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Perfil BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos |




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Intempéries
És lava incandescente, fogo extremo,
que queima e torra e funde e vaporiza!
E como terremoto, és movimento
que abala as estruturas que se cria.
És chuva torrencial, inundação,
que lava e leva e louva a toda vida!
E como vento forte, és furacão
que eleva em vôo tão leve e te levita.
És força original, desde idos tempos,
que molda e move e mexe a massa toda.
E nós, meros mortais, nos envolvemos,
e queima e treme e molha e também voa.
Maior que todas forças naturais,
o amor que tua presença aqui me traz...
29/05/2009
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


(...) - Podia-me dizer por favor, qual é o caminho para sair daqui? - perguntou Alice.
- Isso depende muito do lugar para onde você quer ir. - disse o Gato.
- Não me importa muito onde... - disse Alice.
- Nesse caso não importa por onde você vá. - disse o Gato.
- ... contanto que eu chegue a algum lugar. - acrescentou Alice como explicação.
- É claro que isso acontecerá. - disse o Gato - desde que você ande durante algum tempo.
Lewis Carroll
In: Alice no País das Maravilhas


Definição de poesia
Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.
Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas —
Geada no canteiro, tombado.
Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.
Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

BORIS PASTERNAK
Tradução de Haroldo de Campos


NESTE MOMENTO TERNO E PENSATIVO
Neste momento terno e pensativo
Aqui sentado a sós
Sinto que existem noutras terras outros homens
Ternos e pensativos,
Sinto que posso dar uma espiada
Por cima e avistá-los
Na França, Espanha, Itália e Alemanha
Ou mais longe ainda
No Japão, China ou Rússia,
Falando outros dialetos,
E sinto que se me fosse possível
Conhecer esses homens
Eu poderia bem ligar-me a eles
Como acontece com homens de minha terra,
Ah e sei que poderíamos
Ser irmãos ou amantes
E que com eles eu estaria feliz.

Walt Whitman


(...) "Serei eu o romântico, o ingênuo? Serei o que quiseres em teu pensamento, tampouco me entendo, mas sinto-me livre para dizer-te: te amo muito, sem rendimento, aceso, amor sem formato, altura ou peso, amor sem conceito, aceitação, impassível de julgamento, aberto, incorreto, amor que nem sabe se é este o nome direito, amor, mas que seja amor. Te amo muito, e subscrevo-me." (Carta Extraviada 3)
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 68-9


Leve como um anjo
És céu
estrelado no meu eu,
cintilado no meu olhar
com mensagens de amor,
sustentando imagens de desejo.
És a chave
do meu acontecer,
sentido-me em nuvens inspiradas
pela corrente do teu rio onde nado fiel.
Atrai-me
com todos os filamentos
do teu ser tão leve como um anjo,
circulando nas planícies da minha mente.
Moras
no diário sábio
nos meus pensamentos,
dominante de todas as dimensões,
desmedidamente esquecido de todos os senãos.
O teu
chegar até a mim,
correspondente à essência
do sentimento que cria a existência,
um dom maravilhoso que nos envolve de amor.
Movo-me
por fantasias
que alimentam o peso perfeito
da imortalidade consolidada e evidenciada
na causa e efeito do meu acreditar em ti, em nós.
És o início
das minhas palavras
antecipadas por emoções,
pronunciadas ao deixar vaguear
o intenso vital das sensações recebidas,
inteiramente de um olhar sobre todas as coisas
que me rodeiam sem preconceitos manifestando
o universo por inteiro nas palmas das mãos abertas,
para te receber nas almofadas quentes do meu templo.
Autor Desconhecido


(...) Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
Manuel Antônio de Almeida
In: Memórias de um Sargento de Milícias
Capitulo VII, Tomo II – Remédio aos Males
Ateliê Editorial, 2000
p. 240


Faltando um Pedaço
O amor é um grande laço, um passo pr'uma armadilha
Um lobo correndo em círculos pra alimentar a matilha
Comparo sua chegada com a fuga de uma ilha:
Tanto engorda quanto mata feito desgosto de filha
O amor é como um raio galopando em desafio
Abre fendas cobre vales, revolta as águas dos rios
Quem tentar seguir seu rastro se perderá no caminho
Na pureza de um limão ou na solidão do espinho
O amor e a agonia cerraram fogo no espaço
Brigando horas a fio, o cio vence o cansaço
E o coração de quem ama fica faltando um pedaço
Que nem a lua minguando, que nem o meu nos seus braços
Composição: Djavan
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=bJrgqgkReHA


aos predadores da utopia
dentro de mim
morreram muitos tigres
os que ficaram
no entanto
são livres
Lau Siqueira
In: O Guardador de Sorrisos


ILUSÕES DA VIDA
Quem passou pela vida em branca nuvem,
E em plácido repouso adormeceu;
Quem não sentiu o frio da desgraça,
Quem passou pela vida e não sofreu;
Foi espectro de homem, não foi homem,
Só passou pela vida, não viveu.
Francisco Otaviano de Almeida Rosa
Fonte: http://www.academia.org.br/abl/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=861&sid=169


"Quando eu me encontrava na metade do caminho de nossa vida, me vi perdido em uma selva escura, e a minha vida não mais seguia o caminho certo. Ah, como é difícil descrevê-la! Aquela selva era tão selvagem, cruel, amarga, que a sua simples lembrança me traz de volta o medo. Creio que nem mesmo a morte poderia ser tão terrível. Mas, para que eu possa falar do bem que dali resultou, terei antes que falar de outras coisas, que do bem, passam longe.
Eu não sei como fui parar naquele lugar sombrio. Sonolento como eu estava, devo ter cochilado e por isso me afastei da via verdadeira. Mas, ao chegar ao pé de um monte onde começava a selva que se estendia vale abaixo, olhei para cima e vi aquela ladeira coberta com os primeiros raios do Sol. A cena trouxe luz à minha vida, afastou de vez o medo e me deu novas esperanças. Decidi então subir aquele monte. Olhei para trás uma última vez, para aquela selva que nunca deixara uma alma viva escapar, descansei um pouco, e depois, iniciei a escalada."
Dante Alighieri
In: La Divina Commedia (A Divina Comédia)
Canto I - Inferno
Adaptação em prosa: Helder da Rocha
Ilustração de Gustave Doré (séc XIX)


