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Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto): 11.01.1923 — 30.09.1968

Divisão

Você poderá ficar com a poltrona, se quiser. Mande forrar de novo, ajeitar as molas. É claro que sentirei falta. Não dela, mas das tardes em que aqui fiquei sentado, olhando as arvores. Estas sim, eu levaria de bom grado: as árvores, a vista do morro, até a algazarra das crianças lá embaixo, na praça. O resto dos moveis — são tão poucos! — podemos dividir de acordo com nossas futuras necessidades.

A vitrola está tão velha que o melhor é deixá-la ai mesmo, entregue aos cuidados ou ao desespero do futuro inquilino. Tanto você quanto eu haveremos de ter, mais cedo ou mais tarde, as nossas respectivas vitrolas, mais modernas, dotadas de todos os requisitos técnicos e mais aquilo que faltou ao nosso amor: alta-fidelidade.

Quanto aos discos, obedecerão às nossas preferências. Você fica com as valsas, as canções francesas, um ou outro "chopinzinho", o Mozart e Bing Crosby. Deixe para mim o canto pungente do negro Armstrong, os sambas antigos e estes chorinhos. Aqueles que compartilhavam do nosso gosto comum serão quebrados e jogados no lixo. É justo e honesto.

Os livros são todos seus, salvo um ou outro com dedicatória. Não, não estou querendo ser magnânimo. Pelo contrario: Ainda desta vez penso em mim. Será um prazer voltar a juntá-los, um por um, em tardes de folga, visitando livrarias. Aos poucos irei refazendo toda esta biblioteca, então com um caráter mais pessoal. Fique com os livros todos, portanto. E conseqüentemente com a estante também.

Os quadros também são seus, e mais esses vasinhos de plantas. Levarei comigo o cinzeirinho verde. Ele já era meu muito antes de nos conhecermos. Também os dois chinesinhos de marfim e esta espátula. Veja só o que está escrito nela: 12-1-48. Fique com toda essa quinquilharia acidentalmente juntada. Sempre detestei bibelôs e, mais do que eles, a chamada arte popular, principalmente quando ela se resume nesses bonequinhos de barro. Com exceção,o de pote de melado e moringa de água, nada que foi feito com barro presta. Nem o homem.

Rasgaremos todas as fotografias, todas as cartas, todas as lembranças passíveis de serem destruídas. Programas de teatros, álbuns de viagens, souvenirs. Que não reste nada daquilo que nos é absolutamente pessoal e que não possa ser entre nos dividido.

Fique com a poltrona, seus discos, todos os livros, os quadros, esta jarra. Eu ficarei com estes objetos, um ou outro móvel. Tudo está razoavelmente dividido. Leve a sua tristeza, eu guardarei a minha.

Sergio Porto

In: A casa demolida
Editora do Autor, Rio de Janeiro, 1968,
p. 201



- Postado por: Rodrigo às 00h07
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Truman Capote: 30 de setembro de 1924 — 25 de agosto de 1984

É horrível na vida da gente ficar sem alguma coisa que nós queremos; mas caramba, o que me enfurece é não poder dar a alguém alguma coisa que a gente queria que ele tivesse.

Truman Capote

In: Histórias maravilhosas
Ed. Nova Fronteira
pg. 20

(Arte: Candido Portinari, 'Retirantes'; 1944)



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

"Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae, três inventos do padre Zeus, que, por estarem fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno."

Machado de Assis

In: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Cap. XV - SP: Ed. Círculo do Livro, p. 41



- Postado por: Rodrigo às 00h27
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

O Espelho

(...) "Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira..."

Machado de Assis

In: Contos Escolhidos
Seleção e Apresentação – Roberto Alves
Ed. Klick, 1999
p. 22



- Postado por: Rodrigo às 00h21
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

CÍRCULO VICIOSO

Bailando no ar, gemia inquieto vaga-lume:
- "Quem me dera que fosse aquela loura estrela,
Que arde no eterno azul, como uma eterna vela!"
Mas a estrela, fitando a lua, com ciúme:

- "Pudesse eu copiar o transparente lume,
Que, da grega coluna à gótica janela,
Contemplou, suspirosa, a fronte amada e bela!"
Mas a lua, fitando o sol, com azedume:

- "Mísera! tivesse eu aquela enorme, aquela
Claridade imortal, que toda a luz resume:
Mas o sol, inclinando a rútila capela:

- "Pesa-me esta brilhante auréola de nume...
Enfara-me esta azul e desmedida umbela...
Por que não nasci eu um simples vaga-lume?"

Machado de Assis

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h14
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

MUSA CONSOLATRIX

Que a mão do tempo e o hálito dos homens
Murchem a flor das ilusões da vida,
Musa consoladora,
É no teu seio amigo e sossegado
Que o poeta respira o suave sono.

Não há, não há contigo,
Nem dor aguda, nem sombrios ermos;
Da tua voz os namorados cantos
Enchem, povoam tudo
Da íntima paz de vida e de conforto.

Ante esta voz que as dores adormece,
E muda o agudo espinho em flor cheirosa,
Que vales tu, desilusão dos homens?
Tu que podes, ó tempo?
A alma triste do poeta sobrenada
À enchente das angústias,
E, afrontando o rugido da tormenta,
Passa cantando, alcíone divina.

Musa consoladora,
Quando da minha fronte da mancebo
A última ilusão cair, bem como
Folha amarela e seca
Que ao chão atira a viração do outono,
Ah! no teu seio amigo
Acolhe-me, - e haverá minha alma aflita,
Em vez de algumas ilusões que teve,
A paz, o último bem, último e puro!

Crisálidas, 1864

Machado de Assis

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h07
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

UMA CRIATURA

Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.

Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.

Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.

Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.

Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.

Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.

Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.

Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a vida.

Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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João Cabral de Melo Neto - Questão de Pontuação

Questão de Pontuação

Todo mundo aceita que ao homem
cabe pontuar a própria vida:
que viva em ponto de exclamação
(dizem: tem alma dionisíaca);

viva em ponto de interrogação
(foi filosofia, ora é poesia);
viva equilibrando-se entre vírgulas
e sem pontuação (na política):

o homem só não aceita do homem
que use a só pontuação fatal:
que use, na frase que ele vive
o inevitável ponto final.

João Cabral de Melo Neto

In: Folha de S. Paulo
Revista Serafina - 27.09.2009
Seleção de Frederico Barbosa
p. 33



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Silas Corrêa Leite - O Amor

O AMOR

O amor é um parafuso
Que precisa preencher espaço
Ir além do buraco
E nele pregar a peça

O amor é um parafuso
Enferrujado, em desuso
E por mais que o meio meça
Falta sempre um cavaco

O amor é um parafuso
Pregado segura a arte
Ele vê de qualquer parte
O dogma, o sândalo; o obtuso

O amor é um parafuso
Cuja a fenda é o apertar-se
Por isso ao amar - ao dar-se
Esqueça o cobrar. Use-o.

Silas Corrêa Leite



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Tim Maia: 28 de setembro de 1942 — 15 de março de 1998

Preciso ser Amado

Eu preciso de carinho
Eu preciso de calor
Vem abrir o meu caminho
Venha ser o meu amor...

Eu preciso ser amado
Ser amado prá valer
Ando até preocupado
Sem vontade de viver...

Venha ser a minha amada
Me acompanhe por favor
Minha linda namorada
Pois é seu o meu amor...

Eu preciso ser amado
Ser amado prá valer
Ando até preocupado
Sem vontade de viver...

Venha ser a minha amada
Me acompanhe por favor
Minha linda namorada
Pois é seu o meu amor
Pois é seu o meu amor...

Composição: Tim Maia

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=1KFlnwi5lrE



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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William Shakespeare - Soneto XLIII

Soneto XLIII

Quanto mais fecho os olhos melhor vejo;
o dia todo vi coisas vulgares
mas quando durmo em sonho te revejo
pondo no escuro luzes estelares,

tu, cuja sombra faz brilhar as sombras,
como podes formar das sombras luzes
no claro dia que de luz assombras
pois tanto brilho no negror produzes?

Como podem meus olhos abençoados
assim te ver brilhar em pleno dia
quando na noite escura deslumbrados

dentro de fundo sono eu já te via?
Meu dia é noite quando estás ausente
e à noite eu vejo o sol se estás presente.

William Shakespeare

Tradução de Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça

In: Os Mais Belos Sonetos que o Amor Inspirou
Volume III, RJ: Ed. Vecchi, 1968
p. 145



- Postado por: Rodrigo às 00h08
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Vinicius de Moraes - Soneto de Véspera

Soneto de Véspera

Quando chegares e eu te vir chorando
De tanto te esperar, que te direi?
E da angústia de amar-te, te esperando
Reencontrada, como te amarei?

Que beijo teu de lágrimas terei
Para esquecer o que vivi lembrando
E que farei da antiga mágoa quando
Não puder te dizer por que chorei?

Como ocultar a sombra em mim suspensa
Pelo martírio da memória imensa
Que a distância criou – fria de vida

Imagem tua que eu compus serena
Atenta ao meu apelo e à minha pena
E que quisera nunca mais perdida...

Vinicius de Moraes

In: Poemas, sonetos e baladas



- Postado por: Rodrigo às 00h03
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Francisco Alves: 19 de agosto de 1898 — 27 de setembro de 1952

Por Teu Amor

Ordena, fala, insinua
Diz o que queres de mim
Jardineiro da amargura
Eu tenho um triste jardim

As rosas nascem na mágoa
Só estas posso colher
Banhadas sempre na água
Do pranto do meu viver

Outras mulheres
No meu cantar
Pensam que é delas
A minha dor
Mas se tu queres
Manda calar
Tudo que eu canto
Por teu amor

Só nesta valsa
Eu te diria
Como é tão falsa
Minha alegria
Como é mentira
O meu cantar
Quando teu nome
Vivo a ocultar

Composição: Francisco Alves / Orestes Barbosa



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Gal Costa (Salvador, 26 de setembro de 1945)

Coisa Mais Linda

Coisa mais bonita
É você!
Assim!
Justinho você
Eu juro!
Eu não sei porque
Você!...

