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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

PROCURO UMA ALEGRIA

Procuro uma alegria
na mala vazia
do final do ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano –
o vôo de um pássaro
e de uma canção.

Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia Errante
7ª. ed., Editora Record 1996
p. 81



- Postado por: Rodrigo às 09h48
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Consideração do poema
 
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade – Poesia Completa
A Rosa do Povo
Editora Nova Aguilar
p. 115-6



- Postado por: Rodrigo às 09h24
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 09h23
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John Keats: 31 de outubro de 1795 - 23 de fevereiro de 1821

 

"Eu de nada tenho certeza, a não ser da realidade das afeições do coração e da verdade da Imaginação. A beleza apreendida pela Imaginação deve ser verdade. A Imaginação pode ser comparada ao sonho de Adão. Adão despertou e viu que era verdadeiro".

John Keats

In: Carta a Benjamin Bailey (1817)



- Postado por: Rodrigo às 09h17
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Paul Valéry: 30 de outubro de 1871 — 20 de julho de 1945

"Os homens se diferenciam pelo que mostram, e se parecem pelo que escondem."

Paul Valéry



- Postado por: Rodrigo às 20h04
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Nelson Cândido Motta Filho (São Paulo, 29 de outubro de 1944)

Como Uma Onda

Nada do que foi será
De novo do jeito que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir
Pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar

Nada do que foi será
De novo do jeito
Que já foi um dia
Tudo passa
Tudo sempre passará

A vida vem em ondas
Como um mar
Num indo e vindo infinito

Tudo que se vê não é
Igual ao que a gente
Viu há um segundo
Tudo muda o tempo todo
No mundo

Não adianta fugir
Nem mentir pra si mesmo agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar
Como uma onda no mar

Composição: Lulu Santos / Nelson Motta

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=SWYrOzQhYlY



- Postado por: Rodrigo às 17h03
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Nei Carvalho Duclós (Uruguaiana, 29 de outubro de 1948)

TRÉGUA

Quem fala em amor numa noite dessas
quando o tempo morre no horizonte

Quem fala em amor que te apedreje
porque a pedra afagou antes da mágoa

Qualquer amor serve de alimento
qualquer frase de amor, qualquer fermento
faz crescer o pão inaugurando a trégua

Nei Duclós

Fonte: http://www.consciencia.org/neiduclos/



- Postado por: Rodrigo às 16h45
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Ana Cristina Cesar: 2 de junho de 1952 — 29 de outubro de 1983

SONETO

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
 
* * *

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas      
 
Ana Cristina Cesar



- Postado por: Rodrigo às 08h49
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Adalgisa Nery: 29 de outubro de 1905 — 7 de junho de 1980

Poema da amante

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Nery

In: Mundos oscilantes.
RJ: Ed. José Olympio, 1962.



- Postado por: Rodrigo às 08h48
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Nelson Cavaquinho: 28 de outubro de 1911 — 17 de fevereiro de 1986

Quando Eu Me Chamar Saudade

Sei que amanhã
Quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha um bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora.
Me dê as flores em vida
O carinho, a mão amiga,
Para aliviar meus ais.
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais

Composição: Nelson Cavaquinho / G. de Brito

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=jNNZUFH8R3s



- Postado por: Rodrigo às 08h45
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Zélia Duncan (Niterói, 28 de outubro de 1964)

NEM TUDO

Nem tudo que reluz corrompe
Nem tudo que é bonito aparenta
Nem tudo que é infalível se aguenta
Nem tudo que ilude mente
Nem tudo que é gostoso tá quente
Nem tudo que se encaixa é pra sempre
Nem tudo que é sucesso se esquece
Nem todo pressentimento acontece
Nem tudo que se diz tá dito
Nem tudo que não é você é esquisito
Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito
Nem tudo que acaba aqui
Deixa de ser infinito

Edu Tedeschi | Zélia Duncan

Fonte: http://www2.uol.com.br/zeliaduncan/



- Postado por: Rodrigo às 08h41
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Viana Moog: 28 de outubro de 1906 — 15 de janeiro de 1988

"Mas, já agora, se seu pai quisesse retomar a agricultura, não teria outro caminho senão recomeçar, sem o apoio dessa experiência que os livros não ensinavam e que estava perdida para sempre. Ele, o barão feudal, o senhor da terra, era hoje escravo dela. Estava condenado a ficar, esgotando a existência entre fantasias e desesperos. A possibilidade da revalorização da borracha havia de ser sempre o tema de suas cogitações. Estava condenado a viver dessa esperança. Dentro dela, encastelado nela, ao lado da companheira resignada, gastando suas últimas reservas de energia. Um lutador obscuro e formidável. Da sua passada opulência ficara-lhe apenas a terra imensa e desvalorizada, o título ferreteante de "coronel de barranco" e um filho doutor, que não sabia defendê-lo."

Viana Moog

In: Um rio imita o Reno, capítulo 8, 1938

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 08h39
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John Locke: 29 de Agosto de 1632 - 28 de Outubro de 1704

"Uma coisa é demonstrar a um homem que ele está errado, outra é colocá-lo de posse da verdade."

* * *

But it is one thing to show a man that he is in an error, and another to put him in possession of truth

John Locke

In: An Essay Concerning Human Understanding‎ - Página 463, de John Locke - Publicado por W. Tegg, 1849 - 564 páginas



- Postado por: Rodrigo às 18h52
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Graciliano Ramos: 27 de outubro de 1892 — 20 de março de 1953

"Se não fosse aquilo... Nem sabia. O fio da idéia cresceu, engrossou – e partiu-se. Difícil pensar. Vivia tão agarrado aos bichos... Nunca vira uma escola. Por isso não conseguia defender-se, botar as coisas nos seus lugares. O demônio daquela história entrava-lhe na cabeça e saía. Era para um cristão endoidecer. Se lhe tivessem dado ensino, encontraria meio de entendê-la. Impossível, só sabia lidar com bichos.”

Graciliano Ramos

In: Vidas Secas (1938) - 60a. Edição
Capítulo 3 (Cadeia)
Rio de Janeiro: Ed. Record, 1991
p. 36



- Postado por: Rodrigo às 09h57
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Di Cavalcanti: 6 de setembro de 1897 — 26 de outubro de 1976

Uma Flor para Di Cavalcanti

Esta é uma flor para Di,
uma flor em forma di-
ferente: de flor-mulher,
desabrochada onde quer
que exista amor e verão.
Verão como a cor cinti-
la nas curvas, e sorri
nesse púrpuro arrebol
que Di tirou do seu Rio
coado de mel e sol.
Uma flor-pintura, zi-
nindo o canto de amor
que acompanhou toda a vi-
da do pincel, o gozo-dor
de criar e de sentir, di-
vina e tão sensual ração
que coube, na Terra, a Di.

Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia e prosa. 8ª ed.
pág. 813

Arte: Di Cavalcanti - "Ivette" - óleo sobe tela - 65 x 79 cm. de 1963



- Postado por: Rodrigo às 09h50
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Milton Nascimento (26 de outubro de 1942)

Nada Será Como Antes

Eu já estou com o pé nessa estrada
Qualquer dia a gente se vê
Sei que nada será como antes, amanhã
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Alvoroço em meu coração
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol
Num domingo qualquer, qualquer hora
Ventania em qualquer direção
Sei que nada será como antes amanhã
Que notícias me dão dos amigos?
Que notícias me dão de você?
Sei que nada será como está
Amanhã ou depois de amanhã
Resistindo na boca da noite um gosto de sol

Composição: Milton Nascimento / R. Bastos

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=nu1rr9P7Z1U



- Postado por: Rodrigo às 09h42
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Darcy Ribeiro: 26 de outubro de 1922 — 17 de fevereiro de 1997

"Não me quer julgar, mas entender, conviver. Não quero mesmo é o leitor adverso, que confunde sua vida com a minha, exigindo de mim recordos amorosos e gentis, apagando os dolorosos, conforme sua pobre noção do bem e da dignidade. O preço da vida se paga é vivendo, impávido, e recordando fiel o que dela foi dor ou foi contentamento. Termino esta minha vida exausto de viver, mas querendo mais vida, mais amor, mais saber, mais travessuras. A você que fica aí, inútil, vivendo uma vida insonsa, só digo: "Coragem! Mais vale errar, se arrebentando, do que poupar-se para o nada.O único clamor da vida é por mais vida bem vivida. Essa é, aqui e agora, a nossa parte. Depois, seremos matéria cósmica de virtudes ou de gozos. Apagados, minerais. Para sempre mortos".

Darcy Ribeiro

In: Prólogo de "Confissões"

Fonte: http://www.fundar.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h35
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Murilo Araujo: 26 de outubro de 1894 - 1 de agosto de 1980

Na praia

A tarde corava no ar...
Coravas tu, mais ainda
que a tarde. Cismavas. Linda,
cismavas diante do mar.

Não escreveste na areia
teu nome? - Pois com um olhar
escreveste-o mais, sereia,
no meu sonho. E vinha o mar...

A maré pôs-se a aumentar:
subiu... consumiu teu nome;
mas qual o mar que o consome
no meu sonho? qual o mar?

Cá tem de ficar escrito...
Sim: Nada o pode apagar,
nada: nem meu infinito
mar de lágrimas - um mar!

Murilo Araujo

In: Carrilhões (1917)



- Postado por: Rodrigo às 09h28
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Pablo Picasso: 25 de outubro de 1881 — 8 de abril de 1973

"A arte é uma mentira que nos ajuda a perceber a verdade."

Pablo Picasso



- Postado por: Rodrigo às 09h49
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Alfonsina Storni: 29 de maio de 1892 - 25 de outubro de 1938

Diante do mar

Oh, mar, enorme mar, coração feroz
de ritmo desigual, coração mau,
eu sou mais tenra que esse pobre pau
que, prisioneiro, apodrece nas tuas vagas.

Oh, mar, dá-me a tua cólera tremenda,
eu passei a vida a perdoar,
porque entendia, mar, eu me fui dando:
“Piedade, piedade para o que mais ofenda”.

Vulgaridade, vulgaridade que me acossa.
Ah, compraram-me a cidade e o homem.
Faz-me ter a tua cólera sem nome:
já me cansa esta missão de rosa.

Vês o vulgar? Esse vulgar faz-me pena,
falta-me o ar e onde falta fico.
Quem me dera não compreender, mas não posso:
é a vulgaridade que me envenena.

Empobreci porque entender aflige,
empobreci porque entender sufoca,
abençoada seja a força da rocha!
Eu tenho o coração como a espuma.

Mar, eu sonhava ser como tu és,
além nas tardes em que a minha vida
sob as horas cálidas se abria…
Ah, eu sonhava ser como tu és.

Olha para mim, aqui, pequena, miserável,
com toda a dor que me vence, com o sonho todos;
mar, dá-me, dá-me o inefável empenho
de tornar-me soberba, inacessível.

Dá-me o teu sal, o teu iodo, a tua ferocidade,
Ar do mar!… Oh, tempestade! Oh, enfado!
Pobre de mim, sou um recife
E morro, mar, sucumbo na minha pobreza.

E a minha alma é como o mar, é isso,
ah, a cidade apodrece-a engana-a;
pequena vida que dor provoca,
quem me dera libertar-me do seu peso!

Que voe o meu empenho, que voe a minha esperança…
A minha vida deve ter sido horrível,
deve ter sido uma artéria incontível
e é apenas cicatriz que sempre dói.

Alfonsina Storni

Tradução de José Agostinho Baptista



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Roberto Menescal (Vitória, 25 de outubro de 1937)

Ah!, se eu pudesse

Ah!, se eu pudesse te buscar sorrindo
E lindo fosse o dia, como um dia foi
E indo nesse lindo, feito pra nós dois
Pisando nisso tudo que se fez canção

Ah!, se eu pudesse te mostrar as flores
Que cantam suas cores para a manhã que nasce
Que cheiram no caminho quem falasse
As coisas mais bonitas para a manhã de sol

Ah!, se eu pudesse, no fim do caminho
Achar nosso barquinho e levá-lo ao mar
Ah!, se eu pudesse tanta poesia
Ah!, se eu pudesse, sempre, aquele dia

Ah!, se eu pudesse te encontrar serena
Eu juro, pegaria sua mão pequena
E juntos vendo o mar
Dizendo aquilo tudo, quase sem falar

Composição: Roberto Menescal e R. Bôscoli

Fonte: http://www.robertomenescal.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h22
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Amadeu Amaral: 6 de novembro de 1875 — 24 de outubro de 1929

SONETO

A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.

Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.

Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.

Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!

* * *

A VIDA

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e - supremo revés -

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...

(Poesias, 1931.)

* * *

VERSOS NEVOENTOS

Luta penosa e vã, esta em que vivo, imerso
Na ambição de alcançar a frase que me exprima,
onde o meu pensamento esplenda claro e terso,
como o bago reluz pronto para a vindima.

Como cristalizar tanta emoção no verso?
Como o sonho encerrar nos limites da rima?
Bruma ondulante e azul, fumo que erra disperso,
não se pode plasmar, não há mão que o comprima.

Não, eu não te darei a Expressão que rebrilha
na rija nitidez de áurea moeda sem uso,
acabado lavor de cunho e de serrilha:

só te posso ofertar estes versos nevoentos,
conchas em que ouvirás, indistinto e confuso,
um remoto fragor de vagas e de ventos.

(Espumas, 1917)

Amadeu Amaral



- Postado por: Rodrigo às 09h40
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Sarah Josepha Hale (24 de outubro de 1788 - 30 de abril de 1879)

Mary had a little lamb,
Its fleece was white as snow;
And everywhere that Mary went,
The lamb was sure to go.

He followed her to school one day;
That was against the rules;
It made the children laugh and play;
To see a lamb at school.

And so the teacher turned it out,
But still it lingered near,
And waited patiently about
Till Mary did appear.

"Why does the lamb love Mary so?"
The eager children cry;
"Why, Mary loves the lamb, you know,"
The teacher did reply.

* * *

Maria tinha um carneirinho,
Sua lã era branca como a neve;
E a todo lugar onde Maria ia,
O carneirinho a seguia breve.

Um dia, à escola ele a foi à acompanhar;
O regulamento não o permitia;
Isto fez as crianças rir e brincar;
Ao ver um carneirinho na escola.

E assim a professora o pôs para fora,
Mas ali por perto ele permaneceu,
E esperou pacientemente até
Que a Maria apareceu.

"Porque o carneirinho gosta tanto da Maria assim?"
Gritaram as crianças impacientes;
"Porque Maria ama o cordeirinho, enfim",
Respondeu a professora prontamente.

Sarah Josepha Hale



- Postado por: Rodrigo às 09h31
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Gregório de Matos - Pintura admirável de uma beleza

Pintura admirável de uma beleza

Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?

O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?

Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?

Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.

