. 10



- Postado por: Rodrigo às 10h34
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Elisa Lispector - Corpo-a-Corpo

... ah, aquele tempo de tua longa ausência! (...) Em tuas cartas, que agora recordo com tão viva lembrança, me amavas tanto, me adoravas, me engrandecias. Vias em mim sensibilidades de que eu mesma não suspeitava. E mais: induzias-me,  quase que me imploravas, para que eu fosse feliz, apesar da tua ausência. Através da distância me sublinhavas. Pelas cartas, o nosso amor era um tão grande amor!

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 60



- Postado por: Rodrigo às 10h32
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Cesar Veneziani - Esquecida

Esquecida

a rosa ao piso esquecida
no chão ainda viçosa
uma paixão não correspondida?
uma desilusão amorosa?
o fato é que a rosa esquecida
se torna pura tristeza
desperdício de beleza
perfume que se dispersa
imerso no símbolo perdido

13/06/2009

Cesar Veneziani



- Postado por: Rodrigo às 10h28
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Olegário Mariano - Conselho de Amigo

CONSELHO DE AMIGO

Cigarra! Levo a ouvir-te o dia inteiro,
Gosto da tua frívola cantiga,
Mas vou dar-te um conselho, rapariga:
Trata de abastecer o teu celeiro.

Trabalha, segue o exemplo da formiga,
Aí vem o inverno, as chuvas, o nevoeiro,
E tu, não tendo um pouso hospitaleiro,
Pedirás... e é bem triste ser mendiga!

E ela, ouvindo os conselhos que eu lhe dava
(Quem dá conselhos sempre se consome...)
Continuava cantando... continuava...

Parece que no canto ela dizia:
- Se eu deixar de cantar morro de fome...
Que a cantiga é o meu pão de cada dia.

Últimas cigarras, 1920

Olegário Mariano

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h24
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

24.
 
a pia cheia de louça me convida a ficar afastada
não sou uma mulher que encontra sua essência
entre esponjas e detergentes, antidoméstica
não varro, não tiro o pó dos móveis, a casa se deteriora
o tecido do sofá, roto, denuncia
os sonos ali dormidos sem tirar os sapatos
as manchas no assoalho comprovam o uísque derramado
e nas paredes, manchas de sangue de mosquitos
que ali pousaram e foram bem mirados
minha casa a passagem do tempo revela
as coisas sujam, insetos morrem, os pés trazem pra dentro
a imundície da rua, restos de comida e alguns poemas perversos
cada um deixa as pistas que pode

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 31



- Postado por: Rodrigo às 09h16
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Arthur Rimbaud: 20 de outubro de 1854 - 10 de novembro de 1891

Vogais

A negro, E branco, I rubro, U verde, O azul:vogais,
Explico um dia vossas origens latentes:
A, negro corpete é um pêlo em moscas luzentes
Que zumbem ao redor de fedores brutais,

Golfo de sombra; E, albor de vapores e tendas,
Lanças de alto gelo, alvos reis, tremor de umbelas;
I, lacre, sangue em cuspe e rir de lábios belos
Dentro da cólera ou do torpor penitente;

U, ciclos, vibração divina em verde mar,
Paz de animais no pasto, paz desse enrugar
Alquímico na fronte de quem muito leu;

O, supremo Clarim de estranhos sons diversos,
Silêncio atravessado em anjos e universos;
- O Ômega, raio roxo entre esses seus olhos!

Arthur Rimbaud

Trad:. José Lino Gruinewald


In: Poetas Franceses do século XIX
Editora NOVA FRONTEIRA.



- Postado por: Rodrigo às 09h04
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Friedrich von Schiller: 10 de Novembro de 1759 — 9 de Maio de 1805

Ode à Alegria (An Die Freude)

Oh amigos, mudemos o som!
Entoemos algo mais prazeroso
E alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios pelo fogo entramos
Em teu santuário celeste!

Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Mesmo aquele que conquistou apenas uma alma,
Uma única alma em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Da alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim para se erguer diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Exultantes como o herói diante da vitória.

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios pelo fogo entramos
Em teu santuário celeste!

