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Feliz Natal


Feliz Ano Novo ! Feliz 2009 !

Reflexivo

O que não escrevi, calou-me.
O que não fiz, partiu-me.
O que não senti, doeu-se.
O que não vivi, morreu-se.
O que adiei, adeu-se.    

Affonso Romano de Sant'Anna

In: O lado esquerdo do meu peito - Ed. Rocco, 1992



- Postado por: Rodrigo às 00h24
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RECEITA DE ANO NOVO

Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)

Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumidas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.

Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.

Carlos Drummond de Andrade

Texto extraído do "Jornal do Brasil", Dezembro/1997.



- Postado por: Rodrigo às 00h19
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(...) Rodai o zodíaco, fazei girar a rosa-dos-ventos, sacudi a ampulheta, gastai calendários, despojai primaveras e enfeitai outonos, matai luas e ressuscitai luas, trazei pessoas, levai fantasmas, descei e subi rios, atravessai a terra em longo e largo, levantai cidades e castelos de cartas, misturai as flores dos caleidoscópios, fechai os olhos, abri e fechai janelas, portas, palavras... Jogai para longe os vossos sapatos com a poeira de tanto andar, e os vossos lenços com lágrimas de tanto adeus.

Cecília Meireles

In: Narciso e o Caracol (crônica publicada no jornal "A Manhã" em 30/10/1941, incluída no vol.1 das "Obras em Prosa")



- Postado por: Rodrigo às 00h06
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PASSAGEM DO ANO

O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o
                                      [ calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória,
                [ doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o
                                      [ clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do
                                         [ acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos
                                         [ séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras
                                [ espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Carlos Drummond de Andrade

In: Reunião - 10 Livros de Poesia
Ed. José Olympio, Rio de Janeiro, 1971



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Senhora, é isso paixão?

VOLTAS E MOTES GLOSADOS

I
 
Não posso dizer que não,
Não posso dizer que sim.

VOLTA

Senhora, pois que podeis
Dizer que não, ou que sim,
A ambos não magoeis:
Dizei - sim, mas não a ele;
Dizei - não, mas não a mim.

OUTRA VOLTA

Senhora, que amor é esse,
Ou que nova sem-razão!
Que se eu vos pergunto - sim?
Respondeis-me sempre - não!

Senhora, é isso paixão?
Oh! que o é, mas não por mim;
Que quando vós dizeis - sim,
Um não quisera eu então!

Já nem sei que bem vos queira,
Nem que mais querer vos possa;
Sede antes vossa que dele,
Sede antes minha que vossa.

24.10.1846

GONÇALVES DIAS

In: Gonçalves Dias - Literatura Comentada
Seleção de textos: Beth Brait
Ed. Abril Educação, 1982
p. 83



- Postado por: Rodrigo às 11h10
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J. Rudyard Kipling: 30 de dezembro de 1865 - 18 de janeiro de 1936

 

SE

Se és capaz de manter tua calma, quando,
Todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti, quando estão todos duvidando,
E para estes no entanto achar uma desculpa;
Se és capaz de esperar sem te desesperares,
Ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
E não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires;
De sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores;
Se, encontrando a derrota e o triunfo, conseguires
Tratar da mesma forma a estes dois impostores
Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
Em armadilhas as verdades que disseste
E, as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
E refazê-las com o bem pouco que te reste;

Se és capaz de arriscar numa única parada,
Tudo quanto ganhaste em toda a tua vida,
E perdes e ao perder, sem nunca dizer nada,
Resignado, tornar ao ponto de partida.
De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
A dar, seja o que for que neles ainda existe
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
Resta a vontade em ti, que ainda te ordena: persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
E, entre reis, não perder a naturalidade;
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
Se a todos podes ser de alguma utilidade,
Se és capaz de dar, segundo por segundo
Ao minuto fatal todo valor e brilho:
Tua é a terra com tudo o que existe no mundo,
E - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu Filho!