Você!
É mais bonita que a flor
Quem dera!
A primavera da flor
Tivesse!
Todo esse aroma de beleza
Que é o amor
Perfumando a natureza
Numa forma de mulher...

Porque
Tão linda assim?
Não existe
A flor!
Nem mesmo a cor não existe
E o amor!
Nem mesmo o amor existe...

Composição: Carlos Lyra e Vinicius de Moraes

 Ouça esta música por Gal Costa:
http://www.youtube.com/watch?v=RGFv-dSAUjk



- Postado por: Rodrigo às 10h17
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Luis Fernando Verissimo (Porto Alegre, 26 de setembro de 1936)

CÂNTICO

Como uma imagem, amada minha, é o fulgor da tua face. Os teus cílios são com antenas internas. Altiva é a tua cabeça direcional sobre os telhados, que o vento não abate. Meus dedos procuram teus botões como a polícia americana cerca o culpado, e desfaleço de amor. A tua imagem não rola, és vertical como uma torre de microondas ao sol da tarde. A minha amada tem as cores do Cid Moreira no Jornal Nacional, os seus olhos são como os de Sandra Bréa, seus dentes são como os rebanhos de ovelhas que sobem do lavadouro num comercial de alvejante. Confortai-me com sprays, recuperai-me com super-kings, pois eis que desfaleço. Ajusto a horizontal da minha amada e é fantástico.

A tua fronte é um luminoso de acrílico, amada minha, irmã minha. A curva do teu pescoço é como a traseira de um Maverick que reflete a luz do mercúrio. Os teus dois seios são como as turbinas de um jato. És um DC-10, amada minha. A minha mão percorre teus corredores como uma aeromoça, portando lentos prazeres. O teu ventre é como uma pista de asfalto sob a chuva, teu umbigo é como um poço de edifício. Como viadutos são as tuas coxas. Teus pés são pequenos e ágeis como táxis. Vem ao meu leito, amada minha, irmã minha. Deita-te sobre a fuligem. A minha mão sobre o teu ventre é como a fumaça das fábricas que cobre os montes. O teu hálito é como o monóxido de carbono que sobe das ruas, e eis que desfaleço. A minha amada é para mim como um sistema integrado, os seus transistores me animam e o meu leito se cobre de print-outs. Eu programo a minha amada e a minha amada me programa. Ela é um túnel vitrificado que o metrô percorre em silêncio. A minha amada é binária e digital, a minha amada é como um tape-deck que recebe o cartucho e zune com doçura, é como um guitarra quando o pé espreme no pedal. A sua penugem é como a grama artificial depois do orvalho. Os refletores se ofuscam com minha amada. A sua inocência desarma o cimento. Sua volúpia faz até o sinal ficar vermelho. As ruas de mão única desmunhecam diante das suas formas. As perimetrais desviam para o centro. Vem ao meu leito, irmã minha, quando as sirenas cortam a noite. A minha amada é como a ranhadura onde o terrorista esconde a bomba. A minha amada é um estouro.

Quão deliciosos são os teus aromas, amada minha. Os teus cabelos cobrem uma fonte de olores. A tua nuca é como uma lanchonete, irmã minha. A fragrância do cheeseburger,  e sei que desfaleço. O pastel, a Fanta uva, a gasolina queimada, o lixo. Como uma cidade de incensos é o corpo da minha amada partiu as cortinas da minha tenda de oxigênio e me atraiu para o deserto.

Luis Fernando Verissimo

In: O Gigolô das Palavras
p. 33-4



- Postado por: Rodrigo às 00h03
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Thomas Stearns Eliot: 26 de setembro de 1888 — 4 de janeiro de 1965

MORNING AT THE WINDOW

They are rattling breakfast plates in basement kitchens,
And along the trampled edges of the street
I am aware of the damp souls of housemaids
Sprouting despondently at area gates.

The brown waves of fog toss up to me
Twisted faces from the bottom of the street,
And tear from a passer-by with muddy skirts
An aimless smile that hovers in the air
And vanishes along the level of the roofs.

* * *

MANHÃ À JANELA

Há um tinir de louças de café
Nas cozinhas que os porões abrigam,
E ao longo das bordas pisoteadas da rua
Penso nas almas úmidas das domésticas
Brotando melancólicas nos portões das áreas de serviço.

As ondas castanhas da neblina me arremessam
Retorcidas faces do fundo da rua,
E arrancam de uma passante com saias enlameadas
Um sorriso sem destino que no ar vacila
E se dissipa rente ao nível dos telhados.

T. S. Eliot

Tradução: Ivan Junqueira



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Cesar Veneziani - Agoras

Agoras

que agoras são estes
que as horas devoram

o hoje foge pra longe

tem muitos ontens
na minha memória

25/09/2009

Cesar Veneziani

+ http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 21h22
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Affonso Romano de Sant'Anna - Assombros

Assombros

Às vezes, pequenos grandes terremotos
ocorrem do lado esquerdo do meu peito.

Fora, não se dão conta os desatentos.

Entre a aorta e a omoplata rolam
alquebrados sentimentos.

Entre as vértebras e as costelas
há vários esmagamentos.

Os mais íntimos
já me viram remexendo escombros.
Em mim há algo imóvel e soterrado
em permanente assombro.

Affonso Romano de Sant'Anna

Poesia extraída do livro "Lado Esquerdo do Meu Peito", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1992.



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Fernando Pessoa - Liberdade

LIBERDADE

Ai que prazer
não cumprir um dever.
Ter um livro para ler
e não o fazer!
Ler é maçada,
estudar é nada.
O sol doira sem literatura.
O rio corre bem ou mal,
sem edição original.
E a brisa, essa, de tão naturalmente matinal
como tem tempo, não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto melhor é quando há bruma.
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

E mais do que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças,
Nem consta que tivesse biblioteca...

Fernando Pessoa



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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William C. Faulkner: 25 de setembro de 1897 — 6 de julho de 1962

"Há dias no final de agosto lá no Sul que são assim, o ar fino e ansioso assim, com algo de triste e nostálgico e familiar. O homem é o somatório de suas experiências disse o pai. O homem é o somatório de seja lá o que for. Um problema de propriedades impuras levado monotonamente até o nada invariável: impasse de pó e desejo."

William Faulkner

In: O som e a fúria.
Tradução Paulo Henriques Britto
São Paulo: Cosac Naify, 2004. 336 p.



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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F. Scott Fitzgerald: 24 de setembro de 1896 - 21 de dezembro de 1940

“[…]Comecei a gostar de Nova York, a sensação estimulante e aventureira da cidade à noite e o prazer que a vibração constante de homens, mulheres e máquinas oferecem ao olho irrequieto. Gostava de caminhar pela Quinta Avenida e escolher mulheres românticas na multidão e imaginar que em poucos minutos eu ia entrar em suas vidas e ninguém jamais saberia ou reprovaria. Às vezes, no meu pensamento, eu as seguia até seus apartamentos nas esquinas de ruas ocultas e elas se viravam e sorriam para mim antes de desaparecer por uma porta na cálida escuridão. Na encantada penumbra metropolitana eu sentia às vezes uma solidão obsedante, e a sentia em outros- funcionário jovens e pobres que flanavam diante das vitrines até que chegasse a hora de jantarem sozinhos num restaurante-  jovens funcionários no crepúsculo, desperdiçando os momentos mais pungentes da noite e da vida.

De novo, às oito horas, quando as ruas palpitavam com táxis emparelhados em cinco pistas a caminhada região dos teatros, eu sentia o coração afundar. Figuras se inclinavam uma para as outras nos táxis enquanto esperavam, vozes cantavam e havia risadas de gracejos não escutados, e cigarros acesos contornavam gestos ininteligíveis dentro dos carros.[…]”

F. Scott Fitzgerald

In: O Grande Gatsby (1925)



- Postado por: Rodrigo às 00h23
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Olavo Bilac - Via-Láctea - XXI

Via-Láctea

XXI

A minha mãe.

Sei que um dia não há (e isso é bastante
A esta saudade, mãe!) em que a teu lado
Sentir não julgues minha sombra errante,
Passo a passo a seguir teu vulto amado.

- Minha mãe! minha mãe! - a cada instante
Ouves. Volves, em lágrimas banhado,
O rosto, conhecendo soluçante
Minha voz e meu passo costumado.

E sentes alta noite no teu leito
Minh'alma na tua alma repousando,
Repousando meu peito no teu peito...

E encho os teus sonhos, em teus sonhos brilho,
E abres os braços trêmulos, chorando,
Para nos braços apertar teu filho!

Olavo Bilac

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p.152



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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Manuel Alegre - Sextina

Sextina

Tanto de amor se disse que não sei
Como dizer que amor é outra coisa
Que nem só o teu corpo me fez rei
Nem tua alma só me deu a rosa
Tanto se disse menos o dizer
Esta paixão que é de todo o ser

E ao fim do ser ainda a outra coisa
Mais do que corpo e alma e ser não ser
Como entre vida e morte e sexo e rosa
Um morrer e um nascer. Como dizer
Este reino em que sou o servo e o rei
Como dizer se tanto e ainda não sei

Como dizer este Elsenor sem rei
Se tanto disse menos o dizer
Esta paixão que sabe o que não sei
Em Elsenor de ser e de não ser
Senão que amor ainda é outra coisa
Como entre o corpo e a morte o anjo e a rosa

Como dizer do sexo a alma e a rosa
Se amor é mais que ter e mais que ser
Um morrer ou nascer ou outra coisa
Entre a vida e a morte e um não dizer
Senão que disse tanto e ainda não sei
Como dizer de amor se servo ou rei

Se disse tanto menos o dizer
Esta paixão da alma que não sei
Se é o sexo ou seu anjo ou só o ser
Entre a vida e a morte o breve rei
Deste reino que fica à beira-rosa
Do teu corpo onde amor é outra coisa

Como dizer de amor ser e não ser
Se amor mais do que amor é outra coisa
Mais do que ser e ter mais que dizer
Um morrer e nascer entre anjo e rosa
Ou entre o corpo e a alma o servo e o rei
Como dizer se tanto e ainda não sei

Manuel Alegre

In: Chegar Aqui



- Postado por: Rodrigo às 00h06
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Lupe Cotrim Garaude - Saudade / De Pedra

SAUDADE

                                            (a Guilherme de Almeida)
 
A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.

Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.

Saudade, irreversível tempo, espaço
da ausência, sensação em nós premente
de ser amor somente leve traço

num sonho vão de posse permanente.
Saudade, desterrada raiz, vida
que se prolonga e sabe que é perdida.

* * *

DE PEDRA

— Eu sou de pedra, me dizias,
a defender tua distância.

E esquecias o musgo,
essa tua epiderme de ternura,
e o teu corpo de carinhos,
num horizonte de água e terra,
a te envolver na vida.

— Eu sou de pedra — insistias.
— Pesado. Denso. Inalterável.
De estofo eterno.
Apenas estou, não sofro;
se algum gesto me ferir,
eu sou duro;
quebrarei o gesto sem sentir.

E esquecias
que és pouso de borboletas,
alicerce de flores,
abraço de raízes,
vulnerável em tudo
do que em ti pertence
e minha mão possui, acaricia.

— Eu sou de pedra.
E esquecias, esquecias.

Lupe Cotrim Garaude



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Pablo Neruda: 12 de Julho de 1904 — 23 de Setembro de 1973

Saudade

Saudade – Qué será... yo no sé... lo he buscado
en unos diccionarios empolvados y antiguos
y en otros libros que no me han dado el significado
de esta dulce palabra de perfiles ambiguos.

Dicen que azules son las montañas como ella,
que en ella se obscurecen los amores lejanos,
y un noble y buen amigo mío (y de las estrellas)
la nombra en un temblor de trenzas y de manos.

Y hoy en Eça de Queiroz sin mirar la adivino,
su secreto se evade, su dulzura me obsede
como una mariposa de cuerpo extraño y fino
siempre lejos — tan lejos!— de mis tranquilas redes.

Saudade... Oiga, vecino, sabe el significado
de esta palabra blanca que como un pez se evade?
No... Y me tiembla en la boca su temblor delicado...
Saudade...

* * *

Saudade... - Que será... eu não sei... tenho buscado
em certos dicionários poeirentos e antigos
e outros livros que ocultam o significado
dessa doce palavra de perfis ambíguos.

Dizem que as montanhas são azuis como ela,
que nela empalidecem longínquos amores,
e um nobre e bom amigo meu (e das estrelas)
nomeia com os cílios e as mãos em tremores.

E no Eça de Queiroz sem olhar a adivinho,
o segredo se evade em sua doçura e sede,
como essa mariposa, corpo em desalinho,
sempre longe - tão longe! - de minhas calmas redes.

Saudade... tens, vizinho, o real significado
dessa palavra branca que, peixe, se evade?
Não... treme na boca seu tremor delicado...
Saudade...


Pablo Neruda

In: Os crepúsculos de Maruri
- Crepusculário



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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Pablo Neruda: 12 de Julho de 1904 — 23 de Setembro de 1973

LXXXIX

Quando eu morrer quero tuas mãos em meus olhos:
quero  a luz e o trigo de tuas mãos amadas
passar uma vez mais sobre mim seu viço:
sentir a suavidade que mudou meu destino.

Quero que vivas enquanto eu, adormecido, te espero,
quero que teus ouvidos sigam ouvindo o vento,
que cheires o amor do mar que amamos juntos
e que sigas pisando a areia que pisamos.

Quero que o que amo continue vivo
e a ti amei e cantei sobre todas as coisas,
por isso segue tu florescendo, florida,

Para que alcances tudo o que meu amor te ordena,
para que passeie minha sombra por teu pelo,
para que assim conheçam a razão de meu canto.

Pablo Neruda



- Postado por: Rodrigo às 00h03
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Pablo Neruda: 12 de Julho de 1904 — 23 de Setembro de 1973

DESDE QUE AMANHECEU

Desde que amanheceu
com quantos hoje se alimentou este dia?
Luzes letais, movimentos de ouro
centrífugos pirilampos
gotas de lua, pústulas, axioma,
Superpostos todos os materiais
do transcurso: - dores, existências,
direitos e deveres –
nada é igual quando desgasta o dia
sua claridade cresce
e logo enfraquece seu poder.

Hora por hora
com uma colher
cai do céu o ácido
e assim é o hoje do dia,
o dia de hoje.

Pablo Neruda

In: Últimos Poemas
Ed. L&M POCKET
p. 46



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Cora Coralina - Pablo Neruda

Pablo Neruda

(I)

Perdoa-me poeta.
Tão tarde o conheci!
Tantos cantores pelo mundo...
Para minha ignorância
eras mais um dentre eles.

Foi assim que não pedi a Deus
poupar-te a vida
e ficares para sempre incorruptível,
de beleza excelsa e universal.

Ninguém me disse antes.
Ninguém me disse nada.
Ninguém me fez a doação fraterna
de um livro teu.

Perdida no meu sertão goiano,
Só o teu nome, Pablo
Só o teu apelido crespo, Neruda,
Chegaram a mim...
E eu a pensar que foste apenas
um grande poeta entre outros grandes...

Foi assim que não pedi ao Criador
Poupar-te a vida
e ficares para sempre

Semente viva e luminosa,
sementeira e semeador,
semeando o pão e o vinho
da tua poesia
na terra faminta, desolada e triste.

Cora Coralina

In: Meu livro de Cordel
Global Editora, 2002
p. 25-6



- Postado por: Rodrigo às 00h10
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Elisa Lispector - Corpo-a-corpo

Quantas vezes te via distanciado de mim, e precisava fazer um esforço imenso para uma aproximação por mais tênue que fosse.

* * *

- Como é difícil viver ao lado dos que amamos! É quando olhamos mais fundo para dentro dos seres amados, e o que lá vemos, por Deus, que algumas vezes nos assusta, quando é certo que quiséramos encontrar só magia, só perdão. Unicamente ternura. E as vezes em que me vi, a mim mesma, da maneira pela qual tu me olhavas!

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 10; 20



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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Gonzaguinha: 22 de setembro de 1945 — 29 de abril de 1991

Sangrando (1976)

Quando eu soltar a minha voz
Por favor entenda
Que palavra por palavra
Eis aqui uma pessoa se entregando

Coração na boca
Peito aberto
Vou sangrando
São as lutas dessa nossa vida
Que eu estou cantando

Quando eu abrir minha garganta
Essa força tanta
Tudo que você ouvir
Esteja certa
Que estarei vivendo

Veja o brilho dos meus olhos
E o tremor nas minhas mãos
E o meu corpo tão suado
Transbordando toda a raça e emoção

E se eu chorar
E o sal molhar o meu sorriso
Não se espante, cante
Que o teu canto é a minha força
Pra cantar

Quando eu soltar a minha voz
Por favor, entenda
É apenas o meu jeito de viver
O que é amar

Composição: Gonzaguinha



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Mario Quintana - O Mapa

O Mapa

Olho o mapa da cidade
Como quem examinasse
A anatomia de um corpo...

(É nem que fosse o meu corpo!)

Sinto uma dor infinita
Das ruas de Porto Alegre
Onde jamais passarei...

Há tanta esquina esquisita,
Tanta nuança de paredes,
Há tanta moça bonita
Nas ruas que não andei
(E há uma rua encantada
Que nem em sonhos sonhei...)

Quando eu for, um dia desses,
Poeira ou folha levada
No vento da madrugada,
Serei um pouco do nada
Invisível, delicioso

Que faz com que o teu ar
Pareça mais um olhar,
Suave mistério amoroso,
Cidade de meu andar
(Deste já tão longo andar!)
E talvez de meu repouso...

Mario Quintana



- Postado por: Rodrigo às 00h15
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Luis Cernuda: 21 de Setembro de 1902 – 5 de Novembro de 1963

CONTIGO

¿Mi tierra?
Mi tierra eres tú.

¿Mi gente?
Mi gente eres tú.

El destierro y la muerte
para mi están adonde
no estés tú.

¿Y mi vida?
Dime, mi vida,
¿qué es, si no eres tú?

* * *

CONTIGO

Minha terra?
Minha terra és tu.

Minha gente?
Minha gente és tu.

O desterro e a morte
para mim estão onde
não estejas tu.

E minha vida?
Diz-me, minha vida,
que é, senão és tu?

Luis Cernuda

Tradução de Maria Teresa Almeida Pina



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Arthur Schopenhauer: 22 de Fevereiro 1788 — 21 de Setembro 1860

"Só se dedicará a um assunto com toda a seriedade alguém que esteja envolvido de modo imediato e que se ocupe dele com amor. É sempre de tais pessoas, e não dos assalariados, que vêm as grandes descobertas."

Arthur Schopenhauer

In: Parerga e Paralipomena



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Cecília Meireles - Murmúrio

Murmúrio

Traze-me um pouco das sombras serenas
que as nuvens transportam por cima do dia!
Um pouco de sombra, apenas,
- vê que nem te peço alegria.

Traze-me um pouco da alvura dos luares
que a noite sustenta no teu coração!
A alvura, apenas, dos ares:
- vê que nem te peço ilusão.

Traze-me um pouco da tua lembrança,
aroma perdido, saudade da flor!
- Vê que nem te digo - esperança!
- Vê que nem sequer sonho - amor!

