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BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos










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Gilka Machado - Saudade

De quem é esta saudade que meus silêncios invade, que de tão longe me vem? De quem é esta saudade, de quem? Aquelas mãos só carícias, Aqueles olhos de apelo, aqueles lábios-desejo… E estes dedos engelhados, e este olhar de vã procura, e esta boca sem um beijo… De quem é esta saudade que sinto quando me vejo?

Gilka Machado

In: Velha poesia, 1965



- Postado por: Rodrigo às 10h41
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António Sousa Freitas: 1 de Janeiro de 1921 - 30 de Junho de 2004

Embala-me, embala-me,
E canta-me cantigas,
Cantigas antigas de embalar meninos.
- Que a tua voz seja um cântico
Onde a minha alma descanse
E alcance os seus destinos.

Que tenha sonhos brancos e suaves,
Aves roçando leve o meu sonhar
Embalando breve, junto a ti, sonhando.
- Ó noite velha, sem estrelas e sem lua,
Nua e tua sinto bem minha alma
Na calma de um lugar agónico e brando.

E canta, canta, meu amor, encanta
Com essa tua voz sonhada e benta,
E lenta, lenta, meu amor, tão lenta.
- Deixa correr a vida! Que importa a vida,
Se no ponto da partida
No teu canto o meu anseio se atormenta!?

António Sousa Freitas



- Postado por: Rodrigo às 10h34
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Francisco Cândido Xavier: 2 de abril de 1910 — 30 de junho de 2002

Dez Maneiras de Amar a Nós Mesmos

1 - Disciplinar os próprios impulsos.

2 - Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos.

3 - Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros.

4 - Aceitar sem revolta a crítica e a reprovação.

5 - Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas.

6 - Evitar as conversações inúteis.

7 - Receber o sofrimento o processo de nossa educação.

8 - Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem.

9 - Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão.

10 - Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos sem desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.

André Luiz (psicogr. Chico Xavier)



- Postado por: Rodrigo às 10h25
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Carmen Carneiro - Ao "Pequeno Príncipe"

Ao "Pequeno Príncipe"

O essencial é invisível
Saint-Exupéry

Sim, Pequeno Príncipe, o essencial é invisível.
Em teu reduzido universo, astro diminuto,
tens espaço bastante para cultivar uma roseira,
dispensar-lhe cuidados, protegê-la, ampará-la
dos ventos, do sol, da chuva, das lagartas.
E há tempo para revolver vulcões em miniatura,
extirpar baobás que, crescendo, nocivos, têm em si
forças para destruir teu mundo.

O conselho é tão singelo e simples:
Numa estrela bem clara, uma rosa estimada,
de quatro espinhos, ínfimos. Adorá-la, dar-lhe
                                                                a vida toda,
enquanto, no horizonte,
a beleza perfeita de um pôr-de-sol que se
                                                                      sucede a outro,
numa escala contínua. Nada mais. A vida
                                                                     está completa.
Mas nós, adultos lógicos,
não sabemos caber num reino assim restrito,
                                                                      assim pequeno,
nem viver cultivando uma rosa modesta...

Carmen Carneiro

In: Poemas Escolhidos
Introdução e Seleção de Adão de Araújo
Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996
p. 45



- Postado por: Rodrigo às 11h29
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Antoine de Saint-Exupéry: 29 de Junho de 1900 - 31 de Julho de 1944

"(...) - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.

 - O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

 - Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.

 - Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.

 - Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...

 - Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar...."

Antoine de Saint-Exupéry

In: Pequeno Príncipe



- Postado por: Rodrigo às 11h02
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Giacomo Leopardi: 29 de Junho de 1798 – 14 de Junho de 1837

Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe, que por toda a parte
do último horizonte o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá dela e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu no pensamento me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E como o vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu aquele
infinito silêncio a essa voz
vou comparando: e me sobrevém o eterno
e as mortas estações e a presente
e viva, e o som dela. Assim entre esta
imensidão se afoga o pensamento meu;
e o naufragar é-me doce nesse mar.

Giacomo Leopardi



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Carlos Drummond de Andrade - Eu, Etiqueta

Eu, Etiqueta

Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade

In: O Corpo
Rio de Janeiro: Record, 1984
p. 85-7

 Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=nUtOvvY0zfo



- Postado por: Rodrigo às 10h05
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Manuel Bandeira - Canção do vento e da minha vida

Canção do vento e da minha vida
 
O vento varria as folhas,
o vento varria os frutos,
o vento varria as flores...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de frutos, de flores, de folhas.

O vento varria as luzes,
o vento varria as músicas,
o vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de aromas, de estrelas, de cânticos.

O vento varria os sonhos
e varria as amizades...
o vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de afetos e de mulheres.

O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos...
o vento varria tudo!
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.

Manuel Bandeira

In: Estrela da Manhã
Antologia Poética,
Org. Emmanuel de Moraes
RJ: José Olympio Editora, 1986



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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Maria Araújo - Pertença

Pertença

Este lugar onde pertenço
Parece um deserto infiltrado
De algas mortas e do teu odor
Janela aberta para o mar
Imagem sépia do passado

Pétalas e um rosário
Caem de mim cada flor
Que aconchego no regaço
[da tua mão]

Tem mistérios insondáveis
Um orvalho de emoção
Eu repouso a sitiada
Labirinto encastoado
De tudo o que por ti sinto

Rua e sebe deslocada
Seara cortada
Adormeço no teu espaço
[rente ao chão]

Este lugar onde pertenço
Fica a trás do pôr do sol
Bruma envolve meu sonhar
Suave cortina prateada

Geminada com saudade
Da tua pele molhada
Da minha alma a chorar
[por dizer não]

Há vitrais de arco-íris
Seres fantasma coloridos
Nos meus olhos reflectidos
Desenham argolas de sal

Lacrimejam meu sabor
Musa em conto de fadas
Borda de água de te amar
[sem perdão]

Maria Araújo



- Postado por: Rodrigo às 09h34
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Louise Labé (1524-1566 ?) - Vivo, morro...

Vivo, Morro...

Vivo, morro: me afogo e já flamejo.
Passo calor extremo na friúra:
É-me a vida em excesso mole e dura.
Nos tormentos, alegre então me vejo:

Subitamente, rio e lacrimejo,
Nos meus prazeres, passo por torturas:
Meu bem se vai e para sempre dura;
Ao mesmo tempo, seco e reverdejo.

Assim o Amor me leva, instavelmente:
E se acho insuportáveis as agruras,
Percebe-me sem penas, de repente.

Depois, se acho a alegria permanente,
E satisfeito o anseio de ventura,
Torna-me à dor primeira e às amarguras.

