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Perfil BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos |




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(...) Hoje matei um mosquito. Com a mais bruta das delicadezas. Por quê? Por que matar o que vive? Sinto-me uma assassina e uma culpada. E nunca mais vou esquecer esse mosquito. Cujo destino eu tracei. A grande matadora. Eu, como um guindaste, a lidar com um delicadíssimo átomo. Me perdoe, mosquitinho, me perdoe, não faço mais isso. Acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.
Eu sou o meu próprio espelho. E vivo de achados e perdidos. É o que me salva. Estou metida numa guerra invisível entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco.

Clarice Lispector
In: Um Sopro de Vida
RJ: Editora Nova Fronteira, 1978
p. 63


"Ele nunca supôs que ela não tivesse asas e necessidade de movimentos livres e belos, com seus longos braços e pernas; ele não temia a força dela. As palavras de Isabel, se é que tinham a intenção de chocá-lo, erraram o alvo e só o fizeram sorrir com a sensação de que havia um terreno comum entre eles..."

Henry James
In: Retrato de uma Senhora (1881)


LUA BRANCA
Ó lua branca de fulgores e de encanto!
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar esta paixão que anda comigo!
Ai por que és, desce do céu, ó lua branca!
Essa amargura do meu peito, ó vem arranca!
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração!
E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada!
A sua luz então me surpreendia
Ajoelhado junto aos pés da minha amada!
E ela a chorar, a soluçar cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó Lua branca, por que és, tem dó de mim!
Chiquinha Gonzaga
Fonte: http://www.chiquinhagonzaga.com/


MEU DESTINO
Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes -
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...
Cora Coralina


As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na minha vida. Tenho a paixão da mulher. Fiquei sem mãe, era miúdo. As mulheres da minha família tomaram conta de mim, incentivaram-me. Ensinaram-me a não admitir soluções ilusórias. A minha avó era uma criatura excepcional; e tive uma madrasta que sempre me protegeu. A minha mulher conheceu-me estava eu desempregado, por motivos políticos. É um ser incomum. Correu o risco, perigosíssimo, na época, de querer partilhar a vida comigo. Estamos casados há quarenta e sete anos. Éramos dois miúdos e enfrentámos, juntos, o que nem queira saber.
Armando Baptista-Bastos
In: Entrevista ao Diário de Notícias (15/06/2007)


A Hora das Meninas
Entre o escuro e o entardecer,
Quando a noite então declina,
Cessam as ocupações diárias:
Chegou o Tempo das Meninas.
Ouço lá do quarto de cima
O ruído dos seus passinhos,
O som de porta quando aberta
E vozes cheias de carinho.
Enquanto estudo vejo uma luz
Descendo os degraus da escada,
Edith, de cabelos dourados,
Alice, séria; Allegra encantada.
Um cochicho e então silêncio:
Sei pelos olhos das levadas
Que juntas estão planejando
Botar-me em uma cilada.
Elas sobem a minha torre,
Uma velha cadeira de armar;
Se tento escapar, cercam-me;
Parecem estar em todo lugar!
Enlaçam-me com seus braços
E me devoram com beijos,
Penso então no Bispo de Bingen
Na sua prisão no Reno.
Imaginam, levadas de olhos azuis,
Terem invadido a fortaleza?
Um velho bigode como eu
Não deve servir como presa!
Logo as levo aos meus braços
E as levo para a prisão:
Vocês não irão mais embora.
Da torre do meu coração.
E lá ficarão para sempre,
Sim, por toda eternidade,
Até que os muros se desfaçam
E todos os tempos se acabem!

Henry Wadsworth Longfellow
Tradução de Eduardo Gama


É horrível na vida da gente ficar sem alguma coisa que nós queremos; mas caramba, o que me enfurece é não poder dar a alguém alguma coisa que a gente queria que ele tivesse.

Truman Capote
In: Histórias maravilhosas
Ed. Nova Fronteira
pg. 20
(Arte: Candido Portinari, 'Retirantes'; 1944)


Inutilidades
Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém não voa, a xícara.
De que serve o pé da mesa não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.
Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.
José Paulo Paes
In: É isso ali (10ª edição)
Rio de Janeiro: Salamandra, 1993.


(...) "Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de inteligência, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento."
* * *
(...) "A experiência da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores, que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e engrandece a espiritualidade, isto constitue a civilização, se o consideramos na história dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande, da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalém, no Calvário."
Jaime de Magalhães Lima
In: Do que o fogo não queima (1918)
Porto: Empresa Gráfica A UNIVERSAL


“O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.
Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real...”