Cecília Meireles



- Postado por: Rodrigo às 02h45
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Manuel Bandeira - A Estrela e o Anjo

A Estrela e o Anjo

Vésper caiu cheia de pudor na minha cama
Vésper em cuja ardência não havia a menor parcela de sensualidade
Enquanto eu gritava o seu nome três vezes
Dois grandes botões de rosa murcharam
E o meu anjo da guarda quedou-se de mãos postas no desejo insatisfeito de Deus.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 02h35
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Carlos Drummond de Andrade - Ainda que mal

Ainda que mal

Ainda que mal pergunte,
ainda que mal respondas;
ainda que mal te entenda,
ainda que mal repitas;
ainda que mal insista,
ainda que mal desculpes;
ainda que mal me exprima,
ainda que mal me julgues;
ainda que mal me mostre,
ainda que mal me vejas;
ainda que mal te encare,
ainda que mal te furtes;
ainda que mal te siga,
ainda que mal te voltes;
ainda que mal te ame,
ainda que mal o saibas;
ainda que mal te agarre,
ainda que mal te mates;
ainda assim te pergunto
e me queimando em teu seio,
me salvo e me dano: amor.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 02h23
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Bruna Lombardi - O bem que nos queremos

O BEM QUE NOS QUEREMOS

O bem que nos queremos
se aninha entre as paredes dessa casa
há muito tempo nos observa
nos vê chegar, sair
fazer malas, promessas
adiar coisas, amontoar
existir levianos como sempre
e engraçados
e já com uma história
e já com outra cara.
Já nos conhece tão intimamente
sabe do humor com que acordamos
do amor com que nos maltratamos
cada ranhura e cada
pequenina estrela.
E a cada duvidar e a
cada angústia
o bem que nos queremos
permanece.
Mudam as estações, os desejos, as fases da lua
mudamos nós
o bem que nos queremos continua.

Bruna Lombardi

In: O perigo do dragão
São Paulo: Círculo do Livro, 1984
p. 89



- Postado por: Rodrigo às 00h52
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Nathan de Castro - Canção de Amor

Canção de Amor

Sei uma flor nos olhos da saudade,
o teu bilhete em letras de jasmim,
os beijos e as esquinas da cidade,
quando a canção do amor dizia sim.

As luzes das estrelas - claridade
nas noites que parecem não ter fim -
me acendem as palavras e a vontade
do teu doce perfume de jardim.

Nesses momentos mágicos, a brisa
penetra o meu quarto, a solidão
fecha a janela e o sonho cristaliza

mais um soneto em rimas de paixão...
Ele diz sim, e a música eterniza
no verso o que o destino disse não.

Nathan de Castro

In: 1001 noites de sonetos & rabiscos
São Paulo: Editora Scortecci, 2005.
p. 39



- Postado por: Rodrigo às 23h15
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Cesar Veneziani - Às vezes feliz

Às vezes feliz

Hoje me peguei feliz,
me perdoem mas é verdade.
Às vezes isso acontece...
O colorido de uma flor,
as nuvens com o céu, com o Sol,
o sorriso de uma criança,
um objetivo alcançado,
um beijo/carinho de alguém especial...
Às vezes algum destes eventos
desencadeia um estado de alegria,
de satisfação,
de bem-estar,
que entorpece e transforma,
faz crer em coisas não críveis,
faz nascer um sentimento de euforia,
bolsões de esperança
que preenchem os interstícios que separam
a mediocridade dos dias...

Cesar Veneziani

In: Asas
Editora UTOPIA, 2009
p. 41

 "Às vezes feliz" – Cesar Veneziani
http://www.youtube.com/watch?v=iSl3YKNWvZo

+ http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Zequinha de Abreu: 19 de setembro de 1880 — 22 de janeiro de 1935

Amar sem ter amado

Sei que amar,
É sofrimento é dissabor,
É viver num penar,
Todo cheio de dor,
Tem certeza, mas é melhor,
Do que morrer e não ter amado.
Não gozar do encantado sabor,
Deste sonhar olhado.

Ò Deus quanto é belo,
Dar o nosso beijo,
De sublime anhelo,
Que doçura que isso tem
Mas quanto é tristonho,
Não ter este sonho,
E enfim, terminar,
Sem poder amar.

Composição: Zequinha de Abreu / N. Demosthenes

José Gomes de Abreu, mais conhecido como Zequinha de Abreu, foi um músico, compositor e instrumentista brasileiro. Tocava flauta, clarinete e requinta. Um dos maiores compositores de choros, é autor do famoso choro "Tico-Tico no Fubá" que foi muito divulgado no exterior nos anos 40 por Carmen Miranda. Ouça esta música aqui: http://www.youtube.com/watch?v=9UyMkKvNHxU



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Vinicius de Moraes - A um passarinho

A um passarinho

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!
Se é para uma prosa
Não sou Anchieta
Nem venho de Assis.

Deixa-te de histórias
Some-te daqui!

Vinicius de Moraes

In: Poemas, sonetos e baladas



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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Charles Jones

You are the same today that you are going to be in five years from now except for two things: the people with whom you associate and the books you read.

* * *

Daqui a cinco anos você estará bem próximo de ser a mesma pessoa que é hoje, exceto por duas coisas: os livros que ler e as pessoas de quem se aproximar.

Charles Jones



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Geir Campos - Canção Redonda

CANÇÃO REDONDA

entre o terno e o inverno
olhar quase interno
pulsando
entre a ira e mira
espera que expira
pulsando
entre o queixo e o seixo
arma que nem mexo
pulsando
entre o muro e a hera
ar de primavera

Geir Campos

In: Operário do Canto



- Postado por: Rodrigo às 21h20
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Richard Carlson - “Não Faça Tempestade em Copo D’água...”

38 – DIGA A TRÊS PESSOAS (HOJE MESMO) O QUANTO VOCÊ AS AMA

     O autor Stephen Levine costuma fazer a seguinte pergunta: “Se você tivesse uma hora para viver e pudesse dar um único telefonema, para quem você ligaria, o que diria, e o que você está esperando?” Que mensagem poderosa!

     Quem sabe o que nos aguarda? Talvez gostemos de acreditar que viveremos para sempre, ou que “algum dia”, finalmente, diremos às pessoas que amamos o quanto as amamos. Quaisquer que sejam as razões, a maioria de nós espera tempo demais.

     Quis o destino que eu escrevesse esta estratégia no dia do aniversário de minha avó. Mais tarde, naquele mesmo dia, meu pai e eu estávamos a caminho do túmulo dela. Ela morreu há dois anos. Antes de partir, tornou-se óbvio como era importante para ela que sua familia percebesse o quanto nos amava. Foi um bom lembrete, confirmando que não há uma boa razão para esperarmos. O tempo ideal para as pessoas saberem o quanto as amamos é agora.

     O ideal é dizer isso pessoalmente ou ao telefone. Fico pensando quantas pessoas acolheram telefonemas em que alguém que ligou disse, simplesmente: “Só liguei para dizer o quanto te amo!” Você ficaria surpreso ao saber que não há nada que signifique tanto para uma pessoa. O que você sentiria ao receber essa mensagem?

     Se você é tímido demais para receber tal telefonema, escreva uma carta emocionada. De um jeito ou de outro, fazer com que as pessoas saibam o quanto você as ama passará a ser uma rotina de sua vida. Não será um choque constatar que, quando isso acontecer, você estará provavelmente recebendo, como consequência direta, mais amor.

Richard Carlson

In: “Não Faça Tempestade em Copo D’água...”
Rio de Janeiro: Rocco, 1998
Tradução de Joana Mosela
p. 119-120



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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J. Barbosa da Silva (Sinhô): 18 de Setembro de 1888 - 4 de Agosto de 1930

Confissões de Amor

Fiz da luz do teu olhar um poema de amor
Que traduz odor da mais pura flor
Do jardim do meu penar
E tornei-me sonhador, infeliz e sofredor
Somente por querer a luz dos olhos teus
Só para os meus, que sem os teus irão morrer

Eu vejo em ti o ideal, meu santo amor
Quando contemplo o teu olhar encantador
Nas madrugadas quando a luz se desfaz
Em esplendor, eu peço em vão ao Criador
Sempre a cantar em serenatas de amor
Nas minhas preces de poeta e de cantor
Num santo altar junto à cruz do Bom Jesus
Eu rezo só por teu amor

1930

Composição: Sinhô



- Postado por: Rodrigo às 00h06
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Clarice Lispector - Correio Feminino


"As pessoas que se comprazem no sofrimento, que gostam de sentir-se infelizes e fazer aos outros infelizes, jamais poderão orgulhar-se de sua beleza. O mau humor, o sentimento de frustração, a amargura marcam a fisionomia, apagam o brilho dos olhos, cavam sulcos na face mais jovem, enfeiam qualquer rosto. Essa é a razão porque a mulher, que cultiva a beleza, deve esforçar-se para ser feliz. Felicidade é estado de alma, é atmosfera, não depende de fatos ou circunstâncias externas.”

Clarice Lispector

In: Correio Feminino – Ed. Rocco, 2006.



- Postado por: Rodrigo às 00h21
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Cesar Veneziani - Cais

Cais

Era triste,
hoje não mais.
És meu abrigo,
meu cais!
E digo,
amor tão denso
penso
que nem antes,
nem jamais...

13/09/2009

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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João Carlos Taveira (Caratinga, 17 de setembro de 1947)

A imposição do poema

Dissimulado,
o poema se impõe:
aceso o coração,
iluminada a rua,
o poema dá as caras
nas frestas da janela,
põe as manguinhas de fora,
cospe no prato
e, atrevido,
vai realizando,
meio tonto, meio sonso,
sua esfinge de cal,
sua natureza de vento,
sua estrutura de nada.

Inútil, o poema
compõe disfarces:
armada a cilada,
preparado o bote,
o poema primeiro dorme,
descansa seu corpo
de éter, sua alquimia,
na primeira pedra,
ao menor descuido,
para depois,
ágil e confiante,
estabelecer-se inteiro
na superfície rasa
do papel vencido.

João Carlos Taveira



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Primavera

    A primavera é a estação dos risos etc. etc. Mal treme a brisa e mal palpita o lago. Mas de que brisa me hablas Casemiro? É vento, é chuva - é isto?

    Ah, pelo que vocês dizem e pelo que se vê, a pri-mavera é apenas uma licença poética...

Mario Quintana

In: Porta Giratória
São Paulo: Globo, 2007

* * *

Primaveras

I

A primavera é a estação dos risos.
Deus fita o mundo com celeste afago,
Tremem as folhas e palpita o lago
Da brisa louca aos amorosos frisos.

