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Perfil BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos |




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De quem é esta saudade que meus silêncios invade, que de tão longe me vem? De quem é esta saudade, de quem? Aquelas mãos só carícias, Aqueles olhos de apelo, aqueles lábios-desejo… E estes dedos engelhados, e este olhar de vã procura, e esta boca sem um beijo… De quem é esta saudade que sinto quando me vejo?
Gilka Machado
In: Velha poesia, 1965


Embala-me, embala-me,
E canta-me cantigas,
Cantigas antigas de embalar meninos.
- Que a tua voz seja um cântico
Onde a minha alma descanse
E alcance os seus destinos.
Que tenha sonhos brancos e suaves,
Aves roçando leve o meu sonhar
Embalando breve, junto a ti, sonhando.
- Ó noite velha, sem estrelas e sem lua,
Nua e tua sinto bem minha alma
Na calma de um lugar agónico e brando.
E canta, canta, meu amor, encanta
Com essa tua voz sonhada e benta,
E lenta, lenta, meu amor, tão lenta.
- Deixa correr a vida! Que importa a vida,
Se no ponto da partida
No teu canto o meu anseio se atormenta!?
António Sousa Freitas

Dez Maneiras de Amar a Nós Mesmos
1 - Disciplinar os próprios impulsos.
2 - Trabalhar, cada dia, produzindo o melhor que pudermos.
3 - Atender aos bons conselhos que traçamos para os outros.
4 - Aceitar sem revolta a crítica e a reprovação.
5 - Esquecer as faltas alheias sem desculpar as nossas.
6 - Evitar as conversações inúteis.
7 - Receber o sofrimento o processo de nossa educação.
8 - Calar diante da ofensa, retribuindo o mal com o bem.
9 - Ajudar a todos, sem exigir qualquer pagamento de gratidão.
10 - Repetir as lições edificantes, tantas vezes quantas se fizerem necessárias, perseverando no aperfeiçoamento de nós mesmos sem desanimar e colocando-nos a serviço do Divino Mestre, hoje e sempre.

André Luiz (psicogr. Chico Xavier)


Ao "Pequeno Príncipe"
O essencial é invisível
Saint-Exupéry
Sim, Pequeno Príncipe, o essencial é invisível.
Em teu reduzido universo, astro diminuto,
tens espaço bastante para cultivar uma roseira,
dispensar-lhe cuidados, protegê-la, ampará-la
dos ventos, do sol, da chuva, das lagartas.
E há tempo para revolver vulcões em miniatura,
extirpar baobás que, crescendo, nocivos, têm em si
forças para destruir teu mundo.
O conselho é tão singelo e simples:
Numa estrela bem clara, uma rosa estimada,
de quatro espinhos, ínfimos. Adorá-la, dar-lhe
a vida toda,
enquanto, no horizonte,
a beleza perfeita de um pôr-de-sol que se
sucede a outro,
numa escala contínua. Nada mais. A vida
está completa.
Mas nós, adultos lógicos,
não sabemos caber num reino assim restrito,
assim pequeno,
nem viver cultivando uma rosa modesta...
Carmen Carneiro
In: Poemas Escolhidos
Introdução e Seleção de Adão de Araújo
Curitiba: Fundação Cultural de Curitiba, 1996
p. 45


"(...) - Adeus, disse a raposa. Eis o meu segredo. É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível para os olhos.
- O essencial é invisível para os olhos, repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Foi o tempo que perdeste com tua rosa que fez tua rosa tão importante.
- Foi o tempo que eu perdi com a minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar.
- Os homens esqueceram essa verdade, disse a raposa. Mas tu não a deves esquecer. Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas. Tu és responsável pela rosa...
- Eu sou responsável pela minha rosa... repetiu o principezinho, a fim de se lembrar...."
Antoine de Saint-Exupéry
In: Pequeno Príncipe


Sempre me foi cara esta erma colina
e esta sebe, que por toda a parte
do último horizonte o olhar exclui.
Mas sentando e admirando, intermináveis
espaços para lá dela e sobre-humanos
silêncios, e profundíssima quietude
eu no pensamento me finjo; onde por pouco
o coração não me amedronta. E como o vento
ouço sussurrar entre estas plantas, eu aquele
infinito silêncio a essa voz
vou comparando: e me sobrevém o eterno
e as mortas estações e a presente
e viva, e o som dela. Assim entre esta
imensidão se afoga o pensamento meu;
e o naufragar é-me doce nesse mar.
Giacomo Leopardi


Eu, Etiqueta
Em minha calça está grudado um nome
que não é meu de batismo ou de cartório,
um nome... estranho.
Meu blusão traz lembrete de bebida
que jamais pus na boca, nesta vida.
Em minha camiseta, a marca de cigarro
que não fumo, até hoje não fumei.
Minhas meias falam de produto
que nunca experimentei
mas são comunicados a meus pés.
Meu tênis é proclama colorido
de alguma coisa não provada
por este provador de longa idade.
Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro,
minha gravata e cinto e escova e pente,
meu copo, minha xícara,
minha toalha de banho e sabonete,
meu isso, meu aquilo,
desde a cabeça ao bico dos sapatos,
são mensagens,
letras falantes,
gritos visuais,
ordens de uso, abuso, reincidência,
costume, hábito, premência,
indispensabilidade,
e fazem de mim homem-anúncio itinerante,
escravo da matéria anunciada.
Estou, estou na moda.
É doce estar na moda, ainda que a moda
seja negar minha identidade,
trocá-la por mil, açambarcando
todas as marcas registradas,
todos os logotipos do mercado.
Com que inocência demito-me de ser
eu que antes era e me sabia
tão diverso de outros, tão mim-mesmo,
ser pensante, sentinte e solidário
com outros seres diversos e conscientes
de sua humana, invencível condição.
Agora sou anúncio,
ora vulgar ora bizarro,
em língua nacional ou em qualquer língua
(qualquer, principalmente).
E nisto me comprazo, tiro glória
de minha anulação.
Não sou - vê lá - anúncio contratado.
Eu é que mimosamente pago
para anunciar, para vender
em bares festas praias pérgulas piscinas,
e bem à vista exibo esta etiqueta
global no corpo que desiste
de ser veste e sandália de uma essência
tão viva, independente,
que moda ou suborno algum a compromete.
Onde terei jogado fora
meu gosto e capacidade de escolher,
minhas idiossincrasias tão pessoais,
tão minhas que no rosto se espelhavam,
e cada gesto, cada olhar,
cada vinco da roupa
resumia uma estética?
Hoje sou costurado, sou tecido,
sou gravado de forma universal,
saio da estamparia, não de casa,
da vitrina me tiram, recolocam,
objeto pulsante mas objeto
que se oferece como signo de outros
objetos estáticos, tarifados.
Por me ostentar assim, tão orgulhoso
de ser não eu, mas artigo industrial,
peço que meu nome retifiquem.
Já não me convém o título de homem.
Meu nome novo é coisa.
Eu sou a coisa, coisamente.

Carlos Drummond de Andrade
In: O Corpo
Rio de Janeiro: Record, 1984
p. 85-7
Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=nUtOvvY0zfo


Canção do vento e da minha vida
O vento varria as folhas,
o vento varria os frutos,
o vento varria as flores...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de frutos, de flores, de folhas.
O vento varria as luzes,
o vento varria as músicas,
o vento varria os aromas...
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de aromas, de estrelas, de cânticos.
O vento varria os sonhos
e varria as amizades...
o vento varria as mulheres.
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de afetos e de mulheres.
O vento varria os meses
e varria os teus sorrisos...
o vento varria tudo!
E a minha vida ficava
cada vez mais cheia
de tudo.

