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   (...) Hoje matei um mosquito. Com a mais bruta das delicadezas. Por quê? Por que matar o que vive? Sin­to-me uma assassina e uma culpada. E nunca mais vou esquecer esse mosquito. Cujo destino eu tracei. A gran­de matadora. Eu, como um guindaste, a lidar com um delicadíssimo átomo. Me perdoe, mosquitinho, me per­doe, não faço mais isso. Acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.
          Eu sou o meu próprio espelho. E vivo de achados e perdidos. É o que me salva. Estou metida numa guer­ra invisível entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco.

Clarice Lispector

In: Um Sopro de Vida
RJ: Editora Nova Fronteira, 1978
p. 63



- Postado por: Rodrigo às 00h18
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Henry James: 15 de abril de 1843 — 28 de fevereiro de 1916

"Ele nunca supôs que ela não tivesse asas e necessidade de movimentos livres e belos, com seus longos braços e pernas; ele não temia a força dela. As palavras de Isabel, se é que tinham a intenção de chocá-lo, erraram o alvo e só o fizeram sorrir com a sensação de que havia um terreno comum entre eles..."

Henry James

In: Retrato de uma Senhora (1881)



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Chiquinha Gonzaga: 17 de outubro de 1847 — 28 de fevereiro de 1935

LUA BRANCA

Ó lua branca de fulgores e de encanto!
Se é verdade que ao amor tu dás abrigo
Vem tirar dos olhos meus o pranto
Ai, vem matar esta paixão que anda comigo!

Ai por que és, desce do céu, ó lua branca!
Essa amargura do meu peito, ó vem arranca!
Dá-me o luar da tua compaixão
Ó vem, por Deus, iluminar meu coração!

E quantas vezes lá no céu me aparecias
A brilhar em noite calma e constelada!
A sua luz então me surpreendia

Ajoelhado junto aos pés da minha amada!

E ela a chorar, a soluçar cheia de pejo
Vinha em seus lábios me ofertar um doce beijo
Ela partiu, me abandonou assim
Ó Lua branca, por que és, tem dó de mim!

Chiquinha Gonzaga

Fonte: http://www.chiquinhagonzaga.com/



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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MEU DESTINO

Nas palmas de tuas mãos
leio as linhas da minha vida.
Linhas cruzadas, sinuosas,
interferindo no teu destino.
Não te procurei, não me procurastes -
íamos sozinhos por estradas diferentes.
Indiferentes, cruzamos
Passavas com o fardo da vida...
Corri ao teu encontro.
Sorri. Falamos.
Esse dia foi marcado
com a pedra branca
da cabeça de um peixe.
E, desde então, caminhamos
juntos pela vida...

Cora Coralina



- Postado por: Rodrigo às 20h46
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Armando Baptista-Bastos: Lisboa, 27 de Fevereiro de 1934

As mulheres sempre tiveram um papel fundamental na minha vida. Tenho a paixão da mulher. Fiquei sem mãe, era miúdo. As mulheres da minha família tomaram conta de mim, incentivaram-me. Ensinaram-me a não admitir soluções ilusórias. A minha avó era uma criatura excepcional; e tive uma madrasta que sempre me protegeu. A minha mulher conheceu-me estava eu desempregado, por motivos políticos. É um ser incomum. Correu o risco, perigosíssimo, na época, de querer partilhar a vida comigo. Estamos casados há quarenta e sete anos. Éramos dois miúdos e enfrentámos, juntos, o que nem queira saber.

Armando Baptista-Bastos

In: Entrevista ao Diário de Notícias (15/06/2007)



- Postado por: Rodrigo às 20h41
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Henry W. Longfellow: 27 de fevereiro de 1807 – 24 de março de 1882

A Hora das Meninas

Entre o escuro e o entardecer,
Quando a noite então declina,
Cessam as ocupações diárias:
Chegou o Tempo das Meninas.
 
Ouço lá do quarto de cima
O ruído dos seus passinhos,
O som de porta quando aberta
E vozes cheias de carinho.
 
Enquanto estudo vejo uma luz
Descendo os degraus da escada,
Edith, de cabelos dourados,
Alice, séria; Allegra encantada.
 
Um cochicho e então silêncio:
Sei pelos olhos das levadas
Que juntas estão planejando
Botar-me em uma cilada.
 
Elas sobem a minha torre,
Uma velha cadeira de armar;
Se tento escapar, cercam-me;
Parecem estar em todo lugar!
 
Enlaçam-me com seus braços
E me devoram com beijos,
Penso então no Bispo de Bingen
Na sua prisão no Reno.
 
Imaginam, levadas de olhos azuis,
Terem invadido a fortaleza?
Um velho bigode como eu
Não deve servir como presa!
 
Logo as levo aos meus braços
E as levo para a prisão:
Vocês não irão mais embora.
Da torre do meu coração.
 
E lá ficarão para sempre,
Sim, por toda eternidade,
Até que os muros se desfaçam
E todos os tempos se acabem!

Henry Wadsworth Longfellow

Tradução de Eduardo Gama



- Postado por: Rodrigo às 20h36
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É horrível na vida da gente ficar sem alguma coisa que nós queremos; mas caramba, o que me enfurece é não poder dar a alguém alguma coisa que a gente queria que ele tivesse.

Truman Capote

In: Histórias maravilhosas
Ed. Nova Fronteira
pg. 20

(Arte: Candido Portinari, 'Retirantes'; 1944)



- Postado por: Rodrigo às 18h20
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Inutilidades

Ninguém coça as costas da cadeira.
Ninguém chupa a manga da camisa.
O piano jamais abana a cauda.
Tem asa, porém não voa, a xícara.

De que serve o pé da mesa não anda?
E a boca da calça se não fala nunca?
Nem sempre o botão está em sua casa.
O dente de alho não morde coisa alguma.

Ah! se trotassem os cavalos do motor ...
Ah! se fosse de circo o macaco do carro ...
Então a menina dos olhos comeria
Até bolo esportivo e bala de revólver.

José Paulo Paes

In: É isso ali (10ª edição)
Rio de Janeiro: Salamandra, 1993.



- Postado por: Rodrigo às 18h07
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J. de Magalhães Lima: 15 de Outubro de 1859 — 26 de Fevereiro de 1936

(...) "Agora vemos, como nunca vimos, que de que o mundo carece, não é de inteligência, é de caracter. De que o mundo carece não é de uma nova ordem nas cousas e nas instituições e inventos que as regulam; a antiga muito bem lhe satisfazia todas as necessidades. De que o mundo carece é de melhor ordem nos corações; o passado lho revelou pela sua historia e o presente lho confirmou pelas provações. De que o mundo carece, para sua luz e ventura, é de mansidão, dessa eternidade que o fogo não queima; não é de oficinas que as chamas arrazam e o fumo lança ao vento."

* * *

(...) "A experiência da vida é, em uma larguissima extensão, a reducção ao absurdo de uma grande parte da propria vida; é um fabrico incessante de rebutalho de aspirações. O que na infancia se nos afigurou grande, não raro se mostra mesquinho na virilidade e detestavel na velhice; o que a creança cobiçou e achou belo, achou-o indiferente a adolescencia e despresou-o a idade da razão. Esta constante e progressiva revisão e eliminação de valores, que praticamente conduz á simplicidade e psicologicamente acrescenta e engrandece a espiritualidade, isto constitue a civilização, se o consideramos na história dos povos, e é por igual uma parte, e muito grande, da educação, se o observamos no desenvolvimento individual. A cultura e a educação do homem e das sociedades não são outra cousa senão o processo e a acção dessa revisão de valores iniciais, que teve o seu primeiro padrão em Esparta e a sua ultima medida, e a mais alta, em Jerusalém, no Calvário."

Jaime de Magalhães Lima

In: Do que o fogo não queima (1918)
Porto: Empresa Gráfica A UNIVERSAL



- Postado por: Rodrigo às 17h51
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Victor Hugo: 26 de fevereiro de 1802 - 22 de maio de 1885

“O corpo humano é talvez uma simples aparência, escondendo a nossa realidade, e condensando-se sobre a nossa luz ou sobre a nossa sombra. A realidade é a alma. A bem dizer, o rosto é uma máscara. O verdadeiro homem é o que está debaixo do homem.

Mais de uma surpresa haveria se pudesse vê-lo agachado e escondido debaixo da ilusão que se chama carne. O erro comum é ver no ente exterior um ente real...”

Victor Hugo

In: Les Travailleurs de la Mer
Livro Terceiro: Durande e Déruchette
Ed. Nova Cultural, 2003
Tradução de Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 17h44
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Soneto

Por que me descobriste no abandono
Com que tortura me arrancaste um beijo
Por que me incendiaste de desejo
Quando eu estava bem, morta de sono

Com que mentira abriste meu segredo
De que romance antigo me roubaste
Com que raio de luz me iluminaste
Quando eu estava bem, morta de medo

Por que não me deixaste adormecida
E me indicaste o mar, com que navio
E me deixaste só, com que saída

Por que desceste ao meu porão sombrio
Com que direito me ensinaste a vida
Quando eu estava bem, morta de frio

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música interpretada por Nara Leão:

http://www.youtube.com/watch?v=kRpZT5mRHzA



- Postado por: Rodrigo às 20h38
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Mário de Andrade: 9 de outubro de 1893 — 25 de fevereiro de 1945

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...

Aceitarás o amor como eu o encaro ?...
...Azul bem leve, um nimbo, suavemente
Guarda-te a imagem, como um anteparo
Contra estes móveis de banal presente.

Tudo o que há de melhor e de mais raro
Vive em teu corpo nu de adolescente,
A perna assim jogada e o braço, o claro
Olhar preso no meu, perdidamente.

Não exijas mais nada. Não desejo
Também mais nada, só te olhar, enquanto
A realidade é simples, e isto apenas.

Que grandeza... a evasão total do pejo
Que nasce das imperfeições. O encanto
Que nasce das adorações serenas.

Mário de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 20h27
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Cesário Verde: 25 de Fevereiro de 1855 — 19 de Julho de 1886

Flores Velhas

Fui ontem visitar o jardinzinho agreste,
Aonde tanta vez a lua nos beijou,
E em tudo vi sorrir o amor que tu me deste,
Soberba como um sol, serena como um vôo.

Em tudo cintilava o límpido poema
Com ósculos rimado às luzes dos planetas:
A abelha inda zumbia em torno da alfazema;
E ondulava o matiz das leves borboletas.

Em tudo eu pude ver ainda a tua imagem,
A imagem que inspirava os castos madrigais;
E as vibrações, o rio, os astros, a paisagem,
Traziam-me à memória idílios imortais.

E nosso bom romance escrito num desterro,
Com beijos sem ruído em noites sem luar,
Fizeram-mo reler, mais tristes que um enterro,
Os goivos, a baunilha e as rosas-de-toucar.

Mas tu agora nunca, ah! Nunca mais te sentas
Nos bancos de tijolo em musgo atapetados,
E eu não te beijarei, às horas sonolentas,
Os dedos de marfim, polidos e delgados...

Eu, por não ter sabido amar os movimentos
Da estrofe mais ideal das harmonias mudas,
Eu sinto as decepções e os grandes desalentos
E tenho um riso meu como o sorrir de Judas.

E tudo enfim passou, passou como uma pena
Que o mar leva no dorso exposto aos vendavais,
E aquela doce vida, aquela vida amena,
Ah! Nunca mais virá, meu lírio, nunca mais!