Na primavera tudo é viço e gala,
Trinam as aves a canção de amores,
E doce e bela no tapiz das flores
Melhor perfume a violeta exala.

Na primavera tudo é riso e festa,
Brotam aromas do vergel florido,
E o ramo verde de manhã colhido
Enfeita a fronte da aldeã modesta.

A natureza se desperta rindo,
Um hino imenso a criação modula
Canta a calhandra, a juriti arrula,
O mar é calmo porque o céu é lindo

Alegre e verde se balança o galho,
Suspira a fonte na linguagem meiga,
Murmura a brisa:- Como é linda a veiga!
Responde a rosa: - Como é doce o orvalho!

II

Mas como às vezes sobre o céu sereno
Corre uma nuvem que a tormenta guia,
Também a lira alguma vez sombria
Solta gemendo de amargura um treno.

São flores murchas:- o jasmim fenece,
Mas bafejado s’erguerá de novo
Bem como o galho do gentil renovo
Durante a noite quando o orvalho desce.

Se um canto amargo de ironia cheio
Treme nos lábios do cantor mancebo,
Em breve a virgem do seu casto enlevo
Dá-lhe um sorriso e lhe intumesce o seio.

Na primavera - na manhã da vida-
Deus às tristezas o sorriso enlaça,
E a tempestade se dissipa e passa
A voz mimosa da mulher querida.

Na mocidade, na estação fogosa,
Ama-se a vida- a mocidade é crença,
E a alma virgem nesta festa imensa,
Canta, palpita, s’ stasia e goza.

1º. de julho, 1858

Casimiro de Abreu



- Postado por: Rodrigo às 00h25
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Carlos Drummond de Andrade - Quintana's Bar

QUINTANA’S BAR

Num bar fechado há muitos, muitos anos, e cujas portas de aço bruscamente se descerram, encontro, quem eu nunca vira, o poeta Mario Quintana. Tão simples reconhecê-lo, toda identificação é vã. Em algum lugar - coxilha? montanha? vai rorejando a manhã.

Na total desincorporação das coisas antigas, perdura um elemento mágico: estrela-do-mar - ou Aldebarã?, tamanquinhos, menina correndo com o arco. E corre com pés de lã.

Falando em voz baixa nos entendemos, eu de olhos cúmplices, ele com seu talismã. Assim me fascinavam outrora as feitiçarias da preta, na cozinha de picumã.

Na conspiração da madrugada, erra solitário - dissolve-se o bar - o poeta Quintana. Seu olhar devassa o nevoeiro, cada vez mais densa é a bruma de antanho.

Uma teia tecendo, e sem trabalho de aranha. Falo de amigos que envelheceram ou que sumiram na semente de avelã.

Agora voamos sobre os tetos, à garupa da bruxa estranha. Para iludirmos a fome que não temos pintamos um romã. O poeta aponta-me casas, a de Rimbaud, a de Blake e a gruta camoniana.

As amadas do poeta, lá embaixo, na curva do rio, ordenham-se em lenta pavana, e uma a uma, gotas ácidas, desaparecem no poema. É há tantos anos, será ontem, foi  amanhã? Signos criptográficos ficam gravados no céu eterno – ou na mesa de um bar abolido, enquanto debruçado sobre o mármore, silenciosamente viaja o poeta Mario Quintana.

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade – Poesia Completa
Claro Enigma
Editora Nova Aguilar
p. 273



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

84.

raio x algum consegue revelar-me transparente
não há contorno que identifique o que levo dentro
se eu fizesse um check-up do coração
mataria o médico de susto

meus órgãos internos se amigaram
dormem uns na casa dos outros
e os sentimentos estão com fome e viciados
se há sarjeta no meu corpo, é onde se encontram

os olhos cegaram para frente e para trás
tantos faz se abertos ou fechados, é sempre escuro
e barrulhento, minhas ideias balançam sensualmente
dança do ventre, dança das cadeiras, danço

quando encontro uma resposta ela evapora
e se tropeço na verdade, caio e não levanto
não há aliado nesta queda que não é pra baixo
é para os lados, para o alto, onde a realidade não alcança

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 97



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938)

"(...) Vivemos numa sociedade que por um lado tem coisas dramáticas e trágicas, e por outro está imbuída de uma futilidade angustiante. Não só das mulheres na busca da eterna juventude — algo pobre, triste. As pessoas passam a não saborear os 40 anos, os 60, têm pavor dos 70, aos 80 já gostariam de ter morrido. São como um carro rodando com os faróis voltados para trás."

* * *

Convite

Não sou a areia
onde se desenha um par de asas
ou grades diante de uma janela.
Não sou apenas a pedra que rola
nas marés do mundo,
em cada praia renascendo outra.
Sou a orelha encostada na concha da vida,
sou construção e desmoronamento,
servo e senhor, e sou mistério

A quatro mãos escrevemos este roteiro
para o palco de meu tempo:
o meu destino e eu.
Nem sempre estamos afinados,
nem sempre nos levamos a sério.

Lya Luft

In: Perdas & Ganhos
Editora Record - Rio de Janeiro, 2003
p. 12



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938)

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. (...) Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não  sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. (...). Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

* * *

Canção da Tua Chegada

Este fogo, esta fonte,
Esta noite de insônia:
Teus panos na cama
Teus passos na casa
Tua voz ao meu lado.
Meu bem que viaja
Num mundo tão outro
E está no meu peito
E alumia estas dores
Me povoa, me coroa
Me leva na sua escuna,
Me define, me redime
Me inventa e desinventa
Que corre comigo
Que comigo deita
Comigo viaja
Na casa no vento
No fogo da fonte
No quarto que é o mundo.

Lya Luft



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Lya Fett Luft (Santa Cruz do Sul, 15 de setembro de 1938)

“A vida é maravilhosa, mesmo quando dolorida. Eu gostaria que na correria da época atual a gente pudesse se permitir, criar, uma pequena ilha de contemplação, de autocontemplação, de onde se pudesse ver melhor todas as coisas: com mais generosidade, mais otimismo, mais respeito, mais silêncio, mais prazer. Mais senso da própria dignidade, não importando idade, dinheiro, cor, posição, crença. Não importando nada”.

* * *

RECEITA DE CASA

Um casa deve ter varandas
para sonhar, cantos para chorar,
quartos para os segredos
e a ambivalência.

Um amor precisa espaço para voar,
liberdade para querer ficar,
alegria, e algum desassossego
contra o tédio.

Não se esqueçam os danos a cobrir,
o medo de partir, e o dom de surpreender
- que é a sua essência.

Lya Luft

In: Para não dizer adeus
Record Editora
p. 61



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Elisa Lispector - A Última Porta

"Ela nunca tivera sucesso com os de sua família de adoção, muito menos com o marido, e o filho, a nora, ou a cunhada. Entretanto, jamais sobrecarregara ninguém com o peso de suas emoções pessoais, pelo pudor de suscitar a piedade. Jamais falara a ninguém de sua infância. De sua fome, primeiro de pão, depois de ternura."

Elisa Lispector

In: A Última Porta
p. 59



- Postado por: Rodrigo às 11h08
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André Luiz - Tudo é Amor (psicografado por Francisco Cândido Xavier)

TUDO É AMOR

Repara amigo, em como do Amor tudo provém e no Amor tudo se resume:

VIDA - é o Amor existencial

RAZÃO - é o Amor que pondera

ESTUDO - é o Amor que analisa

CIÊNCIA - é o Amor que investiga

FILOSOFIA - é o Amor que pensa

RELIGIÃO - é o Amor que busca Deus

VERDADE - é o Amor que eterniza

IDEAL - é o Amor que se sublima

FÉ - é o Amor que transcende

ESPERANÇA - é o Amor que sonha

CARIDADE - é o Amor que ajuda

FRATERNIDADE - é o Amor que se expande

SACRIFÍCIO - é o Amor esforça

RENÚNCIA - é o Amor que se esforça

SIMPATIA - é o Amor que sorri

ALTRUÍSMO - é o Amor que se engrandece

TRABALHO - é o Amor que edifica

INDIFERENÇA - é o Amor que se esconde

DESESPERO - é o Amor que enlouquece

PAIXÃO - é o Amor que se desequilibra

CIÚME - é o Amor que desvaira

EGOÍSMO - é o Amor que se enjaula

ORGULHO - é o Amor que delira

SENSUALISMO - é o Amor que se envenena

VAIDADE - é o Amor que se embriaga

Finalmente, ÓDIO, que julgas ser a antítese do Amor, não é senão o próprio Amor que adoeceu gravemente. Se tudo é Amor, não deixes de amar... Respeita, contudo, a pergunta que te faz, a cada instante, a Lei Eterna: "Como?"

André Luiz, psicografado por Francisco C. Xavier



- Postado por: Rodrigo às 10h59
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Mario Quintana - Os retratos

Os retratos

Os antigos retratos de parede
não conseguem ficar longo tempo abstratos.

Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
porque eles nunca se desumanizam de todo.

Jamais te voltes pra trás de repente.
Não, não olhes agora!

O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido...

Dessas que a gente inventava para enganar
a solidão dos caminhos sem lua.

Mario Quintana



- Postado por: Rodrigo às 22h27
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Friedrich Rückert - A casa do coração

A casa do coração

O coração tem dois quartos:
Moram ali, sem se ver,
Num a Dor, noutro o Prazer.

Quando o Prazer no seu quarto
Acorda cheio de ardor,
No seu, adormece a Dor…

Cuidado, Prazer! Cautela,
Canta e ri mais devagar…
Não vá a Dor acordar….

