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Charles Baudelaire: 9 de Abril de 1821 — 31 de Agosto de 1867

Um Hemisfério numa Cabeleira

Deixa-me respirar muito, muito tempo, o aroma dos teus cabelos, aí mergulhar todo o meu rosto, como um homem alterado na água de uma nascente, e agitá-los com a minha mão como um lenço oloroso, para sacudir recordações no ar.

Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que escuto nos teus cabelos! A minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens na música.

Os teus cabelos contêm todo um sonho, pleno de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me transportam até climas deliciosos, onde o espaço é mais belo e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.

No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto enxameado de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando as suas arquitecturas finas e complicadas sobre um céu imenso onde se aloja o eterno calor.

Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, na cabina de um belo navio, embalados pelo enrolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os jarros de água refrescantes.

No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco misturado com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul escuro tropical; nas margens de penugem da tua cabeleira, embriago-me com os aromas combinados do algodão, do almiscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder por longo tempo as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordo os teus cabelos elásticos e rebeldes, tenho a impressão de comer saudades.

Charles Baudelaire

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução: Renata Cordeiro (Ed. Landy, 2002)
p. 60-1



- Postado por: Rodrigo às 09h58
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Carlos Drummond de Andrade - A hora do cansaço

A hora do cansaço

As coisas que amamos,as pessoas que amamos
são eternas até certo ponto.
Duram o infinito variável no limite de nosso poder.

De respirar a eternidade.
Pensá-las é pensar que não acabam nunca,
dar-lhes moldura de granito.

De outra matéria se tornam, absoluta,
numa outra (maior) realidade.
Começam a esmaecer quando nos cansamos,
e todos nos cansamos, por um ou outro itinerário,
de aspirar a resina do eterno.

Já não pretendemos que sejam imperecíveis.
Restituímos cada ser e coisa à condição precária,
rebaixamos o amor ao estado de utilidade.
Do sonho de eterno fica esse gosto acre
na boca, na mente,
sei lá, talvez no ar.

Carlos Drummond de Andrade

In: Corpo, 1985



- Postado por: Rodrigo às 09h49
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Charles Baudelaire: 9 de Abril de 1821 — 31 de Agosto de 1867

A BELEZA  (LA BEAUTÉ)

Sou a mais bela, ó mortais! que sonho de granito,
E meu seio, onde vem cada um gemer de dor,
Foi feito paro o poeta inspirar um amor
Semelhante à matéria, isto é, mudo e infinito.

Reino azul como uma esfinge singular;
Meu coração é neve e ao mesmo tempo arminho;
Odeio o que se move e faz o desalinho,
E não sei o que é rir, nem sei o que é chorar.

Os poetas, ante as minhas grandes atitudes,
Que aos momumentos mais altivos emprestei,
Consumirão o ser nos estudos mais rudes;

Pois para esses servís amantes reservei,
Um puro espelho em que é mais bela a realidade:
Meu olhar, largo de eterna claridade!

Charles Baudelaire

Tradução: Guilherme de Almeida



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Francis Hime (Rio de Janeiro, 31 de agosto de 1939)

Saudade de Amar

Deixa eu te dizer amor
Que não deves partir
Partir nunca mais.

Pois o tempo sem amor
É uma pura ilusão
E não volta mais.

Se pudesses compreender
A solidão que é
Te buscar por aí
Amando devagar
A vagar por aí
Chorando a tua ausência.

Vence a tua solidão
Abre os braços e vem
Meus dias são teus
É tão triste se perder
Tanto tempo de amor
Sem hora de adeus.

Ó volta aqui nos braços meus
Não haverá adeus
Nem saudade de amor.

E os dois sorrindo a soluçar
Partiremos depois.

Composição: Francis Hime / Vinicius de Moraes

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=bToHeMAztGA

Fonte: http://www.francishime.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h37
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Cassiano Ricardo - Depois de tudo

Depois de tudo

Mas tudo passou tão depressa
Não consigo dormir agora.
Nunca o silêncio gritou tanto
Nas ruas da minha memória.
Como agarrar líquido o tempo
Que pelos vãos dos dedos flui?
Meu coração é hoje um pássaro
Pousado na árvore que eu fui.

Cassiano Ricardo



- Postado por: Rodrigo às 11h02
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Florbela Espanca - A Nossa Casa

A NOSSA CASA

A nossa casa, Amor, a nossa casa!
Onde está ela, Amor, que não a vejo?
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a, num instante, o meu desejo

Onde está ela, Amor, a nossa casa,
O bem que neste mundo mais invejo?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos.
Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Num pais de ilusão que nunca vi...
E que eu moro — tão bom! — dentro de ti
E tu, ó meu Amor, dentro de mim...

Florbela Espanca



- Postado por: Rodrigo às 10h54
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Cesar Veneziani - Lucidez e Loucura

Lucidez e Loucura

Adoro a lucidez da tua loucura,
imploro a insensatez de teu pensar.
Instiga e questiona o teu olhar,
Mastiga e aprisiona a alma impura.

Na paz em crise onde árdua segue a luta,
me apraz a triste fé no esperançar.
Avanço o passo manco ao caminhar,
me canso em ser mutante pela muta.

Te vejo no futuro que componho.
Meu beijo vem do puro encantamento,
suave e maleável, é cimento!

Tal ave, insuperável vôo noturno,
aos pés meu coração é taciturno.
Tu és a perdição em carne e sonho.

Cesar Veneziani

In: Asas
Brasília: Utopia, 2009
p. 31

+ http://cesar.veneziani.zip.net/

* * *

Amigo Cesar... gostaria imensamente agradecer pelo carinho e pelo lindo presente que recebi hoje em minha casa, que vindo pessoalmente de você, se tornou ainda mais especial. Fico feliz em ter ao meu lado pessoas maravilhosas, jamais vou esquecer um gesto tão carinhoso como esse. Desejo sinceramente que você receba em dobro tudo que desejou-me e que possa desfrutar de todas as maravilhas que a vida oferece. Tenho a honra de publicar seus poemas neste espaço e isso nunca irá mudar. Aliás, agradeço por ter feito do meu blog especial e direto com a grandeza de seus poemas e por permitir publicá-los! Desejo-te toda felicidade do mundo e muito sucesso com o livro, que se depender de mim será ainda mais divulgado! E que muitas e muitas pessoas voem nestas "Asas", pois assim descobrirão tanto a impressionante sentimentalidade dos seus poemas quanto a assertiva de que a poesia eleva a alma!
Muito obrigado amigo,
Rodrigo



- Postado por: Rodrigo às 11h07
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Cesar Veneziani - Poema Beijo

Poema Beijo

um beijo é um poema
onde a rima
é o sentimento
acima
do duelo de línguas
é um momento
de entrega
de interação
um diálogo de corações
um balé de almas um momento sublime
no silêncio de palavras
e na escuridão dos olhos fechados
onde tudo se diz
e onde a luz se faz

Cesar Veneziani

In: Asas
Brasília: Utopia, 2009
p. 11



- Postado por: Rodrigo às 10h31
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Edu Lobo (Rio de Janeiro, 29 de agosto de 1943)

Canto Triste

Porque sempre foste a primavera em minha vida
Volta pra mim,
Desponta novamente no meu canto,
Eu te amo tanto...mais, te quero tanto mais
Há quanto tempo faz, partiste.
Como a primavera que também te viu partir
Sem um adeus sequer
E nada existe mais em minha vida
Como um carinho teu...como um silêncio teu
Lembro um sorriso teu...tão triste
Ah, Lua sem compaixão, sempre a vagar no céu
Onde se esconde a minha bem-amada?
Onde a minha namorada...
Vai e diz a ela as minhas penas e que eu peço
Peço apenas

Que ela lembre as nossas horas de poesia,
Das noites de paixão,
E diz-lhe da saudade em que me viste
Que estou sozinho...
Que só existe meu canto triste...
Na solidão

Composição: Edu Lobo

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=zLUea4Qc87A



- Postado por: Rodrigo às 10h16
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John Locke: 29 de Agosto de 1632 - 28 de Outubro de 1704

"Uma coisa é demonstrar a um homem que ele está errado, outra é colocá-lo de posse da verdade."

* * *

But it is one thing to show a man that he is in an error, and another to put him in possession of truth

John Locke

In: An Essay Concerning Human Understanding‎ - Página 463, de John Locke - Publicado por W. Tegg, 1849 - 564 páginas



- Postado por: Rodrigo às 10h10
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Lourenço Carlos Diaferia: 28 de agosto de 1933 — 16 de setembro de 2008

Aprendi a ser urbano pela minha própria natureza. Logo, não estranhe se eu disser que não existe nada mais fácil para mim do que explicar o que vem a ser uma megalópole. Megalópole é um molusco invertebrado com várias patas. É uma espécie de gelatina que respira. É uma cidade que mistura urbe, suburbe, etorbis. Vou explicar melhor: megalópole é o mesmo que um x-tudo de pedra, aço, cimento e vidro com bastante mostarda e ketchup.