Ó minha boa amiga, ó minha meiga amante!
Quando ontem eu pisei, bem magro e bem curvado,
A areia em que rangia a saia roçagante,
Que foi na minha vida o céu aurirrosado,

Diziam-me que tu, no flórido passado,
Detinhas sobre mim, ao pé daquelas rosas,
Aquele teu olhar moroso e delicado,
Que fala de langor e de emoções mimosas;

E, ó pálida Clarisse, ó alma ardente e pura,
Que não me desgostou nem uma vez sequer,
Eu não sabia haurir do cálix da ventura
O néctar que nos vem dos mimos da mulher.

Falou-me tudo, tudo, em tons comovedores,
Do nosso amor, que uniu as almas de dois entes;
As falas quase irmãs do vento com as flores
E a mole exalação das várzeas recendentes.

Inda pensei ouvir aquelas coisas mansas
No ninho de afeições criado para ti,
Por entre o riso claro, e as vozes das crianças,
E as nuvens que esbocei, e os sonhos que nutri.

Lembre-me muito, muito, ó símbolo das santas,
Do tempo em que eu soltava as notas inspiradas,
E sob aquele céu e sobre aquelas plantas
Bebemos o elixir das tardes perfumadas.

Eu tinha tão impresso o cunho da saudade,
Que as ondas que formei das suas ilusões
Fizeram-me enganar na minha soledade
E as asas ir abrindo às minhas impressões.

Soltei com devoção lembranças inda escravas,
No espaço construí fantásticos castelos,
No tanque debrucei-me em que te debruçavas,
E onde o luar parava os raios amarelos.

Cuidei até sentir, mais doce que uma prece,
Suster a minha fé, num véu consolador,
O teu divino olhar que as pedras amolece,
E há muito me prendeu nos cárceres do amor.

Os teus pequenos pés, aqueles pés suaves,
Julguei-os esconder por entre as minhas mãos,
E imaginei ouvir ao conversar das aves
As célicas canções dos anjos teus irmãos.

E como na minha alma a luz era uma aurora,
A aragem ao passar parece que me trouxe
O som da tua voz, metálica, sonora,
E o teu perfume forte, o teu perfume doce,

Agonizava o Sol gostosa e lentamente,
Um sino que tangia, austero e com vagar,
Vestia de tristeza esta paixão veemente,
Esta doença enfim, que a morte há de curar.

E quando me envolveu a noite, noite fria,
Eu trouxe do jardim duas saudades roxas,
E vim a meditar em que me cerraria,
Depois de eu morrer, as pálpebras já frouxas.

Pois que, minha adorada, eu peço que não creias
Que eu amo esta existência e não lhe queira um fim;
Há tempos que não sinto o sangue pelas veias
E a campa talvez seja afável para mim.

Portanto, eu, que não cedo às atrações do gozo,
Sem custo hei-de deixar as mágoas deste mundo,
E, ó pálida mulher, de longo olhar piedoso,
Em breve te olharei calado e moribundo.

Mas quero só fugir das coisas e dos seres,
Só quero abandonar a vida triste e má
Na véspera do dia em que também morreres,
Morreres de pesar, por eu não viver já!

E não virás, chorosa, aos rústicos tapetes,
Com lágrimas regar as plantações ruins;
E esperarão por ti, naqueles alegretes,
As dálias a chorar nos braços dos jasmins!

Cesário Verde



- Postado por: Rodrigo às 20h23
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Marcha de quarta-feira de cinzas

Acabou nosso carnaval
Ninguém ouve cantar canções
Ninguém passa mais brincando feliz
E nos corações
Saudades e cinzas foi o que restou

Pelas ruas o que se vê
É uma gente que nem se vê
Que nem se sorri
Se beija e se abraça
E sai caminhando
Dançando e cantando cantigas de amor

E no entanto é preciso cantar
Mais que nunca é preciso cantar
É preciso cantar e alegrar a cidade

A tristeza que a gente tem
Qualquer dia vai se acabar
Todos vão sorrir
Voltou a esperança
É o povo que dança
Contente da vida, feliz a cantar
Porque são tantas coisas azuis
E há tão grandes promessas de luz
Tanto amor para amar de que a gente nem sabe

Quem me dera viver pra ver
E brincar outros carnavais
Com a beleza dos velhos carnavais
Que marchas tão lindas
E o povo cantando seu canto de paz
Seu canto de paz

Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 18h47
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David Mourão-Ferreira: 24 de Fevereiro de 1927 — 16 de Junho de 1996

Penélope

Mais do que sonho: comoção!
sinto-me tonto, enternecido,
quando, de noite, as minhas mãos
são o teu único vestido.

E recompões com essa veste,
que eu, sem saber, tinha tecido,
todo o pudor que desfizeste
como uma teia sem sentido;
todo o pudor que desfizeste
a meu pedido.

Mas nesse manto que desfias,
e que depois voltas a pôr,
eu reconheço melhores dias
do nosso amor.

David Mourão-Ferreira



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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David Mourão-Ferreira: 24 de Fevereiro de 1927 — 16 de Junho de 1996

Soneto do amor difícil

A praia abandonada recomeça
logo que o mar se vai, a desejá-lo:
é como o nosso amor, somente embalo
enquanto não é mais que uma promessa...

Mas se na praia a onda se espedaça,
há logo nostalgia duma flor
que ali devia estar para compor
a vaga em seu rumor de fim de raça.

Bruscos e doloridos, refulgimos
no silêncio de morte que nos tolhe,
como entre o mar e a praia um longo molhe
de súbito surgido à flor dos limos.

E deste amor difícil só nasceu
desencanto na curva do teu céu.

David Mourão-Ferreira



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Sentimentos

Meus sentimentos de amor, meus momentos
Diante de tudo que vem absorver minha vida,
Dos fatos que o sossego me tira,
É o amor que mais me tira o alento.

As minhas noites sem amar e sem ser amada,
De tentar e tentar algo que não se alcança,
E no peito a dor me chega desesperada
Parece uma ferida, um corte feito por lança.

Mulher, de amores tão impossíveis
E que numa busca incansável se aventura
Para esse amor viver de forma indelével,

Sem mágoas, sem dor, sem desventuras,
Como um oásis de puro amor, incrível!
Que colho num beijo sem censura.

Betânia Uchôa

 Assista o vídeo desse poema aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=uL9zt15B_Ts



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Soneto de carnaval

Distante o meu amor, se me afigura
O amor como um patético tormento
Pensar nele é morrer de desventura
Não pensar é matar meu pensamento.

Seu mais doce desejo se amargura
Todo o instante perdido é um sofrimento
Cada beijo lembrado uma tortura
Um ciúme do próprio ciumento.

E vivemos partindo, ela de mim
E eu dela, enquanto breves vão-se os anos
Para a grande partida que há no fim

De toda a vida e todo o amor humanos:
Mas tranqüila ela sabe, e eu sei tranqüilo
Que se um fica o outro parte a redimi-lo.

Vinicius de Moraes

In: "Poemas, sonetos e baladas"



- Postado por: Rodrigo às 00h25
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Regresso

não te peço pra chorar comigo
apenas me abrace
me ofereça o ombro amigo

não te peço pra me fazer sorrir
apenas me ouça
que ninguém quer me ouvir

se eu fugir um dia vou sozinho
você não poderia
seguir meu caminho

apenas uma coisa te peço
teu ombro e teu ouvido
quando do meu regresso

(11/02/2009)

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 00h19
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Fernanda Seno: 23 de fevereiro de 1942 — 19 de maio de 1996

Entardecer

Mística hora do entardecer
límpida luz a ocidente
berço onde estrelas
nascem a rir
subitamente.
E as almas. Harpas que Deus dedilha,
vibram tocadas pela maravilha
desta leveza que a tarde tem
desta beleza que em si contém
toda a promessa de eternidade
que nos seduz.

Mística hora do entardecer
taça entornada de etérea luz

Fernanda Seno

In: “Cântico Vertical” (1992)



- Postado por: Rodrigo às 00h14
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Paul Claudel: 6 de agosto de 1868 — 23 de fevereiro de 1955

“- Senhor, eu te agradeço por teres me amarrado assim. Houve momentos em que achava difíceis os teus mandamentos, e, colocada diante de tuas ordens, a minha vontade se mostrava perplexa e fracassava. Mas hoje não poderia estar mais fortemente atado a ti do que o estou, e, observando um por um os meus membros, nenhum deles é capaz de afastar-se minimamente de ti. Assim me encontro realmente preso à cruz, mas a cruz que me prende já não está presa a mais nada, está flutuando no mar“

Paul Claudel

In: Soulier de Satin
Ed. Gallimard, 1929, vol. 1,
pág. 18 e ss.

O jesuíta que aparece na condição de náufrago, teve seu navio afundado por piratas, na costa de Espanha, tendo sido amarrado a uma trave do barco pelos piratas. Assim, preso a esse pedaço de madeira, virou um joguete das águas revoltas do oceano.



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Vai passar

Vai passar nessa avenida um samba popular
Cada paralelepípedo da velha cidade
essa noite vai se arrepiar
Ao lembrar que aqui passaram sambas imortais
Que aqui sangraram pelos nossos pés
Que aqui sambaram nossos ancestrais

Num tempo página infeliz da nossa história,
passagem desbotada na memória
Das nossas novas gerações
Dormia a nossa pátria mãe tão distraída
sem perceber que era subtraída
Em tenebrosas transações

Seus filhos erravam cegos pelo continente,
levavam pedras feito penitentes
Erguendo estranhas catedrais
E um dia, afinal, tinham o direito a uma alegria fugaz
Uma ofegante epidemia que se chamava carnaval,
o carnaval, o carnaval...

Vai passar, palmas pra ala dos barões famintos
O bloco dos napoleões retintos
e os pigmeus do boulevard
Meu Deus, vem olhar,
vem ver de perto uma cidade a cantar
A evolução da liberdade até o dia clarear

Ai que vida boa, ô lerê,
ai que vida boa, ô lará
O estandarte do sanatório geral vai passar...

Composição: Chico Buarque e Francis Hime

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=9A_JrsJF6mM



- Postado por: Rodrigo às 00h17
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O modo como nosso cérebro arquiva impressões, separando nessa hora o importante do sem importância, e porque o faz, é um mistério. Por outro lado, parece estar claro que, para conseguir me lembrar conscientemente de algo, e tirá-lo de modo autônomo de uma gaveta da memória, tenho que compreender essa vivência verbalmente. Isso não precisa se dar em palavras, como num poema aprendido de cor, entretando precisa, como sempre, ser refletido. E, segundo sabemos, uma reflexão sem linguagem não é possível para o cérebro humano. E já que tudo o que sabemos ou acreditamos saber está ligado à linguagem, o que há por trás desse tão especial meio de conhecimento? Será que a linguagem assegura um acesso privilegiado à realidade? Será que ela nos transmite um conhecimento objetivo do mundo?