Louise Labé

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução e concepção de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy, 2002
p. 23



- Postado por: Rodrigo às 20h52
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Cássio Junqueira - Perto de Deus

Perto de Deus

me tira desse lugar.
nesse lugar eu não quero estar.
aqui as pessoas fazem muito barulho,
muita confusão.
quero tratar apenas das coisas do coração,
quero ser louco, pelo menos um pouco,
quero amar sem me defender,
quero me perder, morrer, viver, de amor.
quero ficar perto de Deus.

quero ficar perto de Deus.
quero me perder, morrer, viver, de amor.
quero amar sem me defender;
quero ser louco, pelo menos um pouco.
quero tratar apenas das coisas do coração.
muita confusão,
aqui as pessoas fazem muito barulho.
nesse lugar eu não quero estar.
me tira desse lugar,
poesia.

Cássio Junqueira

Fonte: http://www.cassiojunqueira.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h11
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Tarcísio Ribeiro Costa - Entremeios...

Entremeios...

Entre a realidade e os sonhos,
Entre as flores e os espinhos,
Entre a tristeza e a ufania,
Entre o desprezo e o carinho,
Entre a realidade e a fantasia
Entre o oblívio e a saudade
Entre tantos outros contrastes...
Há a possibilidade de uma moderação,
Na equação dos entremeios dos fatos,
Onde se encontra o equilíbrio das realidades...
Chega-se a essas realidades pela ponte
Que as liga às verdades.
Estas só se tornam realizáveis
Quando se apóiam no amor.

Tarcísio Ribeiro Costa



- Postado por: Rodrigo às 09h07
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Clarice Lispector - A Descoberta do Mundo

"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata."

Clarice Lispector

In: A Descoberta do Mundo
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984



- Postado por: Rodrigo às 09h03
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João Guimarães Rosa: 27 de junho de 1908 — 19 de novembro de 1967

Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.

João Guimarães Rosa

In: Grande Sertão: Veredas



- Postado por: Rodrigo às 08h59
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Elisa Lispector - Corpo-a-corpo

"O desespero humano é um espinho cravado no coração. Inútil a gente debater-se, que dói mais ainda. Então sento-me no chão, os braços em torno das pernas, a cabeça pousada sobre os joelhos, e volto a ser a menina que teme o escuro da noite e chora calada sua solidão..."

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 31



- Postado por: Rodrigo às 21h32
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Carmen Carneiro - Um dia nos veremos...

Um dia nos veremos...

Um dia nos veremos novamente,
um dia que será de libertação
e nos reconheceremos
              imediatamente.

Tudo o que for supérfluo terá desaparecido.
Todas as fraquezas, as agonias,
as dúvidas, as limitações.
Ficará só o que é essencial, eterno,
ficará o selo da imortalidade,
rubro, impresso em sangue,
para a grande verificação.

E nos reconheceremos imediatamente.
O espaço, a distância, o tempo
nada puderam contra nós.
E a resposta ao porquê
de tudo que passou e foi incompreensível
estará refletida em nosso olhar.

Um dia nos veremos novamente.
Essa a esperança
que faz ouvir o ressoar dos sinos,
que faz da vida um poema de beleza,
que faz do sofrimento uma canção.

Carmen Carneiro

In: Poemas Escolhidos
Introdução e seleção de Adão de Araújo
Curitiba: Coleção Farol do Saber, 1996
p.29



- Postado por: Rodrigo às 10h25
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Gilberto Gil (Salvador , 26 de junho de 1942)

Eu tenho um sonho - Gilberto Gil

(...) Frequentemente acordo às sextas-feiras e penso: hoje é sexta, eu deveria usar branco, como é de uso no Candomblé. Hoje preciso honrar meus ancestrais. Não raro, porém, também digo: não. Prefiro então usar preto, quando se espera branco de mim. E que seja apenas para mostrar que a regra é a exceção. É bom, de tempos em tempos, negar a sua própria crença, seus desejos, seus deuses. As religiões têm para mim um valor cultural. Aí reside seu bem.

(...) Uniformismo é o princípio dominante de nosso tempo. Na uniformidade globalizada é especialmente importante termos em mente quem realmente somos.

Um de meus maiores sonhos é que floresça, no Brasil, de toda a diversidade de correntes, religiões, grupos populacionais e culturas, que vivem em nossa terra, uma identidade comum. Eu desejo uma identidade que reconheça a diversidade como valor. Esta, no fundo, é uma tarefa diante da qual toda a humanidade se encontra. Visto por esse ângulo, o Brasil é um país muito atual..."

28/07/2005

Gilberto Gil

Fonte: http://www.gilbertogil.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h01
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Michael Jackson: 29 de agosto de 1958 – 25 de Junho de 2009

Heaven Can Wait

Diga aos anjos "não", eu não quero deixar minha querida sozinha
Eu não quero ninguém mais te abraçando
Esta é a chance que eu pegarei
Querida, eu ficarei, o Céu pode esperar
Não, se os anjos me levaram desta Terra
Eu queria dizer a eles pra me levar de volta pra ela
Esta é a chance que eu pegarei, talvez eu ficarei
O Céu pode esperar

Você é bonita
Cada momento que passo com você é simplesmente maravilhoso
Este amor que tenho por você é incrível
E eu não sei o que farei, se eu não puder ficar com você
O mundo não giraria então eu rezo toda noite
Se o Senhor viesse pra mim antes que eu acordasse
Eu não poderia partir se eu não puder ver seu rosto, não puder te abraçar apertado
Quão bom o Céu pode ser
Se os anjos vierem para mim eu direi a eles não

Inconcebível
Eu sentado nas nuvens e você sozinha
As horas regressam quando você está indo embora
Eu reviro tudo e tento voltar para minha querida
Não posso ficar para ver ninguém beijando, tocando ela
Não posso pegar ninguém amando você do jeito que nós fazíamos
Quão bom o Céu pode ser
Se os anjos vierem para mim eu direi a eles não

(...) Apenas deixe-nos em paz, deixe-nos em paz
Por favor nos deixe em paz

Composição: Michael Jackson

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Y_myPklSHZg



- Postado por: Rodrigo às 09h47
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TER OU NÃO TER NAMORADO por ARTUR DA TÁVOLA

TER OU NÃO TER NAMORADO

Não sei mais o que fazer! Aviso às editoras que fazem antologias, que de agora em diante irei à Justiça e as processarei por uso indevido de uma crônica de minha autoria, “Ter ou não ter namorado”, publicada em 1984 no Livro “Amor A Sim Mesmo”, da Editora Nova Fronteira, como se fosse do grande poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. Algumas editoras, para aproveitarem-se da justa fama de Drummond não se preocupam de examinar com cuidado e tascam nas antologias essa minha crônica, como dele. É a que se segue, com o título que está aí em cima:

Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.

Namorado é a mais difícil das conquistas.

Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.

Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.

Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.

Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.

Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.

Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.

Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.

Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.

Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.

Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.

Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.

Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.

Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.

Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.

Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.

Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.

Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.

Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.

ARTUR DA TÁVOLA



- Postado por: Rodrigo às 18h00
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George Orwell: 25 de junho de 1903 - 21 de janeiro de 1950

“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano –nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?"

George Orwell

In: A Revolução dos Bichos



- Postado por: Rodrigo às 17h53
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Flora Figueiredo - Pequenas coisas...

Pequenas coisas...

Se eu pudesse congelar o tempo,
escolheria este momento,
exatamente agora,
nesta pouca hora
de uma quarta-feira.
O gerânio novo
enfeitando a prateleira,
o riso da criança
brilhando lá fora.
O livro aberto
no lugar certo,
que simplesmente diz
"Eu não tenho nada,
mas rouxinóis gorgolejam
versos na calçada"

Flora Figueiredo



- Postado por: Rodrigo às 20h25
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Cesar Veneziani - Distância

Distância

Sonho com tua presença
na crença de te tocar novamente.
A mente teme que a lembrança
se desfaça, se dilua
e inclua momentos não sentidos,
apenas gestados
no embalo do sonho
que a magia fundiu à realidade.
Te quero novamente,
verdade esta inquestionável.
A distância torna inviável a urgência
e a necessidade beira a demência...
Separar o que foi real
e o que foi fruto da imaginação
deixa de luto a pura razão
e me faz voar daqui.
Sumo de minha existência física
e assumo meu eu flanante
e agora me ponho diante de ti:
te amo!

(16/06/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 09h50
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Seamus Heaney - Do Cantão da Expectativa (III)

Do Cantão da Expectativa

III

O que parece o mais forte sobreviveu a seu termo.
O futuro pertence ao que no subterrâneo se afirma.
Essas coisas que nos corroboraram quando ficamos
sob a proteção de nosso furtivo patrono,
o anjo da guarda da passividade,
fincam agora um colmilho de ameaça em meu ombro.
Repito a palavra "atacado" a mim mesmo
e me exponho, cabeça descoberta, sob as nuvens cumuladas
crispadas mais e mais com brônzeos relâmpagos.
Anseio golpes de malho em pranchas trincadas,
o intransigente relato de toletes presos,
para saber que entre nós há um que nunca se desviou
de tudo o que o instinto lhe disse ser a ação correta,
que se manteve firme no indicativo,
cujo barco se erguerá quando o aguaceiro acontecer.

Seamus Heaney

In: Poemas 1966-1987
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 316



- Postado por: Rodrigo às 09h35
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Carlos Gardel: 11 de dezembro de 1890 — 24 de junho de 1935

El día que me queiras

Acaricia meu sono
o suave murmúrio
do teu suspirar.
Como ri a vida
se os teus olhos negros
me querem olhar
E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece

No dia que me quiseres
A rosa que enfeita
se vestirá de festa
com sua melhor cor
E ao vento os sinos
dirão que tu já és minha
E loucas as fontes cantarão teu amor

Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo

No dia que me quiseres
não haverá mais que harmonia
será clara a aurora
e alegre a nascente
Trará quieta a brisa
rumor de melodias
e nos darão as fontes
seu canto de cristal
No dia que me quiseres
adoçará suas cordas o pássaro cantor
florecerá a vida
não existirá mais a dor

Composição: Carlos Gardel / Alfredo Le Pera

 Ouça esta música aqui por Luis Miguel (1994):
http://www.youtube.com/watch?v=QvyIG57knJI



- Postado por: Rodrigo às 09h19
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Joaquim Manuel de Macedo: 24 de junho de 1820 — 11 de abril de 1882

"Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorver-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado.

Deixemos o futuro a Deus no céu e aos poetas na terra..."

Joaquim Manuel de Macedo

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h06
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Caetano Veloso - Você é linda

Você é Linda

Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol
A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás

Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer

Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim

Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal

Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz

Composição: Caetano Veloso

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_Cjs



- Postado por: Rodrigo às 18h03
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Manoel de Barros - Biografia do orvalho

Biografia do orvalho

"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas."

Manoel de Barros



- Postado por: Rodrigo às 17h27
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Mel de Carvalho - química(s)

química(s)
 
encontrar-te
na essência matemática dum teorema
na raiz quadrado do cálculo
 
exacto
 
calcular a distância precisa que distancia
o ângulo obtuso de um gesto
à constante física da permitividade do vácuo…
 
permitir
Demócrito a imaginar de nós, partículas indizíveis,
invisíveis
atómicas
 
evoluir sem medo no modelo anatómico
na anatomia de corpos celestiais
e ousar preencher dele, um a um, em perpétuo
estado prazeroso,
no mais altaneiro paraíso, vazios espaços;
desdobrar
formulas indefinidas em equações simplicíssimas
d’orbitas interiores
reconhecidas
energizar afastamentos (sem queixumes, sem lamentos)
na força intrínseca das bases e dos ácidos;
 
captar da vida, desta que nos resta,
desta que no acto de nascer nos foi oferta,
na substrução cúmplice dum gesto,
protões energéticos,
concentrando na solução aquosa de pétalas de rosa,
iões HO-; macerar sentidos e exalar ópios
multicolores;
 
vencer a inércia, não esquecendo Newton,
da primeira à terceira lei, esta que nos revela que cada
acto contém em si uma interacção de acção-reacão-
ininterrupta e reactiva -,
em conjugação com a lei fundamental da dinâmica.
imprimir velocidades similares
aos nossos quereres
nos sentidos coincidentes, nas direcções calculadas (ou não ...)
 
palmilhar, ousando, ruelas escuras,
límpidas estradas, peneirando luas e luares numa paleta de cor.
 
entrelaçar salivas e condutas
num tango contínuo de pernas e palavras. numa fusão de corpos
ausentes d’atrito.
sucumbir na plenitude dum movimento uniforme
e no silêncio orgânico dum grito
anunciado
num lei inaugural da química.
 
... porque todo o poema é, no essencial, um poema de amor!
 
Mel de Carvalho

Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt



- Postado por: Rodrigo às 17h19
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Fernando Pessoa - Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui

Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.

Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.

Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa

In: Poesias Inéditas



- Postado por: Rodrigo às 17h15
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Antonio Manoel Conceição - Esse velho sentimento

Esse velho sentimento

O amor é uma questão de jeito
De trocar verbos
E esquecer pronomes,
De confundir palavras.