Lourenço Diaferia

Fonte: http://www.atica.com.br/entrevistas/?e=141



- Postado por: Rodrigo às 11h14
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Clarice Lispector - A descoberta do mundo

Por outro lado, estou hoje um pouco cansada e é sobre o prazer do cansaço dolorido que vou falar. Todo prazer intenso toca no limiar da dor. Isso é bom. O sono, quando vem, é como um leve desmaio, um desmaio de amor. Morrer deve ser assim: por algum motivo estar-se tão cansado que só o sono da morte compensa. Morrer às vezes parece um egoísmo. Mas quem morre às vezes precisa muito. Será que morrer é o último prazer terreno?

Clarice Lispector

In: A descoberta do mundo



- Postado por: Rodrigo às 10h56
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Cecília Meireles - Para que a escrita seja legível

Para que a escrita seja legível

Para que a escrita seja legível,
é preciso dispor os instrumentos,
exercitar a mão,
conhecer todos os caracteres.
Mas para começar a dizer
alguma coisa que valha a pena,
é preciso conhecer todos os sentidos
de todos os caracteres,
e ter experimentado em si próprio
todos esses sentidos,
e ter observado no mundo
e no transmundo
todos os resultados dessas experiências.

Cecília Meireles



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Teixeira de Melo: 28 de agosto de 1833 — 10 de abril de 1907

FASCINAÇÃO

Se a mão te aperto trêmula, gelada,
Minh’alma inteira embebe-se na tua;
Quando me fitas teu olhar tranqüilo
Todo o meu sangue ao coração recua.

Quando te cravo os olhos meus, pudica
Baixas os teus com um olhar tão triste!...
Não devo amar-te; no entretanto eu te amo!
- E quem a tal fascinação resiste?...

Sinto em minh’alma comoções estranhas
Quando a descuido o teu olhar me lanças:
Creio-me outro, mais gentil, mais puro;
Sonho mil sonhos cheios de esperanças.

Na branca flor que no jardim floresce,
Na rola que soluça na folhagem,
Do céu no azul, no verde do cipestre:
Por toda a parte vejo a tua imagem.

Às vezes julgo surpreender-te um gesto
Que o ser me afoga em ondas de alegria;
Mas logo, pobre sonhador, conheço
Que o sonho mente e mente a fantasia.

Tu és a luz da minha vida, a crença
Que a minha morta mocidade chora;
Minh’alma adeja na amplidão, suspensa,
Quando não vejo o teu sorrir de aurora....

De aurora, sim! - pois a neblina imensa
Em que me envolvo - toda se adelgaça
Ao teu sorriso angelical e às vezes
Que ao pé de mim o teu vestido passa.

Sinto que te amo desse amor vertigem
Que num momento a vida nos consome:
Sinto ao teu nome estremecer-me o seio...
- Tem-me sido fatal teu doce nome!

Nunca disseste uma palavra, nunca
Um gesto só traiu teu pensamento:
Não sei como este amor me irrompeu n’alma!
Mas sei bem que ele faz o teu tormento.

Foi como o sutil fluido que evapora
A natureza em plena primavera:
Um nada que resume a vida inteira,
Um riso, um som que passa, uma quimera!

Eu sei que o nosso amor seria um crime
Perante o mundo e a própria consciência:
Seria atar o riso à desventura
O perturbar-te a angélica inocência.

Assim pois, meu amor, guarda os teus sonhos
E as castas ilusões da mocidade
Para o mortal que os fados te destinam:
Que ele te dê - por mim - a felicidade.

Que ele alcatife o teu passar de flores;
Que o sonho teu... Meu Deus! oh como o invejo
Que entenda, oh anjo, o teu menor sorriso
E que adivinhe o teu menor desejo...

Eu fugirei para remotas plagas,
Onde o não veja, pálido, a teu lado!...
Mas lá tão longe, em toda a parte e sempre
Hei de arrastar o meu grilhão pesado!

(Miosótis, 1877)

Teixeira de Melo

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h45
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Johann W. von Goethe: 28 de Agosto de 1749 — 22 de Março de 1832

ANELO

Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite - em que te geraram,
Em que geraste - sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te dêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Johann Wolfgang von Goethe

Tradução: Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 10h37
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A vida é como uma cebola, você descasca uma camada de cada vez e algumas vezes você chora.

Carl Sandburg



- Postado por: Rodrigo às 21h59
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Carlos Drummond de Andrade - Órion

ÓRION

A primeira namorada, tão alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.

Carlos Drummond de Andrade

In: Boitempo II
RJ: Ed. Record, 1987
p. 28



- Postado por: Rodrigo às 20h32
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Lupicínio Rodrigues: 16 de setembro de 1914 — 27 de agosto de 1974

Um Favor

Eu hoje acordei pensando
Por que é que eu vivo chorando
Podendo lhe procurar
Se a lágrima é tão maldita
Que a pessoa mais bonita
Cobre o rosto pra chorar
E refletindo um segundo
Resolvi pedir ao mundo
Que me fizesse um favor
Para que eu não mais chorasse
Que alguém me ajudasse
A encontrar meu amor
Maestro, músicos, cantores
Gente de todas as cores,
Faça esse favor pra mim
Quem puder cantar que cante
Quem souber tocar que toque
Flauta, trombone ou clarim
Quem puder gritar, que grite
Quem tiver apito, apite
Faça esse mundo acordar
Para que onde ela esteja
Saiba que alguém rasteja
Pedindo pra ela voltar...

Composição: Lupicínio Rodrigues



- Postado por: Rodrigo às 16h41
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

27.

a 100 metros da minha janela avisto outra janela
onde percebo uma discussão em família ou um pedido de casamento
um ritual satânico ou um velório alegre
um torneio de canastra ou uma turma fumando um bagulho
uma reunião de condomínio ou uma quadrilha planejando um assalto
uma concentração antes da festa ou um testamento sendo lido

sem binóculo, luneta e com alguns graus de miopia
é impossível dizer daqui, distante da cena do crime
o quanto estão sendo felizes ou não
os que vivem a 100 metros da minha solidão

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
Ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 34



- Postado por: Rodrigo às 10h55
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Marques Rebelo: 6 de janeiro de 1907 — 26 de agosto de 1973

"(...) Puxou-me pelas orelhas, levou-me para o quarto, sem jantar, disse-me, com dureza, "que um homem que mentia não era um homem", pôs-me de castigo uma semana, preso em casa, sem pôr os pés fora, na varanda que fosse. Aluísio, insensível à minha prisão, folgava, não parecendo sentir a falta do companheiro. Era de vê-la a facilidade indiferente com que supria, nos seus brinquedos, a minha pessoa ausente. Da janela do meu quarto, enquanto descansava as mãos doloridas de copiar, com boa letra e sem nenhum erro, as trinta páginas da minha geografia, que papai, pela manhã, antes de sair, inflexivelmente, me marcava, ficava vendo-o correr, subir às árvores, com desembaraço e agilidade. E invejava-o surdamente. Tinha dez anos."

 

Oscarina, 1931

 

Marques Rebelo



- Postado por: Rodrigo às 10h48
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Julio Florencio Cortázar: 26 de agosto de 1914 - 12 de fevereiro de 1984

“… A idéia é que a realidade, seja da Santa Sé, a de René Char ou a de Oppenheimer é, sempre uma realidade convencional, incompleta e dividida. A admiração de alguns caras diante de um microscópio eletrônico não me parece mais fecunda que a admiração das porteiras pelos milagres de Lourdes. Acreditar naquilo que chamam de matéria e acreditar naquilo que chamam espírito, viver em Emmanuel ou seguir cursos de Zen, ver o destino humano como um problema econômico ou como um puro absurdo, a lista é longa, a escolha múltipla…”

Julio Cortázar

In: O Jogo da Amarelinha
Tradução de Fernando de Castro Ferro



- Postado por: Rodrigo às 10h45
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Eduardo Prado Coelho: 29 de Março de 1944 — 25 de Agosto de 2007

 

(...) A verdade é que adoro cafés. E que tive em cafés alguns dos mais belos momentos de leitura, encontro, discussão, contemplação, escrita, estudo, violência de olhares, ternura das mãos, de que me posso lembrar. Nesses cafés que a Marina recorda no seu livro: o Monte Carlo, o Monumental, a Brasileira, o Palladium, ou, depois, a Grã-Fina, o Nova-Iorque, o Vává. E entre os motivos que tenho para gostar do Porto estão os cafés que ainda lá existem: cafés rodeados de noite e fumo, com velhos de unhas negras, prostitutas tristes, e adolescentes sufocando a tristeza num bolo de arroz e num leite quente."