Não que eu queira...
Não que eu queira tirar a liberdade
De quem só nasceu para dominar-me:
Não que eu queira abusar dessa vaidade,
Aos pés de quem eu tenho de humilhar-me:
Não que a torto e a direito eu só quisesse
Guiá-lo, procurando o meu prazer:
Mas queria que aos dois satisfizesse,
Que o meu desejo fosse o seu querer.
Pernette Du Guillet
In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo: Ed. Landy, 2002
p. 21


Meu amor é simplesmente amor - nem mais nem menos. Não posso conceber como amar menos. Eu tentei! Porém, envergonho-me de dizer-lhes que fracassei continuamente por toda a minha vida. Não fui capaz de amar menos, e nem posso amar mais. "Mais" e "menos" são palavras que não pertencem ao reino espiritual. Elas pertencem ao mundo da matéria.
A palavra "matéria" vem de uma raiz sânscrita, matra. Significa "aquilo que pode ser medido". Aquillo que pode ser medido não é o meu amor. Aquilo que não pode ser medido, aquilo que não pode ser mais ou menos, aquilo que é para você compartilhar...
Porque toda esta existência é feita da substância chamada amor. Quando você compreende sua realidade, você compreende em miniatura a realidade de toda a existência - ela é feita da matéria chamada amor. Estamos vivendo num oceano de amor, sem nos dar conta.
Osho
In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 46

Retrato de um café curitibano
Para ela, três colheres de açúcar,
Para ele, nada.
Sua vida sempre fora mais amarga.
No café - corpos moles
Mergulhavam suas colheres
Em pensamentos
E goles.
Vanessa de Mello Brito
Fonte: http://simultaneidades.blogspot.com


Regresso
não te peço pra chorar comigo
apenas me abrace
me ofereça o ombro amigo
não te peço pra me fazer sorrir
apenas me ouça
que ninguém quer me ouvir
se eu fugir um dia vou sozinho
você não poderia
seguir meu caminho
apenas uma coisa te peço
teu ombro e teu ouvido
quando do meu regresso
(11/02/2009)
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


Ah, meu amor, não tenhas medo da carência: ela é o nosso destino maior. O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

Clarice Lispector
In: A Paixão Segundo G.H.


Os homens de profunda tristeza se denunciam quando estão felizes: têm uma maneira de agarrar a felicidade, como se a quisessem esmagar e sufocar, por ciúme - eles sabem muito bem como ela escapa!
Friedrich Nietzsche
In: Além do bem e do mal
Ed. Companhia das Letras
p. 189


91.
atravesso um penhasco caminhando por uma corda suspensa
ou quase isso quando telefono para sua casa e está chamando
enfrento uma corredeira num bote velho e sem remos
ou quase isso cada vez que você diz que tem algo para me dizer
mergulho num mar gelado e profundo sem escafandro
ou quase isso se percebo em você um perfume inusual
amar você é meu esporte mais radical
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 105


URGENTEMENTE
É urgente o amor.
É urgente um barco no mar.
É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos,
muitas espadas.
É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.
Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.
Eugénio de Andrade


Agora o verão se foi
E poderia nunca ter vindo.
No sol está quente.
Mas tem de haver mais.
Tudo aconteceu,
Tudo caiu em minhas mãos
Como uma folha de cinco pontas,
Mas tem de haver mais.
A vida me recolheu
À segurança de suas asas,
Minha sorte nunca falhou,
Mas tem de haver mais.
Nem uma folha queimada,
Nem um graveto partido.
Claro como um vidro é o dia,
Mas tem de haver mais.
Arseni Tarkovski


- Sabe, eu sinto que o mais importante, no casamento, é o amor, é encontrar um jovem com quem a gente se entenda, com quem a gente sinta a emoção de estar junto. Meu sonho é casar com alguém que me respeite, que reparta comigo a liberdade e o amor. Eu queria tanto estar ao lado de um noivo que tivesse coração, que fosse terno, que se sensibilizasse, por exemplo, diante de uma noite de luar... Enfim, não sei explicar... Por favor, não se ria de mim. Estou confusa.
Lauro Trevisan
In: Só o Amor é Infinito - 14a. Edição
Santa Maria/RS: Ed. Mente, 2002
p. 10

Rosa
Tu és divina e graciosa
Estátua majestosa
No amor!
Por Deus esculturada
E formada com ardor...
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olôr
Que na vida é preferida
Pelo beija-flor...
Se Deus
Me fora tão clemente
Aqui neste ambiente
De luz, formada numa tela
Deslumbrante e bela...
Teu coração
Junto ao meu lanceado
Pregado e crucificado
Sobre a rosa e a cruz
Do arfante peito teu...
Tu és a forma ideal
Estátua magistral
Oh! alma perenal
Do meu primeiro amor
Sublime amor...
Tu és de Deus
A soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração
Sepultas um amor...
O riso, a fé, a dor
Em sândalos olentes
Cheios de sabor
Em vozes tão dolentes
Como um sonho em flor...
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim
Que tem de belo
Em todo resplendor
Da santa natureza...
Perdão!
Se ouso confessar-te
Eu hei de sempre amar-te
Oh! flor!
Meu peito não resiste
Oh! meu Deus
O quanto é triste
A incerteza de um amor
Que mais me faz penar
Em esperar
Em conduzir-te
Um dia ao pé do altar...
Jurar aos pés do Onipotente
Em preces comoventes
De dor, e receber a unção
Da tua gratidão...
Depois de remir meus desejos
Em nuvens de beijos
Hei de envolver-te
Até meu padecer
De todo fenecer...
Composição: Pixinguinha, Otavio de Sousa
Ouça a interpretação de Marisa Monte aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=EX_mlgq9iEc&feature=related


