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Lambuze-se de Vida

(...) Não coma a vida com garfo e faca, lambuze-se. Muita gente guarda a vida para o futuro. Mesmo que a vida esteja na geladeira, se você não a viver, ela se deteriora. é por isso que tantas pessoas se sentem emboloradas na meia-idade. Elas guardaram a vida, não se entregaram ao amor, ao trabalho, não ousaram, não foram em frente...

Hoje em dia as pessoas orientam suas vidas baseadas em idéias e métodos que já não têm relação com a própria existência. Não se alimentam direito porque sentem medo de tudo: de engordar, de emagrecer, dos agrotóxicos, da contaminação, dos malefícios para essa ou aquela doença. Quando se sentam à mesa, afirmam que precisam comer carne porque contém proteína, tomar leite porque contém cálcio... (...)

Roberto Shinyashiki

In: O sucesso é ser feliz 
Editora Gente, 124a. ed. 1997
p.181-2



- Postado por: Rodrigo às 11h06
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Vinicius de Moraes - Ai, quem me dera

Ai, quem me dera

Ai quem me dera, terminasse a espera
E retornasse o canto simples e sem fim...
E ouvindo o canto se chorasse tanto
Que do mundo o pranto se estancasse enfim

Ai quem me dera percorrer estrelas
Ter nascido anjo e ver brotar a flor
Ai quem me dera uma manhã feliz
Ai quem me dera uma estação de amor

Ah! Se as pessoas se tornassem boas
E cantassem loas e tivessem paz
E pelas ruas se abraçassem nuas
E duas a duas fossem ser casais

Ai quem me dera ao som de madrigais
Ver todo mundo para sempre afins
E a liberdade nunca ser demais
E não haver mais solidão ruim

Ai quem me dera ouvir o nunca mais
Dizer que a vida vai ser sempre assim
E finda a espera ouvir na primavera
Alguem chamar por mim...

Vinicius de Moraes

In: "Poesia completa e prosa: "Cancioneiro""



- Postado por: Rodrigo às 10h58
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Gonzaguinha: 22 de setembro de 1945 — 29 de abril de 1991

É

É!
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor...

A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade...

É!
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Prá passar a mão nela...

É!
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação...

É! É! É! É! É! É! É!...

É!
A gente quer valer o nosso amor
A gente quer valer nosso suor
A gente quer valer o nosso humor
A gente quer do bom e do melhor...

A gente quer carinho e atenção
A gente quer calor no coração
A gente quer suar, mas de prazer
A gente quer é ter muita saúde
A gente quer viver a liberdade
A gente quer viver felicidade...

É!
A gente não tem cara de panaca
A gente não tem jeito de babaca
A gente não está
Com a bunda exposta na janela
Prá passar a mão nela...

É!
A gente quer viver pleno direito
A gente quer viver todo respeito
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação
A gente quer é ser um cidadão
A gente quer viver uma nação...

(1988)

Composição: Gonzaguinha

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=N31CT6M-30g

* * *

O Que É, O Que É?

Eu fico
Com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

Viver!
E não ter a vergonha
De ser feliz
Cantar e cantar e cantar
A beleza de ser
Um eterno aprendiz...

Ah meu Deus!
Eu sei, eu sei
Que a vida devia ser
Bem melhor e será
Mas isso não impede
Que eu repita
É bonita, é bonita
E é bonita...

E a vida!
E a vida o que é?
Diga lá, meu irmão
Ela é a batida
De um coração
Ela é uma doce ilusão
Hê! Hô!...

E a vida
Ela é maravilha
Ou é sofrimento?
Ela é alegria
Ou lamento?
O que é? O que é?
Meu irmão...

Há quem fale
Que a vida da gente
É um nada no mundo
É uma gota, é um tempo
Que nem dá um segundo...

Há quem fale
Que é um divino
Mistério profundo
É o sopro do criador
Numa atitude repleta de amor...

Você diz que é luxo e prazer
Ele diz que a vida é viver
Ela diz que melhor é morrer
Pois amada não é
E o verbo é sofrer...

Eu só sei que confio na moça
E na moça eu ponho a força da fé
Somos nós que fazemos a vida
Como der, ou puder, ou quiser...

Sempre desejada
Por mais que esteja errada
Ninguém quer a morte
Só saúde e sorte...

E a pergunta roda
E a cabeça agita
Eu fico com a pureza
Da resposta das crianças
É a vida, é bonita
E é bonita...

(1982)

Composição: Gonzaguinha

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=ciw3WEoZMYQ

Fonte: http://www.gonzaguinha.com/



- Postado por: Rodrigo às 10h50
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Samba do Grande Amor - Chico Buarque

Samba do Grande Amor

Tinha cá pra mim
Que agora sim
Eu vivia enfim
O grande amor
Mentira
Me atirei assim
De trampolim
Fui até o fim um amador
Passava um verão
A água e pão
Dava o meu quinhão
Pro grande amor
Mentira
Eu botava a mão
No fogo então
Com meu coração de fiador

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Fui muito fiel
Comprei anel
Botei no papel
O grande amor
Mentira
Reservei hotel
Sarapatel
E lua de mel
Em Salvador
Fui rezar na Sé
Pra São José
Que eu levava fé
No grande amor
Mentira
Fiz promessa até
Pra Oxumaré
De subir a pé o Redentor

Hoje eu tenho apenas
Uma pedra no meu peito
Exijo respeito
Não sou mais um sonhador
Chego a mudar de calçada
Quando aparece uma flor
E dou risada do grande amor
Mentira

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=kPu200ogx40



- Postado por: Rodrigo às 22h34
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Silva Ramos - Nós

NÓS

(A Hilda ten Brink)

Eu e tu: a existência repartida
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.

Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.

Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.

O mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu eternamente.

Rio, 1888

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/

(Arte: Lovers in Time - Eric Drooker)



- Postado por: Rodrigo às 10h50
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Omnia vincit amor...

As folhas escondem a areia do chão, como os rostos os pensamentos. A distância esconde em si os teus pequenos olhos dos meus, tua risonha fisionomia e coração, revelam em mim bons momentos, poucos, mas que eu sempre guardarei para ti, para que um dia guardes em ti, momentos meus. Basta umas horas para te abraçar, e já a nossa conversa se põe em dia, embora pouco falemos de nós, olhamo-nos nos olhos e alcanço a alegria que vai em ti. Se a tua alma entristecer, eu posso te acalmar, pois basta pedir-te um sorriso, para ver a alegria que tão inertemente trazes em ti, e fazes-me ansiar por ti desde o dia em que te vi partir. (Rodrigo ®)

* * *

Falha

falha quem não fala
o que sugere o coração
se iguala a quem se cala
dando ouvidos à razão...

(29/03/2009)

Cesar Veneziani



- Postado por: Rodrigo às 10h41
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Alberto de Oliveira: 28 de abril de 1857 — 19 de Janeiro de 1937

SOLIDÃO ESTRELADA

Eu sou da plaga infinita
A solidão estrelada.
Homem, cuja alma se agita
Sempre inquieta e atribulada,

Que tens? que dores consomem
O teu coração que, assim,
Estacas os olhos, homem,
Prendendo-os, atento, em mim?

Invejas-me acaso? ouviste
Que posso, alma desditosa,
Tornar-me feliz, eu, triste!
Eu, solidão misteriosa!

Vem até mim! vem comigo
Estupidamente olhar
Este quadro gasto e antigo
De nuvens, de estrelas, de ar...

Vem compartir o cansaço
Que ab aeterno, sem remédio
Me faz no enfadonho espaço
Bocejar todo o meu tédio.

Como enfara o comprimento
Desta extensão que produz
Os astros no firmamento,
Nos astros a mesma luz!

E hei de até quando estender-me,
Triste, monótona e vasta,
Sem que em mim se agite o verme
Do tempo, que tudo gasta?

Solidão, silêncio enorme,
Eis tudo o que sou. Porém,
Se amas a dor que não dorme,
A dor sem limites, - vem!

Alberto de Oliveira

In: Poesias, 2a série, 1906

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h36
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Promessa Matrimonial - Martha Medeiros

Promessa Matrimonial

Em maio de 98, escrevi um texto em que afirmava que achava bonito o ritual do casamento na igreja, com seus vestidos brancos e tapetes vermelhos, mas que a única coisa que me desagradava era o sermão do padre:

Promete ser fiel na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, amando-lhe e respeitando-lhe até que a morte os separe?