Gregório de Matos

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p.15-16



- Postado por: Rodrigo às 08h38
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Cecília Meireles - A arte de ser feliz

A ARTE DE SER FELIZ

"HOUVE um tempo em que a minha janela se abria para um chalé. Na ponta do chalé brilhava um grande ovo de louça azul. Nesse ovo costumava pousar um pombo branco. Ora, nos dias límpidos, quando o céu ficava da mesma cor do ovo de louça, o pombo parecia pousado no ar. Eu era criança, achava essa ilusão maravilhosa e sentia-me completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela dava para um canal. No canal oscilava um barco. Um barco carregado de flores. Para onde iam aquelas flores? Quem as comprava? Em que jarra, em que sala, diante de quem brilhariam, na sua breve existência? E que mãos as tinham criado? E que pessoas iam sorrir de alegria ao recebê-las? Eu não era mais criança, porém a minha alma ficava completamente feliz.

HOUVE um tempo em que minha janela se abria para um terreiro, onde uma vasta mangueira alargava sua copa redonda. À sombra da árvore, numa esteira, passava quase todo o dia sentada uma mulher, cercada de crianças. E contava histórias. Eu não podia ouvir, da altura da janela; e mesmo que a ouvisse, não a entenderia, porque isso foi muito longe, num idioma difícil. Mas as crianças tinham tal expressão no rosto, e às vezes faziam com as mãos arabescos tão compreensíveis, que eu participava do auditório, imaginava os assuntos e suas peripécias e me sentia completamente feliz.

HOUVE um tempo em que a minha janela se abria sobre uma cidade que parecia feita de giz. Perto da janela havia um pequeno jardim seco. Era uma época de estiagem, de terra esfarelada, e o jardim parecia morto. Mas todas as manhãs vinha um pobre homem com um balde e em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas. Não era uma regra: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse. E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.

MAS, quando falo dessas pequenas felicidades certas, que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem, outros que só existem diante das minhas janelas e outros, finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim."

Cecília Meireles

In: Cecília Meireles. Quadrante: crônicas.
Rio de Janeiro, Editora Autor, 1962



- Postado por: Rodrigo às 08h35
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Pelé (Três Corações, 23 de outubro de 1940)

 

(...) “Sozinho, liquidou a partida, liquidou o América, monopolizou o placar. Ao meu lado, um americano doente estrebuchava: — Vá jogar bem assim no diabo que o carregue!. De certa feita, foi até desmoralizante. Ainda no primeiro tempo, ele recebe o couro no meio do campo. Outro qualquer teria despachado. Pelé, não. Olha para frente e o caminho até o gol está entupido de adversários. Mas o homem resolve fazer tudo sozinho. Dribla o primeiro e o segundo. Vem-lhe ao encalço, ferozmente, o terceiro, que Pelé corta sensacionalmente. Numa palavra: — sem passar a ninguém e sem ajuda de ninguém, ele promoveu a destruição minuciosa e sádica da defesa rubra. Até que chegou um momento em que não havia mais ninguém para driblar. Não existia uma defesa. Ou por outra: — a defesa estava indefesa.”

Nelson Rodrigues

Nota: Manchete Esportiva de 08/03/1958 (sobre Santos 5 x 3 América, 25/02/1958, no Maracanã, pelo Torneio Rio-São Paulo. Foi a primeira crônica de Nelson Rodrigues sobre Pelé).



- Postado por: Rodrigo às 08h34
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Aníbal Freire da Fonseca: 7 de julho de 1884 — 22 de outubro de 1970

(...) É certo que os vícios da nossa educação política, inveterados pelo poder pessoal, onimodo, que dominou todo o segundo reinado - sem embargo da admiração, que devemos ter por Pedro II - levam muitas vezes à crença no deslumbramento do poder do presidente da república. Daí cederem-lhe por vezes prerrogativas, que a lei faculta explicitamente a outro ramo do poder, ou animarem-no à pretensão de exercer uma verdadeira tutela política sobre os homens e as coisas.

Aníbal Freire da Fonseca

In: O Poder Executivo na República Brasileira, 1916

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h43
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Arte - Cesar Veneziani

Arte

a arte
está em toda parte
basta olhar
e ao olhar-te
pratico a mais fina arte
te amar

Cesar Veneziani

In: Asas
Brasília: Ed. Utopia, 2009, p.13

+ http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 09h42
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Oswald de Andrade: 11 de janeiro de 1890 - 22 de outubro de 1954

Relógio

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão

* * *

Erro de português

Quando o português chegou
Debaixo duma bruta chuva
Vestiu o índio
Que pena! Fosse uma manhã de sol
O índio tinha despido
O português

* * *

O ócio não é a negação do fazer, mas ocupar-se em ser o humano do homem.

* * *

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi.

Oswald de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 09h28
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Juca Chaves, (Rio de Janeiro, 22 de outubro de 1938)

Menina

Menina, ouça o que eu digo,
O meu castigo tive-o só por te adorar,
Menina, ouça eu te imploro,
O que hoje eu choro são preces de um coração,
Que só pecou por soluçar.
Por ti, menina, que eu amo tanto,
Por quem meu pranto de tombar quase secou,
Quisera ouvir-te um dia, flor, dizer-me "eu te amo amor,
Como jamais, nunca se amou".
Mas que tristeza, tua beleza,
Não deste a mim e eu ainda não sei por que tal razão,
E agora, eu vivo amargurado,
Sem ter teu vulto ao lado, deste jovem coração,
Já caducando de paixão.
Por ti, menina, que bom seria,
Se eu fosse um dia contemplado com um beijo teu,
Assim, a minha lira que por ti não mais suspira,
Não teria o fim que teve,
Pois morreu.

Composição: Juca Chaves



- Postado por: Rodrigo às 09h22
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Berta Cardoso: 21 de outubro de 1911 — 12 de julho de 1997

A Cruz de Guerra

Quando vieram dizer à pobre mãe
Que o filho tinha morrido lá na Guerra
Ela ajoelhou, a tremer, sentindo bem;
O desgosto mais dorido que há na terra!

Trouxeram-lhe a cruz de guerra que seu filho
Como valente soldado merecera,
E sobre ela a mãe poisou o olhar sem brilho,
Recordando o filho amado que perdera.

Na cruz de guerra pegou, como quem sente
Um reconforto divino que sonhara
Com ternura a colocou serenamente
No berço em que pequenino o embalara!

Pobre mãe-santa do céu em pleno inferno -
Pôs-se a embalar o berço e a dizer:
"Dorme, dorme, filho meu o sono eterno,
Como eterna é a minha dor em te perder"

E a pobre mãe rematou neste contraste:
"Dorme, dorme, o sono eterno filho meu,
Por causa da cruz de guerra que ganhaste
Quantas mães estão chorando como eu"

Letra: Armando Neves / Miguel Ramos

 Repertório de Berta Cardoso

Fonte: http://www.bertacardoso.com/



- Postado por: Rodrigo às 11h10
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Cartola - Autonomia

AUTONOMIA

É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor
Amor sincero
Ai, se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero

Escravizaram assim um pobre coração
É necessária nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.

Composição: Cartola



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Fernando Pessoa - Se estou só, quero não estar

Se estou só, quero não estar

Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.

Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.

A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

Fernando Pessoa



- Postado por: Rodrigo às 10h14
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Jack Kerouac: 12 de março de 1922 - 21 de outubro de 1969

"(...) porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'.

In: On the Road
Ed.  L&PM, 2004

* * *

"Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte "lunática" de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".