Manuel Bandeira
In: Estrela da Manhã
Antologia Poética,
Org. Emmanuel de Moraes
RJ: José Olympio Editora, 1986


Pertença
Este lugar onde pertenço
Parece um deserto infiltrado
De algas mortas e do teu odor
Janela aberta para o mar
Imagem sépia do passado
Pétalas e um rosário
Caem de mim cada flor
Que aconchego no regaço
[da tua mão]
Tem mistérios insondáveis
Um orvalho de emoção
Eu repouso a sitiada
Labirinto encastoado
De tudo o que por ti sinto
Rua e sebe deslocada
Seara cortada
Adormeço no teu espaço
[rente ao chão]
Este lugar onde pertenço
Fica a trás do pôr do sol
Bruma envolve meu sonhar
Suave cortina prateada
Geminada com saudade
Da tua pele molhada
Da minha alma a chorar
[por dizer não]
Há vitrais de arco-íris
Seres fantasma coloridos
Nos meus olhos reflectidos
Desenham argolas de sal
Lacrimejam meu sabor
Musa em conto de fadas
Borda de água de te amar
[sem perdão]
Maria Araújo


Vivo, Morro...
Vivo, morro: me afogo e já flamejo.
Passo calor extremo na friúra:
É-me a vida em excesso mole e dura.
Nos tormentos, alegre então me vejo:
Subitamente, rio e lacrimejo,
Nos meus prazeres, passo por torturas:
Meu bem se vai e para sempre dura;
Ao mesmo tempo, seco e reverdejo.
Assim o Amor me leva, instavelmente:
E se acho insuportáveis as agruras,
Percebe-me sem penas, de repente.
Depois, se acho a alegria permanente,
E satisfeito o anseio de ventura,
Torna-me à dor primeira e às amarguras.
Louise Labé
In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução e concepção de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy, 2002
p. 23


Perto de Deus
me tira desse lugar.
nesse lugar eu não quero estar.
aqui as pessoas fazem muito barulho,
muita confusão.
quero tratar apenas das coisas do coração,
quero ser louco, pelo menos um pouco,
quero amar sem me defender,
quero me perder, morrer, viver, de amor.
quero ficar perto de Deus.
quero ficar perto de Deus.
quero me perder, morrer, viver, de amor.
quero amar sem me defender;
quero ser louco, pelo menos um pouco.
quero tratar apenas das coisas do coração.
muita confusão,
aqui as pessoas fazem muito barulho.
nesse lugar eu não quero estar.
me tira desse lugar,
poesia.
Cássio Junqueira
Fonte: http://www.cassiojunqueira.com.br/


Entremeios...
Entre a realidade e os sonhos,
Entre as flores e os espinhos,
Entre a tristeza e a ufania,
Entre o desprezo e o carinho,
Entre a realidade e a fantasia
Entre o oblívio e a saudade
Entre tantos outros contrastes...
Há a possibilidade de uma moderação,
Na equação dos entremeios dos fatos,
Onde se encontra o equilíbrio das realidades...
Chega-se a essas realidades pela ponte
Que as liga às verdades.
Estas só se tornam realizáveis
Quando se apóiam no amor.
Tarcísio Ribeiro Costa


"Mas há a vida que é para ser intensamente vivida, há o amor. Que tem que ser vivido até a última gota. Sem nenhum medo. Não mata."

Clarice Lispector
In: A Descoberta do Mundo
Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984


Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.

João Guimarães Rosa
In: Grande Sertão: Veredas


"O desespero humano é um espinho cravado no coração. Inútil a gente debater-se, que dói mais ainda. Então sento-me no chão, os braços em torno das pernas, a cabeça pousada sobre os joelhos, e volto a ser a menina que teme o escuro da noite e chora calada sua solidão..."
Elisa Lispector
In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 31


Um dia nos veremos...
Um dia nos veremos novamente,
um dia que será de libertação
e nos reconheceremos
imediatamente.
Tudo o que for supérfluo terá desaparecido.
Todas as fraquezas, as agonias,
as dúvidas, as limitações.
Ficará só o que é essencial, eterno,
ficará o selo da imortalidade,
rubro, impresso em sangue,
para a grande verificação.
E nos reconheceremos imediatamente.
O espaço, a distância, o tempo
nada puderam contra nós.
E a resposta ao porquê
de tudo que passou e foi incompreensível
estará refletida em nosso olhar.
Um dia nos veremos novamente.
Essa a esperança
que faz ouvir o ressoar dos sinos,
que faz da vida um poema de beleza,
que faz do sofrimento uma canção.
Carmen Carneiro
In: Poemas Escolhidos
Introdução e seleção de Adão de Araújo
Curitiba: Coleção Farol do Saber, 1996
p.29


Eu tenho um sonho - Gilberto Gil
(...) Frequentemente acordo às sextas-feiras e penso: hoje é sexta, eu deveria usar branco, como é de uso no Candomblé. Hoje preciso honrar meus ancestrais. Não raro, porém, também digo: não. Prefiro então usar preto, quando se espera branco de mim. E que seja apenas para mostrar que a regra é a exceção. É bom, de tempos em tempos, negar a sua própria crença, seus desejos, seus deuses. As religiões têm para mim um valor cultural. Aí reside seu bem.
(...) Uniformismo é o princípio dominante de nosso tempo. Na uniformidade globalizada é especialmente importante termos em mente quem realmente somos.
Um de meus maiores sonhos é que floresça, no Brasil, de toda a diversidade de correntes, religiões, grupos populacionais e culturas, que vivem em nossa terra, uma identidade comum. Eu desejo uma identidade que reconheça a diversidade como valor. Esta, no fundo, é uma tarefa diante da qual toda a humanidade se encontra. Visto por esse ângulo, o Brasil é um país muito atual..."
28/07/2005
Gilberto Gil
Fonte: http://www.gilbertogil.com.br/


Heaven Can Wait
Diga aos anjos "não", eu não quero deixar minha querida sozinha
Eu não quero ninguém mais te abraçando
Esta é a chance que eu pegarei
Querida, eu ficarei, o Céu pode esperar
Não, se os anjos me levaram desta Terra
Eu queria dizer a eles pra me levar de volta pra ela
Esta é a chance que eu pegarei, talvez eu ficarei
O Céu pode esperar
Você é bonita
Cada momento que passo com você é simplesmente maravilhoso
Este amor que tenho por você é incrível
E eu não sei o que farei, se eu não puder ficar com você
O mundo não giraria então eu rezo toda noite
Se o Senhor viesse pra mim antes que eu acordasse
Eu não poderia partir se eu não puder ver seu rosto, não puder te abraçar apertado
Quão bom o Céu pode ser
Se os anjos vierem para mim eu direi a eles não
Inconcebível
Eu sentado nas nuvens e você sozinha
As horas regressam quando você está indo embora
Eu reviro tudo e tento voltar para minha querida
Não posso ficar para ver ninguém beijando, tocando ela
Não posso pegar ninguém amando você do jeito que nós fazíamos
Quão bom o Céu pode ser
Se os anjos vierem para mim eu direi a eles não
(...) Apenas deixe-nos em paz, deixe-nos em paz
Por favor nos deixe em paz
Composição: Michael Jackson
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Y_myPklSHZg