Victor Hugo
In: Les Travailleurs de la Mer
Livro Terceiro: Durande e Déruchette
Ed. Nova Cultural, 2003
Tradução de Machado de Assis


Soneto
Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono
Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo
Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída
Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio
Composição: Chico Buarque
Ouça esta música interpretada por Nara Leão:
http://www.youtube.com/watch?v=kRpZT5mRHzA


Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.
Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.
Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.
Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade


Flores Velhas
Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um vôo.
Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.
Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.
E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.
Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...
Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.
E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais!
Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
Quando ontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia em que rangia a saia roçagante,
Que foi na minha vida o céu aurirrosado,
Diziam-me que tu, no flórido passado,
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
Aquele teu olhar moroso e delicado,
Que fala de langor e de emoções mimosas;
E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura,
Que não me desgostou nem uma vez sequer,
Eu não sabia haurir do cálix da ventura
O néctar que nos vem dos mimos da mulher.
Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quase irmãs do vento com as flores
E a mole exalação das várzeas recendentes.
Inda pensei ouvir aquelas coisas mansas
No ninho de afeições criado para ti,
Por entre o riso claro, e as vozes das crianças,
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.
Lembre-me muito, muito, ó símbolo das santas,
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
E sob aquele céu e sobre aquelas plantas
Bebemos o elixir das tardes perfumadas.
Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas ilusões
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as asas ir abrindo às minhas impressões.
Soltei com devoção lembranças inda escravas,
No espaço construí fantásticos castelos,
No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
E onde o luar parava os raios amarelos.
Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha fé, num véu consolador,
O teu divino olhar que as pedras amolece,
E há muito me prendeu nos cárceres do amor.
Os teus pequenos pés, aqueles pés suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
E imaginei ouvir ao conversar das aves
As célicas canções dos anjos teus irmãos.
E como na minha alma a luz era uma aurora,
A aragem ao passar parece que me trouxe
O som da tua voz, metálica, sonora,
E o teu perfume forte, o teu perfume doce,
Agonizava o Sol gostosa e lentamente,
Um sino que tangia, austero e com vagar,
Vestia de tristeza esta paixão veemente,
Esta doença enfim, que a morte há de curar.
E quando me envolveu a noite, noite fria,
Eu trouxe do jardim duas saudades roxas,
E vim a meditar em que me cerraria,
Depois de eu morrer, as pálpebras já frouxas.
Pois que, minha adorada, eu peço que não creias
Que eu amo esta existência e não lhe queira um fim;
Há tempos que não sinto o sangue pelas veias
E a campa talvez seja afável para mim.
Portanto, eu, que não cedo às atrações do gozo,
Sem custo hei-de deixar as mágoas deste mundo,
E, ó pálida mulher, de longo olhar piedoso,
Em breve te olharei calado e moribundo.
Mas quero só fugir das coisas e dos seres,
Só quero abandonar a vida triste e má
Na véspera do dia em que também morreres,
Morreres de pesar, por eu não viver já!
E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes,
Com lágrimas regar as plantações ruins;
E esperarão por ti, naqueles alegretes,
As dálias a chorar nos braços dos jasmins!
Cesário Verde


Marcha de quarta-feira de cinzas
Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou
Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor
E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade
A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe
Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

Vinicius de Moraes


Penélope
Mais do que sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.
E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.
Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço melhores dias
do nosso amor.
David Mourão-Ferreira

Soneto do amor difícil
A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...
Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.
Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.
E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.
David Mourão-Ferreira


Sentimentos
Meus sentimentos de amor, meus momentos
Diante de tudo que vem absorver minha vida,
Dos fatos que o sossego me tira,
É o amor que mais me tira o alento.
As minhas noites sem amar e sem ser amada,
De tentar e tentar algo que não se alcança,
E no peito a dor me chega desesperada
Parece uma ferida, um corte feito por lança.
Mulher, de amores tão impossíveis
E que numa busca incansável se aventura
Para esse amor viver de forma indelével,
Sem mágoas, sem dor, sem desventuras,
Como um oásis de puro amor, incrível!
Que colho num beijo sem censura.
Betânia Uchôa
Assista o vídeo desse poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=uL9zt15B_Ts


Soneto de carnaval
Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.
Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.
E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim
De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Vinicius de Moraes
In: "Poemas, sonetos e baladas"


Regresso
não te peço pra chorar comigo
apenas me abrace
me ofereça o ombro amigo
não te peço pra me fazer sorrir
apenas me ouça
que ninguém quer me ouvir
se eu fugir um dia vou sozinho
você não poderia
seguir meu caminho
apenas uma coisa te peço
teu ombro e teu ouvido
quando do meu regresso
(11/02/2009)
Cesar Veneziani
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


Entardecer
Mística hora do entardecer
límpida luz a ocidente
berço onde estrelas
nascem a rir
subitamente.
E as almas. Harpas que Deus dedilha,
vibram tocadas pela maravilha
desta leveza que a tarde tem
desta beleza que em si contém
toda a promessa de eternidade
que nos seduz.
Mística hora do entardecer
taça entornada de etérea luz
Fernanda Seno
In: “Cântico Vertical” (1992)


“- Senhor, eu te agradeço por teres me amarrado assim. Houve momentos em que achava difíceis os teus mandamentos, e, colocada diante de tuas ordens, a minha vontade se mostrava perplexa e fracassava. Mas hoje não poderia estar mais fortemente atado a ti do que o estou, e, observando um por um os meus membros, nenhum deles é capaz de afastar-se minimamente de ti. Assim me encontro realmente preso à cruz, mas a cruz que me prende já não está presa a mais nada, está flutuando no mar“

Paul Claudel
In: Soulier de Satin
Ed. Gallimard, 1929, vol. 1,
pág. 18 e ss.
O jesuíta que aparece na condição de náufrago, teve seu navio afundado por piratas, na costa de Espanha, tendo sido amarrado a uma trave do barco pelos piratas. Assim, preso a esse pedaço de madeira, virou um joguete das águas revoltas do oceano.


