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Intempéries - Cesar Veneziani

Intempéries

És lava incandescente, fogo extremo,
que queima e torra e funde e vaporiza!
E como terremoto, és movimento
que abala as estruturas que se cria.

És chuva torrencial, inundação,
que lava e leva e louva a toda vida!
E como vento forte, és furacão
que eleva em vôo tão leve e te levita.

És força original, desde idos tempos,
que molda e move e mexe a massa toda.
E nós, meros mortais, nos envolvemos,
e queima e treme e molha e também voa.

Maior que todas forças naturais,
o amor que tua presença aqui me traz...

29/05/2009

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 10h22
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Lewis Carroll - Alice no País das Maravilhas

(...) - Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.

Lewis Carroll

In: Alice no País das Maravilhas 



- Postado por: Rodrigo às 10h13
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Борис Пастернак: 10 de fevereiro de 1890 — 31 de maio de 1960

Definição de poesia

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas —
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

BORIS PASTERNAK

Tradução de Haroldo de Campos



- Postado por: Rodrigo às 10h04
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Walt Whitman: 31 de Maio de 1819 – 26 de Março de 1892

NESTE MOMENTO TERNO E PENSATIVO

Neste momento terno e pensativo
Aqui sentado a sós
Sinto que existem noutras terras outros homens
Ternos e pensativos,
Sinto que posso dar uma espiada
Por cima e avistá-los
Na França, Espanha, Itália e Alemanha
Ou mais longe ainda
No Japão, China ou Rússia,
Falando outros dialetos,
E sinto que se me fosse possível
Conhecer esses homens
Eu poderia bem ligar-me a eles
Como acontece com homens de minha terra,
Ah e sei que poderíamos
Ser irmãos ou amantes
E que com eles eu estaria feliz.

Walt Whitman



- Postado por: Rodrigo às 09h58
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

(...) "Serei eu o romântico, o ingênuo? Serei o que quiseres em teu pensamento, tampouco me entendo, mas sinto-me livre para dizer-te: te amo muito, sem rendimento, aceso, amor sem formato, altura ou peso, amor sem conceito, aceita­ção, impassível de julgamento, aberto, incorreto, amor que nem sabe se é este o nome direito, amor, mas que seja amor. Te amo muito, e subscrevo-me." (Carta Extraviada 3)

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 68-9



- Postado por: Rodrigo às 05h07
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És o início das minhas palavras...

Leve como um anjo

És céu
estrelado no meu eu,
cintilado no meu olhar
com mensagens de amor,
sustentando imagens de desejo.

És a chave
do meu acontecer,
sentido-me em nuvens inspiradas
pela corrente do teu rio onde nado fiel.

Atrai-me
com todos os filamentos
do teu ser tão leve como um anjo,
circulando nas planícies da minha mente.

Moras
no diário sábio
nos meus pensamentos,
dominante de todas as dimensões,
desmedidamente esquecido de todos os senãos.

O teu
chegar até a mim,
correspondente à essência
do sentimento que cria a existência,
um dom maravilhoso que nos envolve de amor.

Movo-me
por fantasias
que alimentam o peso perfeito
da imortalidade consolidada e evidenciada
na causa e efeito do meu acreditar em ti, em nós.

És o início
das minhas palavras
antecipadas por emoções,
pronunciadas ao deixar vaguear
o intenso vital das sensações recebidas,
inteiramente de um olhar sobre todas as coisas
que me rodeiam sem preconceitos manifestando
o universo por inteiro nas palmas das mãos abertas,
para te receber nas almofadas quentes do meu templo.

Autor Desconhecido



- Postado por: Rodrigo às 04h21
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Manuel Antônio de Almeida - Memórias de um Sargento de Milícias

(...) Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:

Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor
.

Manuel Antônio de Almeida
 
In: Memórias de um Sargento de Milícias
Capitulo VII, Tomo II – Remédio aos Males
Ateliê Editorial, 2000
p. 240



- Postado por: Rodrigo às 04h00
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Faltando um Pedaço - Djavan

Faltando um Pedaço

O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha

O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho

O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços

Composição: Djavan

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=bJrgqgkReHA



- Postado por: Rodrigo às 03h46
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Lau Siqueira - Aos Predadores da Utopia

aos predadores da utopia

dentro de mim
morreram muitos tigres

os que ficaram
no entanto
são livres

Lau Siqueira

In: O Guardador de Sorrisos



- Postado por: Rodrigo às 18h00
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Francisco Otaviano de Almeida Rosa (1825-1889) - Ilusões da Vida

ILUSÕES DA VIDA

Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.

Francisco Otaviano de Almeida Rosa

Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=861&sid=169



- Postado por: Rodrigo às 11h50
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Dante Alighieri: 29(?) de Maio de 1265 — 13 ou 14 de Setembro de 1321

"Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.

Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. Sonolento como eu estava, devo ter cochilado e por isso me afastei da via verdadeira. Mas, ao chegar ao pé de um monte onde começava a selva que se estendia vale abaixo, olhei para cima e vi aquela ladeira coberta com os primeiros raios do Sol. A cena trouxe luz à minha vida, afastou de vez o medo e me deu novas esperanças. Decidi então subir aquele monte. Olhei para trás uma última vez, para aquela selva que nunca deixara uma alma viva escapar, descansei um pouco, e depois, iniciei a escalada."

Dante Alighieri

In: La Divina Commedia (A Divina Comédia)
Canto I - Inferno
Adaptação em prosa: Helder da Rocha

Ilustração de Gustave Doré (séc XIX)



- Postado por: Rodrigo às 11h41
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Pernette Du Guillet (1520-1545) - NON QUE JE VEUILLE

Não que eu queira...

Não que eu queira tirar a liberdade
De quem só nasceu para dominar-me:
Não que eu queira abusar dessa vaidade,
Aos pés de quem eu tenho de humilhar-me:
Não que a torto e a direito eu só quisesse
Guiá-lo, procurando o meu prazer:
Mas queria que aos dois satisfizesse,
Que o meu desejo fosse o seu querer.

Pernette Du Guillet

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy, 2002
p. 21



- Postado por: Rodrigo às 11h14
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Osho - Escute seu coração

Meu amor é simplesmente amor - nem mais nem menos. Não posso conceber como amar menos. Eu tentei! Porém, envergonho-me de dizer-lhes que fracassei continuamente por toda a minha vida. Não fui capaz de amar menos, e nem posso amar mais. "Mais" e "menos" são palavras que não pertencem ao reino espiritual. Elas pertencem ao mundo da matéria.

A palavra "matéria" vem de uma raiz sânscrita, matra. Significa "aquilo que pode ser medido". Aquillo que pode ser medido não é o meu amor. Aquilo que não pode ser medido, aquilo que não pode ser mais ou menos, aquilo que é para você compartilhar...

Porque toda esta existência é feita da substância chamada amor. Quando você compreende sua realidade, você compreende em miniatura a realidade de toda a existência - ela é feita da matéria chamada amor. Estamos vivendo num oceano de amor, sem nos dar conta.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 46



- Postado por: Rodrigo às 11h01
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Vanessa de Mello Brito - Retrato de um café curitibano

Retrato de um café curitibano

Para ela, três colheres de açúcar,
Para ele, nada.
Sua vida sempre fora mais amarga.

No café - corpos moles
Mergulhavam suas colheres
Em pensamentos
E goles.

Vanessa de Mello Brito

Fonte: http://simultaneidades.blogspot.com



- Postado por: Rodrigo às 18h33
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Regresso - Cesar Veneziani

Regresso

não te peço pra chorar comigo
apenas me abrace
me ofereça o ombro amigo

não te peço pra me fazer sorrir
apenas me ouça
que ninguém quer me ouvir

se eu fugir um dia vou sozinho
você não poderia
seguir meu caminho

apenas uma coisa te peço
teu ombro e teu ouvido
quando do meu regresso

(11/02/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 18h19
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Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H.

Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Clarice Lispector

In: A Paixão Segundo G.H.



- Postado por: Rodrigo às 18h14
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Friedrich Nietzsche - Além do bem e do mal

Os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade, como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!

Friedrich Nietzsche

In: Além do bem e do mal
Ed. Companhia das Letras
p. 189



- Postado por: Rodrigo às 18h09
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

91.

atravesso um penhasco caminhando por uma corda suspensa
ou quase isso quando telefono para sua casa e está chamando

enfrento uma corredeira num bote velho e sem remos
ou quase isso cada vez que você diz que tem algo para me dizer

mergulho num mar gelado e profundo sem escafandro
ou quase isso se percebo em você um perfume inusual

amar você é meu esporte mais radical

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 105



- Postado por: Rodrigo às 15h42
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Eugénio de Andrade - Urgentemente

URGENTEMENTE

É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.

É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.

Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.

Eugénio de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 15h39
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Арсений Тарковский: 24 de Junho de 1907 - 27 de Maio de 1989

Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.

Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.

A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.

Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.

Arseni Tarkovski



- Postado por: Rodrigo às 08h27
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Lauro Trevisan - Só o Amor é Infinito [trecho]

- Sabe, eu sinto que o mais importante, no casamento, é o amor, é encontrar um jovem com quem a gente se entenda, com quem a gente sinta a emoção de estar junto. Meu sonho é casar com alguém que me respeite, que reparta comigo a liberdade e o amor. Eu queria tanto estar ao lado de um noivo que tivesse coração, que fosse terno, que se sensibilizasse, por exemplo, diante de uma noite de luar... Enfim, não sei explicar... Por favor, não se ria de mim. Estou confusa.

Lauro Trevisan

In: Só o Amor é Infinito - 14a. Edição
Santa Maria/RS: Ed. Mente, 2002
p. 10



- Postado por: Rodrigo às 10h10
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Pixinguinha / Otavio de Sousa - Rosa

Rosa

Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
No amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor...

Da alma da mais linda flor
De mais ativo olôr
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor...

Se Deus
Me fora tão clemente
Aqui neste ambiente
De luz, formada numa tela
Deslumbrante e bela...

Teu coração
Junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado
Sobre a rosa e a cruz
Do arfante peito teu...

Tu és a forma ideal
Estátua magistral
Oh! alma perenal
Do meu primeiro amor
Sublime amor...

Tu és de Deus
A soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração
Sepultas um amor...

O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes
Cheios de sabor
Em vozes tão dolentes
Como um sonho em flor...

És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim
Que tem de belo
Em todo resplendor
Da santa natureza...

Perdão!
Se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh! flor!
Meu peito não resiste
Oh! meu Deus
O quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar
Em esperar
Em conduzir-te
Um dia ao pé do altar...

Jurar aos pés do Onipotente
Em preces comoventes
De dor, e receber a unção
Da tua gratidão...

Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te
Até meu padecer
De todo fenecer...

Composição: Pixinguinha, Otavio de Sousa

Ouça a interpretação de Marisa Monte aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=EX_mlgq9iEc&feature=related

 



- Postado por: Rodrigo às 10h06
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Vicente de Carvalho - Palavras ao Mar

PALAVRAS AO MAR

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.

Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...

É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...

Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de tu unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouvia,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.

Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...

Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
- Longínquo céu - de um esplendor distante.
Debalde, o mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.

Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!

*

Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...

Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!

*

Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives - entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem...
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!

Fosse tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem - áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte...
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante - perto
Do teu desejo e além do teu alcance!

Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
- Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada...

*

Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma...
Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.

Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!... A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!

*

Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!

Vicente de Carvalho

In: Poemas e canções, 1908

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h57
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Esse texto NÃO é de Drummond, até então!

Síntese da Felicidade / Desejos

Desejo a você... / Felicidade é... : Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV

Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra "não"
Nem "nunca",
nem "jamais" e "adeus".

Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação

Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta

Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.

Autoria Desconhecida, até então

Acabei de ver na Rede Record esse texto citado como sendo de Carlos Drummond de Andrade. A menos que tenha sido escrito em algum artigo de jornal (que sinceramente duvido, este “Drummond” desconheço: bronzeado legal ??? ... Calçar um velho chinelo / Sentar numa velha poltrona / Tocar violão para alguém... Bolero de Ravel / E muito carinho meu). Por enquanto, "Em busca da Autoria".

Lista de textos com autoria e/ou falta do devido destaque aos verdadeiros “circulando na net”: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1115062



- Postado por: Rodrigo às 12h02
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Osório Duque-Estrada - Velho Tema

VELHO TEMA

Fatigado viajor, que do deserto,
Ledo, percorre o areal que o sol castiga,
Busca um pouso na terra, onde se abriga,
Vendo as sombras da noite que vem perto.

Assim também, - ó minha doce amiga! -
Em meio ainda do percurso incerto,
No teu regaço, para mim aberto,
Fui repousar, exausto de fadiga...

De uma planta fatal, que em meio à trilha
Em flores perfumosas se desata,
Bebe a morte o viajor que o sonho pilha...

Assim teu beijo a vida me arrebata
- Beijo que guarda como a mancenilha
O mesmo aroma que envenena e mata!

Osório Duque-Estrada

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h51
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Elisa Lispector - Corpo-a-corpo [trecho]

Após a tua partida, tive a necessidade de isolar-me para meditar e fazer um acerto de contas comigo mesma. Algo fiquei me devendo, e enquanto não se fizesse luz na confusão dos meus sentimentos, enquanto não compreendesse o que aconteceu, como e por que assim aconteceu, eu não teria paz.

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 10



- Postado por: Rodrigo às 09h43
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Manuel Alegre - Trova do vento que passa

Trova do vento que passa

Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre



- Postado por: Rodrigo às 09h37
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Ralph Waldo Emerson: 25 de maio de 1803 - 27 de abril de 1882

"Não seja escravo do passado - mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe; você voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais, que vai explicar a anterior e superá-la."

* * *

Porque me apressaria em resolver todos os enigmas que me oferece a vida?

Ralph Waldo Emerson

In: A conduta para a vida
Ed. Martin Claret
p. 145



- Postado por: Rodrigo às 09h31
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"O meio de combater uma ideia é lançar ao seu encontro uma ideia melhor. (...) Nunca no mundo uma bala matou uma ideia"

Somerset Maugham



- Postado por: Rodrigo às 09h53
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Joseph Brodsky: 24 de maio de 1940 — 28 de janeiro de 1996

EU ERA APENAS QUANTO

Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.

Eu era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.

Foste quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.

Foste, a agitar cortinas,
quem, na umidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.

Eu era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.

E, assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.

Em meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.

Joseph Brodsky

Tradução de Nelson Ascher e Boris Schnaiderman (original em russo)



- Postado por: Rodrigo às 09h44
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Ferreira de Castro: 24 de Maio de 1898 — 29 de Junho de 1974

Naquela tarde, quando cheguei ao adrozito do Senhor dos Navegantes, demorei-me a contemplar o mar vasto que dali se descortinava, então muito sereno, com suas velas graciosas e fugidias. Em baixo, estendia-se a grande praia semi-selvagem. À direita, rompendo de entre um pinhal e com o seu verde contrastando, espaireciam casitas modernas, todas faceiras e coloridas, ao passo que, da banda oposta, aglomeravam-se as barracas dos pescadores, em forma de ilha sobre a areia e tão velhas, negras e roídas pelos anos como se fossem as mesmas que deixaram ali os primeiros habitantes do litoral. Dir-se-ia que o tempo parara do lado onde se trabalhava rudemente ao sol, muitas vezes de colaboração com a morte, para se activar naquele onde se descansava à sombra tranquila dos pinheiros.

Ferreira de Castro

In: O Senhor dos Navegantes
Lisboa, Expo' 98, 1998
p. 09



- Postado por: Rodrigo às 09h32
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Henri Michaux: 24 de maio de 1899 - 18 de outubro de 1984

Náusea ou é a morte que vem?