TER OU NÃO TER NAMORADO
Não sei mais o que fazer! Aviso às editoras que fazem antologias, que de agora em diante irei à Justiça e as processarei por uso indevido de uma crônica de minha autoria, “Ter ou não ter namorado”, publicada em 1984 no Livro “Amor A Sim Mesmo”, da Editora Nova Fronteira, como se fosse do grande poeta e cronista Carlos Drummond de Andrade. Algumas editoras, para aproveitarem-se da justa fama de Drummond não se preocupam de examinar com cuidado e tascam nas antologias essa minha crônica, como dele. É a que se segue, com o título que está aí em cima:
Quem não tem namorado é alguém que tirou férias não remuneradas de si mesmo.
Namorado é a mais difícil das conquistas.
Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabiru, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão, é fácil.
Mas namorado, mesmo, é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio e quase desmaia pedindo proteção. A proteção não precisa ser parruda, decidida; ou bandoleira basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição.
Quem não tem namorado é quem não tem amor é quem não sabe o gosto de namorar. Há quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento e dois amantes; mesmo assim pode não ter nenhum namorado.
Não tem namorado quem não sabe o gosto de chuva, cinema sessão das duas, medo do pai, sanduíche de padaria ou drible no trabalho.
Não tem namorado quem transa sem carinho, quem se acaricia sem vontade de virar sorvete ou lagartixa e quem ama sem alegria.
Não tem namorado quem faz pacto de amor apenas com a infelicidade. Namorar é fazer pactos com a felicidade ainda que rápida, escondida, fugidia ou impossível de durar.
Não tem namorado quem não sabe o valor de mãos dadas; de carinho escondido na hora em que passa o filme; de flor catada no muro e entregue de repente; de poesia de Fernando Pessoa, Vinícius de Moraes ou Chico Buarque lida bem devagar; de gargalhada quando fala junto ou descobre meia rasgada; de ânsia enorme de viajar junto para a Escócia ou mesmo de metrô, bonde, nuvem, cavalo alado, tapete mágico ou foguete interplanetário.
Não tem namorado quem não gosta de dormir agarrado, de fazer cesta abraçado, fazer compra junto.
Não tem namorado quem não gosta de falar do próprio amor, nem de ficar horas e horas olhando o mistério do outro dentro dos olhos dele, abobalhados de alegria pela lucidez do amor.
Não tem namorado quem não redescobre a criança própria e a do amado e sai com ela para parques, fliperamas, beira - d'água, show do Milton Nascimento, bosques enluarados, ruas de sonhos ou musical da Metro.
Não tem namorado quem não tem música secreta com ele, quem não dedica livros, quem não recorta artigos; quem gosta sem curtir; quem curte sem aprofundar.
Não tem namorado quem nunca sentiu o gosto de ser lembrado de repente no fim de semana, na madrugada, ou meio-dia do dia de sol em plena praia cheia de rivais.
Não tem namorado quem ama sem se dedicar; quem namora sem brincar; quem vive cheio de obrigações; quem faz sexo sem esperar o outro ir junto com ele.
Não tem namorado quem confunde solidão com ficar sozinho e em paz.
Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo.
Se você não tem namorado porque não descobriu que o amor é alegre e você vive pesando duzentos quilos de grilos e medos, ponha a saia mais leve, aquela de chita e passeie de mãos dadas com o ar. Enfeite-se com margaridas e ternuras e escove a alma com leves fricções de esperança. De alma escovada e coração estouvado, saia do quintal de si mesmo e descubra o próprio jardim.
Acorde com gosto de caqui e sorria lírios para quem passe debaixo de sua janela. Ponha intenções de quermesse em seus olhos e beba licor de contos de fada. Ande como se o chão estivesse repleto de sons de flauta e do céu descesse uma névoa de borboletas, cada qual trazendo uma pérola falante a dizer frases sutis e palavras de galanteria.
Se você não tem namorado é porque ainda não enlouqueceu aquele pouquinho necessário a fazer a vida parar e de repente parecer que faz sentido. ENLOU-CRESÇA.
ARTUR DA TÁVOLA


“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano –nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?"
George Orwell
In: A Revolução dos Bichos


Pequenas coisas...
Se eu pudesse congelar o tempo,
escolheria este momento,
exatamente agora,
nesta pouca hora
de uma quarta-feira.
O gerânio novo
enfeitando a prateleira,
o riso da criança
brilhando lá fora.
O livro aberto
no lugar certo,
que simplesmente diz
"Eu não tenho nada,
mas rouxinóis gorgolejam
versos na calçada"
Flora Figueiredo


Distância
Sonho com tua presença
na crença de te tocar novamente.
A mente teme que a lembrança
se desfaça, se dilua
e inclua momentos não sentidos,
apenas gestados
no embalo do sonho
que a magia fundiu à realidade.
Te quero novamente,
verdade esta inquestionável.
A distância torna inviável a urgência
e a necessidade beira a demência...
Separar o que foi real
e o que foi fruto da imaginação
deixa de luto a pura razão
e me faz voar daqui.
Sumo de minha existência física
e assumo meu eu flanante
e agora me ponho diante de ti:
te amo!
(16/06/2009)
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


Do Cantão da Expectativa
III
O que parece o mais forte sobreviveu a seu termo.
O futuro pertence ao que no subterrâneo se afirma.
Essas coisas que nos corroboraram quando ficamos
sob a proteção de nosso furtivo patrono,
o anjo da guarda da passividade,
fincam agora um colmilho de ameaça em meu ombro.
Repito a palavra "atacado" a mim mesmo
e me exponho, cabeça descoberta, sob as nuvens cumuladas
crispadas mais e mais com brônzeos relâmpagos.
Anseio golpes de malho em pranchas trincadas,
o intransigente relato de toletes presos,
para saber que entre nós há um que nunca se desviou
de tudo o que o instinto lhe disse ser a ação correta,
que se manteve firme no indicativo,
cujo barco se erguerá quando o aguaceiro acontecer.

Seamus Heaney
In: Poemas 1966-1987
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 316


El día que me queiras
Acaricia meu sono
o suave murmúrio
do teu suspirar.
Como ri a vida
se os teus olhos negros
me querem olhar
E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece
No dia que me quiseres
A rosa que enfeita
se vestirá de festa
com sua melhor cor
E ao vento os sinos
dirão que tu já és minha
E loucas as fontes cantarão teu amor
Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo
No dia que me quiseres
não haverá mais que harmonia
será clara a aurora
e alegre a nascente
Trará quieta a brisa
rumor de melodias
e nos darão as fontes
seu canto de cristal
No dia que me quiseres
adoçará suas cordas o pássaro cantor
florecerá a vida
não existirá mais a dor
Composição: Carlos Gardel / Alfredo Le Pera
Ouça esta música aqui por Luis Miguel (1994):
http://www.youtube.com/watch?v=QvyIG57knJI

"Sentemo-nos nestes bancos de mármore e de azulejos. Voltemos as costas para o mar. O espetáculo dessa natureza opulenta, grandiosa, sublime, absorver-nos-ia em uma contemplação insaciável. Cerremos por algum tempo os olhos à majestade das obras de Deus. A hora do crepúsculo é suave, melancólica e propícia aos sonhos do futuro e às recordações do passado.
Deixemos o futuro a Deus no céu e aos poetas na terra..."
Joaquim Manuel de Macedo
Fonte: http://www.academia.org.br/


Você é Linda
Fonte de mel
Nos olhos de gueixa
Kabuki, máscara
Choque entre o azul
E o cacho de acácias
Luz das acácias
Você é mãe do sol
A sua coisa é toda tão certa
Beleza esperta
Você me deixa a rua deserta
Quando atravessa
E não olha pra trás
Linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Vocé é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é forte
Dentes e músculos
Peitos e lábios
Você é forte
Letras e músicas
Todas as músicas
Que ainda hei de ouvir
No Abaeté
Areias e estrelas
Não são mais belas
Do que você
Mulher das estrelas
Mina de estrelas
Diga o que você quer
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Você é linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Gosto de ver
Você no seu ritmo
Dona do carnaval
Gosto de ter
Sentir seu estilo
Ir no seu íntimo
Nunca me faça mal
Linda
Mais que demais
Você é linda sim
Onda do mar do amor
Que bateu em mim
Você é linda
E sabe viver
Você me faz feliz
Esta canção é só pra dizer
E diz
Composição: Caetano Veloso
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=3tcY9rE_Cjs