Vai passar
Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade
essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais
Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações
Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval...
Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar,
vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear
Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar...
Composição: Chico Buarque e Francis Hime
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=9A_JrsJF6mM

O modo como nosso cérebro arquiva impressões, separando nessa hora o importante do sem importância, e porque o faz, é um mistério. Por outro lado, parece estar claro que, para conseguir me lembrar conscientemente de algo, e tirá-lo de modo autônomo de uma gaveta da memória, tenho que compreender essa vivência verbalmente. Isso não precisa se dar em palavras, como num poema aprendido de cor, entretando precisa, como sempre, ser refletido. E, segundo sabemos, uma reflexão sem linguagem não é possível para o cérebro humano. E já que tudo o que sabemos ou acreditamos saber está ligado à linguagem, o que há por trás desse tão especial meio de conhecimento? Será que a linguagem assegura um acesso privilegiado à realidade? Será que ela nos transmite um conhecimento objetivo do mundo?
Richard David Precht
In: Quem sou eu? E, se sou, quantos sou?
(original: Wer Bin Ich: Und Wenn Ja, Wie Viele?)
Tradução de Claudia Abeling
Rio de Janeiro: Ediouro, 2009
p. 92


A Felicidade
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor
A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira
Tristeza não tem fim
Felicidade sim
A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar
A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes
In: "Poesia completa e prosa: 'Cancioneiro' "
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=Ka44wBAypuA


Seguidor (Follower)
Meu pai lavrava com charrua e cavalo.
Os ombros redondos como velas pandos
Entre os varais e o sulco. Bastava um estalo
De língua e os cavalos iam forcejando.
Um conhecedor. Colocava a travessa
E ajustava a relha de aço agudo e vivo.
Rolavam sem quebrar os torrões de terra.
Na borda do campo, a um tirão imprevisto
De rédeas, a junta suarenta virava
E voltava para o terreno. Ele
Estreitava um olho a fitar a lavra,
Traçando o sulco exatamente.
Eu tropeçava nas pegadas das botas,
Caía às vezes na céspede luzida;
Às vezes ele levava-me nas costas
Descendo e subindo ao ritmo da lida
Eu queria crescer e lavrar,
Fechar um olho, firmar os braços.
Tudo o que fiz foi seguir sem parar
Pela fazenda à sombra de seus passos.
Um estorvo, falante, falseando,
Caindo sempre. Mas agora
É meu pai que vive tropeçando
Atrás de mim, e não vai embora.

Seamus Heaney
In: Poemas 1966-1987
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 37-8


Água Viva (Trecho)
(...) Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca – é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz de Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de uma alarme alegre. As cor-de-rosa em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.
Preste atenção e é um favor: estou convidando você para mudar-se para reino novo.
Já o cravo tem uma agressividade quem vem da irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas das suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram um pequeno caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com o horror. Como transplantar o cravo para a tela?
O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será que o girassol flor feminina ou masculina? Acho que masculina.
A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.
A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego que dizer: sol de ouro.
A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil.
A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.
Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.
Flor de trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa dos ramos de trigo. É um pequeno coração batendo.
Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra hóstia. Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.
O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jasmim.
Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter a crista de galo e o seu canto. Só não se espera pela aurora. A violência de tua beleza.
Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com seu cheiro tonteador. Dama-da-noite é silente. E também da esquina deserta e em trevas dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém agüenta. Mas eu agüento porque amo o perigo.
Quanto à suculenta flor de cactus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica.
Estou com preguiça de falar da edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentos metros de altitude. É branca e lanosa. Raramente alcançável: é a aspiração.
Gerânio é flor de canteiro de janela. Encontra-se em São Paulo, no bairro do Grajaú e na Suiça.
Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme e até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico: o dinossauro das flores. Espalham grande tranqüilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim: de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.
O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria. (...)

Clarice Lispector
In: Água viva
p. 67-72


"A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável."
* * *
"Todos os navios se afundam com fogo nos porões e há fogos que crepitam nas arrecadações de cada casa. A mais branca carne do ser que se ama é a que o vidro partido irá cortar e a que a roda irá esmagar. Os longos uivos na noite são uivos de morte. A noite é o assessor dos carrascos. O dia é a luz das descobertas estridentes. Se um cão ladra é porque o homem que ama feridas profundas salta pela janela. O riso precede a histeria. Eu espero a grande queda com a espuma na boca."

Anaïs Nin
In: A Casa do Incesto


O ano passado
O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.
As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.
Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.
E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummnond de Andrade


"Trabalhe, disse-me ele, faça pequenas tarefas, dia após dia. (...) É assim que o bom Deus espera nos ver, quando nos abandona às nossas próprias forças. As pequenas tarefas não parecem importantes, mas dão paz. São como as flores do campo, você sabe. Achamos que não têm perfume, mas, quando juntas, rescendem. A oração das pequenas coisas é inocente."
Georges Bernanos
In: Diário de um Pároco de Aldeia
2ª edição da Ed. Paulus, 2000

A Concha
A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.
Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.
E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.
A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio


INTROSPECÇÃO
Olha
no fundo do próprio olho
sem espelho: pra dentro.
Faz
teu coração
conversar com teu coração.
Pensa
em quem, embora esteja longe,
na verdade está a teu lado.
E saberás
porque às vezes é mais importante
parar e não dizer nada
e contemplara a poça d’água,
do que apertar o passo
e tomar o necessário sustento.
Carlos Arthur Newlands Junior
Fonte: http://carlosarthur.newlands.vilabol.uol.com.br

A Lei do Caminhão de Lixo (?)
Um dia, peguei um táxi e fomos direto para o aeroporto. Estávamos rodando na faixa certa quando, de repente, um carro preto saltou do estacionamento na nossa frente.
O motorista do táxi pisou no freio, deslizou e escapou do outro carro por um triz! O motorista do outro carro sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós. O motorista do táxi apenas sorriu e acenou para o cara. E o fez bastante amigavelmente.
Assim, perguntei:
- Por que você fez isto? Este cara quase arruina o seu carro e nos manda para o hospital!
Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que eu agora chamo "A Lei do Caminhão de Lixo". Ele explicou que muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por aí carregadas de lixo, cheias de frustrações, cheias de raiva e de desapontamento.
À medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar, e às vezes descarregam sobre a gente. Não tome isso como pessoal. Apenas sorria, acene, deseje-lhes o bem, e vá em frente.
Não pegue o lixo delas e espalhe sobre outras pessoas no trabalho, em casa, ou nas ruas.
O princípio disso é que pessoas bem-sucedidas não deixam os seus caminhões de lixo estragarem o seu dia. A vida é muito curta para levantar com remorso, assim... Ame as pessoas que te tratam bem. Ore pelas que não o fazem.
A vida é 10% o que faz dela e 90% a maneira como a recebe! Tenha um dia abençoado, livre de lixo!
Autoria Desconhecida, até então


Coração Imprudente
O que pode fazer
Um coração machucado
Senão cair no chorinho
Bater devagarinho pra não ser notado
E depois de ter chorado
Retirar de mansinho
De todo amor o espinho
Profundamente deixado
O que pode fazer
Um coração imprudente
Se não fugir um pouquinho
De seu bater descuidado
E depois de cair no chorinho
Sofrer de novo o espinho
Deixar doer novamente
Composição: Paulinho Da Viola / Capinam


Timidamente [...], com medo de que você se aproxime de mim, eu me mantenho bem longe.
[...] Então você vem, apesar de tudo, e eu não posso mais fugir, e a sua mão pega a minha mão inutilmente fugitiva, depois devagar e com ternura a acaricia. [...]
E você ficava de olhos baixos; eu tentava me desvencilhar, em vão, da sua mão obstinadamente terna.
E tudo isso era tão estranhamente doce que eu acordei como de um pesadelo.

André Gide
In: Les cahiers d'André Walter.
"Bibliothèque de la Pléiade".
Paris: Gallimard, 1986
p. 85-86


QUARTA-FEIRA
Casinha pobre.
As galinhas que andam pelo pátio vazio,
a mãe que costura.
A mãe que costura,
que cerze, que remenda as roupas fatigadas
de dia e de noite.
Há nos cantos
da casa muitas
flores.
E por toda a parte
a tristeza branca
das casas pobres.

PABLO NERUDA
In: Cadernos de Temuco
Tradução de Thiago de Mello
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998
p. 251

A vida é uma ribeira;
Caí nela, infelizmente…
Hoje vou, queira ou não queira,
Aos trambolhões na corrente.
Crês que ser pobre é não ter
Pão alvo ou carne na mesa?
Mas é pior não saber
Suportar essa pobreza!
O luxo valor não tem
Nos que nascem p’ra pequenos:
Os pobres sentem-se bem
Com mais pão luxo a menos!
A esmola não cura a chaga;
Mas quem a dá não percebe
Ou ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.
A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.
O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!
Quantas, quantas infelizes
Deixam de ser virtuosas…
E depois são seus juízes
Os que as fazem criminosas!...
Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.
Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…
Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!
Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.
Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!
Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.
Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!
António Aleixo
Fonte: http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt


Assim como um espelho sujo não consegue refletir os raios do Sol, assim também o coração impuro, enredado por maya, nunca enxerga a verdadeira glória de Deus. O coração puro, porém, vê Deus da mesma forma que um espelho limpo reflete o Sol.
Ramakrishna
In: Sayings of Sri Ramakrishna
Ramakrishna Math (2004)
p. 649


Armas
Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
-Qual a mais firme das armas?-
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?...
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: - a língua humana!-
Fagundes Varela
In: Clássicos Da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 125-126