PALAVRAS AO MAR
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Junto da espuma com que as praias bordas,
Pelo marulho acalentada, à sombra
Das palmeiras que arfando se debruçam
Na beirada das ondas - a minha alma
Abriu-se para a vida como se abre
A flor da murta para o sol do estio.
Quando eu nasci, raiava
O claro mês das garças forasteiras:
Abril, sorrindo em flor pelos outeiros,
Nadando em luz na oscilação das ondas,
Desenrolava a primavera de ouro;
E as leves garças, como olhas soltas
Num leve sopro de aura dispersadas,
Vinham do azul do céu turbilhonando
Pousar o vôo à tona das espumas...
É o tempo em que adormeces
Ao sol que abrasa: a cólera espumante,
Que estoura e brame sacudindo os ares,
Não os sacode mais, nem brame e estoura;
Apenas se ouve, tímido e plangente,
O teu murmúrio; e pelo alvor das praias,
Langue, numa carícia de amoroso,
As largas ondas marulhando estendes...
Ah! vem daí por certo
A voz que escuto em mim, trêmula e triste,
Este marulho que me canta na alma,
E que a alma jorra desmaiado em versos;
De ti, de tu unicamente, aquela
Canção de amor sentida e murmurante
Que eu vim cantando, sem saber se a ouvia,
Pela manhã de sol dos meus vinte anos.
Ó velho condenado
Ao cárcere das rochas que te cingem!
Em vão levantas para o céu distante
Os borrifos das ondas desgrenhadas.
Debalde! O céu, cheio de sol se é dia,
Palpitante de estrelas quando é noite,
Paira, longínquo e indiferente, acima
Da tua solidão, dos teus clamores...
Condenado e insubmisso
Como tu mesmo, eu sou como tu mesmo
Uma alma sobre a qual o céu resplende
- Longínquo céu - de um esplendor distante.
Debalde, o mar que em ondas te arrepelas,
Meu tumultuoso coração revolto
Levanta para o céu como borrifos,
Toda a poeira de ouro dos meus sonhos.
Sei que a ventura existe,
Sonho-a; sonhando a vejo, luminosa.
Como dentro da noite amortalhado
Vês longe o claro bando das estrelas;
Em vão tento alcançá-la, e as curtas asas
Da alma entreabrindo, subo por instantes...
O mar! A minha vida é como as praias,
E o sonho morre como as ondas voltam!
*
Mar, belo mar selvagem
Das nossas praias solitárias! Tigre
A que as brisas da terra o sono embalam,
A que o vento do largo eriça o pêlo!
Ouço-te às vezes revoltado e brusco,
Escondido, fantástico, atirando
Pela sombra das noites sem estrelas
A blasfêmia colérica das ondas...
Também eu ergo às vezes
Imprecações, clamores e blasfêmias
Contra essa mão desconhecida e vaga
Que traçou meu destino... Crime absurdo
O crime de nascer! Foi o meu crime.
E eu expio-o vivendo, devorado
Por esta angústia do meu sonho inútil.
Maldita a vida que promete e falta,
Que mostra o céu prendendo-nos à terra,
E, dando as asas, não permite o vôo!
*
Ah! cavassem-te embora
O túmulo em que vives - entre as mesmas
Rochas nuas que os flancos te espedaçam,
Entre as nuas areias que te cingem...
Mas fosses morto, morto para o sonho,
Morto para o desejo de ar e espaço,
E não pairasse, como um bem ausente,
Todo o infinito em cima de teu túmulo!
Fosse tu como um lago,
Como um lago perdido entre as montanhas:
Por só paisagem - áridas escarpas,
Uma nesga de céu como horizonte...
E nada mais! Nem visses nem sentisses
Aberto sobre ti de lado a lado
Todo o universo deslumbrante - perto
Do teu desejo e além do teu alcance!
Nem visses nem sentisses
A tua solidão, sentindo e vendo
A larga terra engalanada em pompas
Que te provocam para repelir-te;
Nem buscando a ventura que arfa em roda,
A onda elevasses para a ver tombando,
- Beijo que se desfaz sem ter vivido,
Triste flor que já brota desfolhada...
*
Mar, belo mar selvagem!
O olhar que te olha só te vê rolando
A esmeralda das ondas, debruada
Da leve fímbria de irisada espuma...
Eu adivinho mais: eu sinto... ou sonho
Um coração chagado de desejos
Latejando, batendo, restrugindo
Pelos fundos abismos do teu peito.
Ah, se o olhar descobrisse
Quanto esse lençol de águas e de espumas
Cobre, oculta, amortalha!... A alma dos homens
Apiedada entendera os teus rugidos,
Os teus gritos de cólera insubmissa,
Os bramidos de angústia e de revolta
De tanto brilho condenado à sombra,
De tanta vida condenada à morte!
*
Ninguém entenda, embora,
Esse vago clamor, marulho ou versos,
Que sai da tua solidão nas praias,
Que sai da minha solidão na vida...
Que importa? Vibre no ar, acode os ecos
E embale-nos a nós que o murmuramos...
Versos, marulho! Amargos confidentes
Do mesmo sonho que sonhamos ambos!
Vicente de Carvalho
In: Poemas e canções, 1908
Fonte: http://www.academia.org.br/


Síntese da Felicidade / Desejos
Desejo a você... / Felicidade é... : Fruto do mato
Cheiro de jardim
Namoro no portão
Domingo sem chuva
Segunda sem mau humor
Sábado com seu amor
Filme do Carlitos
Chope com amigos
Crônica de Rubem Braga
Viver sem inimigos
Filme antigo na TV
Ter uma pessoa especial
E que ela goste de você
Música de Tom com letra de Chico
Frango caipira em pensão do interior
Ouvir uma palavra amável
Ter uma surpresa agradável
Ver a Banda passar
Noite de lua Cheia
Rever uma velha amizade
Ter fé em Deus
Não ter que ouvir a palavra "não"
Nem "nunca", nem "jamais" e "adeus".
Rir como criança
Ouvir canto de passarinho
Sarar de resfriado
Escrever um poema de Amor
Que nunca será rasgado
Formar um par ideal
Tomar banho de cachoeira
Pegar um bronzeado legal
Aprender um nova canção
Esperar alguém na estação
Queijo com goiabada
Pôr-do-Sol na roça
Uma festa
Um violão
Uma seresta
Recordar um amor antigo
Ter um ombro sempre amigo
Bater palmas de alegria
Uma tarde amena
Calçar um velho chinelo
Sentar numa velha poltrona
Tocar violão para alguém
Ouvir a chuva no telhado
Vinho branco
Bolero de Ravel
E muito carinho meu.
Autoria Desconhecida, até então
Acabei de ver na Rede Record esse texto citado como sendo de Carlos Drummond de Andrade. A menos que tenha sido escrito em algum artigo de jornal (que sinceramente duvido, este “Drummond” desconheço: bronzeado legal ??? ... Calçar um velho chinelo / Sentar numa velha poltrona / Tocar violão para alguém... Bolero de Ravel / E muito carinho meu). Por enquanto, "Em busca da Autoria".
Lista de textos com autoria e/ou falta do devido destaque aos verdadeiros “circulando na net”: http://www.rosangelaliberti.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=1115062