Eduardo Prado Coelho

In: Crónicas no Fio do Horizonte, Asa, 2004



- Postado por: Rodrigo às 10h24
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Friedrich Nietzsche: 15 de Outubro de 1844 — 25 de Agosto de 1900

"É preciso a angústia de ser um caos para dali se gerar uma estrela"

* * *

"A melhor cura para o amor é ainda aquele remédio eterno: amor retribuído."

* * *

"Odeio as almas estreitas, sem bálsamo e sem veneno, feitas sem nada de bondade e sem nada de maldade."

Friedrich Nietzsche



- Postado por: Rodrigo às 10h12
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Cesar Veneziani - Amo Você

Amo Você

Amo você na sexta à noite,
quando beijo o rosto da amiga aniversariante,
quando vejo diante de mim
um drink delirante...

Amo você no sábado à tarde
quando o sol arde ao som do rock antigo
e aniquilo o inimigo amargor da sua ausência
com a demência do acorde dissonante...

Amo você no almoço do domingo
onde, antes do bingo, minha mãe me recebe
e concebe um banquete que me apetece
e o sabor de infância me remete ao prazer do teu corpo
e em torpor me transponho entre o aqui e o antes...

Amo você no desligar do despertador
quando por obrigação me levanto
e, no entanto, sem bem perceber
o final de semana já se foi
e eu estive consigo, ainda que distante, a todo instante...

(21/08/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h00
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Paulo Coelho: Rio de Janeiro, 24 de agosto de 1947


O afeto

H. Bloomfield soube que o pai fora hospitalizado de repente.

Enquanto viajava para New York, pensava que tinha chance de fazer com que esta visita fosse diferente das demais. Sempre tive medo de mostrar meu afeto, sempre quis manter a mesma distância prudente que meu pai mantinha comigo. Quando o vi na cama, cheio de tubos, dei-lhe um abraço. Ele se surpreendeu.

Abraça-me também, papai”, eu pedi. Ele me havia educado dizendo que um homem nunca demonstra seus sentimentos. Mas insisti. Papai levantou os braços e me tocou. Ali estava eu pedindo a meu pai que me mostrasse o quanto me queria - embora eu já soubesse.

Senti suas mãos na minha cabeça e - pela primeira vez - escutei as palavras que seus lábios jamais haviam pronunciado:TE AMO. E, a partir do momento em que teve coragem de mostrar seu amor, recuperou sua vontade de viver.

Paulo Coelho

Fonte: http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/2007/09/12/o-afeto/



- Postado por: Rodrigo às 11h16
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Paulo Leminski: 24 de agosto de 1944 — 7 de junho de 1989

AMOR BASTANTE

quando vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

Paulo Leminski

In: LA VIE EN CLOSE
Editora Brasiliense
p. 95



- Postado por: Rodrigo às 11h10
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Jorge Luis Borges: 24 de Agosto de 1899 — 14 de Junho de 1986

Nuvens (I)

"Não haverá uma só coisa que não seja
uma nuvem. São nuvens as catedrais
de vasta pedra e bíblicos cristais
que o tempo aplanará. São nuvens a Odisséia
que muda como o mar. Algo há distinto
cada vez que a abrimos. O reflexo
de tua cara já é outro no espelho
e o dia é um duvidoso labirinto.
Somos os que se vão. A numerosa
nuvem que se desfaz no poente
é nossa imagem. Incessantemente
a rosa se converte noutra rosa.
És nuvem, és mar, és olvido.
És também aquilo que perdeste".

Jorge Luis Borges

In: Os Conjurados
Ed. Três, 1985



- Postado por: Rodrigo às 11h06
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Rainer Maria Rilke - O Cego

O Cego

Ele caminha e interrompe a cidade,
que não existe em sua cela escura,
como uma escura rachadura
numa taça atravessa a claridade.

Sombras das coisas, como numa folha,
nele se riscam sem que ele as acolha:
só sensações de tato, como sondas,
captam o mundo em diminutas ondas:

serenidade; resistência -
como se à espera de escolher alguém, atento,
ele soergue, quase em reverência,
a mão, como num casamento.

Rainer Maria Rilke

Tradução: Augusto de Campos



- Postado por: Rodrigo às 20h31
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Florbela Espanca - Maior Tortura

Maior Tortura

Na vida, para mim, não há deleite.
Ando a chorar convulsa noite,
E não tenho nem sombra em que me acoite,
E não tenho uma pedra em que me deite!

Ah! Toda eu sou sombras, sou espaços!
Perco-me em mim na dor de ter vivido!
E não tenho a doçura duns abraços
Que me façam sorrir de ter nascido!

Sou como tu um cardo desprezado
A urze que se pisa sob os pés,
Sou como tu um riso desgraçado!

Mas a minha Tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és
Para concretizar a minha Dor!

Florbela Espanca



- Postado por: Rodrigo às 09h59
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Natália Correia - Fiz um conto para me embalar

Fiz um conto para me embalar

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

Natália Correia



- Postado por: Rodrigo às 09h55
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Menotti Del Picchia: 20 de março de 1892 — 23 de agosto de 1988

GERMINAL

I

Nuvens voam pelo ar como bandos de garças.
Artista boêmio, o sol, mescla na cordilheira pinceladas
de ouro fosco. Num mastro, apruma-se a bandeira
de S. João, desfraldando o seu alvo losango.

Juca Mulato cisma. A sonolência vence-o.

Vem, na tarde que expira e na voz de um curiango,
o narcótico do ar parado, esse veneno
que há no ventre da treva e na alma do silêncio.

Um sorriso ilumina o seu rosto moreno.

No piquete relincha um poldro; um galo álacre
tatala a asa triunfal, ergue a crista de lacre,
clarina a recolher; entre varas de cerdos,
mexem-se ruivos bois processionais e lerdos
e, num magote escuro, a manada se abisma
na treva.
Anoiteceu.
Juca Mulato cisma.

II

Como se sente bem recostado no chão!
Ele é como uma pedra, e como a correnteza,
uma coisa qualquer dentro da natureza
amalgamada ao mesmo anseio, ao mesmo amplexo,
a esse desejo de viver grande e complexo,
que tudo abarca numa força de coesão.

Compreende em tudo ambições novas e felizes,
tem desejo ate de rebrotar raizes,
deitar ramas pelo ar,
sorver, junto da planta, e sobre a mesma leiva,
o mesmo anseio de subir, a mesma seiva,
romper em brotos, florescer, frutificar!

III

"Que delícia viver! Sentir entre os protervos
renovos se escoar uma seiva alma e viva,
na tenra carne a remoçar o corpo moço..."

E um prazer bestial lhe encrespa a carne e os nervos,
afla a narina; o peito arqueja; uma lasciva
onda de sangue lhe incha as veias do pescoço...

Ei-lo, supino e só, na noite vasta. Um cheiro
acre, de feno, lhe entorpece o corpo langue;
e, no torso trigueiro,
enroscam seus anéis serpentes de desejos
e um pubescente ansiar de abraços a de beijos
incendeia-lhe a pele e estua-lhe no sangue.

Juca Mulato cisma.
Escuta a voz em coro
dos batráquios, no açude, os gritos soluçantes
do eterno amor dos charcos.
É ágil como um poldro e forte como um touro;
no equilíbrio viril dos seus membros possantes
há audácias de coluna e a elegância dos barcos.

O crescente, recurvo, a treva, em brilhos frange,
e, na carne da noite imerge-se e se abisma
como, num peito etíope, a ponta de um alfanje.
Juca Mulato cisma...
A natureza cisma.

IV

Aflora-lhe no imo um sonho que braceja;
estira o braço; enrija os músculos; boceja;
supino fita o céu e diz em voz submissa:
"Que tens, Juca Mulato?..." e, reboleado na erva.
sentindo esse cansaço irritante que o enerva,
deixa-se, mudo e só, quebrado de preguiça.

Cansado ele? E por quê? Não fora essa jornada
a mesma luta, palmo a palmo, com a enxada
a suster, no café, as invasões da aninga?
E, como de costume, um cálice de pinga,
um cigarro de palha, uma jantinha à-toa,
um olhar dirigido à filha da patroa?

Juca Mulato pensa: a vida era-lhe um nada..
Uns alqueires de chão; o cabo de uma enxada;
um cavalo pigarço; uma pinga da boa;
o cafezal verdoengo; o sol quente e inclemente...