Richard David Precht

In: Quem sou eu? E, se sou, quantos sou?
(original: Wer Bin Ich: Und Wenn Ja, Wie Viele?)
Tradução de Claudia Abeling
Rio de Janeiro: Ediouro, 2009
p. 92



- Postado por: Rodrigo às 00h04
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A Felicidade

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a gota
De orvalho numa pétala de flor
Brilha tranqüila
Depois de leve oscila
E cai como uma lágrima de amor

A felicidade do pobre parece
A grande ilusão do carnaval
A gente trabalha o ano inteiro
Por um momento de sonho
Pra fazer a fantasia
De rei ou de pirata ou jardineira
Pra tudo se acabar na quarta-feira

Tristeza não tem fim
Felicidade sim

A felicidade é como a pluma
Que o vento vai levando pelo ar
Voa tão leve
Mas tem a vida breve
Precisa que haja vento sem parar

A minha felicidade está sonhando
Nos olhos da minha namorada
É como esta noite, passando, passando
Em busca da madrugada
Falem baixo, por favor
Pra que ela acorde alegre com o dia
Oferecendo beijos de amor

Vinicius de Moraes

In: "Poesia completa e prosa: 'Cancioneiro' "

 Ouça esta música aqui:

http://www.youtube.com/watch?v=Ka44wBAypuA



- Postado por: Rodrigo às 00h00
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Seguidor (Follower)

Meu pai lavrava com charrua e cavalo.
Os ombros redondos como velas pandos
Entre os varais e o sulco. Bastava um estalo
De língua e os cavalos iam forcejando.

Um conhecedor. Colocava a travessa
E ajustava a relha de aço agudo e vivo.
Rolavam sem quebrar os torrões de terra.
Na borda do campo, a um tirão imprevisto

De rédeas, a junta suarenta virava
E voltava para o terreno. Ele
Estreitava um olho a fitar a lavra,
Traçando o sulco exatamente.

Eu tropeçava nas pegadas das botas,
Caía às vezes na céspede luzida;
Às vezes ele levava-me nas costas
Descendo e subindo ao ritmo da lida

Eu queria crescer e lavrar,
Fechar um olho, firmar os braços.
Tudo o que fiz foi seguir sem parar
Pela fazenda à sombra de seus passos.

Um estorvo, falante, falseando,
Caindo sempre. Mas agora
É meu pai que vive tropeçando
Atrás de mim, e não vai embora.

Seamus Heaney

In: Poemas 1966-1987
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 37-8



- Postado por: Rodrigo às 10h05
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Água Viva (Trecho)

(...) Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de se ter dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo. As pétalas têm gosto bom na boca – é só experimentar. Mas a rosa não é it. É ela. As encarnadas são de grande sensualidade. As brancas são a paz de Deus. É muito raro encontrar na casa de flores rosas brancas. As amarelas são de uma alarme alegre. As cor-de-rosa em geral mais carnudas e têm a cor por excelência. As alaranjadas são produto de enxerto e são sexualmente atraentes.

Preste atenção e é um favor: estou convidando você para mudar-se para reino novo.

Já o cravo tem uma agressividade quem vem da irritação. São ásperas e arrebitadas as pontas das suas pétalas. O perfume do cravo é de algum modo mortal. Os cravos vermelhos berram em violenta beleza. Os brancos lembram um pequeno caixão de criança defunta: o cheiro então se torna pungente e a gente desvia a cabeça para o lado com o horror. Como transplantar o cravo para a tela?

O girassol é o grande filho do sol. Tanto que sabe virar sua enorme corola para o lado de quem o criou. Não importa se é pai ou mãe. Não sei. Será que o girassol flor feminina ou masculina? Acho que masculina.

A violeta é introvertida e sua introspecção é profunda. Dizem que se esconde por modéstia. Não é. Esconde-se para poder captar o próprio segredo. Seu quase-não-perfume é glória abafada mas exige da gente que o busque. Não grita nunca o seu perfume. Violeta diz levezas que não se podem dizer.

A sempre-viva é sempre morta. Sua secura tende à eternidade. O nome em grego que dizer: sol de ouro.

A margarida é florzinha alegre. É simples e à tona da pele. Só tem uma camada de pétalas. O centro é uma brincadeira infantil.

A formosa orquídea é exquise e antipática. Não é espontânea. Requer redoma. Mas é mulher esplendorosa e isto não se pode negar. Também não se pode negar que é nobre porque é epífita. Epífitas nascem sobre outras plantas sem contudo tirar delas a nutrição. Estava mentindo quando disse que era antipática. Adoro orquídeas. Já nascem artificiais, já nascem arte.

Tulipa só é tulipa na Holanda. Uma única tulipa simplesmente não é. Precisa de campo aberto para ser.

Flor de trigais só dá no meio do trigo. Na sua humildade tem a ousadia de aparecer em diversas formas e cores. A flor do trigal é bíblica. Nos presépios da Espanha não se separa dos ramos de trigo. É um pequeno coração batendo.

Mas angélica é perigosa. Tem perfume de capela. Traz êxtase. Lembra hóstia. Muitos têm vontade de comê-la e encher a boca com o intenso cheiro sagrado.

O jasmim é dos namorados. Dá vontade de pôr reticências agora. Eles andam de mãos dadas, balançando os braços, e se dão beijos suaves ao quase som odorante do jasmim.

Estrelícia é masculina por excelência. Tem uma agressividade de amor e de sadio orgulho. Parece ter a crista de galo e o seu canto. Só não se espera pela aurora. A violência de tua beleza.

Dama-da-noite tem perfume de lua cheia. É fantasmagórica e um pouco assustadora e é para quem ama o perigo. Só sai de noite com seu cheiro tonteador. Dama-da-noite é silente. E também da esquina deserta e em trevas dos jardins de casas de luzes apagadas e janelas fechadas. É perigosíssima: é um assobio no escuro, o que ninguém agüenta. Mas eu agüento porque amo o perigo.

Quanto à suculenta flor de cactus, é grande e cheirosa e de cor brilhante. É a vingança sumarenta que faz a planta desértica. É o esplendor nascendo da esterilidade despótica.

Estou com preguiça de falar da edelvais. É que se encontra à altura de três mil e quatrocentos metros de altitude. É branca e lanosa. Raramente alcançável: é a aspiração.

Gerânio é flor de canteiro de janela. Encontra-se em São Paulo, no bairro do Grajaú e na Suiça.

Vitória-régia está no Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Enorme e até quase dois metros de diâmetro. Aquáticas, é de se morrer delas. Elas são o amazônico: o dinossauro das flores. Espalham grande tranqüilidade. A um tempo majestosas e simples. Apesar de viverem no nível das águas elas dão sombras. Isto que estou te escrevendo é em latim: de natura florum. Depois te mostrarei o meu estudo já transformado em desenho linear.

O crisântemo é de alegria profunda. Fala através da cor e do despenteado. É flor que descabeladamente controla a própria selvageria. (...)

Clarice Lispector

In: Água viva
p. 67-72



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Anaïs Nin: 21 de fevereiro de 1903 - 14 de janeiro de 1977

"A tua beleza submerge-me, submerge o mais fundo de mim. E quando a tua beleza me queima, dissolvo-me como nunca, perante um homem, me dissolvera. De entre os homens eu era a diferente, era eu própria, mas em ti vejo a parte de mim que és tu. Sinto-te em mim. Sinto a minha própria voz tornar-se mais grave como se te tivesse bebido, como se cada parcela da nossa semelhança estivesse soldada pelo fogo e a fissura não fosse detectável."

* * *

"Todos os navios se afundam com fogo nos porões e há fogos que crepitam nas arrecadações de cada casa. A mais branca carne do ser que se ama é a que o vidro partido irá cortar e a que a roda irá esmagar. Os longos uivos na noite são uivos de morte. A noite é o assessor dos carrascos. O dia é a luz das descobertas estridentes. Se um cão ladra é porque o homem que ama feridas profundas salta pela janela. O riso precede a histeria. Eu espero a grande queda com a espuma na boca."

Anaïs Nin

In: A Casa do Incesto



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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O ano passado

O ano passado não passou,
continua incessantemente.
Em vão marco novos encontros.
Todos são encontros passados.

As ruas, sempre do ano passado,
e as pessoas, também as mesmas,
com iguais gestos e falas.
O céu tem exatamente
sabidos tons de amanhecer,
de sol pleno, de descambar
como no repetidíssimo ano passado.

Embora sepultos, os mortos do ano passado
sepultam-se todos os dias.
Escuto os medos, conto as libélulas,
mastigo o pão do ano passado.

E será sempre assim daqui por diante.
Não consigo evacuar
o ano passado.

Carlos Drummnond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 18h59
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Georges Bernanos: 20 de fevereiro de 1888 — 5 de julho de 1948

"Trabalhe, disse-me ele, faça pequenas tarefas, dia após dia. (...) É assim que o bom Deus espera nos ver, quando nos abandona às nossas próprias forças. As pequenas tarefas não parecem importantes, mas dão paz. São como as flores do campo, você sabe. Achamos que não têm perfume, mas, quando juntas, rescendem. A oração das pequenas coisas é inocente."

Georges Bernanos

In: Diário de um Pároco de Aldeia
2ª edição da Ed. Paulus, 2000



- Postado por: Rodrigo às 18h53
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Vitorino Nemésio: 19 de Dezembro de 1901 — 20 de Fevereiro de 1978

A Concha

A minha casa é concha. Como os bichos
Segreguei-a de mim com paciência:
Fachada de marés, a sonho e lixos,
O horto e os muros só areia e ausência.

Minha casa sou eu e os meus caprichos.
O orgulho carregado de inocência
Se às vezes dá uma varanda, vence-a
O sal que os santos esboroou nos nichos.

E telhados de vidro, e escadarias
Frágeis, cobertas de hera, oh bronze falso!
Lareira aberta ao vento, as salas frias.

A minha casa. . . Mas é outra a história:
Sou eu ao vento e à chuva, aqui descalço,
Sentado numa pedra de memória.

Vitorino Nemésio



- Postado por: Rodrigo às 18h50
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INTROSPECÇÃO

Olha
no fundo do próprio olho
sem espelho: pra dentro.

Faz
teu coração
conversar com teu coração.

Pensa
em quem, embora esteja longe,
na verdade está a teu lado.

E saberás
porque às vezes é mais importante
parar e não dizer nada
e contemplara a poça d’água,
do que apertar o passo
e tomar o necessário sustento.

Carlos Arthur Newlands Junior

Fonte: http://carlosarthur.newlands.vilabol.uol.com.br



- Postado por: Rodrigo às 18h07
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A Lei do Caminhão de Lixo (?)

Um dia, peguei um táxi e fomos direto para o aeroporto. Estávamos rodando na faixa certa quando, de repente, um carro preto saltou do estacionamento na nossa frente.

O motorista do táxi pisou no freio, deslizou e escapou do outro carro por um triz! O motorista do outro carro sacudiu a cabeça e começou a gritar para nós. O motorista do táxi apenas sorriu e acenou para o cara. E o fez bastante amigavelmente.

Assim, perguntei:

- Por que você fez isto? Este cara quase arruina o seu carro e nos manda para o hospital!

Foi quando o motorista do táxi me ensinou o que eu agora chamo "A Lei do Caminhão de Lixo". Ele explicou que muitas pessoas são como caminhões de lixo. Andam por aí carregadas de lixo, cheias de frustrações, cheias de raiva e de desapontamento.

À medida que suas pilhas de lixo crescem, elas precisam de um lugar para descarregar, e às vezes descarregam sobre a gente. Não tome isso como pessoal. Apenas sorria, acene, deseje-lhes o bem, e vá em frente.

Não pegue o lixo delas e espalhe sobre outras pessoas no trabalho, em casa, ou nas ruas.