Rudyard Kipling

Tradução de Guilherme de Almeida

 Ouça este texto aqui:

http://br.youtube.com/watch?v=bLLhIg-7ALM



- Postado por: Rodrigo às 00h53
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AMO A MANSIDÃO...

A mansidão eu amo e sempre que entro
pelos ermos umbrais da escuridão
abro os olhos para enchê-los
da doçura dessa paz.

A mansidão eu amo sobre todas
as coisas deste mundo.

Na quietude das coisas eu descubro
um canto enorme e mudo.
E quando elevo os olhos para o céu
no estremecer das nuvens eu encontro,
na ave que cruza o espaço e até no vento
a doçura que flui da mansidão.

Pablo Neruda

In: Cadernos de Temuco (1919-1920)
Tradução de Thiago de Melo
Editora Bertrand Brasil, 1998.
p. 57



- Postado por: Rodrigo às 00h41
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"As contrariedades da vida são de duas espécies, ou, pode-se dizer, de duas origens diferentes, as quais é muito importante distinguir: umas têm sua causa na vida presente, outras, não nesta vida. "

ALLAN KARDEC

In: O EVANGELHO SEGUNDO O ESPIRITISMO
CAP. 5, ITEM 4



- Postado por: Rodrigo às 09h33
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QUEM ME VÊ SORRINDO

Quem me vê sorrindo
Pensa que estou alegre
O meu sorriso é por consolação
Porque sei conter para ninguém ver
O pranto do meu coração
O que eu verti por este amor talvez
Não compreendestes e se eu disser não crês
Depois de derramado ainda soluçando
Tornei-me alegre estou cantando
Quem me vê sorrindo...
Compreendi o erro de toda a humanidade
Uns choram por prazer, outros com saudade
Jurei a minha jura, jamais eu quebrarei
Todo o pranto esconderei

Cartola / Carlos Cachaça



- Postado por: Rodrigo às 09h27
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Rainer Maria Rilke: 4 de dezembro de 1875 — 29 de dezembro de 1926

Dançarina Espanhola

Como um fósforo a arder antes que cresça
a flama, distendendo em raios brancos
suas línguas de luz, assim começa
e se alastra ao redor, ágil e ardente,
a dança em arco aos trêmulos arrancos.

E logo ela é só flama, inteiramente.

Com um olhar põe fogo nos cabelos
e com a arte sutil dos tornozelos
incendeia também os seus vestidos
de onde, serpentes doidas, a rompê-los,
saltam os braços nus com estalidos.

Então, como se fosse um feixe aceso,
colhe o fogo num gesto de desprezo,
atira-o bruscamente no tablado
e o contempla. Ei-lo ao rés do chão, irado,
a sustentar ainda a chama viva.
Mas ela, do alto, num leve sorriso
de saudação, erguendo a fronte altiva,
pisa-o com seu pequeno pé preciso.

Rainer Maria Rilke

(Tradução: Augusto de Campos)



- Postado por: Rodrigo às 09h19
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"O vírus do amor ao livro é incurável, e eu procuro inocular esse vírus no maior número possível de pessoas."

JOSÉ MINDLIN



- Postado por: Rodrigo às 11h13
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Olavo Bilac: 16 de dezembro de 1865 - 28 de dezembro de 1918

Ouvir Estrelas

"Ora direis ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso"! E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-las, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora! "Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?"

E eu vos direi: "Amai para entendê-las:
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas".

Olavo Bilac



- Postado por: Rodrigo às 10h52
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Анна Ахматова

Há na intimidade um limiar sagrado,
encantamento e paixão não o podem transpor -
mesmo que no silêncio assustador se fundam
os lábios e o coração se rasgue de amor.

Onde a amizade nada pode nem os anos
da felicidade mais sublime e ardente,
onde a alma é livre, e se torna estranha
à vagarosa volúpia e seu langor lento.

Quem corre para o limiar é louco, e quem
o alcançar é ferido de aflição...
Agora compreendes por que já não bate
sob a tua mão em concha o meu coração.

