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Thomas Merton: 31 de Janeiro de 1915 - 10 de Dezembro de 1968

"A vida consiste em aprender a viver de maneira autônoma, espontânea e livremente: para isso é preciso reconhecer-se a si mesmo – estar familiarizado e à vontade consigo mesmo. Isso significa, basicamente, aprender quem somos e aprender o que temos para oferecer ao mundo contemporâneo e, depois, aprender como fazer para que essa oferta seja válida.

A finalidade da educação é mostrar a uma pessoa como se definir autêntica e espontaneamente em relação ao seu mundo – não é impor uma definição pré-fabricada do mundo e, menos ainda, uma definição arbitrária do próprio indivíduo. O mundo é feito de pessoas que estão plenamente vivas dentro dele: isto é, de pessoas que podem ser elas mesmas nele e podem nele estabelecer umas com as outras uma relação viva e frutífera. O mundo, portanto, é mais real na proporção em que as pessoas nele são capazes de ser mais plenamente e mais humanamente vivas: isto é, mais capazes de fazer um uso consciente e lúcido de sua liberdade. Basicamente, essa liberdade deve consistir, antes de tudo, na capacidade de escolherem suas próprias vidas, de se encontrarem no nível mais profundo possível. Uma liberdade superficial de vagar sem destino, ora aqui, ora ali, de experimentar isto e aquilo, de fazer uma escolha de distrações (…) é simplesmente um simulacro. Pretende ser uma liberdade de “escolha” ao passo que se esquiva da tarefa básica de descobrir quem é que escolhe. Não é livre porque não está querendo enfrentar o risco da autodescoberta.”

Thomas Merton

In: Amor e Vida
Martins Fontes Editora, São Paulo, 2004.
p. 3-4



- Postado por: Rodrigo às 00h16
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Kenzaburo Oe: 31 de Janeiro de 1935

Meu filho deficiente mental, Hikari, foi despertado pela voz dos pássaros para a música de Bach e Mozart e acabou produzindo suas próprias obras. As pequenas peças que ele inicialmente compôs eram cheias de frescor e prazer. Pareciam gotas de orvalho brilhando sobre a relva. A palavra inocência é composta do prefixo "in", que significa "não", e de "nocere", "ferir". Ou seja, ela quer dizer "aquele que não fere". A música de Hikari era uma manifestação natural de sua própria inocência. Conforme ele passou a criar mais obras, no entanto, não pude deixar de ouvir nelas também a voz de uma alma escura e atormentada. Apesar de deficiente, seus esforços extenuantes permitiram que ele melhorasse suas técnicas de composição e aprofundasse suas concepções. E isso fez com que ele descobrisse no fundo de seu coração uma massa de tristeza que até então ele fora incapaz de expressar com palavras. O fato de expressá-la em música cura Hikari de sua tristeza, é um ato de recuperação. Mais ainda, seus ouvintes aceitaram essa música como algo que também os fortalece e restaura. Nesses fenômenos, eu encontro as razões para acreditar no estranho poder curativo da arte.

Kenzaburo Oe

Trecho do discurso de aceitação do Prêmio Nobel de Literatura de Kenzaburo Oe em 1994.



- Postado por: Rodrigo às 00h06
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Fernando G. Namora: 15 de Abril de 1919 - 31 de Janeiro de 1989

Intimidade

Que ninguém hoje me diga nada.
Que ninguém venha abrir a minha mágoa,
esta dor sem nome
que eu desconheço donde vem
e o que me diz.
É mágoa.
Talvez seja um começo de amor.
Talvez, de novo, a dor e a euforia de ter vindo ao mundo.

Pode ser tudo isso, ou nada disso.
Mas não afirmo.
As palavras viriam revelar-me tudo.
E eu prefiro esta angústia de não saber de quê.

Fernando Namora



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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Acrobata da Dor

Gargalha, ri, num riso de tormenta,
como um palhaço, que desengonçado,
nervoso, ri, num riso absurdo, inflado
de uma ironia e de uma dor violenta.

Da gargalhada atroz, sanguinolenta,
agita os guizos, e convulsionado
Salta, gavroche, salta clown, varado
pelo estertor dessa agonia lenta…

Pedem-te bis e um bis não se despreza!
Vamos! retesa os músculos, retesa
nessas macabras piruetas d'aço…

E embora caias sobre o chão, fremente,
afogado em teu sangue estuoso e quente
Ri! Coração, tristíssimo palhaço.

Cruz e Souza

In: Broqueis



- Postado por: Rodrigo às 21h34
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O MUNDO É UM MOINHO

Ainda é cedo amor
Mal começaste a conhecer a vida
Já anuncias a hora de partida
Sem saber mesmo o rumo que irás tomar
Preste atenção querida
Embora saiba que estás resolvida
Em cada esquina cai um pouco a tua vida
E em pouco tempo não serás mais o que és
Ouça-me amor
Preste atenção o mundo é um moinho
Vai triturar teus sonhos tão mesquinhos
Vai reduzir as ilusões a pó
Preste atenção querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás a beira do abismo
Abismo que cavastes com teus pés...

Composição: Cartola



- Postado por: Rodrigo às 21h30
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Mahatma Gandhi: 2 de outubro de 1869 - 30 de janeiro de 1948

“Se ouvíssemos direito, perceberíamos que Deus conversa conosco em nossa língua, seja ela qual for." (In: 1001 Pérolas de Sabedoria – PubliFolha)

* * *

"A Oração é a chave da manhã e o fecho do anoitecer.”

* * *

Mantenha seus pensamentos positivos, porque pensamentos tornam-se suas Palavras.
 
Mantenha suas palavras positivas, porque suas palavras tornam-se suas Atitudes.

Mantenha suas atitudes positivas, porque suas atitudes tornam-se seus Hábitos.

Mantenha seus hábitos positivos, porque seus hábitos, tornam-se seus valores.

Mantenha seus valores positivos, porque seus valores tornam-se seu Destino.

Mahatma Gandhi



- Postado por: Rodrigo às 21h22
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Apparício Torelly: 29 de janeiro de 1895 – 27 de novembro de 1971

Máximas do Barão de Itararé

De onde menos se espera, daí é que não sai nada.

Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.

Quem empresta, adeus...

Dizes-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.

Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.

Quando pobre come frango, um dos dois está doente.

Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.

Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.

Quem só fala dos grandes, pequeno fica.

Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.

Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra ).

Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.

Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.

O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.

Os juros são o perfume do capital.

Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.

Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.

O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.

A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.

Cobra é um animal careca com ondulação permanente.

Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.

Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.

Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.

É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.

A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.

Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.

O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.

Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.

Mulher moderna calça as botas e bota as calças.

A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.

Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.

Pão, quanto mais quente, mais fresco.

A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.

A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

Barão de Itararé (Apparício Torelly)

Extraído de "Máximas e Mínimas do Barão de Itararé", Distribuidora  Record de Serviços de Imprensa - Rio de Janeiro, 1985, págs. 27 e 28, coletânea organizada por Afonso Félix de Souza.



- Postado por: Rodrigo às 20h54
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Robert Lee Frost: 26 de março de 1874 - 29 de janeiro de 1963

A ESTRADA NÃO TRILHADA
 
Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia...
 
Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.
 
E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.
 
Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Robert Frost



- Postado por: Rodrigo às 20h38
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Robert Lee Frost: 26 de março de 1874 - 29 de janeiro de 1963

Fogo e Gelo

Alguns dizem que o mundo vai acabar em fogo,
Alguns dizem em gelo.
Pelo meu desejo
Eu retenho aqueles que favorecem o fogo.
Mas se tivesse que perecer duas vezes,
Eu acho que sei o suficiente de ódio
Dizer que a destruição de gelo
Também é grande
E seria suficiente.

* * *

Fire and Ice

Some say the world will end in fire,
Some say in ice.
From what I've tasted of desire
I hold with those who favour fire.
But if it had to perish twice,
I think I know enough of hate
To say that for destruction ice
Is also great
And would suffice.

Robert Frost

(1923)



- Postado por: Rodrigo às 20h30
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Manhã

acordei - ela dormia
amanhecia
a coberta ao lado
ela encolhida
cobri-lhe

ela se ajeitou
gemeu de mansinho
como quando um carinho
lhe faço
talvez o cansaço
não deixe que desperte

dormindo ela é arte

depois que o sol
fizer o dia invadir o quarto
a luz alterará as cores
e se fará outra estrofe
com seu despertar

Cesar Veneziani

(17/01/2009)

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

 



- Postado por: Rodrigo às 21h30
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W.B. Yeats: 13 de Junho de 1865 — 28 de Janeiro de 1939

A ROSA DO MUNDO

Quem sonhou que a beleza passa como um sonho?
Por estes lábios vermelhos, com todo o seu magoado orgulho,
Tão magoados que nem o prodígio os pode alcançar,
Tróia desvaneceu-se em alta chama fúnebre,
E morreram os filhos de Usna.

Nós passamos e passa o trabalho do mundo:
Entre humanas almas que se agitam e quebram
Como as pálidas águas e seu fluxo invernal,
Sob as estrelas que passam, sob a espuma do céu,
Vive este solitário rosto.

Inclinai-vos, arcanjos, em vossa incerta morada:
Antes de vós, ou de qualquer palpitante coração,
Fatigado e gentil alguém esperava junto ao seu trono;
Ele fez do mundo um caminho de erva
Para os seus errantes pés.

William Butler Yeats

Trad: José Agostinho Baptista



- Postado por: Rodrigo às 17h39
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António Feliciano de Castilho: 28 de janeiro de 1800 — 18 de junho de 1875

SONETO

Se é lícita uma lágrima nas rosas,
Com que, ó noite de Abril, nos ris coroada,
Dos mártires da Pátria libertada
Uma lágrima às sombras generosas!

Seus sepulcros dão palmas gloriosas;
Heróis herdaram sua nobre espada;
E hecatombe de tigres lhe é votada
De dia a dia às cinzas sequiosas.

Mas no Elísio onde estão, hoje pensando
Que um dia mais que o céu por Lísia passa,
Saudoso se reune o egrégio bando.

Murmuravam longo viva à jovem Graça,
E involuntária lágrima escapando
Do néctar entre as mãos lhes turva a taça.

António Feliciano de Castilho

In: Escavações Poéticas, 1844



- Postado por: Rodrigo às 17h31
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Guerreiras e heróis

Não estou assistindo ao Big Brother, mas vi a chamada para o programa dia desses. Mostrava uma moça, uma das participantes, olhando pra câmera e dizendo com ar dramático: "Eu sou uma guerreira!!". É de dar nos nervos. Guerreira por quê? Porque está participando de um programa de televisão que vai levá-la, no mínimo, à capa da Playboy? Guerreira porque foi escolhida entre milhões de candidatos para ficar comendo do bom e do melhor e jogando conversa fora com um monte de desocupados? As pessoas não têm culpa de serem burras, mas mereciam uma surra por se levarem tão a sério.

O Big Brother é um programa de tevê como outro qualquer e não defendo sua extinção, mas é preciso ficar atento a certos exageros. Por exemplo, é um exagero condenar o jornalista Pedro Bial por apresentá-lo, o cara está trabalhando, só isso. Por outro lado, ele perde a noção quando chama aquele pessoal de "nossos heróis". É o mesmo caso do "guerreira": a troco de que usar essas expressões graves e superlativas para falar de uma brincadeira televisiva onde todos sairão ganhando?