“O poeta não tem, como o homem de ciência, o oficio de pensar o mundo, mas o de repensá-lo, em moldes de um lirismo ideal e sonhador. O cientista é mais humilde e objetivo. Aceita a estrutura das coisas e procura conhecê-las para torná-las mais accessíveis ao pragmatismo das formas de convivência social. A missão de um é repensar criticamente uma realidade, cujo sentido derradeiro a linguagem e a sintaxe comuns são incapazes de traduzir. O outro, o cientista, habituado às flutuações de todas as relatividades, contenta-se com isolar determinados fragmentos dessa realidade cambiante e esquiva, para que possa o homem, compreendendo-os, extrair deles elementos que lhe tornem menos áspera a vida e menos opressivo o seu sentimento de desamparo no mundo.
Um e outro, porém, prisioneiros da vida, aspiram ao conhecimento puro. Um e outro indagarão dos seus mistérios e do sentido da história. As respostas que oferecem diferem qualitativamente, mas não em sua substância. O poeta dirá de seu universo povoado de criações metafísicas, onde o homem se pode perder, porque a luz de sua razão lógica é pequena demais para devassar as sombras absorventes do cosmos. O cientista aludirá também à fragilidade do destino humano, às suas perplexidades diante de tantos problemas que lhe excitam a inteligência. Mas a sua mensagem será tocada daquela ânsia de conhecer, que não abandona o homem. O Homem, que, no conceito do filósofo, sabe ser a vida uma litania de memento mori, mas sente também, para que haja vida, a necessidade de enfrentar os impassíveis desafios do destino”
Roberto Simonsen
Fonte: http://www.academia.org.br/


Elegia
Um dia, amor, tudo o que existe agora,
Tudo o que forma o nosso grande orgulho,
A pureza e o esplendor de nossas almas,
Terá morrido, sem deixar lembrança,
Na velha terra indiferente aos homens.
Nada do que hoje nos parece eterno
Terá ficado do naufrágio imenso.
Esquecidas de nós, as novas almas
Levantarão para as estrelas mudas
O milagre feliz dos novos sonhos,
Sem talvez meditar que a terra outrora
Vira prodígios e deslumbramentos
Semelhantes aos seus, sob um céu puro.
Uma névoa de pó terá coberto
As cidades vaidosas, onde os homens
Hoje, lutando, desvairados, sofrem.
E apenas raros monumentos tristes.
Lembrarão, no candor da branca pedra,
A fronte sacratíssima de um sábio,
De um herói, de um guerreiro, de um poeta,
Que a glória cinja com a divina palma.
Novos deuses, em templos majestosos,
Receberão, no plácido silêncio,
O murmúrio das preces comovidas,
O perfumado fumo das oblatas
E o amor das multidões...
Ah! nesse tempo
Eu terei recebido dos destinos
O bem do esquecimento imperturbável...
Deste homem que hoje sou - das minhas crenças,
Dos meus sonhos de amor, dos meus desejos,
Das minhas ambições mais rutilantes -
Nada mais restará, nada, na terra!
Mas, quem sabe? Talvez, um dia, um homem,
Amigo das pesquisas minuciosas,
Visite longamente as bibliotecas,
Onde durmam os livros seculares,
Que as traças lentas vão destruindo a custo.
E esse homem, cheio de um amor antigo,
Curioso do viver das eras mortas,
Talvez encontre, entre outros livros velhos,
Estes versos que escrevo, e em que minha alma
Fala à tua alma em longas confidências.
E então, meu lindo amor, como evadidos
De um sepulcro, nós dois ressurgiremos
Aos olhos caridosos desse amigo,
Vindos das densas sombras do passado.
Talvez...
Seremos belos!
Nossa fronte,
Há de doirá-la a mesma juventude,
Que hoje nos cerca de um clarão sagrado!
Haverá nos teus lábios esse mesmo
Beijo vibrante que me trazes hoje!
E nos olhos terás o mesmo encanto
Que neles me seduz e prende agora!
Sim: no milagre desse instante ardente,
Nessa ressurreição maravilhosa,
Nós brilharemos juntos, aureolados
De um novo amor e de um carinho novo!
E então esse paciente amigo nosso
Volverá para nós, nos dias de hoje,
Toda a sua saudade religiosa,
E invejará, talvez, piedosamente,
Essa breve, ligeira hora de sonho,
Que hoje os destinos deixam que vivamos...
Múcio Leão
In: Poesias, 1949


Carinhoso
Meu coração, não sei por que
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim
Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim
Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz
Composição: Pixinguinha / João de Barro
Ouça esta música por M. Monte e Paulinho da Viola:
http://www.youtube.com/watch?v=8IhqXDQkWpQ


Der Doppelgänger: “O Duplo”
A noite é calma, a rua dorme,
Esteve na casa minha amada a habitar;
Ela deixou a cidade há tempo enorme,
A casa, porém, permanece em seu lugar.
Há também um homem, que mira o firmamento
E retorce as mãos, presa da amargura.
Contemplar sua face causa-me tormento,
A lua me desvela minha própria figura.
Tu, meu duplo! tu, pálido amigo!
Por que zombas da minha dor de amar,
Que me torturou neste lugar
Por tantas noites, em tempo ido?
Heinrich Heine
Tradução: Priscila M. Lerner e Carlos Eduardo Ortolan

"A sociedade atual me irrita e me revolta!
O vício aí floresce, a luxúria anda à solta;
E nessa corrupção dos homens e da vida,
Toda a população já se encontra envolvida.
Em vez de se instruir, nesta época de agora,
O rigor que compunha a honestidade outrora,
A juventude está tão doida e libertina..."

MOLIÈRE
In: Escola de mulheres - Escola de maridos.
Tradução: SEGALL, J. K.
Coleção Universidade de bolso.
Ed. Tecnoprint


Pra que mentir?
Pra que mentir
tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra que? Pra que mentir,
Se não há necessidade
De me trair?
Pra que mentir
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?
Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu sei
Que tu não gostas de mim?
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?
Vadico e Noel Rosa, 1934
Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=fSR8asuhf0Y


Quando Tornar a Vir a Primavera
Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real.