O amor precisa de manha
De riscos, de um fogo perene
De pouca sobriedade
De algum peso e nenhuma medida

O amor cai bem aos loucos
Aos desajustados,
Prefere os caminhos estranhos
De onde nem sempre saímos ilesos

Sonhar não basta
Sofrer não é o suficiente
Ser ridículo é só mais um instante
Dessa hora interminável de tempo

O amor não tolera o tédio
É piegas, profundo, desarticulado
Torto, altivo e às vezes até meio idiota

Inesperadamente desponta na noite
Chega como se fosse uma criança com frio
Não dá explicações
Simples e dissimulado escolhe
O canto que melhor lhe parece
E sem desenhar um único traço do destino
Enche o peito de coisas
Que não se consegue entender

Mas quem pode dizer-se humano
Se uma vez pelo menos
Ainda que para sentir-se no inferno
Não tenha procurado o amor?

O que nos salva
É o que nos falta
Coragem

E que tudo possa acontecer assim
Sem equilíbrio,
Sem nenhum palmo de terra
A sustentar os pés

Contando apenas
Com uma quase possível incerteza
Respirando um ar emprestado da insanidade
E acreditando que somos invencíveis

Velho sentimento
Que nos maltrata
Velho sentimento, tão antigo
Quanto os mais inacessíveis caminhos do mundo

Antonio Manoel Conceição



- Postado por: Rodrigo às 10h10
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

38.

se até o dia vinte ele me ligar, é porque vai rolar
se até quinta-feira não chover, passa a ser provável
se até seis da tarde o comercial passar duas vezes
é sinal de que tudo vai acontecer como o planejado
mulher adora dar um prazo para o imponderável

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 46



- Postado por: Rodrigo às 10h06
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Osho

"Se você deseja um relacionamento amoroso, então deve se esquecer de toda a política do poder. Você pode ser simplesmente um amigo, sem tentar dominar o outro nem ser dominado por ele. Isso só é possível se você tiver um certo estado meditativo em sua vida.

Do contrário, não é possível. Amar um ser humano é uma das coisas mais difíceis do mundo, porque, no momento em que você começa a mostrar seu amor, o outro começa a entrar num jogo de poder. Ele sabe que você está depedente dele, ou dela. Você pode ser escravizado - psicologicamente, espiritualmente -, e ninguém quer ser escravo. Mas todos os seus relacionamentos humanos se tornam escravidão.

O amor precisa de uma clareza de visão. O amor precisa de uma limpeza de todas as coisas feias que estão em sua mente - inveja, raiva, o desejo de dominar... Homens e mulheres precisam viver juntos na terra, mas não aprenderam a ficar juntos sem perder a individualidade, a ficar tão juntos a ponto de ser quase unos, sem perder a identidade nos afazeres mundanos..."

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 47-9



- Postado por: Rodrigo às 09h58
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Regina Lyra - Desvario

DESVARIO

Se me calo,
leio
teu pensamento.

Se te ouço,
sinto teus lábios trêmulos
tocarem meu pescoço.

Se te vejo,
percebo tuas mãos tateantes
procurarem vestígio
no litígio
do teu corpo.

Como um louco,
insano no desvario
procuro tua passagem
numa busca cruel,
imorredoura.

Como um avião
escuto o murmurinho das nuvens,
o grito do trovão me ilude,
no desespero do amanhã
sem claridade.

Na imagem do breu
fiquei sozinho,
na cama com Orfeu
não deu em nada.

Regina Lyra

In: Insensatas Palavras
João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB),
2003.



- Postado por: Rodrigo às 10h59
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Mario Quintana - XVI

XVI

Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...

A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas da lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!

Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...

Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...

Mario Quintana



- Postado por: Rodrigo às 10h50
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Machado de Assis: 21 de junho de 1839 — 29 de setembro de 1908

Os Dois Horizontes

Dous horizonte fecham nossa vida:

Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.

Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.

Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.

No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.

Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.
Dous horizontes fecham nossa vida.

Machado de Assis

In: Crisálidas



- Postado por: Rodrigo às 10h39
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Olavo Bilac - Sinfonia

Sinfonia

Meu coração, na incerta adolescência, outrora,
Delirava e sorria aos raios matutinos,
Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,
Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.
Meu coração, depois, pela estrada sonora
Colhia a cada passo os amores e os hinos,
E ia de beijo a beijo, em lasciva demora,
Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.
Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde
Em flautas e oboés, na inquietação da tarde,
E entre esperanças foge e entre saudades erra...
E, heróico, estalará num final, nos clamores
Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores,
Para glorificar tudo que amou na terra!

Olavo Bilac



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Khalil Gibran - Valores

VALORES

Uma vez, um homem desenterrou em seu campo uma estátua de mármore de grande beleza. E levou-a a um colecionador que amava todas as coisas belas, e o colecionador comprou-a por um alto preço. E separaram-se.

E enquanto o homem voltava para casa com seu dinheiro, pensou e disse consigo mesmo: “Quanta vida este dinheiro representa! Como pode alguém dá-lo por uma simples pedra esculpida, morta e ignorada no seio da terra por um milhar de anos?”

Entretanto, o colecionador estava olhando para a sua estátua e pensando, e disse consigo mesmo: “Que beleza! Que vida! Que sonho de grande alma! – e fresca com o suave dormir de um milhar de anos. Como pode alguém dar tudo isso por dinheiro, morto e sem sonhos?”

Khalil Gibran



- Postado por: Rodrigo às 09h38
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Mário Faustino - O som desta paixão esgota a seiva

O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA

O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.

Mário Faustino



- Postado por: Rodrigo às 09h33
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Max Martins: Belém, 20 de junho de 1926 - 9 de fevereiro de 2009

A lágrima

Do morno coração nasceu agora
temperada em brasa, angústia, sal
e sono, lâmina fina sobre o peito
e revolveu a terra e a infância espedaçada.
Cristina flor desamparada
és o silêncio todo, invulnerável
ou o eco
do trombone longe sufocando a tarde.

Max Martins

In: Anti-Retrato - 1960
Gráfica Falângola Editora, Belém



- Postado por: Rodrigo às 09h26
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Valéria Tarelho - Romantique

Romantique

L'individu bien conforme est taillé d'un bois à la fois dur, tendre et parfumé
Nietzsche

seu cheiro
- choque -
: rasgo de ar puro
no meu sufoco
viciado

seu cheiro
- chique -
: eau de homem
[poésie poison passion]
bouquet urbano
no meu ranço flor do campo

seu cheiro
- xis -
: agente noir
infiltrado
na curva [alva]
do meu anseio

seu cheiro
lance certeiro
: estratégia
movimento
ataque

seu cheiro
: argumento
ou fato

xeque-mate-me

Valéria Tarelho

Fonte: http://valeriatarelho.blogspot.com/



- Postado por: Rodrigo às 18h28
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Pascal Bruckner - A Tentação da Inocência (trecho)

     O reconhecimento da fragilidade de cada um não deve matar o espírito de resistência; e atualmente precisamos de pensamentos que exaltem a energia, a satisfação, o júbilo. Necessitamos de alacridade, de alegria, de serenidade. À retórica vitimista, que se esgota em seu próprio enunciado, devemos opor a palavra política, que oriente as lamentações para uma saída sensata, que lhes ofereça um exultório viável, que permita expressar o mal em termos medidos a fim de superá-los. A ruminação estupefata dos nossos problemas, essa espécie de onanismo mental, impede-nos de distinguir entre o transformável, que só depende de nossa vontade, e o imutável, que não depende de nós. Qualquer azar é vivido como um veredicto inelutável do destino. O indivíduo só é grande se participa de algo que o ultrapassa e não fica emparedado em si.