Nessa noite, porém, parece-lhe mais quente,
o olhar indiferente,
da filha da patroa...

"Vamos, Juca Mulato, estás doido?" Entretanto,
tem a noite lunar arrepios de susto;
parece respirar a fronde de um arbusto,
o ar é como um bafo, a água corrente, um pranto.
Tudo cria uma vida espiritual, violenta.
O ar morno lhe fala; o aroma suave o tenta...
"Que diabo!" Volve aos céus as pupilas, à toa,
e vê, na lua, o olhar da filha da patroa. ..
Olha a mata; lá está! o horizonte lho esboça:
pressente-o em cada moita; enxerga-o em cada poça;
e ele vibra, e ele sonha, e ele anseia, impotente,
esse olhar que passou, longínquo e indiferente!

V

Juca Mulato cisma. Olha a lua e estremece.
Dentro dele, um desejo abre-se em flor e cresce
e ele pensa, ao sentir esses sonhos ignotos,
que a alma é como uma planta, os sonhos como brotos
vão rebentando nela e se abrindo em floradas...

Franjam de ouro, o ocidente, as chamas das queimadas.

Mal se pode conter de inquieto e satisfeito.
Adivinha que tem qualquer coisa no peito,
e, às promessas do amor, a alma escancara ansiado,
como os áureos portais de um palácio encantado!...

Mas, a mágoa que ronda a alegria de perto,
entra no coração sempre que o encontra aberto...

Juca Mulato sofre... Esse olhar calmo e doce
fulgiu-lhe como a luz, como luz apagou-se.
Feliz até então, tinha a alma adormecida...
Esse olhar que o fitou, o acordou para a vida!
A luz que nele viu deu-lhe a dor que ora o assombra,
como o sol que traz a luz e, depois, deixa a sombra...

VI

E, na noite estival, arrepiadas, as plantas
tinham na negra fronde umas roucas gargantas
bradando, sob o luar opalino, de chofre:
"Sofre, Juca Mulato, é tua sina, sofre...
Fechar ao mal de amor nossa alma adormecida
é dormir sem sonhar, é viver sem ter vida..
Ter, a um sonho de amor, o coração sujeito
é o mesmo que cravar uma faca no peito.
Esta vida é um punhal com dois gumes fatais:
não amar, é sofrer; amar, é sofrer mais!"

VII

E, despertando à Vida, esse caboclo rude,
alma cheia de abrolhos,
notou, na imensa dor de quem se desilude
que, desse olhar que amou, fugitivo e sereno,
só lhe restara ao lábio um trago de veneno,
uma chaga no peito e lágrimas nos olhos.

Juca Mulato, 1917

Menotti Del Picchia

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h49
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Chico Buarque - Bom Conselho

Bom Conselho

Ouça um bom conselho
Que eu lhe dou de graça
Inútil dormir que a dor não passa
Espere sentado
Ou você se cansa
Está provado, quem espera nunca alcança

Venha, meu amigo
Deixe esse regaço
Brinque com meu fogo
Venha se queimar
Faça como eu digo
Faça como eu faço
Aja duas vezes antes de pensar

Corro atrás do tempo
Vim de não sei onde
Devagar é que não se vai longe
Eu semeio o vento
Na minha cidade
Vou pra rua e bebo a tempestade

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=fBeOEZITiOE



- Postado por: Rodrigo às 11h31
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Cora Coralina - Das Pedras

DAS PEDRAS

Ajuntei todas as pedras
que vieram sobre mim.
Levantei uma escada muito alta
e no alto subi.
Teci um tapete floreado
e no sonho me perdi.

Uma estrada,
um leito,
uma casa,
um companheiro.
Tudo de pedra.

Entre pedras
cresceu a minha poesia.
Minha vida...
Quebrando pedras
e plantando flores.

Entre pedras que me esmagavam
levantei a pedra rude
dos meus versos.

Cora Coralina 

In: Meu livro de cordel
Global Editora



- Postado por: Rodrigo às 11h22
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Clarice Lispector - Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres

(...) E era bom. "Não entender" era tão vasto que ultrapassava qualquer entender - entender era sempre limitado. Mas não entender não tinha fronteiras e levava ao infinito, ao Deus. Não era um não entender como um espírito. O bom era ter inteligência e não entender. Era uma benção como a ter loucura sem ser doida. Era um desinteresse manso em relação às coisas ditas do intelecto, uma doçura de estupidez. (...)

Clarice Lispector

In: Uma aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
8a. ed, RJ: Editora Nova Fronteira, 1980
p. 44



- Postado por: Rodrigo às 11h18
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Alberto Caeiro (1889-1915) - Passa uma Borboleta

XL - PASSA UMA BORBOLETA

Passa uma borboleta por diante de mim
E pela primeira vez no Universo eu reparo
Que as borboletas não têm cor nem movimento,
Assim como as flores não têm perfume nem cor.
A cor é que tem cor nas asas da borboleta,
No movimento da borboleta o movimento é que se move,
O perfume é que tem perfume no perfume da flor.
A borboleta é apenas borboleta
E a flor é apenas flor.

Alberto Caeiro (1889-1915)

In: O Guardador de Rebanhos e Outros Poemas
Fernando Pessoa
Seleção e introdução de Massaud Moisés
Ed. Cultrix - 4a Edição, 1993.



- Postado por: Rodrigo às 21h35
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Raul Santos Seixas: 28 de junho de 1945 — 21 de agosto de 1989

Coisas do Coração
 
Quando o navio finalmente alcançar a terra
E o mastro da nossa bandeira se enterrar no chão
Eu vou poder pegar em sua mão
Falar de coisas que eu não disse ainda não

Coisas do coração!
Coisas do coração!

Quando a gente se tornar rima perfeita
E assim virarmos de repente uma palavra só
Igual a um nó que nunca se desfaz
Famintos um do outro como canibais

Paixão e nada mais!
Paixão e nada mais!

Somos a resposta exata do que a gente perguntou
Entregues num abraço que sufoca o próprio amor
Cada um de nós é o resultado da união
De duas mãos coladas numa mesma oração!

Coisas do coração!
Coisas do coração!

Composição: C. Roberto / K. Seixas / Raul Seixas



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Josué de Sousa Montello: 21 de agosto de 1917 — 15 de março de 2006

"Vez por outra sentia necessidade de ir ali, levado por invencível ansiedade nostálgica, que ele próprio, com toda a agudeza de sua inteligência superior, não saberia definir ou explicar. O certo é que, ouvindo bater os tambores rituais, como que se reintegrava no mundo mágico de sua progênie africana, enquanto se lhe alastrava pela consciência uma sensação nova de paz, que mergulhava na mais profunda essência de seu ser. Dali saía misteriosamente apaziguado, e era mais leve o seu corpo e mais suave o seu dia..."

Josué Montello

In: Os Tambores de São Luís, 1975

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h03
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Vinicius de Moraes - Para Viver Um Grande Amor

Para Viver Um Grande Amor

Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor.

Para viver um grande amor, primeiro é preciso sagrar-se cavalheiro e ser de sua dama por inteiro — seja lá como for. Há que fazer do corpo uma morada onde clausure-se a mulher amada e postar-se de fora com uma espada — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor, vos digo, é preciso atenção como o "velho amigo", que porque é só vos quer sempre consigo para iludir o grande amor. É preciso muitíssimo cuidado com quem quer que não esteja apaixonado, pois quem não está, está sempre preparado pra chatear o grande amor.

Para viver um amor, na realidade, há que compenetrar-se da verdade de que não existe amor sem fidelidade — para viver um grande amor. Pois quem trai seu amor por vaidade é um desconhecedor da liberdade, dessa imensa, indizível liberdade que traz um só amor.

Para viver um grande amor, il faut além de fiel, ser bem conhecedor de arte culinária e de judô — para viver um grande amor.

Para viver um grande amor perfeito, não basta ser apenas bom sujeito; é preciso também ter muito peito — peito de remador. É preciso olhar sempre a bem-amada como a sua primeira namorada e sua viúva também, amortalhada no seu finado amor.

É muito necessário ter em vista um crédito de rosas no florista — muito mais, muito mais que na modista! — para aprazer ao grande amor. Pois do que o grande amor quer saber mesmo, é de amor, é de amor, de amor a esmo; depois, um tutuzinho com torresmo conta ponto a favor...

Conta ponto saber fazer coisinhas: ovos mexidos, camarões, sopinhas, molhos, strogonoffs — comidinhas para depois do amor. E o que há de melhor que ir pra cozinha e preparar com amor uma galinha com uma rica e gostosa farofinha, para o seu grande amor?

