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Feliz Natal


Não estamos buscando nenhum paraíso nas nuvens. Se ele estiver lá, nós o apanharemos, mas primeiro precisamos construir um paraíso aqui na terra; essa será nossa preparação. Se pudermos viver num paraíso na terra, então, esteja ele onde estiver, será nosso.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Editora Gente, 2006
p. 43



- Postado por: Rodrigo às 20h12
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Christian Morgenstern: 6 de maio de 1871 — 31 de março de 1914

"Korf erfindet eine Art von Witzen"

 Korf erfindet eine Art von Witzen,
 die erst viele Stunden später wirken.
 Jeder hört sie an mit Langerweile.
 Doch als hätt ein Zunder still geglommen,
 wird man nachts im Bette plötzlich munter,
 selig lächelnd wie ein satter Säugling.

* * *

O Invento de Korf

Korf inventou uma espécie de piadas,
que só fazem efeito muitas horas passadas.
Todos as ouvem com tédio, enfadados.
Mas é como um rastilho, queimando em surdina.
Quando é noite, na cama, repentina euforia
faz sorrir feito um beato bebê amamentado.

Christian Morgenstern

Tradução: Rubens R. Torres Filho

Poema publicado em 06.11.87, no jornal Folha de S. Paulo



- Postado por: Rodrigo às 20h05
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Belmiro Ferreira Braga: 7 de janeiro de 1872 — 31 de março de 1937

“n. 25
Dizem que a lágrima nasce
do fundo do coração...
Ah! se a lágrima falasse,
que doce consolação!

n. 26
Vi teus braços... que ventura!
teu colo... as pernas... que gosto!
Agora, tira a pintura,
Que eu quero ver o teu rosto.

n. 27
Quis a sorte que te visse,
quis o amor que eu te adorasse,
quis o dever que eu partisse,
quis a paixão que eu ficasse.

n. 28
Por ver-me alegre e contente,
julga-me o mundo feliz:
nem sempre o coração sente
aquilo que a boca diz...”

Belmiro Ferreira Braga



- Postado por: Rodrigo às 19h54
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Adelino Fontoura Chaves: 30 de março de 1859 — 2 de maio de 1884

CELESTE

É tão divina a angélica aparência
e a graça que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo de inocência
nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
exilada na etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher - parece santa.

Adelino Fontoura Chaves



- Postado por: Rodrigo às 19h38
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Paul Marie Verlaine: 30 de Março, 1844 – 8 de Janeiro, 1896

A uma mulher

Para vós são estes versos, pela consoladora
Graça dos olhos onde chora e ri um sonho
Doce, pela vossa alma pura e sempre boa,
Versos do fundo desta aflição opressora.

Porque, ai! o pesadelo hediondo que me assombra
Não dá tréguas e, louco, furioso, ciumento,
Multiplica-se como um cortejo de lobos
E enforca-se com o meu destino que ensanguenta !

Ah ! sofro horrivelmente, ao ponto de o gemido
Desse primeiro homem expulso do Paraíso
Não passar de uma écloga à vista do meu !

E os cuidados que vós podeis ter são apenas
Andorinhas voando à tarde pelo céu
- Querida - num belo dia ameno de setembro.

Paul Marie Verlaine



- Postado por: Rodrigo às 19h34
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Thiago de Mello: Barreirinha, 30 de março de 1926

Poema Concreto

O que tu tens e queres
saber (porque te dói),
não tem nome. Só tem
(mas vazio) o lugar
que abriu em tua vida
a sua própria falta.
A dor que te dói pelo avesso,
perdida nos teus escuros.
É como alguém que come
não o pão, mas a fome.

Sofres de não saber
o que não tens e falta
num lugar que nem sabes.
Mas que é na tua vida,
quem sabe é em teu amor.

O que tu tens, não tens.

Thiago de Mello

In: Vento Geral



- Postado por: Rodrigo às 19h29
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Go Back - Torquato Neto

Go Back

Você me chama
Eu quero ir pro cinema
Você reclama
Meu coração não contenta
Você me ama

Mas de repente
A madrugada mudou
E certamente
Aquele trem já passou
E se passou, passou
Daqui pra melhor, foi!

Só quero saber
do que pode dar certo
Não tenho tempo a perder

Torquato Neto



- Postado por: Rodrigo às 08h59
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Inverno - Adriana Calcanhotto

Inverno 
 
No dia em que fui mais feliz
Eu vi um avião
Se espelhar no seu olhar até sumir
De lá pra cá não sei
Caminho ao longo do canal
Faço longas cartas pra ninguém
E o inverno no Leblon é quase glacial
Há algo que jamais se esclareceu:
Onde foi exatamente que larguei
Naquele dia mesmo
O leão que sempre cavalguei?
Lá mesmo esqueci
Que o destino
Sempre me quis só
No deserto sem saudade, sem remorso só
Sem amarras, barco embriagado ao mar
Não sei o que em mim
Só quer me lembrar
Que um dia o céu
Reuniu-se a terra um instante por nós dois
Pouco antes do Ocidente se assombrar

Composição: Adriana Calcanhotto, Antonio Cicero
 
In: A Fábrica do Poema
Sony Music, 1994

 Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=L9M4mcjR1y4



- Postado por: Rodrigo às 08h48
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Indivisíveis - Mario Quintana

Indivisíveis


O meu primeiro amor sentávamos numa pedra
Que havia num terreno baldio entre as nossas casas.
Falávamos de coisas bobas,
Como qualquer troca de confidências entre crianças de
                                                                    [cinco anos
Crianças...
Parecia que entre um e outro nem havia ainda separação de sexos
A não ser o azul imenso dos olhos dela.
Olhos que eu não encontrava em ninguém mais,
nem no cachorro e no gato de casa,
Que apenas tinham a mesma fidelidade sem compromisso
e a mesma animal – ou celestial – inocência,
Porque o azul dos olhos dela tornava mais azul o céu:
Não, não importava as coisas bobas que disséssemos.
Éramos um desejo de estar perto, tão perto
Que não havia ali apenas duas encantadas criaturas
Mas um único amor sentado sobre uma tosca pedra.
Enquanto a gente grande passava, caçoava, ria-se, não sabia
Que eles levariam procurando uma coisa assim por toda
                                                                       [a sua vida...

Mario Quintana

In: Nova Antologia Poética,
2a. ed, Rio de Janeiro,
Editora Codecri, 1981
p. 140-1



- Postado por: Rodrigo às 08h37
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Teófilo Dias: 8 de novembro de 1854 — 29 de março de 1889

A Nuvem

Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.

A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.

E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,

Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!

Teófilo Dias

In: Poesias escolhidas.
Sel. introd. e notas Antonio Candido.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960.



- Postado por: Rodrigo às 08h28
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Alexandre Herculano: 28 de Março de 1810 — 13 de Setembro de 1877

A VITÓRIA E A PIEDADE

Eu nunca fiz soar meus pobres cantos
Nos passos dos senhores!
Eu jamais consagrei hino mentido
Da terra dos opressores.
Mal haja o trovador que vai sentar-se
À porta do abastado,
O qual com ouro paga a própria infâmia,
Louvor que foi comprado.
Desonra àquele, que ao poder e ao ouro
Prostitui o alaúde!
Deus à poesia deu por alvo a pátria,
Deu a glória e a virtude.
Feliz ou infeliz, triste ou contente,
Livre o poeta seja,
E em hino isento a inspiração transforme
Que na sua alma adeja.

Alexandre Herculano



- Postado por: Rodrigo às 20h48
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Andança - "Por onde for quero ser seu par..."

Andança

Vim, tanta areia andei
Da lua cheia eu sei, uma saudade imensa...
Vagando em verso eu vim, vestido de cetim
Na mão direita, rosas vou levar...

Olha a lua mansa a se derramar
Ao luar descansa meu caminhar
Meu olhar em festa se fez feliz
Lembrando a seresta que um dia eu fiz...

Já me fiz a guerra por não saber
Que esta terra encerra, meu bem querer
E jamais termina meu caminhar
Só o amor me ensina onde vou chegar...

Rodei de roda andei, dança da moda eu sei
Cansei de ser sozinha...
Verso encantado usei, meu namorado é rei
Nas lendas do caminho...
Onde andei...

No passo da estrada, só faço andar
Tenho o meu amado a me acompanhar
Vim de longe léguas, cantando eu vim
Já não faça tréguas, sou mesmo assim...

Contracanto:
Me leva amor
Amor
Me leva amor
Por onde for quero ser seu par...

E. Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=nLKGc3yl1jQ



- Postado por: Rodrigo às 00h32
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Sempre sonhei com as estrelas, com outros mundos, em conhecer os segredos da natureza e do universo, e compreender o sentido da vida. O primeiro “estremecimento” que me conduziu por esta senda ocorreu por volta dos 13 anos, quando convalescendo de uma hepatite, e necessitando permanecer mais ou menos 30 dias em repouso, meu pai, que é médico, filósofo e escritor, me presenteou com uma enciclopédia, e ali descobri o cosmos, a astronomia, a maravilhosa organização da vida, e o universo subatômico. Desde então minha existência tem sido uma vertiginosa aventura à procura de significado para a vida, o homem e o universo.

Francisco Di Biase

In: O homem holístico.
RJ: Ed. Vozes,1995

(Arte: Bookopolis - Erick Drooker)



- Postado por: Rodrigo às 00h14
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Miguel Hernández Gilabert: 30 de outubro de 1910 - 28 de março de 1942

BOCA

Boca que arrasta minha boca:
boca que me tem arrastado:
boca que vem de muito longe
a iluminar-me de raios.

Alba que dá a minhas noites
um resplendor rubro e branco.
Boca povoada de bocas:
pássaro cheio de pássaros.
Canção que mexe as asas
para cima e para baixo.
Morte reduzida a beijos,
sede de morrer com vagar,
dás à grama sangrante
um duplo bater de asas.
O lábio de cima o céu
e a terra o outro lábio.

Beijo que roda na sombra:
beijo que vem rodando
desde o primeiro cemitério
até os últimos astros.
Astro que tem a tua boca
emudecido e fechado
até que um roçar celeste
faça vibrar tuas pálpebras.

Beijo que vai a um porvir
de homens e de mulheres,
que não deixarão desertos
nem os campos nem as ruas.

Quanta boca já enterrada,
sem boca, desenterramos!

Bebo em tua boca por eles,
brindo em tua boca por tantos
que caíram sobre o vinho
dos cálices amorosos.
Hoje lembranças, lembranças,
beijos distantes e amargos.

Afundo em tua boca minha vida,
e ouço rumores de espaços,
e o infinito sobre mim
parece se ter entornado.

Hei de voltar a beijar-te,
hei de voltar: afundo, caio,
enquanto descem os séculos
até os profundos abismos
como uma febril nevada
de beijos e namorados.

Boca que desenterraste
o amanhecer mais claro
com tua língua. Três palavras,
três fogos tens tu herdado:
vida, morte, amor. Aqui,
escritos sobre teus lábios.

Miguel Hernández

Trad. Sidnei Schneider, 2004

 Ouça este poema aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=R-h_I-H7b7s



- Postado por: Rodrigo às 00h08
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Virginia Woolf: 25 de Janeiro de 1882 — 28 de Março de 1941

"Querido, tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais. Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V."

* * *

'Dearest, I feel certain I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer. I don't think two people could have been happier than we have been. V.'

Virginia Woolf

No dia 28 de março de 1941, após ter um colapso nervoso Virginia suicidou-se. Ela vestiu um casaco, encheu seus bolsos com pedras e entrou no Rio Ouse, afogando-se. Seu corpo só foi encontrado no dia 18 de abril. O trecho acima é o seu último bilhete para o marido, Leonard Woolf.



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Ausência - Sophia de Mello Breyner Andresen

Ausência

Num deserto sem água
Numa noite sem lua
Num país sem nome
Ou numa terra nua
Por maior que seja o desespero
Nenhuma ausência é mais funda do que a tua.

Sophia de Mello Breyner Andresen



- Postado por: Rodrigo às 19h17
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Soneto do maior amor - Vinicius de Moraes

Soneto do maior amor

Maior amor nem mais estranho existe
Que o meu, que não sossega a coisa amada
E quando a sente alegre, fica triste
E se a vê descontente, dá risada.

E que só fica em paz se lhe resiste
O amado coração, e que se agrada
Mais da eterna aventura em que persiste
Que de uma vida mal-aventurada.

Louco amor meu, que quando toca, fere
E quando fere vibra, mas prefere
Ferir a fenecer – e vive a esmo

Fiel à sua lei de cada instante
Desassombrado, doido, delirante
Numa paixão de tudo e de si mesmo.