VELHO TEMA
Fatigado viajor, que do deserto,
Ledo, percorre o areal que o sol castiga,
Busca um pouso na terra, onde se abriga,
Vendo as sombras da noite que vem perto.
Assim também, - ó minha doce amiga! -
Em meio ainda do percurso incerto,
No teu regaço, para mim aberto,
Fui repousar, exausto de fadiga...
De uma planta fatal, que em meio à trilha
Em flores perfumosas se desata,
Bebe a morte o viajor que o sonho pilha...
Assim teu beijo a vida me arrebata
- Beijo que guarda como a mancenilha
O mesmo aroma que envenena e mata!
Osório Duque-Estrada
Fonte: http://www.academia.org.br/


Após a tua partida, tive a necessidade de isolar-me para meditar e fazer um acerto de contas comigo mesma. Algo fiquei me devendo, e enquanto não se fizesse luz na confusão dos meus sentimentos, enquanto não compreendesse o que aconteceu, como e por que assim aconteceu, eu não teria paz.
Elisa Lispector
In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 10


Trova do vento que passa
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Manuel Alegre


"Não seja escravo do passado - mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe; você voltará com respeito por si mesmo, com um novo vigor, com uma experiência a mais, que vai explicar a anterior e superá-la."
* * *
Porque me apressaria em resolver todos os enigmas que me oferece a vida?
Ralph Waldo Emerson
In: A conduta para a vida
Ed. Martin Claret
p. 145

"O meio de combater uma ideia é lançar ao seu encontro uma ideia melhor. (...) Nunca no mundo uma bala matou uma ideia"

Somerset Maugham


EU ERA APENAS QUANTO
Eu era apenas quanto
a tua mão tocasse
ou sobre o que inclinavas,
no breu da noite, a face.
Eu era, embaixo, quanto
notavas turvo, apenas:
traços, no início, vagos;
feições, mais tarde, plenas.
Foste quem logo, ardente,
criou-me a sussurrar,
seja à direita, à esquerda,
a concha auricular.
Foste, a agitar cortinas,
quem, na umidade cava
da boca, introduziu-me
a voz que te chamava.
Eu era cego e, vindo,
sumindo-te de mim,
doaste-me a visão.
Fica um vestígio, assim.
E, assim, criam-se mundos
que são postos de lado,
girando, quando prontos,
presente abandonado.
Em meio, pois, de treva
e luz, calor e frio,
prossegue o nosso globo
seu giro no vazio.
Joseph Brodsky
Tradução de Nelson Ascher e Boris Schnaiderman (original em russo)


Naquela tarde, quando cheguei ao adrozito do Senhor dos Navegantes, demorei-me a contemplar o mar vasto que dali se descortinava, então muito sereno, com suas velas graciosas e fugidias. Em baixo, estendia-se a grande praia semi-selvagem. À direita, rompendo de entre um pinhal e com o seu verde contrastando, espaireciam casitas modernas, todas faceiras e coloridas, ao passo que, da banda oposta, aglomeravam-se as barracas dos pescadores, em forma de ilha sobre a areia e tão velhas, negras e roídas pelos anos como se fossem as mesmas que deixaram ali os primeiros habitantes do litoral. Dir-se-ia que o tempo parara do lado onde se trabalhava rudemente ao sol, muitas vezes de colaboração com a morte, para se activar naquele onde se descansava à sombra tranquila dos pinheiros.
Ferreira de Castro
In: O Senhor dos Navegantes
Lisboa, Expo' 98, 1998
p. 09


Náusea ou é a morte que vem?
Entrega-te, meu coração.
Lutamos bastante.
E que minha vida cesse.
Não fomos covardes,
Fizemos o que pudemos.
Ah! Minha alma,
Partes ou ficas,
precisas decidir.
Não me tateies assim os órgãos,
Ora com atenção, ora com frenesi,
Partes ou ficas,
Precisas decidir.
Eu não aguento mais.
Senhores da morte,
Eu não vos blasfemei nem aplaudi.
Tende pena de mim, viajante já de tantas viagens sem malas,
Sem mestre tampouco, sem riqueza e a glória foi-se embora para outro lugar,
Sois potentes certamente, e esquisitos sobretudo,
Tende pena deste homem desvairado, que antes de ultrapassar a barreira já vos grita seu nome,
Agarrai-o em pleno voo,
Que ele se acostume, se conseguir, a vossos temperamentos e a vossos hábitos,
E se tiverdes a bondade de ajudá-lo, ajudai-o, eu vos suplico.
Henri Michaux
In: Ecuador.
Paris: Gallimard, 1929


"Ser você mesmo e não ter medo de estar certo ou errado é mais admirável do que a fácil covardia de render-se à conformidade"
Irving Wallace


Peço Silêncio
Agora me deixem tranqüilo.
Agora se acostumem sem mim.
Eu vou fechar os olhos
E só quero cinco coisas,
Cinco raízes preferidas.
Uma é o amor sem fim.
Em segundo é ver o outono.
Não posso existir
Sem que as folhas voem
E voltem para a terra.
Em terceiro é o inverno rigoroso,
a chuva que amei,
A carícia do fogo no frio silvestre.
Em quarto lugar o verão,
redondo como uma melancia.
A quinta coisa é teus olhos
Matilde minha, bem amada.
Não quero dormir sem teus olhos,
Não quero ser sem que me olhes.
Eu troco a primavera
Para que continues me olhando.
(...)