Anna Akhmátova

Poema retirado da antologia "Só o sangue cheira a sangue", tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra - Editora Assírio & Alvim, 2000



- Postado por: Rodrigo às 10h46
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O homem, a luta e a eternidade

Adivinho nos planos da consciência
dois arcanjos lutando com esferas e pensamentos
mundo de planetas em fogo
vertigem
desequilíbrio de forças,
matéria em convulsão ardendo pra se definir.
Ó alma que não conhece todas as suas possibilidades,
o mundo ainda é pequeno pra te encher.
Abala as colunas da realidade,
desperta os ritmos que estão dormindo.
À guerra! Olha os arcanjos se esfacelando!

Um dia a morte devolverá meu corpo,
minha cabeça devolverá meus pensamentos ruins
meus olhos verão a luz da perfeição
e não haverá mais tempo.

Murilo Mendes

A poesia acima foi publicada na revista "Letras e Artes", publicação do dia 07 de novembro de 1948 - Rio de Janeiro, na seção "Páginas da Poesia Moderna".



- Postado por: Rodrigo às 00h08
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M. C.

No Céu, se existe um céu para quem chora,
Céu para as mágoas de quem sofre tanto...
Se é lá do amor o foco, puro e santo,
Chama que brilha, mas que não devora...

No Céu, se uma alma nesse espaço mora,
Que a prece escuta e enxuga o nosso pranto...
Se há pai, que estenda sôbre nós o manto
Do amor piedoso...   que eu não sinto agora...

No Céu, ó virgem!  findarão meus males:
Hei-de lá renascer, eu que pareço
Aqui ter só nascido para dores.

Ali, ó lírio dos celestes vales!
Tendo seu fim, terão o seu comêço,
Para não mais findar, nossos amôres.

Antero de Quental

In: Sonetos Escolhidos
Seleção e Introdução de Torrieri Guimarães
Livraria Exposição do Livro, 1966 - São Paulo
p. 35



- Postado por: Rodrigo às 00h05
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(...) "Há um antigo provérbio na Índia: Diya tale andhera - "Há escuridão sob a lâmpada". A lâmpada proporciona luz à sua volta toda, e exatamente sob ela há escuridão. Essa é a situação do ser humano. Você é capaz de olhar para todos os lugares, à sua volta toda, mas é incapaz de ver onde está, quem é você..."

Osho

In: Escute seu Coração
Editora Gente, 2002
p. 20



- Postado por: Rodrigo às 00h01
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"A arte é uma mentira que nos ajuda a perceber a verdade."

Pablo Picasso



- Postado por: Rodrigo às 09h23
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SE A VEJO POUCO...

Se a vejo pouco, odeio-a muito mais;
Se a odeio mais, dá-me pouco enfado.
Se a estimo muito, pouco a mim me faz;
Se lhe fujo, mais quero ser achado.
Sou sempre por opostos torturado,
Amor e ódio, tormento com prazer.
Forte é o amor se só me quer prender
Então, vem o ódio e grita-me vingança;
Assim, faz-me ela odiar meu vão querer,
Por quem meu peito implora e não se cansa

Maurice Scève (1510-1564)

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Concepção e Tradução: Renata Cordeiro
Ed. Landy, 2002
p. 20



- Postado por: Rodrigo às 00h07
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Harold Pinter: 10 de Outubro de 1930 - 24 de dezembro de 2008

Em 1958, escrevi o seguinte:

"Não existem distinções concretas entre o que é real e o que é irreal, nem entre o que é verdadeiro e o que é falso. Uma coisa não é necessariamente ou verdadeira ou falsa; pode ser verdadeira e falsa a um só tempo".

Acredito que essa alegação continue a fazer sentido e continue a se aplicar à exploração da realidade por intermédio da arte. Portanto, como escritor eu reafirmo o que disse. Mas não posso fazê-lo como cidadão. Em minha condição de cidadão, me cabe perguntar: O que é verdadeiro? O que é falso?