Vinicius de Moraes

In: Antologia Poética - 22a. Edição
RJ: José Olympio Editora, 1983
p. 98



- Postado por: Rodrigo às 19h12
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Francis Ponge: 27 de março de 1899 — 6 de agosto de 1988

A OSTRA

          A ostra, do tamanho de um seixo mediano, tem uma aparência mais rugosa, uma cor menos uniforme, brilhantemente esbranquiçada. É um mundo recalcitrantemente fechado. Entretanto, pode-se abri-lo: é preciso então agarrá-la com um pano de prato, usar de uma faca pouco cortante, denteada, fazer várias tentativas. Os dedos curiosos ficam trinchados, as unhas se quebram: é um trabalho grosseiro. Os golpes que lhe são desferidos marcam de círculos brancos seu invólucro, como halos.
          No interior encontra-se todo um mundo, de comer e de beber: sob um "firmamento" (propriamente falando) de madrepérola, os céus de cima se encurvam sobre os céus de baixo, para formar nada mais que um charco, um sachê viscoso e verdejante, que flui e reflui para a vista e o olfato, com franjas de renda negra nas bordas.
          Por vezes mui raro uma fórmula peroliza em sua goela nácar, e alguém encontra logo com que se adornar.

Francis Ponge

Trad: Ignácio Antonio Neis e Michel Peterson



- Postado por: Rodrigo às 19h06
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Órion - Carlos Drummond de Andrade

ÓRION

A primeira namorada, tão alta
que o beijo não a alcançava,
o pescoço não a alcançava,
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilômetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.

Carlos Drummond de Andrade

In: Boitempo II
RJ: Ed. Record, 1987
p. 28



- Postado por: Rodrigo às 18h55
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Gregory Nunzio Corso: 26 de março de 1930 - 17 de janeiro de 2001

Casa Natal Revisitada

olho pra cima pra minha janela, ali nasci
As luzes estão acesas; outras pessoas andam por lá
Estou de gabardine; cigarro na boca,
cabelo nos olhos, mão na garganta
Atravesso a rua e entro no prédio
As latas de lixo continuam cheirando mal
Subo ao primeiro andar; Dirty Ears me aponta uma faca
eu o apalpo cheio de relógios perdidos

Gregory Corso

In: Gasolina & Lady Vestal (1985)
Tradução: Eduardo Bueno
L&PM editores



- Postado por: Rodrigo às 18h47
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Walt Whitman: 31 de maio de 1819 - 26 de março de 1892

Poetas de amanhã

Poetas de amanhã: arautos, músicos,
cantores de amanhã!
Não é dia de eu me justificar
e dizer ao que vim;
mas vocês, de uma nova geração,
atlética, telúrica, nativa,
maior que qualquer outra conhecida antes
- levantem-se: pois têm de me justificar!

Eu mesmo faço apenas escrever
uma ou duas palavras
indicando o futuro;
faço tocar a roda para a frente
apenas um momento
e volto para a sombra
correndo.

Eu sou um homem que, vagando
a esmo, sem de todo parar,
casualmente passa a vista por vocês
e logo desvia o rosto,
deixando assim por conta de vocês
conceituá-lo e prová-lo,
a esperar de vocês
as coisas mais importantes.

Walt Whitman



- Postado por: Rodrigo às 18h38
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MID-TERM BREAK - Seamus Heaney

Interrupção Letiva

Passei toda a manhã na enfermaria do colégio
Contando os sinos a repicarem o fim das aulas.
Às duas os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda encontrei meu pai chorando —
Ele sempre enfrentara enterros sem se perturbar —
E Big Jim Evans dizendo que era um revés terrível.

O bebê rulava, ria e embalava o carrinho
Quando entrei, e fiquei desconcertado com os velhos
Que se levantavam para me apertar a mão

E falar que tinham "pena do meu penar".
Cochichava-se aos estranhos que eu era o mais velho,
Em colégio interno, e minha mãe segurava minha mão

Na dela, a tossir suspiros de cólera sem lágrimas.
Às dez horas a ambulância chegou
Com o corpo lavado e enfaixado pelos enfermeiros.

Na manhã seguinte subi ao quarto. Fura-neves
E velas serenavam a cabeceira; via-o
Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido.

Agora, com um calombo na têmpora esquerda,
Jazia no caixão de quatro pés como no berço.
Sem sinal que se visse, o pára-choque o pegou sem engano.

Caixão de quatro pés, um pé para cada ano.

Seamus Heaney

In: Poemas (1966-1987)
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 39-40

Poema escrito em fevereiro de 1963 após a morte do irmão de Seamus Heaney, Christopher, num acidente de automóvel.



- Postado por: Rodrigo às 21h30
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A vida é o dia de hoje - João de Deus

A vida é o dia de hoje 

A vida é o dia de hoje,
A vida é ai que mal soa,
A vida é sombra que foge,
A vida é nuvem que voa;

A vida é sonho tão leve
Que se desfaz como a neve
E como o fumo se esvai:
A vida dura um momento,
Mais leve que o pensamento,
A vida leva-a o vento,
A vida é folha que cai!

A vida é flor na corrente,
A vida é sopro suave,
A vida é estrela cadente,
Voa mais leve que a ave:

Nuvem que o vento nos ares,
Onda que o vento nos mares,
Uma após outra lançou,
A vida - pena caída
Da asa da ave ferida
De vale em vale impelida
A vida o vento levou! 

João de Deus 



- Postado por: Rodrigo às 21h01
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Não te amo - Almeida Garrett

NÃO TE AMO
 
Não te amo, quero-te:
o amor vem d'alma.
E eu n'alma tenho a calma,
A calma do jazigo.
Ai! Não te amo, não.

Não te amo, quero-te:
o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! Não te amo, não;
e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.
 

Almeida Garrett



- Postado por: Rodrigo às 20h54
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Chico Buarque - Construção

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=xAUogmaP_PE



- Postado por: Rodrigo às 19h53
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Olegário Mariano: 24 de março de 1889 — 28 de novembro de 1958

DO MEU TEMPO...

Quando eu era menino e tinha cheia
A alma de sonhos bons e, fugidio,
Como a abelha que voa da colmeia,
Andava a errar do canavial bravio;

Quando em noites de junho o luar macio
Punha um lençol de rendas sobre a areia,
Tiritava de medo ouvindo o pio
Da coruja mais lúgubre da aldeia.

Feliz! Bendita essa primeira idade!
Andava como quem anda sonhando
De olhos abertos, com a felicidade.

Dormia tarde e enquanto eu não dormia,
Mamãe rezava o padre-nosso e quando
Me mandava rezar, eu não sabia.

Olegário Mariano

In: Sonetos (1912)

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 19h33
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Frances Jane Crosby: 24 de março de 1820 – 12 de fevereiro de 1915

Então pode chorar e soluçar porque sou cega
Oh, que menina contente sou eu,
Apesar de não poder ver,
Pois decidida estou que
Neste mundo alegre serei!
Quantas bênçãos recebo eu
Então pode chorar e soluçar porque sou cega
Porque isso não farei!

Fanny Crosby



- Postado por: Rodrigo às 19h25
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Crepuscular - Camilo Pessanha

Crepuscular

Há no ambiente um murmúrio de queixume,
De desejos de amor, d'ais comprimidos...
Uma ternura esparsa de balidos,
Sente-se esmorecer como um perfume.

As madressilvas murcham nos silvados
E o aroma que exalam pelo espaço,
Tem delíquios de gozo e de cansaço,
Nervosos, femininos, delicados.

Sentem-se espasmos, agonias d'ave,
Inapreensíveis, mínimas, serenas...
Tenho entre as mãos as tuas mãos pequenas,
O meu olhar no teu olhar suave.

As tuas mãos tão brancas d'anemia...
Os teus olhos tão meigos de tristeza...
É este enlanguescer da natureza,
Este vago sofrer do fim do dia.

Camilo Pessanha



- Postado por: Rodrigo às 20h20
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Reis Ventura: 23 de Março de 1910 — 29 de Janeiro de 1988

Baião de Luanda

Tão velhinha e tão linda, e tão presa
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.

De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!

Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.

Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.

Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.

Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...

Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!

Reis Ventura



- Postado por: Rodrigo às 20h14
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Apolinário Porto-Alegre: 29 de agosto de 1844 – 23 de março de 1904

''O inverno desatava as madeixas emperladas de gelo, tão triste que magoava o coração e despertava idéias sombrias, como céus e terras.

Não sei que íntima e mística afinidade existe entre a natureza e a alma humana, que a morte-cor de uma se reflete na outra como em bacias de límpidas águas, que o múrmur surdo e merencório desta, como num tímpano, encontra ecos naquela.

Inverno é um cemitério! Sazão de morte que não poupa a terna vergôntea, nem as catassóis da asa do colibri! Por isso o calafrio que se sente quando ele se aproxima, o terror que vaga na floresta e na campina, a palidez do manto de verduras, a ausência dos cantores plumosos... e depois o minuano! Como é cruel, ele que fustiga a árvore secular, que aspergia doce sombra no ardor da sesta, até lhe arrancar uma por uma as folhas de seu diadema! Que cresta a várzea há pouco vicejante alfombra! que torna a linfa de onda argentina e anodina, fria como uma geleira, silenciosa como um ermo, ingrata ao lábio na exsicação da sede!

Quem pode amar-te quadra sem sombras, brisas, cantos e flores? Período que espasma a vida e congela a flor das alegrias?

Só quem não sente, alma embotada para as sensações brandas e suaves, que rodeiam a existência de uma gaza transparente e rósea que se chama poesia!''

Apolinário Porto-Alegre

In: O vaqueano (1872)
Capítulo I - Paisagem morta



- Postado por: Rodrigo às 20h08
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Dia Mundial da Água

Os Estatutos do Homem (Ato Institucional Permanente)

"(...) Artigo VIII

Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor. "

Thiago de Mello

* * *

A FORÇA SUBMISSA DA ÁGUA

"A água é submissa, mas tudo conquista. A água extingue o fogo ou, diante de uma provável derrota, escapa como vapor e se refaz. A água carrega a terra macia, ou quando se defronta com rochedos, procura um caminho ao redor. A água corrói o ferro até que ele se desintegra em poeira; satura tanto a atmosfera que leva à morte o vento. A água dá lugar aos obstáculos com aparente humildade, pois nenhuma força pode impedi-la de seguir seu curso traçado para o mar. A água conquista pela submissão; jamais ataca, mas sempre ganha a última batalha."

Tao Cheng de Nan Yeo

Estudioso taoísta do séc. XI, citado por John Blofeld em seu livro The Wheel of Life

* * *

"(...) Ser feliz é sentir o sabor da água, a brisa no rosto, o cheiro da terra molhada. É extrair das pequenas coisas grandes emoções. É encontrar todos os dias motivos para sorrir, mesmo se não existirem grandes fatos. É rir de suas próprias tolices."

Augusto Cury

In: Dez Leis Para Ser Feliz
Editora Sextante
p. 6



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Escute seu Coração - Osho

O que é um místico? Alguém que não conhece respostas, alguém que fez todas as perguntas possíveis e descobriu que nenhuma pergunta é respondível. Descobrindo isso, abandonou o questionamento. Não que ele tenha encontrado a resposta - simplesmente descobriu uma coisa: que em lugar nenhum há resposta.

A vida é um mistério, não uma pergunta. Não um quebra-cabeça para ser resolvido, não uma pergunta a ser respondida, mas um mistério a ser vivido, a ser amado, a ser dançado.

Osho

In: Escute seu coração
São Paulo: Ed. Gente, 2006
p. 35



- Postado por: Rodrigo às 00h22
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Profundamente - Manuel Bandeira

PROFUNDAMENTE

Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Estrondos de bombas luzes de Bengala
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando o ruído de um bonde
Cortava o silêncio como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?

— Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.

Manuel Bandeira

In: Estrela da Vida Inteira. 8. ed.
R.J.: Livraria José Olympio Editora, 1980



- Postado por: Rodrigo às 00h08
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Johann W. von Goethe: 28 de Agosto de 1749 — 22 de Março de 1832

ANELO

Só aos sábios o reveles,
Pois o vulgo zomba logo:
Quero louvar o vivente
Que aspira à morte no fogo.

Na noite - em que te geraram,
Em que geraste - sentiste,
Se calma a luz que alumiava,
Um desconforto bem triste.

Não sofres ficar nas trevas
Onde a sombra se condensa.
E te fascina o desejo
De comunhão mais intensa.

Não te dêm as distâncias,
Ó mariposa! e nas tardes,
Ávida de luz e chama,
Voas para a luz em que ardes.

"Morre e transmuda-te": enquanto
Não cumpres esse destino,
És sobre a terra sombria
Qual sombrio peregrino.

Johann Wolfgang von Goethe

Tradução: Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Bem-me-quer - Cesar Veneziani

Bem-me-quer

sou sonho sempre sensível
sou busca sempre incansável de amor
me desdobro multiplico
aplico energia onde for possível
sou filha amiga amante confidente
sempre presente
incansavelmente
desde menina é minha sina
mas sou frágil delicada
por trás desta alta murada
que um simples olhar faz ruir

ninguém vê
me camuflo sou flor
sou rosa margarida dália hortência
faça comigo o jogo do bem-me-quer
dispo-me de minhas pétalas
mas não perco minha essência
sou mulher

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

Homenagem ao Dia da Mulher! Escrito em 02/03/2009, como participação como convidado no site Falópios (www.falopios.blogspot.com).