Acho simplista e um pouco fora da realidade.

Dou aqui novas sugestões de sermões:

Promete não deixar a paixão fazer de você uma pessoa controladora, e sim respeitar a individualidade do seu amado, lembrando sempre que ele não pertence a você e que está ao seu lado por livre e espontânea vontade?

Promete saber ser amiga(o) e ser amante, sabendo exatamente quando devem entrar em cena uma e outra, sem que isso lhe transforme numa pessoa de dupla identidade ou numa pessoa menos romântica?

Promete fazer da passagem dos anos uma via de amadurecimento e não uma via de cobranças por sonhos idealizados que não chegaram a se concretizar?

Promete sentir prazer de estar com a pessoa que você escolheu e ser feliz ao lado dela pelo simples fato de ela ser a pessoa que melhor conhece você e portanto a mais bem preparada para lhe ajudar, assim como você a ela?

Promete se deixar conhecer?

Promete que seguirá sendo uma pessoa gentil, carinhosa e educada, que não usará a rotina como desculpa para sua falta de humor?

Promete que fará sexo sem pudores, que fará filhos por amor e por vontade, e não porque é o que esperam de você, e que os educará para serem independentes e bem informados sobre a realidade que os aguarda?

Promete que não falará mal da pessoa com quem casou só para arrancar risadas dos outros?

Promete que a palavra liberdade seguirá tendo a mesma importância que sempre teve na sua vida, que você saberá responsabilizar-se por si mesmo sem ficar escravizado pelo outro e que saberá lidar com sua própria solidão, que casamento algum elimina?

Promete que será tão você mesmo quanto era minutos antes de entrar na igreja?

Sendo assim, declaro-os muito mais que marido e mulher: declaro-os maduros."

Martha Medeiros



- Postado por: Rodrigo às 09h29
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Ralph Waldo Emerson: 25 de maio de 1803 - 27 de abril de 1882

"Não seja escravo do passado - mergulhe em mares grandiosos, vá bem fundo e nade até bem longe; você voltará com respeito por si mesmo, como um novo vigor, com uma experiência a mais, que vai explicar a anterior e superá-la."

Ralph Waldo Emerson

 Vídeo de Susan Boyle - "Não julgue um livro pela capa. Aprenda primeiro a ler o que tem dentro": http://www.youtube.com/watch?v=xRbYtxHayXo



- Postado por: Rodrigo às 08h59
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Marilena Chauí

A palavra utopia foi empregada pela primeira vez pelo filósofo inglês Thomas Morus, no livro Utopia, a cidade ideal perfeita. A palavra é uma composição de palavras gregas e, rigorosamente, significa em lugar nenhum, lugar inexistente, imaginário. Por esse motivo estamos acostumados a identificar utopia e utópico com impossível, aquilo que só existe em nosso desejo e imaginação e que não encontrará nunca condições objetivas para se realizar.

Marilena Chauí

In: Convite à Filosofia.
São Paulo. Ática, 1984.
p. 408



- Postado por: Rodrigo às 09h32
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Silêncio e Palavra - István Bella

SILÊNCIO E PALAVRA

[CSÖND ÉS SZO]

Atrás de tanques, de exterminadores,
sempre vagueiam o silêncio e a sombra
de algum quem sabe quem
– vitima? culpado? –
para anotar e logo dizer
o que se passou, o que foi.
E embora o morto já viverá mais,
dir-nos-á que existiu.

Sim, sou o silêncio, e se tivesse sido
outra coisa, não seria eu!
Não sou quem cantava e respirava.
Sou a luz dependurada no arame farpado.
Sou a bolha de ar debaixo do gelo.
Sou um tartamudo que canta
no bordo da cratera de uma bomba.

ISTVÁN BELLA



- Postado por: Rodrigo às 09h29
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Florbela Espanca - Velhinha

Velhinha

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dor, digam assim:
"Já ela é velha! Como o tempo passa"!..."

Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio de oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!

Tenho vinte e três anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sozinha...

E o bando cor-de-rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de netinhos...

Florbela Espanca

Texto extraído do livro "Sonetos", Bertrand Brasil - Rio de Janeiro, 2002, pág. 54.



- Postado por: Rodrigo às 09h24
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Ardor em coração firme nascido!
Pranto por belos olhos derramado!
Incêndio em mares de água disfarçado!
Rio de neve em fogo convertido!

Tu, que um peito abrasas escondido,
Tu, que em um rosto corres desatado,
Quando fogo em cristais aprisionado,
Quando cristal em chamas derretido.

Se és fogo como passas brandamente?
Se és neve como queimas com porfia?
Mas ai! Que andou Amor em ti prudente.

Pois para temperar a tirania,
Como quis, que aqui fosse a neve ardente
Permitiu parecesse a chama fria

Gregório de Matos



- Postado por: Rodrigo às 08h42
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A primeira pedra - Joaquim Evónio

A primeira pedra

O orvalho veste a Luz,
Pela poalha vão respostas
germinadas por aqui.
Pedras queimadas do tempo
preciosas irão ser
no húmus quente e sereno
do abraço universal.
O espírito, arado
em sulcos de gelatina,
circunvoluções terráqueas
do sempre virgem papel,
retém a desordem cósmica
tradução antropomórfica
de muitas realidades
já reduzidas a cinza...
Entre os despojos do pólen
das nuvens, gritos d' Além,
ficou apenas espaço
para semear um verso:
E foi a primeira pedra
dum poema em construção.

Joaquim Evónio

In: 10 rostos da poesia lusófona
Livro. I,  RJ: 2007



- Postado por: Rodrigo às 08h38
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Porque me apressaria em resolver todos os enigmas que me oferece a vida?

Ralph Waldo Emerson

In: A conduta para a vida
Ed. Martin Claret
p. 145



- Postado por: Rodrigo às 09h07
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Sílvio Romero: 21 de abril de 1851 — 18 de junho de 1914

   "Para certa gente, escrever sem paixão eu sei o que quer dizer: é faltar à consciência e à dignidade, ter a cabeça cheia de parvoíces, que se derramam sobre o papel; é chafurdar-se constantemente no pestilento pélago dos elogios mentidos e das bajulações indecorosas. Escrever sem paixão é repetir, em todos os tons possíveis, as velhas frases louvaminheiras, que povoaram este país de gênios e de prodígios, de sábios e de brilhantes; gênios e sábios em alguns medíocres, que nos têm dado uns folhetins... prodígios e brilhantes alcatifando os nossos rios gigantescos e as nossas selvas seculares...

   Quem ousa desafinar no meio do geral concerto é apontado nada menos do que como "um invejoso das glórias alheias".

Fevereiro de 1880

Sílvio Romero

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 09h02
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Hilda Hilst: 21 de abril, 1930 — 4 de fevereiro de 2004

Trovas de muito amor para um amado senhor
 
(I)

Nave
Ave
Moinho
E tudo mais serei
Para que seja leve
Meu passo
Em vosso caminho.


* * *

(XIII)

Dizeis que tenho vaidades.
E que no vosso entender
Mulheres de pouca idade
Que não se queiram perder

É preciso que não tenham
Tantas e tais veleidades.

Senhor, se a mim me acrescento
Flores e renda, cetins,
Se solto o cabelo ao vento
É bem por vós, não por mim.

Tenho dois olhos contentes
E a boca fresca e rosada.
E a vaidade só consente
Vaidades, se desejada.

E além de vós
Não desejo nada.

Hilda Hilst

In: Poesia: 1959-1979
São Paulo: Quíron; [Brasília]: INL, 1980



- Postado por: Rodrigo às 08h44
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Minha Musa - Osório Duque-Estrada

MINHA MUSA

Presa ao êxtase suave
De uma tristeza sem par,
Minha Musa é como uma ave
Que anseia apenas voar...

Chega às paragens secretas
Do desespero e da dor
E aonde vão as inquietas
Asas do beijo e do amor...

Faz um batel pequenino
De pandas, purpúreas, velas,
E, num clarão matutino,
Ascende ao céu e às estrelas!