Pablo Neruda

BERNICK - Ao passo que nós temos à nossa frente um dia de trabalho... principalmente eu... Enquanto vos tiver junto de mim, a vós, mulheres fiéis e verdadeiras, sinto-me bem... Nestes últimos dias aprendi também que são elas os autênticos pilares da comunidade...
LONA - Então aprendeste mal... (Pondo-lhe as mãos nos ombros.) Ouve, os pilares da comunidade são o espírito de justiça e de liberdade.
Henrik Ibsen
In: Samfundets Støtter
As Colunas da Sociedade - 1877


Procissão de Saudade
Divergência entre casais
É muito natural
Discussões
Discordar de opinião até
Mas você mentiu
E me tirou a paz
Me desiludiu
Me fez perder a fé
Por isto, meu amor
Não voltarei atrás
Chega de mentira
Chega de maldade
Chega
Não adianta enganar mais
Cada qual para o seu lado
Mais um lar desmoronado
E a saudade, amor
Em procissão atrás
Composição: Silvio Caldas


Casa No Campo
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa compor muitos rocks rurais
E tenha somente a certeza
Dos amigos do peito e nada mais
Eu quero uma casa no campo
Onde eu possa ficar no tamanho da paz
E tenha somente a certeza
Dos limites do corpo e nada mais
Eu quero carneiros e cabras pastando solenes
No meu jardim
Eu quero o silêncio das línguas cansadas
Eu quero a esperança de óculos
Meu filho de cuca legal
Eu quero plantar e colher com a mão
A pimenta e o sal
Eu quero uma casa no campo
Do tamanho ideal, pau-a-pique e sapé
Onde eu possa plantar meus amigos
Meus discos e livros
E nada mais
Composição: Zé Rodrix e Tavito
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=75LcZFvLRrQ


"(...) O acréscimo é mais fácil de amar.
E agora não estou tomando tua mão para mim. Sou eu quem está te dando a mão. Agora preciso de tua mão, não para que eu não tenha medo, mas para que tu não tenhas medo. Sei que acreditar em tudo isso será, no começo, a tua grande solidão. Mas chegará o instante em que me darás a mão, não mais por solidão, mas como eu agora: por amor. Como eu, não terás medo de agregar-te à extrema doçura enérgica do Deus. Solidão é ter apenas o destino humano.
E solidão é não precisar..."

Clarice Lispector
In: A Paixão Segundo G.H.


El Desdichado
Eu Sou o Tenebroso, – o Viúvo, – o Inconsolado,
O Duque de Aquitânia em sua abolida Torre:
Morreu minha Estrela – e meu lude constelado
Traz o Sol negro, onde a Melancolia acorre.
Na noite Tumular, Tu que me hás consolado
Dá-me o Posílipo e o mar que na Itália corre,
A flor que tanto apraz meu peito desolado,
E a parreira de onde Pâmpano e Rosa escorrem.
Serei Amor ou Febo?… Lusignam ou Biron ?
Tenho a testa ainda rubra do beijo da Rainha;
Sonhei na Gruta onde minha Sereia brinca…
Duas vezes vencedor atravessei o Aqueronte
Modulando aos bocados na lira de Orpheu
Os suspiros da Santa e os ais que a Fada deu.
Gérard de Nerval


“O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.
Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real...”

Victor Hugo
In: Les Travailleurs de la Mer
Livro Terceiro: Durande e Déruchette
Ed. Nova Cultural, 2003
Tradução de Machado de Assis

Eu também
Eu também canto a América.
Eu sou o irmão mais escuro.
Eles me mandam comer na cozinha
quando chega visita.
Mas eu rio
e como bem
e vou crescendo.
Amanhã,
eu me sentarei a mesa,
quando houver visita.
Ninguém se atreverá
a dizer-me:
‘Vai comer na cozinha”.
Além disso,
eles verão como eu sou belo
e ficarão envergonhados.
Eu, também, sou América.

Langston Hughes


"Eu nunca fui desde a infância jamais semelhante aos outros. Nunca via as coisas como os outros as viam. Nunca logrei apaziguar minhas paixões na fonte comum. Nunca tampouco extrair dela os meus sofrimentos. Nunca pude em conjunto com os outros despertar o meu peito para as doces alegrias, e quando eu amei o fiz sempre sozinho. Por isso, na aurora da minha vida borrascosa evoquei como fonte de todo o bem o todo o mal. O mistério que envolve, ainda e sempre, por todos os lados, o meu cruel destino..."

Edgar Allan Poe
Publicado postumamente na edição de setembro de 1875 do Scribner's Magazine.


PROFISSÃO DE FÉ
Invejo o ourives quando escrevo:
Imito o amor
Com que ele, em ouro, o alto relevo
Faz de uma flor.
Imito-o. E, pois, nem de Carrara
A pedra firo:
O alvo cristal, a pedra rara,
O ônix prefiro.
Por isso, corre, por servir-me,
Sobre o papel
A pena, como em prata firme
Corre o cinzel.
Corre; desenha, enfeita a imagem,
A idéia veste:
Cinge-lhe ao corpo a ampla roupagem
Azul-celeste.
Torce, aprimora, alteia, lima
A frase; e, enfim,
No verso de ouro engasta a rima,
Como um rubim.
Quero que a estrofe cristalina,
Dobrada ao jeito
Do ourives, saia da oficina
Sem um defeito..."
Olavo Bilac


Balanço
A Carlos Drummond de Andrade
Olho teu rosto como imagem
parada um instante
refletida no profundo fundo
de um poço.
E da memória
não me interessa mais que isto.
* * *
Terra
em golfadas envolve-me toda,
apagando as marcas individuais,
devora-me até que eu
não respire mais.
* * *
Pedido
A Manuel Bandeira
Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
– um no cérebro outro no peito –
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha – lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.
Meu velho poeta canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.
Olga Savary


47.
o que me prejudica
é essa mania de dizer a verdade
quando deveria mentir
e fingir que estou à vontade
quando na verdade machuca
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 56


Ritmo
Na porta
a varredeira varre o cisco
varre o cisco
varre o cisco
Na pia
a menininha escova os dentes
escova os dentes
escova os dentes
No arroio
a lavadeira bate roupa
bate roupa
bate roupa
até que enfim
se desenrola
a corda toda
e o mundo gira imóvel como
um pião!