Entrega-te, meu coração.
Lutamos bastante.
E que minha vida cesse.
Não fomos covardes,
Fizemos o que pudemos.

Ah! Minha alma,
Partes ou ficas,
precisas decidir.
Não me tateies assim os órgãos,
Ora com atenção, ora com frenesi,
Partes ou ficas,
Precisas decidir.

Eu não aguento mais.
Senhores da morte,
Eu não vos blasfemei nem aplaudi.
Tende pena de mim, viajante já de tantas viagens sem malas,
Sem mestre tampouco, sem riqueza e a glória foi-se embora para outro lugar,
Sois potentes certamente, e esquisitos sobretudo,
Tende pena deste homem desvairado, que antes de ultrapassar a barreira já vos grita seu nome,
Agarrai-o em pleno voo,
Que ele se acostume, se conseguir, a vossos temperamentos e a vossos hábitos,
E se tiverdes a bondade de ajudá-lo, ajudai-o, eu vos suplico.

Henri Michaux

In: Ecuador.
Paris: Gallimard, 1929



- Postado por: Rodrigo às 09h25
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"Ser você mesmo e não ter medo de estar certo ou errado é mais admirável do que a fácil covardia de render-se à conformidade"

Irving Wallace



- Postado por: Rodrigo às 14h15
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Pablo Neruda - Peço Silêncio

Peço Silêncio

Agora me deixem tranqüilo.
Agora se acostumem sem mim.
Eu vou fechar os olhos
E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.
Em segundo é ver o outono.
Não posso existir
Sem que as folhas voem
E voltem para a terra.
Em terceiro é o inverno rigoroso,
a chuva que amei,
A carícia do fogo no frio silvestre.
Em quarto lugar o verão,
redondo como uma melancia.
A quinta coisa é teus olhos
Matilde minha, bem amada.
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes.
Eu troco a primavera
Para que continues me olhando.
(...)

Pablo Neruda



- Postado por: Rodrigo às 00h17
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Henrik Johan Ibsen: 20 de Março de 1828 — 23 de Maio de 1906

BERNICK - Ao passo que nós temos à nossa frente um dia de trabalho... principalmente eu... Enquanto vos tiver junto de mim, a vós, mulheres fiéis e verdadeiras, sinto-me bem... Nestes últimos dias aprendi também que são elas os autênticos pilares da comunidade...

LONA - Então aprendeste mal... (Pondo-lhe as mãos nos ombros.) Ouve, os pilares da comunidade são o espírito de justiça e de liberdade.

Henrik Ibsen

In: Samfundets Støtter
As Colunas da Sociedade - 1877



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Sílvio Caldas: 23 de maio de 1908 — 3 de fevereiro de 1998

Procissão de Saudade

Divergência entre casais
É muito natural

Discussões
Discordar de opinião até

Mas você mentiu
E me tirou a paz

Me desiludiu
Me fez perder a fé

Por isto, meu amor
Não voltarei atrás

Chega de mentira
Chega de maldade
Chega
Não adianta enganar mais

Cada qual para o seu lado
Mais um lar desmoronado
E a saudade, amor
Em procissão atrás

Composição: Silvio Caldas



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Zé Rodrix: 25 de novembro de 1947 — 22 de maio de 2009

Casa No Campo

Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais

Composição: Zé Rodrix e Tavito

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=75LcZFvLRrQ



- Postado por: Rodrigo às 17h22
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Clarice Lispector - A Paixão Segundo G.H. [trecho]

"(...) O acréscimo é mais fácil de amar.

E agora não estou tomando tua mão para mim. Sou eu quem está te dando a mão. Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. Como eu, não terás medo de agregar-te à extrema doçura enérgica do Deus. Solidão é ter apenas o destino humano.

E solidão é não precisar..."

Clarice Lispector

In: A Paixão Segundo G.H.



- Postado por: Rodrigo às 10h06
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Gérard de Nerval: 22 de Maio de 1808 - 25 de Janeiro de 1855

El Desdichado

Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.

Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.

Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…

Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.

Gérard de Nerval



- Postado por: Rodrigo às 10h01
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Victor-Marie Hugo: 26 de fevereiro de 1802 — 22 de maio de 1885


“O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.

Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real...”

Victor Hugo

In: Les Travailleurs de la Mer
Livro Terceiro: Durande e Déruchette
Ed. Nova Cultural, 2003
Tradução de Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 09h57
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Langston Hughes: 1 de fevereiro de 1902 — 22 de maio de 1967

Eu também

Eu também canto a América.
Eu sou o irmão mais escuro.
Eles me mandam comer na cozinha
quando chega visita.
Mas eu rio
e como bem
e vou crescendo.
Amanhã,
eu me sentarei a mesa,
quando houver visita.
Ninguém se atreverá
a dizer-me:
‘Vai comer na cozinha”.
Além disso,
eles verão como eu sou belo
e ficarão envergonhados.
Eu, também, sou América.

Langston Hughes



- Postado por: Rodrigo às 09h51
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Edgar Allan Poe

"Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca via as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para as doces alegrias, e quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, por todos os lados, o meu cruel destino..."

Edgar Allan Poe

Publicado postumamente na edição de setembro de 1875 do Scribner's Magazine.



- Postado por: Rodrigo às 17h31
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Olavo Bilac - Profissão de Fé

PROFISSÃO DE FÉ

Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.

Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.

Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.

Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,

Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito..."

Olavo Bilac



- Postado por: Rodrigo às 17h23
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Olga Savary (Belém, 21 de maio de 1933)

Balanço

A Carlos Drummond de Andrade

Olho teu rosto como imagem
parada um instante
refletida no profundo fundo
de um poço.
E da memória
não me interessa mais que isto.

* * *

Terra

em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,

devora-me até que eu
não respire mais.

* * *

Pedido

A Manuel Bandeira

Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Olga Savary



- Postado por: Rodrigo às 17h04
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Martha Medeiros - Cartas Extraviadas e outros poemas

47.

o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 56



- Postado por: Rodrigo às 10h29
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Mário Quintana - Ritmo

Ritmo

Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco

Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes

No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa

até que enfim
               se desenrola
                          a corda toda
e o mundo gira imóvel como
um pião!

Mário Quintana

 



- Postado por: Rodrigo às 10h23
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Anselm Grün - O livro das respostas

"Meu dia-a-dia tem muitas vezes o mesmo decurso. Levanto sempre no mesmo horário. Executo o mesmo trabalho. E este nem sempre é interessante. Mas quando digo sim à mediunidade de meu dia-a-dia, ele se torna para mim um campo importante de exercício espiritual. Pois nele exercito a fidelidade: a fidelidade a mim, às pessoas e a Deus. Ali exercito a abnegação. Nesse trabalho eu me dedico às pessoas para as quais aqui estou. Então meu dia-a-dia não fica vazio, mas é um lugar em que exercito e torno realidade o meu amor. Terei então também encontros que me trazem alegria. E, de repente, o vazio se torna cheio, o banal se transforma em santificado e a rotina é quebrada pelas surpresas divinas nas quais irrompe em meu dia-a-dia o indispensável amor de Deus." 

Anselm Grün

In: O livro das respostas



- Postado por: Rodrigo às 10h15
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Silas de Oliveira: 12 de outubro de 1916 - 20 de maio de 1972

Aquarela Brasileira

Vejam esta maravilha de cenário
é um episódio relicário
que o artista num sonho genial
escolheu para este carnaval
e o asfalto como passarela
será a tela do Brasil em forma de aquarela

Passeando pelas cercanias do Amazonas
conheci vastos seringais
no Pará, a ilha de Marajó
e a velha cabana do Timbó
caminhando ainda um pouco mais
deparei com lindos coqueirais
estava no Ceará, terra de Irapuã
de Iracema e Tupã.