O que irrita no Big Brother, mais do que sua inutilidade, é o fato de os participantes serem tratados como vítimas. Qual é? Circula pela internet um arquivo PPS que, pela primeira vez na história dos PPS, me tocou. Ele mostra heróis de verdade: homens e mulheres que abrem mão do conforto de suas casas para fazer trabalho voluntário em aldeias na África e em clínicas móveis no Líbano. São pessoas que oferecem ajuda humanitária internacional através do programa Médicos sem Fronteiras e que não medem esforços para dar amparo e assistência a moradores de ruas e demais necessitados, seja no fim do mundo e ou aqui mesmo nas ruas do Brasil. Isso é heróico, isso é ser guerreiro. Quantos de nós, bem nascidos e bem criados, abrem mão de seus pequenos luxos para ajudar quem precisa?

Por isso, se você é da turma que liga pro Big Brother pra votar em paredões, pense melhor antes de erguer o telefone. Direcione sua ligação para um programa assistencial, gaste seu dinheiro com algo que realmente seja útil. Assista ao BBB, divirta-se e dê audiência, não há nada de errado com isso, mas cada vez que tiver o impulso de ligar pra tirar fulano ou sicrana do programa, se toque: tem gente mais necessitada precisando da sua ligação. O site do Unicef traz uma lista de entidades que você pode colaborar dando apenas um telefonema. Quer dar uma espiadinha? Então espie o que está acontecendo à nossa volta.

Martha Medeiros

(23 de janeiro de 2008 - N° 15488)

Fonte: Zero Hora http://www.clicrbs.com.br/zerohora/jsp/default2.jsp?uf=2&local=18&source=a1744039.xml&template=3916.dwt&edition=9173§ion=812



- Postado por: Rodrigo às 17h23
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Desígnios

alguém pode me dizer
se estava prevista na palma da minha mão
esta paixão inesperada
se já estava escrita e demarcada
na linha da minha vida
se fazia já parte da estrada
e tinha que ser vivida

ou foi um desgoverno repentino
que surpreendeu os deuses, todos
os que desenham nosso destino
ou foi um desatino, uma loucura
uma imprevisível subversão
que só a partir de agora eu trago marcada
na palma da minha mão.

Bruna Lombardi

In: O Perigo do Dragão
Ed. Círculo do Livro, 1984
p. 10



- Postado por: Rodrigo às 18h37
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DAS ALIANÇAS DESIGUAIS

Gato do Mato e Leão, conforme o combinado,
Juntos caçavam corças pelo mato.
As corças escaparam... Resultado:
Não escapou o gato

Mario Quintana

In: Prosa e verso.
2a. edição Porto Alegre, Globo,1980.
p. 41



- Postado por: Rodrigo às 18h31
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enchantagem

de tanto não fazer nada
acabo de ser culpado de tudo

esperanças, cheguei
tarde demais como uma lágrima

de tanto fazer tudo
 parecer perfeito
você pode ficar louco
ou para todos os efeitos
suspeito
de ser verbo sem sujeito

pense um pouco
beba bastante
depois me conte direito

que aconteça o contrário
custe o que custar
deseja
quem quer que seja
tem calendário de tristezas
celebrar

tanto evitar o inevitável
in vino veritas
me parece
verdade

o pau na vida
o vinagre
vinho suave

pense e te pareça
senão eu te invento por toda a eternidade

Paulo Leminski



- Postado por: Rodrigo às 18h26
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Coração Vagabundo

Meu coração não se cansa
De ter esperanças
De um dia ser tudo que quer
Meu coração de criança
Não é mais que a lembrança
De um vulto feliz de mulher

Que passou por meus sonhos
Sem dizer adeus
E fez dos olhos meus
Um chorar mais sem fim
Meu coração vagabundo
Quer guardar o mundo em mim

Composição: Caetano Veloso

 Ouça esta música interpretada por Ana Cañas:
http://br.youtube.com/watch?v=dFTYvF7Asn4



- Postado por: Rodrigo às 20h20
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Demissão

Este mundo não presta, venha outro.
Já por tempo de mais aqui andamos
A fingir de razões suficientes.
Sejamos cães do cão: sabemos tudo
De morder os mais fracos, se mandamos,
E de lamber as mãos, se dependentes.

José Saramago

In: "Os Poemas Possíveis"



- Postado por: Rodrigo às 20h16
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2. Feito ao pé de uma oliveira, na cerca *

Que me falta? A vida me sobeja,
Obséquios da fortuna não espero,
Nem riquezas, nem gostos eu já quero,
Nem quanto pelo mundo se deseja.

Vive o homem feliz, não tenho inveja,
Se desgraçado, não me desespero,
E quanto no mundo considero
Sempre indif'rente estou, seja no que seja.

De glórias e paixões o peito isento,
Não sinto nem prazer, nem pena intensa,
Que mais tarde ou mais cedo, as leva o vento.

Nem disso quero outra recompensa
Que o conservar-me o Céu o pobre alento,
Pois com ele conservo esta indif'rença.

Marquesa de Alorna

* A "cerca" aludida no título é a do jardim do convento de São Félix, em Chelas, onde D. Leonor de Almeida, viveu com sua mãe e irmã, enclausuradas por ordem do Marquês de Pombal, entre 1759-1777.

In: Sonetos
Organização de Vanda Anastácio
Rio de Janeiro: Ed. 7 Letras, 2007
p. 89



- Postado por: Rodrigo às 20h11
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Virginia Woolf: 25 de Janeiro de 1882 — 28 de Março de 1941

"Querido, tenho certeza de estar ficando louca novamente. Sinto que não conseguiremos passar por novos tempos difíceis. E não quero revivê-los. Começo a escutar vozes e não consigo me concentrar. Portanto, estou fazendo o que me parece ser o melhor a se fazer. Você me deu muitas possibilidades de ser feliz. Você esteve presente como nenhum outro. Não creio que duas pessoas possam ser felizes convivendo com esta doença terrível. Não posso mais lutar. Sei que estarei tirando um peso de suas costas, pois, sem mim, você poderá trabalhar. E você vai, eu sei. Você vê, não consigo sequer escrever. Nem ler. Enfim, o que quero dizer é que depositei em você toda minha felicidade. Você sempre foi paciente comigo e realmente bom. Eu queria dizer isto - todos sabem. Se alguém pudesse me salvar, este alguém seria você. Tudo se foi para mim mas o que ficará é a certeza da sua bondade. Não posso atrapalhar sua vida. Não mais.Não acredito que duas pessoas poderiam ter sido tão felizes quanto nós fomos. V."

* * *

'Dearest, I feel certain I am going mad again. I feel we can't go through another of those terrible times. And I shan't recover this time. I begin to hear voices, and I can't concentrate. So I am doing what seems the best thing to do. You have given me the greatest possible happiness. You have been in every way all that anyone could be. I don't think two people could have been happier till this terrible disease came. I can't fight any longer. I know that I am spoiling your life, that without me you could work. And you will I know. You see I can't even write this properly. I can't read. What I want to say is I owe all the happiness of my life to you. You have been entirely patient with me and incredibly good. I want to say that - everybody knows it. If anybody could have saved me it would have been you. Everything has gone from me but the certainty of your goodness. I can't go on spoiling your life any longer. I don't think two people could have been happier than we have been. V.'

Virginia Woolf



- Postado por: Rodrigo às 00h43
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ESSA NOITE

Essa noite...
Não há lugar para onde ir
Não há saídas para fugir
Não há ruas... céus... estrelas... nem mar
Saudades... sim, muitas saudades...
Muita vontade de te encontrar
Forço um sorriso amarelado
Sem lágrimas para chorar
Essa noite...
Queria muito... muito estar aí
Tenho muito pra te falar.

Edilson Rocha

In: Por Amor à Liberdade: o ódio aprisiona o corpo e Alma
Fortaleza: Expressão Gráfica, 2004



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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São Paulo: 455 anos

Alma Paulista

Foi por me sentir genuinamente desidentificado com qualquer sentimento nacionalista ou patriótico, ou com qualquer espécie de regionalismo, que escrevi e cantei coisas como: "Não sou brasileiro, não sou estrangeiro / Não sou de nenhum lugar, sou de lugar nenhum, sou de lugar nenhum / Não sou de São Paulo, não sou japonês / Não sou carioca, não sou português / Não sou de Brasília, não sou do Brasil / Nenhuma pátria me pariu", ou "Riquezas são diferenças", ou "Aqui somos mestiços mulatos cafuzos pardos mamelucos sararás crilouros guaranisseis e judárabes / Orientupis orientupis / Ameriquítalos luso nipo caboclos / Orientupis orientupis / Iberibárbaros indo ciganagôs / Somos o que somos, somos o que somos / Inclassificáveis, inclassificáveis".

Ao mesmo tempo, creio só terem sido possíveis tais formulações pessoais pelo fato de eu haver nascido, crescido e vivido sempre em São Paulo. Por essa ser uma cidade que permite, ou mesmo propicia, esse desapego para com raízes geográficas, raciais, culturais. Por eu ver e viver São Paulo como um gigante liquidificador onde as informações diversas se misturam, se atritam gerando novas fagulhas, interpretações, exceções.

Por sua multiplicidade de referências étnicas, linguísticas, culturais, religiosas, arquitetônicas, culinárias...

São Paulo não tem um símbolo que dê conta de sua diversidade. Nada aqui é típico daqui. Não temos um corcovado, um berimbau, uma arara, um cartão postal. São Paulo são muitas cidades em uma - do Brás a Pinheiros, do Morumbi à Freguesia do Ó, de Osasco ao Jardim Europa, da Consolação ao Pacaembú, da Móoca a Higienópolis, do Paraiso ao Ipiranga, da Vila Madalena à Liberdade. De um bairro a outro pode mudar tudo - a paisagem, os rostos, os letreiros, as praças, as lojas, o jeito, os sotaques.

Sempre me pareceram sem sentido as guerras, as fileiras nazistas, os fundamentalismos, a intolerância ante a diversidade, a xenofobia nacionalista, a "macumba para turista" de que falava Oswald de Andrade. O nacionalismo sempre me pareceu ligado ao desejo de poder, enquanto as manifestações que positivam a convivência com as diferenças são para mim sintomas de potência individual diante do mundo.

Assim, fui me sentindo cada vez mais um cidadão do planeta; sem nacionalidade, sem raça, sem religião. Acabei atribuindo parte desse sentimento à formação miscigenada do Brasil.

Acontece que a miscigenação brasileira parece ter se multiplicado em São Paulo com feições de imigrantes de muitos outros povos (judeus italianos coreanos africanos árabes alemães portugueses ciganos nordestinos indígenas latinos etc.), num ambiente urbano que foi crescendo para todos os lados, sem limites.

Até a instabilidade climática daqui parece haver contribuido para essa formação aberta ao acaso, à imprevisibilidade das misturas.

Ao mesmo tempo temos preservados inúmeros nomes indígenas designando lugares, como Ibirapuera, Anhangabaú, Butantã, etc. Primitivismo em contexto cosmopolita, como quis e soube vislumbrar Oswald.

Não é a toa que partiram daqui várias manifestações culturais que souberam conceituar e positivar essa condição de hibridez antropológica, social e cultural. A Antropofagia, a poesia Concreta, a Tropicália ("um neo-antropofagismo" - segundo depoimento de Caetano na época - gestado em São Paulo, apesar dos inúmeros protagonistas baianos).