Alberto Caeiro


Circuito Fechado
Chinelos, vaso, descarga, pia, sabonete, água, escova, creme dental, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo; pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maços de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
Ricardo Ramos


"Não odeio ninguém, nem mesmo o maldoso. Tenha pena dele, porque nunca conhecerá o único gozo que consola a vida: fazer o bem."
Octave Mirbeau
In: Lettres de ma chaumière (1885)
ed. Laurent,
p. 5


Arte de amar
Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.
Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.
Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira


Minha Terra
Esse Brasil tão grande, amado
é meu país idolatrado
terra de amor e promissão
toda verde, toda nossa
de carinho e coração
Na noite quente, enluarada
o sertanejo está sozinho
e vai cantar pra namorada
no lamento do seu pinho
E o sol que nasce atrás da serra
a tarde inteira rumoreja
cantando a paz da minha terra
na toada sertaneja
Este sol, este luar
estes rios e cachoeiras
estas flores, este mar
este mundo de palmeiras
Tudo isto é teu, ó meu Brasil
Deus foi quem te deu
Ele por certo é brasileiro
brasileiro como eu.
(1923)
* * *
"Música... minha predileção, meu achado, minha fantasia, meu rumo. Sempre fui guiado pelos sons: o apito de um navio, o badalar de um sino, o toque de um tambor, a ressonância de uma voz humana. Fosse pingo d'água ou assobio, cigarra ou trovão, inverno ou primavera, outono ou verão. Mãos acenando, chegando ou partindo, abraços e beijos, sorrisos e lágrimas."
Waldemar Henrique da Costa Pereira
In: Enciclopédia da Música Brasileira
Editora Publifolha, 1999

Poema que aconteceu
Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.
A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível

Carlos Drummond de Andrade


Ilusão
sonho é nada, é ilusão
ele acaba
e o que fica: decepção
o gosto amargo
nojento
da derrota
o sonho é falso, mentiroso
monstruoso
ele só alimenta a espera...
só a dor é sincera!
(11/02/2009)
Cesar Veneziani


O Yin e o Yang, embora representem dois contrários, jamais se opõem de modo absoluto, pois entre eles sempre há um período de mutação que permite uma continuidade; tudo, homem, tempo, espaço, (bem, mal) ora é yin, ora é yang; tudo tem a ver com os dois simultameamente, por seu próprio futuro e seu dinamismo, com a sua dupla possibilidade de evolução e involução.
In: Dicionário de símbolos
Chevalier, J & Gheerbrant, A.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1990


Cobra
Sou cheia de razão quando minto
Não creia ser eu quem pensas que sou
Acredito na alegria que não sinto
Odeio o amor que alguém te causou
Estou por trás do teu grande medo
Quando a vida não tem explicação
Te seduzo à tentação de um desejo
Para gozar na tua insatisfação
Mas se quiseres tuas contas acertar
Pra ficar livre de minha maldade
Cobra de mim o que me tens a pagar
E eu te darei o fim da eternidade
Mas se meu poderoso veneno
For antídoto pra felicidade
Com os deuses eu te condeno
A morrer preso a tua falsa liberdade
Não me cobre ser existente
Cobra de mim que sou serpente
Rita Lee / Roberto de Carvalho


MÁSCARA
Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.
Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.
Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.
Dante Milano


O Dia Da Criação
Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27
I
Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.
Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.
Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

Vinicius de Moraes
In: Vinicius - Antologia Poética
R.J.: Ed. José Olympio - 22a. Edição, 1983
p. 121


Poema
Ocorre-me o poema.
Contudo há a religião,
A pátria, o calor.
Procuro ver na noite profunda
Quero esquecer no momento
Que sou o homem de vários documentos.
Forço.
Dói-me o calo desta vida "meu Deus!"...
Lavo as mãos.
Mas tenho de pôr a gravata,
E salvo a moral. Abano-me.
Rola o poema e o mundo.
E eu mudo.
Max Martins
In: O Estranho (Belém, 1952)


"Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum." (In: Fragmentos de um discurso amoroso)

Roland Barthes
In: Ciúmes - O medo da perda
Livro de Eduardo Ferreira-Santos
Ed. Claridade, São Paulo, 2003


Poema da purificação
Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.
As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.
Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Carlos Drummond de Andrade


Lição de um Gato Siamês
Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade
O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
-dura eternamente
enquanto vivo
E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Ferreira Gullar

“(...) Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem”
Agostinho da Silva
In: Sete cartas a um jovem filósofo (1945)
Ed. Ulmeiro, 1995


“Desde meu retorno, estou envolvido em um trabalho muito atrevido, sobre o qual não conheço ninguém que não diria se tratar de uma bobagem. Estou quase convencido (bem ao contrário da minha opinião original) que as espécies não são imutáveis... Creio ter achado o meio pelo qual espécies se tornam especialmente adaptadas a diversos fins.”
* * *
“Quando eu estava a bordo do H. M. S. Beagle, como naturalista fiquei muito impressionado com certos fatos na distribuição dos habitantes da América do Sul... Esses fatos, me parecia, poderiam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – aquele mistério dos mistérios.”
* * *
“Deleite é um termo fraco para expressar a sensação de um naturalista que pela primeira vez vagueia em uma floresta brasileira.(...) Sentado numa árvore e comendo meu almoço na sublime solidão da floresta, o prazer que experimento é indizível... Se o olhar tenta seguir o voo de uma espalhafatosa borboleta, ele é detido por estranha árvore ou fruta... A mente é um caos do deleite.”
* * *
"A viagem do Beagle foi sem dúvida o acontecimento mais importante de minha vida e determinou toda a minha carreira. (...) Nessa viagem tive a primeira formação ou educação verdadeira de minha mente. (...) As glórias das vegetações dos trópicos erguem-se hoje em minha lembrança de maneira mais vívida do que qualquer outra coisa."