Friedrich Rückert

Tradução de Antero de Quental



- Postado por: Rodrigo às 22h17
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Cesar Veneziani - Asas

Asas

vem meu anjo
senta ao meu lado
conversa comigo
estou perdido
há tantos caminhos possíveis
que não sei qual tomar
meu coração dói
a indecisão corrói
e a lágrima cai

vem meu anjo
senta ao meu lado
se não quiser falar nada tudo bem
apenas me envolva em suas asas que tenho frio

Cesar Veneziani

In: Asas
Brasília: Ed. Utopia, 2009
p. 45

+ http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 11h41
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Antonio Olinto M. da Rocha: 10 de maio de 1919 — 12 de setembro de 2009

Soneto de natal

Mudaria o Natal ou mudei eu?
Machado de Assis

 
Mudaria o Natal ou mudo iria
Mudar sempre o menino o mundo em tudo?
Ou fui só quem mudei, e meu escudo
Novidadeiro, múltiplo, daria
Ao mudadiço mito da alegria
Em noite tão mutável jeito mudo?
O homem é mudador, muda de estudo,
De mucama, de verso, pouso, dia,
Porque a muda modula esse desnudo
Renascimento em palha, e molda e afia
O instrumento da troca, o fim miúdo,
A noite amena erguendo-se em poesia.
Mudei eu sempre sem saber que mudo
Ou somente o Natal me mudaria?

Nova York, Natal de 1965

Antonio Olinto

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 21h16
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Victor Hugo - Les Misérables

"Le suprême bonheur dans la vie, c’est la conviction d’être aimé tel que nous sommes, ou mieux, malgré ce que nous sommes." (Les Misérables - Chapitre IV - M. Madeleine en deuil)

* * *

"A suprema felicidade da vida é a convicção de ser amado por aquilo que você é, ou melhor, apesar daquilo que você é."

Victor Hugo



- Postado por: Rodrigo às 14h51
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Machado de Assis - "A Semana"

"Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: vista pronta e paciência beneditina, qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, umas ganhas, outras perdidas, outras nulas."

Machado de Assis

In: "A Semana"



- Postado por: Rodrigo às 14h33
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Chico Buarque de Hollanda - Leite Derramado

"Lá em casa como em todas as boas casas, na presença de empregados os assuntos de família se tratavam em francês, se bem que, para mamãe, até me pedir o saleiro era assunto de família."

* * *

"Eu por mim sonhava com você em todas as cores, mas meus sonhos são que nem cinema mudo, e os atores já morreram há tempos."

* * *

"É sabido que algumas pessoas viajam mal, como alguns vinhos em trânsito se irritam."

* * *

"A memória é deveras um pandemônio, mas está tudo lá dentro, depois de fuçar um pouco o dono é capaz de encontrar todas as coisas. Não pode é alguém de fora se intrometer, como a empregada que remove a papelada para espanar o escritório."

* * *

"Em Paris, fui recebido com pasmo, me perguntaram se na América do Sul não chegavam notícias do mundo. Havia mais de um mês fora sustada a importação de café em toda a Europa, levando à falência os atacadistas sócios do meu pai. Em Londres, me falaram de calamidades financeiras, milhões de libras esterlinas fulminadas da noite para o dia, devido ao crack da bolsa de Nova York. "

* * *

"Com o tempo aprendi que o ciúme é um sentimento para proclamar de peito aberto, no instante mesmo de sua origem. Porque ao nascer, ele é realmente um sentimento cortês, deve ser logo oferecido à mulher como uma rosa. Senão, no instante seguinte ele se fecha em repolho, e dentro dele todo o mal fermenta."


Chico Buarque de Hollanda

In: Leite Derramado
Companhia das Letras, 2009
pág. diversas



- Postado por: Rodrigo às 00h33
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Auta de Souza: 12 de setembro de 1876 — 7 de fevereiro de 1901

Hoje estou gozando a vida na Redinha... Chega um choro, clarineta, violões, ganzá, numa série deliciosa de sambas, maxixes, valsas de origem pura, eu na rede, tempo passando sem dizer nada. Modinhas de Ferreira Itajubá e Auta de Souza... A boca da noite se abriu sem a gente sentir. (In: Um Turista Aprendiz, 1976, p. 255-6)

Mário de Andrade

* * *

Ao Cair da Noite

A Maria Emília Loureiro

Não sei que paz imensa
Envolve a Natureza,
N’ess’hora de tristeza,
De dor e de pesar.
Minh’alma, rindo, pensa
Que a sombra é um grande véu
Que a Virgem traz do Céu
Num raio de luar.

Eu junto as mãos, serena,
A murmurar contrita,
A saudação bendita
Do Anjo do Senhor;
Enquanto a lua plena
No azul, formosa e casta,
Um longo manto arrasta
De lúrido esplendor.

Minhas saudades todas
Se vão mudando em astros...
A mágoa vai de rastros
Morrer na escuridão...
As amarguras doidas
Fogem como um lamento
Longe do Pensamento,
Longe do Coração.

E a noite desce, desce
Como um sorriso doce,
Que em sonhos desfolhou-se
Na voz cheia de amor,
Da mãe que ensina a Prece
Ao filho pequenino,
De olhar meigo e divino
E lábio aberto em flor.

Ah! como a Noite encanta!
Parece um Santuário,
Com o lindo lampadário
De estrelas que ela tem!
Recorda-me a luz santa,
Imaculada e pura,
Da grande noite escura
Do olhar de minha mãe!

Ó noite embalsamada
De castas ambrósias...
No mar das harmonias
Meu ser deixa boiar.
Afasta, ó noite amada,
A dúvida e o receio,
Embala-me no seio
E deixa-me sonhar!

* * *

Ao Pé do Túmulo

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais...

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
"Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais".

Auta de Souza



- Postado por: Rodrigo às 00h03
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José Antonio Gonçalves - A Morte dos Anjos

A Morte dos Anjos

a manhã estremeceu no mundo
inteiro, mesmo nos lugares onde
ainda era noite. o fogo vinha do ar
e vestia a roupa metálica dos aviões
nas asas do anjo negro da morte.

o homem erguera duas torres
acima dos ombros do seu ser
inteligente. muito mais acima
do que o reflexo da própria visão
imponente da liberdade, no corpo
de uma estátua que transporta o facho,
com a missão de iluminar o universo.

o tempo foi fugaz, de curta valência.
atravessando os ares da cidade as aves
apontaram contra as árvores de cimento
e não só varreram a inocência, a vida,
mas consigo arrastaram a razão de ser
do vento e das bandeiras que ele acolhe.

o poesia perdeu sentido? um verso
poderia remediar alguma coisa? a ver
o horror estava Deus? será que a luz
se queimou nos céus? ninguém olhe
agora, avisaria Mercúrio, alguém irá
encontrar finalmente o seu destino.

era de manhã. um momento bom
para matar como qualquer outro.
mas um imolar de sangue impossível
de aceitar, pois não existem horas
boas ou más para um anjo morrer.
anjo com rosto de velho e de menino.

José Antonio Gonçalves

(11.09.2004)



- Postado por: Rodrigo às 00h23
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Antero de Quental: 18 de abril de 1842 — 11 de setembro de 1891

IDEAL

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios e nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vênus de cintura estrita...  

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...  

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do desejo...

ANTERO DE QUENTAL

In: Sonetos Escolhidos
Seleção e Introdução: Torrieri Guimaraes
São Paulo: Livraria Exposição do Livro, 1966
p. 39



- Postado por: Rodrigo às 00h11
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LOu Kaizen - Vem

VEM

Quando enfim ousares desnudar-me
Tocar a maciez da minha pele em brasa
Poderás deste corpo que te anseia
Fazer o teu refugio, tua casa

Quando enfim te deitares nesta cama
Com lascivia e amor, doce mistura
E de beijos cobrires meus gemidos
Serei a mais feliz das criaturas

Deixa então de fugir deste desejo
A explodir em cada encontro de nós dois
Esquece o que te prende, vem comigo
Não se deixa o ser feliz, para depois.

10/09/09

LOu Kaizen



- Postado por: Rodrigo às 00h07
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D. H. Lawrence: 11 de setembro de 1885 - 2 de março de 1930

"O amor é a flor da vida, que floresce inesperadamente, sem lei, e deve ser escolhido onde for encontrado e vivido pelo breve de sua duração".

D. H. Lawrence



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Adélia Prado - Com licença poética

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".

Carlos Drummond de Andrade

* * *


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado



- Postado por: Rodrigo às 23h22
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Ferreira Gullar: 10 de setembro de 1930

Traduzir-se

Uma parte de mim
é todo mundo:
outra parte é ninguém:
fundo sem fundo. 

Uma parte de mim
é multidão:
outra parte estranheza
e solidão. 

Uma parte de mim
pesa, pondera:
outra parte
delira. 

Uma parte de mim
almoça e janta:
outra parte
se espanta. 

Uma parte de mim
é permanente:
outra parte
se sabe de repente. 

Uma parte de mim
é só vertigem:
outra parte,
linguagem. 

Traduzir uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

In: Na Vertigem do Dia
2a. Edição - Ed. José Olympio, 2004



- Postado por: Rodrigo às 23h08
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Fernando Pessoa - Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa

Como é por dentro outra pessoa 
Quem é que o saberá sonhar? 
A alma de outrem é outro universo 
Como que não há comunicação possível, 
Com que não há verdadeiro entendimento.
Nada sabemos da alma 
Senão da nossa; 
As dos outros são olhares, 
São gestos, são palavras, 
Com a suposição de qualquer semelhança 
No fundo.