Fiquei radiante de alegria
quando cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
das noites de magia do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
assisti em Pernambuco
a festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
na arte, na beleza e arquitetura
feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
do Leste por todo o Centro-Oeste
tudo é belo e tem lindo matiz
o Rio dos sambas e batucadas
dos malandros e mulatas
de requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas
cachoeiras e cascatas
de colorido sutil
e este lindo céu azul de anil
emolduram aquarela o meu Brasil

Império Serrano (RJ, 1964)

Composição: Silas de Oliveira

 Ouça este samba por Martinho da Vila aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=VHN2TVwNhEo



- Postado por: Rodrigo às 10h07
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Francisco Rodrigues Lobo - Águas que, penduradas desta altura

Águas que, penduradas desta altura

Águas que, penduradas desta altura,
Caís sobre os penedos descuidadas,
Aonde, em branca escuma levantadas,
Ofendidas mostrais mais fermosura,

Se achais essa dureza tão segura,
Para que porfiais, águas cansadas?
Hei tantos anos já desenganadas,
E esta rocha mais áspera e mais dura.

Voltai atrás por entre os arvoredos,
Aonde caminhais com liberdade
Até chegar ao fim tão desejado.

Mas ai! que são de amor estes segredos.
Que vos não valerá própria vontade
Como a mim não valeu no meu cuidado.

FRANCISCO RODRIGUES LOBO



- Postado por: Rodrigo às 09h27
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Sem Tempo - Cesar Veneziani

Sem Tempo

amo
amo ontem, amo hoje, amo amanhã
meu verbo amar não tem tempo
nem passado nem futuro
amo o amor que se foi
amo o amor que virá

vivo assim
em estado alterado
o tempo todo embriagado
de tanto amar

(16/05/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 09h22
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Viajam as palavras - Cassiano Ricardo

Viajam as palavras

Passageiros, formo como que um diagrama
entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode
em minhas mãos.

A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro
mas foge, arrependida.

Vistos, de longe, de passagem,
todos os rostos são amigos, são iguais.

Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem
impressa em mim, à minha saudade
como um quadro à parede.

O possível desastre
faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido,
o pássaro do adeus.

O trem de ferro desloca o sentido das coisas.

Viajam as palavras.

Cassiano Ricardo

In: O sangue das horas



- Postado por: Rodrigo às 09h17
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Mário de Sá-Carneiro: 19 de Maio de 1890 — 26 de Abril de 1916

Eu nunca pude fundir o corpo e a alma numa proporção normal. O meu corpo andou sempre separado, independente da alma... e como materialmente corpo e alma formam um todo – daí a minha inquietação incessante.

Mário de Sá-Carneiro

Carta a Ricardo Teixeira Duarte (Paris, 2/12/1912)

* * *

Dispersão

Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida... (...)

Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Mário de Sá-Carneiro

In: Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001



- Postado por: Rodrigo às 09h05
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Sem você...

Sem Você

Acordo pensando que hoje esta chovendo
Levanto enfadonho... O que esta acontecendo?
Abro a janela... eis que o sol me abraça...
Mas nada me alegra por mais que tudo eu faça!

Sinto um vazio... um frio... que coisa louca!
O dia é festa... mas não sinto a alegria
O sol se vai... enfim acaba o dia...
A noite chega e amarga a minha boca!

Sinto uma dor que nem sei de onde vem...
Saudade ingrata que em mim faz morada...
De um corpo macio que me faz tão bem
Porém distante... Mas que vida ingrata!

Sinto saudade de você...
Do cheiro, do riso, do seu olhar
O que fazer para afastar a dor?
Sigo sozinho... amando-te desta maneira!

Autoria Desconhecida



- Postado por: Rodrigo às 10h58
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Milan Kundera - A Ignorância

"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."

Milan Kundera

In: A Ignorância



- Postado por: Rodrigo às 10h45
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A Defesa do Poeta - Natália Correia (1923-1993)

A Defesa do Poeta

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

 Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia



- Postado por: Rodrigo às 10h35
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A Palavra - António Ramos Rosa

A palavra

A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, numa anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

António Ramos Rosa
 
In: Acordes
Quetzal, 1989



- Postado por: Rodrigo às 10h30
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Foi Assim

Foi assim
Como um resto de sol no mar
Como a brisa da preamar
Nós chegamos ao fim
Foi assim
Quando a flôr ao luar se deu
Quando o mundo era quase meu
Tu te foste de mim
Volta meu bem, murmurei
Volta meu bem repeti
Não há canção nos teus olhos
Nem amanhã nesse adeus
Horas, dias, meses, se passando
E nesse passar uma ilusão guardei
Ver-te novamente na varanda
A voz sumida e quase em pranto a me dizer
Meu bem voltei
Hoje essa ilusão se fez em nada
E a te beijar outra mulher eu vi
Vi no teu olhar envenenado
O mesmo olhar do meu passado
E soube então que te perdi.

Composição: Paulo André / Ruy Barata



- Postado por: Rodrigo às 10h25
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Um Sopro de Vida [trecho] - Clarice Lispetor

          Para começo de conversa, afianço que só se vive, vida mesmo, quando se aprende que até a mentira é verdade. Recuso-me a dar provas. Mas se alguém insistir muito em "porquês", digo: a mentira nasce em quem cria e passa a fazer existirem novas mentiras de novas verdades.

          Uma palavra é a mentira de outra.

         Quero exigentemente que acreditem em mim. Quero que acreditem em mim até quando minto.

Clarice Lispetor

In: Um Sopro de Vida
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978
p. 87



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Valentim Magalhães: 16 de janeiro de 1859 — 17 de maio de 1903

JURAMENTO

Oh! poeta, por que te deixaste encantar,
Se deviam roubar-te essa gentil criança,
E se o seu coração, cheio de confiança,
Não podia por ti viver a palpitar?

Que importa! Germinou à luz do seu olhar
Na minh’alma tristonha e que a existência cansa
O amor, que nos remoça e enche de esperança;
Por isso eu devo sempre a bendizer e amar.

Feliz ou infeliz, ser-lhe-ei fiel ainda!
Amarei minha dor, pois dela será vinda,
Dela por quem do seio os males arranquei.

Virgem, de cujo olhar cativam-me os encantos,
Se me fazes chorar, eu abençôo os prantos,
Se me deres a morte, - a morte abençoarei.

Dezembro - 1879

Valentim Magalhães

In: Rimário, 1900

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h10
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Intimação - Carlos Drummond de Andrade

Intimação

- Você deve calar urgentemente
as lembranças bobocas de menino.
- Impossivel. Eu conto o meu presente.
Com volúpia voltei a ser menino.

Carlos Drummond de Andrade

In: Boitempo I
Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987
p. 10



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Noite Apressada - David Mourão-Ferreira

Noite Apressada

Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.

Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!

Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!

David Mourão-Ferreira

In: À Guitarra e à Viola



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Charles Baudeilare - Os Gatos

Os Gatos

Sóbrios doutores e loucos apaixonados
Têm em comum, ao fim de uma vida feliz,
O amor pelos gatos, altivos, gentis,
Como eles friorentos e sossegados.

Grandes amigos da volúpia e do saber,
Preferem o silêncio e o terror noturnos;
Seriam do demônio os corcéis soturnos
Se em seu orgulho pudessem se submeter.

Ajeitam-se cismadores nas poses raras
Das altas esfinges no fundo dos Saaras
Que num transe infinito parecem sonhar;

O dorso fértil magicamente cintila
E uma poeira fina de ouro, a brilhar,
Fulgura de leve nas místicas pupilas.

Charles Baudeilare

Tradução de Jorge Pontual



- Postado por: Rodrigo às 17h53
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Por seu Amor - Luiza Porto

POR SEU AMOR

Por seu amor, uso todos os sentidos
Saboreio seus beijos
Meus olhos só enxergam seu olhar
Olfato fica apurado com seu cheiro
Só ouço suas palavras de amor
Uso meu tato, para escrever
Versos de amor em seu corpo nu.