O princípio disso é que pessoas bem-sucedidas não deixam os seus caminhões de lixo estragarem o seu dia. A vida é muito curta para levantar com remorso, assim... Ame as pessoas que te tratam bem. Ore pelas que não o fazem.

A vida é 10% o que faz dela e 90% a maneira como a recebe! Tenha um dia abençoado, livre de lixo!

Autoria Desconhecida, até então



- Postado por: Rodrigo às 18h00
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Coração Imprudente

O que pode fazer
Um coração machucado
Senão cair no chorinho
Bater devagarinho pra não ser notado
E depois de ter chorado
Retirar de mansinho
De todo amor o espinho
Profundamente deixado

O que pode fazer
Um coração imprudente
Se não fugir um pouquinho
De seu bater descuidado
E depois de cair no chorinho
Sofrer de novo o espinho
Deixar doer novamente

Composição: Paulinho Da Viola / Capinam



- Postado por: Rodrigo às 17h54
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André Gide: 22 de novembro de 1869 — 19 de fevereiro de 1951

Timidamente [...], com medo de que você se aproxime de mim, eu me mantenho bem longe.

[...] Então você vem, apesar de tudo, e eu não posso mais fugir, e a sua mão pega a minha mão inutilmente fugitiva, depois devagar e com ternura a acaricia. [...]

E você ficava de olhos baixos; eu tentava me desvencilhar, em vão, da sua mão obstinadamente terna.

E tudo isso era tão estranhamente doce que eu acordei como de um pesadelo.

André Gide

In: Les cahiers d'André Walter.
"Bibliothèque de la Pléiade".
Paris: Gallimard, 1986
p. 85-86



- Postado por: Rodrigo às 17h44
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QUARTA-FEIRA

Casinha pobre.
As galinhas que andam pelo pátio vazio,
a mãe que costura.

A mãe que costura,
que cerze, que remenda as roupas fatigadas
de dia e de noite.
Há nos cantos
da casa muitas
flores.

E por toda a parte
a tristeza branca
das casas pobres.

PABLO NERUDA

In: Cadernos de Temuco
Tradução de Thiago de Mello
Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998
p. 251



- Postado por: Rodrigo às 20h33
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António F. Aleixo: 18 de Fevereiro de 1899 — 16 de Novembro de 1949

A vida é uma ribeira;
Caí nela, infelizmente…
Hoje vou, queira ou não queira,
Aos trambolhões na corrente.

Crês que ser pobre é não ter
Pão alvo ou carne na mesa?
Mas é pior não saber
Suportar essa pobreza!

O luxo valor não tem
Nos que nascem p’ra pequenos:
Os pobres sentem-se bem
Com mais pão luxo a menos!

A esmola não cura a chaga;
Mas quem a dá não percebe
Ou ela avilta, que ela esmaga
O infeliz que a recebe.

A ninguém faltava o pão,
Se este dever se cumprisse:
- Ganharmos em relação
Com o que se produzisse.

O homem sonha acordado;
Sonhando a vida percorre…
E desse sonho dourado
Só acorda, quando morre!

Quantas, quantas infelizes
Deixam de ser virtuosas…
E depois são seus juízes
Os que as fazem criminosas!...

Sem que o discurso eu pedisse,
Ele falou; e eu escutei.
Gostei do que ele não disse;
Do que disse não gostei.

Tu, que tanto prometeste
Enquanto nada podias,
Hoje que podes – esqueceste
Tudo quanto prometias…

Chegasses onde pudesses;
Mas nunca devias rir
Nem fingir que não conheces
Quem te ajudou a subir!

Os que bons conselhos dão
Às vezes fazem-me rir,
- Por ver que eles próprios são
Incapazes de os seguir.

Mesmo que te julguem mouco
Esses que são teus iguais,
Ouve muito e fala pouco:
Nunca darás troco a mais!

Entra sempre com doçura
A mentira, pr’a agradar;
A verdade entra mais dura,
Porque não quer enganar.

Se te censuram, estás bem,
P’ra que a sorte te perdure;
Mal de ti quando ninguém
Te inveje nem te censure!

António Aleixo

Fonte: http://www.fundacao-antonio-aleixo.pt



- Postado por: Rodrigo às 20h19
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Ramakrishna: 18 de Fevereiro de 1836 - 16 de Agosto de 1886

Assim como um espelho sujo não consegue refletir os raios do Sol, assim também o coração impuro, enredado por maya, nunca enxerga a verdadeira glória de Deus. O coração puro, porém, vê Deus da mesma forma que um espelho limpo reflete o Sol.

Ramakrishna

In: Sayings of Sri Ramakrishna
Ramakrishna Math (2004)
p. 649



- Postado por: Rodrigo às 20h12
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Fagundes Varela: 17 de agosto de 1841 — 18 de fevereiro de 1875

Armas

Qual a mais forte das armas,
A mais firme, a mais certeira?
A lança, a espada, a clavina,
Ou a funda aventureira?
A pistola? O bacamarte?
A espingarda, ou a flecha?
O canhão que em praça forte
Faz em dez minutos brecha?
-Qual a mais firme das armas?-
O terçado, a fisga, o chuço,
O dardo, a maça, o virote?
A faca, o florete, o laço,
O punhal, ou o chifarote?...
A mais tremenda das armas,
Pior que a durindana,
Atendei, meus bons amigos:
Se apelida: - a língua humana!-

Fagundes Varela

In: Clássicos Da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 125-126



- Postado por: Rodrigo às 20h08
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Roberto C. Simonsen: 18 de fevereiro de 1889 — 25 de maio de 1948

“O poeta não tem, como o homem de ciência, o oficio de pensar o mundo, mas o de repensá-lo, em moldes de um lirismo ideal e sonhador. O cientista é mais humilde e objetivo. Aceita a estrutura das coisas e procura conhecê-las para torná-las mais accessíveis ao pragmatismo das formas de convivência social. A missão de um é repensar criticamente uma realidade, cujo sentido derradeiro a linguagem e a sintaxe comuns são incapazes de traduzir. O outro, o cientista, habituado às flutuações de todas as relatividades, contenta-se com isolar determinados fragmentos dessa realidade cambiante e esquiva, para que possa o homem, compreendendo-os, extrair deles elementos que lhe tornem menos áspera a vida e menos opressivo o seu sentimento de desamparo no mundo.

Um e outro, porém, prisioneiros da vida, aspiram ao conhecimento puro. Um e outro indagarão dos seus mistérios e do sentido da história. As respostas que oferecem diferem qualitativamente, mas não em sua substância. O poeta dirá de seu universo povoado de criações metafísicas, onde o homem se pode perder, porque a luz de sua razão lógica é pequena demais para devassar as sombras absorventes do cosmos. O cientista aludirá também à fragilidade do destino humano, às suas perplexidades diante de tantos problemas que lhe excitam a inteligência. Mas a sua mensagem será tocada daquela ânsia de conhecer, que não abandona o homem. O Homem, que, no conceito do filósofo, sabe ser a vida uma litania de memento mori, mas sente também, para que haja vida, a necessidade de enfrentar os impassíveis desafios do destino”

Roberto Simonsen

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 20h03
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Múcio C. Leão: 17 de fevereiro de 1898 — 12 de agosto de 1969

Elegia

Um dia, amor, tudo o que existe agora,
Tudo o que forma o nosso grande orgulho,
A pureza e o esplendor de nossas almas,
Terá morrido, sem deixar lembrança,
Na velha terra indiferente aos homens.

Nada do que hoje nos parece eterno
Terá ficado do naufrágio imenso.

Esquecidas de nós, as novas almas
Levantarão para as estrelas mudas
O milagre feliz dos novos sonhos,
Sem talvez meditar que a terra outrora
Vira prodígios e deslumbramentos
Semelhantes aos seus, sob um céu puro.

Uma névoa de pó terá coberto
As cidades vaidosas, onde os homens
Hoje, lutando, desvairados, sofrem.
E apenas raros monumentos tristes.

Lembrarão, no candor da branca pedra,
A fronte sacratíssima de um sábio,
De um herói, de um guerreiro, de um poeta,
Que a glória cinja com a divina palma.

Novos deuses, em templos majestosos,
Receberão, no plácido silêncio,
O murmúrio das preces comovidas,
O perfumado fumo das oblatas
E o amor das multidões...
Ah! nesse tempo
Eu terei recebido dos destinos
O bem do esquecimento imperturbável...
Deste homem que hoje sou - das minhas crenças,
Dos meus sonhos de amor, dos meus desejos,
Das minhas ambições mais rutilantes -
Nada mais restará, nada, na terra!

Mas, quem sabe? Talvez, um dia, um homem,
Amigo das pesquisas minuciosas,
Visite longamente as bibliotecas,
Onde durmam os livros seculares,
Que as traças lentas vão destruindo a custo.
E esse homem, cheio de um amor antigo,
Curioso do viver das eras mortas,
Talvez encontre, entre outros livros velhos,
Estes versos que escrevo, e em que minha alma
Fala à tua alma em longas confidências.

E então, meu lindo amor, como evadidos
De um sepulcro, nós dois ressurgiremos
Aos olhos caridosos desse amigo,
Vindos das densas sombras do passado.

Talvez...
Seremos belos!
Nossa fronte,
Há de doirá-la a mesma juventude,
Que hoje nos cerca de um clarão sagrado!
Haverá nos teus lábios esse mesmo
Beijo vibrante que me trazes hoje!
E nos olhos terás o mesmo encanto
Que neles me seduz e prende agora!

Sim: no milagre desse instante ardente,
Nessa ressurreição maravilhosa,
Nós brilharemos juntos, aureolados
De um novo amor e de um carinho novo!

E então esse paciente amigo nosso
Volverá para nós, nos dias de hoje,
Toda a sua saudade religiosa,
E invejará, talvez, piedosamente,
Essa breve, ligeira hora de sonho,
Que hoje os destinos deixam que vivamos...

Múcio Leão

In: Poesias, 1949



- Postado por: Rodrigo às 20h19
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Pixinguinha: 23 de abril de 1897 — 17 de Fevereiro de 1973

Carinhoso

Meu coração, não sei por que
Bate feliz quando te vê
E os meus olhos ficam sorrindo
E pelas ruas vão te seguindo
Mas mesmo assim
Foges de mim

Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Ah se tu soubesses como sou tão carinhoso
E o muito, muito que te quero
E como é sincero o meu amor
Eu sei que tu não fugirias mais de mim

Vem, vem, vem, vem
Vem sentir o calor dos lábios meus a procura dos teus
Vem matar essa paixão que me devora o coração
E só assim então serei feliz
Bem feliz

Composição: Pixinguinha / João de Barro

 Ouça esta música por M. Monte e Paulinho da Viola:
http://www.youtube.com/watch?v=8IhqXDQkWpQ



- Postado por: Rodrigo às 20h13
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C. J. Heinrich Heine: 13 de dezembro de 1797 - 17 de fevereiro de 1856

Der Doppelgänger: “O Duplo”

A noite é calma, a rua dorme,
Esteve na casa minha amada a habitar;
Ela deixou a cidade há tempo enorme,
A casa, porém, permanece em seu lugar.

Há também um homem, que mira o firmamento
E retorce as mãos, presa da amargura.
Contemplar sua face causa-me tormento,
A lua me desvela minha própria figura.

Tu, meu duplo! tu, pálido amigo!
Por que zombas da minha dor de amar,
Que me torturou neste lugar
Por tantas noites, em tempo ido?