Para viver um grande amor é muito, muito importante viver sempre junto e até ser, se possível, um só defunto — pra não morrer de dor. É preciso um cuidado permanente não só com o corpo mas também com a mente, pois qualquer "baixo" seu, a amada sente — e esfria um pouco o amor. Há que ser bem cortês sem cortesia; doce e conciliador sem covardia; saber ganhar dinheiro com poesia — para viver um grande amor.

É preciso saber tomar uísque (com o mau bebedor nunca se arrisque!) e ser impermeável ao diz-que-diz-que — que não quer nada com o amor.

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva escura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor.

Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 09h38
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Paulo Leminski


Meus amigos quando me dão a mão...
Sempre deixam outra coisa:
Presença...
Olhar...
Lembrança...
Calor...
Meus amigos quando me dão a mão
deixam na minha a sua mão!

Paulo Leminski



- Postado por: Rodrigo às 09h33
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Federico García Lorca: 5 de junho de 1898 — 19 de agosto de 1936

As seis cordas

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

Federico Garcia Lorca

A poesia acima foi extraída de sua "Antologia Poética", Editora Leitura S. A. - Rio de Janeiro, 1966, pág. 17, tradução e seleção de Afonso Felix de Sousa.



- Postado por: Rodrigo às 09h24
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Federico García Lorca: 5 de junho de 1898 — 19 de agosto de 1936

Romance sonâmbulo

(A Gloria Giner e a
Fernando de los Rios)

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca

 Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=lxzsrkX9ATE

A poesia acima foi extraída de sua "Antologia Poética", Editora Leitura S. A. - Rio de Janeiro, 1966, pág. 53, tradução e seleção de Afonso Felix de Sousa



- Postado por: Rodrigo às 09h20
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Maria José Limeira - Eu Conto...

O Amor agita meu espírito
como se fosse um vendaval
a desabar sobre os carvalhos.
Safo

* * *

EU CONTO...
 
Conto flores no jardim.
Vermelhas ou amarelas.
Conto do começo ao fim.
Conto portas e janelas.
 
Não conto o que dói em mim...

Maria José Limeira



- Postado por: Rodrigo às 09h58
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Andréa R. Costa - Sinto sua falta!

Sinto sua falta!

Em todos os momentos de minha vida, sinto sua falta.
Sinto sua falta quando a noite silencia e neste quarto
vazio o meu pranto morre em silêncio.
Sinto falta das noites em que olhava para a lua e via o
teu coração procurando o meu.
Sinto falta do seu amor, das noites que nos amamos e
do seu coração pulsando forte junto ao meu.
Sinto sua falta em cada amanhecer da vida.
Sinto falta das tuas doces palavras, que ainda que
distantes, me faziam sonhar.
Sinto falta do teu olhar que me dizia tudo o que precisava
ouvir.
Sinto falta de seu toque em meu corpo, do carinho suave
em minha face e de todas as juras de amor.
Sinto tanto a sua falta que quase esqueci o quanto sentia
falta de mim.
Sinto falta dos nossos momentos...
Sinto falta, de ti em mim!

Andréa R. Costa

Escrevo aquilo que não posso dizer, pois meu coração não cala.

Fonte: http://www.euautor.com.br/obra_mostra.asp?IDTexto=15010&IdTipo=5&IdCat=17  



- Postado por: Rodrigo às 09h57
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Composição: Bernardo Faria / Conrado D'Ávila

Pensa em mim

Inspiração dos meus sonhos não quero acordar
Quero ficar só contigo não vou poder voar
Pra que parar pra refletir se meu reflexo é você?
Aprendendo uma só vida, compartilhando prazer

Por que parece que na hora eu não vou aguentar?
Se eu sempre tive força e nunca parei de lutar?
Como num filme, no final tudo vai dar certo
Quem foi que disse que pra tá junto precisa tá perto

Pensa em mim
Que eu tô pensando em você
E me diz...
O que eu quero te dizer
Vem pra cá,
Pra ver que juntos estamos
E te falar
Mais uma vez que te amo

O tempo que passamos juntos vai ficar pra sempre
Intimidades, brincadeiras, só a gente entende
Pra quem fala que namorar é perder tempo eu digo:
Há muito tempo eu não crescia o que eu cresci contigo

Juntos no balanço da rede, sob o céu estrelado
Sempre acontece, o tempo pára quando eu tô do seu lado
A noite chega eu fecho os olhos e é você que eu vejo
Como eu queria estar contigo eu paro e faço um desejo

Composição: Bernardo Faria / Conrado D'Ávila



- Postado por: Rodrigo às 09h49
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

PROCURO UMA ALEGRIA

Procuro uma alegria
na mala vazia
do final do ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano –
o vôo de um pássaro
e de uma canção.

Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia Errante
7ª. ed., Editora Record 1996
p. 81



- Postado por: Rodrigo às 08h35
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Congresso Internacional do Medo

Provisoriamente não cantaremos o amor,
que se refugiou mais abaixo dos subterrâneos.
Cantaremos o medo, que estereliza os abraços,
não cantaremos o ódio porque esse não existe,
existe apenas o medo, nosso pai e nosso companheiro,
o medo grande dos sertões, dos mares, dos desertos,
o medo dos soldados, o medo das mães, o medo das igrejas,
cantaremos o medo dos ditadores, o medo dos democratas,
cantaremos o medo da morte e o medo de depois da morte,
depois morreremos de medo
e sobre nossos túmulos nascerão flores amarelas e medrosas.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 08h30
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Consideração do poema
 
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade – Poesia Completa
A Rosa do Povo
Editora Nova Aguilar
p. 115-6



- Postado por: Rodrigo às 08h25
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Antônio Candeia Filho: 17 de agosto de 1935 — 16 de novembro de 1978

Preciso Me Encontrar

Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...

Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...

Depois, depois
Que eu me encontrar
Quando eu me encontrar

Composição: Candeia



- Postado por: Rodrigo às 08h19
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Eça de Queirós: 25 de Novembro de 1845 — 16 de Agosto de 1900

"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!

Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho"

Eça de Queirós

In: O Primo Basílio


 Marisa Monte – Amor I love you:
http://www.youtube.com/watch?v=ni-tGSSYqyo



- Postado por: Rodrigo às 20h41
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António Pereira Nobre: 16 de Agosto de 1867 — 18 de Março de 1900

Ladainha

Teu coração dentro do meu descansa,
Teu coração, desde que lá entro:
E tem tão bom dormir essa criança!
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Dorme, menino! dorme, dorme, dorme!
O que te importa o que no mundo vai?
Ao acordares desse sono enorme,
Tu julgarás que se passou num ai.

Dorme, criança! dorme sossegada
Teus sonhos brancos ainda por abrir:
Depois a morte não te custa nada,
Porque a ela habituaste-te a dormir...

Dorme, meu anjo! (a noite é tão comprida!)
Que doces sonhos tu não hás-de ter!
Depois, com o hábito de os ter na vida,
Continuarás depois de falecer...

Dorme, meu filho! Cheio de sossego,
Esquece-te de tudo e até de mim!
Depois... de olhos fechados, és um cego,
Tu nada vês, meu filho! e antes assim...

Dorme os teus sonhos, dorme, e não mos digas,
Dorme, filhinho, dorme «ó-ó...»
Dorme, minha alma canta-te cantigas,
Que ela é velhinha como a tua avó!

Nenhuma ama tem um pequenino
Tão bom, tão meigo; que feliz eu sou!
E tem tão bom dormir esse menino...
Deitou-se, ali caiu, ali ficou.

Vou sobre o oceano (o luar, de doce, enleva!)
Por este mar de glória, em plena paz.
Terras da Pátria somem-se na treva
Águas de Portugal ficam, atrás.

Onde vou eu? Meu fado onde me leva?
António, onde vais tu, doido rapaz?
Não sei. Mas o vapor, quando se eleva,
Lembra o meu coração, na ânsia em que jaz.

Ó Lusitânia que te vais à vela!
Adeus! que eu parto (rezarei por ela)
Na minha Nau Catarineta, adeus!

Paquete, meu paquete, anda ligeiro,
Sobe depressa à gávea, marinheiro,
E grita, França! pelo amor de Deus!

Oceano Atlântico, 1890

António Pereira Nobre



- Postado por: Rodrigo às 20h35
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Millôr Fernandes (Rio de Janeiro, 16 de agosto de 1923)

Eu nado, tu mergulhas, ele se afoga.
Eu apresso, tu corres, ele voa.
Eu grito, tu matas, ele esfola.
Eu fumo, tu bebes, ele puxa.
Eu dirijo bem, tu és cauteloso, ele é um barbeiro.