São Paulo fragmentária, com sua paisagem recortada entre praças e prédios; com o ruído dos carros entrando pelas janelas dos apartamentos como se fosse o ruído longínquo do mar; com seus crepúsculos intensificados pela poluição; seus problemas de trânsito miséria e violência convivendo com suas múltiplas ofertas de lazer e cultura; com seu crescimento indiscriminado, sem nenhum planejamento urbano; com suas belas alamedas arborizadas e avenidas de feiura infinita.

São São Paulo meu amor, como quis Tom Zé.

São Paulo meu horror, como no Pavilhão 9.

São Paulo de muitas faces, para que façamos a nossa, a partir de sua matéria múltipla e mutante.

Talvez isso constitua alguma forma de identidade.

Arnaldo Antunes

Fonte: http://www.arnaldoantunes.com.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Memória Se
                       
A mais íntima
memória se
desdobra cega
e surda:
 
A presença tátil
de suas dobras
incrustadas
nas marcas linhas
das minhas mãos.

O gosto redondo
do seu corpo
na retina língua
do meu gesto
ou rosto.

E seu perfume
rio riso colorido
escorrendo
sobre o corpo
sopro e calor.

Memória se
deseja. O resto,
se ouça ou veja.

Frederico Barbosa

In: Cantar de Amor entre os Escombros
Ed. Landy, 2002.
p. 83



- Postado por: Rodrigo às 08h40
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Vontade de me encontrar

Vontade de me encontrar
com poetas do mundo,
que se encaminham com rosas
perdidos em suas mãos
tendo como expressão
uma linguagem de estrelas...
para que juntos unidos
bem incluídos na terra,
entrelaçados nos versos,
possamos no amanhã
humanizando a poesia
conciliar a alegria
a tanta criança triste,
aos homens que nascem cegos,
às dores que morrem sós

(1953)

Lupe Cotrim Garaude

In: Monólogos do Afeto
Edigraf: São Paulo, 1956
p. 25



- Postado por: Rodrigo às 08h35
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Augusto Meyer: 24 de janeiro de 1902 — 10 de julho de 1970

GAITA

Eu não tinha mais palavras,
vida minha,
palavras de bem-querer;
eu tinha um campo de mágoas,
vida minha,
para colher.

Eu era uma sombra longa,
vida minha,
sem cantigas de embalar;
tu passavas, tu sorrias,
vida minha,
sem me olhar.

Vida minha, tem pena,
tem pena da minha vida!
Eu bem sei que vou passando
como a tua sombra longa;
eu bem sei que vou sonhar
sem colher a tua vida,
vida minha,
sem ter mãos para acenar,
eu bem sei que vais levando
toda, toda a minha vida,
vida minha, e o meu orgulho
não tem voz para chamar.

Augusto Meyer

In: Coração verde, 1926



- Postado por: Rodrigo às 08h29
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A UMA SENHORA QUE ME PEDIU VERSOS

Pensa em ti mesma, acharás
       Melhor poesia,
Viveza, graça, alegria,
       Doçura e paz.
Se já dei flores um dia,
       Quando rapaz,
As que ora dou têm assaz
       Melancolia.
Uma só das horas tuas
       Valem um mês
Das almas já ressequidas.
      
       Os sóis e as luas
Creio bem que Deus os fez
      Para outras vidas.

Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 18h14
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Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia - o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia, Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

João do Rio

Escrito durante o governo de Rodrigues Alves, A alma encantadora das ruas, é o terceiro livro de João do Rio e talvez o mais conhecido de sua obra. As crônicas de desta obra monumental revelam a rua brasileira moderna. Foi publicado em 1908, revelando um observador capaz de compreender e descrever o espírito da época a partir de minucioso exame das ruas e dos tipos que por ela circulavam



- Postado por: Rodrigo às 18h01
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João Ubaldo Ribeiro (Itaparica, 23 de janeiro de 1941)

- Sou realista. Eu não creio mais no futuro da humanidade como espécie. As evidências estão começando a se acumular. Furacão no Brasil, ciclone, esse tempo que está fazendo, o derretimento das calotas polares. A humanidade é uma espécie estúpida que se mata desde as cavernas. Só que, agora, com técnicas mais eficientes. Não acredito na sobrevivência da humanidade, por conseqüência, não acredito na sobrevivência do Brasil.

João Ubaldo Ribeiro

Fonte: Revista ISTO É, Edição 1930, de outubro de 2006.

João Ubaldo Ribeiro foi o vencedor do Prêmio Camões 2008. Foi o oitavo escritor brasileiro a ser distinguido com o prêmio, que na sua edição anterior foi para o português António Lobo Antunes. O escritor baiano nasceu na ilha de Itaparica, em 23 de janeiro de 1941. Entre seus livros mais famosos estão "Setembro não faz sentido", "Sargento Getúlio", vencedor do Prêmio Jabuti em 1972, "Viva o povo brasileiro", "O Sorriso do lagarto" e "A Casa dos Budas Ditosos".



- Postado por: Rodrigo às 17h55
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Os Nomes Dados a Terra Descoberta

Por se tratar de uma ilha deram-lhe o nome
de ilha de Vera-Cruz.
Ilha cheia de graça
Ilha cheia de pássaros
Ilha cheia de luz.

Ilha verde onde havia
mulheres morenas e nuas
anhangás a sonhar com histórias de luas
e cantos bárbaros de pajés em poracés batendo os pés.

Depois mudaram-lhe o nome
pra terra de Santa Cruz.
Terra cheia de graça
Terra cheia de pássaros
Terra cheia de luz.

A grande terra girassol onde havia guerreiros de tanga e onças ruivas deitadas à sombra das árvores
mosqueadas de sol

Mas como houvesse em abundância,
certa madeira cor de sangue, cor de brasa
e como o fogo da manhã selvagem
fosse um brasido no carvão noturno da paisagem,
e como a Terra fosse de árvores vermelhas
e se houvesse mostrado assaz gentil,
deram-lhe o nome de Brasil.

Brasil cheio de graça
Brasil cheio de pássaros
Brasil cheio de luz

Cassiano Ricardo

(Arte: Henfil)



- Postado por: Rodrigo às 18h20
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Johan August Strindberg: 22 de janeiro de 1849 - 14 de maio de 1912

SAGAS (trecho)

[...] "Durante vinte anos a velhinha esteve acamada e pela janela via tudo o que acontecia na fazenda onde os dois filhos lavravam a terra. Mas via o mundo e as pessoas de um modo bastante peculiar, pois as vidraças de seu quarto estavam manchadas com todas as cores do arco-íris; bastava virar a cabeça para que tudo ficasse vermelho, amarelo, verde, azul ou violeta. Se fosse um dia de inverno, de árvores cobertas pela geada, como se vestissem folhas de prata, virava a cabeça no travesseiro e as árvores tornavam-se verdes; se fosse verão, via o campo dourado e o céu azul, mesmo se, na verdade, o dia estivesse cinza. Assim, achava que tinha poderes mágicos e nunca se aborrecia. Mas não era esse o único poder das vidraças mágicas: elas também eram curvas, e podiam aumentar ou diminuir o que se via lá fora.

Assim, quando o filho mais velho chegava, fazendo travessuras, gritando pela fazenda afora, ela desejava-o pequeno e bonzinho; num instante o via assim. Quando os netos vinham com seus passinhos incertos, imaginava o futuro deles, e - um, dois, três! - passavam em frente ao vidro, e ela os via crescidos, adultos, verdadeiros gigantes."

August Strindberg



- Postado por: Rodrigo às 18h16
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Johan August Strindberg: 22 de janeiro de 1849 - 14 de maio de 1912

Inês: - És capaz de me dizer por que é que as flores crescem no estrume?

O Vidraceiro: - Crescem melhor assim porque têm horror ao estrume. A idéia delas é afastarem-se, o mais depressa possível, e aproximarem-se da luz, a fim de desabrocharem... e morrerem.

August Strindberg



- Postado por: Rodrigo às 18h13
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Aluísio Azevedo: 14 de abril de 1857 - 21 de janeiro de 1913

O Cortiço (Trecho)

"Naquela mulata estava o grande mistério, a síntese das impressões que ele recebeu chegando aqui: ela era a luz ardente do meio-dia; ela era o calor vermelho das sestas de fazenda; era o aroma quente dos trevos e das baunilhas, que o atordoara nas matas brasileiras, era a palmeira virginal e esquiva que se não torce a nenhuma outra planta; era o veneno e era o açúcar gostoso, era o sapoti mais doce que o mel e era a castanha do caju, que abre feridas com o seu azeite de fogo; ela era a cobra verde e traiçoeira, a lagarta viscosa, e muriçoca doida, que esvoaçava havia muito tempo em torno do corpo dele, assanhando-lhe os desejos, acordando-lhe as fibras, embambecidas pela saudade de terra, picando-lhe as artérias, para lhe cuspir dentro da sangue uma centelha daquele amor setentrional, uma nota daquela música feita de gemidos de prazer, uma larva daquela nuvem de cantáridas que zumbiam em torno da Rita Baiana o espalhavam-se pelo ar numa fosforescência afrodisíaca."

Aluísio Azevedo

In: O Cortiço
Editora Klick, 1999
p. 63 (Cap. VII)



- Postado por: Rodrigo às 18h21
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George Orwell (Eric A. Blair): 25 de junho de 1903 - 21 de janeiro de 1950

"- O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o que dê para pegar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a mourejar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza, e, no entanto, nenhum de nós possui mais que a própria pele. As vacas, que aqui vejo à minha frente, quantos litros de leite terão produzido neste ano? E que aconteceu a esse leite, que poderia estar alimentando robustos bezerrinhos? Desceu pela garganta dos nossos inimigos. E as galinhas, quantos ovos puseram neste ano, e quantos se transformaram em pintinhos? Os restantes foram para o mercado, fazer dinheiro para Jones e seus homens. E você, Quitéria, diga-me onde estão os quatro potrinhos que deveriam ser o apoio e o prazer da sua velhice. Foram vendidos com a idade de um ano -nunca mais você os verá. Como paga por seus quatro partos e por todo o seu trabalho no campo, que recebeu você, além de ração e baia?"

George Orwell

In: A Revolução dos Bichos



- Postado por: Rodrigo às 18h18
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George Orwell (Eric A. Blair): 25 de junho de 1903 - 21 de janeiro de 1950

"[...] - Eu responderei minha pergunta. O Partido procura o poder por amor ao poder. Não estamos interessados no bem-estar alheio; só estamos interessados no poder. Nem na riqueza, nem no luxo, nem em longa vida de prazeres: apenas no poder, poder puro. (...) Somos diferentes de todas as oligarquias do passado, porque sabemos o que estamos fazendo. Todas as outras, até mesmo as que se assemelhavam conosco, eram covardes e hipócritas. Os nazistas alemães e os comunistas russos muito se aproximaram de nós nos métodos, mas nunca tiveram a coragem de reconhecer os próprios motivos. Fingiam, talvez até acreditassem, ter tomado o poder sem querer, e por tempo limitado, e que bastava dobrar a esquina para entrar num paraíso onde os seres humanos seriam iguais e livres. Nós não somos assim. Sabemos que ninguém jamais toma o poder com a intenção de largá-lo. O poder não é um meio, é um fim em si. Não se estabelece uma ditadura com o fito de salvaguardar uma revolução; faz-se a revolução para estabelecer a ditadura. O objetivo da perseguição é a perseguição. O objetivo da tortura é a tortura. O objetivo do poder é o poder. Agora começas a me compreender"

George Orwell

In: 1984



- Postado por: Rodrigo às 18h14
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Cantiga Trovadoresca

Pois naci nunca vi Amor,
e ouço d' el sempre falar.
Pero [Mas] sei que me quer matar,
mais rogarei a mia senhor
que me mostr' aquel matador,
ou que m' ampare d' el melhor.