Fernando Pessoa

 Leia este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=EHMekxdiRG4



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Tyanta Vanzant - Enquanto o Amor não vem

(...) A verdade é mãe do amor e todos  nós sabemos que não é uma atitude sábia mentir para a mãe de ninguém. De alguma forma, de alguma maneira, mamãe sempre descobre que você está mentindo. Quando ela descobre é um inferno! Um dos desafios mais difíceis da vida é ser capaz de olhar honestamente para si, reconhecendo e aceitando o que você é. O que torna a tarefa ainda mais difícil é a crença de que o que vemos se traduz em "O que há de errado comigo?". Não há nada errado com você! A verdade é que existem alguns aspectos seus e algumas áreas da sua vida que precisam de atenção. Algumas precisam de um pouco de trabalho. Outras podem precisar de tratamento intensivo. Não devemos sentir vergonha ou culpa, pois isso se aplica a todos nós. (...) p. 90

* * *

(...) Dois botões de rosas não desabrocham ao mesmo tempo. Pode ser uma corrida cabeça a cabeça, mas todo mundo e todas as coisas se desenvolvem num ritmo próprio. É tentado procurar procurar interromper o seu próprio crescimento ou insistir que alguém acompanhe o seu ritmo. A verdade é que o crescimento simultâneo é raro nos relacionamentos. (...) p.108

* * *

(...) Um aspecto do amor incondicional é ser capaz de se dar sem expectativas de retorno ou recompensa. É isso mesmo, nada! Não devemos esperar nada em troca do amor que damos, nem mesmo amor. Mariane Williamson, autora do livro A Return to Love, escreveu: “Amar é dar sem se lembrar. Receber sem esquecer.” Isso não quer dizer que você deve permitir que as pessoas façam o que quiserem com você ou com a sua vida. Significa apenas que deve viver cada dia como uma experiência de partilha, sem questões obscuras ou expectativas de retorno do seu investimento. O amor exige uma partilha honesta de tempo, espaço, meios e vida pelo simples prazer de partilhar, enquanto for prazeroso. Esse nível de amor incondicional e consciente trará muitas recompensas, de incontáveis formas. Também irá realçar e expor qualquer coisa que não se pareça com amor. (...)  p.113

Tyanta Vanzant

In: Enquanto o Amor não vem, 
Sextante, páginas diversas.



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

83.

que a casa tenha se mantido de pé ainda compreendo
é feita de cimento, tijolos, artigos rudes e mãos ásperas
mas nossa estabilidade foi de uma categoria insuspeitada
nós que somos feitos de sentimento, sangue e inocência
mantivemos o equilíbrio e o bom senso e descobrimos
que somos também fabricados com material resistente

ainda hoje te surpreendo emocionado e me pegas refletindo
as cortinas balançam na sinfonia de nossos silêncios
entretidos sabe-se Já com que pensamentos fantasiosos
eu queria estar aí dentro para acarinhar tua alma generosa
e assegurar que nada ameaçará vibrar nossas paredes
somos sólidos e aderentes e manteremos de pé a casa da gente

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 96



- Postado por: Rodrigo às 08h39
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Canção de nós dois - Vinicius de Moraes

Canção de nós dois

Tudo quanto na vida eu tiver
Tudo quanto de bom eu fizer
Será de nós dois
Será de nós dois

Uma casa num alto qualquer
Com um jardim e um pomar se couber
Será de nós dois
Será de nós dois

E depois, quando a gente quiser
Passear, ir pra onde entender
Não importa onde a gente estiver
Estaremos a sós

E depois, quando a gente voltar
O menino que a gente encontrar
Será de nós dois
Será de nós dois

E de noite quando ele dormir
O silêncio do tempo a fugir
Será de nós dois
Será de nós dois

E por fim, quando o tempo fugir
E a saudade nos der de nós dois
E a vontade vier de dormir
Sem ter mais depois

Dormiremos sem medo nenhum
Pois aonde puder dormir um
Podem dormir dois
Podem dormir dois
Podem dormir dois

Vinicius de Moraes

In: "Poesia completa e prosa: "Cancioneiro" "



- Postado por: Rodrigo às 08h37
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Elizabeth B. Browning - Amo-te

Amo-te

Amo-te quando em largo, alto e profundo
Minha alma alcança quando, transportada
Sente, alongando os olhos deste mundo
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
à luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não podem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
e a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.

Elizabeth B. Browning

Trad. Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 08h30
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Vasant Abaji Dahake - Tarde

Tarde

Esta é uma tarde completa:
mil cacos de solidão.
Eu conto
eu comparo
eu formo
eu junto.
Estas são as minhas mãos nuas
numa mesa nua e triste.
Tento fixar este instante,
este fragmento de tempo, dissecá-lo completamente.
Tenho os olhos bem abertos.
Sinto o áspero e louco toque
da solidão.
Um sol branco, solitário e enlouquecido
está suspenso
no céu branco.

Vasant Abaji Dahake



- Postado por: Rodrigo às 20h46
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Affonso Romano de Sant'Anna - Conjugação

Conjugação

Eu falo
tu ouves
ele cala.

Eu procuro
tu indagas
ele esconde.

Eu planto
tu adubas
ele colhe.

Eu ajunto
tu conservas
ele rouba.

Eu defendo
tu combates
ele entrega.

Eu canto
tu calas
ele vaia.

Eu escrevo
tu me lês
ele apaga.

Affonso Romano de Sant'Anna



- Postado por: Rodrigo às 00h41
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Paulo Autran: 7 de setembro de 1922 — 12 de outubro de 2007

Quando era garotinho pensava que um homem para ser homem tinha que ter um filho, escrever um livro e plantar uma árvore. Plantei muitas árvores, mas em benefício da literatura nunca escrevi um livro. E nunca tive filhos. Aí concordo com Machado de Assis: “Para que legar aos outros a miséria da condição humana?".

* * *

Não sei qual é a minha missão. O que me dá maior prazer é fazer o bem. Mas não faço para ganhar os céus, porque acho que acabamos quando morremos. Sou totalmente ateu, materialista e não tenho nada de místico. A vida é uma só. Mas temos uma imaginação tão deslumbrante que podemos imaginar o que quisermos.

19/05/2003, Istoé

Paulo Autran



- Postado por: Rodrigo às 00h34
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Camilo Pessanha: 7 de Setembro de 1867 — 1 de Março de 1926

Canção da partida

Ao meu coração um peso de ferro
Eu hei-de prender na volta do mar.
Ao meu coração um peso de ferro...
Lançá-lo ao mar.

Quem vai embarcar, que vai degredado,
As penas do amor não queira levar...
Marujos, erguei o cofre pesado,
Lançai-o ao mar.

E hei-de mercar um fecho de prata.
O meu coração é o cofre selado.
A sete chaves: tem dentro uma carta...
— A última, de antes do teu noivado.

A sete chaves, — a carta encantada!
E um lenço bordado... Esse hei-de o levar,
Que é para o molhar na água salgada
No dia em que enfim deixar de chorar.

* * *

Interrogação

Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.

Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.

Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.

Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.

Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.

Camilo Pessanha



- Postado por: Rodrigo às 00h30
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Osório Duque-Estrada - Zelos

ZELOS

Só tu conheces o secreto espinho
Que dentro d’alma me pungindo está.
F. VARELLA

- "Versos a outra! É um poeta que não sente
O que escreve..." Isto dizes: entretanto,
Arde e queima o meu peito ansiosamente
Nestas estrofes úmidas de pranto!

A aurora desce pelos altos montes,
Dourada como os sonhos em que cismo:
- Quanta luz a banhar os horizontes!
- Quanta treva no fundo deste abismo!

Tantas e várias fantasias gero
Dentro do verso estrídulo e canoro,
Que já nem sei dizer quanto te quero,
Nem mais posso dizer como te adoro!

Essa que apontas como desejada
Não é do ideal de um poeta o Novo-Mundo,
A imagem da beleza constelada,
A sombra, ao menos, deste amor profundo...

Osório Duque-Estrada

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h22
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Flora Figueiredo - Enlevo

Enlevo

Eu olho você grande e distante
e da sua grandeza me comovo
e da sua distância me revolto.
Olho de novo.
Procuro reter em minhas mãos sua figura
mas ela gesticula, oscila e cresce
e numa inconstância distraída
no instante exato
por trás da vida desaparece.
Um desacato.
Do meu desaponto eu me levanto
pra levar embora outro desencanto
mas você me divisa e então me chama.
Me aguarda, reclama e me convida
e minha vida nessa ansiedade por fim entrego.
E nesse amor feito de espuma colorida
nós flutuamos: você borbulha, eu escorrego,
ensaboados, você explode, eu me desintegro.

Flora Figueiredo



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Sully Prudhomme: 16 de Março de 1839 — 6 de Setembro de 1907

Soneto

Os de vinte anos têm o olhar duro, atrevido:
Jamais o querem pôr na descomprometida,
Num êxtase infantil, desejam a garrida!
Em amor, tornam seu querer recém-nascido.

Com o tempo, depois que o amargor foi sentido,
Fica a sua insolência, enfim, diminuída,
E um outro olhar, de graça outrora não sabida,
Revela-lhes um bem mais íntimo e querido.

Mas o que fazem é de infortúnio mudar:
E quando uma, tão-só, conseguem adorar,
É por essa mulher que aprendem a sofrer;

Então, vêem que são diversas as radiantes,
Entretanto, passou o tempo das amantes,
E o coração de mais ninguém consegue ser.

Sully Prudhomme

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy, 2002
p. 67



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Elisa Lispector - Corpo-a-corpo

O absoluto de Deus, ocorre-me agora, aparentemente sem conexão alguma com o que estou pensando e escrevendo. (...) Embora Deus seja absoluto, e exista o absoluto de Deus acima de toda pequenez e miséria humana, deve haver um motivo para esse cego experimentar-se, tatear, cair, levantar, e tornar a cair...

* * *

- Que seria de Deus se o sofrimento humano não existisse? Acaso Ele seria invocado? Acaso Ele seria precisado?

* * *

- Oh, Deus, por que as pessoas não se dizem em vida aquilo que mais fundo repercute em seus corações?

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 22, 23 e 33



- Postado por: Rodrigo às 21h01
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Cesar Veneziani - Sem Medida

Sem Medida

O quanto isto dista
      daquilo lá?
A distância da ânsia
      do esperar.

O longe é perto quando é certo
      o destino.
Mas perto demora na hora
      do desatino.

Não é a escala que fala
      a dimensão,
nem o metro dá ao certo
      a medida.

É o que se sente de repente
      na paixão,
e que se mede na lágrima
      vertida...

01/09/2009

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h22
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Madre Teresa de Calcutá: 26 de Agosto de 1910 — 5 de Setembro de 1997

A piedade não afrouxa a luta contra a pobreza ou mesmo contra a miséria do próximo. A beata Teresa de Calcutá é um exemplo evidentíssimo do fato que o tempo dedicado a Deus na oração não só não lesa a eficácia nem a operosidade do amor ao próximo, mas é realmente a sua fonte inexaurível. Na sua carta para a Quaresma de 1996, essa beata escrevia aos seus colaboradores leigos: Nós precisamos desta união íntima com Deus na nossa vida cotidiana. E como poderemos obtê-la? Através da oração.