Heinrich Heine

Tradução: Priscila M. Lerner e Carlos Eduardo Ortolan



- Postado por: Rodrigo às 20h08
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Molière: 15 de Janeiro de 1622 - 17 de Fevereiro de 1673

"A sociedade atual me irrita e me revolta!
O vício aí floresce, a luxúria anda à solta;
E nessa corrupção dos homens e da vida,
Toda a população já se encontra envolvida.

Em vez de se instruir, nesta época de agora,
O rigor que compunha a honestidade outrora,
A juventude está tão doida e libertina..."

MOLIÈRE

In: Escola de mulheres - Escola de maridos.
Tradução: SEGALL, J. K.
Coleção Universidade de bolso.
Ed. Tecnoprint



- Postado por: Rodrigo às 20h02
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Pra que mentir?

Pra que mentir
tu ainda não tens
Esse dom de saber iludir?
Pra que? Pra que mentir,
Se não há necessidade
De me trair?
Pra que mentir
Se tu ainda não tens
A malícia de toda mulher?
Pra que mentir, se eu sei
Que gostas de outro
Que te diz que não te quer?
Pra que mentir tanto assim
Se tu sabes que eu sei
Que tu não gostas de mim?
Se tu sabes que eu te quero
Apesar de ser traído
Pelo teu ódio sincero
Ou por teu amor fingido?

Vadico e Noel Rosa, 1934

 Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=fSR8asuhf0Y



- Postado por: Rodrigo às 20h01
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Quando Tornar a Vir a Primavera

Quando tornar a vir a Primavera
Talvez já não me encontre no mundo.
Gostava agora de poder julgar que a Primavera é gente
Para poder supor que ela choraria,
Vendo que perdera o seu único amigo.
Mas a Primavera nem sequer é uma cousa:
É uma maneira de dizer.
Nem mesmo as flores tornam, ou as folhas verdes.
Há novas flores, novas folhas verdes.
Há outros dias suaves.
Nada torna, nada se repete, porque tudo é real. 
 

Alberto Caeiro



- Postado por: Rodrigo às 19h53
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Circuito Fechado

Chinelos, vaso, descarga, pia, sabonete, água, escova, creme dental, espuma, creme de barbear, pincel, espuma, gilete, água, cortina, sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo; pente. Cueca, camisa, abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio, maços de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapos. Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis, canetas, blocos de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro, fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques, memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos, cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetos de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz, papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel, cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro, fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras, pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras, cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona. Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.

Ricardo Ramos



- Postado por: Rodrigo às 19h47
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Octave Mirbeau: 16 de Fevereiro de 1848 – 16 de Fevereiro de 1917

"Não odeio ninguém, nem mesmo o maldoso. Tenha pena dele, porque nunca conhecerá o único gozo que consola a vida: fazer o bem."

Octave Mirbeau

In: Lettres de ma chaumière (1885)
ed. Laurent,
p. 5



- Postado por: Rodrigo às 19h44
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Arte de amar

Se queres sentir a felicidade de amar, esquece a tua alma.
A alma é que estraga o amor.
Só em Deus ela pode encontrar satisfação.
Não noutra alma.
Só em Deus — ou fora do mundo.
As almas são incomunicáveis.

Deixa o teu corpo entender-se com outro corpo.

Porque os corpos se entendem, mas as almas não.

Manuel Bandeira



- Postado por: Rodrigo às 00h54
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Waldemar Henrique: 15 de Fevereiro de 1905 — 29 de Março de 1995

Minha Terra

Esse Brasil tão grande, amado
é meu país idolatrado
terra de amor e promissão
toda verde, toda nossa
de carinho e coração
Na noite quente, enluarada
o sertanejo está sozinho
e vai cantar pra namorada
no lamento do seu pinho
E o sol que nasce atrás da serra
a tarde inteira rumoreja
cantando a paz da minha terra
na toada sertaneja
Este sol, este luar
estes rios e cachoeiras
estas flores, este mar
este mundo de palmeiras
Tudo isto é teu, ó meu Brasil
Deus foi quem te deu
Ele por certo é brasileiro
brasileiro como eu.

(1923)

* * *

"Música... minha predileção, meu achado, minha fantasia, meu rumo. Sempre fui guiado pelos sons: o apito de um navio, o badalar de um sino, o toque de um tambor, a ressonância de uma voz humana. Fosse pingo d'água ou assobio, cigarra ou trovão, inverno ou primavera, outono ou verão. Mãos acenando, chegando ou partindo, abraços e beijos, sorrisos e lágrimas."

Waldemar Henrique da Costa Pereira

In: Enciclopédia da Música Brasileira
Editora Publifolha, 1999



- Postado por: Rodrigo às 00h45
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Poema que aconteceu

Nenhum desejo neste domingo
nenhum problema nesta vida
o mundo parou de repente
os homens ficaram calados
domingo sem fim nem começo.

A mão que escreve este poema
não sabe o que está escrevendo
mas é possível

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 00h41
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Ilusão

sonho é nada, é ilusão
ele acaba
e o que fica: decepção
o gosto amargo
nojento
da derrota

o sonho é falso, mentiroso
monstruoso
ele só alimenta a espera...
só a dor é sincera!

(11/02/2009)

Cesar Veneziani



- Postado por: Rodrigo às 00h36
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O Yin e o Yang, embora representem dois contrários, jamais se opõem de modo absoluto, pois entre eles sempre há um período de mutação que permite uma continuidade; tudo, homem, tempo, espaço, (bem, mal) ora é yin, ora é yang; tudo tem a ver com os dois simultameamente, por seu próprio futuro e seu dinamismo, com a sua dupla possibilidade de evolução e involução.

In: Dicionário de símbolos
Chevalier, J & Gheerbrant, A.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1990



- Postado por: Rodrigo às 17h10
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Cobra

Sou cheia de razão quando minto
Não creia ser eu quem pensas que sou
Acredito na alegria que não sinto
Odeio o amor que alguém te causou

Estou por trás do teu grande medo
Quando a vida não tem explicação
Te seduzo à tentação de um desejo
Para gozar na tua insatisfação

Mas se quiseres tuas contas acertar
Pra ficar livre de minha maldade
Cobra de mim o que me tens a pagar
E eu te darei o fim da eternidade

Mas se meu poderoso veneno
For antídoto pra felicidade
Com os deuses eu te condeno
A morrer preso a tua falsa liberdade

Não me cobre ser existente
Cobra de mim que sou serpente

Rita Lee / Roberto de Carvalho



- Postado por: Rodrigo às 00h47
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MÁSCARA

Passa o tempo da face
E o prazer de mostrá-la.
Vem o tempo do só,
A rua do desgosto,
O trilho interminável
Numa estrada sem casas.
O final do espetáculo,
A sala abandonada,
O palco desmantelado.

Do que foi uma face
Resta apenas a máscara,
O retrato, a verônica,
O fantasma do espelho,
O espantalho barbeado,
A face deslavada,
Mais sulcada, mais suja,
De beijada, cuspida,
Amarrotada
Como um jornal velho.
Máscara desbotada
De carnavais passados.
Esta é a nossa cara
Escaveirada.

Até que a terra
Com sua garra
Nos rasgue a máscara.

Dante Milano



- Postado por: Rodrigo às 00h27
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O Dia Da Criação

Macho e fêmea os criou.
Gênese, 1, 27

I

Hoje é sábado, amanhã é domingo
A vida vem em ondas, como o mar
Os bondes andam em cima dos trilhos
E Nosso Senhor Jesus Cristo morreu na cruz para nos salvar.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Não há nada como o tempo para passar
Foi muita bondade de Nosso Senhor Jesus Cristo
Mas por via das dúvidas livrai-nos meu Deus de todo mal.

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.

Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.

Vinicius de Moraes

In: Vinicius - Antologia Poética
R.J.: Ed. José Olympio - 22a. Edição, 1983
p. 121



- Postado por: Rodrigo às 00h19
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Max Martins: 20 de junho de 1926 - 9 de fevereiro de 2009

Poema

Ocorre-me o poema.
Contudo há a religião,
A pátria, o calor.

Procuro ver na noite profunda
Quero esquecer no momento
Que sou o homem de vários documentos.
Forço.
Dói-me o calo desta vida "meu Deus!"...

Lavo as mãos.
Mas tenho de pôr a gravata,
E salvo a moral. Abano-me.

Rola o poema e o mundo.
E eu mudo.

Max Martins

In: O Estranho (Belém, 1952)



- Postado por: Rodrigo às 23h08
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"Como ciumento, sofro quatro vezes: porque sou ciumento, porque me reprovo em sê-lo, porque temo que meu ciúme machuque o outro, porque me deixo dominar por uma banalidade: sofro por ser excluído, por ser agressivo, por ser louco e por ser comum." (In: Fragmentos de um discurso amoroso)

Roland Barthes

In: Ciúmes - O medo da perda
Livro de Eduardo Ferreira-Santos
Ed. Claridade, São Paulo, 2003



- Postado por: Rodrigo às 21h21
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Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 19h02
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Lição de um Gato Siamês

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração
finita
da minha precariedade

O tempo fora
de mim
é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque afetivo
-dura eternamente
enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Ferreira Gullar



- Postado por: Rodrigo às 18h52
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Agostinho da Silva: 13 de Fevereiro de 1906 — 3 de Abril de 1994

 

“(...) Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não são seus. Se o criador o tivesse querido juntar muito a mim não teríamos talvez dois corpos distintos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição, venha a pensar o mesmo que eu; mas, nessa altura. já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem”

Agostinho da Silva

In: Sete cartas a um jovem filósofo (1945)
Ed. Ulmeiro, 1995



- Postado por: Rodrigo às 18h48
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Charles Darwin: 200 anos (12 de Fevereiro de 1809 — 19 de Abril de 1882)

“Desde meu retorno, estou envolvido em um trabalho muito atrevido, sobre o qual não conheço ninguém que não diria se tratar de uma bobagem. Estou quase convencido (bem ao contrário da minha opinião original) que as espécies não são imutáveis... Creio ter achado o meio pelo qual espécies se tornam especialmente adaptadas a diversos fins.”

* * *

“Quando eu estava a bordo do H. M. S. Beagle, como naturalista fiquei muito impressionado com certos fatos na distribuição dos habitantes da América do Sul... Esses fatos, me parecia, poderiam lançar alguma luz sobre a origem das espécies – aquele mistério dos mistérios.”

* * *

“Deleite é um termo fraco para expressar a sensação de um naturalista que pela primeira vez vagueia em uma floresta brasileira.(...) Sentado numa árvore e comendo meu almoço na sublime solidão da floresta, o prazer que experimento é indizível... Se o olhar tenta seguir o voo de uma espalhafatosa borboleta, ele é detido por estranha árvore ou fruta... A mente é um caos do deleite.”

* * *

"A viagem do Beagle foi sem dúvida o acontecimento mais importante de minha vida e determinou toda a minha carreira. (...) Nessa viagem tive a primeira formação ou educação verdadeira de minha mente. (...) As glórias das vegetações dos trópicos erguem-se hoje em minha lembrança de maneira mais vívida do que qualquer outra coisa."