- Postado por: Rodrigo às 08h13
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Um Sopro de Vida [Trecho] - Clarice Lispector

 (...) O jade me permite a divindade. Seu verde trans­passável me santifica em bizantino ícone. Eu, de mãos postas e juntas diante de meu rosto sério e transpa­rente e meu diadema então são as tranças entrelaçadas de meus vigorosos e tranqüilos cabelos negros. O jade é a minha espada desembainhada pelo harakiri de minha humilde alma orgulhosa que se mata porque tem muito pouco de tudo, é paupérrima, mas tem o orgulho soberano da morte.
         Mas — mas só o diamante corta o vidro.
        E agora vou dizer uma coisa muito séria, preste atenção: caco de vidro é jóia rara. E o espatifo dele é som de se ouvir ajoelhado que nem som de sinos. Elegantes sinos que são coisas jóias também. Sinos são as jóias da igreja. E o badalo de sinos é um badalar de ouro que espatifa no ar brilhantes e pássaros azuis.
        Cavalo de fogo é o rubi em que eu mergulho tão profundo que se me rompo toda.
        E a esmeralda? Esmeralda é de se trincar com os dentes, e espatifá-la em mil trocinhos de verdes e miú­dos filhos de esmeralda.
        Topázio é a transparência de teu olhar.
        A pedra? pedra que está no chão? É jóia que veio do céu em turbilhão e ali parou até que eu viesse e a visse e a apanhasse e a apalpasse como coisa minha, coisa de meu coração.
        E a safira? tem um reflexo que cega os olhos dos incautos que a compram como se fossem brilhantes. Eu nunca vi uma safira. Só sei por ouvir falar. Mas no dia em que eu me defrontar com uma safira — ah! vai ser espada contra espada e vamos ver se é de mim que o sangue há de jorrar.
        A pulseira me escraviza, oh doce escravidão de mulher ao seu homem preferido.
        Platina é a mais cara. Mas não te quero, és feroz na tua frieza branca. Prefiro jóia barata de mulher pobre que compra na feira seus brilhantes leivados da mais pura água dos esgotos turvos.
        Ametista, eu não te beijo porque não sou a tua serva.
Ônix! príncipe negro das rosas, tu me amargas e nado nas águas — trevas da tua posse ferrenha, oh luto de rainha! aranha preta penugenta. Maldita sejas, pedra preta de sangue, coágulo de humores e miasmas.
        Água-marinha? meu primeiro namoradinho tinha olhos azuis de água-marinha. Mas eu não chegava perto dele: tinha medo. Porque água quieta é água funda e me dava calafrios.

Clarice Lispector

In: Um Sopro de Vida
RJ: Ed. Nova Fronteira, 1978
p. 120-122



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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Ayrton Senna da Silva: 21 de março de 1960 — 1 de maio de 1994

"Deus me dá força. A vida é um presente que Deus nos deu e que somos obrigados a tratar com cuidado."

* * *

"Se a gente quiser modificar alguma coisa, é pelas crianças que se deve começar, através da sua educação."

Ayrton Senna

Fonte: senna.com.br 



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Lau Siqueira: Jaguarão, 21 de março de 1957

Felina

teu corpo
é linguagem pura
frágil refúgio
da minha loucura
metade prazer
metade tortura
 
* * *

Cataplaft

com seus tacapes digitais 
e tangas pierre cardin 
os cariris contemporâneos 
invadem o shopping 
e jantam champignons 
com xerém 
no self-service 
  
ajustando as penas 
desajustam os cocares 
da cultura pagã 
  
cultuam o corpo 
em academias 
e investem fortunas 
da floresta tropical 
nas delícias 
da nova moda verão 
  
já sem matas 
matam-se nas guerras 
da pós-modernidade 
  
disputas sangrentas 
por hectares de asfalto 
ou pontos de venda 
de coca 
(ou pepsi) 
  
e dançam o rap 
da globalização 
  
com as mãos enfiadas 
nas algemas ideológicas 
do terceiro milênio

* * *

Síntese

que a morte 
me encontre 
embriagado 
e que não ria 
ao me ver 
do outro lado

Lau Siqueira

Blog do autor: http://poesia-sim-poesia.blogspot.com



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Ilse Lieblich Losa: 20 de Março de 1913 — 6 de Janeiro de 2006

(...) De todas as escolas por que passei, a de que verdadeiramente gostei foi a escola primária. Quando o sr. Brand tomou nota do meu nome ninguém se virou para mim com sorrizinhos por soar a judaico, ninguém achou estranho eu responder "Israelita" à pergunta do sr. Brand à minha religião. Fora a mãe que me recomendara: "Quando o sr. Brand te perguntar pela religião, diz-lhe que és israelita. Soa melhor do que judia". Eu não concordava, porque achava "israelita" uma palavra estranha que não parecia pertencer à minha língua e, por isso, corei de embaraço ao pronunciá-la. E quando o sr. Brand quis saber a profissão do meu pai respondi "negociante de cavalos". Coisa natural. Muitos alunos eram filhos de lavradores e conheciam o meu pai. Não me sentia envergonhada daquilo que eu e o meu pai éramos, como aconteceria mais tarde, no liceu, quando a minha mãe me recomendou que às perguntas respondesse, além de "sou israelita", que o meu pai era "comerciante".

Ilse Losa

In: O mundo em que vivi (1943)



- Postado por: Rodrigo às 18h42
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M. Del Picchia: 20 de março de 1892 — 23 de agosto de 1988

CHUVA DE PEDRA

O granizo salpica o chão como se as mãos das nuvens
quebrassem com estrondo um pedaço de gelo
para a salada de fruta dos pomares...

O cafezal, numa carreira alucinada,
grimpa as lombas de ocre
apedrejada matilha de cães verdes...

Fremem, gotejam eriçadas suas copas
como pêlos de um animal todo molhado.

O céu é uma pedreira cor de zinco
onde estoura dinamite dos coriscos.

 Rola de fraga em fraga a lasca retumbante
de um trovão.

Os riachos
correm com seus pés invisíveis e líquidos
para o abrigo das furnas. No terreiro,
as roupas penduradas nos varais
dançam, funambulescas, com as pedradas,
numa fila macabra de enforcados!

(1925)

Menotti Del Picchia

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 18h17
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Graciliano Ramos: 27 de outubro de 1892 — 20 de março de 1953

"Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem três léguas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, através dos galhos pelados da caatinga rala.”

Graciliano Ramos

In: Vidas Secas



- Postado por: Rodrigo às 18h06
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A Morte - Miguel Torga

A Morte

E o Poeta morreu.
A sombra do cipreste pôde enfim
Abraçar o cipreste.
O torrão
Caiu desfeito ao chão
Da aventura celeste.

Nenhum tormento mais, nenhuma imagem
(No caixão, ninguém pode Fantasiar).
Pronto para a viagem
De acabar.

Só no ouvido dos versos,
Onde a seiva não corre,
Uma rima perdura
A dizer com brandura
Que um Poeta não morre.

Miguel Torga

In: Nihil Sibi, 1948



- Postado por: Rodrigo às 17h26
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As Coisas - Arnaldo Antunes

"Neto e neta são netos no masculino. Filho e filha são filhos, no masculino. Pai e mãe são pais, no masculino. Avô e avó são avós".

Arnaldo Antunes

In: As Coisas
São Paulo: Ed. Iluminuras, 1992



- Postado por: Rodrigo às 17h13
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João da Cruz e Sousa: 24 de novembro de 1861 — 19 de março de 1898

Antífona

Ó Formas alvas, brancas, Formas claras
de luares, de neves, de neblinas!
Ó Formas vagas, fluidas, cristalinas…
Incensos dos turíbulos das aras

Formas do Amor, constelarmante puras,
de Virgens e de Santas vaporosas…
Brilhos errantes, mádidas frescuras
e dolências de lírios e de rosas…

Indefiníveis músicas supremas,
harmonias da Cor e do Perfume…
Horas do Ocaso, trêmulas, extremas,
Réquiem do Sol que a Dor da Luz resume…

Visões, salmos e cânticos serenos,
surdinas de órgãos flébeis, soluçantes…
Dormências de volúpicos venenos
sutis e suaves, mórbidos, radiantes…

Infinitos espíritos dispersos,
inefáveis, edênicos, aéreos,
fecundai o Mistério destes versos
com a chama ideal de todos os mistérios.

Do Sonho as mais azuis diafaneidades
que fuljam, que na Estrofe se levantem
e as emoções, todas as castidades
da alma do Verso, pelos versos cantem.

Que o pólen de ouro dos mais finos astros
fecunde e inflame a rima clara e ardente…
Que brilhe a correção dos alabastros
sonoramente, luminosamente.

Forças originais, essência, graça
de carnes de mulher, delicadezas…
Todo esse eflúvio que por ondas passa
do Éter nas róseas e áureas correntezas…

Cruz e Souza

In: Broqueis



- Postado por: Rodrigo às 17h07
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Stéphane Mallarmé: 18 de março de 1842 – 9 de setembro de 1898

BRINDE

Nada, esta espuma, virgem verso
A não designar mais que a copa;
Ao longe se afoga uma tropa
De sereias vária ao inverso.

Navegamos, ó meus fraternos
Amigos, eu já sobre a popa
Vós a proa em pompa que topa
A onda de raios e de invernos;

Uma embriaguez me faz arauto,
Sem medo ao jogo do mar alto,
Para erguer, de pé, este brinde

Solitude, recife, estrela
A não importa o que há no fim de
um branco afã de nossa vela.

Stéphane Mallarmé

Tradução de Guilherme de Almeida



- Postado por: Rodrigo às 19h53
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Wilfred E. Salter Owen: 18 de março, 1893 – 4 de novembro, 1918

Parábola do Ancião e do Jovem

Então Abraão levantou-se e cortou a lenha, e partiu
E levou consigo o fogo, e uma faca.
E enquanto jornavam assim os dois juntos
Isaac o primogénito falou e disse, Meu Pai
Vede, temos aqui a lenha, fogo e lâmina
Mas onde está o cordeiro para este holocausto?
Então Abraão amarrou o jovem com correias e cintos,
e ali construiu barricadas e trincheiras,
e ergueu a faca para imolar o seu filho.
Quanto, Vejam! Um anjo chamou por ele do Céu,
dizendo, Não ponhas a tua mão sobre o menino,
Nem lhe faças qualquer mal, ao teu filho.
Vede! Preso num espinheiro pelos chifres,
Um Bode. Oferece antes o Bode do Orgulho.

Mas o ancião não o quis fazer, mas imolou o filho,
E metade das sementes da Europa, uma a uma.

(1916)

Wilfred Owen

(Arte: Sacrificio di Isacco, Michelangelo)



- Postado por: Rodrigo às 19h43
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Nina Arueira: 7 de janeiro de 1916 – 18 de março de 1935

Encontrei meu amor no caminho do mundo...
Abri minha alma inteira para lhe dar guarida.
E pelo amor de amar o trouxe para a vida.

Meu amor infinito é mais que um sentimento...
É um espírito de luz no espírito de ânsias
Que tenho dentro de mim...
É uma vida votada a um grande sonho
E acorrentada a uma grande e real ilusão!

Meu amor infinito
Não pode ser de um só!
E pelo amor de amar
Amo a vida e os homens
E os universos todos...

Meu amor infinito,
Por ser tão infinito,
Não pode ser compreendido por um homem...
Porque se amo a vida, e toda a vida,
E as criaturas todas,
Um ente só seria um quase nada
Para satisfação do meu amor...

E por ser o infinito, meu amor é um céu,
Que cerca todo o céu, e cerca toda a terra,
E venturas e dores, tristezas e alegrias,
E noites de procelas e luar, e interminíssimos dias...
Só pelo amor de amar...”

Nina Arueira



- Postado por: Rodrigo às 19h38
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António Nobre: 16 de Agosto de 1867 — 18 de Março de 1900

SONETO

Meus dias de rapaz, de adolescente,
Abrem a boca a bocejar, sombrios:
Deslizam vagarosos, como os Rios,
Sucedem-se uns aos outros, igualmente.

Nunca desperto de manhã, contente.
Pálido sempre com os lábios frios,
Ora, desfiando os meus rosários pios...
Fora melhor dormir, eternamente!

Mas não ter eu aspirações vivazes,
E não ter como têm os mais rapazes,
Olhos boiados em sol, lábio vermelho!

Quero viver, eu sinto-o, mas não posso:
E não sei, sendo assim enquanto moço,
O que serei, então, depois de velho.

(1889)

António Nobre



- Postado por: Rodrigo às 19h27
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A lágrima - Max Martins

A lágrima

Do morno coração nasceu agora
temperada em brasa, angústia, sal
e sono, lâmina fina sobre o peito
e revolveu a terra e a infância espedaçada.
Cristina flor desamparada
és o silêncio todo, invulnerável
ou o eco
do trombone longe sufocando a tarde.

Max Martins

In: Anti-Retrato - 1960
Gráfica Falângola Editora, Belém



- Postado por: Rodrigo às 21h07
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Labirinto ou não Foi Nada - David Mourão-Ferreira

Labirinto ou não Foi Nada

Talvez houvesse uma flor
aberta na tua mão.
Podia ter sido amor,
e foi apenas traição.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua ...
Ai de mim, que nem pressinto
a cor dos ombros da Lua!