Bento XVI na sua encíclica Deus caritas est, de 25 de dezembro de 2005, "sobre o amor cristão", cita Madre Teresa como exemplo de pessoa de oração e ao mesmo tempo de fé operativa.

* * *

"Um coração feliz é o resultado inevitável de um coração ardente de amor."

Madre Teresa de Calcutá

In: O Caminho Do Herói Cotidiano
Lorna Catford e Michael Ray, Editora Cultrix
p. 112



- Postado por: Rodrigo às 00h41
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Fausto Wolff: 8 de julho de 1940 — 5 de setembro de 2008

“- Quando o legislativo, o executivo, o judiciário e a imprensa são sócios, você tem uma ditadura, e é isso que nós temos com raras exceções.”

* * *

“- Para qualquer lado que você olhe, só vê beleza. Você só vê porcaria quando é feita pelo homem (...). Os peixes boiando, as praias poluídas, a selva desmatada, tudo feito pelo homem. A natureza está sempre bonita, o azul é bonito, o verde é bonito, o amarelo é bonito, fazer amor é bonito, mulher é bonito, o homem é bonito, tudo é bonito...”

* * *

“- Eu sou um escritor e tenho que fazer isso. Porque eu não conseguiria viver sem fazer isso. Eu não poderia viver sem escrever. É uma coisa quase metafísica, é uma coisa superior a mim. (..) Eu acho que nós todos temos que deixar um testemunho da nossa época para facilitar a vida de quem vem. O que seria minha vida sem Balzac, Tolstoi, Kafka, Joyce, Jorge Amado, Érico Veríssimo, Castro Alves, Drummond. Estes são os grandes heróis do mundo. Os grandes heróis do mundo não são os generais que destroem, mas os filósofos que constroem. Já imaginaram como o mundo seria mais triste apenas com depoimentos de militares?...”

Fausto Wolff

Entrevista concedida a Mariana Vidal, Thaís Tibiriçá e Marcelo Salles em 15.02.2006

Fonte:  http://www.fazendomedia.com



- Postado por: Rodrigo às 00h13
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Pablo Neruda - Perdão se pelos meus olhos

PERDÃO SE PELOS MEUS OLHOS

Perdão se pelos meus olhos não chegou
mais claridade que a espuma marinha,
perdão porque meu espaço
se estende sem amparo
e não termina:
- monótono é meu canto,
minha palavra é um pássaro sombrio,
fauna de pedra e mar, o desconsolo
de um planeta invernal, incorruptível.
Perdão por esta sucessão de água,
da rocha, a espuma, o delírio da maré

- assim é minha solidão -
saltos bruscos de sal contra os muros
de meu ser secreto, de tal maneira
que eu sou uma parte do inverno,
da mesma extensão que se repete
de sino em sino em tantas ondas
e de um silêncio como cabeleira,
silêncio de alga, canto submergido.

Pablo Neruda

In: Últimos Poemas
Ed. LM & Pocket
p. 66



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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Arthur Schopenhauer - A arte de ser feliz

Refletir ponderadamente sobre alguma coisa antes de realizá-la; porém, uma vez realizada, e sendo previsíveis os seus resultados, não se angustiar com reflexões contínuas a respeito dos seus possíveis perigos. Em vez disso, libertar-se completamente do assunto, manter fechada a gaveta que o contém, tranquilizando-se com a certeza de que tudo foi devidamente analisado a seu tempo. Se, ainda assim, o resultado é negativo, é porque todas as coisas estão submetidas ao acaso e ao equívoco.

Arthur Schopenhauer

In: A arte de ser feliz
Ed. Martins Fontes
p. 40



- Postado por: Rodrigo às 09h35
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Nathan de Castro - Soneto com Nó

Soneto com Nó
 
Cobertor de poeta é um agasalho,
que não serve aos anúncios da estação.
Quando frio, reveste-se de orvalho,
no calor, logo abraça a solidão.

Se num verso me cubro, noutro falho
e revelo o outro lado da canção.
As mentiras aceito e delas valho-
me, mesmo quando o peito diz que não.

Da pena à folha branca, me atrapalho
com os verbos e tempos de oração,
vou perdido e com passos de espantalho

sigo os trilhos abertos na emoção.
E, no ponto final, quebrando o galho,
dou um nó no soneto e lavo as mãos.

Nathan de Castro

In: 1001 noites de sonetos & rabiscos
São Paulo: Editora Scortecci, 2005.
p. 90



- Postado por: Rodrigo às 09h29
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Adriana Calcanhotto - Metade

Metade

Eu perco o chão
Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste
Eu ando pela sala
Eu perco a hora
Eu chego no fim
Eu deixo a porta aberta
Eu não moro mais em mim...

Eu perco as chaves de casa
Eu perco o freio
Estou em milhares de cacos
Eu estou ao meio
Onde será
Que você está agora?...

Composição: Adriana Calcanhotto

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=fgQ5H1ghVB4



- Postado por: Rodrigo às 09h22
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Ferreira Gullar - Corpo

Corpo

De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares

O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.

A poesia é o presente.

Ferreira Gullar

Fonte: http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/



- Postado por: Rodrigo às 16h27
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Clarice Lispector - A descoberta do mundo

Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

In: A descoberta do mundo

Editora Nova Fronteira
RJ: 1994
p. 144



- Postado por: Rodrigo às 16h24
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E. E. Cummings: 14 de outubro de 1894 — 3 de setembro de 1962

"Não ser ninguém a não ser você mesmo, num mundo que faz todo o possível, noite e dia, para transformá-lo em outra pessoa, significa travar a batalha mais dura que um ser humano pode enfrentar; e jamais parar de lutar"

E. E. Cummings



- Postado por: Rodrigo às 16h16
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Osho - Escute seu coração

Não estamos buscando nenhum paraíso nas nuvens. Se ele estiver lá, nós o apanharemos, mas primeiro precisamos construir um paraíso aqui na terra; essa será nossa preparação. Se pudermos viver num paraíso na terra, então, esteja ele onde estiver, será nosso.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 43



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Cesário Verde - A vaidosa

A vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio ,
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.
Contam que tens um modo altivo e sério,
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida,
Seria acompanhar-me ao cemitério.
Chamam-te a bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino,
E não tens coração, como as estátuas.
E narram o cruel martirológio
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente dum relógio.
Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loura e dourada como as messes
E possuis muito amor... muito amor-próprio.

Cesário Verde



- Postado por: Rodrigo às 10h45
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Aldir Blanc (Rio de Janeiro, 2 de setembro de 1946)

Mãos

Mãos plantando, compondo
Passando tijolos
Mãos cavando, cortadas
Nas linhas de pesca
Catando no lixo, dormentes
Mãos recém nascidas
Mãos mortas
Mãos de carpinteiro
Mãos de artífice
Mãos de Severino
Mãos de Eurídice
Mãos espancando, acariciando
Mãos erguidas
Mãos postas
Passando o rosário
Mãos guardando o retrato
Com copo tremendo
Esmagando o cigarro
Mãos algemadas
Mãos nuas
Mãos dadas

Composição: Sueli Costa e Aldir Blanc



- Postado por: Rodrigo às 10h38
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Arnaldo Antunes (São Paulo, 2 de setembro de 1960)

Onde Mora?

Pego em seu pé
— é só um pé.
Pego em sua mão
— é sua mão.
Pego em seus cabelos
— são só cabelos.
Aqui tudo é
aquilo que é.
Onde mora
o amor?

* * *

Cego

Estou cego a todas as músicas,
Não ouvi mais o cantar da musa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o peito que me cobre a blusa.
Já a mim nenhuma cena soa
Nem o céu se me desabotoa.
A dúvida cobriu a minha vida
Como a língua cobre de saliva
Cada dente que sai da gengiva.
A dúvida cobriu a minha vida
Como o sangue cobre a carne crua,
Como a pele cobre a carne viva,
Como a roupa cobre a pele nua.
Estou cego a todas as músicas.
E se eu canto é como um som que sua.

Arnaldo Antunes

In: Como é que Chama o Nome Disso



- Postado por: Rodrigo às 10h25
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Meg Klopper - Minha vida é você

Minha vida é você

Nos arvoredos de meu jardim
Nos recantos de minh'alma
Que te abriga com muita calma
Procuro te encontrar do jeito que idealizei
Do jeito que eu pensei
Do jeito que te amei

Saiba que você é tudo em minha vida
É maior do que paixão
É superior a minha razão
E, não sei dizer porque,
É o grande amor do meu coração

Você é a luz dos meus dias
Aconchego da minha paz
Quando me falta, é o tormento do meu sono
Quando me tens, é a volúpia do meu prazer
Quando me abandona, é a trizteza do meu ser.

Oh! meu amor, amor querido,
Escute o que falo em seu ouvido
Minha vida sem você não tem sentido
Você é meu mundo, meu gemido
Você é tudo pra mim.

É só você ouvir o que estou a lhe dizer:
Uma palavra, e jamais esquecer
Que meu amor será seu
Desde hoje até morrer

Vem até aqui, me ame
Sou tua até o sempre
Eternamente sua...

MEG KLOPPER

Publicado no Recanto das Letras em 22/02/2006

Fonte: http://recantodasletras.uol.com.br/audios/poesias/4017



- Postado por: Rodrigo às 10h18
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Manuel Lima - São Meus Estes Rios

São Meus Estes Rios

São meus estes rios
que buscam caminho
rastejando entre luar e silêncio,
sombra e madrugada,
até ao seu fim marítimo.

A minha alma está neles,
líquida e sonora
como a água entre o quissange das pedras,
o anoitecer nas fontes.

Tenho rios vermelhos e quentes
na minha dimensão física,
rios remotos, remotos como eu.

Manuel Lima



- Postado por: Rodrigo às 10h10
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