Pero nunca lh' eu fige [fiz] ren [nada]
por que m' el aja de matar,
mais quer' eu mia senhor rogar,
polo [pelo] gran med' en que me ten,
que me mostr' aquel matador,
ou que m' ampare d' el melhor!
[...]
E pois Amor á [tem] sobre mi [mim]
de me matar tan gran poder,
e eu non o posso veer,
rogarei mia senhor assi
que mi-amostr' aquel matador,
ou que m' ampare d' el melhor.

Nuno Fernandes Torneol

In: Cancioneiro da Ajuda, n.º 80

Nuno Fernandes Torneol foi um trovador de origem desconhecida, apenas sabendo-se que poderia ter sido um cavaleiro ao serviço de um rico homem de Castela. Cogita-se que este autor tenha se estabelecido na corte do rei Afonso X de Leão e Castela no século XIII. É-lhe reconhecida a autoria de vinte e duas composições, sendo treze cantigas de amor, extremamente convencionais, oito cantigas de amigo, de estrutura tradicional e uma cantiga de escárnio. Escrevia em português arcaico, também conhecido como galaico-português. Esse texto foi trazido aos dias atuais pela música Love Song, arranjada pela banda brasileira Legião Urbana.

 Ouça aqui "Love Song":
http://br.youtube.com/watch?v=9d34gDo_Oec



- Postado por: Rodrigo às 17h52
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Euclides da Cunha: 20 de janeiro de 1866 — 15 de agosto de 1909

Página vazia

Quem volta da região assustadora
De onde eu venho, revendo inda na mente
Muitas cenas do drama comovente
Da Guerra despiedada e aterradora,

Certo não pode ter uma sonora
Estrofe, ou canto ou ditirambo ardente,
Que possa figurar dignamente
Em vosso Álbum gentil, minha Senhora.

E quando, com fidalga gentileza,
Cedestes-me esta página, a nobreza
Da vossa alma iludiu-vos, não previstes

Que quem mais tarde nesta folha lesse
Perguntaria: "Que autor é esse
De uns versos tão mal feitos e tão tristes"?!!

Euclides da Cunha

Obs.: Esses versos faziam parte de um álbum da jovem Francisca Praguer Fróes, que ganhou o poema do então engenheiro e jornalista - de volta da "região assustadora" (leia-se Canudos) de onde vinha, "revendo inda na mente/ Muitas cenas do drama comovente/ Da Guerra desapiedada e aterradora" - no dia seguinte de seu retorno à capital baiana, conforme ele datou abaixo da assinatura: 14 de outubro de 1897.



- Postado por: Rodrigo às 17h33
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Euclides da Cunha: 20 de janeiro de 1866 — 15 de agosto de 1909

Estrelas

São tão remotas as estrelas, que
apesar da vertiginosa velocidade da luz, elas se
apagam e continuam a brilhar durante séculos.
Morrem os mundos...Silenciosa e escura,
Eterna noite cinge-os. Mudas, frias,
Nas luminosas solidões da cultura
Erguem-se, assim, necrópoles sombrias...
Mas, pra nós, di-lo a ciência, além perdura
A vida, e expande as rútilas magias..
Pelos séc'los emfora a luz fulgura
Traçando-lhes as órbitas vazias.
Meus ideais! extinta claridade -
Mortos, rompeis, fantásticos e insanos,
Da minh'alma e revolta imensidade...

E sois ainda todos os enganos
E toda a luz e toda mocidade
Desta velhice trágica aos vinte anos..
Se acaso uma alma se fotografasse
De sorte que, nos mesmos negativos,
A mesma luz pusesse em traços vivos
O nosso coração e a nossa face
E os nossos ideais, e os mais cativos
De nossos sonhos...Se a emoção que nasce
Em nós, também nas chapas se gravasse,
Mesmo em ligeiros traços fugitivos:
Amigo, tu terias com certeza
A mais completa e insólita surpresa
Notando - deste grupo bem no meio -
Que o mais belo, o mais forte, o mais ardente
Destes sujeitos é precisamente
o mais triste, o mais pálido, o mais feio.

Euclides da Cunha



- Postado por: Rodrigo às 17h29
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Eugénio de Andrade: 19 de Janeiro de 1923 — 13 de Junho de 2005

Até Amanhã

Sei agora como nasceu a alegria,
como nasce o vento entre barcos de papel,
como nasce a água ou o amor
quando a juventude não é uma lágrima.
 
É primeiro só um rumor de espuma
à roda do corpo que desperta,
sílaba espessa, beijo acumulado,
amanhecer de pássaros no sangue.
 
É subitamente um grito,
um grito apertado nos dentes,
galope de cavalos num horizonte
onde o mar é diurno e sem palavras.
 
Falei de tudo quanto amei.
De coisas que te dou
para que tu as ames comigo:
a juventude , o vento e as areias.

Eugénio de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 19h52
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Alberto de Oliveira: 28 de abril de 1857 — 19 de Janeiro de 1937

A JANELA E O SOL

"Deixa-me entrar, - dizia o sol - suspende
A cortina, soabre-te! Preciso
O íris trêmulo ver que o sonho acende
Em seu sereno virginal sorriso.

Dá-me uma fresta só do paraíso
Vedado, se o ser nele inteiro ofende...
E eu, como o eunuco, estúpido, indeciso,
Ver-lhe-ei o rosto que na sombra esplende."

E, fechando mais, zelosa e firme,
Respondia a janela: "Tem-te, ousado!
Não te deixo passar! Eu, néscia, abri-me!

E esta que dorme, sol, que não diria
Ao ver-te o olhar por trás do cortinado,
E ao ver-se a um tempo desnudada e fria?!"

Alberto de Oliveira

In: Sonetos e poemas, 1886



- Postado por: Rodrigo às 19h48
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Edgar Allan Poe: 19 de janeiro de 1809 - 7 de Outubro de 1849

O Corvo

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho
E disse estas palavras tais:
"É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais."

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora,
E que ninguém chamará jamais.

E o rumor triste, vago, brando,
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto e: "Com efeito
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais."

Minhalma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: "Imploro de vós - ou senhor ou senhora -
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais."
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta:
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro co'a alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
"Seguramente, há na janela
Alguma coisa que sussurra. Abramos.
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso.
Obra do vento e nada mais."

Abro a janela e, de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre Corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, - o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: "Ó tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais:
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Coisa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é o seu nome: "Nunca mais".

No entanto, o Corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: "Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
"Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: 'Nunca mais.'"

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao Corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais.
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: "Nunca mais."

Assim, posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava,
Conjeturando fui, tranqüilo, a gosto,
Com a cabeça no macio encosto,
Onde os raios da lâmpada caiam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: "Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No Éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais.
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!"
E o Corvo disse: "Nunca mais."

"Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa!, clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fica no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua,
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua."
E o Corvo disse: "Nunca mais."

E o Corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Edgar Allan Poe

Tradução de Machado de Assis



- Postado por: Rodrigo às 19h41
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J. C. Ary dos Santos: 7 de Dezembro de 1937 — 18 de Janeiro de 1984

A cidade é um chão de palavras pisadas

A cidade é um chão de palavras pisadas
a palavra criança  a palavra segredo.
A cidade é um céu de palavras paradas
a palavra distância  e a palavra medo.

A cidade é um saco  um pulmão que respira
pela palavra água  pela palavra brisa
A cidade é um poro  um corpo que transpira
pela palavra sangue  pela palavra ira.

A cidade tem praças de palavras abertas
como estátuas mandadas apear.
A cidade tem ruas de palavras desertas
como jardins mandados arrancar.

A palavra sarcasmo é uma rosa rubra.
A palavra silêncio é uma rosa chá.
Não há céu de palavras que a cidade não cubra
não há rua de sons que a palavra não corra
à procura da sombra de uma luz que não há.

Ary dos Santos



- Postado por: Rodrigo às 00h18
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J. Rudyard Kipling: 30 de dezembro de 1865 — 18 de janeiro de 1936

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
Todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti, quando estão todos duvidando,
E para estes no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a derrota e o triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma a estes dois impostores
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
Em armadilhas as verdades que disseste
E, as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada,
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perdes e ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar, seja o que for que neles ainda existe
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
Resta a vontade em ti, que ainda te ordena: persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
E, entre reis, não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
Se és capaz de dar, segundo por segundo
Ao minuto fatal todo valor e brilho:
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo,
E - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu Filho!

Rudyard Kipling

Tradução de Guilherme de Almeida



- Postado por: Rodrigo às 00h07
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Queixa

Um amor assim delicado
Você pega e despreza
Não devia ter despertado
Ajoelha e não reza

Dessa coisa que mete medo
Pela sua grandeza
Não sou o único culpado
Disso eu tenho a certeza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim violento
Quando torna-se mágoa
É o avesso de um sentimento
Oceano sem água

Ondas, desejos de vingança
Nessa desnatureza
Batem forte sem esperança
Contra a tua dureza

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Um amor assim delicado
Nenhum homem daria
Talvez tenha sido pecado
Apostar na alegria

Você pensa que eu tenho tudo
E vazio me deixa
Mas Deus não quer que eu fique mudo
E eu te grito esta queixa

Princesa, surpresa, você me arrasou
Serpente, nem sente que me envenenou
Senhora, e agora, me diga onde eu vou
Senhora, serpente, princesa

Composição: N.Siqueira / E. Neves

Ouça esta música interpretada por Caetano Veloso:
http://br.youtube.com/watch?v=Uw2nko-S-PA



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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A Borboleta

Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama:
"Olha uma borboleta!". O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante da vida, murmura:
- Ah! sim, um lepidóptero...

Mario Quintana

In: Mario Quintana - Poesia Completa
Caderno H
Editora Nova Aguilar
p. 249



- Postado por: Rodrigo às 00h57
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"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

José Saramago

In: Viagem a Portugal
Ed. Companhia das Letras



- Postado por: Rodrigo às 00h47
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1. Feito na cerca em Chelas

Deitei-me sobre a fresca relva um dia,
E dando a um sono leve alguns instantes
C'os prazeres sonhei, que lá distantes
Debuxava a estragada fantesia.

Saturno vagaroso me trazia
Um diadema de lúcidos diamantes,
Enramado de mirtos odorantes,
O qual Cípria na fronte me cingia:

A Fortuna risonha se mostrava,
Mas no disco da roda vacilando
Voltando-a me levou quanto eu sonhava.

Já Délio para os mares ia olhando,
E Bóreas, que raivoso murmurava,
M' acordou, como dantes, suspirando.

Marquesa de Alorna

In: Sonetos
Organização: Vanda Anastácio
Ed. 7 Letras, Rio de Janeiro, 2007
p. 87



- Postado por: Rodrigo às 00h39
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Desexistir

Quando eu desisti
de me matar
já era tarde.