Millôr Fernandes

In: Millôr Fernandes - Literatura Comentada,
Abril Educação,
p. 75

(Arte: Millôr Fernandes)



- Postado por: Rodrigo às 20h28
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Charles Bukowski: 16 de Agosto de 1920 – 9 de Março de 1994

 

"Há sempre os que defendem os subnormais na sociedade porque não se dão conta de que os subnormais são subnormais. E a razão por que não se dão conta é que eles também são subnormais. Temos uma sociedade subnormal e é por isso que fazem o que fazem e fazem aos outros o que fazem. Mas é problema deles e eu não me importo, a não ser que eu tenha que viver com eles."

 

Charles Bukowski



- Postado por: Rodrigo às 20h21
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Dorival Caymmi: 30 de abril de 1914 — 16 de agosto de 2008

É Doce Morrer No Mar

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar

A noite que ele não veio foi
Foi de tristeza prá mim
Saveiro voltou sozinho
Triste noite foi prá mim

Saveiro partiu de noite foi
Madrugada não voltou
O marinheiro bonito
Sereia do mar levou

Nas ondas verdes do mar meu bem
Ele se foi afogar
Fez sua cama de noivo
No colo de Iemanjá

É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar
É doce morrer no mar
Nas ondas verdes do mar

Dorival Caymmi
 
In: História de pescadores, 1996
Grav. Odeon



- Postado por: Rodrigo às 20h16
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Priscilla Carla Silveira Menezes - Eu te amo

Eu te amo

Eu quero gritar! Bem alto mesmo! Para ver se esta vontade de você diminui, pois a saudade me atormenta! Mas sei que seria em vão. Eu poderia virar uma histérica, mas você continuaria aqui dentro do meu coração, acelerando-o a todo tempo, lembrando-me da sua maravilhosa existência em minha vida. 

Eu quero enlouquecer! Ter atitudes anormais! Mas até nestes momentos eu não me enganaria! 

Eu quero dormir! Profundamente! Pelo menos assim eu não lembraria da distância que nos separa. Mas nos meus sonhos você sempre está e quando acordo meu corpo exige mais que a sua imagem em minha mente.

DESISTO!

Eu quero, pelo menos, fazer algo que não fosse uma forma de me enganar ou me curar da sua distância, mas confirmar que aqui estou, à sua espera, de corpo e alma.  Eu quero dizer, então,...

EU TE AMO!
 
Priscilla Carla Silveira Menezes

In: Confissões Poéticas, 2002



- Postado por: Rodrigo às 09h37
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Nathan de Castro - E agora, Poesia?

E agora, Poesia?

Sem permissão do verso ou da poesia
esculpiram a estátua do poeta,
e ele não sabe a dor do olhar de bronze.
Ele só sabe a pedra no caminho.
 
"E agora, José?"
Sotaque das calçadas
de Copacabana,
praia, areia
 
- nenhuma pedra no caminho -
e o mundo grande
na "janela sobre o mar".
"E agora, José?"
 
Versos pichados,
óculos quebrados,
e a saudade danada das Gerais
"no breve espaço de beijar".
 
"E agora, José?"
E agora, poesia?
 
Nathan de Castro

In: 1001 noites de sonetos & rabiscos
São Paulo, Scortecci Editora, 2005 (p. 27)



- Postado por: Rodrigo às 09h16
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Bertolt Brecht: 10 de Fevereiro de 1898 — 14 de Agosto de 1956

Tudo se transforma.
Recomeçar é possível mesmo no último suspiro.
Mas o que aconteceu, aconteceu. E a água
que puseste no teu vinho não pode
mais ser retirada.
O que aconteceu, aconteceu. A água
que puseste no teu vinho não pode
mais ser retirada. Porém
tudo se transforma. E recomeçar
é possível mesmo no último suspiro.

Bertold Brecht

In: Gesammelte Gedichte
ed. Suhrkamp
p. 888



- Postado por: Rodrigo às 09h10
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Allan Kardec - O Evangelho segundo o Espiritismo

"O dever íntimo do homem é governado pelo seu livre-arbítrio, este aguilhão da consciência, guardião da integridade interior, o adverte e o sustenta; mas permanece, muitas vezes, impotente perante os enganos da paixão. O dever do coração, fielmente observado, eleva o homem, mas, como este dever pode ser determinado? Onde ele começa? Onde termina? O dever começa precisamente no ponto onde ameaçais a felicidade ou a tranqüilidade de vosso próximo, e termina no limite em que não desejaríeis vê-lo transposto em relação a vós mesmos."

ALLAN KARDEC

In: O Evangelho segundo o Espiritismo
Cap. 17, Item 7



- Postado por: Rodrigo às 17h35
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Felipe Luna

Quando eu achei você
Na noite
Eu perguntei alguma coisa ao meu coração:
Eu poderia levá-la à luz de novo?

Nesse pouco tempo, eu despertei
Eu vi um futuro para você
Um milhar de sorrisos
em seu plano

Quero você pra mim
E tentarei
Farei com que você veja
em meus olhos para sentir
O meu sentimento de aço
Eu sei fazer você feliz

Pegue todos os mentirosos
Na sua vida
E tranque-os no passado
Você precisa de novas memórias

E agora você está
Na minha linha
E vou fazer o melhor
Para fazer com que seu sangue flua em minhas veias

Quero você pra mim
E tentarei
Farei com que você veja
em meus olhos para sentir
O meu sentimento de aço
Eu sei fazer você feliz

você sabe
o tempo todo
a verdade
nos meus olhos
você sabe
a minha verdade
é você
nos meus olhos.

Felipe Luna



- Postado por: Rodrigo às 17h30
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Murilo Mendes - Reflexão n°1

Reflexão n°1

Ninguém sonha duas vezes o mesmo sonho
Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio
Nem ama duas vezes a mesma mulher.
Deus de onde tudo deriva
E a circulação e o movimento infinito.

Ainda não estamos habituados com o mundo
Nascer é muito comprido.

Murilo Mendes

Melhores Poemas - Murilo Mendes
Global Editora
p. 63



- Postado por: Rodrigo às 17h27
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Herberto Sales: 21 de setembro de 1917 — 13 de agosto de 1999

"(...) Sua candeia alumia o caminho difícil. Dela se desprende uma fumaça densa, o cheiro do azeite se misturando ao do limo que cobre as pedras. O ar se faz mais pesado, como que palpável. Entre o teto e o chão há apenas uma fenda, como se o caminho tivesse terminado ali. Mas é necessário avançar mais - e Filó avança, agachando-se, a princípio, para logo se estirar de comprido sobre a laje. Se aparecer de súbito uma cobra, uma cabeça-de-patrona ou uma jaracuçu, cuja picada "quando não mata, aleija", ele fará o que todo gruneiro tem obrigação de fazer - de saber fazer. Procurará encandear os olhos da cobra com a luz da candeia, até poder pegá-la pela cabeça com mão firme, esmagando-a contra a pedra. Não há outra saída. Atrás dele, também de rastos, vêm os demais companheiros, com o rosto a um palmo de distância da planta dos pés uns dos outros, formando a fieira por meio da qual se farão chegar os sacos de cascalho à boca da gruna."

Herberto Sales

In: Cascalho, 1944



- Postado por: Rodrigo às 17h06
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João Cabral de Melo Neto - Tecendo a manhã

Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

In: Poesias Completas.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1979

(Arte: Cock A Doodle Dude - Catherine G McElroy)



- Postado por: Rodrigo às 10h06
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Cora Coralina - Meu Destino

MEU DESTINO

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes -
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Cora Coralina



- Postado por: Rodrigo às 10h05
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Henry James - Retrato de uma Senhora (1881)

"Ele nunca supôs que ela não tivesse asas e necessidade de movimentos livres e belos, com seus longos braços e pernas; ele não temia a força dela. As palavras de Isabel, se é que tinham a intenção de chocá-lo, erraram o alvo e só o fizeram sorrir com a sensação de que havia um terreno comum entre eles..."

Henry James

In: Retrato de uma Senhora (1881)



- Postado por: Rodrigo às 10h04
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Vinicius de Moraes - Medo de amar

Medo de amar

Vire essa folha do livro e se esqueça de mim
Finja que o amor acabou e se esqueça de mim
Você não compreendeu que o ciúme é um mal de raiz
E que ter medo de amar não faz ninguém feliz

Agora vá sua vida como você quer
Porém, não se surpreenda se uma outra mulher
Nascer de mim, como do deserto uma flor
E compreender que o ciúme é o perfume do amor

Vinicius de Moraes

In: "Poesia completa e prosa: 'Cancioneiro' "



- Postado por: Rodrigo às 17h12
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Gregório de Matos e Guerra - Reprovações

REPROVAÇÕES

Se sois homem valoroso,
Dizem que sois temerário,
Se valente, espadachim,
E atrevido, se esforçado.