Talvez houvesse a passagem
de uma estrela no teu rosto.
Era quase uma viagem:
foi apenas um desgosto.

É tão negro o labirinto
que vai dar à tua rua...
Só o fantasma do instinto
na cinza do céu flutua.

Tens agora a mão fechada;
no rosto, nenhum fulgor.
Não foi nada, não foi nada:
podia ter sido amor.

David Mourão-Ferreira

In: À Guitarra e à Viola



- Postado por: Rodrigo às 21h01
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Elis Regina: 17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982

Preciso Aprender a Ser Só

Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
E sem nós dois o que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu calor
E ver que foi só um sonho e passou

Ah, o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem
É tão triste, vê
Meus olhos choram a falta dos teus
Esses olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor
Ah o amor
Quando é demais ao findar leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe e se vem
É tão triste, vê
Meus olhos choram a falta dos teus
Esses olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor

Composição: M. Valle / P. Sergio Valle

Ouça esta música na voz de ELIS REGINA:
http://www.youtube.com/watch?v=qZGx72O1j3U



- Postado por: Rodrigo às 20h56
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António T. Botto: 17 de Agosto de 1897 — 16 de Março de 1959

A Vossa Carta Commove

A vossa carta commove,
Mas, não vos posso acompanhar.
Deixae-me viver em penas;
- Vou soffrendo e vou sorrindo,
O meu destino é chorar!

Sim, é certo; - quem eu amo
Zomba e ri do meu amôr...
- Que hei-de eu fazer? - Resignar-me,
Gentillissimo Senhor!

Depois, quanto mais sabemos,
Parece que mais erramos:

- Antes soffrer os males que nos cercam
Do que ir em busca de outros que ignoramos.

António Botto

In: Canções



- Postado por: Rodrigo às 20h24
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Natália de Oliveira Correia: 13 de Setembro de 1923 — 16 de Março de 1993

Auto-retrato

Espáduas brancas palpitantes:
asas no exílio dum corpo.
Os braços calhas cintilantes
para o comboio da alma.
E os olhos emigrantes
no navio da pálpebra
encalhado em renúncia ou cobardia.
Por vezes fêmea. Por vezes monja.
Conforme a noite. Conforme o dia.
Molusco. Esponja
embebida num filtro de magia.
Aranha de ouro
presa na teia dos seus ardis.
E aos pés um coração de louça
quebrado em jogos infantis.

Natália Correia



- Postado por: Rodrigo às 20h19
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Lupe Cotrim Garaude: 16 de março de 1933 — 18 de fevereiro de 1970

Ao Amor

O que desejas de mim
nunca o dará o lampejo de um momento,
a conquista de um dia da montanha.

Meu corpo — para ti somente —
deve emergir a cada gesto límpido
e profundo deve ser meu futuro
para reter-te e recriar-te permanente.

Sei que em mim te estenderás, não mais disperso,
em desejo e em procura de teu filho
e que todo movimento de meu ser
será o rumo de teu universo.

E por isso temo. No meu sentimento
sofro por ti. Receio
ser larga a hesitação de meu caminho,
ser um mito a conquista da montanha,
ser pobre e fugaz o meu espaço
na extensão que reduz teu infinito.

Lupe Cotrim



- Postado por: Rodrigo às 20h15
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Camilo Castelo Branco: 16 de Março de 1825 — 1 de Junho de 1890

"Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única, e inflexível. Alguns prosadores de romances dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor dos quinze anos é uma brincadeira; é a ultima manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o vôo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe que a está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe." (p. 28-9)

"Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte. Nas máximas aflições, nas derradeiras horas do coração e da vida, é grato ainda sentir-se amado quem já não pode achar no amor diversão das penas, nem soldar o último fio que se está partindo. Orgulho ou insaciabilidade do coração humano, seja o que for, no amor, que nos dão, é que nós graduamos o que valemos em nossa consciência." (p. 70)

"... Era de mulher o coração de Mariana. Amava como a fantasia se compraz de idear o amor duns anjos que batem as asas de baile em baile, e apenas quedam o tempo preciso para se fazerem ver e adorar a um reflexo de poesia apaixonada. Amava, e tinha ciúmes de Tereza, não ciúmes que se refrigeram na expansão ou no despeito, mas infernos surdos, que não rompiam em lavareda aos lábios, porque os olhos se abriam prontos em lágrimas para apagá-la." (p. 125)

"A verdade do coração humano! Se o coração humano tem filamentos de ferro, que o prendem ao barro de onde saiu, ou pesam nele e o submergem no charco da culpa primitiva, para que é emergi-lo, retratá-lo, e pô-lo à venda!?" (p. 127)

"O coração é a víscera, ferida de paralisia, a primeira que falece sufocada pelas rebeliões da alma que se identifica à natureza, e a quer, e se devora na ânsia dela, e se estorce nas agonias da amputação, para as quais a saudade da ventura extinta é um cautério em brasa, e o amor, que leva ao abismo pelo caminho da sonhada felicidade, não é sequer um refrigério." (p. 128)

Camilo Castelo Branco

In: Amor de Perdição
São Paulo; Ed. Klick, 1999



- Postado por: Rodrigo às 20h08
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Paisagem - Osório Duque-Estrada

PAISAGEM

Quão longe estamos do viver de outrora!
Como enublaste o sol daquele dia!
Já nem posso, sequer, dizer-te agora
O que a cada momento eu te dizia.

No entanto, fulge a primavera; Flora
De ricas, novas galas se atavia,
E borda a rósea túnica da aurora
Que, da áurea porta do Oriente, espia...

Na tela deste sonho, que ressumbra
A frescura de um bosque, eu vejo a imagem
Deste verão de amor que me deslumbra;

É o mesmo céu, a mesma ideal paragem;
Só a saudade põe uma penumbra,
Um crepúsculo triste na paisagem...

Osório Duque-Estrada

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h38
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Lawrence Sanders: 15 de março de 1920 – 7 de fevereiro de 1998

"Mas qual era a necessidade, ou o intenso desejo, de pôr tanto interesse e tanto engenho e energia no desenho, na fabricação de instrumentos de morte? O menino com o estilingue e o homem com o revólver, mostrando ambos um sombrio atavismo? Seria matar, então, uma paixão, desde a borra primeva, uma expressão tão válida da alma humana como o amor e o sacrifício?"

Lawrence Sanders

In: O Primeiro Pecado Mortal



- Postado por: Rodrigo às 00h22
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Içami Tiba: Tapiraí, 15 de março de 1941

Construção do cidadão  

(...) Uma criança tem que aprender que sua brincadeira acaba quando ela guarda os brinquedos de volta no lugar que antes estavam. Ela tem de aprender a cuidar dos seus brinquedos, do seu quarto, da sua casa. É dessa maneira que ela, no futuro, vai querer cuidar também da Terra em que vive. Quando os adultos guardam os brinquedos que ela deixou, acabam desenvolvendo nela que isso não é sua obrigação. Fica essa falha na sua formação. Ela não se interessa em deixar o mundo melhor do que quando o encontrou. O amor é muito importante, mas só ele é insuficiente para formar um cidadão. É preciso que seja complementado pela educação. Portanto, quem ama tem que também educar. Daí o título do meu livro: Quem ama, educa!

Nenhum filho pode ofender, gritar, maltratar sua própria mãe. Se a mãe aceita, não tem por que a criança respeitar outras pessoas em casa, e muito menos fora de casa. Juntando a irresponsabilidade material com a falta de respeito ao próximo, acabamos destruindo o mundo.

Portanto, na cidadania familiar a criança tem de começar a praticar em casa o que o cidadão vai ter que fazer no social, e ela não pode fazer em casa o que não poderá fazer na sociedade.

Para um adulto, torna-se simples aceitar regras sociais, enfrentar filas, não jogar lixo no chão e não fazer desperdícios se ele aprender tudo isso já dentro de casa.

A ignorância pode fazer com que uma pessoa varra sua casa jogando o lixo na rua, que beba água contaminada, mas ela pode aprender a ser cidadã. O pior é fazer o que sabe que é errado, mas fazer porque ''ninguém está olhando'', e vai ficar impune.

Mas as conseqüências não tardam a chegar. O aquecimento global, a violência social, a corrupção e a ''lei do espertinho'' são resultados da ignorância e da falta de cidadania de algumas pessoas, mas são todos os habitantes da Terra que acabam pagando.

Içami Tiba

In: Revista Viva São Paulo
Data: 01/06/2007

Fonte: http://www.tiba.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Dia Nacional da Poesia

A FLOR E A NÁUSEA

Preso à minha classe e a algumas roupas, vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias, espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?

Olhos sujos no relógio da torre:
Não, o tempo não chegou de completa justiça.
O tempo é ainda de fezes, maus poemas, alucinações e espera.
O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse.

Em vão me tento explicar, os muros são surdos.
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova.
As coisas. Que triste são as coisas, consideradas em ênfase.

Vomitar este tédio sobre a cidade.
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam pra casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem.

Crimes da terra, como perdoá-los?
Tomei parte em muitos, outros escondi.
Alguns achei belos, foram publicados.
Crimes suaves, que ajudam a viver.
Ração diária de erro, distribuída em casa.
Os ferozes padeiros do mal.
Os ferozes leiteiros do mal.

Pôr fogo em tudo, inclusive em mim.
Ao menino de 1918 chamavam anarquista.
Porém meu ódio é o melhor de mim.
Com ele me salvo
e dou a poucos uma esperança mínima.

Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.

Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.

Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens macias avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio.

Carlos Drummond de Andrade

In: A rosa do povo. 28 ed.
Rio de Janeiro: Record, 2004,
p. 28



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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James Joyce

Num só dia do homem estão os dias
do tempo, desde aquele inconcebível
dia inicial do tempo, em que um terrível
Deus prefixou os dias e agonias,
até o outro em que o rio ubíquo
do tempo secular torne à nascente
que é o Eterno, e se apague no presente,
no futuro, no ontem, no que ora possuo
Entre a aurora e a noite está a história
universal. E vejo desde o breu,
junto a meus pés, os caminhos do hebreu,
Cartago aniquilada, Inferno e Glória.
Dai-me, Senhor, coragem e alegria
para escalar o cume deste dia.

Jorge Luis Borges

In: Poesia
Tradução de Josely Vianna Baptista
Ed. Companhia das Letras



- Postado por: Rodrigo às 09h28
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Algumas proposições com pássaros e árvores

Os pássaros nascem na ponta das árvores
As árvores que eu vejo em vez de fruto dão pássaros
Os pássaros são o fruto mais vivo das árvores
Os pássaros começam onde as árvores acabam
Os pássaros fazem cantar as árvores
Ao chegar aos pássaros as árvores engrossam movimentam-se
deixam o reino vegetal para passar a pertencer ao reino animal
Como pássaros poisam as folhas na terra
quando o outono desce veladamente sobre os campos
Gostaria de dizer que os pássaros emanam das árvores
mas deixo essa forma de dizer ao romancista
é complicada e não se dá bem na poesia
não foi ainda isolada da filosofia
Eu amo as árvores principalmente as que dão pássaros
Quem é que lá os pendura nos ramos?
De quem é a mão a inúmera mão?
Eu passo e muda-se-me o coração

Ruy Belo



- Postado por: Rodrigo às 00h22
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Castro Alves: 14 de março de 1847 — 6 de julho de 1871

MARIETA

Como o gênio da noite, que desata
O véu de rendas sobre a espádua nua,
Ela solta os cabelos ... Bate a lua
Nas alvas dobras de um lençol de prata.

O seio virginal, que a mão recata,
Embalde o prende a mão ... cresce, flutua ...
Sonha a moça ao relento ... Além na rua
Preludia um violão na serenata! ...

... Furtivos passos morrem no lajedo ...
Resvala a escada do balcão discreta
Matam lábios os beijos em segredo ...

Afoga-me os suspiros, Marieta!
Ó surpresa! ó palor! ó pranto! ó medo!
Ai! noites de Romeu e Julieta! ...

Castro Alves

In: Poesia
4. ed. Rio de Janeiro, Agir. 1972.
p. 59



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Albert Einstein: 14 de Março de 1879 — 18 de Abril de 1955

Tem um sentido a minha vida? A vida de um homem tem sentido? Posso responder a tais perguntas se tenho espírito religioso. Mas, “fazer tais perguntas tem sentido?” Respondo: “Aquele que considera sua vida e a dos outros sem qualquer sentido é fundamentalmente infeliz, pois não tem motivo algum para viver”

Albert Einstein

In: Como vejo o Mundo - “Mein Weltbild” (1953)
Ed. Nova Fronteira – 11ª edição
Tradução de H. P. de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Γιώργος Σεφέρης: 13 de Março de 1900 — 20 de Setembro de 1971

NAS CAVERNAS DO MAR

Nas cavernas do mar
há uma sede, há um amor
há um êxtase
inabalável como as conchas
que você segura na palma da mão.

Nas cavernas do mar
durante dias contemplei teus olhos,
e não nos conhecemos.

* * *

CALIGRAFIA

Barcos sobre o Nilo
Pássaros sem canto de uma asa só
procurando silenciosamente a outra;
tateando na ausência do céu
o corpo de um efebo de mámore;
escrevendo no azul com tinta invisível
um choro desesperado.