Pascal Bruckner

In: A Tentação da Inocência
Ed. Rocco, pg. 140



- Postado por: Rodrigo às 11h32
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Cesário Verde - Lúbrica

Lúbrica

Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.

Lançastes, no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!

Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!

Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:

Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.

Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu neles, sempre, espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!

Cesário Verde



- Postado por: Rodrigo às 11h28
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Attila József - Dizem

DIZEM

Quando nasci tinha uma faca na mão.
Dizem: é poesia.
Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para ser homem.

Alguém soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é amor.
Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo eu brinco.

Não recordo nada e também nada esqueço.
Dizem: como é possível?
O que deixo cair mantém-se sobre a terra.
Se o não encontro, tu o encontrarás.

A terra me aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um dia morrerás.
Mas dizem-se tantas coisas a um homem
que nem sequer respondo.

(1936)

ATTILA JÓZSEF



- Postado por: Rodrigo às 11h23
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Chico Buarque: Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944

ATÉ O FIM

Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim

Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim

Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim

Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim

Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=CSN3loxnBZ0



- Postado por: Rodrigo às 09h10
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Três presentes de fim de ano - Carlos Drummond de Andrade

Três presentes de fim de ano

I

Querida, mando-te
uma tartaruguinha de presente
e principalmente de futuro
pois viverá uma riqueza de anos
e quando eu haja tomado a estígia barca
rumo ao país obscuro
ela te me lembrará no chão do quarto
e te dirá em sua muda língua
que o tempo, o tempo é simples ruga
na carapaça, não no fundo amor.

II

Nem corbeilles nem
letras de câmbio
nem rondós nem
carrão 69
nem festivais
na ilha d’amores
não esperes de mim
terrestres primores.
Dou-te a senha para
o dom imperceptível
que não vem do próximo
não se guarda em cofre
não pesa, não passa
nem sequer tem nome.
Inventa-o se puderes
com fervor e graça.

III

Sempre foi difícil
ah como era difícil escolher
um par de sapatos, um perfume.
Agora então, amor, é impossível.
O mau gosto
e o bom se acasalaram, catrapuz!
Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora
ou tem medo de dizer que é medonho?
E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona?
Aquela poesia? Hem? O quê? Não ouço
a sua voz entre alto-falantes, não distingo
nenhuma voz nos sons vociferantes...
Desculpe, amor, se meu presente
é meio louco e bobo
e superado:
uns lábios em silêncio
(a música mental)
e uns olhos em recesso
(a infinita paisagem).

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 17h05
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Ana de Castro Osório: 18 de Junho de 1872 — 23 de Março de 1935

Entardecer

          (...) “Seguindo-a com o olhar, abstracta, quasi inconsciente, pensei: quantas crianças da mesma edade brincariam alegres e palreiras, em casas confortaveis, bem vestidas, quentes?... Quantas, n'essa hora vaga do cair da tarde, não correriam, sobraçando os arcos, rindo da chuva e do frio, por entre moitas verdejantes de lindos jardins, seguidas por loiras mestras altas e sérias? Bibes brancos a esvoaçar como azas de borboletas; finos cabellos encaracolados cahindo em maciezas de luz, a nimbar d'oiro Varezo cabecinhas graciosas... Bellas crianças feitas de mimos e de beijos, rosadas e fortes, promptas para a vida sem maguas nem canceiras.

          E aquella! Uma infancia miseravel, a prepara-la para o longo e obscuro martyrio que termina na valla commum passando pela fabrica e pelo hospital.

          E a pequenita caminhava vagarosamente, com uma precoce gravidade destoante dos seus poucos annos...

         (...) A carroça passou e ella foi apanhando, grão aqui, grão além, aquelles que a lama não tinha completamente perdido. Depois affastou-se lentamente, com um sorriso d'infinita resignação na sua boquinha já soffredora.

          Seis annos apenas—como ella aprendeu cedo a resignação amargurada da vida! Uma immensa piedade, uma dolorosa impressão d'irremediavel soffrimento, me invadiu o espirito, pensando em todas as anonymas desventuras que se acotevelam na vida.

          A noite vinha descendo lentamente. Pezava como chumbo a tristeza arreliante d'esse fim de dia...”

Ana de Castro Osório

In: Infelizes (histórias vividas), 1892



- Postado por: Rodrigo às 16h55
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Sílvio Romero: 21 de abril de 1851 — 18 de junho de 1914

(...)”O futuro, pois, deste povo não está nos poetas decrépitos, que lhe insuflam os males instintos; nos seus romancistas fabulistas, que lhe desnorteiam o critério; nos seus parlamentos e ministros, que o degradam e conspurcam com a mentira; nos seus grandes mágicos, que sabem todas as línguas e todas as ciências...

O futuro deste país deve estar nas convicções sinceras, nos caracteres intransigentes, sacrificados a honra, disseminados por aí além, desdenhados pelos poderosos do dia; e que ousam dizer a verdade ao povo, como ao rei; não a pretendida verdade dos declamadores; mas a verdade da história, a verdade da ciência.”

Fevereiro de 1880

Silvio Romero

Fonte: http://www.academia.org.br



- Postado por: Rodrigo às 16h50
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Tarcísio Ribeiro Costa - Sobre o amor

Sobre o amor

Amor não é arte,
O amor é supremo,
Não é uma mera proficiência...
É excelência.

O amor não são frases de efeitos,
Nem promessas ou juras,
Ele não se dissolve, se verdadeiro,
O amor é divino...

Tarcísio Ribeiro Costa



- Postado por: Rodrigo às 21h06
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Cesar Veneziani - Dia dos Namorados

Dia dos Namorados

longe/perto
tema incerto
árido deserto
dilema que a vida
distraída
nos enfia abaixo à goela

EU QUERO ELA

distância infame
infinita
faz com que eu a ame
e a lembrança acalma
gêmea alma
me faz senti-la aqui
nesta poesia
eu em São Paulo
ela na Bahia

TE AMO, GRITO, NÃO CALO

longe do alcance dos sentidos
sentida física ausência
a cachaça libera a demência
na falta do toque
ouço um rock
me vem a emoção
me salta à boca
o coração
e a louca
certeza insana
emana
assim do nada

MINHA NAMORADA!