Se resoluto, - arrogante,
Se pacífico, sois fraco,
Se precatado, - medroso,
E se o não sois, confiado.

Se honesto sois, não sois homem,
Impotente, se sois casto,
Se não namorais, fanchono,
Se o fazeis, sois estragado.

Se não luzis, não sois gente,
Se luzis, sois mui pregado,
Se pedis, sois pobretão,
E se não, fazeis Calvários.

Se andais devagar, mimoso,
Se depressa, sois cavalo,
Mal encarado, se feio,
Se gentil, efeminado.

Se falais muito, palreiro,
Se falais pouco, sois tardo,
Se em pé, não tendes assento,
Preguiçoso, se assentado.

E assim não pode viver
Neste Brasil infestado,
Segundo o que vos refiro
Quem não seja reprovado.

Gregório de Matos

In: Poemas Satíricos - Gregório de Matos
Ed. Martin Claret, 2002



- Postado por: Rodrigo às 17h10
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Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 13 de novembro de 1864

Se se morre de amor!
 
Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
 
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
 
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
 
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
 
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

Gonçalves Dias

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 67-68



- Postado por: Rodrigo às 16h45
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As Mãos de Meu Pai por Mario Quintana

As Mãos de Meu Pai

As tuas mãos têm grossas veias como cordas azuis
sobre um fundo de manchas já cor de terra
- como são belas as tuas mãos
pelo quanto lidaram, acariciaram ou fremiram da nobre
                                                       cólera dos justos...
Porque há nas tuas mãos, meu velho pai,essa beleza que se
                                                      chama simplesmente vida.
E, ao entardecer, quando elas repousam nos braços da tua
                                                                 cadeira predileta,
uma luz parece vir de dentro delas...
Virá dessa chama que pouco a pouco, longamente, vieste
                         alimentando na terrível solidão do mundo,
como quem junta uns gravetos e tenta acendê-los contra
                                                                             o vento?
Ah! Como os fizeste arder, fulgir, com o milagre das tuas mãos!
E é, ainda, a vida que transfigura as tuas mãos nodosas...
essa chama de vida - que transcende a própria vida
e que os Anjos, um dia, chamarão de alma.

Mario Quintana



- Postado por: Rodrigo às 22h49
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Pai... por Ed Bass

Pai...

Hoje é o dia dos pais...
Todo mundo querendo comprar um presente, como forma de carinho...
Se bem que, tem gente que não pensa da mesma forma!
Tem gente que renega o próprio pai!
Tem gente que chuta o pai, discute, briga e até mesmo... bate no próprio pai!
Tem gente que interna o pai num asilo ou sanatório e o abandona!
Tem gente que quer ver o pai longe de casa! Pra que ele não encha o saco!
Tem gente que visita o pai, mas só quando está em dificuldades financeiras!
Tenho pena dessas pessoas que de uma forma ou outra, desprezam o próprio pai!
Não sabem, o valor que tem um pai! Mesmo o pior dos pais!
Mesmo aqueles em que os pais são separados, deveriam ser felizes! Afinal das contas o pai continua vivo!
Todo mundo tem um pai... eu não!...
Há muito tempo ele se foi. Vitima de um derrame cerebral.
Quando ele se foi, eu ainda era criança, hoje mal me lembro das suas feições...
Mas lembro dos seus carinhos, dos seus abraços, de uma voz serena e calma.
Ah, pai! Se eu pudesse, se eu tivesse uma única chance de te rever, diria assim:
Deixe-me abraçá-lo intensamente, pai! Muitas décadas se passaram desde o nosso último abraço!
Quem sabe se o senhor estivesse vivo, teria orgulho de mim!
Sei que nesta vida fiz muitas coisas erradas! Reconheço!
Mas boa parte, acho que não tive culpa.
Errei para acertar, pai. Eu não tinha o senhor por perto para me aconselhar, orientar, trocarmos uma idéia...
Aprendi na marra, com os meus próprios erros!
Tive que aprender muita coisa sozinho, que nem: pescar, namorar, estudar, trabalhar...
Ah, pai. Outra coisa que aprendi na época: aprendi a esperar que os outros meninos me dessem uma chance de jogar bola com eles, ou que os pais deles me colocassem no jogo!
Quantos não foram os tombos que tive, tentando me equilibrar em cima da bicicleta! Hoje eu dou risada, mas na época, doeram pra caramba!
Quantas pipas perdi, tentando empiná-las sozinho! Elas se rasgavam na grama, na cerca, nos postes...
Sabia que levei mais tempo para aprender a nadar, que os outros meninos? O senhor não estava lá para me segurar. Me engasguei muito.
E na época do primário, do ginásio... quantas matérias com notas vermelhas! Chorava de raiva por não entender as matérias!
Da turma, acho que fui o último a dirigir um carro! Tive que freqüentar a auto-escola!
Cursinho; universidade... o abraço da mamãe na minha formatura foi bom, mas tenho a certeza que se o senhor estivesse lá, teria outra importância!
Formei-me na mesma profissão do senhor. Com certeza, foi sua influência! Não que o senhor tivesse me dito para ter essa profissão, mas acho que por mim mesmo, uma forma de te prestigiar.
Ainda olho aquela fotografia: o senhor sentado e eu no colo fazendo pose! E fico imaginando se o senhor estivesse vivo, como estaria o seu cabelo? Esse seu bigode, ainda estaria preto? Teria um monte de ruguinhas? O senhor ainda me abraçaria como sempre o fizera? Ainda teria carinho por mim?
Quero que o senhor saiba, que o jogo de bilboquê ainda machuca o meu dedão! E o iô-iô ainda continua a me acertar na testa! Não tem jeito! O iô-iô deve ser malvado!
Sempre caminho na orla do lago, imaginando que o senhor está ao meu lado, sem dizer nenhuma palavra, apenas como companhia. Tenho saudades das longas caminhadas que fazíamos e você sempre apontava uma curiosidade para mim. Lembra como eu corri feito um alucinado, quando uma borboleta pousou em mim? E aquela água que tomamos na mina? Que delícia de água! Pura! Eu ria à toa! Era um mundo de descobertas!
Hoje pai, o que eu mais queria, não era esse negócio de dar um presente. Mas ter de presente, um pai! O senhor! Como seria bom te rever! Te abraçar. Tenho tantas coisas para lhe dizer. Tantas coisas aconteceram que, acho que levaria dias... não! Levariam meses para colocarmos o papo em dia!
Que saudade meu pai. Que saudade eu tenho de você!...
Aonde quer que o senhor esteja, saiba que eu o amo de paixão! Que nunca lhe esquecerei! Pois o senhor é o meu herói, o meu pai...
Saudades de um filho... só!...

Ed Bass


Fonte: http://www.recantodasletras.net/autor.php?id=37389



- Postado por: Rodrigo às 22h44
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Machado de Assis - O Espelho

O Espelho

(...) "Em primeiro lugar, não há uma só alma, há duas... Nada menos de duas almas. Cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro... Espantem-se à vontade; podem ficar de boca aberta, dar de ombros, tudo; não admito réplica. Se me replicarem, acabo o charuto e vou dormir. A alma exterior pode ser um espírito, um fluido, um homem, muitos homens, um objeto, uma operação. Há casos, por exemplo, em que um simples botão de camisa é a alma exterior de uma pessoa; — e assim também a polca, o voltarete, um livro, uma máquina, um par de botas, uma cavatina, um tambor, etc. Está claro que o ofício dessa segunda alma é transmitir a vida, como a primeira; as duas completam o homem, que é, metafisicamente falando, uma laranja. Quem perde uma das metades, perde naturalmente metade da existência; e casos há, não raros, em que a perda da alma exterior implica a da existência inteira..."

Machado de Assis

In: Contos Escolhidos
Seleção e Apresentação – Roberto Alves
Ed. Klick, 1999
p. 22



- Postado por: Rodrigo às 20h42
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Fernando Pessoa - Sossega, coração! Não desesperes!

Mon coeur est plein
 - je veux pleurer! *

LAMARTINE

________________________

Sossega, coração! Não desesperes!

Sossega, coração! Não desesperes!
Talvez um dia, para além dos dias,
Encontres o que queres porque o queres.
Então, livre de falsas nostalgias,
Atingirás a perfeição de seres.

Mas pobre sonho o que só quer não tê-lo!
Pobre esperença a de existir somente!
Como quem passa a mão pelo cabelo
E em si mesmo se sente diferente,
Como faz mal ao sonho o concebê-lo!