Charles Darwin

In: Revista Época, No. 560 - Fevereiro de 2009



- Postado por: Rodrigo às 18h11
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Julio Florencio Cortázar: 26 de agosto de 1914 - 12 de fevereiro de 1984

“… A idéia é que a realidade, seja da Santa Sé, a de René Char ou a de Oppenheimer é, sempre uma realidade convencional, incompleta e dividida. A admiração de alguns caras diante de um microscópio eletrônico não me parece mais fecunda que a admiração das porteiras pelos milagres de Lourdes. Acreditar naquilo que chamam de matéria e acreditar naquilo que chamam espírito, viver em Emmanuel ou seguir cursos de Zen, ver o destino humano como um problema econômico ou como um puro absurdo, a lista é longa, a escolha múltipla…”

Julio Cortázar

In: O Jogo da Amarelinha
Tradução de Fernando de Castro Ferro



- Postado por: Rodrigo às 18h06
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Lou Andreas-Salomé: 12 de fevereiro de 1861 – 5 de fevereiro de 1937

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro." (Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987)

Lou Andreas-Salomé



- Postado por: Rodrigo às 18h00
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HOJE EU ESTOU MEIO ROMÂNTICO

Foi numa grande festa na pequena cidade que o fato se deu.

O grande homem, olhando para a pequena mulher, pensou:
- Que pequena.

A pequena mulher, sentindo os grandes fluidos em sua cabeça, pensou:
- Grande.

Pequenas piscadas, grandes sorrisos, uma só cumplicidade. E foi assim que eles foram. Ele pegou nas pequenas mãos da mulher com sua grande mão. Com os seus grandes olhos, procurou os pequenos dela, grande ternura, pequena timidez.

Com o grande dedo da grande mão direita passou, levemente, uma pequena alegria para os pequenos lábios do pequeno sorriso.

Ele sorriu, mostrando dois grandes dentes e deu um grande beliscão no pequeno nariz que ficou vermelho como o pequeno coração que disparou dentro do seu pequeno corpo.

Com o seu grande coração conquistou o pequeno sim e fizeram grandes planos e pequenas despesas.

Um pequeno período de noivado e pensaram na grande festa do grande dia.

Num pequeno hotel da pequena cidade, numa grande cama, o pequeno corpo esticou-se atravessado e foi recolhido num grande abraço.       

Grandes horas, pequenos segundos, grandes prazeres, pequenos gemidos, pequenas lágrimas, um grande suor, pequenos ais, grandes beijos, pequenos dentes, grandes mordidas, grande língua, seios pequenos contidos por um grande peito.

Pequenos saltos, grandes suspiros.

Um grande amor.

Depois de grandes dias e pequenas brigas, vieram as pequenas diferenças.

Grandes anos, pequenos segundos, pequenos filhos, grandes festas, pequenas viagens, pequenos passeios, grandes almoços, pequenos pileques, grandes barrigas, pequenos partos, grandes fadigas, pequenas férias, grandes trabalhos, pequenos salários, grandes dores de cabeça, pequenos comprimidos, grandes ansiedades, pequenas alegrias, grandes insônias, pequenas noites, grandes desilusões, pequenos senões, grandes tempos, pequenos tempos.

Grandes brigas, pequenos nãos.

Passou um grande tempo, apenas um pequeno amor sustentava a grande casa já repleta de filhos pequenos e grandes.

Sentaram-se na grande poltrona da pequena sala para resolver o grande problema: o grande amor ficara pequeno.

A sua grandeza foi diminuindo e as pequenas razões da mulher foram ficando grandes.

Foi quando ela percebeu que era uma grande mulher.

E ele, ficando cada vez mais pequeno, também.

Ela pegou uma pequena faca e enfiou na pequena barriga dele.

Saiu uma grande quantidade de sangue e o pequeno corpo ficou ali, esticado, no grande tapete atravessado, recebendo pequenos olhares.

Vieram os filhos pequenos e grandes e deram grandes gritos.

Para a Polícia ela deu apenas pequenas explicações e conseguiu uma grande pena: dos pequenos e grandes filhos e da Justiça.

Anos mais tarde, teve uma pequena morte numa pequena sala de uma grande penitenciária e o jornal deu apenas uma pequena nota de um amor que um dia foi tão grande.

MÁRIO PRATA

In: O Estado de S. Paulo, 30/08/1995



- Postado por: Rodrigo às 17h13
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“Toco a sua boca, com um dedo toco o contorno da sua boca, vou desenhando essa boca como se estivesse saindo da minha mão, como se pela primeira vez a sua boca se entreabrisse, e basta-me fechar os olhos para desfazer tudo e recomeçar. Faço nascer, de cada vez, a boca que desejo, a boca que a minha mão escolheu e desenha no seu rosto, e que por um acaso que não procuro compreender coincide exatamente com a sua boca, que sorri debaixo daquela que a minha mão desenha em você.

Você me olha, de perto me olha, cada vez mais de perto, e então brincamos de cíclope, olhamo-nos cada vez mais de perto e nossos olhos se tornam maiores, se aproximam uns dos outros, sobrepõem-se, e os cíclopes se olham, respirando confundidos, as bocas encontram-se e lutam debilmente, mordendo-se com os lábios, apoiando ligeiramente a língua nos dentes, brincando nas suas cavernas, onde um ar pesado vai e vem com um perfume antigo e um grande silêncio. Então, as minhas mãos procuram afogar-se no seu cabelo, acariciar lentamente a profundidade do seu cabelo, enquanto nos beijamos como se tivéssemos a boca cheia de flores ou de peixes, de movimentos vivos, de fragrância obscura. E se nos mordemos, a dor é doce; e se nos afogamos num breve e terrível absorver simultâneo de fôlego, essa instantânea morte é bela. E já existe uma só saliva e um só sabor de fruta madura, e eu sinto você tremular contra mim, como uma lua na água.”

Júlio Cortázar

In: O Jogo da Amarelinha - Capítulo 7
Tradução de Fernando de Castro Ferro



- Postado por: Rodrigo às 17h09
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Sidney Sheldon: 11 de Fevereiro de 1917 — 30 de Janeiro de 2007

"Não havia ponte entre os mundos que os separavam. Haviam viajado para longe demais um do outro e não havia retorno. Não havia agora, nunca haveria”

Sidney Sheldon

In: A Ira dos Anjos (1980)



- Postado por: Rodrigo às 17h01
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Bertolt Brecht: 10 de Fevereiro de 1898 — 14 de Agosto de 1956

"Glaube nur" (Só acredite)

Só acredite no que os teus olhos veem e os teus ouvidos escutam.

Não acredites nem no que os teus olhos veem e os teus ouvidos escutam.

E fica sabendo que não acreditar, afinal, também é acreditar.

Bertold Brecht

In: Gesammelte Gedichte, 1976,
ed. Suhrkamp, Frankfurt/Main
p. 373



- Postado por: Rodrigo às 22h11
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Bertolt Brecht: 10 de Fevereiro de 1898 — 14 de Agosto de 1956

Nada É Impossível De Mudar

Desconfiai do mais trivial, na aparência singelo.
E examinai, sobretudo, o que parece habitual.
Suplicamos expressamente: não aceiteis o que é de hábito como coisa natural, pois em tempo de desordem sangrenta, de confusão organizada, de arbitrariedade consciente, de humanidade desumanizada, nada deve parecer natural nada deve parecer impossível de mudar.

Bertold Brecht



- Postado por: Rodrigo às 18h27
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Bertolt Brecht: 10 de Fevereiro de 1898 — 14 de Agosto de 1956

Canção da saída

Se não tens o que comer
como pretendes defender-te
é preciso transformar
todo o estado
até que tenhas o que comer
e então serás teu próprio convidado.

Quando não houver trabalho para ti
como terás de defender-te
é preciso transformar
todo o estado
até que sejas teu próprio empregador.
e então haverá trabalho para ti

se riem de tua fraqueza
como pretendes defender-te?
deves unir-te aos fracos.
e marcharem todos unidos.
então será uma grande força
e ninguém rirá.

Bertolt Brecht



- Postado por: Rodrigo às 18h24
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Boris Pasternak: 10 de fevereiro de 1890 - 31 de maio de 1960

Definição de poesia

Um risco maduro de assobio.
O trincar do gelo comprimido.
A noite, a folha sob o granizo.
Rouxinóis num dueto-desafio.

Um doce ervilhal abandonado
A dor do universo numa fava.
Fígaro: das estantes e flautas —
Geada no canteiro, tombado.

Tudo o que para a noite releva
Nas funduras da casa de banho,
Trazer para o jardim uma estrela
Nas palmas úmidas, tiritando.

Mormaço: como pranchas na água,
Mais raso. Céu de bétulas, turvo.
Se dirá que as estrelas gargalham,
E no entanto o universo está surdo.

BORIS PASTERNAK

Trad. de Haroldo de Campos.



- Postado por: Rodrigo às 18h21
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A crise que hoje atravessamos é de dimensão planetária. A palavra “crise” vem do grego Krinein: decidir, discernir. Por isso, nos encontramos diante de indagações de fundo: quem é o ser humano e qual o seu lugar no todo? Como tecer novamente os fios que religam polis e cosmos? A responsabilidade que se põe para cada ser humano hoje é de transformação profunda de nossa relação com o planeta terra. Para que esta transformação ocorra é preciso reencontrar capacidade humana de maravilhar-se, de encantar-se, de vivenciar a presença do extraordinário no ordinário.

Nancy M. Unger

In: O encantamento do humano.
Ed. Loyola, 2a. edição, 2000



- Postado por: Rodrigo às 19h39
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Natsume Soseki: 9 de fevereiro de 1867 - 9 de dezembro de 1916

"A solidão é o preço que temos de pagar por termos nascido neste período moderno, tão cheio de liberdade, de independência e do nosso próprio egoísmo".

*  *  *

(...) “Tentei imaginar uma grande paixão do professor (pela esposa, sem dúvida). Relembrando o que ele afirmara, de que a paixão era delito, isso parecia ter sentido. Mas o professor disse que amava a sua esposa. Então não havia por que sentir essa indisposição, um distanciamento perante a sociedade. As palavras dele, “A lembrança de ter se ajoelhado algum dia diante de alguém faz com que se queira mais tarde pôr os pés na cabeça desse alguém”, cabiam às pessoas da sociedade em geral e não pareciam caber para descrever a relação entre os dois.”

Natsume Soseki

In: Coração - “Kokoro”
Tradução de Junko Ota
Editora Globo, 2008



- Postado por: Rodrigo às 19h33
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Fiódor Dostoiévski: 11 de Novembro de 1821 — 9 de Fevereiro de 1881

“não temam o pecado, amem o homem mesmo no pecado, é isso a imagem do amor divino, um amor como não há maior na terra. Amem toda a criação no seu conjunto e nos seus elementos, cada folha, cada raio de luz, os animais, as plantas. Amando cada coisa, compreenderão o mistério divino nas coisas. Tendo-o compreendido uma vez, vocês o conhecerão sempre mais, a cada dia. E acabarão por amar o mundo inteiro com um amor universal... o amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar de fato, não por um instante, mas até o fim. Qualquer um, até mesmo um celerado, é capaz de um amor fortuito.”

Fiódor Dostoiévski

In: Os Irmãos Karamazóv
Ed. Ediouro
p. 320-321



- Postado por: Rodrigo às 19h26
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“Só quem pudesse amá-la seria capaz de transformar quietude em ressonância, e a sua força em motivos. E, com o passar dos anos de desesperança e falta de repercussão, ela se foi dando conta da improbabilidade de realizar-se, lograda na sua inútil espera. Então foi ficando cada vez mais esquiva e solitária, cada vez menos afeita a fazer-se amar.”