Enviem um beijo ao mundo todo!
Mundo, você sente a presença do seu Criador?
Pois milhões se abatem diante dele!

Abracem-se milhões!
Porque Irmãos, além do céu estrelado
Deve haver um Pai Amado!

Friedrich von Schiller

Uma de suas mais famosas poesias, a An die Freude (Ode à Alegria), inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823, o quarto movimento de sua nona sinfonia. Ouça aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=2aQ8DUHMg7o



- Postado por: Rodrigo às 08h54
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Cecília Meireles: 7 de novembro de 1901 — 9 de novembro de 1964

In Memoriam

I

Seus poemas desenhavam seu fino hastil
suas corolas vibrantes como pequeninas violas
(ou era a vibração incessante dos grilos?)
seus poemas floriam na tapeçaria ondulante dos
prados
onde os colhia a mão das eternamente amadas
(as que morreram jovens são eternamente amadas...)

II

Seus poemas,
dentre as páginas de um seu livro,
apareciam sempre de surpresa,
e era como se a gente descobrisse uma folha seca
um bilhete de outrora
uma dor esquecida
que têm agora o lento e evanescente odor do
tempo...

III

E seus poemas eram, de repente, como uma prece
jamais ouvida
que nossos lábios recitavam - ó temerosa delícia!
como se, numa língua desconhecida,
sem querer, falassem
da brevidade
e da
eternidade da vida...

IV

Ah, aquela a quem seguiam os versos ondulantes
como dóceis panteras
e deixava por todas as coisas o misterioso reflexo
do seu sorriso;
e que na concha de suas mãos, encantada e aflita
recebia
a prata das estrelas perdidas...

V

Nem tudo estará perdido
enquanto nossos lábios não esquecerem teu nome:
Cecília...

Mario Quintana

In: Mario Quintana - Poesia Completa
Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
Editora Nova Aguilar
p. 455-6



- Postado por: Rodrigo às 00h15
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Torquato Neto: 9 de novembro de 1944 — 10 de novembro de 1972

Nenhuma Dor

Minha namorada tem segredos
Tem nos olhos mil brinquedos
De magoar o meu amor

Minha namorada muito amada
Não entende quase nada
Nunca vem de madrugada
Procurar por onde estou

É preciso, ó doce namorada
Seguirmos firmes na estrada
Que leva a nenhuma dor

Minha doce e triste namorada
Minha amada idolatrada
Salve-salve o nosso amor

Torquato Neto



- Postado por: Rodrigo às 00h13
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Abraham "Bram" Stoker: 8 de Novembro de 1847 — 20 de Abril de 1912

(...) Afinal, encontrei uma porta, no alto da escada, que se abriu quando a empurrei com bastante força. Encontrei-me, então, numa ala do castelo mais à direita que os aposentos que eu tinha visto e um andar abaixo dos mesmos. O castelo é construído num elevado rochedo e inexpugnável por três lados. Para o este, fica um grande vale, que dá para as montanhas. Esta era, evidentemente, a parte do castelo ocupada pelas damas nos velhos tempos, pois a mobília era mais confortável que nos aposentos que eu vira até então. Aqui estou escrevendo, numa mesinha de carvalho, onde, possivelmente, nos velhos tempos, alguma jovem se sentou, enrubescida, para escrever cartas de amor.

Bram Stoker

In: Dracula



- Postado por: Rodrigo às 00h11
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Teófilo Dias: 8 de novembro de 1854 — 29 de março de 1889

A Nuvem

Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.

A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.

E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,

Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!

Teófilo Dias

Do livro Fanfarras (1882).
Poema integrante da série Flores Funestas.
In: Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960.