Biografia do orvalho
"A maior riqueza do homem
é a sua incompletude.
Nesse ponto sou abastado.
Palavras que me aceitam como
sou - eu não aceito.
Não agüento ser apenas um
sujeito que abre
portas, que puxa válvulas,
que olha o relógio, que
compra pão às 6 horas da tarde,
que vai lá fora,
que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai
Mas eu preciso ser Outros.
Eu penso renovar o homem
usando borboletas."
Manoel de Barros


química(s)
encontrar-te
na essência matemática dum teorema
na raiz quadrado do cálculo
exacto
calcular a distância precisa que distancia
o ângulo obtuso de um gesto
à constante física da permitividade do vácuo…
permitir
Demócrito a imaginar de nós, partículas indizíveis,
invisíveis
atómicas
evoluir sem medo no modelo anatómico
na anatomia de corpos celestiais
e ousar preencher dele, um a um, em perpétuo
estado prazeroso,
no mais altaneiro paraíso, vazios espaços;
desdobrar
formulas indefinidas em equações simplicíssimas
d’orbitas interiores
reconhecidas
energizar afastamentos (sem queixumes, sem lamentos)
na força intrínseca das bases e dos ácidos;
captar da vida, desta que nos resta,
desta que no acto de nascer nos foi oferta,
na substrução cúmplice dum gesto,
protões energéticos,
concentrando na solução aquosa de pétalas de rosa,
iões HO-; macerar sentidos e exalar ópios
multicolores;
vencer a inércia, não esquecendo Newton,
da primeira à terceira lei, esta que nos revela que cada
acto contém em si uma interacção de acção-reacão-
ininterrupta e reactiva -,
em conjugação com a lei fundamental da dinâmica.
imprimir velocidades similares
aos nossos quereres
nos sentidos coincidentes, nas direcções calculadas (ou não ...)
palmilhar, ousando, ruelas escuras,
límpidas estradas, peneirando luas e luares numa paleta de cor.
entrelaçar salivas e condutas
num tango contínuo de pernas e palavras. numa fusão de corpos
ausentes d’atrito.
sucumbir na plenitude dum movimento uniforme
e no silêncio orgânico dum grito
anunciado
num lei inaugural da química.
... porque todo o poema é, no essencial, um poema de amor!
Mel de Carvalho
Fonte: http://noitedemel.blogs.sapo.pt


Deixei atrás os erros do que fui
Deixei atrás os erros do que fui,
Deixei atrás os erros do que quis
E que não pude haver porque a hora flui
E ninguém é exato nem feliz.
Tudo isso como o lixo da viagem
Deixei nas circunstâncias do caminho,
No episódio que fui e na paragem,
No desvio que foi cada vizinho.
Deixei tudo isso, como quem se tapa
Por viajar com uma capa sua,
E a certa altura se desfaz da capa
E atira com a capa para a rua.

Fernando Pessoa
In: Poesias Inéditas


Esse velho sentimento
O amor é uma questão de jeito
De trocar verbos
E esquecer pronomes,
De confundir palavras.
O amor precisa de manha
De riscos, de um fogo perene
De pouca sobriedade
De algum peso e nenhuma medida
O amor cai bem aos loucos
Aos desajustados,
Prefere os caminhos estranhos
De onde nem sempre saímos ilesos
Sonhar não basta
Sofrer não é o suficiente
Ser ridículo é só mais um instante
Dessa hora interminável de tempo
O amor não tolera o tédio
É piegas, profundo, desarticulado
Torto, altivo e às vezes até meio idiota
Inesperadamente desponta na noite
Chega como se fosse uma criança com frio
Não dá explicações
Simples e dissimulado escolhe
O canto que melhor lhe parece
E sem desenhar um único traço do destino
Enche o peito de coisas
Que não se consegue entender
Mas quem pode dizer-se humano
Se uma vez pelo menos
Ainda que para sentir-se no inferno
Não tenha procurado o amor?
O que nos salva
É o que nos falta
Coragem
E que tudo possa acontecer assim
Sem equilíbrio,
Sem nenhum palmo de terra
A sustentar os pés
Contando apenas
Com uma quase possível incerteza
Respirando um ar emprestado da insanidade
E acreditando que somos invencíveis
Velho sentimento
Que nos maltrata
Velho sentimento, tão antigo
Quanto os mais inacessíveis caminhos do mundo
Antonio Manoel Conceição


38.
se até o dia vinte ele me ligar, é porque vai rolar
se até quinta-feira não chover, passa a ser provável
se até seis da tarde o comercial passar duas vezes
é sinal de que tudo vai acontecer como o planejado
mulher adora dar um prazo para o imponderável
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 46


"Se você deseja um relacionamento amoroso, então deve se esquecer de toda a política do poder. Você pode ser simplesmente um amigo, sem tentar dominar o outro nem ser dominado por ele. Isso só é possível se você tiver um certo estado meditativo em sua vida.
Do contrário, não é possível. Amar um ser humano é uma das coisas mais difíceis do mundo, porque, no momento em que você começa a mostrar seu amor, o outro começa a entrar num jogo de poder. Ele sabe que você está depedente dele, ou dela. Você pode ser escravizado - psicologicamente, espiritualmente -, e ninguém quer ser escravo. Mas todos os seus relacionamentos humanos se tornam escravidão.
O amor precisa de uma clareza de visão. O amor precisa de uma limpeza de todas as coisas feias que estão em sua mente - inveja, raiva, o desejo de dominar... Homens e mulheres precisam viver juntos na terra, mas não aprenderam a ficar juntos sem perder a individualidade, a ficar tão juntos a ponto de ser quase unos, sem perder a identidade nos afazeres mundanos..."
Osho
In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 47-9


DESVARIO
Se me calo,
leio
teu pensamento.
Se te ouço,
sinto teus lábios trêmulos
tocarem meu pescoço.
Se te vejo,
percebo tuas mãos tateantes
procurarem vestígio
no litígio
do teu corpo.
Como um louco,
insano no desvario
procuro tua passagem
numa busca cruel,
imorredoura.
Como um avião
escuto o murmurinho das nuvens,
o grito do trovão me ilude,
no desespero do amanhã
sem claridade.
Na imagem do breu
fiquei sozinho,
na cama com Orfeu
não deu em nada.
Regina Lyra
In: Insensatas Palavras
João Pessoa: Ed. Universitária (UFPB),
2003.

XVI
Triste encanto das tardes borralheiras
Que enchem de cinza o coração da gente!
A tarde lembra um passarinho doente
A pipilar os pingos das goteiras...
A tarde pobre fica, horas inteiras,
A espiar pelas vidraças, tristemente,
O crepitar das brasas da lareira...
Meu Deus... o frio que a pobrezinha sente!
Por que é que esses Arcanjos neurastênicos
Só usam névoa em seus efeitos cênicos?
Nenhum azul para te distraíres...
Ah, se eu pudesse, tardezinha pobre,
Eu pintava trezentos arco-íris
Nesse tristonho céu que nos encobre!...