Desexistir
já era um hábito.
 
Já disparara 
a auto-bala:
cobra cega se comendo 
como quem cava
a própria vala.
 
Já me queimara.

Pontes, estradas,
memórias, cartas,
toda saída dinamitada.

Quando eu desisti 
não tinha volta.

Passara do ponto, 
já não era mais 
a hora exata.

Frederico Barbosa



- Postado por: Rodrigo às 17h37
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Epístola aos Novos Bárbaros

Jamais compreendereis a terrível simplicidade das minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros, naves...
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente pintadas,
e não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
e eu na verdade não vos trago a mensagem de nenhum deus.
Nem a minha...
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós
alimpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então nas almas tranfiguradas
não será do revôo dos anjos... Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.

Mario Quintana

In: Baú de Espantos



- Postado por: Rodrigo às 17h31
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Inimigo
 
Tssssshhhh...
Ouço uma lata de cerveja sendo aberta.
É pouco o teor alcoólico,
nenhuma vontade me desperta.
Vinho, licor, conhaque, rum,
deles não queria nenhum.
Talvez absinto,
pra afogar a dor que sinto.
Mas meu corpo não agüenta.
Às vezes ele até que tenta,
mas nunca passo de duas doses.
Queria permanecer alucinado
pra, quem sabe,
em sonhos tê-la a meu lado.
Mas não consigo, passo mal.
As dores da alma e do corpo se somam.
Talvez a embriaguez
me fizesse esquecê-la de vez,
mas nem isso eu consigo,
porque o amor que seria capaz
de trazer ao meu coração a paz,
é meu maior inimigo.

Cesar Veneziani



- Postado por: Rodrigo às 17h26
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Reviravolta

Todo o lixo que você
jogou no meu quintal,
imaginando em sua perfidez
acarretar-me todo o mal.
Eu lhe digo simplesmente
que tudo em adubo se transformou,
do qual nutri minhas raízes
e o que há de melhor em mim, frutificou.
Hoje você se martiriza
no malogro em que se meteu,
pois, poderia ter utilizado o seu tempo e energia
em seu benefício, e não no meu!

Américo Conte



- Postado por: Rodrigo às 18h05
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Dádiva

Derrama sobre mim a tua esperança de homem,
tanto tempo contida:
planta em meu solo a árvore da renovação,
mais alta do que a noite escura.

Larga a solidão, apaga a desesperança,
inventa um novo reino
onde as águas não são naufrágio,
nem o amor desengano.

Vem para esta enseada, onde há ventania
e risco, mas podes ancorar teu coração
depois da longa procura,
para que ele pouse e pulse e brilhe

como a estrela-do-mar em seu fundo
de oceano.

Lya Luft

In: Para não dizer adeus
Rio de Janeiro: Editora Record 2005
p. 73



- Postado por: Rodrigo às 17h56
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Martin Luther King Jr.: 15 de janeiro de 1929 – 4 de abril de 1968

"Nós aprendemos a voar no céu como os pássaros, a nadar no mar como os peixes, mas não aprendemos a simples arte de convivermos como irmãos. Nossa abundância material não nos trouxe paz mental nem serenidade espiritual"

Martin Luther King Jr.



- Postado por: Rodrigo às 17h51
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村上春樹 - 海辺のカフカ


"o que eu busco, isto é, a força que eu busco, não se relaciona com vitórias ou derrotas. tampouco procuro paredes capazes de rechaçar forças externas. o que eu busco é a força que me permita suportar com serenidade a injustiça, a falta de sorte, a tristeza, o mal-entendido e a incompreensão."

Haruki Murakami

In: Kafka à beira-mar



- Postado por: Rodrigo às 19h56
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Cassiano Ricardo: 26 de julho de 1895 — 14 de janeiro de 1974

É impossível que, na furtiva claridade,
que te visita sem estrela nem lua
não percebas o reflexo da lâmpada
com que te procuro pelas ruas da noite.

É impossível que, quando choras, não vejas
que uma das tuas lágrimas é minha.
É impossível que com o teu corpo de água jovem,
não adivinhes toda a minha sede.

É impossível não sintas que a rosa
desfolhada a teus pés, ainda há um minuto,
foi jogada por mim com a mão do vento.

É impossível não saibas que o pássaro,
caído em teu quarto por um vão da janela,
era um recado do meu pensamento.

Cassiano Ricardo



- Postado por: Rodrigo às 19h51
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Cassiano Ricardo: 26 de julho de 1895 — 14 de janeiro de 1974

VOCÊ E O SEU RETRATO

Por que tenho saudade
de você, no retrato,
ainda que o mais recente?

E por que um simples retrato,
mais que você, me comove,
se você mesma está presente?

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
já sem o enfeite das palavras,
tenha um ar de lembrança.

Talvez porque o retrato
(exato, embora malicioso)
revele algo de criança
(como, no fundo da água,
um coral em repouso)

Talvez pela idéia de ausência
que o seu retrato faz surgir
colocado entre nós-dois

(como um ramo de hortênsia)

Talvez porque o seu retrato,
embora eu me torne oblíquo,
me olha, sempre, de frente

(amorosamente)

Talvez porque o seu retrato
mais se parece com você
do que você mesma (ingrato).

Talvez porque, no retrato
você está imóvel,

(sem respiração...)

Talvez porque todo retrato
é uma retratação.

Cassiano Ricardo

In: A difícil manhã, 1960



- Postado por: Rodrigo às 19h47
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Aniversário!

Para quem no início queria apenas um espaço para arquivar textos que recebia com autoria meio duvidosa e postá-los corretamente, essa marca representa um incentivo enorme para mim. Quando o criei jamais pensei que tantas pessoas passariam aqui diariamente, já que fazer propaganda, parcerias desesperadas, votações duvidosas e status nunca foram a alma deste espaço e nem o meu objetivo. E, sim, o trabalho árduo, dedicação e sempre uma boa mensagem para citar e, nunca desvirtuar-se do objeto principal deste blog - as belas mensagens. Mas por que postar mensagens de outros autores seria tão árduo? Pelo simples fato de existirem pouquíssimas fontes fidedignas na internet que se preocupam em repassar a autoria correta, dando os verdadeiros créditos aos devidos escritores. Hoje, há uma enorme disseminação de textos falsos por "blogueiros CRTL+C e CRTL+V", e-mails em pps, nas comunidades criadas para os próprios escritores no Orkut e até mesmo através da mídia (exemplo: frases e textos do programa e do site "Mais Você" da Rede Globo). Discuta. Duvide sempre de tudo, principalmente quando lhe mandarem um Mario Quintana, Charles Chaplin, M. Gandhi, Carlos Drummond de Andrade, W. Shakespeare, Clarice Lispector, Luis Fernando Veríssimo, Chico Xavier, Arnaldo Jabor etc.

Gostaria de agradecer do fundo do coração a todos aqueles que dedicaram o seu tempo, por menor que seja, para visitarem meu blog, fazendo sugestões, críticas ou elogios. Espero poder compartilhar inúmeras outras marcas com vocês. Muito obrigado por tudo!



- Postado por: Rodrigo às 21h09
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Engrenagem

o oco de fora
o fóssil futuro
o leite da pedra
a reta flexível
o buraco cheio
o fim do meio
o peso do ar
para fazer funcionar
a engrenagem de uma peça só
o aqui do corpo
o tempo todo
a meta-metade
a outra versão da verdade
o aqui do aquilo
o contra-contrário
o ímpar par
para fazer funcionar
a engrenagem de uma peça só

Arnaldo Antunes



- Postado por: Rodrigo às 18h05
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James Joyce: 2 de Fevereiro de 1882 — 13 de Janeiro de 1941

A Pensão (trecho)

(...) Polly ficou sentada na cama, chorando. Passado algum tempo, enxugou os olhos e foi mirar-se no espelho. Molhou a ponta da toalha na jarra e refrescou os olhos. Contemplou-se de perfil e arrumou um grampo sobre a orelha. Voltou para a cama e sentou-se novamente. Ficou olhando os travesseiros que despertavam amáveis recordações. Recostou a nuca na grade fria da cama e caiu em devaneios. Já não havia em seu rosto a menor inquietação.

Esperou pacientemente, quase feliz, passando, pouco a pouco, de recordações a esperanças e visões do futuro. Imagens tão complicadas que ela já não enxergava os travesseiros, nem se lembrava de estar aguardando alguma coisa.

Finalmente, ouviu a mãe chamar. Levantou-se de um salto e correu para a escada.

- Polly! Polly!

- Sim, mamãe?

- Desce, querida. O senhor Doran quer falar com você.

Recordou-se então do que estava esperando.

James Joyce

In: Dublinenses
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. 4ª ed.
Trad. de Hamilton Trevisan.



- Postado por: Rodrigo às 17h56
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A ponte do arco-íris

"Neste lado do paraíso existe um lugar chamado ponte do arco-íris. Quando um animal morre, aqueles que foram especialmente queridos por alguém, vai para a ponte do arco-íris. Lá existem campos e colinas para todos os nossos amigos especiais, pois assim eles podem correr e brincar juntos. Lá existe abundância de comida, água e raios de sol, e nossos amigos estão sempre aquecidos e confortáveis. Todos os animais que já ficaram doentes e velhinhos estão renovados e com saúde e vigor; aqueles que foram machucados e mutilados estão perfeitos e fortes novamente, exatamente como nós nos lembramos deles nos nossos sonhos, dos dias que já se foram.

Os animais estão felizes e alegres, exceto por uma coisinha: cada um deles sente saudades de alguém que foi deixado para trás. Todos eles correm e brincam juntos, mas chega um dia em que um deles para de repente e olha fixo na distância. Seus olhos brilhantes estão atentos; seu corpo fica impaciente e começa a tremer levemente. De repente, ele se separa do grupo, voando por sobre a grama verde, mais e mais rápido.

Você foi visto, e quando você e seu amigo especial finalmente se encontrarem, ficarão unidos num reencontro de alegria, para nunca mais se separarem. Os beijos de felicidade vão chover na sua face; suas mãos vão novamente acariciar a tão amada cabecinha, e você vai olhar mais uma vez dentro daqueles olhos cheios de confiança, que há muito tempo haviam partido da sua vida, mas que nunca haviam se ausentado do seu coração. Então vocês, juntos, cruzarão a ponte do arco-íris."

Autoria Desconhecida

Texto publicado na coluna de Danuza Leão com o título "Como seríamos felizes", Folha Cotidiano, Folha de S. Paulo (11.01.2009).



- Postado por: Rodrigo às 17h49
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ARTE POÉTICA

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

Jorge Luis Borges

In: O Fazedor



- Postado por: Rodrigo às 17h56
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Rubem Braga: 12 de janeiro de 1913 — 19 de dezembro de 1990

O Pavão

Eu considerei a glória de um pavão ostentando o esplendor de suas cores; é um luxo imperial. Mas andei lendo livros, e descobri que aquelas cores todas não existem na pena do pavão. Não há pigmentos. O que há são minúsculas bolhas d'água em que a luz se fragmenta, como em um prisma. O pavão é um arco-íris de plumas.

Eu considerei que este é o luxo do grande artista, atingir o máximo de matizes com o mínimo de elementos. De água e luz ele faz seu esplendor; seu grande mistério é a simplicidade.