(...) A vida de um escritor é altamente vulnerável, uma atividade quase nua. Não precisamos lamentar esse fato. O escritor faz sua escolha e tem de viver com ela. Mas é lícito dizer que você fica aberto a todos os ventos, alguns dos quais de fato gélidos. Você está por sua conta, isolado. Não encontra abrigo ou proteção a menos que minta, o que permite que você construa sua própria proteção e, poder-se-ia alegar, se torne político.

Quando nos olhamos no espelho acreditamos que a imagem que vemos seja acurada. Mas basta um movimento de um milímetro e a imagem muda. Na verdade, estamos olhando uma gama infinita de reflexos. Mas às vezes o escritor precisa quebrar o espelho porque é do outro lado do espelho que a verdade nos encara.

Acredito que a despeito das enormes dificuldades que existem, cabe-nos como cidadãos, com ferrenha, inamovível e feroz determinação intelectual, definir a verdade real de nossas vidas e nossas sociedades. Trata-se de uma obrigação crucial para todos nós. É de fato compulsória.

Se essa determinação não for incorporada por nossa visão política, não teremos esperança de restaurar aquilo que está quase perdido para nós: a dignidade do homem."

Harold Pinter

Trecho de seu discurso no prêmio Nobel de Literatura 2005 - disse que o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e o primeiro ministro britânico, Tony Blair, deveriam ser processados pela invasão do Iraque, a qual ele chamou "de um ato bárbaro de terrorismo".

Texto na íntegra: www.folha.com.br/053411



- Postado por: Rodrigo às 00h02
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Feliz Natal ! Boas Festas !

O Filho do Homem

O mundo parou
A estrela morreu
No fundo da treva
O infante nasceu.

Nasceu num estábulo
Pequeno e singelo
Com boi e charrua
Com foice e martelo.

Ao lado do infante
O homem e a mulher
Uma tal Maria
Um José qualquer.

A noite o fez negro
Fogo o avermelhou
A aurora nascente
Todo o amarelou.

O dia o fez branco
Branco como a luz
À falta de um nome
Chamou-se Jesus.

Jesus pequenino
Filho natural
Ergue-te, menino
É triste o Natal.

Natal de 1947

Vinicius de Moraes

O poema acima foi extraído do livro "Antologia Poética", Editora do Autor - Rio de Janeiro, 1960, pág. 215.



- Postado por: Rodrigo às 01h10
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Jesus

Reis, juízes, generais e tiranos,
Entre o ouro e o poder, de vitória, em vitória,
Comandaram na Terra a vida transitória,
Erguendo sobre o povo os braços soberanos.

E passaram fremindo, arrojados e insanos,
Ébrios de ostentação e famintos de glória,
Detendo-se, porém, nos túmulos da História,
Relegados à dor de cruéis desenganos.

Mas o Cristo, na palha, humilde e pequenino,
Traz consigo somente o Coração Divino,
Na exaltação do bem que ilumina e socorre...

E, brilhando por sol generoso e fecundo,
Em todas as Nações que engrandecem o mundo
É sempre o Excelso Rei do amor que nunca morre.

Ditado por Amaral Ornellas psicografia de Francisco Cândido Xavier

In: Antologia Mediúnica de Natal (1941)
msg. 18

Em PPS: www.illuminare.pro.br/jesus.pps



- Postado por: Rodrigo às 01h06
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Mamãe Noel

Sabe por que Papai Noel não existe? Porque é homem. Dá para acreditar que um homem vai se preocupar em escolher o presente de cada pessoa da família, ele que nem compra as próprias meias? Que vai carregar nas costas um saco pesadíssimo, ele que reclama até para colocar o lixo no corredor? Que toparia usar vermelho dos pés à cabeça, ele que só abandonou o marrom depois que conheceu o azul-marinho? Que andaria num trenó puxado por renas, sem ar-condicionado, direção hidráulica e air-bag? Que pagaria o mico de descer por uma chaminé para receber em troca o sorriso das criancinhas? Ele não faria isso nem pelo sorriso da Luana Piovani! Mamãe Noel, sim, existe.