Sossega, coração, contudo! Dorme!
O sossego não quer razão nem causa.
Quer só a noite plácida e enorme,
A grande, universal, solente pausa
Antes que tudo em tudo se transforme.

Fernando Pessoa

2-8-1933

In: Poesias Inéditas



- Postado por: Rodrigo às 20h41
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Carlos Drummond de Andrade - Bolero de Ravel


Bolero de Ravel

A alma cativa e obcecada
enrola-se infinitamente numa espiral de desejo
e melancolia.
Infinita, infinitamente...
As mãos não tocam jamais o aéreo objeto,
esquiva ondulação evanescente,
Os olhos, magnetizados, escutam
e no circulo ardente nossa vida para sempre está presa,
está presa...
Os tambores abafam a morte do Imperador

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade - Poesia Completa
Sentimento do Mundo
Editora Nova Aguilar
p. 76



- Postado por: Rodrigo às 20h39
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Cecília Meireles - Reinvenção

Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas...
Ah! tudo bolhas
que vem de fundas piscinas
de ilusionismo... — mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Vem a lua, vem, retira
as algemas dos meus braços.
Projeto-me por espaços
cheios da tua Figura.
Tudo mentira! Mentira
da lua, na noite escura.

Não te encontro, não te alcanço...
Só — no tempo equilibrada,
desprendo-me do balanço
que além do tempo me leva.
Só — na treva,
fico: recebida e dada.

Porque a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.

Cecília Meireles



- Postado por: Rodrigo às 11h27
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Ruy Belo - Grandeza do Homem

Grandeza do Homem

Somos a grande ilha do silêncio de deus
Chovam as estações soprem os ventos
jamais hão-de passar das margens
Caia mesmo uma bota cardada
no grande reduto de deus e não conseguirá
desvanecer a primitiva pegada
É esta a grande humildade a pequena
e pobre grandeza do homem

Ruy Belo

In: "Aquele Grande Rio Eufrates"



- Postado por: Rodrigo às 11h23
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Políbio Gomes dos Santos: 7 de Agosto de 1911 — 3 de Agosto de 1939

Génesis

O mundo existe desde que eu fui nado.
Tudo o mais é um... era uma vez
- A história que se contou.

No princípio criou-se o leite que mamei
E eu vi que era bom e chorei
Quando a fonte materna secou.

A terra era sem forma
E vazia;
Havia trevas no abismo.

E formou-se o chão
E amassou-se o pão
Que eu comi.
(Era este auela esponja que eu mordia,
Que eu babava,
Que eu sujava,
Que uma gente andrajosa pedia).

E então se fez
a geração remota dos papões:
Nascera a esmola, o medo, a prece
E o rosto que empalidece...
E a rosa criou-se,
Desejada,
E logo o espinho,
A lágrima,
O sangue.
Este era vermelho e doce,
A lágrima doce, brilhante, salgada;
No espinho havia o gosto
Da vingança perfumada.

E eu vi que tudo era bom.

E fizeram-se os luminares

Porque eu tinha olhos,
E o som gez-se de cantares
E de gemidos, Porque eu tinha ouvidos.
Nasceram as águas
E os peixes das águas
E alguns seres viventes da terra
E as aves dos céus.
O homem que então era vagamente feito,
Dominou o homem, comprimiu-lhe o peito,
E fizeram-se as mágoas
E o adeus.
 
E eu vi que tudo era bom.

A mulher só mais tarde se fez:
Foi duma vez
Em que eu e ela nos somámos
e ficámos três.
 
Nisto e no mais se gastaram
Sete longuíssimos dias.
 
O mundo era feito
E embora por tudo e por nada imperfeito,
Eu vi que era bom.
 
Acaba o mundo
Quando eu morrer.
Sim... será o fim!:
Também tu deixas de existir,
No mesmo dia.
 
E o resto que se seguir
É profecia.

Políbio Gomes dos Santos  

In: Poemas
Campo das Letras, 1998



- Postado por: Rodrigo às 11h14
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Jorge C. de Sena: 22 de Novembro de 1919 — 4 de Junho de 1978

Tu és a terra em que pouso:
Macia, suave, tenra, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça.

és também pedra qual a terra à vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre. Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

Jorge de Sena



- Postado por: Rodrigo às 11h07
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Mais um texto FALSO de Mario Quintana que vive circulando em blogs e orkut entitulado muitas vezes como "Deficiências"

 "Já andei por tantos caminhos e já vivi tantas coisas, que hoje vejo que o preconceito e discriminação estão em cada um de nós, e cabe a nós quebrá-los para que possamos viver numa sociedade mais justa e humana.

 Hoje posso afirmar que...

"Deficiente" é aquele que não consegue modificar sua vida, aceitando as imposições de outras pessoas ou da sociedade em que vive, sem ter consciência de que é dono do seu destino.

"Louco" é quem não procura ser feliz".

"Cego" é aquele que não vê seu próximo morrer de frio, de fome, de miséria.

"Surdo" é aquele que não tem tempo de ouvir um desabafo de um amigo, ou o apelo de um irmão.

"Mudo" é aquele que não consegue falar o que sente e se esconde por trás da máscara da hipocrisia.

"Paralítico" é quem não consegue andar na direção daqueles que precisam de sua ajuda.

"Diabético" é quem não consegue ser doce.

"Anão" é quem não sabe deixar o amor crescer.

E "Miserável" somos todos que não conseguimos falar com Deus."

Renata Vilella  

Fonte: http://www.floramarela.com.br/ (Clique em Prof. Renata)



- Postado por: Rodrigo às 11h45
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Kakuzo Okakura - O Livro do Chá (1906)


"Aqueles entre nós que não conhecem o segredo de ajustar adequadamente a própria existência neste tumultuado mar de tolos problemas que chamamos de vida estão em constante estado de miséria, enquanto tentam em vão parecer felizes e contentes"

* * *

"(...) Cada preparado das folhas tem sua individualidade, sua afinidade específica com a água e o calor, memórias hereditárias a relembrar, e seu próprio método de contar uma história. O verdadeiramente belo deve estar sempre nele. Quanto não sofremos pela constante falha da sociedade em reconhecer esta simples e fundamental lei de arte e vida. Lichihlai, um poeta da dinastia Sung, observou com tristeza que havia três coisas extremamente deploráveis no mundo: estragar jovens promissores em decorrência de uma educação incorreta, degradar pinturas de qualidade pela admiração vulgar e desperdiçar totalmente um bom chá por manipulação incompetente."

Kakuzo Okakura

In: O Livro do Chá (1906), p. 41
Traduzido por Leiko Gotoda
Editora Estação Liberdade, 2008.



- Postado por: Rodrigo às 11h40
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Deanna Troi - Nada Mudou

Nada Mudou

O collant virou body
O rouge virou blush
O pó-de-arroz virou pó-compacto
O brilho virou gloss
O rímel virou máscara
A lycra virou stretch
Anabela virou plataforma
O corpete virou porta-seios
Que virou sutiã
A peruca virou aplique, interlace, megahair
A escova virou progressiva
E na pele ficou agressiva..
"Problemas de moça" viraram TPM
Confete virou MM
A crise de nervos virou stress
A chita virou viscose.
A purpurina virou gliter
A brilhantina virou mousse
Os halteres viraram bomba
A ergométrica virou spinning
A tanga virou fio dental
E o fio dental virou anti-séptico bucal
Ninguém mais vê...
Ping-Pong virou Babaloo
O la carte virou self-service
O espaguete virou lasanha
O silicone virou sanha
A paquera virou pegação
A gafieira virou dança de salão
O que era praça virou shopping
O mar virou lama
A areia virou ringue
A caneta virou teclado
O long play virou CD
A fita de vídeo é DVD
O CD já é MP3
É um filho onde éramos seis
A foto é digital
O namoro agora é virtual
A cantada virou torpedo
E do "não" não se tem medo
O break virou street
O samba, pagode anatômico
O carnaval de rua virou Sapucaí
O folclore brasileiro, halloween
O piano agora é teclado
O forró ficou eletrônico
Fortificante não é mais Biotônico
Bicicleta virou bike
Polícia e ladrão virou counter strike
Folhetins são novelas de tv
Fauna e flora a desaparecer
Lobato virou JK Rowling
Caetano virou um chato
Chico sumiu da fm tv
Baby se converteu
RPM desapareceu
Elis ressuscitou?
Gal virou fênix
Raul e Renato,
Cássia e Cazuza,
Lennon e Elvis,
Todos anjos
Agora só tocam lira...
A bala encontrada agora é perdida
A violência esta coisa maldita!
O professor é agora o facilitador
As lições já não importam mais
A guerra superou a paz
E a sociedade ficou incapaz...

Deanna Troi



- Postado por: Rodrigo às 11h36
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