Mario Quintana


Os Dois Horizontes
Dous horizonte fecham nossa vida:
Um horizonte, — a saudade
Do que não há de voltar;
Outro horizonte, — a esperança
Dos tempos que hão de chegar;
No presente, — sempre escuro, —
Vive a alma ambiciosa
Na ilusão voluptuosa
Do passado e do futuro.
Os doces brincos da infância
Sob as asas maternais,
O vôo das andorinhas,
A onda viva e os rosais.
O gozo do amor, sonhado
Num olhar profundo e ardente,
Tal é na hora presente
O horizonte do passado.
Ou ambição de grandeza
Que no espírito calou,
Desejo de amor sincero
Que o coração não gozou;
Ou um viver calmo e puro
À alma convalescente,
Tal é na hora presente
O horizonte do futuro.
No breve correr dos dias
Sob o azul do céu, — tais são
Limites no mar da vida:
Saudade ou aspiração;
Ao nosso espírito ardente,
Na avidez do bem sonhado,
Nunca o presente é passado,
Nunca o futuro é presente.
Que cismas, homem? — Perdido
No mar das recordações,
Escuto um eco sentido
Das passadas ilusões.
Que buscas, homem? — Procuro,
Através da imensidade,
Ler a doce realidade
Das ilusões do futuro.
Dous horizontes fecham nossa vida.
Machado de Assis
In: Crisálidas


Sinfonia
Meu coração, na incerta adolescência, outrora,
Delirava e sorria aos raios matutinos,
Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora,
Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.
Meu coração, depois, pela estrada sonora
Colhia a cada passo os amores e os hinos,
E ia de beijo a beijo, em lasciva demora,
Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.
Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde
Em flautas e oboés, na inquietação da tarde,
E entre esperanças foge e entre saudades erra...
E, heróico, estalará num final, nos clamores
Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores,
Para glorificar tudo que amou na terra!

Olavo Bilac


VALORES
Uma vez, um homem desenterrou em seu campo uma estátua de mármore de grande beleza. E levou-a a um colecionador que amava todas as coisas belas, e o colecionador comprou-a por um alto preço. E separaram-se.
E enquanto o homem voltava para casa com seu dinheiro, pensou e disse consigo mesmo: “Quanta vida este dinheiro representa! Como pode alguém dá-lo por uma simples pedra esculpida, morta e ignorada no seio da terra por um milhar de anos?”
Entretanto, o colecionador estava olhando para a sua estátua e pensando, e disse consigo mesmo: “Que beleza! Que vida! Que sonho de grande alma! – e fresca com o suave dormir de um milhar de anos. Como pode alguém dar tudo isso por dinheiro, morto e sem sonhos?”

Khalil Gibran


O SOM DESTA PAIXÃO ESGOTA A SEIVA
O som desta paixão esgota a seiva
Que ferve ao pé do torso; abole o gesto
De amor que suscitava torre e gruta,
Espada e chaga à luz do olhar blasfemo;
O som desta paixão expulsa a cor
Dos lábios da alegria e corta o passo
Ao gamo da aventura que fugia;
O som desta paixão desmente o verbo
Mais santo e mais preciso e enxuga a lágrima
Ao rosto suicida, anula o riso;
O som desta paixão detém o sol,
O som desta paixão apaga a lua.
O som desta paixão acende o fogo
Eterno que roubei, que te ilumina
A face zombeteira e me arruína.
Mário Faustino


A lágrima
Do morno coração nasceu agora
temperada em brasa, angústia, sal
e sono, lâmina fina sobre o peito
e revolveu a terra e a infância espedaçada.
Cristina flor desamparada
és o silêncio todo, invulnerável
ou o eco
do trombone longe sufocando a tarde.
Max Martins
In: Anti-Retrato - 1960
Gráfica Falângola Editora, Belém


Romantique
L'individu bien conforme est taillé d'un bois à la fois dur, tendre et parfumé
Nietzsche
seu cheiro
- choque -
: rasgo de ar puro
no meu sufoco
viciado
seu cheiro
- chique -
: eau de homem
[poésie poison passion]
bouquet urbano
no meu ranço flor do campo
seu cheiro
- xis -
: agente noir
infiltrado
na curva [alva]
do meu anseio
seu cheiro
lance certeiro
: estratégia
movimento
ataque
seu cheiro
: argumento
ou fato
xeque-mate-me
Valéria Tarelho
Fonte: http://valeriatarelho.blogspot.com/


O reconhecimento da fragilidade de cada um não deve matar o espírito de resistência; e atualmente precisamos de pensamentos que exaltem a energia, a satisfação, o júbilo. Necessitamos de alacridade, de alegria, de serenidade. À retórica vitimista, que se esgota em seu próprio enunciado, devemos opor a palavra política, que oriente as lamentações para uma saída sensata, que lhes ofereça um exultório viável, que permita expressar o mal em termos medidos a fim de superá-los. A ruminação estupefata dos nossos problemas, essa espécie de onanismo mental, impede-nos de distinguir entre o transformável, que só depende de nossa vontade, e o imutável, que não depende de nós. Qualquer azar é vivido como um veredicto inelutável do destino. O indivíduo só é grande se participa de algo que o ultrapassa e não fica emparedado em si.
Pascal Bruckner
In: A Tentação da Inocência
Ed. Rocco, pg. 140


Lúbrica
Mandaste-me dizer,
No teu bilhete ardente,
Que hás de por mim morrer,
Morrer muito contente.
Lançastes, no papel
As mais lascivas frases;
A carta era um painel
De cenas de rapazes!
Ó cálida mulher,
Teus dedos delicados
Traçaram do prazer
Os quadros depravados!
Contudo, um teu olhar
É muito mais fogoso,
Que a febre epistolar
Do teu bilhete ansioso:
Do teu rostinho oval
Os olhos tão nefandos
Traduzem menos mal
Os vícios execrandos.
Teus olhos sensuais,
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.
As grandes comoções
Tu neles, sempre, espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...
Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais
Que muitas bibliotecas!
Cesário Verde


DIZEM
Quando nasci tinha uma faca na mão.
Dizem: é poesia.
Mas peguei na pena, melhor ainda que a faca.
Nasci para ser homem.
Alguém soluça uma felicidade apaixonada.
Dizem: é amor.
Chama-se ao teu seio, simplicidade das lágrimas!
Só contigo eu brinco.
Não recordo nada e também nada esqueço.
Dizem: como é possível?
O que deixo cair mantém-se sobre a terra.
Se o não encontro, tu o encontrarás.
A terra me aprisiona, o mar me dilacera.
Dizem: um dia morrerás.
Mas dizem-se tantas coisas a um homem
que nem sequer respondo.
(1936)
ATTILA JÓZSEF

ATÉ O FIM
Quando nasci veio um anjo safado
O chato dum querubim
E decretou que eu tava predestinado
A ser errado assim
Já de saída a minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Inda garoto deixei de ir à escola
Cassaram meu boletim
Não sou ladrão, eu não sou bom de bola
Nem posso ouvir clarim
Um bom futuro é o que jamais me esperou
Mas vou até o fim
Eu bem que tenho ensaiado um progresso
Virei cantor de festim
Mamãe contou que eu faço um bruto sucesso
Em Quixeramobim
Não sei como o maracatu começou
Mas vou até o fim
Por conta de umas questões paralelas
Quebraram meu bandolim
Não querem mais ouvir as minhas mazelas
E a minha voz chinfrim
Criei barriga, minha mula empacou
Mas vou até o fim
Não tem cigarro, acabou minha renda
Deu praga no meu capim
Minha mulher fugiu com o dono da venda
O que será de mim?
Eu já nem lembro pronde mesmo que vou
Mas vou até o fim
Como já disse era um anjo safado
O chato dum querubim
Que decretou que eu tava predestinado
A ser todo ruim
Já de saída minha estrada entortou
Mas vou até o fim
Composição: Chico Buarque
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=CSN3loxnBZ0

Três presentes de fim de ano
I
Querida, mando-te
uma tartaruguinha de presente
e principalmente de futuro
pois viverá uma riqueza de anos
e quando eu haja tomado a estígia barca
rumo ao país obscuro
ela te me lembrará no chão do quarto
e te dirá em sua muda língua
que o tempo, o tempo é simples ruga
na carapaça, não no fundo amor.
II
Nem corbeilles nem
letras de câmbio
nem rondós nem
carrão 69
nem festivais
na ilha d’amores
não esperes de mim
terrestres primores.
Dou-te a senha para
o dom imperceptível
que não vem do próximo
não se guarda em cofre
não pesa, não passa
nem sequer tem nome.
Inventa-o se puderes
com fervor e graça.
III
Sempre foi difícil
ah como era difícil escolher
um par de sapatos, um perfume.
Agora então, amor, é impossível.
O mau gosto
e o bom se acasalaram, catrapuz!
Você acha mesmo bacana esse verniz abóbora
ou tem medo de dizer que é medonho?
E aquele quadro (objeto)? Aquela pantalona?
Aquela poesia? Hem? O quê? Não ouço
a sua voz entre alto-falantes, não distingo
nenhuma voz nos sons vociferantes...
Desculpe, amor, se meu presente
é meio louco e bobo
e superado:
uns lábios em silêncio
(a música mental)
e uns olhos em recesso
(a infinita paisagem).