Considerei, por fim, que assim é o amor, oh! minha amada; de tudo que ele suscita e esplende e estremece e delira em mim existem apenas meus olhos recebendo a luz de teu olhar. Ele me cobre de glórias e me faz magnífico.

Rio, novembro, 1958

Rubem Braga

Texto extraído do livro "Ai de ti, Copacabana", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 149.



- Postado por: Rodrigo às 17h46
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Charles Perrault: 12 de janeiro de 1628 — 16 de maio de 1703

"Moral:

Vimos que os jovens,
Principalmente as moças,
Lindas, elegantes e educadas,
Fazem muito mal em escutar
Qualquer tipo de gente.
Assim, não será de estranhar
Que, por isso, o lobo as devore.
Eu digo o lobo porque todos os lobos
Não são do mesmo tipo.
Existe um que é manhoso,
Macio, sem fel, sem furor.
Fazendo-se de íntimo, gentil e adulador,
Persegue as jovens moças
Até em suas casas e seus aposentos.
Atenção, porém!
As que não sabem
Que esses lobos melosos
De todos eles são os mais perigosos."

Charles Perrault

In: O Chapeuzinho Vermelho.
Porto Alegre: Kuarup, 1987

Charles Perrault foi um escritor e poeta francês do século XVII, que estabeleceu bases para um novo gênero literário, o conto de fadas, além de ter sido o primeiro a dar acabamento literário a esse tipo de literatura, feito que lhe conferiu o título de Pai da Literatura Infantil. Suas histórias mais conhecidas são Le Petit Chaperon rouge (Chapeuzinho Vermelho), La Belle au bois dormant (A Bela Adormecida), Le Maître chat ou le Chat botté (O Gato de Botas), Cendrillon ou la petite pantoufle de verre (Cinderella), La Barbe bleue (Barba Azul) e Le Petit Poucet (O Pequeno Polegar).



- Postado por: Rodrigo às 17h40
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IDEAL

Aquela, que eu adoro, não é feita
De lírios e nem de rosas purpurinas,
Não tem as formas lânguidas, divinas,
Da antiga Vênus de cintura estrita...  

Não é a Circe, cuja mão suspeita
Compõe filtros mortais entre ruínas,
Nem a Amazona, que se agarra às crinas
Dum corcel e combate satisfeita...

A mim mesmo pergunto, e não atino
Com o nome que dê a essa visão,
Que ora amostra ora esconde o meu destino...  

É como uma miragem, que entrevejo,
Ideal, que nasceu na solidão,
Nuvem, sonho impalpável do desejo...

ANTERO DE QUENTAL

In: Sonetos Escolhidos
Seleção e Introdução: Torrieri Guimaraes
São Paulo: Livraria Exposição do Livro, 1966
p. 39



- Postado por: Rodrigo às 18h01
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Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.

Emily Dickinson



- Postado por: Rodrigo às 00h30
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Um dia somos concebidos casual ou propositadamente e dão-nos à luz, e moldam-nos os sentimentos e a inteligência, quando não nos abandonam aos caprichos da sorte, até o dia que nos fazemos conscientes. Então uma vontade em nós se revela, mas quase inevitavelmente entramos em choque com as circunstâncias que nos rodeiam (...) Enquanto a morte não vem, a vida passa vazia, efêmera e inglória.  

Elisa Lispector

In: Além da Fronteira
Rio de Janeiro: José Olympio, 1988
p. 18



- Postado por: Rodrigo às 00h23
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Oswald de Andrade: 11 de janeiro de 1890 — 22 de outubro de 1954

CANTO DO REGRESSO À PÁTRIA
 
Minha terra tem palmares
onde gorjeia o mar
Os passarinhos daqui
Não cantam como os de lá
 
Minha terra tem mais rosas
E quase que mais amores
Minha terra tem mais ouro
Minha terra tem mais terra
 
Ouro terra amor e rosas
Eu quero tudo de lá
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte para lá
 
Não permita Deus que eu morra
Sem que volte pra São Paulo
Sem que veja a Rua 15
E o progresso de São Paulo
 
Oswald de Andrade

In: Pau-Brasil (1925)
4a. edição - São Paulo - Ed. Globo, 1991



- Postado por: Rodrigo às 00h12
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AQUELE

Porque era um rapaz bom e resignado
que tão tristemente costumava passar
sob o teu olhar, porque um amargurado
coração vias atrás do seu olhar...

tu jamais o amaste. Um sonho dourado
que alto se vê batendo as brancas asas
foste para o pobre rapaz esquecido
com sua grande mágoa: tristeza de amar...

Porém na agitação das tuas alegrias
ou no fatigado rolar dos teus dias
amargos, tu nunca poderás encontrar

o grande carinho daquele ignorado
coração que ficou para sempre amargado
pela pena grande de amar, de amar...

Pablo Neruda

In: Cadernos de Temuco
Prólogo e edição: Víctor Farías; tradução: Thiago de Mello
Ed. Bertrand Brasil, 1998
p. 61



- Postado por: Rodrigo às 00h26
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"Aprendi que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Isso ajudou-me muito na vida, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas verticais..."

Albert Camus

In: Futebol: sol e sombra, de Eduardo Galeano, editado pela Livros de Areia, 2006. Edição original: El futbol a sol y sombra (1995).



- Postado por: Rodrigo às 00h18
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José Américo de Almeida: 10 de janeiro de 1887 — 10 de março de 1980

Há muitas formas de dizer a verdade. Talvez a mais persuasiva seja a que tem a aparência de mentira.

* * *

A alma semibárbara só é alma pela violência dos instintos. Interpretá-la com uma sobriedade artificial seria tirar-lhe a alma.

* * *

O regionalismo é o pé-de-fogo da literatura... Mas a dor é universal, porque é uma expressão de humanidade. E nossa ficção incipiente não pode competir com os temas cultivados por uma inteligência mais requintada: só interessará por suas revelações, pela originalidade de seus aspectos despercebidos.

* * *

Um romance brasileiro sem paisagem seria como Eva expulsa do paraíso. O ponto é suprimir os lugares-comuns da natureza.

José Américo de Almeida

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 00h09
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João Cabral de Melo Neto: 9 de janeiro de 1920 – 9 de outubro de 1999

Pregão Turístico de Recife

A Otto Lara Resende

Aqui o mar é uma montanha
regular redonda e azul,
mais alta que os arrecifes
e os mangues rasos ao sul.

Do mar podeis extrair,
do mar deste litoral,
um fio de luz precisa,
matemática ou metal.

Na cidade propriamente
velhos sobrados esguios
apertam ombros calcários
de cada lado de um rio.

Com os sobrados podeis
aprender lição madura:
um certo equilíbrio leve,
na escrita, da arquitetura.

E neste rio indigente,
sangue-lama que circula
entre cimento e esclerose
com sua marcha quase nula,

e na gente que se estagna
nas mucosas deste rio,
morrendo de apodrecer
vidas inteiras a fio,

podeis aprender que o homem
é sempre a melhor medida.
Mais: que a medida do homem
não é a morte mas a vida.

João Cabral de Melo Neto

In: Serial e antes
Editora Nova Fronteira
Rio de Janeiro, 1997
p. 119-120



- Postado por: Rodrigo às 19h01
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Livros

Tropeçavas nos astros desastrada
Quase não tínhamos livros em casa
E a cidade não tinha livraria
Mas os livros que em nossa vida entraram
São como a radiação de um corpo negro
Apontando pra a expansão do Universo
Porque a frase, o conceito, o enredo, o verso
(E, sem dúvida, sobretudo o verso)
É o que pode lançar mundos no mundo.

Tropeçavas nos astros desastrada
Sem saber que a ventura e a desventura
Dessa estrada que vai do nada ao nada
São livros e o luar contra a cultura.

Os livros são objetos transcendentes
Mas podemos amá-los do amor táctil
Que votamos aos maços de cigarro
Domá-los, cultivá-los em aquários,
Em estantes, gaiolas, em fogueiras
Ou lançá-los pra fora das janelas
(Talvez isso nos livre de lançarmo-nos)
Ou ¬ o que é muito pior ¬ por odiarmo-los
Podemos simplesmente escrever um:

Encher de vãs palavras muitas páginas
E de mais confusão as prateleiras.
Tropeçavas nos astros desastrada
Mas pra mim foste a estrela entre as estrelas.

Composição: Caetano Veloso

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=7vV22LRNrpk 



- Postado por: Rodrigo às 18h57
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A verdadeira arte de viajar

A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa,
Como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo...
Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali...
Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!

Mario Quintana

In: A cor do invisível
São Paulo: Globo, 1994



- Postado por: Rodrigo às 21h27
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Cegueira Bendita

Ando perdida nestes sonhos verdes
De ter nascido e não saber quem sou,
Ando ceguinha a tatear paredes
E nem ao menos sei quem me cegou!

Não vejo nada, tudo é morto e vago...
E a minha alma cega, ao abandono
Faz-me lembrar o nenúfar dum lago
´Stendendo as asas brancas cor do sonho...

Ter dentro d´alma na luz de todo o mundo
E não ver nada nesse mar sem fundo,
Poetas meus irmãos, que triste sorte!...

E chamam-nos a nós Iluminados!
Pobres cegos sem culpas, sem pecados,
A sofrer pelos outros 'té à morte!

Florbela Espanca

In: Trocando olhares - 24/04/1917



- Postado por: Rodrigo às 21h17
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Senti um féretro em meu cérebro

Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar - a pisar - até eu sonhar
Meus sentidos fugindo -

E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício -
Bateu - bateu - até eu sentir
Inerte o meu juízo

E eu as ouvi - erguida a Tampa -
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço dobrou

Como se os Céus fossem um sino
E o Ser apenas um Ouvido
E eu e o silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui -

Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão -
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo - então -

Emily Dickinson (EUA, 1830 - 1886)

In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp



- Postado por: Rodrigo às 21h08
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Soneto 141

Sendo sincero, não te amo com meus olhos
que em ti notam mil erros no cotejo;
mas ama o coração esses escolhos,
a adorar-te apesar do que ora vejo.
Nem de ouvi-lo teu tom de voz me prende,
Nem terno instinto pede baixo abrigo,
nem gosto ou cheiro o meu desejo acende
de festa sensual a sós contigo.
Mas cinco humores, cinco sentidos tomem,
que ao coração não hão-de desviá-lo
de te servir, descontrolando um homem,
escravo de teu peito e teu vassalo.
Só o meu mal posso contar por ganho;
de quem me faz pecar, o mal apanho.

William Shakespeare



- Postado por: Rodrigo às 18h29
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PRINCÍPIO E FIM

Nascem versos em nós como se de ervas
surgissem florestas.
Noite ou manhã, que importa só
conta para a vida haver navios
cavando as ondas té ao fundo...
Todas as horas são manhã para quem vai
consigo sem ir só
até o fim do mundo.

Adolfo Casais Monteiro

In: Presença da Literatura Portuguesa
V Modernismo por Massaud Moisés
DIFEL - Difusão Editorial S.A
p. 110



- Postado por: Rodrigo às 18h25
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Josué Guimarães: 7 de janeiro de 1921 — 23 de março de 1986

O velho concordou com a cabeça, enquanto chupava o mingau que vinha na ponta da colher. Dona Conceição fazia que sim com a cabeça e naquele momento sentiu muita pena do coveiro, que ainda estava naquele lugar esquecido à espera de que eles morressem e fossem enterrados em sepulturas decentes, e talvez ainda plantasse uma florzinha qualquer no montículo de terra. A morte não assustava nenhum deles, e só não falavam sobre ela por uma questão de pudor, porque os filhos haviam morrido, os netos, os primos, os irmãos, até aquela cidade morrera aos poucos, numa agonia lenta, mas bem visível (...).