Luiza Porto



- Postado por: Rodrigo às 10h44
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Soneto XLV - Pablo Neruda

Soneto X L V

Não estejas longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.

Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.

Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência;
não te vás por um minuto, bem-amada,

Porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo

Pablo Neruda



- Postado por: Rodrigo às 10h40
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As Rosas não falam - Cartola

AS ROSAS NÃO FALAM

Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos por fim...

Composição: Cartola

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=BSObDOETrgU



- Postado por: Rodrigo às 10h36
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On the road - Jack Kerouac

Eles dançavam pelas ruas como peões e eu me arrastava atrás como sempre tenho feito toda minha vida atrás de pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões... mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite.

Jack Kerouac

In: On the road
Ed. L&PM
p. 106



- Postado por: Rodrigo às 16h41
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Das medidas e do tamanho - Margarete Schiavinatto

Das medidas e do tamanho

Não trato palavras
nas medidas metálicas.
Aço exato
Tampouco trato palavras
nas medidas circunstanciais do calor,
dilatadas,
recolhidas.
Inconstantes.

Trato palavras
como gestos necessários,
aqueles que me salvam,
me resgatam do cotidiano,
do tempo medido nos ponteiros.
Ingrato

Trato palavras
como fragmentos de poemas
à procura de um restaurador.

Margarete Schiavinatto



- Postado por: Rodrigo às 16h34
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Emily Dickinson: 10 de Dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886

Joyful - to whom the Sunrise
Precedes Enamored - Day -
Joyful - for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!

*

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

Emily Dickinson

In: Emily Dickinson - Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
Ed. L&M POCKET
p. 61



- Postado por: Rodrigo às 16h28
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Petição à melancolia para que se acabem certos dias de festa

5. Petição à melancolia para que se acabem certos dias de festa

Tu, Deusa tutelar da solidão,
Amável sombra, ó melancolia,
Aproxima-te, rouba-me a alegria
Que turba a suavidade ao coração.

Não prives o meu peito, Ninfa, não
Da tua triste e doce companhia,
Que suspira por ti um e outro dia
Quem de amar-te só faz consolação.

E não pode a que vive suspirante
Viver entre o tumulto muito espaço
Sem que faça o seu mal mais penetrante.

Atende, ó Ninfa, o rogo que te faço,
Não demores mais tempo o doce instante,
Os dias tristes, que eu tão triste passo.

Marquesa de Alorna

In: Sonetos
Organização de Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007
p. 928



- Postado por: Rodrigo às 16h23
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Osho

Não estamos buscando nenhum paraíso nas nuvens. Se ele estiver lá, nós o apanharemos, mas primeiro precisamos construir um paraíso aqui na terra; essa será nossa preparação. Se pudermos viver num paraíso na terra, então, esteja ele onde estiver, será nosso.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 43



- Postado por: Rodrigo às 17h27
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A janela encantada - Thiago de Mello

A janela encantada
 
A vida sempre foi boa comigo.
Quando soube que o meu coração
estava carregado de sombras
e que ele só se alimenta de luz,
abriu uma janela no meu peito
para que por ela possam entrar
o resplendor do orvalho
o fulgor das estrelas
e o invisível arco-íris do amor.

Thiago de Mello



- Postado por: Rodrigo às 17h22
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Espelho Celeste - Cesar Veneziani

Espelho Celeste

amo a lua
a sua aura
     sempre acolhedora
a sua luz
     na noite que é a vida em solidão
 
amo a lua
que torna negros vultos
     doces duendes a cantar alegrias
que faz da penumbra
     manto aleitado a aquecer almas tristes
 
amo a lua
que reflete tua luz
     amor que me espera...

(09/05/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/ 



- Postado por: Rodrigo às 17h02
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José Santos Chocano: 14 de maio de 1875 - 13 de julho de 1934

BRASÃO
 
Sou o cantor da América autóctone e selvagem;
minha lira tem alma, meu canto um ideal.
Meu verso não balança pendido da ramagem,
com um vaivém pausado de rede tropical...
 
Quando me sinto um Inca, eu rendo vassalagem
ao Sol, que me dá o cetro de seu poder real;
quando hispano, evocando a colonial imagem,
são as minhas estrofes trombetas de cristal.
 
A fantasia vem-me de antepassado mouro:
os Andes são de prata, mas o Leão é de ouro;
e as duas castas fundo com épico fragor.
 
O sangue é espanhol e incaica sua batida;
e se não fora Poeta, talvez fosse na vida
um branco Aventureiro ou um índio Imperador!

José Santos Chocano

Tradução de Fernando Mendes Vianna



- Postado por: Rodrigo às 16h57
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Murilo Mendes: 13 de maio de 1901 — 13 de agosto de 1975

Idéias Rosas

Minhas idéias abstratas,
De tanto as tocar, tornaram-se concretas:
São rosas familiares
Que o tempo traz ao alcance da mão,
Rosas que assistem à inauguração de era novas
No meu pensamento,
No pensamento do mundo em mim e nos outros:
De eras novas, mas ainda assim
Que o tempo conheceu, conhece e conhecerá.
Rosas! Rosas!
Quem me dera houvesse
Rosas abstratas para mim.

Murilo Mendes

In: Murilo Mendes - Poesia Completa
Poesia Liberdade
Editora Nova Aguilar, 1994
p. 434



- Postado por: Rodrigo às 09h39
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Lima Barreto: 13 de maio de 1881 - 1 de novembro de 1922

"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."

Lima Barreto

In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)



- Postado por: Rodrigo às 09h32
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Raimundo Correia: 13 de maio de 1859 – 13 de setembro de 1911

AS POMBAS

Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...

E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...

Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;

No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...

Raimundo Correia

In: Sinfonias, 1883



- Postado por: Rodrigo às 09h28
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Luís de Camões - Os Lusíadas

119.

Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.

Luís de Camões

In: Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135
Episódio de Inês de Castro
Apresentação e Notas: Ivan Teixeira
Ed. Ateliê Editorial, 1999
p. 108



- Postado por: Rodrigo às 10h44
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Tu és a terra em que pouso:
Macia, suave, tenra, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça.

és também pedra qual a terra à vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.

E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.

És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre. Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.

Jorge de Sena



- Postado por: Rodrigo às 10h31
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Manuel Alegre de Melo Duarte: 12 de Maio de 1936

Coisa Amar

Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.

Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.

Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi

desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.

Manuel Alegre



- Postado por: Rodrigo às 10h26
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Salvador Dalí: 11 de Maio de 1904 — 23 de Janeiro de 1989

"A diferença entre as lembranças falsas e verdadeiras é a mesma das jóias: as falsas sempre aparentam ser as mais reais, as mais brilhantes."

SALVADOR DALÍ

Arte: 'Galatea de las esferas' (1952) - 65,0 X 54,0 cm - Fundación Gala Salvador Dalí , Figueras.



- Postado por: Rodrigo às 16h53
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Gregório de Matos - Aos afetos, e lágrimas, derramadas...

Aos afetos, e lágrimas, derramadas na ausência da dama a quem queria bem

Ardor em firme coração nascido;
Pranto por belos olhos derramado;
Incêndio em mares de água disfarçado;
Rio de neve em fogo convertido:

Tu, que um peito abrasas escondido;
Tu, que em um rosto corres desatado;
Quando fogo, em cristais aprisionado;
Quando cristal, em chamas derretido.

Se és fogo, como passas brandamente,
Se és neve, como queimas com porfia?
Mas ai, que andou Amor em ti prudente!

Pois para temperar a tirania,
Como quis que aqui fosse a neve ardente,
Permitiu parecesse a chama fria.