Com elas fala e conversa
Da alcova dos arrebóis
E desce tranqüila, imersa
Na luz de todos os sóis.

Vive, filha, neste mundo,
Mas vai ao céu onde moras,
E mergulha no profundo
Mar Vermelho das auroras...

Osório Duque-Estrada



- Postado por: Rodrigo às 21h01
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Abraham "Bram" Stoker: 8 de Novembro de 1847 — 20 de Abril de 1912

(...) Afinal, encontrei uma porta, no alto da escada, que se abriu quando a empurrei com bastante força. Encontrei-me, então, numa ala do castelo mais à direita que os aposentos que eu tinha visto e um andar abaixo dos mesmos. O castelo é construído num elevado rochedo e inexpugnável por três lados. Para o este, fica um grande vale, que dá para as montanhas. Esta era, evidentemente, a parte do castelo ocupada pelas damas nos velhos tempos, pois a mobília era mais confortável que nos aposentos que eu vira até então. Aqui estou escrevendo, numa mesinha de carvalho, onde, possivelmente, nos velhos tempos, alguma jovem se sentou, enrubescida, para escrever cartas de amor.

Bram Stoker

In: Dracula



- Postado por: Rodrigo às 10h31
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Augusto dos Anjos: 20 de abril de 1884 — 12 de novembro de 1914

CONTRASTES

A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiroque fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...

Augusto dos Anjos



- Postado por: Rodrigo às 09h52
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Charles R. Darwin: 12 de Fevereiro de 1809 — 19 de Abril de 1882

“Quando eu estava a bordo do Beagle, como naturalista fiquei muito impressionado com certos fatos na distribuição dos habitantes da América do Sul... Esses fatos, me parecia, poderiam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – aquele mistério dos mistérios.”

* * *

“Deleite é um termo fraco para expressar a sensação de um naturalista que pela primeira vez vagueia em uma floresta brasileira.(...) Sentado numa árvore e comendo meu almoço na sublime solidão da floresta, o prazer que experimento é indizível... Se o olhar tenta seguir o voo de uma espalhafatosa borboleta, ele é detido por estranha árvore ou fruta... A mente é um caos do deleite.”

Charles Darwin

In: Revista Época, No. 560 - Fevereiro de 2009



- Postado por: Rodrigo às 09h50
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George G. Byron: 22 de janeiro de 1788 — 19 de abril de 1824

Versos Inscritos numa Taça Feita de um Crânio

Não, não te assustes: não fugiu o meu espírito
Vê em mim um crânio, o único que existe
Do qual, muito ao contrário de uma fronte viva,
Tudo aquilo que flui jamais é triste.

Vivi, amei, bebi, tal como tu; morri;
Que renuncie e terra aos ossos meus
Enche! Não podes injuriar-me; tem o verme
Lábios mais repugnantes do que os teus olhos.

Onde outrora brilhou, talvez, minha razão,
Para ajudar os outros brilhe agora e;
Substituto haverá mais nobre que o vinho
Se o nosso cérebro já se perdeu?

Bebe enquanto puderes; quando tu e os teus
Já tiverdes partido, uma outra gente
Possa te redimir da terra que abraçar-te,
E festeje com o morto e a própria rima tente.

E por que não? Se as fontes geram tal tristeza
Através da existência -curto dia-,
Redimidas dos vermes e da argila
Ao menos possam ter alguma serventia.

Lord Byron

Tradução de Castro Alves



- Postado por: Rodrigo às 09h42
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Manuel Bandeira: 19 de abril de 1886 — 13 de outubro de 1968

Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira

In: Neologismo. Estrela da Vida Inteira,
3ª Ed. - Rio de Janeiro, José Olympio, 1973,
p. 193



- Postado por: Rodrigo às 09h33
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Albert Einstein: 14 de Março de 1879 — 18 de Abril de 1955

Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, “fazer tais perguntas tem sentido?” Respondo: “Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”

Albert Einstein

In: Como vejo o Mundo - “Mein Weltbild” (1953)
Ed. Nova Fronteira – 11ª edição
Tradução de H. P. de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 09h25
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Monteiro Lobato: 18 de abril de 1882 — 4 de julho de 1948

O velho, o menino e a mulinha

O velho chamou o filho e disse: - Vá ao pasto, pegue a mulinha e apronte-se para irmos à cidade, que quero vendê-la.

O menino foi e trouxe a mula. Passou-lhe a raspadeira, escovou-a e partiram os dois a pé, puxando-a pelo cabresto. Queriam que ela chegasse descansada para melhor impressionar os compradores.

De repente: - Esta é boa! - exclamou um visitante ao avistá-los. - O animal vazio e o pobre velho a pé! Que despropósito! Será promessa, penitência ou caduquice?...

E lá se foi, a rir.

O velho achou que o viajante tinha razão e ordenou ao menino: - Puxa a mula, meu filho! Eu vou montado e assim tapo a boca do mundo.

Tapar a boca do mundo, que bobagem! O velho compreendeu isso logo adiante, ao passar por um bando de lavadeiras ocupadas em bater roupa num córrego.

- Que graça! - exclamaram ela. - O marmanjão montado com todo o sossego e o pobre do menino a pé... Há cada pai malvado por este mundo de Cristo... Credo!...

O velho danou-se e, sem dizer palavra, fez sinal ao filho para que subisse à garupa.

- Quero só ver o que dizem agora...

Viu logo. O Izé Biriba, estafeta do correio, cruzou com eles e exclamou: - Que idiotas! Querem vender o animal e montam os dois de uma vez... Assim, meu velho, o que chega à cidade não é mais a mulinha; é a sobra da mulinha...

- Ele tem toda razão, meu filho; precisamos não judiar do animal. Eu apeio e você, que é levezinho, vai montado.

Assim fizeram, e caminharam em paz um quilômetro, até o encontro dum sujeito que tirou o chapéu e saudou o pequeno respeitosamente.

- Bom dia, príncipe!

- Porque príncipe? - indagou o menino.

- É boa! Porque só príncipes andam assim de lacaio à rédea...

- Lacaio, eu? - esbravejou o velho. - Que desaforo! Desce, desce, meu filho e carreguemos o burro às costas. Talvez isso contente o mundo... 

Nem assim. Um grupo de rapazes, vendo a estranha cavalgada, acudiu em tumulto com vaias: - Hu! Hu! Olha a trempe de três burros, dois de dois pés e um de quatro! Resta saber qual dos três é o mais burro...

- Sou eu! - replicou o velho, arriando a carga. - Sou eu, porque venho há uma hora fazendo não que quero mas o que quer o mundo. Daqui em diante, porém, farei o que manda a consciência, pouco me importando que o mundo concorde ou não. Já que vi que morre doido quem procura contentar toda gente...

MORAL: "Não sei o caminho do sucesso, mas com certeza o do fracasso é querer agradar a todo mundo"

Monteiro Lobato

In: Fábulas
Editora Brasiliense, 1972
p. 16

*

Texto de origem: FÁBULA XCVII de La Fontaine
O lavrador, seu filho e o burro

http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/fabulas.html



- Postado por: Rodrigo às 09h15
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Antero de Quental: 18 de Abril de 1842 — 11 de Setembro de 1891

Mors-Amor

Esse negro corcel, cujas passadas
Escuto em sonhos, quando a sombra desce,
E, passando a galope, me aparece
Da noite nas fantásticas estradas,

Donde vem ele? Que regiões sagradas
E terríveis cruzou, que assim parece
Tenebroso e sublime, e lhe estremece
Não sei que horror nas crinas agitadas?

Um cavaleiro de expressão potente,
Formidável mas plácido no porte,
Vestido de armadura reluzente,

Cavalga a fera estranha sem temor:
E o corcel negro diz "Eu sou a morte",
Responde o cavaleiro: "Eu sou o Amor".

Antero de Quental



- Postado por: Rodrigo às 09h07
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Manuel Bandeira - Poema tirado de uma notícia de jornal

Poema tirado de uma notícia de jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no morro da Babilônia num barracão sem número
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afogado.
 

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 09h02
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Luís de Camões - Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Numa hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

Luís de Camões



- Postado por: Rodrigo às 17h58
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Carta Extraviada - Martha Medeiros

20.