Jack Kerouac

In: Vagabundos Iluminados
Ed. L&PM, 2004



- Postado por: Rodrigo às 10h10
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E. E. Cummings - Eu levo o seu coração comigo

Eu levo o seu coração comigo

eu levo o seu coração comigo (eu o levo no
meu coração) eu nunca estou sem ele (a qualquer lugar
que eu vá, meu bem, e o que que quer que seja feito
por mim somente é o que você faria, minha querida)

                                                                    tenho medo

que a minha sina (pois você é a minha sina, minha doçura) eu não quero
nenhum mundo (pois bonita você é meu mundo, minha verdade)
e é você que é o que quer que seja o que a lua signifique
e você é qualquer coisa que um sol vai sempre cantar

aqui está o mais profundo segredo que ninguém sabe
(aqui é a raiz da raiz e o botão do botão
e o céu do céu de uma árvore chamada vida, que cresce
mais alto do que a alma possa esperar ou a mente possa esconder)
e isso é a maravilha que está mantendo as estrelas distantes

eu levo o seu coração (eu o levo no meu coração)

E. E. Cummings

Tradução: Regina Werneck

Extraído do livro “95 poems”, Hartcourt, Brace & World, Inc. – New York, 1958, pág. 95.



- Postado por: Rodrigo às 20h29
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Adélia Prado - Impressionista

Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa
como ele mesmo dizia:
constantemente amanhecendo.

Adélia Prado 



- Postado por: Rodrigo às 10h28
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Vinicius de Moraes: 19 de outubro de 1913 — 9 de julho de 1980

A carta que não foi mandada

Paris, outono de 73
Estou no nosso bar mais uma vez
E escrevo pra dizer
Que é a mesma taça e a mesma luz
Brilhando no champanhe em vários tons azuis
No espelho em frente eu sou mais um freguês
Um homem que já foi feliz, talvez
E vejo que em seu rosto correm lágrimas de dor
Saudades, certamente, de algum grande amor

Mas ao vê-lo assim tão triste e só
Sou eu que estou chorando
Lágrimas iguais
E, a vida é assim, o tempo passa
E fica relembrando
Canções do amor demais
Sim, será mais um, mais um qualquer
Que vem de vez em quando
E olha para trás
É, existe sempre uma mulher
Pra se ficar pensando
Nem sei... nem lembro mais

Vinicius de Moraes

In: Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"



- Postado por: Rodrigo às 12h28
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Vinicius de Moraes: 19 de outubro de 1913 — 9 de julho de 1980

Ternura

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Rio de Janeiro, 1938

Vinicius de Moraes

In: Novos Poemas



- Postado por: Rodrigo às 12h22
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Vinicius de Moraes: 19 de outubro de 1913 — 9 de julho de 1980

O Grande Amor

Haja o que houver
Há sempre um homem para uma mulher
E há de sempre haver
Para esquecer um falso amor
E uma vontade de morrer

Seja como for
Há de vencer o grande amor
Que há de ser no coração
Como um perdão pra quem chorou

Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 12h07
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Vinicius de Moraes: 19 de outubro de 1913 — 9 de julho de 1980

Soneto do amor total

Amo-te tanto, meu amor... não cante
O humano coração com mais verdade...
Amo-te como amigo e como amante
Numa sempre diversa realidade

Amo-te afim, de um calmo amor prestante,
E te amo além, presente na saudade.
Amo-te, enfim, com grande liberdade
Dentro da eternidade e a cada instante.

Amo-te como um bicho, simplesmente,
De um amor sem mistério e sem virtude
Com um desejo maciço e permanente.

E de te amar assim muito e amiúde,
É que um dia em teu corpo de repente
Hei de morrer de amar mais do que pude.

Vinicius de Moraes

Rio de Janeiro, 1951

In: Novos Poemas (II)



- Postado por: Rodrigo às 12h03
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Casimiro de Abreu: 4 de janeiro de 1839 — 18 de outubro de 1860

Que é - simpatia

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!

Casimiro de Abreu



- Postado por: Rodrigo às 18h34
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António V. Ramos Rosa (Faro, 17 de Outubro de 1924)

A palavra

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, numa anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

António Ramos Rosa
 
In: Acordes
Quetzal, 1989



- Postado por: Rodrigo às 18h28
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Chiquinha Gonzaga: 17 de outubro de 1847 — 28 de fevereiro de 1935

LUA BRANCA

Ó lua branca de fulgores e de encanto!
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar esta paixão que anda comigo!

Ai por que és, desce do céu, ó lua branca!
Essa amargura do meu peito, ó vem arranca!
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração!

E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada!
A sua luz então me surpreendia

Ajoelhado junto aos pés da minha amada!

E ela a chorar, a soluçar cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó Lua branca, por que és, tem dó de mim!

Chiquinha Gonzaga

Fonte: http://www.chiquinhagonzaga.com/



- Postado por: Rodrigo às 18h20
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Esse texto não é de Oscar Wilde

 

Amigos loucos e sérios

 

Meus amigos são todos assim: metade loucura, outra metade santidade.

Escolho-os não pela pele, mas pela pupila, que tem que ter brilho questionador e tonalidade inquietante.

Fico com aqueles que fazem de mim louco e santo.

Deles não quero resposta, quero meu avesso.

Que me tragam dúvidas e angústias e agüentem o que há de pior em mim.

Para isso, só sendo louco.

Louco que senta e espera a chegada da lua cheia.

Quero-os santos, para que não duvidem das diferenças e peçam perdão pelas injustiças.

Escolho meus amigos pela cara lavada e pela alma exposta.

Não quero só o ombro ou o colo, quero também sua maior alegria.

Amigo que não ri junto, não sabe sofrer junto.

Meus amigos são todos assim: metade bobeira, metade seriedade.

Não quero risos previsíveis, nem choros piedosos.

Pena, não tenho nem de mim mesmo, e risada, só ofereço ao acaso.

Quero amigos sérios, daqueles que fazem da realidade sua fonte de aprendizagem, mas lutam para que a fantasia não desapareça.

Não quero amigos adultos, nem chatos.

Quero-os metade infância e outra metade velhice.

Crianças, para que não esqueçam o valor do vento no rosto, e velhos, para que nunca tenham pressa.

Tenho amigos para saber quem eu sou, pois vendo-os loucos e santos, bobos e sérios, crianças e velhos, nunca me esquecerei de que a normalidade é uma ilusão imbecil e estéril.

 

Marcos Lara Resende



- Postado por: Rodrigo às 08h28
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Faces Ocultas - Deanna Troi

 

A mais pura e simples verdade,
raramente é pura e nunca é tão simples.

Oscar Wilde

__________________

Faces Ocultas

Oh, amor, que face se revelará totalmente
Na deliciosa brincadeira dos amantes,
Para que te somes aos dois errantes
A fim de reinares eternamente?

Da resposta fazes o suspense
Na profusão de bocas desapareces,
Nos ousados beijos te enriqueces,
Ordenando que não mais se pense.

E o divertido jogo assim continua,
Pequenas pistas que se somam
Na busca incessante da face nua.

Distantes, os corpos se chamam:
"Ocultam-se" um do outro mas se amam
Noite escura... lua nua... face tua.