Mário Quintana


"Meu dia-a-dia tem muitas vezes o mesmo decurso. Levanto sempre no mesmo horário. Executo o mesmo trabalho. E este nem sempre é interessante. Mas quando digo sim à mediunidade de meu dia-a-dia, ele se torna para mim um campo importante de exercício espiritual. Pois nele exercito a fidelidade: a fidelidade a mim, às pessoas e a Deus. Ali exercito a abnegação. Nesse trabalho eu me dedico às pessoas para as quais aqui estou. Então meu dia-a-dia não fica vazio, mas é um lugar em que exercito e torno realidade o meu amor. Terei então também encontros que me trazem alegria. E, de repente, o vazio se torna cheio, o banal se transforma em santificado e a rotina é quebrada pelas surpresas divinas nas quais irrompe em meu dia-a-dia o indispensável amor de Deus."
Anselm Grün
In: O livro das respostas


Aquarela Brasileira
Vejam esta maravilha de cenário
é um episódio relicário
que o artista num sonho genial
escolheu para este carnaval
e o asfalto como passarela
será a tela do Brasil em forma de aquarela
Passeando pelas cercanias do Amazonas
conheci vastos seringais
no Pará, a ilha de Marajó
e a velha cabana do Timbó
caminhando ainda um pouco mais
deparei com lindos coqueirais
estava no Ceará, terra de Irapuã
de Iracema e Tupã.
Fiquei radiante de alegria
quando cheguei na Bahia
Bahia de Castro Alves, do acarajé
das noites de magia do candomblé
Depois de atravessar as matas do Ipu
assisti em Pernambuco
a festa do frevo e do maracatu
Brasília tem o seu destaque
na arte, na beleza e arquitetura
feitiço de garoa pela serra
São Paulo engrandece a nossa terra
do Leste por todo o Centro-Oeste
tudo é belo e tem lindo matiz
o Rio dos sambas e batucadas
dos malandros e mulatas
de requebros febris.
Brasil, essas nossas verdes matas
cachoeiras e cascatas
de colorido sutil
e este lindo céu azul de anil
emolduram aquarela o meu Brasil
Império Serrano (RJ, 1964)
Composição: Silas de Oliveira
Ouça este samba por Martinho da Vila aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=VHN2TVwNhEo


Águas que, penduradas desta altura
Águas que, penduradas desta altura,
Caís sobre os penedos descuidadas,
Aonde, em branca escuma levantadas,
Ofendidas mostrais mais fermosura,
Se achais essa dureza tão segura,
Para que porfiais, águas cansadas?
Hei tantos anos já desenganadas,
E esta rocha mais áspera e mais dura.
Voltai atrás por entre os arvoredos,
Aonde caminhais com liberdade
Até chegar ao fim tão desejado.
Mas ai! que são de amor estes segredos.
Que vos não valerá própria vontade
Como a mim não valeu no meu cuidado.
FRANCISCO RODRIGUES LOBO


Sem Tempo
amo
amo ontem, amo hoje, amo amanhã
meu verbo amar não tem tempo
nem passado nem futuro
amo o amor que se foi
amo o amor que virá
vivo assim
em estado alterado
o tempo todo embriagado
de tanto amar
(16/05/2009)
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

Viajam as palavras
Passageiros, formo como que um diagrama
entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode
em minhas mãos.
A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro
mas foge, arrependida.
Vistos, de longe, de passagem,
todos os rostos são amigos, são iguais.
Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem
impressa em mim, à minha saudade
como um quadro à parede.
O possível desastre
faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido,
o pássaro do adeus.
O trem de ferro desloca o sentido das coisas.
Viajam as palavras.
Cassiano Ricardo
In: O sangue das horas


Eu nunca pude fundir o corpo e a alma numa proporção normal. O meu corpo andou sempre separado, independente da alma... e como materialmente corpo e alma formam um todo – daí a minha inquietação incessante.
Mário de Sá-Carneiro
Carta a Ricardo Teixeira Duarte (Paris, 2/12/1912)
* * *
Dispersão
Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.
Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida... (...)
Desceu-me n'alma o crepúsculo;
Eu fui alguém que passou.
Serei, mas já não me sou;
Não vivo, durmo o crepúsculo.

Mário de Sá-Carneiro
In: Poemas Completos
Edição Fernando Cabral Martins
Assírio & Alvim
2001


Sem Você
Acordo pensando que hoje esta chovendo
Levanto enfadonho... O que esta acontecendo?
Abro a janela... eis que o sol me abraça...
Mas nada me alegra por mais que tudo eu faça!
Sinto um vazio... um frio... que coisa louca!
O dia é festa... mas não sinto a alegria
O sol se vai... enfim acaba o dia...
A noite chega e amarga a minha boca!
Sinto uma dor que nem sei de onde vem...
Saudade ingrata que em mim faz morada...
De um corpo macio que me faz tão bem
Porém distante... Mas que vida ingrata!
Sinto saudade de você...
Do cheiro, do riso, do seu olhar
O que fazer para afastar a dor?
Sigo sozinho... amando-te desta maneira!
Autoria Desconhecida


"Imagine os sentimentos de duas pessoas que se encontram novamente após muitos anos. No passado, elas ficaram algum tempo juntas e portanto acham que estão unidas pela mesma experiência, pelas mesmas recordações. Pelas mesmas recordações? É aí que os mal-entendidos começam: elas não possuem as mesmas recordações; cada uma retém duas ou três pequenas cenas do passado, mas cada uma possui as suas próprias recordações, elas não são parecidas, elas não se cruzam; elas não são comparáveis nem mesmo em termos de quantidade: uma pessoa lembra-se da outra mais do que esta se lembra dela; primeiro, porque a capacidade da memória varia entre os indivíduos (uma explicação que cada uma delas acharia ao menos aceitável), mas também (e isso é mais doloroso de se admitir) porque elas não possuem a mesma importância para cada uma delas. Quando Irena viu Josef no aeroporto, ela lembrava-se de cada detalhe de sua aventura do passado; Josef não se lembrava de nada. Desde o primeiro instante, seu encontro estava baseado em uma injusta e revoltante desigualdade."
Milan Kundera
In: A Ignorância


A Defesa do Poeta
Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto
Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim
Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes
Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei
Senhores professores que puseste
a prémio minha rara edição
de raptar-me em crianças que salvo
do incêndio da vossa lição
Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis
Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além
Senhores três quatro cinco e sete
que medo vos pôs na ordem ?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem ?
Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa
Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho !
a poesia é para comer.