Carta Extraviada

   Não sei por onde começar esta carta que já nasce atrasada, pensamos sempre que temos muito a dizer mas as palavras são pouco amistosas, onde encontrá-las agora, às três e dez de uma madrugada em que me encontro insone e pensando mais uma vez em você?

   Você esperou por estas palavras por muitos meses, na esperança de que elas aliviariam a dor do seu coração, mas elas não vieram porque estavam ocupadas vigiando meus impulsos, me impedindo de me abrir, e minha própria dor lhe pareceu desatenção, eu que não durmo de tanta paixão congestionada, de tanto desejo represado, de tão só que estou.

   Meus motivos sempre lhe pareceram egoístas, e se eu lhe disser que o descaso aparente foi na verdade uma atitude consciente para preservar você, me chamarás de altruísta e não saire­mos do mesmo lugar.

   Eu errei por não permitir que você me oferecesse seu afeto, eu errei ao sobrevalorizar um risco imaginário, eu errei por achar que existem amores menores e maiores, avaliados pelo tempo investido, pela contagem dos beijos, pelas ausências sentidas, por tudo isto fui conduzido a um erro de cálculo.

   Não te peço nada além de compreensão, e esta carta nem era para pedir, mas para doar, eu que sempre me achei bom nessas coisas, o voluntário da paz, o boa-gente oficial da minha turma.

   Mas peço: lembre de mim como alguém que alcançou a mesma medida do seu sentimento, a mesma profundidade das suas dúvidas, o mesmo embaraço diante da novidade, o mesmo cansaço da luta, a mesma saudade.

   A carta vem tarde e redigida com palavras covardes, as corajosas repousam pois se imaginam já ditas e escritas, valentes foram as palavras do início, as desbravadoras, as que ultrapassaram limites, quando nós dois ainda não sabíamos do que elas eram capazes, palavras audazes, febris.

   Pela enormidade de tempo que temos pela frente em que não nos veremos mais, não nos tocaremos ou ouviremos a voz um do outro, pela quantidade de dias em que conduzirás tua vida longe de mim e eu de ti, pela imensidão da nossa descrença, pela perseverança da nossa solidão, pelos nãos todos que te falei, pelo pouco que houve de sim, acredita: te amei além do possível, não te amei menos que a mim.

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 26-7



- Postado por: Rodrigo às 17h53
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J. Inés de la Cruz: 12 de novembro de 1651/ou 1648 - 17 de abril de 1695

Homens néscios

Argui ser inconseqüência o gosto e
a censura dos homens, que às mulheres
acusam do que eles causam


Homens néscios a acusar
às mulheres sem razão,
sem ver que são a ocasião
do que as estão a culpar.

Se com ânsia sem igual
estimulam seu desdém,
por que querem que obrem bem
se as incitam para o mal?

Combatem sua resistência,
e em seguida com maldade
dizem que foi leviandade
o que fez sua insistência.

Querem com vil presunção
achar a que lhes condiz:
em compromisso, Taís,
e Lucrécia em possessão.

Que humor pode ser mais raro
que o que recusa um conselho?
O mesmo que encobre o espelho
diz que não lhe está bem claro.

Com o favor ou o desdém
o resultado é igual:
se queixam, se os tratam mal;
enganam, se os querem bem.

Opinião nenhuma ganha,
pois a que mais se recata,
se não lhes aceita, é ingrata,
e, se aceita, é piranha.

Sempre tão tolos a andar
com seu discurso fiel,
a uma a chamar de cruel
e a outra de fácil chamar.

Como talvez se interesse
a que seu amor pretende,
se à que é ingrata ofende
e à que é fácil aborrece?

Mas entre o aborrecimento
e a pena, de seu deleite,
também há quem os rejeite
e que os deixe em bom momento.

Às amantes que mantêm
lhes dão asas sem domá-las,
e após mal acostumá-las
querem encontrá-las bem.

Maior culpa terá havido,
em uma paixão errada,
aquela que cai prostrada
ou o que se prostra caído?

Qual é mais de se culpar,
ainda que ambos seu mal tragam:
a que peca porque pagam
ou o que paga por pecar?

Então para que espantar-se
pela culpa que não têm?
Queiram a que lhes convém
ou convenham para amar-se.

Parem de tanto insistir
e depois com mais razão
à atitude acusarão
da que então os seduzir.

Com muitas armas ao fundo
luta sua prepotência,
pois em promessa e insistência
juntam diabo, carne e mundo.

Juana Inés de la Cruz

Tradução Fábio Aristimunho



- Postado por: Rodrigo às 17h48
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Memórias Póstumas de Brás Cubas [trecho]

Gastei trinta dias para ir do Rossio Grande ao coração de Marcela, não já cavalgando o corcel do cego desejo, mas o asno da paciência, a um tempo manhoso e teimoso. Que, em verdade, há dois meios de granjear a vontade das mulheres: o violento, como o touro de Europa, e o insinuativo, como o cisne de Leda e a chuva de ouro de Dânae, três inventos do padre Zeus, que, por estarem fora da moda, aí ficam trocados no cavalo e no asno.

Machado de Assis

In: Memórias Póstumas de Brás Cubas
Cap. XV - SP: Ed. Círculo do Livro, p. 41



- Postado por: Rodrigo às 18h11
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Violoncelo - Adam Zagajewski

VIOLONCELO

Aqueles que não gostam dele dizem
que é apenas um violino mutante,
que foi chutado para fora do coro.
Nada disso.
O violoncelo tem muitos segredos,
mas nunca soluça,
apenas canta na sua voz grave.
Nem tudo nele se transforma em
canção, às vezes apanhas
um murmúrio ou um sussurro:
estou só.
não consigo dormir.

ADAM ZAGAJEWSKI



- Postado por: Rodrigo às 18h02
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F. Nietzsche - Aurora

Que compreendemos de nosso próximo, senão suas fronteiras, quero dizer, aquilo com que ele se inscreve e se imprime em nós e sobre nós? Nada compreendemos dele, senão as mudanças em nós que são por ele causadas - nosso conhecimento dele semelha um espaço oco a que se deu uma forma. Nós lhe atribuímos as sensações que os seus atos despertam em nós, dando-lhe, assim, uma falsa positividade inversa. Nós o construímos segundo o que sabemos de nós, dele fazendo um satélite de nosso próprio sistema: e, quando ele nos ilumina ou se escurece, e somos a causa última de ambas as coisas - nós acreditamos o contrário! Mundo de fantasmas, este em que vivemos! Mundo invertido, vazio e, no entanto, sonhado cheio e reto!

F. Nietzsche

In: Aurora
Ed. Cia das Letras
p. 90-1



- Postado por: Rodrigo às 17h56
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川端 康成: 14 de Junho de 1899 — 16 de Abril de 1972

“Como o interior do trem não era muito claro, aquele espelho não era tão nítido quanto deveria ser. Ele não refletia bem as imagens. Por isso, enquanto Shimamura olhava compenetrado, foi se esquecendo da existência do espelho e começou a pensar que a moça flutuava na paisagem do entardecer. Foi nesse momento que os raios de sol, já tênues, iluminaram o rosto dela. O reflexo do espelho não era suficiente para apagar a claridade de fora, nem esta, forte o bastante para ofuscar a imagem refletida no espelho. A claridade passava como um relâmpago pelo seu rosto, mas não era suficiente para iluminá-lo. A luz era fria e distante. No momento em que o contorno de sua pequena pupila foi se iluminando, como se os olhos da moça e a luz se sobrepusessem, seus olhos se tornaram um vaga-lume misterioso e belo que pairava entre as ondas da penumbra do cair da tarde.”

Yasunari Kawabata *

In: O País das Neves (1947)
p.15

* Kawabata foi o primeiro japonês a ser laureado com o Prêmio Nobel da Literatura, em 1968.