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Ary Barroso: 7 de novembro de 1903 — 9 de fevereiro de 1964

Canção do amor que não vem

Ah, soubesse eu te contar
Toda amargura
De não poder te dar
Tanta ternura
Ah, soubesse eu nunca te contar
Ah, pudesse eu te dizer
Toda tristeza
De estar sempre esperando
Uma incerteza
E nada poder
Nem desesperar

Oh, triste caminho do coração
Que ama sozinho
Que coisa triste
Amar sozinho
Quanta solidão
Ah, pudesses entrever
Minha ansiedade
Depois de um dia de saudade
De uma noite inteira a soluçar
Vem! Não tardes mais
Amor, que eu vivo procurando
Quando vais chegar?
Eu sei que chegarás

Ah, pudesse eu pôr a teus pés
A minha vida
Amor, por quem tu és
Oh, vem
Não tarde mais

Sim, por favor
Façam silêncio
Meu amor vem em silêncio
Quando ele por mim passar

Composição: Ary Barroso / Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 22h29
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Albert Camus: 7 de novembro de 1913 — 4 de janeiro de 1960

"Aprendi que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Isso ajudou-me muito na vida, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas verticais..."

Albert Camus

In: Futebol: sol e sombra, de Eduardo Galeano, editado pela Livros de Areia, 2006. Edição original: El futbol a sol y sombra (1995).



- Postado por: Rodrigo às 22h20
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Cecília Meireles: 7 de novembro de 1901 — 9 de novembro de 1964

Romance LIII ou Das palavras aéreas

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras, 
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
o seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota ...

A liberdade das almas,
ai! Com letra se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que  aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam ...

Detrás de grossas paredes ,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
Sem peso de ação nem de hora ...
- e estais no bico das penas,
- e estais na tinta que as molha,
- e estais nas mãos dos juízes,
- e sois o ferro que arrocha,
- e sois o barco para o exílio,
- e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto
promessas que o mundo sopra ...

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?

- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- O olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro das perguntas,
com sangue  em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
- sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada.
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
- sois um homem que se enforca!

Cecília Meireles

In: Os melhores poemas de Cecília Meireles
Seleção de Maria Fernanda Meireles. 11ª edição.
São Paulo, Ed. Global, 1999.
p. 143-146



- Postado por: Rodrigo às 22h17
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Ana Maria Machado - Sonho de uma noite de verão

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado. E, entre todos eles, talvez nenhum tenha ficado tão famoso quanto este, o Sonho de uma noite de verão." (...)

Ana Maria Machado

In: Sonho de uma noite de verão
Editora Scipione, 20ª edição, 2001,
p. 9



- Postado por: Rodrigo às 22h09
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Anita Catarina Malfatti: 2 de dezembro de 1889 — 6 de novembro de 1964

"Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade[...] Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da educada estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura."

Anita Malfatti

(Arte: A estudante russa, 76 x 61 cm, 1915 - Anita Malfatti)



- Postado por: Rodrigo às 09h55
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Sofia Breyner Andresen: 6 de Novembro de 1919 — 2 de Julho de 2004

Para atravessar contigo o deserto do mundo
 
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Livro Sexto II
1962



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Amadeu Amaral: 6 de novembro de 1875 — 24 de outubro de 1929

SONETO

A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.

Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.

Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.

Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!

* * *

A VIDA

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e - supremo revés -

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...

(Poesias, 1931.)

* * *

VERSOS NEVOENTOS

Luta penosa e vã, esta em que vivo, imerso
Na ambição de alcançar a frase que me exprima,
onde o meu pensamento esplenda claro e terso,
como o bago reluz pronto para a vindima.

Como cristalizar tanta emoção no verso?
Como o sonho encerrar nos limites da rima?
Bruma ondulante e azul, fumo que erra disperso,
não se pode plasmar, não há mão que o comprima.

Não, eu não te darei a Expressão que rebrilha
na rija nitidez de áurea moeda sem uso,
acabado lavor de cunho e de serrilha:

só te posso ofertar estes versos nevoentos,
conchas em que ouvirás, indistinto e confuso,
um remoto fragor de vagas e de ventos.

(Espumas, 1917)

Amadeu Amaral



- Postado por: Rodrigo às 09h43
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Chico Buarque - Construção

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=xAUogmaP_PE



- Postado por: Rodrigo às 20h35
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MID-TERM BREAK - Seamus Heaney

Interrupção Letiva

Passei toda a manhã na enfermaria do colégio
Contando os sinos a repicarem o fim das aulas.
Às duas os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda encontrei meu pai chorando —
Ele sempre enfrentara enterros sem se perturbar —
E Big Jim Evans dizendo que era um revés terrível.