Natália Correia


A palavra
A palavra é uma estátua submersa, um leopardo
que estremece em escuros bosques, numa anémona
sobre uma cabeleira. Por vezes é uma estrela
que projecta a sua sombra sobre um torso.
Ei-la sem destino no clamor da noite,
cega e nua, mas vibrante de desejo
como uma magnólia molhada. Rápida é a boca
que apenas aflora os raios de uma outra luz.
Toco-lhe os subtis tornozelos, os cabelos ardentes
e vejo uma água límpida numa concha marinha.
É sempre um corpo amante e fugidio
que canta num mar musical o sangue das vogais.

António Ramos Rosa
In: Acordes
Quetzal, 1989


Foi Assim
Foi assim
Como um resto de sol no mar
Como a brisa da preamar
Nós chegamos ao fim
Foi assim
Quando a flôr ao luar se deu
Quando o mundo era quase meu
Tu te foste de mim
Volta meu bem, murmurei
Volta meu bem repeti
Não há canção nos teus olhos
Nem amanhã nesse adeus
Horas, dias, meses, se passando
E nesse passar uma ilusão guardei
Ver-te novamente na varanda
A voz sumida e quase em pranto a me dizer
Meu bem voltei
Hoje essa ilusão se fez em nada
E a te beijar outra mulher eu vi
Vi no teu olhar envenenado
O mesmo olhar do meu passado
E soube então que te perdi.
Composição: Paulo André / Ruy Barata


Para começo de conversa, afianço que só se vive, vida mesmo, quando se aprende que até a mentira é verdade. Recuso-me a dar provas. Mas se alguém insistir muito em "porquês", digo: a mentira nasce em quem cria e passa a fazer existirem novas mentiras de novas verdades.
Uma palavra é a mentira de outra.
Quero exigentemente que acreditem em mim. Quero que acreditem em mim até quando minto.

Clarice Lispetor
In: Um Sopro de Vida
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978
p. 87


JURAMENTO
Oh! poeta, por que te deixaste encantar,
Se deviam roubar-te essa gentil criança,
E se o seu coração, cheio de confiança,
Não podia por ti viver a palpitar?
Que importa! Germinou à luz do seu olhar
Na minh’alma tristonha e que a existência cansa
O amor, que nos remoça e enche de esperança;
Por isso eu devo sempre a bendizer e amar.
Feliz ou infeliz, ser-lhe-ei fiel ainda!
Amarei minha dor, pois dela será vinda,
Dela por quem do seio os males arranquei.
Virgem, de cujo olhar cativam-me os encantos,
Se me fazes chorar, eu abençôo os prantos,
Se me deres a morte, - a morte abençoarei.
Dezembro - 1879
Valentim Magalhães
In: Rimário, 1900
Fonte: http://www.academia.org.br/


Intimação
- Você deve calar urgentemente
as lembranças bobocas de menino.
- Impossivel. Eu conto o meu presente.
Com volúpia voltei a ser menino.

Carlos Drummond de Andrade
In: Boitempo I
Rio de Janeiro: Ed. Record, 1987
p. 10


Noite Apressada
Era uma noite apressada
depois de um dia tão lento.
Era uma rosa encarnada
aberta nesse momento.
Era uma boca fechada
sob a mordaça de um lenço.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!
Imensa, a casa perdida
no meio do vendaval;
imensa, a linha da vida
no seu desenho mortal;
imensa, na despedida,
a certeza do final.
Era uma haste inclinada
sob o capricho do vento.
Era a minh'alma, dobrada,
dentro do teu pensamento.
Era uma igreja assaltada,
mas que cheirava a incenso.
Era afinal quase nada,
e tudo parecia imenso!
Imensa, a luz proibida
no centro da catedral;
imensa, a voz diluída
além do bem e do mal;
imensa, por toda a vida,
uma descrença total!
David Mourão-Ferreira
In: À Guitarra e à Viola


Os Gatos
Sóbrios doutores e loucos apaixonados
Têm em comum, ao fim de uma vida feliz,
O amor pelos gatos, altivos, gentis,
Como eles friorentos e sossegados.
Grandes amigos da volúpia e do saber,
Preferem o silêncio e o terror noturnos;
Seriam do demônio os corcéis soturnos
Se em seu orgulho pudessem se submeter.
Ajeitam-se cismadores nas poses raras
Das altas esfinges no fundo dos Saaras
Que num transe infinito parecem sonhar;
O dorso fértil magicamente cintila
E uma poeira fina de ouro, a brilhar,
Fulgura de leve nas místicas pupilas.
Charles Baudeilare
Tradução de Jorge Pontual

POR SEU AMOR
Por seu amor, uso todos os sentidos
Saboreio seus beijos
Meus olhos só enxergam seu olhar
Olfato fica apurado com seu cheiro
Só ouço suas palavras de amor
Uso meu tato, para escrever
Versos de amor em seu corpo nu.
Luiza Porto


Soneto X L V
Não estejas longe de mim um só dia, porque como,
porque, não sei dizê-lo, é comprido o dia,
e te estarei esperando como nas estações
quando em alguma parte dormitaram os trens.
Não te vás por uma hora porque então
nessa hora se juntam as gotas do desvelo
e talvez toda a fumaça que anda buscando casa
venha matar ainda meu coração perdido.
Ai que não se quebrante tua silhueta na areia,
ai que não voem tuas pálpebras na ausência;
não te vás por um minuto, bem-amada,
Porque nesse minuto terás ido tão longe
que eu cruzarei toda a terra perguntando
se voltarás ou se me deixarás morrendo