Josué Guimarães

In: Enquanto a Noite não Chega
Ed. L & PM, 1992



- Postado por: Rodrigo às 18h22
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Khalil Gibran: 6 de janeiro de 1883 – 10 de abril de 1931

" Um dia, veio à corte do Príncipe de Birkasha, uma dançarina e seus músicos. ... e ela foi aceita na corte... e ela dançou a música da flauta, da cítara e do alaúde. Ela dançou a dança das chamas e do fogo, a dança das espadas e das lanças; e ela dançou a dança das flores ao vento. Ao terminar, virou-se para o príncipe e fez uma reverência. Ele então, pediu-lhe que viesse mais perto e perguntou-lhe: Linda mulher, filha da graça e do encantamento, de onde vem tua arte e como é que comandas todos os elementos em seus ritmos e versos?

A dançarina aproximou-se, e curvando-se diante do príncipe disse: Majestade, respostas eu não tenho às vossas perguntas. Somente isso eu sei: a alma do filósofo vive em sua cabeça, a alma do poeta vive em seu coração, a alma do cantor vive em sua garganta, mas a alma da dançarina habita em todo o seu corpo."  (O Errante)

Khalil Gibran

In: Os Mais belos pensamentos de Gibran
Seleção e trad. Mansour Challita
ACIGI



- Postado por: Rodrigo às 17h25
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Elisa Lispector: 24 de julho de 1911 — 6 de janeiro de 1989

E postada assim frente ao oceano imenso e o céu infindo, diante dos quais as palavras são meras palavras, recordo o salmo que diz: permanece em silêncio e conhecerás o teu Deus.  Vale dizer, permanece em silêncio e apascentarás a tua dor, porque na tua fé em teu Deus encontrarás o consolo de todas as tuas mágoas, de todo o teu pesar. E te bastarás.

Elisa Lispector

In: Corpo-a-corpo
Rio de Janeiro: Edições Antares, 1983
p. 56

A exemplo da irmã e também escritora Clarice Lispector, algumas de suas obras caracterizam-se pela exacerbação do momento interior e ruptura com o enredo factual, embora de forma menos acentuada.



- Postado por: Rodrigo às 00h13
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Alone

Não se pode fazer nada sem a solidão

Pablo Neruda

Tente abraçar alguém no trabalho, pela manhã. Pega mal, vão dizer que você precisa de terapia. // Mas tente roubar um beijo no meio da madrugada. Você será visto como um herói entre os tímidos. // Tente o afeto de tarde, em plena rua. Tente abraçar demoradamente um guarda de trânsito. // Você será preso. Preso e condenado. // Porque o afeto não é algo simples e discreto. Afeto não é rápido, fácil e prático. // Afeto não funciona com álcool e gasolina simultaneamente. // O amor como audácia. Tente secar um mar de dureza. Tente a leveza. // Aos jovens, um céu dos infernos. Tente flutuar sozinho... tente trocar alucinógenos por carinho.

André Dahmer

André Dahmer é pintor, ilustrador e criador dos Malvados. Carioca, nasceu em 1974 e é formado em Design pela PUC-Rio. Este texto foi retirado do quadrinho publicado no encarte Folhateen, p. 12 - Folha de S. Paulo do dia 05.01.2009.



- Postado por: Rodrigo às 00h06
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スプートニクの恋人 (村上春樹)

"Então me ocorreu que, apesar de sermos companheiras de viagem maravilhosas, no fundo, não passávamos de duas massas solitárias de metal em suas próprias órbitas separadas. À distância, parecem belas estrelas cadentes, mas, na realidade, não passam de prisões, em que cada uma de nós está trancada, sozinha, indo a lugar nenhum. Quando as órbitas desses dois satélites se cruzam, acidentalmente, podemos estar juntas. Talvez, até mesmo, abrir nossos corações uma à outra. Mas só por um breve momento. No instante seguinte, estaremos na solidão absoluta. Até nos queimarmos completamente e nos tornarmos nada."

Haruki Murakami

In: Minha querida Sputnik



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Umberto Eco: 5 de janeiro de 1932

"Agora sei que causa do amor é o bem, e o que é bem define-se por conhecimento, e não se pode amar senão aquilo que se apreendeu como bem."

* * *

"O limite entre o veneno e o medicamento é bastante tênue, os Gregos chamavam a ambos pharmacon."

* * *

"Pode-se pecar por excesso de loquacidade e por excesso de reticência. Eu não queria dizer que é necessário esconder as fontes da ciência. Isso me parece antes um grande mal. Queria dizer que, em se tratando de arcanos dos quais pode nascer tanto o bem como o mal, o sábio tem o direito e o dever de usar uma linguagem obscura, compreensível somente a seus pares. O caminho da ciência é difícil e é difícil distinguir nele o bem do mal."

Umberto Eco

In: O Nome da Rosa
Editora: Record, 1986
págs. diversas



- Postado por: Rodrigo às 12h20
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" - Sabe, quando disse que não sabia muito sobre o amor... não era verdade. Sei muito sobre o que é o amor. Eu já o vi... por séculos e séculos. Saiba que essa é única coisa que talvez me faça olhar para o seu mundo de modo suportável... Todas as guerras, dor, mentiras... ódio me faz querer dar meia-volta e nunca mais olhar para baixo. Mas, observar a maneira de como a humanidade ama. Você pode procurar a maior riqueza de todo o universo e nunca encontrará nada mais lindo. Então... sim, eu sei que o amor é incondicional. Mas também sei que pode ser imprevisível, inesperado, incontrolável, insuportável, e bem... estranhamente fácil de achar que está odiando. O que eu estou tentando dizer Tristan [Charlie Cox], é... eu acho que estou te amando. Meu coração, parece que... meu peito, mal consegue conter... Como se ele não mais me pertencesse. Como se pertencesse à você. E se você o quiser, eu não quero nada em troca. Não precisa dar presentes, sem bondades, sem demonstrações de devoção. Nada além de saber que também me ama. Só o seu coração em troca do meu..."

Trecho de Yvaine [Claire Danes] do filme "Stardust - O Mistério da Estrela", 2007, dirigido por Matthew Vaughn - filme baseado na novela de Neil Gaiman com o mesmo nome, ilustrada por Charles Vess e originalmente publicada por DC Comics.



- Postado por: Rodrigo às 00h36
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Teu Olhar, Meus Olhos

Olhei teus olhos
Vi o meu olhar e
Uma luz nasceu

Fechei meus olhos
Vi o seu olhar e
Tanto amor cresceu

E vi o brilho dos teus olhos
Brilhar no mundo dos meus sonhos
Me vi no fundo dos teus olhos
Brincamos juntos tantos sonhos

Amor o sonho
Nunca vai mudar em
Teu olhar, teu olhar, meus olhos

Composição: F. Venturini , Zé Eduardo, Paulo Oliveira



- Postado por: Rodrigo às 00h18
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Os Outros e eu

Durante um simples momento de reflexão chego a várias conclusões em relação a um só tema: "os outros e eu". Toda a minha vida fui solenemente criticado por exigir demasiado dos outros. Sempre que eu me queixava era acusado de estar a demandar algo a que não tinha direito. Os anos foram passando e os amigos diminuindo. Já não confio em ninguém a 100 % e tenho plena consciência de que mais cedo ou mais tarde me vão desiludir. Mas mesmo depois de tantas acusações, eu continuo a afirmar: a razão está do meu lado!! Venha quem vier, eu não acredito que haja alguém neste mundo que dê algo sem querer nada em troca. Seja um bem material ou não. A amizade não foge à regra! Tudo o que damos de nós a alguém também queremos que essa pessoa nos dê a nós! É a tão falada "reciprocidade"! Só que pelos vistos esta palavra não consta no vocabulário das pessoas que se relacionam comigo!

É triste quando damos tanto de nós e depois nos apercebemos de que as nossas ações não são valorizadas! Esta sina de ser constantemente desiludido irrita-me profundamente! Dizem que a minha sinceridade magoa. Que a única coisa que sei fazer é criticar (esquecem-se que quem critica também elogia). Acho que vou começar a usar a frase que um dia um amiga meu disse "Preferes uma resposta simpática ou sincera?".

É desgostoso ver as pessoas discutirem problemas por telefone. Porque é que "elas" têm tanta coragem para umas coisas e para outras não? Custa assim tanto enfrentar um amigo e dizer "olha, não gostei disto e daquilo..."! Eu pelo menos, quando tenho algum problema com alguém, olho nos olhos da pessoa e falo, critico, aconselho, etc. Chamem-me o que quiserem, mas eu continuo a achar que uma resposta sincera é bem melhor que uma resposta simpática! Odeio mentiras! Odeio gente sem caráter!



- Postado por: Rodrigo às 00h11
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Schlafstörung. Versuche zu schlafen!

Amor

O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
são dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido.

"Amor" - eu disse - floriu uma rosa
embalsamando a tarde melodiosa
no canto mais oculto do jardim,
mas seu perfume não chegou a mim.

Carlos Drummond de Andrade

In: Amar se Aprende Amando
p. 1278



- Postado por: Rodrigo às 03h46
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Henrique de Sousa Filho: 5 de fevereiro de 1944 - 4 de janeiro de 1988

São Paulo, 1º de setembro de 1978.


 "Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor. Nunca amei uma pessoa. E tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho, por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês. Um dia, vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil: vou ser o mais feliz de vocês. Henfil"

In: Cartas da Mãe
Ed. Codecri, 1980.

 Assista aqui as três partes do documentário 'Cartas da mãe' (Fernando Kinas & Marina Willer - 2003) sobre o Brasil dos últimos 30 anos contada através das cartas que o cartunista Henfil escreveu para sua mãe, Dona Maria. Estas cartas, publicadas em livros e jornais, são lidas pelo ator e diretor Antônio Abujamra enquanto desfilam imagens do Brasil contemporâneo. Política, cultura, amigos e amor são alguns dos temas que elas evocam, criando um diálogo entre o passado recente do Brasil e nossa situação atual:

http://br.youtube.com/watch?v=VUgpEL9Cauo
http://br.youtube.com/watch?v=hU8tTMxKPMo
http://br.youtube.com/watch?v=3N0CQdK_6po



- Postado por: Rodrigo às 03h21
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Casimiro de Abreu: 4 de janeiro de 1839 — 18 de outubro de 1860

Clara

Não sabes, Clara, que pena
eu teria se - morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez... quem sabe... não digo...
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
- A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
- O teu sorriso é delírio...
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

Casimiro de Abreu



- Postado por: Rodrigo às 03h09
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Trecho de Marley & eu

"Pensei muito em como descrevê-lo, e foi isto que resolvi dizer: 'Nunca ninguém disse que ele era um grande cachorro - ou mesmo um bom cachorro. Ele era tão selvagem quanto uma banshee irlandesa e tão forte quanto um touro. Ele atravessava a vida alegremente com um gosto mais freqüentemente associado aos desastres naturais. Ele foi o único cão que conheci que foi expulso da escola de adestramento.' [...] Ele não era só isso, no entanto, e descrevi sua intuição e empatia, sua delicadeza com crianças, seu coração puro.