Quem é a melhor amiga do Melocoton, quem sabe a diferença entre a Mulan e a Esmeralda, quem conhece o nome de todas as Chiquititas, quem merecia ser sócia-majoritária da Superfestas? Não é o bom velhinho.

Quem coloca guirlandas nas portas, velas perfumadas nos castiçais, arranjos e flores vermelhas pela casa? Quem monta a árvore de Natal, harmonizando bolas, anjos, fitas e luzinhas, e deixando tudo combinando com o sofá e os tapetes? E quem desmonta essa parafernália toda no dia 6 de janeiro?

Papai Noel ainda está de ressaca no Dia de Reis. Quem enche a geladeira de cerveja, coca-cola e champanhe? Quem providencia o peru, o arroz à grega, o sarrabulho, as castanhas, o musse de atum, as lentilhas, os guardanapinhos decorados, os cálices lavadinhos, a toalha bem passada e ainda lembra de deixar algum disco meloso à mão?

Quem lembra de dar uma lembrancinha para o zelador, o porteiro, o carteiro, o entregador de jornal, o cabeleireiro, a diarista? Quem compra o presente do amigo-secreto do escritório do Papai Noel? Deveria ser o próprio, tão magnânimo, mas ele não tem tempo para essas coisas. Anda muito requisitado como garoto-propaganda.

Enquanto Papai Noel distribui beijos e pirulitos, bem acomodado em seu trono no shopping, quem entra em todas as lojas, pesquisa todos os preços, carrega sacolas, confere listas, lembra da sogra, do sogro, dos cunhados, dos irmãos, entra no cheque especial, deixa o carro no sol e chega em casa sofrendo porque comprou os mesmos presentes do ano passado?

Por trás do protagonista desse megaevento chamado Natal existe alguém em quem todos deveriam acreditar mais.

(Dezembro de 1998)

Martha Medeiros

Texto extraído do livro "Trem-bala", L&PM Editores - Porto Alegre, 2002, pág. 177.



- Postado por: Rodrigo às 01h00
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Cartão de Natal

Pois que reinaugurando essa criança
pensam os homens
reinaugurar a sua vida
e começar novo caderno,
fresco como o pão do dia;
pois que nestes dias a aventura
parece em ponto de vôo, e parece
que vão enfim poder
explodir suas sementes:

que desta vez não perca esse caderno
sua atração núbil para o dente;
que o entusiasmo conserve vivas
suas molas,
e possa enfim o ferro
comer a ferrugem
o sim comer o não.

João Cabral de Melo Neto

Texto extraído do livro "João Cabral de Melo Neto - Obra Completa", Editora Nova Aguilar, 1994.



- Postado por: Rodrigo às 00h25
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Pequena história de Natal com presépio e milagre

A menina loura, linda, era dona do mundo. Fazia tudo, queria tudo; sentia-se valente, forte, imortal.

Um dia, veio a chuva, enfeando tudo, dando vontade de ficar em casa, no aconchego e na languidez. Era para ficar, mas a menina foi.

Manhã de chuva. Cansaço, talvez, quem sabe distração. Quem sabe dessas coisas? Quem sabe do destino?

A vida corria e a menina corria. Corria num de seus brinquedos de quatro rodas. Vida célere - é preciso fazer, realizar, querer, ter.

Correr, voar. Num segundo, a menina correu e voou ao encontro do que parecia o fim...

A menina acordou. Aos poucos, como quem volta de um pesadelo. Olhou em volta e viu um milagre. Todos estavam ali: pais, parentes, amigos. E lhe pareceu então que aquilo era um presépio. Eles lhe traziam seus presentes de Natal: o incenso da esperança, a mirra do carinho e o ouro da vida.