Charles Darwin
In: Revista Época, No. 560 - Fevereiro de 2009


“… A idéia é que a realidade, seja da Santa Sé, a de René Char ou a de Oppenheimer é, sempre uma realidade convencional, incompleta e dividida. A admiração de alguns caras diante de um microscópio eletrônico não me parece mais fecunda que a admiração das porteiras pelos milagres de Lourdes. Acreditar naquilo que chamam de matéria e acreditar naquilo que chamam espírito, viver em Emmanuel ou seguir cursos de Zen, ver o destino humano como um problema econômico ou como um puro absurdo, a lista é longa, a escolha múltipla…”

Julio Cortázar
In: O Jogo da Amarelinha
Tradução de Fernando de Castro Ferro


"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro." (Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987)

Lou Andreas-Salomé


HOJE EU ESTOU MEIO ROMÂNTICO
Foi numa grande festa na pequena cidade que o fato se deu.
O grande homem, olhando para a pequena mulher, pensou:
- Que pequena.
A pequena mulher, sentindo os grandes fluidos em sua cabeça, pensou:
- Grande.
Pequenas piscadas, grandes sorrisos, uma só cumplicidade. E foi assim que eles foram. Ele pegou nas pequenas mãos da mulher com sua grande mão. Com os seus grandes olhos, procurou os pequenos dela, grande ternura, pequena timidez.
Com o grande dedo da grande mão direita passou, levemente, uma pequena alegria para os pequenos lábios do pequeno sorriso.
Ele sorriu, mostrando dois grandes dentes e deu um grande beliscão no pequeno nariz que ficou vermelho como o pequeno coração que disparou dentro do seu pequeno corpo.
Com o seu grande coração conquistou o pequeno sim e fizeram grandes planos e pequenas despesas.
Um pequeno período de noivado e pensaram na grande festa do grande dia.
Num pequeno hotel da pequena cidade, numa grande cama, o pequeno corpo esticou-se atravessado e foi recolhido num grande abraço.
Grandes horas, pequenos segundos, grandes prazeres, pequenos gemidos, pequenas lágrimas, um grande suor, pequenos ais, grandes beijos, pequenos dentes, grandes mordidas, grande língua, seios pequenos contidos por um grande peito.
Pequenos saltos, grandes suspiros.
Um grande amor.
Depois de grandes dias e pequenas brigas, vieram as pequenas diferenças.
Grandes anos, pequenos segundos, pequenos filhos, grandes festas, pequenas viagens, pequenos passeios, grandes almoços, pequenos pileques, grandes barrigas, pequenos partos, grandes fadigas, pequenas férias, grandes trabalhos, pequenos salários, grandes dores de cabeça, pequenos comprimidos, grandes ansiedades, pequenas alegrias, grandes insônias, pequenas noites, grandes desilusões, pequenos senões, grandes tempos, pequenos tempos.
Grandes brigas, pequenos nãos.
Passou um grande tempo, apenas um pequeno amor sustentava a grande casa já repleta de filhos pequenos e grandes.
Sentaram-se na grande poltrona da pequena sala para resolver o grande problema: o grande amor ficara pequeno.
A sua grandeza foi diminuindo e as pequenas razões da mulher foram ficando grandes.
Foi quando ela percebeu que era uma grande mulher.
E ele, ficando cada vez mais pequeno, também.
Ela pegou uma pequena faca e enfiou na pequena barriga dele.
Saiu uma grande quantidade de sangue e o pequeno corpo ficou ali, esticado, no grande tapete atravessado, recebendo pequenos olhares.
Vieram os filhos pequenos e grandes e deram grandes gritos.
Para a Polícia ela deu apenas pequenas explicações e conseguiu uma grande pena: dos pequenos e grandes filhos e da Justiça.
Anos mais tarde, teve uma pequena morte numa pequena sala de uma grande penitenciária e o jornal deu apenas uma pequena nota de um amor que um dia foi tão grande.
MÁRIO PRATA
In: O Estado de S. Paulo, 30/08/1995


“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.
Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Júlio Cortázar
In: O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7
Tradução de Fernando de Castro Ferro


"Não havia ponte entre os mundos que os separavam. Haviam viajado para longe demais um do outro e não havia retorno. Não havia agora, nunca haveria”

Sidney Sheldon
In: A Ira dos Anjos (1980)


"Glaube nur" (Só acredite)
Só acredite no que os teus olhos veem e os teus ouvidos escutam.
Não acredites nem no que os teus olhos veem e os teus ouvidos escutam.
E fica sabendo que não acreditar, afinal, também é acreditar.
Bertold Brecht
In: Gesammelte Gedichte, 1976,
ed. Suhrkamp, Frankfurt/Main
p. 373