[...] 'Marley me ensinou a viver cada dia com alegria e exuberância desenfreadas, aproveitar cada momento e seguir o que diz o coração. Ele me ensinou a apreciar coisas simples - um passeio pelo bosque, uma neve recém-caída, uma soneca sob o sol de inverno. E enquanto envelhecia e adoecia, ensinou-me a manter o otimismo diante da adversidade. Principalmente, ele me ensinou sobre a amizade e o altruísmo e, acima de tudo, sobre lealdade incondicional'.

John Grogan

In: Marley & eu: a vida e o amor ao lado do pior cão do mundo (Marley & me: life and love with the world's worst dog)
Prestígio Editorial, um selo da Ediouro Publicação
Tradução:Thereza Christina Rocque da Motta e Elvira Serapicos
sítio: www.marleyandme.com



- Postado por: Rodrigo às 00h10
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E o resto, são pequenos nadas... adeus

(...) "Há um tempo em que é preciso abandonar
as roupas usadas, que já têm a forma do corpo,
e esquecer os nossos caminhos,
que nos levam sempre aos mesmos lugares.
É o tempo da travessia:
e se não ousarmos fazê-la,
teremos ficado, para sempre,
à margem de nós mesmos."

Fernando Teixeira de Andrade

* * *

Resposta padrão

Eu tentei, juro que tentei. Acho que fiz o impossível ao tentar separar a amizade do sentimento monstruoso que nos liga. Mas eu consegui, só que tu não. Coloquei-te acima de tudo e todos e, no entanto, exigia de ti o mesmo que daqueles a quem chamo de amigos. Justifiquei todas as tuas falhas com argumentos que chegavam a ser absurdos. Pensei sempre que conseguirias ser amigo já que não podias ser mais que isso, mas estava enganada. E tudo porque não soubeste lidar com o que sentias! Quando se gosta e não se quer gostar... começa a haver instabilidade, a qual produz consequências inevitáveis, como o fim de uma amizade que poderia durar uma eternidade.



- Postado por: Rodrigo às 00h03
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Pessoas sedentas de poder são psicologicamente doentes. Sofrem de complexo de inferioridade; sentem-se feridas no fundo de si mesmas. Desejam ficar no poder para convencer a si mesmas de que são algo, e para convencê-lo de que você não pode tomá-las como comuns; são pessoas extraordinárias. E lembre-se, este é o desejo mais ordinário, o de ser extraordinário - um desejo muito ordinário, muito comum, encontrado em todos.

A pessoa verdadeiramente extraordinária é aquela que não tem desejo de ser extraordinária, que está completamente à vontade com sua ordinariedade.

Osho

In: Escute seu coração
Editora Gente, 2001
p. 27



- Postado por: Rodrigo às 21h40
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21.
 
minha desilusão e desejo foram folhetinescos
eu fui uma maria louca, uma anã das lágrimas
personagens cujos nomes trazem um destino
fui tereza dos anjos, vera das cruzes
chorei mais que em novela das oito
glória dos aflitos, santa dos mistérios
sofri em silêncio e aos gritos
rita das trevas, cássia das dores, rosa noturna
fui uma fátima de todos os lamentos
até que um dia me vi atendida em meus pedidos
sem prévio aviso não havia mais sufoco em meu peito
nem homem algum no pensamento
rebatizada: helena das flores, clara do sol
doeu também o amor deposto
visto que todo sentimento que some também é abandono
mas respiro melhor como rosa dos ventos, serena da silva

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 28



- Postado por: Rodrigo às 00h28
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Metade

Que a força do medo que tenho
Não me impeça de ver o que anseio.

Que a morte de tudo em que acredito
Não me tape os ouvidos e a boca
Porque metade de mim é o que eu grito
Mas a outra metade é silêncio.

Que a música que ouço ao longe
Seja linda ainda que tristeza
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada
Mesmo que distante
Porque metade de mim é partida
Mas a outra metade é saudade.

Que as palavras que eu falo
Não sejam ouvidas como prece e nem repetidas com fervor
Apenas respeitadas
Como a única coisa que resta a um homem inundado de sentimentos
Porque metade de mim é o que ouço
Mas a outra metade é o que calo.

Que essa minha vontade de ir embora
Se transforme na calma e na paz que eu mereço
Que essa tensão que me corrói por dentro
Seja um dia recompensada
Porque metade de mim é o que eu penso e a outra metade é um vulcão.

Que o medo da solidão se afaste, que o convívio comigo mesmo se torne ao menos suportável.

Que o espelho reflita em meu rosto um doce sorriso
Que eu me lembro ter dado na infância
Por que metade de mim é a lembrança do que fui
Mas a outra metade eu não sei.

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria
Pra me fazer aquietar o espírito
E que o teu silêncio me fale cada vez mais
Porque metade de mim é abrigo
Mas a outra metade é cansaço.

Que a arte nos aponte uma resposta
Mesmo que ela não saiba
E que ninguém a tente complicar
Porque é preciso simplicidade pra fazê-la florescer
Porque metade de mim é a platéia
A outra metade é a canção.

E que a minha loucura seja perdoada
Porque metade de mim é amor
E a outra metade também.

Composição: Oswaldo Montenegro

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=yWu2iAaAJUc



- Postado por: Rodrigo às 00h23
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Daisaku Ikeda: 2 de janeiro de 1928

Praia de Morigasaki

Estou com meu amigo
na praia de Morigasaki.
Forte é o perfume do mar,
frente às ondas que se afastam.
Temos dezenove anos.
Que caminho seguiremos?
Ficamos filosofando
enquanto as horas se vão.
Meu amigo se perturba
no seu jeito desvalido:
"O que eu quero seguir
é o caminho de Cristo!"
No luar, os olhos brilham,
bate firme o coração:
as ondas chegam de novo.

No barranco que desmorona
a relva ainda cresce espessa.
Não sei que insetos zunem.
Vamos compor hoje à noite
alguns poemas ou canções?
Nossa música terá
o tom das antigas cortes?

Nada diz o meu amigo.
Que caminho escolherei
para que eu chegue a voar
lá pelos jardins da lua?
O amigo enxuga as lágrimas.
Reparto a sua tristeza,
sua solidão. Mas me ergo
e lhe peço que façamos uma jura:
a de enfrentar a vida,
a de amar a vida,
ainda que ela nos doa.
Então o amigo sorri:
"Comigo podes contar!"

Um mundo bem diferente
o meu amigo procura.
Mas eu tenho o meu caminho.
Num palco uma canção nova
Que nunca chega ao seu fim
e os cabelos ficam brancos
conversando com a lua.

Boa sorte, meu amigo.
Em nosso primeiro encontro -
quando há de ser ninguém sabe -
Silenciosos partiremos
para diferentes rumos.
Ondas de prata vão e vêm
na praia de Morigasaki.

Daisaku Ikeda

In: Cantos do Meu Coração, Poemas e Fotografias de Daisaku Ikeda,
Rio de Janeiro, Editora Record, 1995.
págs. 29-30



- Postado por: Rodrigo às 00h13
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Impressionista

Uma ocasião,
meu pai pintou a casa toda
de alaranjado brilhante.
Por muito tempo moramos numa casa
como ele mesmo dizia:
constantemente amanhecendo.

Adélia Prado 



- Postado por: Rodrigo às 12h30
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Assim seja, assim é e assim será.

Oração do Perdão

Buscando eliminar todos os bloqueios que atrapalham minha evolução, dedicarei alguns minutos para perdoar. A partir deste momento, eu perdôo todas as pessoas que de alguma forma me ofenderam, injuriaram, prejudicaram ou causaram dificuldades desnecessárias. Perdôo, sinceramente, quem me rejeitou, odiou, abandonou, traiu, ridicularizou, humilhou, amedrontou, iludiu.

Perdôo, especialmente, quem me provocou até que eu perdesse a paciência e reagisse violentamente, para depois me fazer sentir vergonha, remorso e culpa inadequada. Reconheço, que também fui responsável pelas agressões que recebi, pois várias vezes confiei em indivíduos negativos, permiti que me fizessem de bobo e descarregassem sobre mim seu mau caráter.

Por longos anos suportei maus tratos, humilhações, perdendo tempo e energia, na tentativa inútil de conseguir um bom relacionamento com essas criaturas.

Já estou livre da necessidade compulsiva de sofrer, e livre da obrigação de conviver com indivíduos e ambientes tóxicos. Iniciei agora, uma nova etapa de minha vida, em companhia de gente amiga, sadia e competente: quero compartilhar sentimentos nobres, enquanto trabalhamos pelo progresso de todos nós.

Jamais voltarei a me queixar, falando sobre mágoas e pessoas negativas. Se por acaso pensar nelas, lembrarei que já estão perdoadas e descartadas de minha vida íntima definitivamente. Agradeço pelas dificuldades que essas pessoas me causaram, que me ajudaram a evoluir, do nível humano comum ao espiritualizado em que estou agora.

Quando me lembrar das pessoas que me fizeram sofrer, procurarei valorizar suas boas qualidades e pedirei ao Criador que as perdoe também, evitando que sejam castigadas pela lei da causa e efeito, nesta vida ou em outras futuras. Dou razão a todas as pessoas que rejeitaram o meu amor e minhas boas intenções, pois reconheço que é um direito que assiste a cada um me repelir, não me corresponder e me afastar de suas vidas.

(Fazer uma pausa, respirar profundamente algumas vezes, para acúmulo de energia).

Agora, sinceramente, peço perdão a todas as pessoas a quem, de alguma forma, consciente e inconscientemente, eu ofendi, injuriei, prejudiquei ou desagradei. Analisando e fazendo julgamento de tudo que realizei ao longo de toda a minha vida, vejo que o valor das minhas boas ações é suficiente para pagar todas as minhas dívidas e resgatar todas as minhas culpas, deixando um saldo positivo a meu favor.

Sinto-me em paz com minha consciência e de cabeça erguida respiro profundamente, prendo o ar e me concentro para enviar uma corrente de energia destinada ao Eu Superior. Ao relaxar, minhas sensações revelam, que este contato foi estabelecido.

Agora dirijo uma mensagem de fé ao meu Eu Superior, pedindo orientação, em ritmo acelerado, de um projeto muito importante que estou mentalizando e para o qual já estou trabalhando com dedicação e amor.

Agradeço de todo o coração, a todas as pessoas que me ajudaram e comprometo-me a retribuir trabalhando para o meu bem e do próximo, atuando como agente catalisador do entusiasmo, prosperidade e auto realização. Tudo farei em harmonia com as leis da natureza e com a permissão do nosso Criador, eterno, infinito, indescritível que eu, intuitivamente, sinto como o único poder real, atuante dentro e fora de mim.

Assim seja, assim é e assim será.

Observação: Orar diariamente, após o banho e antes de dormir. Pedir para que durante o sono recebas sabedoria divina, compaixão divina e força divina. Jamais durma com o corpo físico "sujo" e sem alimentar a alma. Orações e mantras são alimentos da alma.



- Postado por: Rodrigo às 01h41
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fogos
ardentes na pele

artifícios
amor e paixão

artífices
do espetáculo

esta noite
me tragam a lua
e o teu sorriso

nada mais
não quero estes fogos artificiais
hoje não

Lou Melegaro



- Postado por: Rodrigo às 01h28
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