Deanna Troi



- Postado por: Rodrigo às 08h26
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Oscar Wilde: 16 de outubro de 1854 — 30 de novembro de 1900

"[...] Até hoje dificilmente o Homem tem cultivado a solidariedade. Ele é solidário apenas na dor, e a solidariedade na dor não é a forma mais elevada de solidariedade. ... tal solidariedade (na dor) é muito limitada. Deveríamos ser solidários com a vida na sua totalidade, não apenas na dor e na doença, mas também na alegria, na saúde e na liberdade. ... Qualquer um pode se sentir solidário na dor sofrida por uma amigo, mas é preciso uma natureza muito superior ... para se sentir solidário no êxito alcançado por um amigo. [...]"

Oscar Wilde

In: O Retrato de Dorian Gray
Traduzido por Enrico Corvisieri,
Editora Nova Cultural, 2003



- Postado por: Rodrigo às 08h26
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Publius Vergilius Maro (15 de Outubro de 70 a.C. - 19 a.C.)

Omnia vincit amor; et nos cedamus amori.

* * *

O amor vence tudo; e nós devemos submeter-nos a ele.

Virgílio

In: Eclogae 10.69



- Postado por: Rodrigo às 14h20
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Exaltação de Aninha (O Professor) - Cora Coralina

Exaltação de Aninha (O Professor)

Professor, “sois o sal da terra e a luz do mundo”.
Sem vós tudo seria baço e a terra escura.
Professor, faze de tua cadeira,
a cátedra de um mestre.
Se souberes elevar teu magistério,
ele te elevará à magnificência.
Tu és um jovem, sê, com o tempo e competência,
um excelente mestre.
Meu jovem Professor, quem mais ensina e quem mais aprende?
O professor ou o aluno?
De quem maior responsabilidade na classe,
do professor ou do aluno?
Professor, sê um mestre. Há uma diferença sutil
entre este e aquele.
Este leciona e vai prestes a outros afazeres.
Aquele mestreia e ajuda seus discípulos.
O professor tem uma tabela a que se apega.
O mestre excede a qualquer tabela e é sempre um mestre.
Feliz é o professor que aprende ensinando.
A criatura humana pode ter qualidades e faculdades.
Podemos aperfeiçoar as duas.
A mais importante faculdade de quem ensina
é a sua ascendência sobre a classe
Ascendência é uma irradiação magnética, dominadora
que se impõe sem palavras ou gestos,
sem criar atritos, ordem e aproveitamento.
É uma força sensível que emana da personalidade
e a faz querida e respeitada, aceita.
Pode ser consciente, pode ser desenvolvida na escola,
no lar, no trabalho e na sociedade.
Um poder condutor sobre o auditório, filhos, dependentes, alunos.
É tranqüila e atuante. É um alto comando obscuro
e sempre presente. É a marca dos líderes.
A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
O melhor professor nem sempre é o de mais saber,
é sim aquele que, modesto, tem a faculdade de transferir
e manter o respeito e a disciplina da classe.

Cora Coralina

In: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha
9. ed., São Paulo: Global, 2007
p. 163-4



- Postado por: Rodrigo às 14h05
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Dia dos Professores

MESTRES E ALUNOS

"É tarefa essencial do professor despertar a alegria de trabalhar e de conhecer. Caros meninos, como estou feliz por vê-los hoje diante de mim, juventude alegre de um país ensolarado e fecundo.

Pensem que todas as maravilhas, objetos de seus estudos, são a obra de muitas gerações, uma obra coletiva que exige de todos um esforço entusiasta e um labor difícil e impreterível. Tudo isto, nas mãos de vocês, se torna uma herança. Vocês a recebem, respeitam-na, aumentam-na e, mais tarde, irão transmiti-la fielmente à sua descendência. Deste modo somos mortais imortais, porque criamos juntos obras que nos sobrevivem.

Se refletirem seriamente sobre isto, encontrarão um sentido para a vida e para seu progresso. E o julgamento que fizerem sobre os outros homens e as outras épocas será mais verdadeiro."

Albert Einstein

In: Como vejo o Mundo - “Mein Weltbild” (1953)
Ed. Nova Fronteira – 11ª edição
Tradução de H. P. de Andrade

_________________

Por que presentear os professores com maçãs?

Saiba em: http://pessoas.hsw.uol.com.br/professor-maca.htm



- Postado por: Rodrigo às 13h58
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Manuel Lopes Fonseca: 15 de Outubro de 1911 — 11 de Março de 1993

Tu e eu meu amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima a correr
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

MANUEL DA FONSECA

In: Obra Poética



- Postado por: Rodrigo às 13h55
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Friedrich W. Nietzsche: 15 de Outubro de 1844 — 25 de Agosto de 1900

"É preciso a angústia de ser um caos para dali se gerar uma estrela"

* * *

"A melhor cura para o amor é ainda aquele remédio eterno: amor retribuído."

* * *

"Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade."

Friedrich Nietzsche



- Postado por: Rodrigo às 13h53
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Kiko Zambianchi (Ribeirão Preto, 14 de outubro de 1960)

Eu Te Amo Você

Acho que eu não sei não
Eu não queria dizer
Tô perdendo a razão
Quando a gente se vê

Mas tudo é tão difícil
Que eu não vejo a hora disso terminar
E virar só uma canção na minha guitarra

Eu te amo você
Já não dá pra esconder essa paixão
Eu queria te ver sentindo esse lance
Tirando os pés do chão, típico romance

Mas tudo é tão difícil
Que era mais fácil tentarmos esquecer
E virar mais uma ilusão nessa madrugada

Eu te amo você
Já não dá pra esconder essa paixão
Mas não quero viver
Te roubando o prazer da solidão

Eu te amo você
Não precisa dizer o mesmo não
Mas não quero te ver
Me roubando o prazer da solidão

Composição: Kiko Zambianchi

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Ge_epFZNJ9s


* * *

Primeiros Erros

Meu caminho é cada manhã
Não procure saber onde vou
Meu destino não é de ninguém
Eu não deixo os meus passos no chão

Se você não entende não vê
Se não me vê não entende
Não procure saber onde estou
Se o meu jeito te surpreende

Se o meu corpo virasse sol
Minha mente virasse sol
Mas só chove e chove
Chove e chove

Se um dia eu pudesse ver
Meu passado inteiro
E fizesse parar de chover
Nos primeiros erros

O meu corpo viraria sol
Minha mente viraria
Mas só chove e chove
Chove e chove

Composição: Kiko Zambianchi

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=9UT93H5PRAA



- Postado por: Rodrigo às 16h40
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Hannah Arendt: 14 de Outubro de 1906 — 4 de Dezembro de 1975

"As mentiras sempre foram consideradas instrumentos necessários e legítimos, não somente do ofício do político ou do demagogo, mas também do estadista".

Hannah Arendt

Wahrheit und Lüge in der Politik: Zwei Essays‎ - Página 44, de Hannah Arendt - Publicado por R. Piper, 1972 ISBN 3492003362, 9783492003360 - 92 páginas



- Postado por: Rodrigo às 16h27
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E. E. Cummings: 14 de outubro de 1894 — 3 de setembro de 1962

eu
estou
te pedindo
querida é pra
que mais poderia um
não mas não é o que
claro mas você não parece
entender que eu não posso ser
mais claro a guerra não é o que
imaginamos mas por favor pelo amor de Oh
que diabo sim é verdade que fui
eu mas esse eu não sou eu
você não vê que agora não nem
sequer cristo mas você
precisa compreender
como porque
eu estou
morto

E. E. Cummings

Tradução: Augusto de Campos



- Postado por: Rodrigo às 16h19
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Manuel Bandeira: 19 de abril de 1886 — 13 de outubro de 1968

VOU-ME EMBORA PRA PASÁRGADA

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
- Lá sou amigo do rei -
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 11h01
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Manuel Bandeira: 19 de abril de 1886 — 13 de outubro de 1968

PNEUMOTÓRAX

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi,
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
...........................................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo
e o pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 10h58
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Manuel Bandeira: 19 de abril de 1886 — 13 de outubro de 1968

Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 10h47
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Manuel Bandeira: 19 de abril de 1886 — 13 de outubro de 1968

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira

In: Neologismo. Estrela da Vida Inteira,
3ª Ed. - Rio de Janeiro, José Olympio, 1973,
p. 193



- Postado por: Rodrigo às 10h46
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Matsuo Bashô (1644 - 1694)

hototogisu
naki naki tobu zo
isogawashi

Tradução:
Olhe para o cuco
Que só canta, canta e voa -
Que vida ocupada!