- Postado por: Rodrigo às 17h49
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Exaltação de Aninha (O Professor) - Cora Coralina

Exaltação de Aninha (O Professor)

Professor, “sois o sal da terra e a luz do mundo”.
Sem vós tudo seria baço e a terra escura.
Professor, faze de tua cadeira,
a cátedra de um mestre.
Se souberes elevar teu magistério,
ele te elevará à magnificência.
Tu és um jovem, sê, com o tempo e competência,
um excelente mestre.
Meu jovem Professor, quem mais ensina e quem mais aprende?
O professor ou o aluno?
De quem maior responsabilidade na classe,
do professor ou do aluno?
Professor, sê um mestre. Há uma diferença sutil
entre este e aquele.
Este leciona e vai prestes a outros afazeres.
Aquele mestreia e ajuda seus discípulos.
O professor tem uma tabela a que se apega.
O mestre excede a qualquer tabela e é sempre um mestre.
Feliz é o professor que aprende ensinando.
A criatura humana pode ter qualidades e faculdades.
Podemos aperfeiçoar as duas.
A mais importante faculdade de quem ensina
é a sua ascendência sobre a classe
Ascendência é uma irradiação magnética, dominadora
que se impõe sem palavras ou gestos,
sem criar atritos, ordem e aproveitamento.
É uma força sensível que emana da personalidade
e a faz querida e respeitada, aceita.
Pode ser consciente, pode ser desenvolvida na escola,
no lar, no trabalho e na sociedade.
Um poder condutor sobre o auditório, filhos, dependentes, alunos.
É tranqüila e atuante. É um alto comando obscuro
e sempre presente. É a marca dos líderes.
A estrada da vida é uma reta marcada de encruzilhadas.
Caminhos certos e errados, encontros e desencontros
do começo ao fim.
Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina.
O melhor professor nem sempre é o de mais saber,
é sim aquele que, modesto, tem a faculdade de transferir
e manter o respeito e a disciplina da classe.

Cora Coralina

In: Vintém de cobre: meias confissões de Aninha
9. ed., São Paulo: Global, 2007
p. 163-4



- Postado por: Rodrigo às 17h24
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Cesar Veneziani - Musa

Musa

Não tenhas inveja
da musa de outro poeta.
Encante uma alma sensível,
com teus próprios encantos...
Faça-o descobrir em ti
a luz do sorriso
o calor do carinho
a densidade do sonho
e a leveza da paz...
Ele te fará poemas
com a expressão do corpo
e te chamará de musa
com a voz da alma...

08/04/2009

Cesar Veneziani



- Postado por: Rodrigo às 17h19
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Dante Milano: 16 de junho de 1899 — 15 de abril de 1991

O amor de agora é o mesmo amor de outrora

O amor de agora é o mesmo amor de outrora
Em que concentro o espírito abstraído,
Um sentimento que não tem sentido,
Uma parte de mim que se evapora.
Amor que me alimenta e me devora,
E este pressentimento indefinido
Que me causa a impressão de andar perdido
Em busca de outrem pela vida afora.
Assim percorro uma existência incerta
Como quem sonha, noutro mundo acorda,
E em sua treva um ser de luz desperta.
E sinto, como o céu visto do inferno,
Na vida que contenho mas transborda,
Qualquer coisa de agora mas de eterno.

Dante Milano



- Postado por: Rodrigo às 17h15
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Maria Osorio Marques - Escrever é preciso

A questão é começar

“Coçar e comer é só começar. Conversar e escrever também. Na fala, antes de iniciar, mesmo uma livre conversação, é necessário quebrar o gelo. Em nossa civilização apressada , o ‘bom-dia’, o ‘boa-tarde, como vai?’ já não funcionam para engatar conversa. Qualquer assunto servindo, fala-se do tempo ou de futebol. No escrever também poderia ser assim, e deveria haver uma escrita algo como a conversa vadia, com que se divaga até encontrar assunto para um discurso encadeado (...)

Há gente que não começa, alegando precisar de tempo. Andam à procura não do tempo perdido, mas do temo que não lhe dão. Falta tempo ou falta paixão? Qual o viciado que não encontra tempo e jeito para sua cachacinha no boteco? O tempo não é sólido que não se possa recortar em fatias para melhor distribuí-lo, nem é líquido sem consistência e densidade/duração apropriada. O tempo é pastoso, algo que se espicha ou comprime como se quer, que se amolda aos nossos amores. Havendo paixão não é preciso a cada momento ser alertado (...) [que] a cada dia [há] como escrever alguma linha que seja, desde que o escrever seja cachaça, não obrigação insípida. (...)".

Maria Osorio Marques

In: Escrever é preciso.
Ijuí: Unijuí, 1997
p. 13-15



- Postado por: Rodrigo às 18h56
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Álvaro de Campos - Apontamento

APONTAMENTO

A minha alma partiu-se como um vaso vazio.
Caiu pela escada excessivamente abaixo.
Caiu das mãos da criada descuidada.
Caiu, fez-se em mais pedaços do que havia loiça no vaso.

Asneira? Impossível? Sei lá!
Tenho mais sensações do que tinha quando me sentia eu.
Sou um espalhamento de cacos sobre um capacho por sacudir.

Fiz barulho na queda como um vaso que se partia.
Os deuses que há debruçam-se do parapeito da escada
E fitam os cacos que a criada deles fez de mim.

Não se zangam com ela.
São tolerantes com ela.
O que eu era um vaso vazio?

Olham os cacos absurdamente conscientes,
Mas conscientes de si-mesmos, não conscientes deles.

Olham e sorriem.
Sorriem tolerantes à criada involuntária.

Alastra a grande escadaria atapetada de estrelas.
Um caco brilha, virado do exterior lustroso, entre os astros.

A minha obra? A minha alma principal? A minha vida?
Um caco.

E os deuses olham-no especialmente, pois não sabem
porque ficou ali.

Álvaro de Campos



- Postado por: Rodrigo às 18h53
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"O ditador caiu duma cadeira, os árabes deixaram de vender petróleo, o morto é o melhor amigo do vivo, as coisas nunca são o que parecem, quando vires um centauro acredita nos teus olhos, se uma rã escarnecer de ti atravessa o rio. Tudo são objectos. Quase."

José Saramago

In: Objecto Quase,
2ª ed., Lisboa, Editorial Caminho, 1984



- Postado por: Rodrigo às 18h51
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Doce Certeza - Florbela Espanca

Doce Certeza

Por essa vida fora hás-de adorar
Lindas mulheres, talvez; em ânsia louca,
Em infinito anseio hás de beijar
Estrelas d´ouro fulgindo em muita boca!

Hás de guardar em cofre perfumado
Cabelos d´ouro e risos de mulher,
Muito beijo d´amor apaixonado;
E não te lembrarás de mim sequer…

Hás de tecer uns sonhos delicados…
Hão de por muitos olhos magoados,
Os teus olhos de luz andar imersos!…

Mas nunca encontrarás p´la vida fora,
Amor assim como este amor que chora
Neste beijo d´amor que são meus versos!…

Florbela Espanca

In: Trocando olhares - 06/06/1916



- Postado por: Rodrigo às 17h53
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Eu e Ela - Cesário Verde

Eu e Ela

Cobertos de folhagem, na verdura,
O teu braço ao redor do meu pescoço,
O teu fato sem ter um só destroço,
O meu braço apertando-te a cintura;

Num mimoso jardim, ó pomba mansa,
Sobre um banco de mármore assentados.
Na sombra dos arbustos, que abraçados,
Beijarão meigamente a tua trança.

Nós havemos de estar ambos unidos,
Sem gozos sensuais, sem más idéias,
Esquecendo para sempre as nossas ceias,
E a loucura dos vinhos atrevidos.

Nós teremos então sobre os joelhos
Um livro que nos diga muitas cousas
Dos mistérios que estão para além das lousas,
Onde havemos de entrar antes de velhos.

Outras vezes buscando distração,
Leremos bons romances galhofeiros,
Gozaremos assim dias inteiro,
Formando unicamente um coração.

Beatos ou apagãos, via à paxá,
Nós leremos, aceita este meu voto,
O Flos-Sanctorum místico e devoto
E o laxo Cavaleiro de Faublas...

03/12/1873

Cesário Verde

In: Porto, "Diário da Tarde"



- Postado por: Rodrigo às 17h38
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Seamus Heaney (Londonderry, 13 de abril de 1939)

Poema

Para Marie

Amor, aperfeiçoarei para você o menino
Que em meu cérebro com diligência manheira
Cava com pá pesada e faz com relva arrimo
Ou patina no esterco de funda caleira.