Gregório de Matos

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 18



- Postado por: Rodrigo às 00h46
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Haruki Murakami

"... torno a olhar o seu busto. A área, arredondada e saliente, se projeta e se retrai lentamente, como ondas em movimento. Imagino uma vasta extensão de mar varrida por uma garoa fina. Sou um navegante solitário em pé no convés, e ela é o mar. O céu se reveste de uniforme tonalidade cinza e lá, bem adiante, se junta com o mar, que também está cinzento. É muito difícil distinguir céu de mar. Ou o próprio navegante do mar. As coisas reais das coisas emocionais."

Haruki Murakami

In: Kafka à beira-mar
Editora Alfaguara
Tradução de Leiko Gotoda



- Postado por: Rodrigo às 00h40
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Arvers (1806-1850) - Soneto

II

Sempre sonhei achar num lar felicidade,
recanto em que minha alma, há tanto pertubada,
encontrasse, afinal, paz e serenidade,
repousando de longa e penosa jornada.

Uma mulher virtuosa, assim de minha idade,
dois filhos a brincar, junto à mãe desvelada;
alguns vizinhos, numa roda de amizade
e, em noites de verão, conversa descuidada.

Eu deixaria o amor à juventude ardente;
só queria uma amiga, uma alma confidente,
consolo à minha dor, que só ela notasse...

Bem mais do que eu pedia a existência me trouxe:
- a amizade acabou sendo muito mais doce
e o amor apareceu, sem que eu o procurasse.

Arvers

Tradução de Mello Nóbrega

In: Os Mais Belos Sonetos que o Amor inspirou
Organização e seleção de J. G. de Araujo Jorge
Rio de Janeiro: Ed. Vecchi, 1966.
p. 37



- Postado por: Rodrigo às 00h29
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Camilo José Cela: 11 de Maio de 1916 — 17 de Janeiro de 2002

"Eu, meu senhor, não sou mau, ainda que não me faltassem motivos para o ser. Os mesmos cueiros temos nós todos, mortais, quando nascemos e, contudo, enquanto vamos crescendo, compraz-se o destino em nos fazer variar como se fôssemos de cera e em enviar-nos por diferentes veredas ao mesmo destino: a morte. Há homens a quem se ordena que marchem pelo caminho das flores e homens a quem se manda pelo caminho dos cardos e das figueiras-da-índia. Os primeiros gozam de um olhar sereno e ao aroma da sua felicidade sorriem com cara de inocente; os outros sofrem o sol violento da planura e franzem o cenho como as alimárias, para se defenderem. Há muita diferença entre adornar as carnes com rosicler e colónia e fazê-lo com tatuagens que ninguém, jamais, apagará."

Camilo José Cela

In: A Família de Pascual Duarte, 1942



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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FELIZ DIA DAS MÃES

Mornos braços que, na entrega,
aquecem e afagam o filho amado.
Suaves sons que da garganta saem
embalam gentis o tranqüilo sono.
Insones noites no velar constante
buscam a cura do corpo febril.
Mãe! Guardiã do sublime amor!

WATFA RAMOS

* * *

O que é ser mãe? Certamente seria: Conceber, Nutrir, Proteger...
Exemplificando na medida "de seu" possível
tendo que Aprender... a se Libertar da semente
Acompanhando sua evolução a distância
a Terra sabe muito bem quando trazer
Ensinamentos Preci(o)sos na Hora Exata
cedo ou tarde todos compreenderão o valor de uma Mãe

ROSANGELA ALIBERTI

* * *

Não pode ser quantificado,
pode sim, ser qualificado este amor:
amor materno é incondicional estado amoroso!
Uma enciclopédia poderia ser escrita,
porém não transcreveria este universo
em cada mãe inserido; assemelhado,
mas sempre único em singularidade ímpar.

VERA LÚCIA DE CAMPOS MAGGIONI

Fonte: www.lunaeamigos.com.br/varal/varal20ano5.htm



- Postado por: Rodrigo às 02h09
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Mãe por Mario Quintana

Mãe

Mãe! São três letras apenas
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o Infinito.
E palavra tão pequena,
- confessam mesmo os ateus –
É do tamanho do Céu!
E apenas menor que Deus…

Mario Quintana

In: Mario Quintana - Poesia completa
Lili inventa o mundo
Editora Nova Aguilar, p. 941



- Postado por: Rodrigo às 11h07
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Mãe - Luís Carlos Mordegane

Mãe

Que com seu carinho a tudo transforma
Ao sentir no ventre com emoção infinita
O pequeno ser que vai tomando forma.
Ela, de puro êxtase como pluma, levita,

Exalando na essência o aroma
Da ternura que em seu peito habita.
Maravilhosamente, seu corpo se transforma
Transbordando em uma aura bendita

Que, transcende de forma crescente
Quando ele mexe, lentamente, o pezinho
E aos poucos vai se fazendo presente
Mesmo sendo ainda tão miudinho...

Têm a mãe anseios de tocar somente
E vai, no ventre, alisando com jeitinho
Àquele pequeno ser que surge lentamente
E recebe da mãe ternura, amor e carinho.

Luís Carlos Mordegane



- Postado por: Rodrigo às 11h00
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Poeminha à Mãe - Antonio M. Abreu Sardenberg

Poeminha à Mãe

Amor, carinho, ternura,
Afeto, afago, apego,
Meiguice, entrega, doçura,
O mais ardente aconchego.
Sentimento mais profundo,
Geratriz: razão da vida.
Concebeu, foi concebida...
Tu és MÃE, o próprio mundo!

Antonio Manoel Abreu Sardenberg



- Postado por: Rodrigo às 10h55
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Coelho Neto - Ser Mãe

Ser Mãe

Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!

Coelho Neto



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Carlos Máximo - Mãe

MÃE

MÃE
... Nome expressivo
Que por ele vivo...
Mãe, broto do ventre
Da Santíssima Maria,
Olhar de vidro,
Semblante de límpidas águas!
Mãe, profundezas de um amor,
Existência suportável
Entre tantos filhos
Que choram,
Esteio de esperança,
Sonha como criança!
O tempo é maldoso
Em envelhecê-la
Mas do teu âmago
Flui a fertilidade
Da juventude espiritual:
Vida! Muitas vidas!
Um breve sorriso
E um espontâneo olhar
Debruçam no horizonte
De sua própria bondade!
Mãe não significa
Apenas amamentar
Ou aquela que dá à Luz;
Ser mãe muito mais
É muito mais
Além da própria existência!
Ser mãe é moldar
A própria imagem
Em uma nova figura,
É a poesia iniciada
No ventre
É a letra do poema pronto
Que doura o útero
Sob o sol
E no colo do luar!
Mãe, ato de expressão incomparável!
Ser mãe é o caminhão inverso
Do nascimento: regresso ao ventre
Um ventre idoso
Onde o amor é ouro
E o meu amor
Derrama-lhe fortemente!

CARLOS MÁXIMO



- Postado por: Rodrigo às 10h48
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Adélia Prado - Ensinamento

Ensinamento

Minha mãe achava estudo
a coisa mais fina do mundo.
Não é.
A coisa mais fina do mundo é o sentimento.
Aquele dia de noite, o pai fazendo serão,
ela falou comigo:
"Coitado, até essa hora no serviço pesado".
Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente.
Não me falou em amor.
Essa palavra de luxo.

Adélia Prado



- Postado por: Rodrigo às 10h43
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Mãe que atrasa. 
Mãe que apressa.
Mãe que se interessa. 
Mãe que tenta.
Mãe que sustenta.
Mãe que alimenta.
Mãe que segura.
Mãe que liberta.
Mãe que desespera.
Mãe que ri.
Mãe que chora.
Mãe que namora.
Mãe que cuida.
Mãe que trabalha.
Mãe que se atrapalha.
Mãe que se desliga.
Mãe que briga.
Mãe que é amiga.
Mãe que se preocupa.
Mãe que educa.
Mãe que se culpa.
Mãe que nem é mãe.
Mãe que também é pai.
Mãe que sai.
Mãe que dá afeto.
Mãe que tem defeito.
Mãe que dá um jeito.
Mãe que é minha.
Mãe que é sua.
Mãe que é tudo.