* * *

UM POUQUINHO MAIS

Um pouquinho mais
E nós veremos as amendoeiras em flor,
Os mármores reluzindo ao sol,
O mar, o enroscar das ondas.

Um pouquinho mais,
Vamos subir um pouquinho mais alto.

Giorgos Seferis

Tradução: Priscila Manhães



- Postado por: Rodrigo às 21h09
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Antônio Carlos de Brito: 13 de março de 1944 — 27 de dezembro de 1987

indefinição
        
pois assim é a poesia:
esta chama tão distante mas tão perto de
estar fria.

* * *

happy end
        
o meu amor e eu
nascemos um para o outro
        
agora só falta quem nos apresente

* * *

estilos trocados

Meu futuro amor passeia — literalmente — nos
píncaros daquela nuvem.
Mas na hora de levar o tombo advinha quem cai.

* * *

ah!

Ah se pelo menos o pensamento não sangrasse!
Ah se pelo menos o coração não tivesse
                                           [memória!
Como seria menos linda e mais suave
minha história!

* * *

imagens I

Para evitar malentendidos
digamos desde já que nos amamos.

* * *

surdina
        
Primeiro o Tenório Jr.
que sumiu na Argentina
Depois quando perigava
onze e meia da matina
veio a notícia fatal:
faleceu Elis Regina!
Um arrepio gelado
um frio de cocaína!
A morte espreita calada
na dobra de uma esquina
rodando a sua matraca
tocando a sua buzina
Isso tudo sem falar
na morte do velho Vina!
E agora é Clara Nunes
que morre ainda menina!
É demais! Que sina!
A melhor prata da casa
o ouro melhor da mina
Que Deus proteja de perto
a minha mãe Clementina!
Lá vai a morte afinando
o coro que desafina...
Se desse tempo eu falava
do salto da Ana Cristina.

Cacaso

In: "Beijo na Boca", 2000



- Postado por: Rodrigo às 21h03
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Há apenas um medo básico. Todos os outros pequenos medos são subprodutos de um medo principal que todo ser humano carrega consigo - o medo de se perder. Pode ser na morte, pode ser no amor, mas o medo é o mesmo: você está com medo de se perder.

E o mais estranho é que somente as pessoas que não têm a si mesmas é que estão com medo de se perder. Aquelas que têm a si mesmas não estão com medo.

Osho

In: Escute seu coração
Ed. Gente, 2006
p. 37



- Postado por: Rodrigo às 20h50
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Jack Kerouac: 12 de março de 1922 - 21 de outubro de 1969

"(...) porque, para mim, pessoas mesmo são os loucos, os que estão loucos para viver, loucos para falar, loucos para serem salvos, que querem tudo ao mesmo tempo agora, aqueles que nunca bocejam e jamais falam chavões, mas queimam, queimam, queimam como fabulosos fogos de artifício explodindo como constelações em cujo centro fervilhante - pop! - pode-se ver um brilho azul e intenso até que todos 'aaaaaaah!'.

In: On the Road
Ed.  L&PM, 2004

* * *

"Mas eu tinha minhas próprias idéias e elas não tinham nada a ver com a parte "lunática" de tudo aquilo. Eu queria comprar um equipamento completo com tudo que é preciso para dormir, abrigar-se, comer, cozinhar, na verdade uma cozinha e um quarto completos bem nas minhas costas, e partir para algum lugar e encontrar a solidão perfeita e olhar para o perfeito vazio da minha mente e ser completamente neutro em relação a qualquer e toda idéia. Pretendo rezar, também, como minha única atividade, rezar por todas as criaturas vivas; percebi que essa era a única atividade decente que sobrara no mundo. Estar no leito de um rio em algum lugar, ou no deserto, ou nas montanhas, ou em alguma cabana do México ou em um barraco em Adirondack, e descansar e ser gentil, e não fazer nada além disso, praticar o que os chineses chamam de "não fazer nada".

Jack Kerouac

In: Vagabundos Iluminados
Ed. L&PM, 2004



- Postado por: Rodrigo às 20h39
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Alberto V. da Costa e Silva: 12 de maio de 1931

Flumen, Fluminis
      
Ouçamos o fluir deste curso de rio 
entre velhos muros imóveis de fadiga 
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas 
mas pedras tristes e calmas 
entre as quais escorre o límpido silêncio 
da água que flui sobre a nudez  
pura da morte 

em nenhuma outra fonte, o cansaço 
de ser manhã quando a noite se debruça 
sobre nós, sofreremos 
pois tão estranhos seremos ao murmúrio 
de suas águas veladas 
à música que nada anuncia a não ser primaveras 
como agora sôfregos, nos reclinamos  
sobre o líquido móvel deste rio que leva 
para o mar distante e irrevelado 
estas formas maduras e tranqüilas 
este sopro perfeito 
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.

Alberto da Costa e Silva



- Postado por: Rodrigo às 20h34
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O ÍDOLO

Sobre um trono de mármore sombrio,
Em templo escuro, há muito abandonado,
Em seu grande silêncio, austero e frio
Um ídolo de gesso está sentado.

E como à estranha mão, a paz silente
Quebrando em torno às funerárias urnas,
Ressoa um órgão compassadamente
Pelas amplas abóbadas soturnas.

Cai fora a noite - mar que se retrata
Em outro mar - dois pélagos azuis;
Num as ondas - alcíones de prata,
No outro os astros - alcíones de luz.

E de seu negro mármore no trono
O ídolo de gesso está sentado.
Assim um coração repousa em sono...
Assim meu coração vive fechado.

Alberto de Oliveira

In: Canções românticas, 1878



- Postado por: Rodrigo às 20h49
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Você Não Entende Nada

Quando eu chego em casa nada me consola
Você está sempre aflita
Lágrimas nos olhos, de cortar cebola
Você é tão bonita
Você traz a coca-cola eu tomo
Você bota a mesa, eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você não está entendendo
Quase nada do que eu digo
Eu quero ir-me embora
Eu quero é dar o fora
E quero que você venha comigo
E quero que você venha comigo
Eu me sento, eu fumo, eu como, eu não aguento
Você está tão curtida
Eu quero tocar fogo neste apartamento
Você não acredita
Traz meu café com suita eu tomo
Bota a sobremesa eu como, eu como
Eu como, eu como, eu como
Você tem que saber que eu quero correr mundo
Correr perigo
Eu quero é ir-me embora
Eu quero dar o fora
E quero que você venha comigo

Composição: Caetano Veloso

 Ouça esta música interpretada por C. Veloso e C. Buarque:
http://br.youtube.com/watch?v=E6GdSgHXShc



- Postado por: Rodrigo às 20h44
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Manuel Lopes Fonseca: 15 de Outubro de 1911 — 11 de Março de 1993

Tu e eu meu amor

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua a mão que segura
outra mão que lhe é dada
nua a suave ternura
na face apaixonada
nua a estrela mais pura
nos olhos da amada
nua a ânsia insegura
de uma boca beijada.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nu o riso e o prazer
como é nua a sentida
lágrima a correr
na face dolorida
nu o corpo do ser
na hora prometida
meu amor que ao nascer
nus viemos à vida.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

Nua nua a verdade
tão forte no criar
adulta humanidade
nu o querer e o lutar
dia a dia pelo que há-de
os homens libertar
amor que a eternidade
é ser livre e amar.

Tu e eu meu amor
meu amor eu e tu
que o amor meu amor
é o nu contra o nu.

MANUEL DA FONSECA

In: Obra Poética



- Postado por: Rodrigo às 20h35
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Dórdio Leal Guimarães: 10 de Março de 1938 - 2 de Julho de 1997

ÚNICA

Em toda a vida foste sempre ilha,
nas hortênsias de teus olhos, nas camélias
dos teus lábios, nas garças das tuas mãos,
tinhas a pele das manhãs luminosas

e difíceis, das brumas das pastagens
e das lagoas meditativas, das furnas
escaldantes e nervosas, o dom desse nó
umbilical que vem da mãe circulatória.

A tua história, de águas rumorosas,
nasce e nunca nasce, parte e em nunca
se reparte, é um fruto, um peixe, uma missiva,
uma gruta viva cheia de revérberos

da saudade lumidária e viajante que se compraz
em outra ilha, estrela intacta de som,
rodeada de universos por todos os lados,
pulsando nos perfis do tempo, coração que chora
a frátria luz.

Dórdio Guimarães

In: Única
Organização de José António Gonçalves,
Coleção "Memória das Palavras"
Editorial Correio da Madeira, 1995



- Postado por: Rodrigo às 20h46
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O sonho é uma montanha que o pensamento há de escalar. Não há sonho sem pensamento. Brincar é ensinar idéias.

Andréa Azulay



- Postado por: Rodrigo às 20h23
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Momento

coisa certa na hora errada
coisa errada na hora certa
hora certa na coisa errada
hora errada na coisa certa
coisa hora na certa errada
hora coisa na errada certa

quando tarde se desperta
da vida não se leva.. nada

(06/03/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 18h55
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M. Manuela C. Carvalho Margarido: (?) 1925 - 10 de Março de 2007

Memória da Ilha do Príncipe

Mãe, tu pegavas charroco
nas águas das ribeiras
a caminho da praia.
Teus cabelos eram lembas-lembas,
agora distantes e saudosas,
mas teu rosto escuro
desce sobre mim.
Teu rosto, liliácea
irrompendo entre o cacau,
perfumando com a sua sombra
o instante em que te descubro
no fundo das bocas graves. 
Tua mão cor-de-laranja
oscila no céu de zinco
e fixa a saudade
com uns grandes olhos taciturnos.

(No sonho do Pico as mangas percorrem a órbita lenta
das orações dos ocãs e todas as feiticeiras desertam
a caminho do mal, entre a doçura das palmas).

Na varanda de marapião
os veios da madeira guardam
a marca dos teus pés leves
e lentos e suaves e próximos. 
E ambas nos lançamos
nas grandes flores de ébano
que crescem na água cálida
das vozes clarividentes.

Manuela Margarido



- Postado por: Rodrigo às 18h50
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José Américo de Almeida: 10 de janeiro de 1887 — 10 de março de 1980

Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.

* * *

A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos. Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma.

* * *

O regionalismo é o pé-de-fogo da literatura...Mas a dor é universal, porque é uma expressão de humanidade. E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas cultivados por uma inteligência mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos.

* * *

Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do paraíso. O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.

José Américo de Almeida

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 18h46
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Violões que Choram

Ah! plangentes violões dormentes, mornos,
Soluços ao luar, choros ao vento…
Tristes perfis, os mais vagos contornos,
Bocas murmurejantes de lamento.

Noites de além, remotas, que eu recordo,
Noites da solidão, noites remotas
Que nos azuis da Fantasia bordo,
Vou constelando de visões ignotas.

Sutis palpitações a luz da lua,
Anseio dos momentos mais saudosos,
Quando lá choram na deserta rua
As cordas vivas dos violões chorosos.

Quando os sons dos violões vão soluçando,
Quando os sons dos violões nas cordas gemem,
E vão dilacerando e deliciando,
Rasgando as almas que nas sombras tremem.

Harmonias que pungem, que laceram,
Dedos Nervosos e ágeis que percorrem
Cordas e um mundo de dolências geram,
Gemidos, prantos, que no espaço morrem…

E sons soturnos, suspiradas magoas,
Mágoas amargas e melancolias,
No sussurro monótono das águas,
Noturnamente, entre ramagens frias.

Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas,
Vagam nos velhos vórtices velozes
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas.

Tudo nas cordas dos violões ecoa
E vibra e se contorce no ar, convulso…
Tudo na noite, tudo clama e voa
Sob a febril agitação de um pulso. (...)

(1897)

Cruz e Souza



- Postado por: Rodrigo às 19h47
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Disfarça e Chora

Chora, disfarça e chora
Aproveita a voz do lamento
Que já vem a aurora
A pessoa que tanto queria
Antes mesmo de raiar o dia
Deixou o ensaio por outra
Oh! triste senhora
Disfarça e chora
Todo o pranto tem hora
E eu vejo seu pranto cair
No momento mais certo
Olhar, gostar só de longe
Não faz ninguém chegar perto
E o seu pranto oh! Triste senhora
Vai molhar o deserto
Disfarça e chora

Composição: Cartola / Dalmo Castelo

 Ouça esta música interpretada por Z. Duncan:
http://www.youtube.com/watch?v=2iuaFsKpMos



- Postado por: Rodrigo às 19h41
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À sombra das araucárias

Não aprofundes o teu tédio.
Não te entregues à mágoa vã.
O próprio tempo é o bom remédio:
Bebe a delícia da manhã.

A névoa errante se enovela
Na folhagem das araucárias.
Há um suave encanto nela
Que enleia as almas solitárias...

As cousas têm aspectos mansos.
Um após outro, a bambolear,
Passam, caminhos d'água, os gansos.
Vão atentos, como a cismar...

No verde, à beira das estradas,
Maliciosas em tentação,
Riem amoras orvalhadas.
Colhe-as: basta estender a mão.

Ah! Fosse tudo assim na vida!
Sus, não cedas à vã fraqueza...
Que adianta a queixa repetida?
Goza o painel da natureza.