Todo ano eu semeava o metro de jardim.
Com camadas de céspede o muro eu erguia
Para ter distantes galinha e bacorim.
Todo ano, à entrada deles, o monte ruía.

Ou no lodo sugante eu chapinhava
Com gosto e represava a fluidez da caleira,
Mas sempre meus bastiões de argila e vasa
Rompiam-se com a vinda da chuva-criadeira.

Amor, aperfeiçoe para mim este menino
De estreitos e imperfeitos limites quebrando ao léu
Dentro em novos limites agora, ordene o domínio
E quadre o círculo: quatro paredes e um anel.

Seamus Heaney

In: Poemas
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Ed. Companhia das Letras, 1998
p. 41



- Postado por: Rodrigo às 17h27
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Feliz Páscoa! Volto segunda-feira!



- Postado por: Rodrigo às 20h16
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Ana Terra / Danilo Caymmi - Meu Menino

Meu Menino

Se um dia você for embora
Não pense em mim
Que eu não te quero meu
Eu te quero seu
Se um dia você for embora
Vá lentamente como a noite
Que amanhece sem que
A gente saiba
Exatamente
Como aconteceu
Se um dia você for embora
Ria se teu coração pedir
Chore se teu coração mandar
Mas não me esconda nada
Que nada se esconde
Se por acaso um dia você for embora
Leve o menino que você é.

Composição: Ana Terra / Danilo Caymmi



- Postado por: Rodrigo às 20h14
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João de Deus - Adoração

Adoração 

Vi o teu rosto lindo,
Esse rosto sem par;
Contemplei-o de longe mudo e quedo,
Como quem volta de áspero degredo
E vê ao ar subindo
O fumo do seu lar!
 
Vi esse olhar tocante,
De um fluido sem igual;
Suave como lâmpada sagrada,
Bem-vindo como a luz da madrugada
Que rompe ao navegante
Depois do temporal!
 
Vi esse corpo de ave,
Que parece que vai
Levado como o Sol ou como a Lua
Sem encontrar beleza igual à sua;
Majestoso e suave,
Que surpreende e atrai!
 
Atrai e não me atrevo
A contemplá-lo bem;
Porque espalha o teu rosto uma luz santa,
Uma luz que me prende e que me encanta
Naquele santo enlevo
De um filho em sua mãe!
 
Tremo apenas pressinto
A tua aparição,
E se me aproximasse mais, bastava
Pôr os olhos nos teus, ajoelhava!
Não é amor que eu sinto,
É uma adoração!
 
Que as asas providentes
De anjo tutelar
Te abriguem sempre à sua sombra pura!
A mim basta-me só esta ventura
De ver que me consentes
Olhar de longe... olhar! 

João de Deus 



- Postado por: Rodrigo às 20h10
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Alicia Fernandez - O saber em jogo

Um homem de 80 anos, hospitalizado depois de um acidente quase mortal, recupera-se. Os médicos dizem que foi um milagre. Eu lhe pergunto: de onde tirou forças para se curar? Depois de pensar um pouco, diz: “Creio que recordei o modo como me olhava minha segunda professora do primeiro grau, como se estivesse dizendo ‘você pode’, quando todos já se consideravam vencidos por meu fracasso”.

Alicia Fernandez

In: O saber em jogo
Ed. Artmed, 2001



- Postado por: Rodrigo às 20h05
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Bartolomeu Campos de Queiros

Pedro é um nome que a gente conhece em muitas línguas:
Pedro, Pierre, Pietro, Peter, Pether, Petrus.
Pedro pintou, um dia, em alguma parte do mundo, o retrato de uma borboleta.
As cores, as de seu desejo.
Pintou ainda, sobre o papel, flores para a borboleta se esconder e galhos para descansar.
É mesmo fácil imaginar sua pintura ou fazê-la, mas a
conseqüência não foi tão simples.
É melhor saber toda a história.
Pierre acordou com o coração cheio de domingo.
Domingo é dia em que a gente não quer nada e por isso
acontece quase tudo.
Não era domingo, mas ele se sentia em paz com o mundo.
Nesse dia ele viu o vôo de uma borboleta
(vôo de borboleta pode transformar qualquer dia em domingo).

Bartolomeu Campos de Queiros

In: Pedro: O menino que tinha o coração cheio de de Domingo 



- Postado por: Rodrigo às 20h00
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Espumas e Chamas - Moacir de Almeida

ESPUMAS E CHAMAS
 
Flor que a rubra paixão do trópico incendeia,
Branca e virgem, no ardor dos sonhos causticantes:
A ânsia, em que te referve o sangue em cada veia,
Aflora em teu olhar num clarão de diamantes...

A volúpia do sol tua carne afogueia...
Há luxúrias de mar nos teus seios arfantes...
E, em teu corpo, que tem a brancura da areia,
Há curvas sensuais de praias fulgurantes...

Ah! Ter beijos de oceano e ardor de um sol de lavas,
Mar que afoga o horizonte em pérolas e brumas,
Sol que ensangüenta o céu e cresta as matas bravas!

E -- oceano e sol -- no sonho ardente em que te inflamas,
Com os meus beijos cobrir-te em borbotões de espumas,
Com a minha luz queimar-te em turbilhões de chamas!

Moacir de Almeida

In: Gritos Bárbaros e Outros Poemas
Rio de Janeiro, Livraria São José
3ª Edição aumentada, 1960
p. 90



- Postado por: Rodrigo às 20h11
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Theo Roos

Quem só pensa no futuro desaprende a interagir com as coisas que estão bem diante dos seus olhos.

Theo Roos

In: Vitaminas Filosóficas
(Casa da Palavra), pg. 102.



- Postado por: Rodrigo às 20h06
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Julian Baggini - Para que serve tudo isso?

Muitas vezes, é através do sofrimento que aprendemos, mas é muito melhor aprender sem sofrer, ou aprender com o sofrimento dos outros (sem fazer os outros sofrerem, claro). Contudo, algumas pessoas acham que, como muitas vezes o sofrimento leva ao conhecimento, ele é essencial para todo tipo de conhecimento, ou que quem sofre necessariamente aprende mais do que quem não sofre. Em geral, isso pode ser verdade - o que não quer dizer, em hipóte alguma, que seja sempre verdade. Muita gente sofre e não aprende nunca. Outros aprendem mais rápido e evitam o sofrimento.

Contudo, como o sofrimento tem um custo muito alto para nós, talvez sintamos a necessidade de estabelecer algum tipo de compensação para ele. Não gostamos de pensar que o sofrimento que passamos foi desnecessário ou que poderíamos tê-lo evitado, pois isso significaria admitir que a vida foi pior do que poderia ter sido e que não nos beneficiamos de forma alguma com isso. Achamos que as pessoas que sofreram menos perderam alguma coisa. Seria muito ruim simplesmente aceitar que essas pessoas foram mais felizes do que nós em suas escolhas.

Julian Baggini

In: Para que serve tudo isso?
Zahar, pg. 170



- Postado por: Rodrigo às 20h02
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Lena - Álvares Bezerra

LENA

Dentro do Valle, ao lado de uma penha,
de onde caindo um fio de agua canta,
a casinha de Lena se levanta
ficando bem de frente para a brenha.

Mira de longe quem na estrada venha
entre a verdura da fecunda planta.
Alli, a voz de Lena em tom que encanta,
esconde o som monótono da azenha.

A agua que escorre pelo valle a dentro,
vae na ravina humedecer as flores;
e eu só para escuta-la, me concentro.

Amo-a e fujo-lhe a medo... Disse alguém
que ella, uma vez, falando-se de amores,
jurou nunca na vida amar ninguem.

Rio G. do Norte

Álvares Bezerra

In: Almenáras,
Graphica Paulista-Editora
São Paulo, 1928. (Pág. 44)



- Postado por: Rodrigo às 17h49
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Mário de Andrade - Descobrimento

Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.

Mário de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 17h44
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Meu Canto de Amor Por Belém - Edyr Proença

Meu Canto de Amor Por Belém

Bom dia, Belém,
da tristeza do meu pranto,
da alegria do meu canto,
quando o sol vem te acordar.
Bom dia, Belém,
Ver-o-Peso fervilhante,
atraindo o visitante
que vem de outro lugar.
(...)
Boa tarde, Belém,
da chuva que vem,
da brisa que tem,
que nos faz tão bem,
do sino que bate,
fazendo belém, belém.
(...)
Boa noite, Belém,
da seresta de uma festa,
da alegria que ainda resta
quando a lua faz luar.
(...)
Boa noite, Belém,
com tua simplicidade,
por aí, sem vaidade,
de histórias pra contar.
(...)