12/06/2009

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h55
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Flores para Coimbra - Manuel Alegre

Flores para Coimbra

Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.

Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.

Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.

Manuel Alegre



- Postado por: Rodrigo às 10h22
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Carmen Carneiro - Outono

Outono

A solidão é como a chuva
Rilke

Suave cair de tarde
em que as sombras se adelgaçam.
Olhando para trás, o campo está semeado
a seara madura.

Nostalgia de ilhas longínquas,
de terras imprecisas
no horizonte.
Agora - ainda os raios dourados do sol,
depois - da noite a luz
calma e profunda.

Outono - névoas cor de prata - brumas.
E, enquanto a chuva cai
enriquecendo a terra,
fertilizando o solo,
da solidão, em silêncio, se abrem
os frutos de ouro.

Carmen Carneiro

In: Poemas Escolhidos
Seleção de Adão Araujo
Curitiba: Farol do Saber, 1996
p. 24



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Ariano Vilar Suassuna: 16 de Junho de 1927

O Amor e a Morte

Com tema de Augusto dos Anjos

Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
— ó Corça branca, ó ruiva Leoparda.

O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.

Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos.

E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Dragões antigos.

Ariano Suassuna



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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David Mourão-Ferreira: 24 de Fevereiro de 1927 — 16 de Junho de 1996

Serenata do Adolescente

Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!

Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.

Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda — ante o teu seio —
queimar tão pobre mocidade!               

David Mourão-Ferreira

In: Os Quatro Cantos do Tempo



- Postado por: Rodrigo às 09h34
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Dante Milano: 16 de junho de 1899 — 15 de abril de 1991

MÁSCARA

Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.

Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.

Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.

Dante Milano



- Postado por: Rodrigo às 09h29
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Clarice Lispector - Felicidade Clandestina (Trecho)

Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.

Clarice Lispector

In: Felicidade Clandestina
Ed. Rocco
p. 118



- Postado por: Rodrigo às 16h56
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João de Deus - Estrela

Estrela 

Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança
nessa abóbada celeste,
onde a nossa alma descansa
a sua última esperança...
Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança!

Antes nascesses mais cedo,
estrela da madrugada,
e não já noite cerrada...
Que até no céu mete medo
ver essa estrela isolada...
Antes nascesses mais cedo.
estrela da madrugada! 

João de Deus



- Postado por: Rodrigo às 16h46
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Diz que fui por aí - Zé Kéti e H. Rocha

Diz que fui por aí

Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando o violão embaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela

Composição: Zé Kéti e H. Rocha



- Postado por: Rodrigo às 16h43
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Fernando Pessoa - Eros e Psique

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.

E inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

8-7-1933

Fernando Pessoa



- Postado por: Rodrigo às 16h37
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Jorge Luis Borges Acevedo: 24 de Agosto de 1899 — 14 de Junho de 1986

James Joyce

Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias,
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo
Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

Jorge Luis Borges

In: Poesia
Tradução de Josely Vianna Baptista
Ed. Companhia das Letras



- Postado por: Rodrigo às 22h26
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Eugénio de Andrade: 19 de Janeiro de 1923 — 13 de Junho de 2005

URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 22h19
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Fernando Pessoa: 13 de Junho de 1888 — 30 de Novembro de 1935

Presságio
 
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
 
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
 
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
 
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
 
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...

24/04/1928

Fernando Pessoa

In: "Fernando Pessoa - Obra Poética - Inéditas"
Cia. José Aguilar Editora -
Rio de Janeiro, 1972,
pág. 513.



- Postado por: Rodrigo às 22h13
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Luís Vaz de Camões (c. 1524 — 10 de Junho de 1580)

Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer

É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

Luís de Camões



- Postado por: Rodrigo às 22h06
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

29.

uma mordidinha para sentir o gosto
um cheirinho para sentir o perfume
um beijinho rápido, uma ilusãozinha
a quantos basta uma amostra grátis

não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 36



- Postado por: Rodrigo às 10h28
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Jean Richepin (1849-1926) - Tuas Palavras

Tuas palavras

Tuas palavras têm melodias divinas,
acordes de cristal, pianíssino, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
dizendo-me um segredo o alvo percoço inclinas...

Então não me inebria o olôr da balsaminas
de tua boca, - é, mais o tom límpido e brando,
que dás a uma palavra, a um simples "sim", falando...
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!

Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!...

E em pleno arrebatar duas êxtases radiosos
sinto invisível mão percorrer-me a epiderme...
- Tuas palavras, flor! têm dedos cariciosos

Jean Richepin

Tradução de Alvaro Reis

In: Os mais belos sonetos que o amor inspirou
Organização: J.G. de Araujo Jorge
RJ: Ed. Vecchi, 1966
p. 72



- Postado por: Rodrigo às 10h21
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A chama - Bruna Lombardi

A chama

Tenho alma de anarquista
fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo do dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão

Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução

Nisto consiste meu crime
e é melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.

Bruna Lombardi

In: O Perigo do Dragão
São Paulo: Círculo do Livro, 1984
p. 43



- Postado por: Rodrigo às 10h03
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Théo Drummond - Recado

RECADO

   Quando as folhas nascem elas enfeitam o tronco da árvore, como você enfeita a minha vida.
   Quando a flor aparece ela asperge o perfume que me lembra você.
   Quando a noite chega em meu recolhimento sinto a sua proximidade.
   Quando o dia surge eu me preparo para ver você em todo canto, cheio de saudade que parece se espalhar por lugares tão diversos.
   Você sou eu porque mora junto comigo, dentro do coração.

Théo Drummond



- Postado por: Rodrigo às 10h22
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Marquesa de Alorna - Sonetos

46.

Não vejo, não respiro, escuto ou penso
Sinto só; quem não sente não m'intende
Um receio fatal a voz me prende
Pelas veias me corre um fogo intenso.

Ao meu fogo se opõe um gelo imenso
E quanto mais o lume em mim se acende,
Mais o susto gelar-me em vão pretende,
Mais luto contra amor, e menos venço.

Dize, Inconstante, dize, não te custa
A desamar o que algum dia amaste?
Ou fui, quando te amei, acaso injusta?

Se das Rochas de Sintra, onde juraste
Eterna fé, o aspecto não te assusta,
Tira delas a chama que apagaste.

Marquesa de Alorna

In: Sonetos
Organização: Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: 7Letras, 2007
p. 141



- Postado por: Rodrigo às 10h13
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Joachim Du Bellay - Soneto em louvor de Olívia

Soneto em louvor de Olívia

De amor, graça, e de altíssimo valor,
Ardiam os divinos fogaréus,
E vestiam, com raro manto, os céus
Inflamados clarões de toda cor:

Felicidade cheia de primor,
O mar calmo e o gracioso vento, ao léu,
Quando ela, aqui embaixo, então nasceu,
Roubando deste mundo o seu louvor.