Cria, e terás com que exaltar-te
No mais nobre e maior prazer.
A afeiçoar teu sonho de arte
Sentir-te-ás convalescer.

A arte é uma fada que transmuta
E transfigura o mau destino.
Prova. Olha. Toca. Cheira. Escuta.
Cada sentido é um dom divino.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 19h32
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Dia Internacional da Mulher

Uma data de muitas histórias

          Era uma vez uma mulher... duas mulheres.... talvez, 129 mulheres. A data era 8 de março de 1857; mas bem podia ser de 1914 ou (quem sabe?) de 1917. O país era os Estados Unidos – ou será Alemanha? Ou a Rússia?

          Tantas datas, tantos lugares e tanta história revelam o caráter, no mínimo, instigante da seqüência de fatos que permeiam a trajetória das pesquisas em busca da verdadeira origem da oficialização da “data de 8 de março” como o Dia Internacional da Mulher. É instigante, e curiosa, talvez porque mescla fatos ocorridos nos Estados Unidos (Nova Iorque e Chicago), na Alemanha e na Rússia: mescla, também, greves e revoluções; reivindicações e conquistas. E nos apresenta datas que variam do dia 3 de maio (comemorado em Chicago em 1908), ao dia 28 de fevereiro (1909, em Nova Iorque) ou 19 de março (celebrado pelas alemãs e suecas em 1911).

          A mais divulgada referência histórica dessa oficialização, na verdade, é a II Conferência Internacional das Mulheres Socialistas em Copenhague, Dinamarca, em 1910, da qual emanou a sugestão de que o mundo seguisse o exemplo das mulheres socialistas americanas, que inauguraram um feminismo heróico de luta por igualdade dos sexos. Na ocasião dessa conferência, foi proposta a resolução de “instaurar oficialmente o dia internacional das mulheres”. Contudo, apesar de os relatos mais recentes trazerem sempre a referência ao dia 8 de março, não há qualquer alusão específica a essa data na resolução de Copenhague.

          É bem verdade que o referido exemplo americano – de intensa participação das mulheres trabalhadoras – ganhou força com o evento de um massacre “novaiorquino” extremamente cruel, datado de 8 de março de 1857. Nesta data, um trágico evento vitimou 129 tecelãs. Era uma vez uma mulher... duas mulheres.... talvez, 129 mulheres : dentro da fábrica em Nova Iorque onde trabalhavam, essas mulheres foram mortas porque organizaram uma greve por melhores condições de trabalho e contra a jornada de doze horas. Conta-se que, ao serem reprimidas pela polícia, as trabalhadoras refugiaram-se dentro da fábrica. Naquele momento, de forma brutal e vil, os patrões e a polícia trancaram as portas e atearam fogo, matando-as todas carbonizadas.

          Fato brutal! Mas há quem considere como mito a correlação única e direta da tragédia das operárias americanas com a data do Dia Internacional da Mulher, simplesmente por não haver documento oficial que estabeleça essa relação.

          Alguns estudiosos encontram uma correlação “mais confiável” em outros fatos históricos. Descrevem, por exemplo, como uma relação mais palpável, a data da participação ativa de operárias russas, em greve geral, que culminou com o início da revolução russa de 1917. Segundo relato de Trotski (História da Revolução Russa), o dia 8 de março era o dia internacional das mulheres – o dia em que operárias russas saíram às ruas para reivindicar o fim da fome, da guerra e do czarismo. “Não se imaginava que este ‘dia das mulheres' inaugurasse a revolução”.

          Com essas duas, ou com outras tantas histórias, materializam-se, em face da diversidade de interpretações, nossas interrogações sobre a verdadeira origem do Dia “8 de março” Internacional da Mulher. Contudo, é impossível não reconhecer o vínculo entre as datas das tragédias e vitórias relatadas com a escolha da data hoje oficializada. A aceitação desse vínculo está registrada em textos, livros e palestras da atualidade. E, com certeza, essa aceitação não decorre exclusivamente de documentos oficiais; decorre principalmente de um registro imaterial – a memória de quem reconhece e jamais esquece as recorrentes e seculares reivindicações femininas por justiça e igualdade social.

          E, assim, voltamos ao começo: Era uma vez uma mulher... duas mulheres.... talvez, 129 mulheres. A data era 8 de março de 1857; mas bem podia ser de 1914 ou (quem sabe?) de 1917 . E voltamos a esse começo mesmo para concluir que o fato de o dia internacional da mulher estar, ou não, oficialmente ligado a esse ou àquele momento histórico não é o foco mais significativo da reflexão que ora se apresenta. Afinal, o dia 8 de março universalizou-se – isso é fato . E universalizou-se pela similaridade dos eventos mundiais relacionados à luta das mulheres.

          Hoje, sem sombra de dúvidas, a data é mais que um simples dia de comemoração ou de lembranças. É, na verdade, uma inegável oportunidade para o mergulho consciente nas mais profundas reflexões sobre a situação da mulher: sobre seu presente concreto, seus sonhos, seu futuro real. É dia para pensar, repensar e organizar as mudanças em benefício da mulher e, conseqüentemente, de toda a sociedade. Os outros 364 dias do ano são, certamente, para realizá-las.

(Autoria Desconhecida)



- Postado por: Rodrigo às 01h24
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A brusca poesia da mulher amada

Longe dos pescadores os rios infindáveis vão morrendo de sede lentamente...
Eles foram vistos caminhando de noite para o amor – oh, a mulher amada é como a fonte!
A mulher amada é como o pensamento do filósofo sofrendo
A mulher amada é como o lago dormindo no cerro perdido
Mas quem é essa misteriosa que é como um círio crepitando no peito?
Essa que tem olhos, lábios e dedos dentro da forma inexistente?

Pelo trigo a nascer nas campinas de sol a terra amorosa elevou a face pálida dos lírios
E os lavradores foram se mudando em príncipes de mãos finas e rostos transfigurados...

Oh, a mulher amada é como a onda sozinha correndo distante das praias
Pousada no fundo estará a estrela, e mais além.

Rio de Janeiro, 1938

Vinicius de Moraes

In: "Novos Poemas"



- Postado por: Rodrigo às 01h04
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De Joelhos

Bendita seja a mãe que te gerou!
Bendito o leite que te fez crescer!
Bendito o berço aonde te embalou
A tua ama pra te adormecer!

Bendito seja o brilho do luar
Da noite em que nasceste tão suave,
Que deu essa candura ao teu olhar
E à tua voz esse gorjeio d’ave!

Benditos sejam todos que te amarem!
Os que em volta de ti ajoelharem
Numa grande paixão, fervente, louca!

E se mais, que eu, um dia te quiser
Alguém, bendita seja essa mulher!
Bendito seja o beijo dessa boca!

Florbela Espanca

In: Trocando olhares - 12/07/1916



- Postado por: Rodrigo às 00h51
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Educai o coração da mulher, esclarecei seu
intelecto com o estudo de coisas úteis e com
a prática dos deveres, inspirando nela o deleite
que se experimenta ao cumpri-los; purgai a
sua alma de tantas nocivas frivolidades pueris
de que se acha rodeada mal abre os olhos à luz.
Cessai aqueles tolos discursos com os quais
atordoais sua razão, fazendo-a crer que é
rainha, quando nada mais é que a escrava dos
vossos caprichos. Não façais dela a mulher
da Bíblia; a mulher de hoje em dia pode sair-se
melhor do que aquela; nem muito menos a
mulher da Idade Média: da qual estamos todas
tão distantes que não poder-nos-ia servir de
modelo; mas a mulher que deve progredir
com o século dezenove, ao lado do homem,
rumo à regeneração dos povos.

Guarde-se bem o homem de ter a mulher
para seu joguete, ou sua escrava; trate-a como
uma companheira da sua vida, devendo ela
participar de suas alegres e tristes aventuras;
considere-a desde o berço até seu leito de
morte, como aquela que exerce uma influência
real sobre o destino dele, e por conseguinte
sobre o destino das nações; dedique-lhe, por
último, uma educação como exige a grande
tarefa que ela deve cumprir na sociedade
como o benéfico ascendente do coração; e a
mulher será como deve ser, filha e irmã
dedicadíssima, terna e pudica esposa, boa e
providente mãe.

(1859)

Nísia Floresta

In: Cintilações de uma alma brasileira.
Florianópolis: UNISC, 1997
p. 115-7



- Postado por: Rodrigo às 00h33
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João de Deus: 8 de Março de 1830 — 11 de Janeiro de 1896

Minha mãe 

Quando a minha alma estende o olhar ansioso
por esse mundo a que inda não pertenço,
das vagas ondas desse mar imenso
destaca-se-me um vulto mais formoso.

É minha santa mãe, berço mimoso
donde na minha infância andei suspenso;
é minha santa mãe, que vejo, e penso
verei sempre, se Deus é piedoso.

Como línguas de fogo que se atraem,
avidamente os braços despedimos
um para o outro, mas os braços caem...

porque é então que olhamos e medimos
a imensa distância donde saem
os ais da saudade que sentimos!
 
João de Deus 

In: Campo de Flores
Lisboa, 1896, 2ª edição



- Postado por: Rodrigo às 00h08
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       Ângela.- Às vezes, só para me sentir vivendo, penso na morte. A morte me justifica.
       Um objeto envelhece porque tem dentro de si dinâmica.
       Em vez de dizer "o meu mundo", digo audacio­sa: o mundo depende de mim. Porque se eu não exis­tir, cessa em mim o Universo. Será que depois da mor­te começa a abstração?
       Eu, reduzida a uma palavra? mas que palavra me representa? De uma coisa sei: eu não sou o meu nome. O meu nome pertence aos que me chamam. Mas, meu nome íntimo é: zero. É um eterno começo permanente­mente interrompido pela minha consciência de começo.
       Deus não é o princípio e não é o fim. É sempre o meio.


Clarice Lispector

In: Um Sopro de Vida
RJ: Nova Fronteira, 1978
p. 127



- Postado por: Rodrigo às 08h51
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Quando um corpo
se enlaça
em outro corpo,
nasce o enredo.

Quando um corpo
se entrega
a outro corpo,
tem o coração mais sustos
do que as mãos
brinquedos.

Quando um corpo
se despede
de outro corpo,
quem mais amou
cumpre o degredo.

Luiz Coronel

In: O Recreio da Segunda Infância
Editora Mecenas
p. 76



- Postado por: Rodrigo às 00h14
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J. Galeno da Costa e Silva: 27 de setembro de 1836 — 7 de março de 1931

Cajueiro Pequenino

Cajueiro pequenino,
Carregadinho de flor,
À sombra das tuas folhas
Venho cantar meu amor,
Acompanhado somente
Da brisa pelo rumor,
Cajueiro pequenino,
Carregadinho de flor.

Tu és um sonho querido
De minha vida infantil,
Desde esse dia... me lembro...
Era uma aurora de abril,
Por entre verdes ervinhas
Nasceste todo gentil,
Cajueiro pequenino,
Meu lindo sonho infantil.

Que prazer quando encontrei-te
Nascendo junto ao meu lar!
— Este é meu, este defendo,
Ninguém mo venha arrancar –
Bradei e logo cuidadoso,
Contente fui te alimpar,
Cajueiro pequenino,
Meu companheiro do lar.

Cresceste... se eu te faltasse,
Que de ti seria, irmão?
Afogado nestes matos,
Morto à sede no verão...
Tu que foste sempre enfermo
Aqui neste ingrato chão!
Cajueiro pequenino,
Que de ti seria, irmão?

Cresceste... crescemos ambos,
Nossa amizade também;
Eras tu o meu enlevo,
O meu afeto o teu bem;
Se tu sofrias... eu, triste,
Chorava como... ninguém!
Cajueiro pequenino,
Por mim sofrias também!

Quando em casa me batiam,
Contava-te o meu penar;
Tu calado me escutavas,
Pois não podias falar;
Mas no teu semblante, amigo,
Mostravas grande pesar,
Cajueiro pequenino,
Nas horas do meu penar!

Após as dores... me vias
Brincando ledo e feliz
O-tempo-será e outros
Brinquedos que eu tanto quis!
Depois cismando a teu lado
Em muito verso que fiz...
Cajueiro pequenino,
Me vias brincar feliz!

Mas um dia... me ausentaram. .
Fui obrigado... parti!
Chorando beijei-te as folhas. . .
Quanta saudade senti!
Fui-me longe... muitos anos
Ausente pensei em ti...
Cajueiro pequenino,
Quando obrigado parti!

Agora volto, e te encontro
Carregadinho de flor!
Mas ainda tão pequeno,
Com muito mato ao redor...
Coitadinho, não cresceste
Por falta do meu amor,
Cajueiro pequenino,
Carregadinho de flor.

JUVENAL GALENO

In: Lendas e Canções Populares (1865)



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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Artur Gonçalves de Sales: 7 de março de 1879 — 27 de junho de 1952

Lúcia

Lúcia chegou, quando do inverno o tredo
Vento agitava o coqueiral vetusto.
Vinha ofegante, e pálida de susto,
E trêmula de medo...