Composição: Edyr Proença



- Postado por: Rodrigo às 17h40
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David Mourão-Ferreira - Ternura

Ternura

Desvio dos teus ombros o lençol,
que é feito de ternura amarrotada,
da frescura que vem depois do sol,
quando depois do sol não vem mais nada...

Olho a roupa no chão: que tempestade!
Há restos de ternura pelo meio,
como vultos perdidos na cidade
onde uma tempestade sobreveio...

Começas a vestir-te, lentamente,
e é ternura também que vou vestindo,
para enfrentar lá fora aquela gente
que da nossa ternura anda sorrindo...

Mas ninguém sonha a pressa com que nós
a despimos assim que estamos sós!

David Mourão-Ferreira

In: Infinito Pessoal



- Postado por: Rodrigo às 09h11
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Adam Zagajewski - Descrevendo Pinturas

DESCREVENDO PINTURAS

Para Daniel Stern

Normalmente fixamos apenas alguns detalhes –
uvas do século dezessete,
ainda frescas e cintilantes,
quiçá um belo garfo de marfim,
ou a madeira de uma cruz e gotas de sangue,
o grande sofrimento que entretanto secou.
O parquet brilhante range.
Estamos numa cidade estranha –
quase sempre numa cidade estranha.
Algures ergue-se um guarda que boceja.
Um ramo cinza balança para lá da janela.
É absorvente,
descrever pinturas estáticas.
Estudiosos dedicam tomos a isso.
Mas nós estamos vivos,
cheios de memória e pensamento,
amor, por vezes arrependimento,
e por momentos temos um orgulho especial
porque o futuro grita em nós
e seu tumulto torna-nos humanos.

Adam Zagajewski



- Postado por: Rodrigo às 09h04
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Hani D. El-Masri - Eu sou o mundo

Eu sou o mundo

Eu sou o mundo e o mundo sou eu,
porque, com o meu livro,
posso ser tudo o que quiser.
Palavras e imagens, verso e prosa
levam-me a lugares a um tempo próximos e distantes.

Na terra dos sultões e do ouro,
há mil histórias a descobrir.
Tapetes voadores, lâmpadas mágicas,
génios, vampiros e Sindbades
contam os seus segredos a Xerazade.

Com cada palavra de cada página
viajo pelo tempo e pelo espaço
e, nas asas da fantasia,
o meu espírito atravessa terra e mar.

Quanto mais leio mais compreendo
que com o meu livro
estarei sempre
na melhor das companhias.

Hani D. El-Masri

Tradução: José António Gomes



- Postado por: Rodrigo às 08h54
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Vicente de Carvalho: 5 de abril de 1866 — 22 de abril de 1924

OLHOS VERDES

Olhos encantados, olhos cor do mar
Olhos pensativos que fazeis sonhar!

Que formosas cousas, quantas maravilhas
Em vos vendo sonho, em vos fitando vejo:
Cortes pitorescos de afastadas ilhas
Abanando no ar seus coqueirais em flor,
Solidões tranqüilas feitas para o beijo,
Ninhos verdejantes feitos para o amor...

Olhos pensativos que falais de amor!

Vem caindo a noute, vai subindo a lua...
O horizonte, como para recebê-las,
De uma fímbria de ouro todo se debrua;
Afla a brisa, cheia de ternura ousada,
Esfrolando as ondas, provocando nelas
Brusco arrepios de mulher beijada...

Olhos tentadores da mulher amada!

Uma vela branca, toda alvor, se afasta
Balançando na oda, palpitando ao vento;
Ei-la que mergulha pela noute vasta,
Pela vasta noute feita de luar;
Ei-la que mergulha pelo firmamento
Desdobrado ao longe nos confins do mar...

Olhos cismadores que fazeis cismar!

Branca vela errante, branca vela errante,
Como a noite é clara! como o céu é lindo!
Leva-me contigo pelo mar... Adiante!
Leva-me contigo até mais longe, a essa
Fímbria do horizonte onde te vais sumindo
E onde acaba o mar e de onde o céu começa...

Olhos abençoados, cheios de promessa!

Olhos pensativos que fazeis sonhar,
Olhos cor do mar!

Vicente de Carvalho

In: Poemas e canções, 1908

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 08h48
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Cesar Veneziani - Pra que memória?

Pra que memória?

melhor ser eterna folha em branco
sem registro
pra que cada paixão se baste
cada experiência seja única
e cada lágrima caia apenas uma vez

Cesar Veneziani

(28/03/2009)

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 09h17
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Marquesa de Alorna - Sonetos

3.

Sobre as margens de um rio, que fugindo
O seu centro procura velozmente,
Estou gozando o prazer mais inocente,
A vida mais feliz estou possuindo.

Imagino que os ecos estão sentindo,
Armila nomear finjo contente,
Que cedendo uns aos outros brandamente
Seu nome me vão sempre repetindo.

Que os Zéfiros* s'escutam sussurando,
Que as aves desafiam com ternura
Uns suspiros que a selva estão magoando.

Depois não sei que afecto, ou que doçura
Se me vai dentro d'alma derramando,
Que adormeço, forçada da brandura

Marquesa de Alorna

In: Sonetos
RJ: Ed. 7 Letras, 1997
Organização: Vanda Anastácio
p. 90

* Zéfiros era o nome dado na mitologia grega ao vento do Ocidente que se dizia soprar suavemente na Primavera e dar vida às árvores, às flores e aos frutos.



- Postado por: Rodrigo às 06h20
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Charles Bernstein: Nova Iorque, 4 de abril de 1950

“A guerra é um passeio infinito num cemitério finito.
A guerra é um modo de a natureza se confirmar selvagem.
A guerra é uma nova oportunidade.”

Charles Bernstein

In: Histórias da Guerra: Poemas e ensaios
Ed. Martins Fontes, 244 páginas



- Postado por: Rodrigo às 06h03
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Martin Luther King, Jr. : 15 de janeiro de 1929 — 4 de abril de 1968

"Nós aprendemos a voar no céu como os pássaros, a nadar no mar como os peixes, mas não aprendemos a simples arte de convivermos como irmãos. Nossa abundância material não nos trouxe paz mental nem serenidade espiritual"

Martin Luther King Jr.



- Postado por: Rodrigo às 05h55
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Augusto Meyer - Lua Boa

LUA BOA

Quando a lua sair nós iremos ao campo
esmagar o capim, passo a passo, bem juntos
como dois namorados que não gostam de falar
quando a lua é mais clara e o coração mais limpo.

Nós mergulharemos na simplicidade,
mão na mão, sonhando as palavras que ficam,
enquanto os maricás noivarem,
calma grave e nupcial, tristeza boa
para a gente saber que vai morrendo,
para provar no lábio um gosto que abençoa.

Quanta doçura virgem de ervas!
Mesmo à noite os trevais têm cheiro azul de manhã,
e o capim o capim esmagado
perfuma os pés que o pisaram, santamente.

(Giraluz, 1928)

Augusto Meyer



- Postado por: Rodrigo às 20h51
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Tzvetan Todorov

Hoje, se me pergunto por que amo a literatura, a resposta que me vem espontaneamente à cabeça é: porque ela me ajuda a viver. Não é mais o caso de pedir a ela, como ocorria na adolescência, que me preservasse das feridas que eu poderia sofrer nos encontros com pessoas reais; em lugar de excluir as experiências vividas, ela me faz descobrir mundos que se colocam em continuidade com essas experiências e me permite melhor compreendê-las.

Tzvetan Todorov

In: A literatura em perigo
Ed. Difel
p. 23



- Postado por: Rodrigo às 20h47
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Gonçalves Dias - Seus Olhos

Seus olhos

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
Estrelas incertas, que as águas dormentes
Do mar vão ferir;

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Têm meiga expressão,
Mais doce que a brisa, — mais doce que o nauta
De noite cantando, — mais doce que a frauta
Quebrando a solidão,

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
De vivo luzir,
São meigos infantes, gentis, engraçados
Brincando a sorrir.