Nada É Impossível De Mudar
Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.
Bertold Brecht


Canção da saída
Se não tens o que comer
como pretendes defender-te
é preciso transformar
todo o estado
até que tenhas o que comer
e então serás teu próprio convidado.
Quando não houver trabalho para ti
como terás de defender-te
é preciso transformar
todo o estado
até que sejas teu próprio empregador.
e então haverá trabalho para ti
se riem de tua fraqueza
como pretendes defender-te?
deves unir-te aos fracos.
e marcharem todos unidos.
então será uma grande força
e ninguém rirá.
Bertolt Brecht


Definição de poesia
Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.
Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas —
Geada no canteiro, tombado.
Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.
Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

BORIS PASTERNAK
Trad. de Haroldo de Campos.

A crise que hoje atravessamos é de dimensão planetária. A palavra “crise” vem do grego Krinein: decidir, discernir. Por isso, nos encontramos diante de indagações de fundo: quem é o ser humano e qual o seu lugar no todo? Como tecer novamente os fios que religam polis e cosmos? A responsabilidade que se põe para cada ser humano hoje é de transformação profunda de nossa relação com o planeta terra. Para que esta transformação ocorra é preciso reencontrar capacidade humana de maravilhar-se, de encantar-se, de vivenciar a presença do extraordinário no ordinário.
Nancy M. Unger
In: O encantamento do humano.
Ed. Loyola, 2a. edição, 2000


"A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo".
* * *
(...) “Tentei imaginar uma grande paixão do professor (pela esposa, sem dúvida). Relembrando o que ele afirmara, de que a paixão era delito, isso parecia ter sentido. Mas o professor disse que amava a sua esposa. Então não havia por que sentir essa indisposição, um distanciamento perante a sociedade. As palavras dele, “A lembrança de ter se ajoelhado algum dia diante de alguém faz com que se queira mais tarde pôr os pés na cabeça desse alguém”, cabiam às pessoas da sociedade em geral e não pareciam caber para descrever a relação entre os dois.”
Natsume Soseki
In: Coração - “Kokoro”
Tradução de Junko Ota
Editora Globo, 2008

“não temam o pecado, amem o homem mesmo no pecado, é isso a imagem do amor divino, um amor como não há maior na terra. Amem toda a criação no seu conjunto e nos seus elementos, cada folha, cada raio de luz, os animais, as plantas. Amando cada coisa, compreenderão o mistério divino nas coisas. Tendo-o compreendido uma vez, vocês o conhecerão sempre mais, a cada dia. E acabarão por amar o mundo inteiro com um amor universal... o amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar de fato, não por um instante, mas até o fim. Qualquer um, até mesmo um celerado, é capaz de um amor fortuito.”

Fiódor Dostoiévski
In: Os Irmãos Karamazóv
Ed. Ediouro
p. 320-321


“Só quem pudesse amá-la seria capaz de transformar quietude em ressonância, e a sua força em motivos. E, com o passar dos anos de desesperança e falta de repercussão, ela se foi dando conta da improbabilidade de realizar-se, lograda na sua inútil espera. Então foi ficando cada vez mais esquiva e solitária, cada vez menos afeita a fazer-se amar.”
Elisa Lispector
In: O Muro de Pedras
Rio de Janeiro: José Olympio, 1963
p. 133

A RITA
A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel
A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meu pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão
Composição: Chico Buarque de Hollanda
Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=RSGDIAuwX0c


(...) "A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.
Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto:
- O capitão ama o mar - falei-lhe.
- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas. Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas. Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!"

Júlio Verne
In: Vinte mil léguas submarinas (1870)


O Ciúme
Talvez... quem sabe?
E sofro. E, abatida e descrente
entrando em tua alma pelo teu olhar
Começo a procurar desesperadamente
Uma coisa qualquer que não quero encontrar.
Guilherme de Almeida


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.
Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.
Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...
para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.

Sebastião da Gama


Tecendo a manhã
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto
In: Poesias Completas.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1979
(Arte: Cock A Doodle Dude - Catherine G McElroy)


- Sabe escrever memórias Emília? repetiu o Visconde ironicamente. (...)
- Perfeitamente, Visconde! Isso é o importante. Fazer coisas com a mão dos outros, ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, pegar nome e fama com a cabeça dos outros: isso que é saber fazer as coisas. Ganhar dinheiro com o trabalho da gente, ganhar nome e fama com a cabeça da gente, é não saber fazer as coisas. Olhe, Visconde, eu estou no mundo dos homens há pouco tempo, mas já aprendi a viver. Aprendi o grande segredo da vida dos homens na terra: a esperteza! Ser esperto é tudo. O mundo é dos espertos. Se eu tivesse um filhinho, dava-lhe um só conselho: “Seja esperto, meu filho!”
- E como lhe explicar o que é ser esperto? Indagou o Visconde.
- Muito simplesmente, respondeu a boneca. Citando o meu exemplo e o seu, Visconde. Quem é que fez a “Aritmética”? Você. Quem ganhou nome e fama? Eu. Quem que está escrevendo as Memórias? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu...
O Visconde achou que aquilo estava certo mas era um grande desaforo.

Monteiro Lobato
In: Memórias da Emília (1936)