* * *

chichi haha no
shikiri ni koishi
kiji no koe

Tradução:
Ah, quanta saudade
De meu pai e minha mãe
Na voz do faisão.

* * *

kogarashi ya
hôbare itamu
hito no kao

Tradução:
Tormenta hibernal -
O rosto do passante
Inchado e dolorido.

* * *

meigetsu ya
ike o megurite
yo mo sugara

Tradução:
Ah, lua de outono -
Andando em volta do lago
Passei toda a noite.

* * *

toshi kurenu
kasa kite waraji
hakinagara

Tradução:
Sandálias nos pés
E capa de chuva às costas -
O ano chega ao fim.

* * *

kôri nigaku
enso ga nodo o
uruoseri

Tradução:
O gelo é amargo
Para o rato que no esgoto
Aplaca a sua sede.

* * *

araumi ya
sado ni yokotau
ama no gawa

Tradução:
O mar agitado -
Na direção da ilha de Sado
A Via-Láctea.

* * *

tombô ya
toritsuki kaneshi
kusa no ue

Tradução:
A libélula -
Sem conseguir se agarrar
A uma folha de capim.

* * *

meigetsu ya
za ni utsukushiki
kao mo nashi

Tradução:
Ah, lua cheia!
Nem mesmo um rosto bonito.
Entre os presentes

* * *

natsugusa ya
tsuwamonodomo ga
yume no ato

Tradução:
Tudo o que restou,
Dos sonhos dos guerreiros -
Capim de verão.

* * *

ara tôto
aoba wakaba no
hi no hikari

Tradução:
Quão glorioso,
Nas folhas verdes, folhas tenras,
O brilho do sol!

* * *

kogarashi ya
take ni kakurete
shizumarinu

Tradução:
Vento cortante -
Se esconde em meio ao bambu
E desaparece.

* * *

higoro nikuki
karasu mo yuki no
ashita kana

Tradução:
Normalmente feios
Até os corvos ficam belos
Na manhã de neve.

* * *

kimi hi o take
yoki mono misen
yuki maroge

Tradução:
Acenda o fogo
Que lhe mostro algo legal -
Uma grande bola de neve.

* * *

aka aka to
hi wa tsurenaku mo
aki no kaze

Tradução:
Apesar do sol
Ardendo sem compaixão
O vento de outono.

* * *

hiya-hiya to
kabe o fumaete
hirune kana

Tradução:
Refresca um pouco
Pôr os pés na parede
durante a sesta.

* * *

kono michi ya
yuku hito nashi ni
aki no kure

Tradução:
Por este caminho
Ninguém mais passa -
Tarde de outono

* * *

kitsutsuki no
hashira o tataku
sumai kana

Tradução:
Ah, esta casa
Pica-paus vêm bicar
Sua madeira.

* * *

yo no naka wa
ine karu koro ka
kusa no io

Tradução:
Minha casa de sapê -
Será tempo de colheita
No mundo lá fora?

* * *

samidare o
atsumete hayashi
mogamigawa

Tradução:
Recolhendo toda
A chuva do mês de maio
Corre o rio Mogami

* * *

haru nare ya
na mo naki yama no
asagasumi

Tradução:
Chegou a primavera -
Uma montanha sem nome
Na névoa da manhã.

* * *

kasa mo naki
ware o shigururu ka
nanto nanto

Tradução:
Sem guarda-chuva
E sob a chuva de inverno -
Bem, bem!

* * *

hyaku nen no
keshiki o niwa no
ochiba kana

Tradução:
Cem anos de idade-
A paisagem das folhas
Caídas no jardim

* * *

tabi-bito to
waga na yobaren
hatsu-shigure

Tradução:
Primeiras chuvas de inverno
Meu nome poderia ser apenas
"Viajante"!

* * *

uma o sae
nagamuru yuki no
ashita kana

Tradução:
Manhã de neve.
Até mesmo os cavalos
Ficamos olhando.

* * *

negi shiroku
araitatetaru
samusa kana

Tradução:
As Cebolinhas
Lavadas e tão brancas
Que frio!

* * *

shiratsuyu ni
sabishiki aji o
wasururu na

Tradução:
Não se esqueça
Do gosto de solidão
Do orvalho branco

* * *

muzan ya na
kabuto no shita no
kirigirisu

Tradução:
Que tocante!
Debaixo da armadura
Sai um grilo.

* * *

kono aki wa
nan de toshiyoru
kumo ni tori

Tradução:
Neste outono,
Como estou ficando velho!
Pássaros nas nuvens.

* * *

hiru mireba
kubisuji akaki
hotaru kana

Tradução:
Vendo à luz do dia,
Tem um colar vermelho
O vagalume!

* * *

yagate shinu
keshiki wa miezu
semi no koe

Tradução:
Nada indica
Que ela vá morrer -
Canta a cigarra.

* * *

umi kurete
kamo no koe
honoka ni shirishi

Tradução:
Anoitece no mar -
Os gritos dos patos selvagens,
Vagamente brancos.

* * *

yuku haru ya
tori naki uo no
me wa namida

Tradução:
Vai-se a primavera!
Lágrimas no olho do peixe.
Choram as aves.

* * *

okiyo okiyo
waga tomo ni sen
neru kochô

Tradução:
Acorda, acorda!
Vem ser minha amiga,
Borboleta que dorme!

* * *

mugi-meshi ni
yatsururu koi ka
neko no tsuma

Tradução:
Tão mirrada,
De tanto arroz e cevada,
A gata enamorada.

* * *

hatsu-shigure
saru mo komino o
hoshige nari

Tradução:
Primeira chuva de inverno -
O macaquinho também quer
Uma capa de palha.

* * *

tabi ni yande
yume wa kareno o
kakameguru

Tradução:
Doente de viagem,
Meus sonhos vagueiam
Pelo campo seco

Matsuo Bashô



- Postado por: Rodrigo às 18h04
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Nísia Floresta: 12 de outubro de 1810 — 24 de abril de 1885

Aqui sob esta abóbada

Aqui sob o zimbório, onde um santo viveu,
Eu scismo sobre o nada... E a lama entristeceu...
E vem-me ao coração, assim, desilludido,
Santa recordação do meu filho querido...
A lembrança dos meus é orvalho enluarado
Suavizando o calor do meu peito abrazado.
Da vida no espinhal, de minha mãe a imagem
É perfume de flor, é verde de ramagem...
Branca e doce visão aos pés do altar pendida,
Intercedendo aos céos pela filha dorida,
Que chora de amargor, ante o vício e o peccado,
Enquanto escuta da alma um som nunca estudado...
Brando e divino som, que ao coração me vem
Como resteas do sol, como um sopro do Bem...
Seria a tua prece, ó mãe, o teu cicio
Que em mim repercutindo, eu sinto que allivio?
Deus fazendo vibrar seraphica oração,
Harmonia do céo, dentro do coração?
Ó mãe, esposo e pae, ó trindade primeira,
Que eu recordo, entre o crepe e a flor da laranjeira,
Como estrellas brilhando em rosários de luz,
Um clarão derramai aos pés da minha Cruz!...