São meigos infantes, brincando, saltando
Em jogo infantil,
Inquietos, travessos; — causando tormento,
Com beijos nos pagam a dor de um momento,
Com modo gentil.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Às vezes luzindo, serenos, tranqüilos,
Às vezes vulcão!

Às vezes, oh! sim, derramam tão fraco,
Tão frouxo brilhar,
Que a mim me parece que o ar lhes falece,
E os olhos tão meigos, que o pranto umedece
Me fazem chorar.

Assim lindo infante, que dorme tranqüilo,
Desperta a chorar;
E mudo e sisudo, cismando mil coisas,
Não pensa — a pensar.

Nas almas tão puras da virgem, do infante,
Às vezes do céu
Cai doce harmonia duma Harpa celeste,
Um vago desejo; e a mente se veste
De pranto co’um véu.

Quer sejam saudades, quer sejam desejos
Da pátria melhor;
Eu amo seus olhos que choram em causa
Um pranto sem dor.

Eu amo seus olhos tão negros, tão puros,
De vivo fulgor;
Seus olhos que exprimem tão doce harmonia,
Que falam de amores com tanta poesia,
Com tanto pudor.

Seus olhos tão negros, tão belos, tão puros,
Assim é que são;
Eu amo esses olhos que falam de amores
Com tanta paixão.

Gonçalves Dias 



- Postado por: Rodrigo às 20h42
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Die Insel der Sirenen - Rainer Maria Rilke

Die Insel der Sirenen - A ilha das Sereias

Wenn er denen, die ihm gastlich waren,
spät, nach ihrem Tage noch, da sie
fragten nach den Fahrten und Gefahren,
still berichtete: er wußte nie, wie sie

Quando os anfitriões, seus bons amigos,
já tarde, ao retornar, no fim do dia
indagavam das provas e perigos
porque passara, ele não sabia

wie sie schrecken und mit welchem jähen
Wort sie wenden, daß sie so wie er
in dem blau gestillten Inselmeer
die Vergoldung jener Inseln sähen,

como alertá-los, que palavra rude
ele usaria para reviver,
no mar que o azul reveste de quietude,
o dourado das ilhas de prazer

deren Anblick macht, daß die Gefahr
umschlägt; denn nun ist sie nicht im Tosen
und im Wüten, wo sie immer war.
Lautlos kommt sie über die Matrosen,

cuja visão faz com que até o perigo
mude de forma: não mais no castigo
e no furor do vento costumeiros;
no silêncio ele atinge os marinheiros,

welche wissen, daß es dort auf jenen
goldnen Inseln manchmal singt -,
und sich blindlings in die Ruder lehnen,
wie umringt

que sabem que nos pélagos extremos
daquelas ilhas de ouro acha-se o canto;
que eles às cegas, se agarram aos remos,
sitiados pelo encanto

von der Stille, die die ganze Weite
in sich hat und an die Ohren weht,
so als wäre ihre andre Seite
der Gesang, dem keiner widersteht.

do silêncio, como se ele poupasse
todo espaço que existe
e sua outra face
fosse esse canto a que ninguém resiste.

Rainer Maria Rilke

In: Coisas e Anjos de Rilke
Trad. Augusto de Campos
Editora Perspectiva, 2001,
p. 106-7



- Postado por: Rodrigo às 19h06
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Francisco Cândido Xavier: 2 de abril de 1910 — 30 de junho de 2002

MEDICAÇÃO

"Aceite-se, tal qual é, buscando melhorar-se. Suporte com paciência as provas do caminho. Se você caiu, erga-se logo para seguir adiante. Se já conhece o que seja tentação, já sabe claramente como evitá-la. Deixe de criar motivações a sofrimentos de que não tem necessidade. Abstenha-se de relações que lhe prejudiquem a paz. Não tente sanar amarguras da alma com medicações que lhe criem exagerada dependência. Cultive fortaleza de ânimo e acolha a realidade, tal como se apresenta. Faça todo bem que puder, auxiliando a todos, mesmo quando não possa estar com todos. Trabalhe sempre confiando em Deus. Não diga que você já sabe tudo isso, porque os planos do bem devem ser infinitamente repetidos e a construção mais simples é sempre a mais difícil de se fazer".

André Luiz, mensagem psicografada por Francisco Cândido Xavier.

In: Sinais de Rumo



- Postado por: Rodrigo às 18h47
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Hans Christian Andersen: 2 de Abril de 1805 — 4 de Agosto de 1875

O Patinho Feio (Den grimme ælling)

Ele sentia-se muito envergonhado e escondeu a cabeça debaixo de uma asa; não sabia o que fazer. Estava quase feliz de mais, porque um bom coração nunca é orgulhoso nem vaidoso. Lembrava-se dos tempos em que tinha sido perseguido e desprezado, e agora ouvia toda a gente dizer que era a mais bela de todas aquelas maravilhosas aves brancas. Os lilases curvaram os ramos até à água para o saudarem; o Sol enviou o seu calor amigo, e a jovem ave, com o coração cheio de alegria, agitou as penas, ergueu o pescoço esguio e exclamou:
Nunca pensei que alguma vez pudesse sentir tamanha felicidade quando era o patinho feio!

Hans Christian Andersen



- Postado por: Rodrigo às 18h42
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Elisa Lispector - O Muro de Pedras

     "Se eu pudesse orar, pediria o quê?", perguntou de si para si, e respondeu: "Piedade." Sim, por certo que pediria piedade, e compreensão, compreensão de si mesma, evidentemente, uma vez que não tinha mais a quem tentar compreender, nem ninguém desejoso de compreendê-la.

     Em outros tempos, pensara que ela própria poderia arcar com o peso de sua existência. Mas agora su­bitamente descobria que a vida ultrapassava em muito mesmo as previsões mais calculadas. A cada passo deparava-se com o insuspeitado, e o mais aterrador eram as mutações por que passava o próprio ser.

Elisa Lispector

In: O Muro de Pedras
Rio de Janeiro: Ed. Rocco, 1963
p. 62



- Postado por: Rodrigo às 20h27
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De Corpo Inteiro - Clarice Lispector

“Tom Jobim e eu já nos conhecíamos: ele foi o meu padrinho no Primeiro Festival de Escritores, quando foi lançado meu livro A maçã no escuro. E ele fazia brincadeiras: segurava o livro na mão e perguntava: quem compra? Quem quer comprar? Para este diálogo, marcamos às seis da tarde: às seis e trinta e cinco tocavam a campanhia da porta. E era o mesmo Tom que eu conhecia: bonito, simpático, com um ar puro malgré lui, com os cabelos um pouco caídos na testa. Um uísque na mesa e começamos quase que imediatamente a entrevista. – Como é que você encara o problema da maturidade? – Tem um verso do Drummond que diz: a madureza, esta horrível prenda... Não sei, Clarice, a gente fica mais capaz, mas também mais exigente”.

Clarice Lispector

In: De Corpo Inteiro, 1975



- Postado por: Rodrigo às 20h14
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Olhos Nos Olhos - Chico Buarque

Olhos Nos Olhos

Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz

Composição: Chico Buarque

Ouça esta música aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=tNe3HqZiyyw



- Postado por: Rodrigo às 20h09
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Mário Faustino - Romance

ROMANCE

Para as Festas da Agonia
Vi-te chegar, como havia
Sonhado já que chegasses:
Vinha teu vulto tão belo
Em teu cavalo amarelo,
Anjo meu, que, se me amasses,
Em teu cavalo eu partira
Sem saudade, pena, ou ira;
Teu cavalo, que amarraras
Ao tronco de minha glória
E pastava-me a memória
Feno de ouro, gramas raras.
Era tão cálido o peito
Angélico, onde meu leito
Me deixaste então fazer,
Que pude esquecer a cor
Dos olhos da Vida e a dor
Que o Sono vinha trazer.
Tão celeste foi a Festa,
Tão fino o Anjo, e a Besta
Onde montei tão serena,
Que posso, Damas, dizer-vos
E a vós, Senhores, tão servos
De outra Festa mais terrena —

Não morri de mala sorte,
Morri de amor pela Morte.

Mário Faustino



- Postado por: Rodrigo às 20h04
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