Autoria Desconhecida



- Postado por: Rodrigo às 10h37
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Carlos Drummond de Andrade - Para Sempre

Para Sempre

Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.

Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 10h29
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Friedrich von Schiller: 10 de Novembro de 1759 — 9 de Maio de 1805

Ode à Alegria (An Die Freude)

Oh amigos, mudemos o som!
Entoemos algo mais prazeroso
E alegre!

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios pelo fogo entramos
Em teu santuário celeste!

Tua magia volta a unir
O que o costume rigorosamente dividiu.
Todos os homens se irmanam
Ali onde teu doce vôo se detém.

Quem já conseguiu o maior tesouro
De ser o amigo de um amigo,
Quem já conquistou uma mulher amável
Rejubile-se conosco!
Mesmo aquele que conquistou apenas uma alma,
Uma única alma em todo o mundo.
Mas aquele que falhou nisso
Que fique chorando sozinho!

Da alegria bebem todos os seres
No seio da Natureza:
Todos os bons, todos os maus,
Seguem seu rastro de rosas.

Ela nos deu beijos e vinho e
Um amigo leal até a morte;
Deu força para a vida aos mais humildes
E ao querubim para se erguer diante de Deus!

Alegremente, como seus sóis corram
Através do esplêndido espaço celeste
Se expressem, irmãos, em seus caminhos,
Exultantes como o herói diante da vitória.

Alegria, formosa centelha divina,
Filha do Elíseo,
Ébrios pelo fogo entramos
Em teu santuário celeste!

Enviem um beijo ao mundo todo!
Mundo, você sente a presença do seu Criador?
Pois milhões se abatem diante dele!

Abracem-se milhões!
Porque Irmãos, além do céu estrelado
Deve haver um Pai Amado!

Friedrich von Schiller

Uma de suas mais famosas poesias, a An die Freude (Ode à Alegria), inspirou Ludwig van Beethoven a escrever, em 1823, o quarto movimento de sua nona sinfonia. Ouça aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=2aQ8DUHMg7o

 



- Postado por: Rodrigo às 10h03
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Sebastião da Gama - Pequeno Poema

Pequeno Poema

Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.

Sebastião da Gama



- Postado por: Rodrigo às 17h53
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As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na minha vida. Tenho a paixão da mulher. Fiquei sem mãe, era miúdo. As mulheres da minha família tomaram conta de mim, incentivaram-me. Ensinaram-me a não admitir soluções ilusórias. A minha avó era uma criatura excepcional; e tive uma madrasta que sempre me protegeu. A minha mulher conheceu-me estava eu desempregado, por motivos políticos. É um ser incomum. Correu o risco, perigosíssimo, na época, de querer partilhar a vida comigo. Estamos casados há quarenta e sete anos. Éramos dois miúdos e enfrentámos, juntos, o que nem queira saber.

Armando Baptista-Bastos

In: Entrevista ao Diário de Notícias (15/06/2007)



- Postado por: Rodrigo às 17h49
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Gustave Flaubert: 12 de dezembro de 1821 – 8 de maio de 1880,


Ah! é que te amo! — respondia ela — Amo-te a ponto de não poder passar sem ti, sabes? Tenho às vezes vontade de te ver, quando toda a força do amor me dilacera. E pergunto-me “Onde estará ele? Fala talvez com outras mulheres? Elas lhe sorriem, ele se aproxima...” . Oh, não! Nenhuma te agrada, não é? Há mulheres mais belas, mas eu sei amar-te melhor! Sou tua serva e tua concubina! Tu és meu rei, meu ídolo! Tu és bom, és belo, és inteligente, és forte!

Gustave Flaubert

In: Madame Bovary
Tradução de Araújo Nabuco
São Paulo: Martins editora, 1997



- Postado por: Rodrigo às 17h28
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A verdadeira mudança ocorre na ação...

A verdadeira mudança ocorre na ação; as explicações racionais, sempre aleatórias, que visam compreender e fazer compreender o porquê dos comportamentos, raramente provocam mudanças espontâneas.

Françoise Kourilsky-Belliard

In: Do desejo ao prazer de mudar
Ed. Manole
p. 50



- Postado por: Rodrigo às 18h29
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Para atravessar contigo o deserto do mundo

Para atravessar contigo o deserto do mundo
 
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Livro Sexto II
1962



- Postado por: Rodrigo às 18h23
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Elisa Lispector - O Muro de Pedras (Trecho)

"Às vezes, estando a costurar dentro de casa, as janelas abertas para o jardim ouvia lá fora a vozinha pequenina e fresca do filho (...) Ela se enternecia, largava a costura e saía à procura do menino. E estreitava-o demoradamente, beijava-o. Mas logo ele lhe escorregava do regaço e ignorava a sua presença, inteiramente absorvido pelo que estava fazendo. Marta se regozijava e entristecia um pouco. Seu filho estava crescendo, cada vez mais absorvido pela beleza do mundo, pela grandeza do mundo. Sobretudo isto: sabia que entre ela e o filho existia uma barreira intransponível, pois compreendia que as criaturas deixam de aterrorizar-se diante do desconhecido no dia que perdem a infância, esquecem o mistério que se prolonga para além do meramente sensorial, perdendo a capacidade de maravilhar-se diante do encantamento dos sonhos."

Elisa Lispector

In: O Muro de Pedras
Rio de Janeiro: José Olympio, 1963
p. 148-9



- Postado por: Rodrigo às 18h14
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Orestes Barbosa: 7 de maio de 1893 — 15 de agosto de 1966

Flor do Asfalto (Trecho)

"Deixou-me a flor do asfalto, abandonado,
Nesta ansiedade louca do desejo,
Que é o sequioso amor do viciado
No veneno rubro e quente do seu beijo.

Recordo: às seis da tarde, o aperitivo.
Depois, jantar, cinema, a vida ao léu...
À noite, ela dolente, eu emotivo,
E um romance de amor no arranha-céu.

Meu telefone agora vive mudo
E o dela sempre em comunicação."
 

Composição: Orestes Barbosa - J. Thomaz



- Postado por: Rodrigo às 18h00
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Como quem lê - Frederico Barbosa

COMO QUEM LÊ

Virar a chave,
como quem lê uma página:
abrir por dentro,
libertar-se sendo.
Como quem se envolve na personagem,
lento. 
                                                
Descobrir o além do sonho,
o impensado, o certo,
o mais que imaginado.
O que os olhos buscam cobrir
no sono. 
                                                
Ver em você, minha cara,
minha cara interpretada:
metade minha, metade clara.
      
Frederico Barbosa

In: Cantar de Amor entre os Escombros
Ed. Landy, 2002.
p. 87



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Rabíndranáth Tagore: 6 de maio de 1861 — 7 de agosto de 1941

A LUA NOVA

Como discutem e como gritam!
Como desconfiam e se desesperam!
Nunca param de brigar!
Que tua vida se ponha entre eles, inalterável e pura
Como uma língua de luz
E lhes imponha silêncio com sua formosura.
Que cruéis os torna a cobiça e o ciúme! Como
Violências disfarçadas sedentas de sangue são suas palavras.
Ponha-se entre seus corações irados e que
Teu olhar sublime caia sobre eles como cai a indulgente
Paz do anoitecer sobre a batalha do dia.
Deixe que olhem tua face
E que assim compreendam o sentido de todas as coisas.
Que te amem, e assim amem um ao outro.
Vem ocupar teu lugar nos braços do Eterno.
Abre e levanta teu coração ao nascer do sol, como uma nova flor.
E quando o sol se pôr, inclina tua cabeça e reze
Em silêncio a oração da tarde.
Esperançado e louco, olhando o mar infinito?
Aforismos
Como as gaivotas e as ondas se encontram, nos encontramos e nos unimos.
Vão-se as gaivotas voando, vão pairando sobre as ondas; e nós também vamos.
Se de noite choras pelo sol, não verás as estrelas.
A luz do sol me saúda sorrindo.
A chuva, sua irmã triste, me fala ao coração.
Se faço sombra em meu caminho, é porque há uma lâmpada em mim que ainda não foi acesa.
Teu sol sorri nos dias de inverno de meu coração, e não duvido jamais das flores de tua primavera.
Quando o dia cai, a noite o beija e lhe diz ao ouvido:
'Sou tua mãe a morte, e te hei de dar nova vida'.
O mistério da vida é tão grande como a sombra na noite.
A ilusão da sabedoria é como a névoa do amanhecer.
Lemos mal o mundo, e dizemos logo que nos engana.