Nísia Floresta



- Postado por: Rodrigo às 17h42
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Cesar Veneziani - Saudade de ti

Saudade de ti

De ti não dói a saudade:
é sentimento gostoso.
Luz de raio luminoso,
que clareia quando invade.

Emociona sem alarde.
É um momento virtuoso
que me deixa orgulhoso.
Falo sério, é verdade!

Teu toque é por mãos sedosas,
teu beijo sopro divino,
teus olhos doce expressão.

Misto de anjo e de rosas
és meu sonho de menino,
saudade que não dói não!

Cesar Veneziani 

Escrito em 09/10/2008

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 17h24
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Lin Yutang 林語堂: 10 de Outubro de 1895 – 26 de Março de 1976

Além da nobre arte de conseguir fazer as coisas, existe a nobre arte de deixar as coisas por fazer. A sabedoria da vida consiste na eliminação do que não é essencial.

Lin Yutang



- Postado por: Rodrigo às 17h19
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Harold Pinter: 10 de Outubro de 1930 - 24 de dezembro de 2008

Em 1958, escrevi o seguinte:

"Não existem distinções concretas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa a um só tempo".

Acredito que essa alegação continue a fazer sentido e continue a se aplicar à exploração da realidade por intermédio da arte. Portanto, como escritor eu reafirmo o que disse. Mas não posso fazê-lo como cidadão. Em minha condição de cidadão, me cabe perguntar: O que é verdadeiro? O que é falso?

(...) A vida de um escritor é altamente vulnerável, uma atividade quase nua. Não precisamos lamentar esse fato. O escritor faz sua escolha e tem de viver com ela. Mas é lícito dizer que você fica aberto a todos os ventos, alguns dos quais de fato gélidos. Você está por sua conta, isolado. Não encontra abrigo ou proteção a menos que minta, o que permite que você construa sua própria proteção e, poder-se-ia alegar, se torne político.

Quando nos olhamos no espelho acreditamos que a imagem que vemos seja acurada. Mas basta um movimento de um milímetro e a imagem muda. Na verdade, estamos olhando uma gama infinita de reflexos. Mas às vezes o escritor precisa quebrar o espelho porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara.

Acredito que a despeito das enormes dificuldades que existem, cabe-nos como cidadãos, com ferrenha, inamovível e feroz determinação intelectual, definir a verdade real de nossas vidas e nossas sociedades. Trata-se de uma obrigação crucial para todos nós. É de fato compulsória.

Se essa determinação não for incorporada por nossa visão política, não teremos esperança de restaurar aquilo que está quase perdido para nós: a dignidade do homem."

Harold Pinter

Trecho de seu discurso no prêmio Nobel de Literatura 2005 - disse que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, deveriam ser processados pela invasão do Iraque, a qual ele chamou "de um ato bárbaro de terrorismo".

Texto na íntegra: www.folha.com.br/053411



- Postado por: Rodrigo às 17h08
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Taiguara Chalar da Silva: 9 de outubro de 1945 — 14 de fevereiro de 1996

Hoje

Trago em meu corpo as marcas do meu tempo
Meu desespero, a vida num momento
A fossa, a fome, a flor, o fim do mundo...

Hoje
Trago no olhar imagens distorcidas
Cores, viagens, mãos desconhecidas
Trazem a lua, a rua às minhas mãos,

Mas hoje,
As minhas mãos enfraquecidas e vazias
Procuram nuas pelas luas, pelas ruas...
Na solidão das noites frias por você.

Hoje
Homens sem medo aportam no futuro
Eu tenho medo acordo e te procuro
Meu quarto escuro é inerte como a morte

Hoje
Homens de aço esperam da ciência
Eu desespero e abraço a tua ausência
Que é o que me resta, vivo em minha sorte

Sorte
Eu não queria a juventude assim perdida
Eu não queria andar morrendo pela vida
Eu não queria amar assim como eu te amei.

Composição: Taiguara

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=t4bBwuB75XU



- Postado por: Rodrigo às 12h00
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João Cabral de Melo Neto: 9 de janeiro de 1920 – 9 de outubro de 1999

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

In: Poesias Completas.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1979

(Arte: Cock A Doodle Dude - Catherine G McElroy)



- Postado por: Rodrigo às 11h49
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Mário de Andrade: 9 de outubro de 1893 — 25 de fevereiro de 1945

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 11h40
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Maria Osorio Marques - Escrever é preciso

A questão é começar

“Coçar e comer é só começar. Conversar e escrever também. Na fala, antes de iniciar, mesmo uma livre conversação, é necessário quebrar o gelo. Em nossa civilização apressada , o ‘bom-dia’, o ‘boa-tarde, como vai?’ já não funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol. No escrever também poderia ser assim, e deveria haver uma escrita algo como a conversa vadia, com que se divaga até encontrar assunto para um discurso encadeado (...)

Há gente que não começa, alegando precisar de tempo. Andam à procura não do tempo perdido, mas do temo que não lhe dão. Falta tempo ou falta paixão? Qual o viciado que não encontra tempo e jeito para sua cachacinha no boteco? O tempo não é sólido que não se possa recortar em fatias para melhor distribuí-lo, nem é líquido sem consistência e densidade/duração apropriada. O tempo é pastoso, algo que se espicha ou comprime como se quer, que se amolda aos nossos amores. Havendo paixão não é preciso a cada momento ser alertado (...) [que] a cada dia [há] como escrever alguma linha que seja, desde que o escrever seja cachaça, não obrigação insípida. (...)".

Maria Osorio Marques

In: Escrever é preciso.
Ijuí: Unijuí, 1997
p. 13-15



- Postado por: Rodrigo às 11h32
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Herta Müller, vencedora do Nobel de Literatura 2009

"Uma mulher sempre sabe como está sua aparência a cada dia. E que um beijo na mão, primeiro, não deve doer, segundo, não deve ser molhado, terceiro, deve ser dado nas costas da mão. Homens sabem ainda melhor do que mulheres como deve ser um beijo na mão, certamente também Albu. Toda a cabeça dele cheira a Avril, um perfume francês que meu sogro, o comunista de perfumaria, também usava. Nenhuma outra pessoa que conheço compraria esse perfume. No mercado negro custa mais do que um terno numa loja. Talvez se chame Setembro, mas eu sempre reconhecerei aquele odor amargo e fumacento de folhas queimando.

(...) É humilhante, não há outra palavra, sentir-se descalça no corpo inteiro. Só que, quando a melhor palavra ainda não é suficiente, não se pode dizer muita coisa com palavras."

Herta Müller

"O compromisso" (no original, "Wär ich mir lieber nicht begegnet") é o primeiro livro da escritora Herta Müller, vencedora do prêmio Nobel de Literatura em 2009, a ser publicado no Brasil. A obra foi lançada em 2004, pela editora Globo. O trecho acima do romance foi traduzido do alemão pela escritora Lya Luft.



- Postado por: Rodrigo às 11h26
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Confúcio (551 a.C. - 479 a.C.)