Elisa Lispector

In: O Muro de Pedras
Rio de Janeiro: José Olympio, 1963
p. 133



- Postado por: Rodrigo às 00h27
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A RITA

A Rita levou meu sorriso
No sorriso dela
Meu assunto
Levou junto com ela
E o que me é de direito
Arrancou-me do peito
E tem mais
Levou seu retrato, seu trapo, seu prato
Que papel!
Uma imagem de São Francisco
E um bom disco de Noel

A Rita matou nosso amor
De vingança
Nem herança deixou
Não levou um tostão
Porque não tinha não
Mas causou perdas e danos
Levou os meus planos
Meu pobres enganos
Os meus vinte anos
O meu coração
E além de tudo
Me deixou mudo
Um violão

Composição: Chico Buarque de Hollanda

 Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=RSGDIAuwX0c



- Postado por: Rodrigo às 00h13
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Jules Verne (Júlio Verne): 8 de Fevereiro de 1828 — 24 de Março de 1905

(...) "A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.

Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto:

- O capitão ama o mar - falei-lhe.

- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas. Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas. Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!"

Júlio Verne

In: Vinte mil léguas submarinas (1870)



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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O Ciúme

Talvez... quem sabe?
E sofro. E, abatida e descrente
entrando em tua alma pelo teu olhar
Começo a procurar desesperadamente
Uma coisa qualquer que não quero encontrar.

Guilherme de Almeida



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Sebastião da Gama: 10 de Abril de 1924 - 7 de Fevereiro de 1952

 

Pequeno Poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.

 

Sebastião da Gama



- Postado por: Rodrigo às 09h33
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Tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

João Cabral de Melo Neto

In: Poesias Completas.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1979

(Arte: Cock A Doodle Dude - Catherine G McElroy)



- Postado por: Rodrigo às 00h42
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- Sabe escrever memórias Emília? repetiu o Visconde ironicamente. (...)

- Perfeitamente, Visconde! Isso é o importante. Fazer coisas com a mão dos outros, ganhar dinheiro com o trabalho dos outros, pegar nome e fama com a cabeça dos outros: isso que é saber fazer as coisas. Ganhar dinheiro com o trabalho da gente, ganhar nome e fama com a cabeça da gente, é não saber fazer as coisas. Olhe, Visconde, eu estou no mundo dos homens há pouco tempo, mas já aprendi a viver. Aprendi o grande segredo da vida dos homens na terra: a esperteza! Ser esperto é tudo. O mundo é dos espertos. Se eu tivesse um filhinho, dava-lhe um só conselho: “Seja esperto, meu filho!”

- E como lhe explicar o que é ser esperto? Indagou o Visconde.

- Muito simplesmente, respondeu a boneca. Citando o meu exemplo e o seu, Visconde. Quem é que fez a  “Aritmética”? Você. Quem ganhou nome e fama? Eu. Quem que está escrevendo as Memórias? Você. Quem vai ganhar nome e fama? Eu...

O Visconde achou que aquilo estava certo mas era um grande desaforo.

Monteiro Lobato

In: Memórias da Emília (1936)



- Postado por: Rodrigo às 00h28
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Charles Dickens: 7 de Fevereiro de 1812 — 9 de Junho de 1870

"A verdadeira diferença entre a construção e a criação é esta: uma coisa construída só pode ser amada depois de construída, mas uma coisa criada ama-se mesmo antes de existir."

Charles Dickens



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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Declaração de Amor

Tentei dizer quanto te amava, aquela vez, baixinho
mas havia um grande berreiro, um enorme
burburinho e, pensado bem, o berçário não era o
melhor lugar. Você de fraldas, uma graça, e eu
pelado lado a lado, cada um recém-chegado você em
saber ouvir, eu sem saber falar. Tentei de novo,
lembro bem, na escola. Um PS no bilhete pedindo
cola interceptado pela professora como um gavião.
Fui parar na sala da diretora e depois na rua
enquanto você, compreensivelmente, ficou na sua. A
vida é curta, longa é a paixão.

Numa festinha, ah, nossas festinhas, disse tudo:"Eu
te adoro, te venero, na tua frente fico mudo". E você
não disse nada. E você não disse nada. Só mais
tarde, de ressaca, atinei. Cheio de amor e Cuba, me
enganei e disse tudo para uma almofada. Gravei, em
vinte árvores, quarenta corações. O teu nome, o
meu, flechas e palpitações: No mal-me-quer, bem-me-
quer, dizimei jardins. Resultado: sou persona
pouco grata corrido a gritos de"Mata! Mata!" por
conservacionistas, ecólogos e afins. Recorri, em
desespero, ao gesto obsoleto:"Se não me segurarem
faço um soneto"E não é que fiz, e até com boas
rimas? Você não leu, e nem sequer ficou sabendo.
Continuo inédito e por teu amor sofrendo. Mas fui
premiado num concurso em Minas.

Comecei a escrever com pincel e piche num muro
branco, o asseio que se lixe, todo o meu amor para a
tua ciência. Fui preso, aos socos, e fichado. Dias e
mais dias interrogado: era PC, PC do B ou alguma
dissidência? Te escrevi com lágrimas , sangue, suor e
mel (você devia ver o estado do papel) uma carta
longa, linda e passional. De resposta nem uma
carinha, nem um cartão, nem uma linha! Vá se
confiar no Correio Nacional. Com uma serenata, sim,
uma serenata como nos tempos da Cabocla Ingrata
me declararia, respeitando a métrica. Ardor, tenor, a
calçada enluarada...havia tudo sob a tua sacada
menos tomada pra guitarra elétrica. Decidi, então,
botar a maior banca no céu escrever com fumaça
branca: "Te amo, assinado.." e meu nome bem
legível. Já tinha avião, coragem, brevê, tudo para
impressionar você mas veio a crise, faltou o
combustível.

Ontem você me emprestou seu ouvido e na
discoteca, em meio do alarido, despejei meu coração.
Falei da devoção há anos entalada e você disse "Não
escuto banda". Disse "eu não escuto nada".

Curta é a vida, longa é a paixão.

Na velhice, num asilo, lado a lado em meio a um
silêncio abençoado direi o que sinto, meu bem. O
meu único medo é que então empinando a orelha
com a mão você me responda só: "Hein?"

LUIS FERNANDO VERÍSSIMO

In: Poesia numa hora dessas?!
Rio de Janeiro: Objetiva, 2002.



- Postado por: Rodrigo às 19h14
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Amado

Como pode ser gostar de alguém
E esse tal alguém não ser seu
Fico desejando nós gastando o mar
Pôr do Sol, postal, mais ninguém

Peço tanto a Deus
Para esquecer
Mas só de pedir me lembro
Minha linda flor
Meu jasmim será
Meus melhores beijos serão seus

Sinto que você é ligado a mim
Sempre que estou indo, volto atrás
Estou entregue a ponto de estar sempre só
Esperando um sim ou nunca mais

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer

Sinto absoluto o dom de existir, não há solidão, nem pena
Nessa doação, milagres do amor
Sinto uma extensão divina

É tanta graça lá fora passa
O tempo sem você
Mas pode sim
Ser sim amado e tudo acontecer
Quero dançar com você
Dançar com você
Quero dançar com você
Dançar com você

Composição: Vanessa da Mata

 Ouça esta música aqui:
http://br.youtube.com/watch?v=Ey3W7311Z3g 



- Postado por: Rodrigo às 19h08
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Pe. Antônio Vieira: 6 de fevereiro de 1608 — 18 de Julho de 1697

"Ora vede: Definindo S. Bernardo o amor fino, diz assim: Amor non quaerit causam, nec fructum: “O amor fino não busca causa nem fruto”. Se amo, porque me amam, tem o amor causa; se amo, para que me amem, tem fruto: o amor fino não há de ter por quê nem para quê. Se amo por que me amam, é obrigação, faço o que devo; se amo para que me amem, é negociação, busco o que desejo. Pois como há de amar o amor para ser fino? Amo, quia amo, como ut amem: amo, porque amo, e amo para amar. Quem ama porque o amam, é agradecido; quem ama, para que o amem, é interesseiro; quem ama, não porque o amam, nem para que o amem, esse só é fino."

* * *

(...) no Mundo e entre os homens, isto que vulgarmente se chama amor, não é amor, é ignorância. Pintaram os Antigos ao amor menino; e a razão, dizia eu o ano passado, que era porque nenhum amor dura tanto que chegue a ser velho. Mas esta interpretação tem contra si o exemplo de Jacob com Raquel, o de Jonatas com David, e outros grandes, ainda que poucos. Pois se há também amor que dure muitos anos, porque no-lo pintam os sábios sempre menino? Desta vez cuido que hei-de acertar a causa. Pinta-se o amor sempre menino, porque ainda que passe dos sete anos, como o de Jacob, nunca chega à idade de uso da razão. Usar de razão e amar, são duas cousas que não se juntam. A alma de um menino que vem a ser? Uma vontade com afetos e um entendimento sem uso. Tal é o amor vulgar. Tudo conquista o amor, quando conquista uma alma; porém o primeiro rendido é o entendimento. Ninguém teve a vontade febricitante, que não tivesse o entendimento frenético. O amor deixará de variar, se for firme, mas não deixará de tresvariar se é amor. Nunca o fogo abrasou a vontade, que o fumo não cegasse o entendimento. Nunca houve enfermidade no coração, que não houvesse fraqueza no juízo. Por isso os mesmos pintores do amor lhe vendaram os olhos. E como o primeiro efeito ou a última disposição do amor, é cegar o entendimento, daqui vem que isto que vulgarmente se chama amor tem mais partes de ignorância; e quantas partes tem de ignorância, tantas lhe faltam de amor. Quem ama porque conhece, é amante; quem ama porque ignora é néscio. Assim como a ignorância na ofensa diminui o delito, assim no amor diminui o merecimento. Quem, ignorando, ofendeu, em rigor não é delinquente; quem, ignorando, amou, em rigor não é amante. (Sermão do Mandato, 1645)

Padre Antônio Vieira

In: Sermões Escolhidos, volume I
Edameris, São Paulo, 1965



- Postado por: Rodrigo às 19h02
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Osório Duque-Estrada: 29 de abril de 1870 — 5 de fevereiro de 1927

CROQUIS

A Alberto de Oliveira.

O caso terás lido, com certeza,
Da mulher de quem diz a história rara
Que, tomada de súbita tristeza,
Petrificada e extática ficara...

Niobe era o seu nome, e tão formosa
Tão sedutora aos homens se mostrava,
Que à mesma Via escura e dolorosa
O coração de todos arrastava...

Mas um dia, - implacável lei da sorte! -
Do seu perverso amante desprezada,
Viu-se ferida pela mão da morte
E em bruta e inerte pedra transformada...

A alma do poeta, triste e dolorida,
- Árido campo onde uma flor não medra,
Lembra aquela mulher, que assim ferida
De estranha mágoa, transformou-se em pedra.

Osório Duque-Estrada

Fonte: http://www.academia.org.br/

Joaquim Osório Duque-Estrada foi um poeta, crítico literário, professor e ensaísta brasileiro. Seu primeiro livro, um livro de poemas, foi Alvéolos (1886), mas o que lhe deu nome foi a autoria da letra do Hino Nacional Brasileiro e a sua atividade de crítico literário na imprensa brasileira do início do século XX. Foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu poema de 1909, em versos decassílabos, foi oficializado como letra do Hino Nacional Brasileiro por meio do Decreto nº 15.671, do presidente Epitácio Pessoa, em 6 de setembro de 1922, véspera do Centenário da Independência do Brasil.