Carlos Drummond de Andrade


Entardecer
(...) “Seguindo-a com o olhar, abstracta, quasi inconsciente, pensei: quantas crianças da mesma edade brincariam alegres e palreiras, em casas confortaveis, bem vestidas, quentes?... Quantas, n'essa hora vaga do cair da tarde, não correriam, sobraçando os arcos, rindo da chuva e do frio, por entre moitas verdejantes de lindos jardins, seguidas por loiras mestras altas e sérias? Bibes brancos a esvoaçar como azas de borboletas; finos cabellos encaracolados cahindo em maciezas de luz, a nimbar d'oiro Varezo cabecinhas graciosas... Bellas crianças feitas de mimos e de beijos, rosadas e fortes, promptas para a vida sem maguas nem canceiras.
E aquella! Uma infancia miseravel, a prepara-la para o longo e obscuro martyrio que termina na valla commum passando pela fabrica e pelo hospital.
E a pequenita caminhava vagarosamente, com uma precoce gravidade destoante dos seus poucos annos...
(...) A carroça passou e ella foi apanhando, grão aqui, grão além, aquelles que a lama não tinha completamente perdido. Depois affastou-se lentamente, com um sorriso d'infinita resignação na sua boquinha já soffredora.
Seis annos apenas—como ella aprendeu cedo a resignação amargurada da vida! Uma immensa piedade, uma dolorosa impressão d'irremediavel soffrimento, me invadiu o espirito, pensando em todas as anonymas desventuras que se acotevelam na vida.
A noite vinha descendo lentamente. Pezava como chumbo a tristeza arreliante d'esse fim de dia...”
Ana de Castro Osório
In: Infelizes (histórias vividas), 1892


(...)”O futuro, pois, deste povo não está nos poetas decrépitos, que lhe insuflam os males instintos; nos seus romancistas fabulistas, que lhe desnorteiam o critério; nos seus parlamentos e ministros, que o degradam e conspurcam com a mentira; nos seus grandes mágicos, que sabem todas as línguas e todas as ciências...
O futuro deste país deve estar nas convicções sinceras, nos caracteres intransigentes, sacrificados a honra, disseminados por aí além, desdenhados pelos poderosos do dia; e que ousam dizer a verdade ao povo, como ao rei; não a pretendida verdade dos declamadores; mas a verdade da história, a verdade da ciência.”
Fevereiro de 1880
Silvio Romero
Fonte: http://www.academia.org.br


Sobre o amor
Amor não é arte,
O amor é supremo,
Não é uma mera proficiência...
É excelência.
O amor não são frases de efeitos,
Nem promessas ou juras,
Ele não se dissolve, se verdadeiro,
O amor é divino...
Tarcísio Ribeiro Costa


Dia dos Namorados
longe/perto
tema incerto
árido deserto
dilema que a vida
distraída
nos enfia abaixo à goela
EU QUERO ELA
distância infame
infinita
faz com que eu a ame
e a lembrança acalma
gêmea alma
me faz senti-la aqui
nesta poesia
eu em São Paulo
ela na Bahia
TE AMO, GRITO, NÃO CALO
longe do alcance dos sentidos
sentida física ausência
a cachaça libera a demência
na falta do toque
ouço um rock
me vem a emoção
me salta à boca
o coração
e a louca
certeza insana
emana
assim do nada
MINHA NAMORADA!
12/06/2009
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


Flores para Coimbra
Que mil flores desabrochem. Que mil flores
(outras nenhumas) onde amores fenecem
que mil flores floresçam onde só dores
florescem.
Que mil flores desabrochem. Que mil espadas
(outras nenhumas não)
onde mil flores com espadas são cortadas
que mil espadas floresçam em cada mão.
Que mil espadas floresçam
onde só penas são.
Antes que amores feneçam
que mil flores desabrochem. E outras nenhumas não.
Manuel Alegre


Outono
A solidão é como a chuva
Rilke
Suave cair de tarde
em que as sombras se adelgaçam.
Olhando para trás, o campo está semeado
a seara madura.
Nostalgia de ilhas longínquas,
de terras imprecisas
no horizonte.
Agora - ainda os raios dourados do sol,
depois - da noite a luz
calma e profunda.
Outono - névoas cor de prata - brumas.
E, enquanto a chuva cai
enriquecendo a terra,
fertilizando o solo,
da solidão, em silêncio, se abrem
os frutos de ouro.
Carmen Carneiro
In: Poemas Escolhidos
Seleção de Adão Araujo
Curitiba: Farol do Saber, 1996
p. 24


O Amor e a Morte
Com tema de Augusto dos Anjos
Sobre essa estrada ilumineira e parda
dorme o Lajedo ao sol, como uma Cobra.
Tua nudez na minha se desdobra
— ó Corça branca, ó ruiva Leoparda.
O Anjo sopra a corneta e se retarda:
seu Cinzel corta a pedra e o Porco sobra.
Ao toque do Divino, o bronze dobra,
enquanto assolo os peitos da javarda.
Vê: um dia, a bigorna desses Paços
cortará, no martelo de seus aços,
e o sangue, hão de abrasá-lo os inimigos.
E a Morte, em trajos pretos e amarelos,
brandirá, contra nós, doidos Cutelos
e as Asas rubras dos Dragões antigos.

Ariano Suassuna


Serenata do Adolescente
Que doentia claridade
a que me invade e me obsidia,
durante a noite e à luz da tarde,
à luz da tarde, à luz do dia!
Que doentia aquela grade
de insone e ténue claridade,
sob a avançada gelosia!
Passo na rua e nada vejo
senão a luz, a luz e a grade.
Ó lamparina do desejo,
porque ardes tu, até tão tarde?
E às vezes surge, entre a cortina,
aquela sombra vespertina
que me retém nesta ansiedade.
Se tens trint'anos? ou cinquenta?
Quis lá saber a tua idade!
Sei que em meus olhos se impacienta
fome da luz daquela grade!
Sei que sou novo, e que me odeio
porque me tarda — ante o teu seio —
queimar tão pobre mocidade!

David Mourão-Ferreira
In: Os Quatro Cantos do Tempo

MÁSCARA
Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.
Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.
Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.
Dante Milano


Porque tinha suas ausências. O rosto se perdia numa tristeza impessoal e sem rugas. Uma tristeza mais antiga que o seu espírito. Os olhos paravam vazios; diria mesmo um pouco ásperos. A pessoa que estivesse a seu lado sofria e nada podia fazer. Só esperar.