“Existem três prazeres por meio dos quais há benefício e três prazeres por meio dos quais há perda. Desfrute governar com os ritos e a música, desfrute falar do bem nos outros e desfrute ter amigos virtuosos e realmente haverá benefício. Desfrute comprazer-se da arrogância, desfrute lazer pelo ócio e desfrute comprazer-se nos festins e realmente haverá perda.”

Confúcio

In: Analectos, Cap. XVI, Verso 5.



- Postado por: Rodrigo às 11h14
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Edgar Allan Poe: 19 de janeiro de 1809 - 7 de Outubro de 1849

"Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca via as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para as doces alegrias, e quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, por todos os lados, o meu cruel destino..."

Edgar Allan Poe

Publicado postumamente na edição de setembro de 1875 do Scribner's Magazine.



- Postado por: Rodrigo às 23h31
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Edgar Allan Poe: 19 de janeiro de 1809 - 7 de Outubro de 1849

O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minhalma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: 'Nunca mais.'"

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais.
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Edgar Allan Poe

Tradução de Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 23h29
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Maurice Scève - Se a vejo pouco...

SE A VEJO POUCO...

Se a vejo pouco, odeio-a muito mais;
Se a odeio mais, dá-me pouco enfado.
Se a estimo muito, pouco a mim me faz;
Se lhe fujo, mais quero ser achado.
Sou sempre por opostos torturado,
Amor e ódio, tormento com prazer.
Forte é o amor se só me quer prender
Então, vem o ódio e grita-me vingança;
Assim, faz-me ela odiar meu vão querer,
Por quem meu peito implora e não se cansa

Maurice Scève (1510-1564)

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Concepção e Tradução: Renata Cordeiro
Ed. Landy, 2002
p. 20



- Postado por: Rodrigo às 13h35
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Emily Dickinson

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summers's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze -
a caper in the trees-
And I'm a Rose!
(c. 1858)

* * *

Sépala, pétala e um espinho -
Nesta manhã radiosa -
Gota de Orvalho - Abelhas -
Brisa -
Folhas em remoinho -
Sou uma Rosa!

Emily Dickinson

In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp, 2008



- Postado por: Rodrigo às 13h31
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Zé Keti: 6 de outubro de 1921 — 14 de novembro de 1999

Diz que fui por aí

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando o violão embaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela

Composição: Zé Kéti e H. Rocha



- Postado por: Rodrigo às 13h27
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Osho - Escute seu coração

Pessoas sedentas de poder são psicologicamente doentes. Sofrem de complexo de inferioridade; sentem-se feridas no fundo de si mesmas. Desejam ficar no poder para convencer a si mesmas de que são algo, e para convencê-lo de que você não pode tomá-las como comuns; são pessoas extraordinárias. E lembre-se, este é o desejo mais ordinário, o de ser extraordinário - um desejo muito ordinário, muito comum, encontrado em todos.

A pessoa verdadeiramente extraordinária é aquela que não tem desejo de ser extraordinária, que está completamente à vontade com sua ordinariedade.

Osho

In: Escute seu coração
Editora Gente, 2001
p. 27



- Postado por: Rodrigo às 11h35
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Cazuza- Que o Deus Venha

"Gosto de coisas densas, como a literatura de Clarice Lispector. Por falar nela, acabei de compor "Que o Deus venha (03/86)", uma música inspirada em meu livro de cabeceira, 'Água Viva'". Cazuza

* * *

Que o Deus Venha

Sou inquieto, áspero
E desesperançado
Embora amor dentro de mim eu tenha
Só que eu não sei usar amor
Às vezes arranha
Feito farpa

Se tanto amor dentro de mim
Eu tenho, mas no entanto
Continuo inquieto
É que eu preciso que o Deus venha
Antes que seja tarde demais

Corro perigo
Como toda pessoa que vive
E a única coisa que me espera
É o inesperado

Mas eu sei
Que vou ter paz antes da morte
Que vou experimentar um dia
O delicado da vida
Vou aprender
Como se come e vive
O gosto da comida

Composição: Cazuza / R. Frejat / C. Lispector



- Postado por: Rodrigo às 11h32
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Cesar Veneziani - Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

longe/perto
tema incerto
árido deserto
dilema que a vida
distraída
nos enfia abaixo à goela

EU QUERO ELA

distância infame
infinita
faz com que eu a ame
e a lembrança acalma
gêmea alma
me faz senti-la aqui
nesta poesia
eu em São Paulo
ela na Bahia

TE AMO, GRITO, NÃO CALO

longe do alcance dos sentidos
sentida física ausência
a cachaça libera a demência
na falta do toque
ouço um rock
me vem a emoção
me salta à boca
o coração
e a louca
certeza insana
emana
assim do nada

MINHA NAMORADA!

12/06/2009

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 11h29
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Mario Quintana - A verdadeira arte de viajar

A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo...
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana

In: A cor do invisível
São Paulo: Globo, 1994



- Postado por: Rodrigo às 22h02
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Adriana Calcanhotto (Porto Alegre, 3 de outubro de 1965)

Metade

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?...

Composição: Adriana Calcanhotto

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=fgQ5H1ghVB4



- Postado por: Rodrigo às 22h00
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Martha Medeiros - Promessa Matrimonial

Promessa Matrimonial

"Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:

Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?

Acho simplista e um pouco fora da realidade.

Dou aqui novas sugestões de sermões:

Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?
Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

Promete se deixar conhecer?

Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?

Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros."

Martha Medeiros

In: Montanha-Russa



- Postado por: Rodrigo às 00h10
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Mahatma Gandhi: 2 de outubro de 1869 - 30 de janeiro de 1948

“Se ouvíssemos direito, perceberíamos que Deus conversa conosco em nossa língua, seja ela qual for." (In: 1001 Pérolas de Sabedoria – PubliFolha)

* * *

"A Oração é a chave da manhã e o fecho do anoitecer.”

* * *

Mantenha seus pensamentos positivos, porque pensamentos tornam-se suas Palavras.
 
Mantenha suas palavras positivas, porque suas palavras tornam-se suas Atitudes.

Mantenha suas atitudes positivas, porque suas atitudes tornam-se seus Hábitos.

Mantenha seus hábitos positivos, porque seus hábitos, tornam-se seus valores.

Mantenha seus valores positivos, porque seus valores tornam-se seu Destino.

Mahatma Gandhi



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Adélia Prado - Corridinho

Corridinho

O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado

In: Poesia Reunida,
Siciliano 1991, São Paulo,
p. 181



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Ernani Fraga - Bilhetinho

BILHETINHO

para Marisa Del Santo

toda vez que,
de muito longe,
aflito eu buscar
no infinito das ruas
o brilho infindo
do teu riso
será este preciso o tempo
de que preciso para criar
a eternidade da vida
sob os beirais dos teus
ombros lindos

ERNANI FRAGA



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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Carlos Drummond de Andrade - A língua girava no céu da boca

A língua girava no céu da boca

A língua girava no céu da boca. Girava! Eram duas bocas, no céu único.

O sexo desprendera-se de sua fundação, errante imprimia-nos seus traços de cobre. Eu, ela, elaeu.

Os dois nos movíamos possuídos, trespassados, eleu. A posse não resultava de ação e doação, nem nos somava. Consumia-nos em piscina de aniquilamento. Soltos, fálus e vulva no espaço cristalino, vulva e fálus em fogo, em núpcia, emancipados de nós.

A custo nossos corpos, içados do gelatinoso jazigo, se restituíram à consciência. O sexo reintegrou-se. A vida repontou: a vida menor.

Carlos Drummond de Andrade

Extraído do livro "O amor natural", Editora Record – RJ, 1992, pág. 29.



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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