Pablo Neruda


AS ROSAS NÃO FALAM
Bate outra vez
Com esperanças o meu coração
Pois já vai terminando o verão enfim
Volto ao jardim
Com a certeza que devo chorar
Pois bem sei que não queres voltar para mim
Queixo-me às rosas, que bobagem
As rosas não falam
Simplesmente as rosas exalam
O perfume que roubam de ti, ai
Devias vir para ver os meus olhos tristonhos
E quem sabe sonhavas meus sonhos por fim...
Composição: Cartola
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=BSObDOETrgU

Eles dançavam pelas ruas como peões e eu me arrastava atrás como sempre tenho feito toda minha vida atrás de pessoas que me interessam, porque as únicas pessoas que me interessam são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, que querem tudo ao mesmo tempo, aqueles que nunca bocejam ou falam chavões... mas queimam, queimam, queimam como fogos de artifício pela noite.
Jack Kerouac
In: On the road
Ed. L&PM
p. 106


Das medidas e do tamanho
Não trato palavras
nas medidas metálicas.
Aço exato
Tampouco trato palavras
nas medidas circunstanciais do calor,
dilatadas,
recolhidas.
Inconstantes.
Trato palavras
como gestos necessários,
aqueles que me salvam,
me resgatam do cotidiano,
do tempo medido nos ponteiros.
Ingrato
Trato palavras
como fragmentos de poemas
à procura de um restaurador.
Margarete Schiavinatto


Joyful - to whom the Sunrise
Precedes Enamored - Day -
Joyful - for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!
*
Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

Emily Dickinson
In: Emily Dickinson - Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
Ed. L&M POCKET
p. 61


5. Petição à melancolia para que se acabem certos dias de festa
Tu, Deusa tutelar da solidão,
Amável sombra, ó melancolia,
Aproxima-te, rouba-me a alegria
Que turba a suavidade ao coração.
Não prives o meu peito, Ninfa, não
Da tua triste e doce companhia,
Que suspira por ti um e outro dia
Quem de amar-te só faz consolação.
E não pode a que vive suspirante
Viver entre o tumulto muito espaço
Sem que faça o seu mal mais penetrante.
Atende, ó Ninfa, o rogo que te faço,
Não demores mais tempo o doce instante,
Os dias tristes, que eu tão triste passo.
Marquesa de Alorna
In: Sonetos
Organização de Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: 7 Letras, 2007
p. 928


Não estamos buscando nenhum paraíso nas nuvens. Se ele estiver lá, nós o apanharemos, mas primeiro precisamos construir um paraíso aqui na terra; essa será nossa preparação. Se pudermos viver num paraíso na terra, então, esteja ele onde estiver, será nosso.
Osho
In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 43


A janela encantada
A vida sempre foi boa comigo.
Quando soube que o meu coração
estava carregado de sombras
e que ele só se alimenta de luz,
abriu uma janela no meu peito
para que por ela possam entrar
o resplendor do orvalho
o fulgor das estrelas
e o invisível arco-íris do amor.
Thiago de Mello


Espelho Celeste
amo a lua
a sua aura
sempre acolhedora
a sua luz
na noite que é a vida em solidão
amo a lua
que torna negros vultos
doces duendes a cantar alegrias
que faz da penumbra
manto aleitado a aquecer almas tristes
amo a lua
que reflete tua luz
amor que me espera...
(09/05/2009)
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


BRASÃO
Sou o cantor da América autóctone e selvagem;
minha lira tem alma, meu canto um ideal.
Meu verso não balança pendido da ramagem,
com um vaivém pausado de rede tropical...
Quando me sinto um Inca, eu rendo vassalagem
ao Sol, que me dá o cetro de seu poder real;
quando hispano, evocando a colonial imagem,
são as minhas estrofes trombetas de cristal.
A fantasia vem-me de antepassado mouro:
os Andes são de prata, mas o Leão é de ouro;
e as duas castas fundo com épico fragor.
O sangue é espanhol e incaica sua batida;
e se não fora Poeta, talvez fosse na vida
um branco Aventureiro ou um índio Imperador!
José Santos Chocano
Tradução de Fernando Mendes Vianna


Idéias Rosas
Minhas idéias abstratas,
De tanto as tocar, tornaram-se concretas:
São rosas familiares
Que o tempo traz ao alcance da mão,
Rosas que assistem à inauguração de era novas
No meu pensamento,
No pensamento do mundo em mim e nos outros:
De eras novas, mas ainda assim
Que o tempo conheceu, conhece e conhecerá.
Rosas! Rosas!
Quem me dera houvesse
Rosas abstratas para mim.
Murilo Mendes
In: Murilo Mendes - Poesia Completa
Poesia Liberdade
Editora Nova Aguilar, 1994
p. 434


"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."
Lima Barreto
In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)


AS POMBAS
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
Raimundo Correia
In: Sinfonias, 1883


119.
Tu, só tu, puro amor, com força crua,
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
Luís de Camões
In: Os Lusíadas, Canto III, 118 a 135
Episódio de Inês de Castro
Apresentação e Notas: Ivan Teixeira
Ed. Ateliê Editorial, 1999
p. 108


Tu és a terra em que pouso:
Macia, suave, tenra, e dura o quanto baste
a que teus braços como tuas pernas
tenham de amor a força que me abraça.
és também pedra qual a terra à vezes
contra que nas arestas me lacero e firo,
mas de musgo coberta refrescando
as próprias chagas de existir contigo.
E sombra de árvores, e flores e frutos,
rendidos a meu gosto e meu sabor.
E uma água cristalina e murmurante
que me segreda só de amor no mundo.
És a terra em que pouso. Não paisagem,
não Madre. Terra nem raptada ninfa
de bosques e montanhas. Terra humana
em que me pouso inteiro e para sempre.
Jorge de Sena


Coisa Amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre


"A diferença entre as lembranças falsas e verdadeiras é a mesma das jóias: as falsas sempre aparentam ser as mais reais, as mais brilhantes."

SALVADOR DALÍ
Arte: 'Galatea de las esferas' (1952) - 65,0 X 54,0 cm - Fundación Gala Salvador Dalí , Figueras.