Clarice Lispector
In: Felicidade Clandestina
Ed. Rocco
p. 118


Estrela
Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança
nessa abóbada celeste,
onde a nossa alma descansa
a sua última esperança...
Estrela que me nasceste
quando a vista mal te alcança!
Antes nascesses mais cedo,
estrela da madrugada,
e não já noite cerrada...
Que até no céu mete medo
ver essa estrela isolada...
Antes nascesses mais cedo.
estrela da madrugada!
João de Deus


Diz que fui por aí
Se alguém perguntar por mim
Diz que fui por aí
Levando o violão embaixo do braço
Em qualquer esquina eu paro
Em qualquer botequim eu entro
Se houver motivo
É mais um samba que eu faço
Se quiserem saber se volto
Diga que sim
Mas só depois que a saudade se afastar de mim
Tenho um violão para me acompanhar
Tenho muitos amigos, eu sou popular
Tenho a madrugada como companheira
A saudade me dói, o meu peito me rói
Eu estou na cidade, eu estou na favela
Eu estou por aí
Sempre pensando nela
Composição: Zé Kéti e H. Rocha

Eros e Psique
Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada
Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.
A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera.
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.
Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado.
Ele dela é ignorado.
Ela para ele é ninguém.
Mas cada um cumpre o Destino -
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.
E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E, vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora.
E inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.
8-7-1933

Fernando Pessoa


James Joyce
Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias,
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo
Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.
Jorge Luis Borges
In: Poesia
Tradução de Josely Vianna Baptista
Ed. Companhia das Letras


URGENTEMENTE
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade


Presságio
O AMOR, quando se revela,
Não se sabe revelar.
Sabe bem olhar p'ra ela,
Mas não lhe sabe falar.
Quem quer dizer o que sente
Não sabe o que há de dizer.
Fala: parece que mente...
Cala: parece esquecer...
Ah, mas se ela adivinhasse,
Se pudesse ouvir o olhar,
E se um olhar lhe bastasse
P'ra saber que a estão a amar!
Mas quem sente muito, cala;
Quem quer dizer quanto sente
Fica sem alma nem fala,
Fica só, inteiramente!
Mas se isto puder contar-lhe
O que não lhe ouso contar,
Já não terei que falar-lhe
Porque lhe estou a falar...
24/04/1928

Fernando Pessoa
In: "Fernando Pessoa - Obra Poética - Inéditas"
Cia. José Aguilar Editora -
Rio de Janeiro, 1972,
pág. 513.


Amor é fogo que arde sem se ver
É ferida que dói e não se sente
É um contentamento descontente
É dor que desatina sem doer
É um não querer mais que bem querer
É solitário andar por entre a gente
É nunca contentar-se de contente
É cuidar que se ganha em se perder
É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence, o vencedor
É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões


29.
uma mordidinha para sentir o gosto
um cheirinho para sentir o perfume
um beijinho rápido, uma ilusãozinha
a quantos basta uma amostra grátis
não consigo molhar os pés apenas
eu mergulho e só paro quando me afogo
eu me queimo e só paro quando derreto
eu me jogo e só paro quando me param
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 36


Tuas palavras
Tuas palavras têm melodias divinas,
acordes de cristal, pianíssino, vibrando!
De olhos cerrados fico, imerso em gozo, quando,
dizendo-me um segredo o alvo percoço inclinas...
Então não me inebria o olôr da balsaminas
de tua boca, - é, mais o tom límpido e brando,
que dás a uma palavra, a um simples "sim", falando...
Tuas palavras têm meiguices peregrinas!
Eis, pois, o que me faz dormentes os sentidos;
ouço-te, sem saber o que estás a dizer-me,
qual numa língua estranha e suave aos meus ouvidos!...
E em pleno arrebatar duas êxtases radiosos
sinto invisível mão percorrer-me a epiderme...
- Tuas palavras, flor! têm dedos cariciosos
Jean Richepin
Tradução de Alvaro Reis
In: Os mais belos sonetos que o amor inspirou
Organização: J.G. de Araujo Jorge
RJ: Ed. Vecchi, 1966
p. 72


A chama
Tenho alma de anarquista
fogos de artifício, pólvora, paixões
você não me conhece
Trago em mim a chama
o perigo do dragão
trago o que mina, o que explode
a grande subversão
Dentro de mim o que não se doma
que ninguém detém, que nada assusta
o dom
a grande arte da fúria
a fera da sedução
Nisto consiste meu crime
e é melhor de mim
violenta ternura
força que se irradia e expande feito um gás
que respiramos
e que torna o que fazemos
maior do que o que somos.
Bruna Lombardi
In: O Perigo do Dragão
São Paulo: Círculo do Livro, 1984
p. 43


RECADO
Quando as folhas nascem elas enfeitam o tronco da árvore, como você enfeita a minha vida.
Quando a flor aparece ela asperge o perfume que me lembra você.
Quando a noite chega em meu recolhimento sinto a sua proximidade.
Quando o dia surge eu me preparo para ver você em todo canto, cheio de saudade que parece se espalhar por lugares tão diversos.
Você sou eu porque mora junto comigo, dentro do coração.
Théo Drummond

46.
Não vejo, não respiro, escuto ou penso
Sinto só; quem não sente não m'intende
Um receio fatal a voz me prende
Pelas veias me corre um fogo intenso.
Ao meu fogo se opõe um gelo imenso
E quanto mais o lume em mim se acende,
Mais o susto gelar-me em vão pretende,
Mais luto contra amor, e menos venço.
Dize, Inconstante, dize, não te custa
A desamar o que algum dia amaste?
Ou fui, quando te amei, acaso injusta?
Se das Rochas de Sintra, onde juraste
Eterna fé, o aspecto não te assusta,
Tira delas a chama que apagaste.
Marquesa de Alorna
In: Sonetos
Organização: Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: 7Letras, 2007
p. 141


Soneto em louvor de Olívia
De amor, graça, e de altíssimo valor,
Ardiam os divinos fogaréus,
E vestiam, com raro manto, os céus
Inflamados clarões de toda cor:
Felicidade cheia de primor,
O mar calmo e o gracioso vento, ao léu,
Quando ela, aqui embaixo, então nasceu,
Roubando deste mundo o seu louvor.
Tem a alva tez das lindas açucenas,
Da rosa a boca, do ouro essa melena,
E do sol os seus olhos resplendentes;
O céu, sendo bastante liberal,
Colocou-lhe no espírito as sementes,
Seu nome, qual um Deus, fez-se imortal
Joachim Du Bellay
In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy,2002
p. 22


Quando viras as costas para o sol, só vês a tua sombra

Khalil Gibran
In: Areia e Espuma
p. 35


ali
só
ali
se
se alice
ali se visse
quanto alice viu
e não disse
se ali
ali se dissesse
quanta palavra
veio e não desce
ali
bem ali
dentro da alice
só alice
com alice
ali se parece

Paulo Leminski
In: Caprichos e relaxos.
São Paulo, Brasiliense, 1983


Poema da amante
Eu te amo
Antes e depois de todos os acontecimentos,
Na profunda imensidade do vazio
E a cada lágrima dos meus pensamentos.
Eu te amo
Em todos os ventos que cantam,
Em todas as sombras que choram,
Na extensão infinita dos tempos
Até a região onde os silêncios moram.
Eu te amo
Em todas as transformações da vida,
Em todos os caminhos do medo,
Na angústia da vontade perdida
E na dor que se veste em segredo.
Eu te amo
Em tudo que estás presente,
No olhar dos astros que te alcançam
E em tudo que ainda estás ausente.
Eu te amo
Desde a criação das águas,
desde a idéia do fogo
E antes do primeiro riso e da primeira mágoa.
Eu te amo perdidamente
Desde a grande nebulosa
Até depois que o universo cair sobre mim
Suavemente.
Adalgisa Nery
In: Mundos oscilantes.
RJ: Ed. José Olympio, 1962.