Tem a alva tez das lindas açucenas,
Da rosa a boca, do ouro essa melena,
E do sol os seus olhos resplendentes;

O céu, sendo bastante liberal,
Colocou-lhe no espírito as sementes,
Seu nome, qual um Deus, fez-se imortal

Joachim Du Bellay

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy,2002
p. 22



- Postado por: Rodrigo às 09h56
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Quando viras as costas para o sol, só vês a tua sombra

Khalil Gibran

In: Areia e Espuma
p. 35



- Postado por: Rodrigo às 19h31
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Paulo Leminski: 24 de agosto de 1944 — 7 de junho de 1989

ali

ali
se

se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse

se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce

ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece

Paulo Leminski

In: Caprichos e relaxos.
São Paulo, Brasiliense, 1983



- Postado por: Rodrigo às 10h09
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Adalgisa Nery: 29 de outubro de 1905 — 7 de junho de 1980

Poema da amante

Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.

Adalgisa Nery

In: Mundos oscilantes.
RJ: Ed. José Olympio, 1962.



- Postado por: Rodrigo às 09h55
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Tobias Barreto de Meneses: 7 de junho de 1839 — 26 de junho de 1889

Amar

Amar é fazer o ninho,
Que duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vem,
Flor, querida, noiva, esposa...
Cabemos na mesma lousa...
Julieta, eu seu Romeu:
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! onde estamos?
E ouvir uma voz: no céu!

Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegamos loucos, perdidos
Onde não chega ninguém...
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria,
Ver uma corça bravia,
Pasmada olhando pra ti!

Tobias Barreto



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Osho - Escute seu coração

Lembre-se, "obrigação" é uma palavra imprópria. Amor não conhece obrigação. Faz muitas coisas, mas adora fazê-las - não é obrigação.

Por estranho que pareça, em todas as línguas do mundo as pessoas usam a expressão "cair de amor".

Sem nenhuma exceção, em todas as línguas as pessoas dizem "Eu caí de amor". Mas por que você deveria cair? Por que você não pode se elevar de amor?

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 46-7



- Postado por: Rodrigo às 09h54
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Anna Akhmátova - Antologia Poética

Adeus para sempre! Mas saiba
que o nome desses dois culpados,
não o de um só, estes ficarão
em meus poemas, esses restos de amor.

Baratynski

Sob o ícone, o tapetinho gasto.
Está o quarto fresco na penumbra
e, espessa, a hera verde-escura
faz ondular a larga janela.

Das rosas se desprende o perfume,
crepita a lâmpada com um fraco brilho.
Salpicadas de cores, há caixinhas
que pintou a amorosa mão do artesão.

A cortina branqueia a janela...
Teu perfil é afilado e cruel.
Os dedos cobertos de beijos
escondes, esquivo, em teu lenço.

E o coração, mal começando a pulsar,
já está cheio agora de tristeza.
Em minhas tranças desarrumadas, ficou
um leve cheiro de fumaça de charuto.

1912

Anna Akhmátova

In: Antologia Poética
Seleção e Trad.: Lauro Machado Coelho
Porto Alegre, RS: L&PM, 2009
p. 60



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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William Ralph Inge: 6 de junho de 1860 - 26 de fevereiro de 1954

"O objetivo da educação é o conhecimento não de fatos, mas de valores”

William Ralph Inge



- Postado por: Rodrigo às 09h18
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Lya Luft - Canção na plenitude

Canção na plenitude
 
Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.

Lya Luft

O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.



- Postado por: Rodrigo às 09h05
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3 de maio / Relógio / Ditirambo - Oswald de Andrade

3 DE MAIO

Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi

* * *

RELÓGIO

As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão

* * *

DITIRAMBO

Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade

Oswald de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 18h17
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“Quando cheios de gosto, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.

Como, ó Céus, para os ver terei constância,
Aquele mesmo objeto, que desvia
Do humano peito as mágoas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes

Se das flores a bela contextura
Esmalta o campo na melhor fragrância,
Para dar uma idéia de ventura;

Toda a minha tristeza desafia.
Se cada flor me lembra a formosura
Da bela causadora de minha ânsia?”

Cláudio Manuel da Costa

In: Poemas de Cláudio Manuel da Costa
Péricles Eugênio da Silva Ramos (Org.)
São Paulo: Cultrix, 1976.
p. 72



- Postado por: Rodrigo às 09h31
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Chico Buarque / Edu Lobo - Beatriz

Beatriz

Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha 
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida

Olha 
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia 
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida

Composição: Chico Buarque / Edu Lobo

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ERgxqzwqCgI



- Postado por: Rodrigo às 09h27
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Federico García Lorca: 5 de junho de 1898 — 19 de agosto de 1936

Romance sonâmbulo

(A Gloria Giner e a
Fernando de los Rios)

Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.

Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.

Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.

Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.

Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!

Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca

 Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=lxzsrkX9ATE

A poesia acima foi extraída de sua "Antologia Poética", Editora Leitura S. A. - Rio de Janeiro, 1966, pág. 53, tradução e seleção de Afonso Felix de Sousa



- Postado por: Rodrigo às 09h17
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André Comte-Sponville - A Vida Humana

Não existe gente grande. Existem apenas crianças que fazem de conta que cresceram, ou que de fato cresceram sem no entanto acreditar plenamente nisso, sem conseguir apagar a criança que foram, que continuam sendo, apesar de tantas mudanças, que carregam consigo como um segredo, como um mistério, ou que as carrega… Ser adulto é ser um coadjuvante.

André Comte-Sponville

In: A Vida Humana
Ed. Martins Fontes
p. 93



- Postado por: Rodrigo às 17h56
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Ferreira Gullar

As rosas que eu colho
não são essas, frementes
na iluminação da manhã;
são, se as colho, as dum jardim contrário,
nascido desses, vossos, de sua terrosa
raiz, mas crescido inverso
como a imagem n’agua;
aonde não chegam os pássaros
com o seu roubo, no exasperado coração da terra,
floresce, tigre, isento de odor.

Ferreira Gullar

In: A Luta Corporal
José Olympio Editora - 6ª edição
p. 81



- Postado por: Rodrigo às 17h52
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Vasco Gato - Primavera primeira

Primavera primeira

estremeço desde o princípio do meu rosto
desde o momento em que sorri e me sorriram
e é nesse lugar ínfimo que suspendo todas as palavras
que fecho os olhos e sinto a frescura de todas as águas
o oceano que cessa e atende o esvoaçar da primavera

é a primeira primavera de todos os outonos
é aqui que em silêncio se bordam os calendários
dias entre dias e sobre dias e as memórias que escapam
e não mais se alcançam se não nos tornamos menores
— no futuro não há esquecimento nem segredos
cada coração guarda apenas o que for mais comum

Vasco Gato

In: Um Mover de Mão
Assírio & Alvim, Lisboa, 2000



- Postado por: Rodrigo às 17h47
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Carlos Drummond de Andrade - A um ausente

A um ausente

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora.
Detonaste o pacto.
Detonaste a vida geral, a comum aquiescência
de viver e explorar os rumos de obscuridade
sem prazo sem consulta sem provocação
até o limite das folhas caídas na hora de cair.