- Postado por: Rodrigo às 21h22
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Henrique de Souza Filho: 5 de fevereiro de 1944 - 4 de janeiro de 1988

São Paulo, 26 de dezembro de 1979.
 

Mãe,
 
Aqui estou eu, em mais um Natal, fazendo desta carta meu sapato colocado na janela.

Eu fui bom este ano, mãe. Eu acho que fui muito bom. Eu fui solidário com todos os meus irmãos Betinhos. Fiz greve com todos os Lulas. Quebrei Belo Horizonte como todos os peões. Voltei pro país que me expulsou como todos os Juliões. Dei murro em ponta de faca como todos os Marighellas. Cantei as prostitutas, as mulheres de Atenas e joguei pedra na Geni como todos os Chicos Buarques. Aspirei cola como todos os pixotes. Fui negro, homossexual, fui mulher. Fui Herzog, Santo Dias e Lyda Monteiro.

Fui então muito bom este ano, mãe.

Aqui está minha carta sapato.

Vou fechar os olhos, vou dormir depressa.

Esperando que meia-noite todos entrem pela minha janela. Me façam chorar de alegria, que eu quero viver!

A bênção,

Henfil

In: Cartas da Mãe
Ed. Codecri, 1980



- Postado por: Rodrigo às 21h15
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Lou Andreas-Salomé: 12 de fevereiro de 1861 – 5 de fevereiro de 1937

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro." (Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987)

* * *

Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

Lou Andreas-Salomé



- Postado por: Rodrigo às 21h07
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Hilda Hilst: 21 de abril, 1930 — 4 de fevereiro de 2004

Amavisse
 
Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
 
Um arco-íris de ar em águas profundas.
 
Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
 
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

Hilda Hilst

In: 100 POEMAS ESSENCIAIS DA LINGUA PORTUGUESA
Organização de Carlos Figueiredo
Belo Horizonte, Editora Leitura, 2004



- Postado por: Rodrigo às 18h39
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Almeida Garrett: 4 de Fevereiro de 1799 — 9 de Dezembro de 1854

Este Inferno de Amar


Este inferno de amar - como eu amo!
Quem mo pôs n'alma... quem foi?
Esta chama que alenta e consome,
Que é a vida - e que a vida destrói-
Como é que se veio a atear,
Quando - ai quando se há de ela apagar?

Eu não sei, não me lembra: o passado,
A outra vida que dantes vivi
Era um sonho talvez... - foi um sonho -
Em que paz tão seran a dromi!
Oh! que doce era aquele sonhar...
Quem me veio, ai de mim! desperatar?

Só me lembra que um dia formoso
Eu passei... dava o Sol tanta luz!
E os meus olhos, que vagos giravam,
Em seus olhos ardentes os pus.
Que fez ela? eu que fiz? - Não no sei;
Mas nessa hora a viver comecei...

Almeida Garrett



- Postado por: Rodrigo às 18h33
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Jacques Prévert: 4 de fevereiro de 1900 — 11 de abril de 1977

PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

JACQUES PRÉVERT

Paroles (1945)

In: "Poemas de Jacques Prévert”,
Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000
Seleção e tradução de Silviano Santiago

(Arte: Esther Batista da Silva http://www.esther.com.br/ )



- Postado por: Rodrigo às 18h27
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Jacques Prévert: 4 de fevereiro de 1900 — 11 de abril de 1977

Mesmo se a felicidade se esquecer um pouco de você, nunca se esqueça dela.

* * *

Même si le bonheur t'oublie un peu, ne l'oublie jamais tout à fait.

Jacques Prévert

In: Spectacle‎
Publicado por NRF, 1951
p. 280



- Postado por: Rodrigo às 18h22
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POR AMOR À LIBERDADE

Por amor à liberdade venci o medo, a solidão, o desespero, angústia, ansiedade e aflição
Por amor à liberdade suportei todas as torturas e humilhação.
Por amor à liberdade deixei o vício, a mentira, o crime, a ilusão
Por amor à liberdade perdoei todos os que me fizeram maldade e também pedi perdão
Por amor à liberdade aprendi a dizer sim e também a dizer não
Por amor à liberdade busquei Deus como minha principal base de evolução, equilíbrio e perfeição
Por amor à liberdade...

Edilson Rocha

In: Por Amor à Liberdade: o ódio aprisiona o corpo e Alma
Fortaleza: Expressão Gráfica, 2004



- Postado por: Rodrigo às 20h03
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Buscas

se te busco carinho
     te encontro verso
se te busco beleza
     te encontro rima
se te busco toque
     te encontro estrofe
se te busco corpo
     te encontro soneto
se te busco amor
     te encontro elegia
se me deixas poesia
     te encontro saudade

Cesar Veneziani

(17/01/2009)

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 19h58
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Gertrude Stein: 3 de fevereiro de 1874 - 27 de julho de 1946

"Before the Flowers of Friendship Faded Faded"

Amo meu amor com v
Porque ele é assim
Amo meu amor com l
Porque ao seu lado sou assim
Um rei.
Amo meu amor com a
Porque ela é uma rainha
Amo meu amor e a é o melhor de todos
Pense bem e seja um rei
Pense mais e pense de novo
Eu amo meu amor com vestido e com chapéu ao lado
Eu amo meu amor e não com isso assim ou isso assado
Eu amo meu amor com i porque ela gosta de mim
Eu a amo com d porque ela é o meu amor assim
Agradeço por você estar lá
Ninguém tem que se importar
Agradeço por você estar aqui
Porque você não está por lá

E comigo e sem mim que sou e sem ela ela pode chegar tarde e então e como e por aí pensamos e achamos que é hora de gritar ela e eu.

Gertrude Stein



- Postado por: Rodrigo às 19h53
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Se você só escuta aquilo que é dito, você é um estudante. Você escuta as palavras, e perde o inexprimível. No momento em que começa a escutar o inexprimível, você é iniciado no discipulado. Qualquer animal é capaz de envelhecer. Amadurecer é prerrogativa dos seres humanos. Apenas uns poucos reivindicam o direito.

Osho

In: Escute seu coração
Tradução: Leonardo Freire de C. Giannella
Editora Gente, 2006
p. 32-3



- Postado por: Rodrigo às 18h35
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Beijo pouco, falo menos ainda.
Mas invento palavras
Que traduzem a ternura mais funda
E mais cotidiana.
Inventei, por exemplo, o verbo teadorar.
Intransitivo:
Teadoro, Teodora.

Manuel Bandeira

In: Neologismo. Estrela da Vida Inteira,
3ª Ed. - Rio de Janeiro, José Olympio, 1973,
p. 193



- Postado por: Rodrigo às 17h45
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Chico Science: 13 de março de 1966 — 2 de fevereiro de 1997

Etnia

Somos todos juntos uma miscigenação
E não podemos fugir da nossa etnia
Índios, brancos, negros e mestiços
Nada de errado em seus princípios
O seu e o meu são iguais
Corre nas veias sem parar
Costumes, é folclore é tradição
Capoeira que rasga o chão
Samba que sai da favela acabada
É hip hop na minha embolada

É o povo na arte
É arte no povo
E não o povo na arte
De quem faz arte com o povo

Por de trás de algo que se esconde
Há sempre uma grande mina de conhecimentos
e sentimentos

Não há mistérios em descobrir
O que você tem e o que gosta
Não há mistérios em descobrir
O que você é e o que você faz

Maracatu psicodélico
Capoeira da Pesada
Bumba meu rádio
Berimbau elétrico
Frevo, Samba e Cores
Cores unidas e alegria
Nada de errado em nossa etnia.

Composição: Chico Science/ Lucio Maia

(Arte: 'Operários' de Tarsila do Amaral - 1933)



- Postado por: Rodrigo às 17h40
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James Joyce: 2 de fevereiro de 1882 - 13 de janeiro de 1941

 

"- A história - disse Stephen - é um pesadelo do qual estou tentando despertar." (p. 39)

* * *

"Você acha minhas palavras obscuras. A escuridão está em nossas almas você não acha?" (p. 57)

* * *

"Toda a vida são muitos dias, dia após dia. Nós caminhamos através de nós mesmos, encontrando ladrões, fantasmas, gigantes, velhos, jovens, esposas, viúvas, mas sempre nos encontrando." (p. 237, 238)

* * *

"- Mas não adianta - diz ele. - Força, ódio, história, tudo o mais. Isso não é vida para homens e mulheres, insulto e ódio. E todo mundo sabe que é exatamente o oposto disso que vale realmente a vida.
- O quê? - diz Alf.
- O amor - diz Bloom." (p. 366)

James Joyce

In: Ulisses.
Tradução Bernardina da Silveira Pinhero.
Rio de Janeiro: Objetiva, 2005



- Postado por: Rodrigo às 17h34
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Soneto

Necessito de um ser, um ser humano
Que me envolva de ser
Contra o não ser universal, arcano
Impossível de ler

À luz da lua que ressarce o dano
Cruel de adormecer
A sós, à noite, ao pé do desumano
Desejo de morrer.

Necessito de um ser, de seu abraço
Escuro e palpitante
Necessito de um ser dormente e lasso

Contra meu ser arfante:
Necessito de um ser sendo ao meu lado
Um ser profundo e aberto, um ser amado.

Mário Faustino



- Postado por: Rodrigo às 00h11
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CAVAR

Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa; como arma pega.

Sob minha janela, um som raspante e claro
Quando a pá penetra a crosta de cascalho:
Meu pai, cavando. Olho para baixo.

Até seu dorso reteso entre os canteiros
Encurvar-se, brotarem vinte anos atrás
Dobrando-se em cadência nos batatais
Onde estava cavando.

A chanca aninhada no rebordo, o cabo
Alçado contra o joelho interno com firmeza.
Ele extirpava talos altos, fincava o fio luzidio
Para espalhar batatas novas que colhíamos
Adorando a fresca dureza nas mãos.

Por Deus, o velho sabia usar uma pá.
Tal qual o velho dele.

Meu avô cortou mais turfa num dia
Do que outro homem no pântano de Toner.
Uma vez levei leite numa garrafa
Mal rolhada com papel. Ele aprumou-se
Para bebê-lo, e em seguida pôs-se a
Talhar e fatiar com precisão, lançando
Torrões nos ombros, indo mais embaixo atrás
Da turfa boa. Cavando.

O cheiro frio de barro de batata, o chape e o trape
De turfa empapada, os curtos cortes de um fio
Nas raízes vivas despertam em minha cabeça.
Mas pá não tenho para seguir homens como eles.

Entre o dedo e o dedão a caneta
Parruda pousa.
Vou cavar com ela.

Seamus Heaney

In: Poemas
Tradução, introdução e notas de José A. Arantes
São Paulo, Companhia das Letras, 1998
p. 31-2



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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Langston Hughes: 1 de fevereiro de 1902 — 22 de maio de 1967

Eu também

Eu também canto a América.
Eu sou o irmão mais escuro.
Eles me mandam comer na cozinha
quando chega visita.
Mas eu rio
e como bem
e vou crescendo.
Amanhã,
eu me sentarei a mesa,
quando houver visita.
Ninguém se atreverá
a dizer-me:
‘Vai comer na cozinha”.
Além disso,
eles verão como eu sou belo
e ficarão envergonhados.
Eu, também, sou América.

Langston Hughes



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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