Ah! quanto beijo e quanto riso ledo
Deu-me o seu lábio, rúbido e venusto!
Quanto divino sentimento augusto,
Quanto infantil segredo!

Lúcia partiu... E aquele riso doce
Lúcia levou! A casa transformou-se
Num sepulcral degredo.

Se o vento agita o coqueiral vetusto,
Inda a recordo: pálida de susto
E trêmula de medo...

Artur de Sales



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Gabriel García Márquez: 6 de março de 1927

(...)  Descobri que minha obsessão por cada coisa em seu lugar, cada assunto em seu tempo, cada palavra em seu estilo, não era o prêmio merecido de uma mente em ordem, mas, pelo contrário, todo um sistema de simula-ção inventado por mim para ocultar a desordem da minha natureza. Descobri que não sou disciplinado por virtude, mas como reação contra a minha mesquinhez, que passo por prudente por ser pessimista, que sou conciliador para não sucumbir às minhas cóleras reprimidas, que só sou pontual para que não se saiba que pouco me importa o tempo alheio. Descobri, por fim, que o amor não é um estado de alma mas um signo do Zodíaco.

Virei outro. Tratei de reler os clássicos que me mandaram ler na adolescência, e não aguentei. Mergulhei nas letras românticas que tanto repudiei quando minha mãe quis me forçar a ler e gostar, e através delas tomei consciência de que a força invencível que impulsionou o mundo não foram os amores felizes e sim os contrariados. Quando meus gostos musicais entraram em crise me descobri atrasado e velho, e abri meu coração às delícias do acaso.

(...) Lendo Os Idos de Março encontrei uma frase sinistra que o autor atribui a Júlio César: é impossível não acabar sendo como os outros julgam que somos."

Gabriel García Márquez

In: Memória de Minhas Putas Tristes
RJ: Editora Record, 2005



- Postado por: Rodrigo às 20h17
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José Júlio da Silva Ramos: 6 de março de 1853 — 16 de dezembro de 1930

DESENCONTRO

Quantas vezes me viste sem te eu ver,
E quantas eu te vi que me não viste...
E só agora, ao ver que me fugiste,
Eu vejo o que perdi, em te perder.

Estranha condição do estranho ser
Que alegre vive nesta vida triste:
Que só saibamos em que o bem consiste,
Quando o bem só consiste no morrer.

Quão feliz eu seria, se, na hora
Em que te vi, te visse como agora,
Ideal, nos meus sonhos ideais!...

Se o que eu sinto por ti sentir pudera,
Então, sorrindo, eu te diria: Espera,
E hoje, chorando, não te espero mais.

(Rio, 1886)

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 20h12
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Elizabeth B. Browning: 6 de Março de 1806 — 29 de Junho de 1861

"How do I love thee? Let me count the ways.
I love thee to the depth and breadth and height
My soul can reach, when feeling out of sight
For the ends of Being and ideal Grace.

I love thee to the level of everyday's
Most quiet need, by sun and candlelight.
I love thee freely, as men strive for Right;
I love thee purely, as they turn from Praise.

I love thee with the passion put to use
In my old griefs, and with my childhood's faith.
I love thee with a love I seemed to lose

With my lost saints,--I love thee with the breath,
Smiles, tears, of all my life!--and, if God choose,
I shall but love thee better after death."

* * *

Amo-te quanto em largo, alto e profundo
Minh'alma alcança, quando, transportada,
Sente, alongando os olhos deste mundo,
Os fins do ser, a graça entressonhada.

Amo-te em cada dia, hora e segundo:
À luz do sol, na noite sossegada.
E é tão pura a paixão de que me inundo
Quanto o pudor dos que não pedem nada.

Amo-te com o doer das velhas penas,
Com sorrisos, com lágrimas de prece,
E a fé da minha infância, ingênua e forte.

Amo-te até nas coisas mais pequenas.
Por toda a vida. E, assim Deus o quisesse,
Ainda mais te amarei depois da morte.
 
Elizabeth Barret Browning

Tradução: Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 20h03
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Heitor Villa-Lobos: 5 de março de 1887 — 17 de novembro de 1959

"Quem o viu um dia comandando o coro de 40 000 mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

Carlos Drummond de Andrade

* * *

"Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo".

"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias".

Heitor Villa-Lobos

 Ouça aqui "Trenzinho Caipira":

http://www.youtube.com/watch?v=IZnQj9yWTlo



- Postado por: Rodrigo às 18h40
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Анна Ахматова: 23 de Junho de 1889 - 5 de Março de 1966

À MUSA

Quanto, à noite, espero a tua chegada,
a vida me parece suspensa por um fio.
Que importam juventude, glória, liberdade,
quando enfim aparece a hóspede querida
trazendo nas mãos a sua rústica flauta?
Ei-la que vem. Soergue o seu véu,
olha para mim atentamente.
E lhe pergunto: "Foste tu quem a Dante
ditou as páginas do Inferno?". E ela: "Sim, fui eu".
 
Anna Akhmátova

In: "Anna Akhmátova - Poesia: 1912-1964"
Tradução de Lauro Machado Coelho
Editora L&PM, 1991.



- Postado por: Rodrigo às 18h26
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Pedro Homem de Mello: 6 de Setembro de 1904 — 5 de Março de 1984

Fado

Porque é que Adeus me disseste
Ontem e não noutro dia,
Se os beijos que, ontem, me deste
Deixaram a noite fria?

Para quê voltar atrás
A uma esperança perdida?
As horas boas são más
Quando chega a despedida.

Meu coração já não sente.
Sei lá bem se já te vi!
Lembro-me de tanta gente
Que nem me lembro de ti.

Quem és tu que mal existes?
Entre nós, tudo acabou.
Mas pelos meus olhos tristes
Poderás saber quem sou!

Pedro Homem de Mello

In: Poesias Escolhidas
Lisboa, INCM, 1983



- Postado por: Rodrigo às 18h21
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Patativa do Assaré: 5 de março de 1909 — 8 de julho de 2002

A triste partida

Setembro passou, com oitubro e novembro
Já tamo em dezembro.
Meu Deus, que é de nós?
Assim fala o pobre do seco Nordeste,
Com medo da peste,
Da fome feroz.

A treze do mês ele fez a esperiença,
Perdeu sua crença
Nas pedras de sá.
Mas nôta esperiença com gosto se agarra,
Pensando na barra
Do alegre Natá.

Rompeu-se o Natá, porém barra não veio,
O só, bem vermêio,
Nasceu munto além.
Na copa da mata, buzina a cigarra,
Ninguém vê a barra,
Pois barra não tem.

Sem chuva na terra descamba janêro,
Depois, feverêro,
E o mêrmo verão
Entonce o rocêro, pensando consigo,
Diz: isso é castigo!
Não chove mais não!

Apela p'ra maço, que é o mês preferido
Do Santo querido,
Senhô São José.
Mas nada de chuva! Tá tudo sem jeito,
Lhe foge do peito
O resto da fé.

Agora pensando segui ôtra tria,
Chamando a famía
Começa a dizê:
Eu vendo mau burro, meu jegue e o cavalo,
Nós vamo a Sã Palo
Vivê ou morrê.

Nòs vamo a Sã Palo, que a coisa tá feia;
Por terras alêia
Nós vamo vagá.
Se o nosso destino não fô tão mesquinho,
Pro mêrmo cantinho
Nós torna a vortá.

E vende o seu burro, o jumento e o cavalo,
Inté mêrmo o galo
Vendêro também,
Pois logo aparece feliz fazendêro,
Por pôco dinhêro
Lhe compra o que tem.

Em riba do carro se junta a famia;
Chegou o triste dia,
Já vai viajá.
A seca terrive, que tudo devora,
Lhe bota pra fora
Da terra natá.

O carro já corre no topo da serra.
Oiando pra terra,
Seu berço, seu lá,
Aquele nortista, partido de pena,
De longe inda acena:
Adeus, Ceará!

No dia seguinte, já tudo enfadado,
E o carro embalado,
Veloz a corrê,
Tão triste, o coitado, falando sodôso,
Um fio choroso
Escrama, a dizê:

- De pena e sodade, papai, sei que morro!
Meu pobre cachorro,
Quem dá de comê?
Já ôto pergunta: - Mãezinha, e meu gato?
Com fome, sem trato,
Mimi vai morrê!

E a linda pequena, tremendo de medo:
- Mamãe, meus brinquedo!
Meu pé fulô!
Meu pé de rosêra, coitado, ele seca!
E a minha boneca
Também lá ficou.

E assim vão dexando, com choro e gemido,
Do berço querido
O céu lindo e azú.
Os pai, pesaroso, nos fio pensando,
E o carro rodando
Na estrada do Sú.

Chegaro em Sã Palo - sem cobre, quebrado.
O pobre, acanhado,
Procura um patrão.
Só vê cara estranha, da mais feia gente,
Tudo é diferante
Do caro torrão.

Trabaia dois ano, três ano e mais ano,
E sempre no prano
De um dia inda vim.
Mas nunca ele pode, só véve devendo,
E assim vai sofrendo
Tromento sem fim.

Se arguma notiça das banda do Norte
Tem ele por sorte
O gosto de uvi,
Lhe bate no peito sodade de móio,
E as água dos óio
Começa a caí.

Do mundo afastado, sofrendo desprezo,
Ali véve preso,
Devendo ao patrão.
O tempo rolando, vai dia vem dia,
E aquela famia
Não vorta mais não!

Distante da terra tão seca tão boa,
Exposto à garoa,
À lama e ao paú,
Faz pena o nortista, tão forte, tão bravo,
Vivê como escravo
Nas terra do Sú.

Patativa do Assaré

In: Inspiração Nordestina
Ed. Hedra, São Paulo, 2006
p. 51-4



- Postado por: Rodrigo às 18h17
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Eugénio de Castro e Almeida: 4 de março de 1869 — 17 de agosto de 1944

Um Sonho

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vêsperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, ó morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...

12 de julho de 1889.

Eugênio de Castro



- Postado por: Rodrigo às 21h12
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Leandro Gomes de Barros: 19 de novembro de 1865 — 4 de março de 1918

A Seca do Ceará

Seca as terras as folhas caem,
Morre o gado sai o povo,
O vento varre a campina,
Rebenta a seca de novo;
Cinco, seis mil emigrantes
Flagelados retirantes
Vagam mendigando o pão,
Acabam-se os animais
Ficando limpo os currais
Onde houve a criação.

Não se vê uma folha verde
Em todo aquele sertão
Não há um ente d’aqueles
Que mostre satisfação
Os touros que nas fazendas
Entravam em lutas tremendas,
Hoje nem vão mais o campo
É um sítio de amarguras
Nem mais nas noites escuras
Lampeja um só pirilampo.

Aqueles bandos de rolas
Que arrulavam saudosas
Gemem hoje coitadinhas
Mal satisfeitas, queixosas,
Aqueles lindos tetéus
Com penas da cor dos céus.
Onde algum hoje estiver,
Está triste mudo e sombrio
Não passeia mais no rio,
Não solta um canto sequer.

Tudo ali surdo aos gemidos
Visa o aspectro da morte
Como a nauta em mar estranho
Sem direção e sem Norte
Procura a vida e não vê,
Apenas ouve gemer
O filho ultimando a vida
Vai com seu pranto o banhar
Vendo esposa soluçar
Uma adeus por despedida.

Foi a fome negra e crua
Nódoa preta da história
Que trouxe-lhe o ultimatum
De uma vida provisória
Foi o decreto terrível
Que a grande pena invisível
Com energia e ciência
Autorizou que a fome
Mandasse riscar meu nome
Do livro da existência.

E a fome obedecendo
A sentença foi cumprida
Descarregando lhe o gládio
Tirou-lhe de um golpe a vida
Não olhou o seu estado
Deixando desemparado
Ao pé de si um filinho,
Dizendo já existisses
Porque da terra saísses
Volta ao mesmo caminho.

Vê-se uma mãe cadavérica
Que já não pode falar,
Estreitando o filho ao peito
Sem o poder consolar
Lança-lhe um olhar materno
Soluça implora ao Eterno
Invoca da Virgem o nome
Ela débil triste e louca
Apenas beija-lhe a boca
E ambos morrem de fome.

Vê-se moças elegantes
Atravessarem as ruas
Umas com roupas em tira
Outras até quase nuas,
Passam tristes, envergonhadas
Da cruel fome, obrigadas
Em procura de socorros
Nas portas dos potentados,
Pedem chorando os criados
O que sobrou dos cachorros.

Aqueles campos que eram
Por flores alcatifados,
Hoje parecem sepulcros
Pelos dias de finados,
Os vales daqueles rios
Aqueles vastos sombrios
De frondosas trepadeiras,
Conserva a recordação
Da cratera de um vulcão
Ou onde havia fogueiras.

O gado urra com fome,
Berra o bezerro enjeitado
Tomba o carneiro por terra
Pela fome fulminado,
O bode procura em vão
Só acha pedras no chão
Põe-se depois a berra,
A cabra em lástima completa
O cabrito inda penetra
Procurando o que mamar.

Grandes cavalos de selas
De muito grande valor
Quando passam na fazenda
Provocam pena ao senhor
Como é diferente agora
Aquele animal de que outr’ora
Causava admiração,
Era russo hoje está preto
Parecendo um esqueleto
Carcomido pelo chão.