Amar
Amar é fazer o ninho,
Que duas almas contém,
Ter medo de estar sozinho,
Dizer com lágrimas: vem,
Flor, querida, noiva, esposa...
Cabemos na mesma lousa...
Julieta, eu seu Romeu:
Correr, gritar: onde vamos?
Que luz! que cheiro! onde estamos?
E ouvir uma voz: no céu!
Vagar em campos floridos
Que a terra mesma não tem;
Chegamos loucos, perdidos
Onde não chega ninguém...
E, ao pé de correntes calmas,
Que espelham virentes palmas,
Dizer-te: senta-te aqui;
E além, na margem sombria,
Ver uma corça bravia,
Pasmada olhando pra ti!
Tobias Barreto


Lembre-se, "obrigação" é uma palavra imprópria. Amor não conhece obrigação. Faz muitas coisas, mas adora fazê-las - não é obrigação.
Por estranho que pareça, em todas as línguas do mundo as pessoas usam a expressão "cair de amor".
Sem nenhuma exceção, em todas as línguas as pessoas dizem "Eu caí de amor". Mas por que você deveria cair? Por que você não pode se elevar de amor?
Osho
In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 46-7


Adeus para sempre! Mas saiba
que o nome desses dois culpados,
não o de um só, estes ficarão
em meus poemas, esses restos de amor.
Baratynski
Sob o ícone, o tapetinho gasto.
Está o quarto fresco na penumbra
e, espessa, a hera verde-escura
faz ondular a larga janela.
Das rosas se desprende o perfume,
crepita a lâmpada com um fraco brilho.
Salpicadas de cores, há caixinhas
que pintou a amorosa mão do artesão.
A cortina branqueia a janela...
Teu perfil é afilado e cruel.
Os dedos cobertos de beijos
escondes, esquivo, em teu lenço.
E o coração, mal começando a pulsar,
já está cheio agora de tristeza.
Em minhas tranças desarrumadas, ficou
um leve cheiro de fumaça de charuto.
1912
Anna Akhmátova
In: Antologia Poética
Seleção e Trad.: Lauro Machado Coelho
Porto Alegre, RS: L&PM, 2009
p. 60


"O objetivo da educação é o conhecimento não de fatos, mas de valores”
William Ralph Inge


Canção na plenitude
Não tenho mais os olhos de menina
nem corpo adolescente, e a pele
translúcida há muito se manchou.
Há rugas onde havia sedas, sou uma estrutura
agrandada pelos anos e o peso dos fardos
bons ou ruins.
(Carreguei muitos com gosto e alguns com rebeldia.)
O que te posso dar é mais que tudo
o que perdi: dou-te os meus ganhos.
A maturidade que consegue rir
quando em outros tempos choraria,
busca te agradar
quando antigamente quereria
apenas ser amada.
Posso dar-te muito mais do que beleza
e juventude agora: esses dourados anos
me ensinaram a amar melhor, com mais paciência
e não menos ardor, a entender-te
se precisas, a aguardar-te quando vais,
a dar-te regaço de amante e colo de amiga,
e sobretudo força — que vem do aprendizado.
Isso posso te dar: um mar antigo e confiável
cujas marés — mesmo se fogem — retornam,
cujas correntes ocultas não levam destroços
mas o sonho interminável das sereias.
Lya Luft
O texto acima foi extraído do livro "Secreta Mirada", Editora Mandarim - São Paulo, 1997, pág. 151.


3 DE MAIO
Aprendi com meu filho de dez anos
Que a poesia é a descoberta
Das coisas que eu nunca vi
* * *
RELÓGIO
As coisas são
As coisas vêm
As coisas vão
As coisas
Vão e vêm
Não em vão
As horas
Vão e vêm
Não em vão
* * *
DITIRAMBO
Meu amor me ensinou a ser simples
Como um largo de igreja
Onde não há nem um sino
Nem um lápis
Nem uma sensualidade
Oswald de Andrade


“Quando cheios de gosto, e de alegria
Estes campos diviso florescentes,
Então me vêm as lágrimas ardentes
Com mais ânsia, mais dor, mais agonia.
Como, ó Céus, para os ver terei constância,
Aquele mesmo objeto, que desvia
Do humano peito as mágoas inclementes,
Esse mesmo em imagens diferentes
Se das flores a bela contextura
Esmalta o campo na melhor fragrância,
Para dar uma idéia de ventura;
Toda a minha tristeza desafia.
Se cada flor me lembra a formosura
Da bela causadora de minha ânsia?”
Cláudio Manuel da Costa
In: Poemas de Cláudio Manuel da Costa
Péricles Eugênio da Silva Ramos (Org.)
São Paulo: Cultrix, 1976.
p. 72


Beatriz
Olha
Será que ela é moça
Será que ela é triste
Será que é o contrário
Será que é pintura
O rosto da atriz
Se ela dança no sétimo céu
Se ela acredita que é outro país
E se ela só decora o seu papel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário
A casa da atriz
Se ela mora num arranha-céu
E se as paredes são feitas de giz
E se ela chora num quarto de hotel
E se eu pudesse entrar na sua vida
Olha
Será que é uma estrela
Será que é mentira
Será que é comédia
Será que é divina
A vida da atriz
Se ela um dia despencar do céu
E se os pagantes exigirem bis
E se um arcanjo passar o chapéu
E se eu pudesse entrar na sua vida
Composição: Chico Buarque / Edu Lobo
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ERgxqzwqCgI

Romance sonâmbulo
(A Gloria Giner e a
Fernando de los Rios)
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar
e o cavalo na montanha.
Com a sombra pela cintura
ela sonha na varanda,
verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Verde que te quero verde.
Por sob a lua gitana,
as coisas estão mirando-a
e ela não pode mirá-las.
Verde que te quero verde.
Grandes estrelas de escarcha
nascem com o peixe de sombra
que rasga o caminho da alva.
A figueira raspa o vento
a lixá-lo com as ramas,
e o monte, gato selvagem,
eriça as piteiras ásperas.
Mas quem virá? E por onde?...
Ela fica na varanda,
verde carne, tranças verdes,
ela sonha na água amarga.
— Compadre, dou meu cavalo
em troca de sua casa,
o arreio por seu espelho,
a faca por sua manta.
Compadre, venho sangrando
desde as passagens de Cabra.
— Se pudesse, meu mocinho,
esse negócio eu fechava.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Compadre, quero morrer
com decência, em minha cama.
De ferro, se for possível,
e com lençóis de cambraia.
Não vês que enorme ferida
vai de meu peito à garganta?
— Trezentas rosas morenas
traz tua camisa branca.
Ressuma teu sangue e cheira
em redor de tua faixa.
No entanto eu já não sou eu,
nem a casa é minha casa.
— Que eu possa subir ao menos
até às altas varandas.
Que eu possa subir! que o possa
até às verdes varandas.
As balaustradas da lua
por onde retumba a água.
Já sobem os dois compadres
até às altas varandas.
Deixando um rastro de sangue.
Deixando um rastro de lágrimas.
Tremiam pelos telhados
pequenos faróis de lata.
Mil pandeiros de cristal
feriam a madrugada.
Verde que te quero verde,
verde vento, verdes ramas.
Os dois compadres subiram.
O vasto vento deixava
na boca um gosto esquisito
de menta, fel e alfavaca.
— Que é dela, compadre, dize-me
que é de tua filha amarga?
— Quantas vezes te esperou!
Quantas vezes te esperara,
rosto fresco, negras tranças,
aqui na verde varanda!
Sobre a face da cisterna
balançava-se a gitana.
Verde carne, tranças verdes,
com olhos de fria prata.
Ponta gelada de lua
sustenta-a por cima da água.
A noite se fez tão íntima
como uma pequena praça.
Lá fora, à porta, golpeando,
guardas-civis na cachaça.
Verde que te quero verde.
Verde vento. Verdes ramas.
O barco vai sobre o mar.
E o cavalo na montanha.

Federico Garcia Lorca
Ouça este poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=lxzsrkX9ATE
A poesia acima foi extraída de sua "Antologia Poética", Editora Leitura S. A. - Rio de Janeiro, 1966, pág. 53, tradução e seleção de Afonso Felix de Sousa