Rabindranath Tagore



- Postado por: Rodrigo às 10h31
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Sigmund Freud: 6 de maio de 1856 — 23 de setembro de 1939

Meu propósito é ajudar o melhor possível as pessoas que vivem num constante inferno. Não no além, mas aqui mesmo na Terra... Minhas descobertas científicas, minhas teorias e métodos, visam torná-las conscientes deste inferno, para que dele possam se libertar.

Sigmund Freud



- Postado por: Rodrigo às 10h09
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Martha Medeiros - A Morte Devagar

A Morte Devagar

Morre lentamente quem não troca de idéias, não troca de discurso, evita as próprias contradições.

Morre lentamente quem vira escravo do hábito, repetindo todos os dias o mesmo trajeto e as mesmas compras no supermercado. Quem não troca de marca, não arrisca vestir uma cor nova, não dá papo para quem não conhece.

Morre lentamente quem faz da televisão o seu guru e seu parceiro diário. Muitos não podem comprar um livro ou uma entrada de cinema, mas muitos podem, e ainda assim alienam-se diante de um tubo de imagens que traz informação e entretenimento, mas que não deveria, mesmo com apenas 14 polegadas, ocupar tanto espaço em uma vida.

Morre lentamente quem evita uma paixão, quem prefere o preto no branco e os pingos nos is a um turbilhão de emoções indomáveis, justamente as que resgatam brilho nos olhos, sorrisos e soluços, coração aos tropeços, sentimentos.

Morre lentamente quem não vira a mesa quando está infeliz no trabalho, quem não arrisca o certo pelo incerto atrás de um sonho, quem não se permite,  uma vez na vida, fugir dos conselhos sensatos.

Morre lentamente quem não viaja, quem não lê, quem não ouve música, quem não acha graça de si mesmo.

Morre lentamente quem destrói seu amor-próprio. Pode ser depressão, que é doença séria e requer ajuda profissional. Então fenece a cada dia quem não se deixa ajudar.

Morre lentamente quem não trabalha e quem não estuda, e na maioria das vezes isso não é opção e, sim, destino: então um governo omisso pode matar lentamente uma boa parcela da população.

Morre lentamente quem passa os dias queixando-se da má sorte ou da chuva incessante, desistindo de um projeto antes de iniciá-lo, não perguntando sobre um assunto que desconhece e não respondendo quando lhe indagam o que sabe. Morre muita gente lentamente, e esta é a morte mais ingrata e traiçoeira, pois quando ela se aproxima de verdade, aí já estamos muito destreinados para percorrer o pouco tempo restante. Que amanhã, portanto, demore muito para ser o nosso dia. Já que não podemos evitar um final repentino, que ao menos evitemos a morte em suaves prestações, lembrando sempre que estar vivo exige um esforço bem maior do que simplesmente respirar.

Martha Medeiros



- Postado por: Rodrigo às 13h55
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O mundo que venci deu-me um amor - Mário Faustino

O mundo que venci deu-me um amor

"O mundo que eu venci deu-me um amor,
Um troféu perigoso, este cavalo
Carregado de infantes couraçados.
O mundo que venci deu-me um amor
Alado galopando em céus irados,
Por cima de qualquer muro de credo.
Por cima de qualquer fosso de sexo.
O mundo que venci deu-me um amor
Amor feito de insulto e pranto e riso,
Amor que força as portas dos infernos,
Amor que galga o cume ao paraíso.
Amor que dorme e treme. Que desperta
E torna contra mim, e me devora
E me rumina em cantos de vitória..."

Mário Faustino



- Postado por: Rodrigo às 11h18
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Mário Quintana: 30 de julho de 1906 — 5 de maio de 1994

Jardim Interior

Todos os jardins deviam ser fechados,
com altos muros de um cinza muito pálido,
onde uma fonte
pudesse cantar
sozinha
entre o vermelho dos cravos.
O que mata um jardim não é mesmo
alguma ausência
nem o abandono...
O que mata um jardim é esse olhar vazio
de quem por eles passa indiferente.

Mario Quintana

In: A cor do invisível, de 1989



- Postado por: Rodrigo às 11h10
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Mário Quintana: 30 de julho de 1906 — 5 de maio de 1994

A árvore dos poemas

Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de enterrados vivos,
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas retirantes...
De vez em quando uma tomba, exausta à beira do caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de cântaro,
a doçura de fruto que poderia haver num poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas seguirem
seguirem como animais em estúpida migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas?

Mario Quintana

In: Baú de espantos



- Postado por: Rodrigo às 10h59
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E Pra Sempre Te Amar...

E Pra Sempre Te Amar

Me lembro bem do dia, a hora e o lugar
Que eu fiquei ligado em você
Me aventurei mas não quis me arriscar
Eu só pensei no prazer

Logo depois vi que era tarde demais
Pra tentar fugir de você
Eu me envolvi, não consegui disfarçar
E o impossível aconteceu

Mas se meu destino te pôs no meu caminho
Meu Deus, quem sou eu pra evitar?

Hoje eu quero ser teu homem
Te dar até meu sobrenome
Apagar de vez o teu passado
Escrever um futuro do meu lado
E aceite apenas um pedido
E venha então viver comigo
Eu juro que o melhor que eu posso te dar
É pra sempre te amar

Eu que lutei pra me impedir de gostar
No primeiro beijo eu me perdi
Daquele exato momento pra cá
Eu já não mandava em mim...

Composição: Feio

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=KwIP4qbPwTc



- Postado por: Rodrigo às 16h43
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"Presença é pouco..."

"Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida."

Clarice Lispector

In: A descoberta do mundo
Editora Nova Fronteira
RJ: 1994
p. 144



- Postado por: Rodrigo às 15h59
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Noel de Medeiros Rosa: 11 de dezembro de 1910 — 4 de maio de 1937

Dê a quem você ama
asas para voar,
raízes para voltar,
motivos para ficar. 

* *

Até Amanhã

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
Até amanhã, até já, até logo

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Eu sei me livrar do perigo
Num golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo
Até amanhã, até já, até logo

Composição: Noel Rosa



- Postado por: Rodrigo às 15h43
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Mãos Dadas - Carlos Drummond de Andrade

Mãos dadas

Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, não nos afastemos.
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes,
a vida presente

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 15h33
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Cecília Meireles - Canção Mínima

CANÇÃO MÍNIMA

No mistério Sem-Fim,
equilibra-se um planeta.

E no planeta, um jardim,
e no jardim, um canteiro;
no canteiro, uma violeta,
e sobre ela, o dia inteiro,

entre o planeta e o Sem-Fim,
a asa de uma borboleta

Cecília Meireles

In: Obra Poética,
ed. Rio Janeiro, Aguilar,
1985, p. 163



- Postado por: Rodrigo às 21h12
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José Saramago - Intimidade

Intimidade

No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,

Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,

No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago

In: Os Poemas Possíveis



- Postado por: Rodrigo às 21h05
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Ayrton Senna da Silva: 21 de março de 1960 — 1 de maio de 1994

"Deus me dá força. A vida é um presente que Deus nos deu e que somos obrigados a tratar com cuidado."

* * *

"Se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que se deve começar, através da sua educação."

Ayrton Senna

Fonte: senna.com.br 



- Postado por: Rodrigo às 20h58
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