O bebê rulava, ria e embalava o carrinho
Quando entrei, e fiquei desconcertado com os velhos
Que se levantavam para me apertar a mão

E falar que tinham "pena do meu penar".
Cochichava-se aos estranhos que eu era o mais velho,
Em colégio interno, e minha mãe segurava minha mão

Na dela, a tossir suspiros de cólera sem lágrimas.
Às dez horas a ambulância chegou
Com o corpo lavado e enfaixado pelos enfermeiros.

Na manhã seguinte subi ao quarto. Fura-neves
E velas serenavam a cabeceira; via-o
Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido.

Agora, com um calombo na têmpora esquerda,
Jazia no caixão de quatro pés como no berço.
Sem sinal que se visse, o pára-choque o pegou sem engano.

Caixão de quatro pés, um pé para cada ano.

Seamus Heaney

In: Poemas (1966-1987)
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 39-40

Poema escrito em fevereiro de 1963 após a morte do irmão de Seamus Heaney, Christopher, num acidente de automóvel.



- Postado por: Rodrigo às 20h33
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Ruy Barbosa: 5 de novembro de 1849 — 1 de março de 1923

"[...] onde está a felicidade? No amor, ou na indiferença? Na obediência, ou no poder? No orgulho, ou na humildade? Na investigação, ou na fé? Na celebridade, ou no esquecimento? Na nudez, ou na prosperidade? Na ambição, ou no sacrifício? [...] A meu ver, a felicidade está na doçura do bem, distribuído sem idéia de remuneração. [...] Ou, por outra, sob uma fórmula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso. [...]"

Rui Barbosa

In: Obras Completas de Rui Barbosa.
V. 20, t. 1, 1893.
p. 32

Observações: Trecho do discurso "Homenagem dos Empregados de Fazenda da Bahia". Teatro São João. Salvador, BA. Não há original no Arquivo da FCRB



- Postado por: Rodrigo às 20h28
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Adelino Fontoura Chaves - Celeste

CELESTE

É tão divina a angélica aparência
e a graça que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo de inocência
nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
exilada na etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher - parece santa.

Adelino Fontoura Chaves



- Postado por: Rodrigo às 18h11
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C. Magalhães de Azeredo: 7 de setembro de 1872 — 4 de novembro de 1963

INVARIÁVEL

Não digas que uma estranha e imprevista mudança,
Notas em meu olhar; que, manso e amigo outrora,
Hoje lampejos de ira e de revolta lança,
E em chamas de rancor infernal te devora.

Não; ele é sempre igual - terno e devoto - embora
Não tenha a luz da fé, nem o ardor da esperança;
Sem crer no teu amor, o teu amor implora,
E de acariciar-te as formas não se cansa...

Quando de ti me vier a morte, quando um dia
Com tuas próprias mãos me abafares na boca
O suspiro final desta lenta agonia,

Inda no mesmo olhar de submisso respeito
Verás - rindo talvez! - alma leviana e louca,
O supremo perdão do mal que me tens feito...

(Procelária, 1898.)

Magalhães de Azeredo



- Postado por: Rodrigo às 18h08
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

OLHOS VERDES

Eles verdes são:
E têm por usança
Na cor esperança
E nas obras não.
Camões, Rimas.

São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança
Uns olhos por que morri;
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte.
Diz uma - vida, outra - morte;
Uma - loucura, outra - amor.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que pode também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do padro,
Mas verdes da cor do mar.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos da cor da esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar;
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que, ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Gonçalves Dias

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 21h10
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossa, várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra, julho, 1843

Gonçalves Dias



- Postado por: Rodrigo às 21h06
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

Se se morre de amor!
 
Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
 
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
 
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
 
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
 
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

Gonçalves Dias

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 67-68



- Postado por: Rodrigo às 21h03
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Clarice Lispector - Um sopro de Vida

(...) Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é presente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável. Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício. O que sou? Sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é esse tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e espírito? eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu”, responde-me o mundo terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensando jamais senão Ele foge e eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age. Pergunto-me porque Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.(...)