Hoje nem os pássaros cantam
Nas horas do arrebol
O juriti não suspira
Depois que se põe o sol
Tudo ali hoje é tristeza
A própria cobra se pesa
De tantos que ali padecem
Os camaradas antigos
Passaem pelos seus amigos
Fingem que não os conhecem.

Santo Deus! Quantas misérias
Contaminam nossa terra!
No Brasil ataca a seca
Na Europa assola a guerra
A Europa ainda diz
O governo do país
Trabalha para o nosso bem
O nosso em vez de nos dar
Manda logo nos tomar
O pouco que ainda se tem.

Vê-se nove, dez, num grupo
Fazendo súplicas ao Eterno
Crianças pedindo a Deus
Senhor! Mandai-nos inverno,
Vem, oh! grande natureza
Examinar a fraqueza
Da frágil humanidade
A natureza a sorrir
Vê-la sem vida a cair
Responde: o tempo é debalde.

Mas tudo ali é debalde
O inverno é soberano
O tempo passa sorrindo
Por sobre o cadáver humano
Nem uma nuvem aparece
Alteia o dia o sol cresce
Deixando a terra abrasada
E tudo a fome morrendo
Amargos prantos descendo
Como uma grande enxurrada.

Os habitantes procuram
O governo federal
Implorando que os socorra
Naquele terrível mal
A criança estira a mão
Diz senhor tem compaixão
E ele nem dar-lhe ouvido
É tanto a sua fraqueza
Que morrendo de surpresa
Não pode dar um gemido.

Alguém no Rio de Janeiro
Deu dinheiro e remeteu
Porém não sei o que houve
Que cá não apareceu
O dinheiro é tão sabido
Que quis ficar escondido
Nos cofres dos potentados
Ignora-se esse meio
Eu penso que ele achou feio
Os bolsos dos flagelados.

O governo federal
Querendo remia o Norte
Porém cresceu o imposto
Foi mesmo que dar-lhe a morte
Um mete o facão e rola-o
O Estado aqui esfola-o
Vai tudo dessa maneira
O município acha os troços
Ajunta o resto dos ossos
Manda vendê-los na feira.

Leandro Gomes de Barros



- Postado por: Rodrigo às 21h06
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Genolino Amado: 3 de agosto de 1902 — 4 de março de1989

"E as manhãs, continuadas, já não me pareciam festivas. De tanto que o vi, o Botafogo das sete e meia acabou desaparecendo ao meu olhar de transeunte acostumado a Botafogo. Via e ao mesmo tempo não via o vôo bailarino das gaivotas, as velas errantes, a nuvem que se enroscava imprudentemente no Pão de Açúcar. No abril da iniciação, a atmosfera dos sonhos, a meninice de um mundo sorridente. E o mundo envelhecera. Ou envelheceu a visão do mundo infantil. Com tanto sol, a neblina do tédio o cobria."

Genolino Amado

In: O Reino Perdido, memórias (1971)

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 20h59
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Muito obrigado! 100.000 visitas!

Caros leitores,

Foi ontem atingido o número de 100.000  visitas a este espaço. Número esse que jamais julguei alcançar quando comecei a dar os primeiros passos há pouco mais de um ano.

Para quem no início queria apenas um espaço para arquivar textos que recebia com autoria meio duvidosa e postá-los corretamente, essa marca representa um incentivo enorme para mim. Quando o criei jamais pensei que tantas pessoas passariam aqui diariamente, já que fazer propaganda, parcerias desesperadas, votações duvidosas e status nunca foram a alma deste espaço e nem o meu objetivo. E, sim, o trabalho árduo, dedicação e sempre uma boa mensagem para citar e, nunca desvirtuar-se do objeto principal deste blog – as belas mensagens. Mas por que postar mensagens de outros autores seria tão árduo? Pelo simples fato de existirem pouquíssimas fontes fidedignas na internet que se preocupam em repassar a autoria correta, dando os verdadeiros créditos aos devidos escritores. Hoje, há uma enorme disseminação de textos falsos por “blogueiros CRTL+C e CRTL+V”, e-mails em pps, nas comunidades criadas para os próprios escritores no Orkut e até mesmo através da mídia (exemplo: frases e textos do programa e do site “Mais Você” da Rede Globo). Discuta. Duvide sempre de tudo, principalmente quando lhe mandarem um Mario Quintana, Charles Chaplin, M. Gandhi, Carlos Drummond de Andrade, W. Shakespeare, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Chico Xavier, Arnaldo Jabor etc.

Espero poder compartilhar inúmeras outras marcas com vocês.

Cumprimentos e Obrigado a todos

Rodrigo



- Postado por: Rodrigo às 21h02
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Descobrimento

Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
 

Mário de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 20h49
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Bulhão Pato: 3 de Março de 1828 — 24 de Agosto de 1912

FELIZ DE AMOR!

Não sabes que ao ver-te triste,
E pensativa a meu lado,
O rosto na mão firmado.
E os olhos postos no chão,
Calado, ancioso, anhelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dôr constante
Que te opprime o coração?

Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe accende mais a côr?
Não lhe dá mais formosura?

Agora, quando se inflamma
Em teu peito aquella chamma,
Á qual tudo se illumina
De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pallida, triste, abatida,
A tua fronte se inclina,
E melancolica sombra,
De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!

Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra
Em peito de homem se encerra,
Tem-la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu bello rosto?

Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura
E redobra aroma e côr,
Não te ha de dar a ventura
A chamma do meu amor?!

Maio de 1859

Raimundo António de Bulhão Pato



- Postado por: Rodrigo às 20h29
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Vítor Mateus Teixeira: 3 de março de 1927 — 4 de dezembro de 1985

NOITE DE CHUVA

Cai a noite
O vento é frio
Chove lá fora
Dentro de casa
Um silêncio agonizante
Ligo a tv, o toca-disco nada melhora
Por que a saudade de você a cada hora
Amor tem sido a coisa muito mais importante

Não há mais lua
Chego a pensar que todas as noites serão assim
Só haverá tempo bom céu estrelado
Quando você voltar de novo para mim

Quisera agora
Expressar palavras ao seu ouvido
Todas palavras mais românticas que existem
Também ouvir você dizer amor querido
Igual a mim tem chorado e tem sofrido
Eu não seria nunca mais um homem triste

Se fosse agora
Toda esta chuva que cai lá fora ia parar
Só outra chuva dentro de casa ia cair
As dos meus olhos de alegria iam derramar

Noite de chuva
Noite de dor noite de saudade
Quando esta noite poderia ser a melhor do mundo
Se você estivesse aqui do meu lado que felicidade
A noite de chuva poderia ser a noite da bondade
Se pudesse eu com você trocar o amor mais profundo

Noite de chuva
É madrugada e como posso amanhecer
Neste sufoco nesta agonia então lhe peço
Volte meu bem se não quiser me ver morrer

Composição: Teixeirinha



- Postado por: Rodrigo às 20h26
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O QUE SE DIZ

Que frio! Que vento! Que calor! Que caro! Que absurdo! Que bacana! Que tristeza! Que tarde! Que amor! Que besteira! Que esperança! Que modos! Que noite! Que graça! Que horror! Que doçura! Que novidade! Que susto! Que pão! Que vexame! Que mentira! Que confusão! Que vida! Que talento! Que alívio! Que nada... Assim, em plena floresta de exclamações, vai-se tocando pra frente.

Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia e prosa.
RJ, Nova Aguilar, 1983,
p. 1379



- Postado por: Rodrigo às 20h34
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D. H. Lawrence: 11 de setembro de 1885 - 2 de março de 1930

"O amor é a flor da vida, que floresce inesperadamente, sem lei, e deve ser escolhido onde for encontrado e vivido pelo breve de sua duração".

D. H. Lawrence



- Postado por: Rodrigo às 20h26
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D. H. Lawrence: 11 de setembro de 1885 - 2 de março de 1930

Piano

Suavemente, na penumbra, uma mulher canta para mim;
Fazendo-me voltar e descer o panorama dos anos, até que vejo
uma criança sentada debaixo do piano, na explosão do prurido das cordas
E pressionando os pequenos, suspensos pés de uma mãe que sorri enquanto ela canta.

Apesar de mim, a insidiosa mestria da canção
Atraiçoa-me fazendo-me voltar, até que o meu coração chora para pertencer
Ao antigo entardecer dos domingos em casa, com o inverno lá fora
E hinos na aconchegada sala de visitas, o tinido do piano o nosso guia.

Por isso agora é em vão que a cantora irrompe em clamor
Com o appassionato do grandioso piano negro. A magia
Dos dias infantis está em mim, a minha masculinidade
É desencorajada no fluxo da lembrança, choro como uma criança pelo passado.

D. H. Lawrence

Tradução: Cecília Rego Pinheiro



- Postado por: Rodrigo às 20h19
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Sousa Caldas: 24 de novembro de 1762 — 2 de março de 1814

SONETOS

Oito anos apenas eu contava,
Quando à fúria do mar, abandonando
A vida, em frágil lenho e demandando
Novos climas, da pátria me ausentava.

Desde então à tristeza começava
O tenro peito a ir acostumando;
E mais tirana sorte adivinhando
Em lágrimas o pai e a mãe deixava.

Entre ferros, pobreza, enfermidade
Eu vejo, ó céus! que dor! que iníqua sorte!
O começo da mais risonha idade.

A velhice cruel, (ó dura morte!)
Que faz tremer tão triste mocidade,
Para poupar-me descarrega o corte.

António Pereira Sousa Caldas

Fonte: http://www.academia.org.br



- Postado por: Rodrigo às 20h15
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Buraco Negro

de nada adianta
bem ou mal
amor ou ódio
felicidade ou a vida

tudo caminha para o buraco negro
o sumidouro do universo
o esgoto cósmico
inexoravelmente

César Veneziani

(28/02/2009)

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 00h58
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TRAVESSA DOS GATOS

à memória de Eugénio de Andrade

Para quê mais versos?
O poema está feito, cabe
inteiro nestas sílabas de pedra
onde gostei tanto de magoar os pés.

Correm ao sol de Fevereiro
— pretos, quase brancos
e malhados — os príncipes
desta terra, os únicos.

Não te atrevas a segui-los, dona morte.

Manuel de Freitas

In: Juros de demora
Ed. Assírio & Alvim, 2007



- Postado por: Rodrigo às 00h23
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Robert Lowell: 1 de março de 1917 - 12 de setembro de 1977

NOSSA SENHORA DE WALSINGHAM

Aí, em tempos idos, os penitentes descalçavam-se
E, de pés nus, percorriam então a derradeira milha:
E as árvores baixas, o leito de um rio e as filas de sebes,
Lentamente, através das rumorosas azinhagas inglesas,
Como vacas em direcção ao velho altar, até perder
O rastro do sofrimento que os tomara.
O leito corre sob a árvore do druida,
Os redemoinhos de Siloé gorgolejam e alegram
O castelo de Deus. Marinheiro, sentias-te feliz
E junto a esse leito em vão desejaste Sião. Mas repara:

A Nossa Senhora, demasiado pequenas para o seu dossel,
Está sentada junto ao altar. Não há graciosidade
Nem encanto nesse rosto
Inexpressivo com suas pálpebras pesadas. Tal como antes,
Est' rosto, há séculos uma memória,
Non est species, neque decor,
Inexpressivo, expressa Deus: vai,
Para além das muralhas de Sião. Ela conhece o que Deus conhece,
Não a cruz do Calvário, nem a manjedoura em Belém,
Agora, e o mundo virá até Walsingham.

ROBERT LOWELL

In: "Aos Mortos da União e Outros Poemas"
Tradução de Mário Avelar



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Alberto Osório de Castro: 1 de Março de 1868 - 1 de Janeiro de 1946

CRISANTEMAS

Tão longe do Fúsi-no-Yama,
No nosso outono, as exiladas
Crisantemas da terra em chama,
Florescem em tardes geladas.

Do seu canto natal de flama
Ainda mal desacostumadas,
Florescem em tardes geladas,
Tão longe do Fúsi-no-Yama!

E uma noite negra de lama,
As que viam noites doiradas,
Caem nas charcas, desfolhadas...
Longe de tudo o que se chama,
Tão longe do Fúsi-no-Yama!

Alberto Osório de Castro

In: Exiladas, 1895



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Camilo Pessanha: 7 de Setembro de 1867 — 1 de Março de 1926

NA CADEIA

Na cadeia os bandidos presos!
O seu ar de contemplativos!
Que é das feras de olhos acesos?!
Pobres dos seus olhos cativos.

Passeiam mudos entre as grades,
Parecem peixes num aquário
Campo florido das Saudades,
Por que rebentas tumultuário?

Serenos... Serenos...  Serenos...
Trouxe-os algemados a escolta.
Estranha taça de venenos
Meu coração sempre revolta.

Coração, quietinho... quietinho...
Porque te insurges e blasfemas?
Pschiu... Não batas... Devagarinho...
Olha os soldados, as algemas!

Camilo Pessanha

In: Clepsidra
Editora Princípio
p. 45



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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