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu,
enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem sabemos ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudade de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.
 

Carlos Drummond de Andrade

In: Farewell
Rio de Janeiro: Ed. Record, 1996.
p. 41-2



- Postado por: Rodrigo às 10h19
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Pablo Neruda - O desejo de ir-se

O desejo de ir-se
 
O sol atravessou minha janela
e tudo se ilumina alegremente.
Ladra um cachorro, um pássaro revela
gorjeios harmoniosos em torrentes.

De costas em meu leito sinto um vago
desejo de perder-me além dos dias
e na penumbra me afogar nos lagos
de me cegar na luz de uma alegria.

De cantando seguir no rumo agreste
sentindo o doce declinar das tardes
e o coração repleto da celeste
chama de amor que nos caminhos arde...

Pablo Neruda

In: Cadernos de Temuco (1919-1920)
Tradução de Thiago de Mello
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998
p. 62



- Postado por: Rodrigo às 09h59
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Federico Garcia Lorca - As seis cordas

As seis cordas

A guitarra
faz soluçar os sonhos.
O soluço das almas
perdidas
foge por sua boca
redonda.
E, assim como a tarântula,
tece uma grande estrela
para caçar suspiros
que bóiam no seu negro
abismo de madeira.

Federico Garcia Lorca

A poesia acima foi extraída de sua "Antologia Poética", Editora Leitura S. A. - Rio de Janeiro, 1966, pág. 17, tradução e seleção de Afonso Felix de Sousa.



- Postado por: Rodrigo às 09h49
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De coragem vesti a solidão,
de ternura moldei o meu cansaço
e fui mulher-canção, mulher-abraço
de quem me viu morrer por cada sonho,
de quem me viu nascer em cada esperança.
Na lembrança guardei toda a beleza
e a tristeza cobri de fantasia.
Enfeitei-me de poesia como quem reza
e fui vadia, no gosto aventureiro de quem vive.
E sou mulher-certeza, mulher-livre,
mulher do dia-a-dia a tempo inteiro.

1985

Graça Pires



- Postado por: Rodrigo às 09h43
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Interrogações - Mario Quintana

Interrogações

Nenhuma pergunta demanda resposta.
Cada verso é uma pergunta do poeta.
E as estrelas...
as flores...
o mundo...
são perguntas de Deus.

Mario Quintana

In: Mario Quintana - Poesia Completa
Apontamentos de História Sobrenatural
Editora Nova Aguilar
p. 391



- Postado por: Rodrigo às 10h32
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Fernando Pessoa - O que me dói não é

O que me dói não é

O que me dói não é
O que há no coração
Mas essas coisas lindas
Que nunca existirão...

São as formas sem forma
Que passam sem que a dor
As possa conhecer
Ou as sonhar o amor.

São como se a tristeza
Fosse árvore e, uma a uma,
Caíssem suas folhas
Entre o vestígio e a bruma.

5-9-1933

Fernando Pessoa

In: Cancioneiro



- Postado por: Rodrigo às 10h28
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Ana Cristina Cesar: 2 de junho de 1952 — 29 de outubro de 1983

SONETO

Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenômeno mor
Ou é um lapso sutil?
 
* * *

olho muito tempo o corpo de um poema
até perder de vista o que não seja corpo
e sentir separado dentre os dentes
um filete de sangue
nas gengivas      
 
Ana Cristina Cesar



- Postado por: Rodrigo às 10h19
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Navega Coração - Kledir Ramil / Kleiton Ramil

Navega Coração

Nos naufrágios que o destino
Vem tentando me pregar
Vou nadando meus caminhos devagar
Desde os tempos de menino
Aprendi a navegar
Com as bússolas que eu mesmo inventar
Hoje eu sei as armadilhas
E os segredos desse mar
Que viver não é preciso nem será
Tenho os olhos no cruzeiro
As sereias como guia
E Netuno me protege noite e dia
E nem piratas, nem borrascas nem dragões
Vão me impedir de ser feliz
De levantar a minha âncora e partir
Navega coração
As águas desse mar
Voa coração
Prá lá do arco-íris

Composição: Kledir Ramil / Kleiton Ramil



- Postado por: Rodrigo às 10h16
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Vinicius de Moraes - Soneto de fidelidade

Soneto de fidelidade

De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa lhe dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure

Vinicius de Moraes

In: Antologia Poética - 22a Edição
RJ: Ed. José Olympio, 1983
p. 77



- Postado por: Rodrigo às 10h38
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Ana Miranda - O meu quarto

          Planejar o futuro é uma fuga, eu acho que planejar o futuro é mesmo uma fuga de viver o dia e olhar o que está acontecendo agora, quando eu era criança eu nunca planejava o futuro e o tempo para mim parece que não passava, nem existia, só o presente, e tudo era mais intenso, hoje às vezes eu fico planejando o futuro, pensando no que eu vou ser (…), chega de pensar no futuro, ah, pensar no futuro cansa tanto! E quando vejo, o tempo passou e eu não percebi, Divirta-se, já que você não consegue mudar nada, essa é outra frase que fica na porta do meu quarto, a gente consegue mudar alguma coisa no mundo, um pouco, pouquíssimo, quase nada, e acho que o mundo muda mais a gente do que a gente muda o mundo (…).

Ana Miranda

In: Pipocas
Moacyr Scliar/ Rubem Fonseca / Ana Miranda
Conto - O meu quarto
Ed. Companhia das Letras, Edição:1ª, 2003



- Postado por: Rodrigo às 10h27
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Camilo Castelo Branco: 16 de Março de 1825 — 1 de Junho de 1890

"Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única, e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a ultima manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o vôo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe." (p. 28-9)

"Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor, que nos dão, é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência." (p. 70)

"... Era de mulher o coração de Mariana. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor duns anjos que batem as asas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem ver e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciúmes de Tereza, não ciúmes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos lábios, porque os olhos se abriam prontos em lágrimas para apagá-la." (p. 125)

"A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro, que o prendem ao barro de onde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo, e pô-lo à venda!?" (p. 127)

"O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa, e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério." (p. 128)

Camilo Castelo Branco

In: Amor de Perdição
São Paulo; Ed. Klick, 1999



- Postado por: Rodrigo às 10h05
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