Clarice Lispector


In: Um sopro de Vida
Editora Nova Fronteira
p. 17-18



- Postado por: Rodrigo às 10h07
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Teixeira de Melo - Fascinação

FASCINAÇÃO

Se a mão te aperto trêmula, gelada,
Minh’alma inteira embebe-se na tua;
Quando me fitas teu olhar tranqüilo
Todo o meu sangue ao coração recua.

Quando te cravo os olhos meus, pudica
Baixas os teus com um olhar tão triste!...
Não devo amar-te; no entretanto eu te amo!
- E quem a tal fascinação resiste?...

Sinto em minh’alma comoções estranhas
Quando a descuido o teu olhar me lanças:
Creio-me outro, mais gentil, mais puro;
Sonho mil sonhos cheios de esperanças.

Na branca flor que no jardim floresce,
Na rola que soluça na folhagem,
Do céu no azul, no verde do cipestre:
Por toda a parte vejo a tua imagem.

Às vezes julgo surpreender-te um gesto
Que o ser me afoga em ondas de alegria;
Mas logo, pobre sonhador, conheço
Que o sonho mente e mente a fantasia.

Tu és a luz da minha vida, a crença
Que a minha morta mocidade chora;
Minh’alma adeja na amplidão, suspensa,
Quando não vejo o teu sorrir de aurora....

De aurora, sim! - pois a neblina imensa
Em que me envolvo - toda se adelgaça
Ao teu sorriso angelical e às vezes
Que ao pé de mim o teu vestido passa.

Sinto que te amo desse amor vertigem
Que num momento a vida nos consome:
Sinto ao teu nome estremecer-me o seio...
- Tem-me sido fatal teu doce nome!

Nunca disseste uma palavra, nunca
Um gesto só traiu teu pensamento:
Não sei como este amor me irrompeu n’alma!
Mas sei bem que ele faz o teu tormento.

Foi como o sutil fluido que evapora
A natureza em plena primavera:
Um nada que resume a vida inteira,
Um riso, um som que passa, uma quimera!

Eu sei que o nosso amor seria um crime
Perante o mundo e a própria consciência:
Seria atar o riso à desventura
O perturbar-te a angélica inocência.

Assim pois, meu amor, guarda os teus sonhos
E as castas ilusões da mocidade
Para o mortal que os fados te destinam:
Que ele te dê - por mim - a felicidade.

Que ele alcatife o teu passar de flores;
Que o sonho teu... Meu Deus! oh como o invejo
Que entenda, oh anjo, o teu menor sorriso
E que adivinhe o teu menor desejo...

Eu fugirei para remotas plagas,
Onde o não veja, pálido, a teu lado!...
Mas lá tão longe, em toda a parte e sempre
Hei de arrastar o meu grilhão pesado!

(Miosótis, 1877)

Teixeira de Melo

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h01
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Teixeira de Pascoaes: 02(?) / 11 / 1877 — 14 / 12 / 1952

REMORSOS

Onde comtigo, um dia, me zanguei,
É hoje um sitio escuro que aborreço;
E sempre que ali passo, eu anoiteço!...
Ah, foi um crime, sim, que pratiquei!

Quantas negras torturas eu padeço
Pelo pequeno mal que te causei!
Se, ao menos, presentisse o que hoje sei?
Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço!

E sôffro mais, por isso, a tua morte,
E dou mais chôro amargo ao vento norte,
Mais trevas se acumulam no meu rôsto...

Ó vós que n'este mundo amaes alguem,
Seja linda creança ou pae ou mãe,
Não lhe causeis nem sombra de desgôsto!

Teixeira de Pascoaes

(Conservamos a ortografia original)

In: Elegias, 1912  



- Postado por: Rodrigo às 10h00
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Florbela Espanca - Amiga

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho …
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho …

Beija-mas bem! … Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! …

Florbela Espanca



- Postado por: Rodrigo às 10h26
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Ezra Pound: 30 de outubro de 1885 — 1 de novembro de 1972

ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound

Tradução de Augusto de Campos



- Postado por: Rodrigo às 10h21
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Lima Barreto: 13 de maio de 1881 - 1 de novembro de 1922

"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."

Lima Barreto

In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)



- Postado por: Rodrigo às 10h12
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