O lugar era simples e belo, mais bonito que todos os outros, mais importante que todas as conquistas. Uma alvura de nuvens diáfanas como na representação de qualquer paraíso; anjos de branco passando de mansinho, como a flutuar; um silêncio profundo e quase sólido.

A menina viu que aquele era o seu presépio, onde havia calor de afeto, aconchego de amor.

Lá em cima, no céu, a menina viu uma estrela. Uma entre milhões. Aquela era só sua, especial, e a guardava.

E a menina sorriu, feliz. Agora acreditava num verdadeiro milagre de Natal.

J. Carino



- Postado por: Rodrigo às 00h18
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Papai Noel às Avessas

Papai Noel entrou pela porta dos fundos
(no Brasil as chaminés não são praticáveis),
entrou cauteloso que nem marido depois da farra.
Tateando na escuridão torceu o comutador
e a eletricidade bateu nas coisas resignadas,
coisas que continuavam coisas no mistério do Natal.
Papai Noel explorou a cozinha com olhos espertos,
achou um queijo e comeu.
Depois tirou do bolso um cigarro que não quis acender.
Teve medo talvez de pegar fogo nas barbas postiças
(no Brasil os Papai-Noéis são todos de cara raspada)
e avançou pelo corredor branco de luar.
Aquele quarto é o das crianças
Papai  entrou compenetrado.
Os meninos dormiam sonhando outros natais muito mais lindos
mas os sapatos deles estavam cheinhos de brinquedos
soldados mulheres elefantes navios
e um presidente de república de celulóide.
Papai Noel agachou-se e recolheu aquilo tudo
no interminável lenço vermelho de alcobaça.
Fez a trouxa e deu o nó, mas apertou tanto
que lá dentro mulheres elefantes soldados presidente brigavam por causa do aperto.
Os pequenos continuavam dormindo.
Longe um galo comunicou o nascimento de Cristo.
Papai Noel voltou de manso para a cozinha,
apagou a luz, saiu pela porta dos fundos.
Na horta, o luar de Natal abençoava os legumes.

Carlos Drummond de Andrade

Este poema foi publicado no livro "Alguma Poesia", Editora Pindorama, em 1930, primeiro livro do autor.  Texto extraído de "Nova Reunião", Livraria José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1983, pág. 24.



- Postado por: Rodrigo às 00h11
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"Sugestões de presentes para o Natal:
Para um inimigo, perdão.
Para um oponente, tolerância.
Para um amigo, o seu coração.
Para um cliente, serviço.
Para tudo, caridade.
Para todas as crianças, um bom exemplo.
Para você mesmo, respeito ".

Oren Arnold



- Postado por: Rodrigo às 10h06
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Canto de Natal

O nosso menino
Nasceu em Belém.
Nasceu tão-somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso menino.
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz,
O nosso menino.
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino:
Louvemos a glória
De Jesus menino.

Manuel Bandeira

A poesia acima foi extraída da "Antologia Poética - Manuel Bandeira", Editora Nova Fronteira - Rio de Janeiro, 2001, pág. 137.



- Postado por: Rodrigo às 09h48
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O Contador de estrelas - XVII

guia estrela guia
magos à manjedoura
homens às próprias terras
deuses a seus domínios
guia estrela guia
cada um ao seu lugar
mas volta na hora certa
para o cume do pinheiro
para eu despertar primeiro
na manhã que está por vir
e ver que tua luz solitária
inda banha nossa sala
só que agora acompanhada
dos presentes de natal

Anderson Santos



- Postado por: Rodrigo às 09h41
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Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Fernando Pessoa

Extraído do livro "Fernando Pessoa - Obra Poética - Cancioneiro", Cia. José Aguilar Editora - Rio de Janeiro, 1972, pág. 140.



- Postado por: Rodrigo às 09h36
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(...) Observemos os ternos cuidados que temos com Papai Noel, as precauções e os sacrifícios para manter seu prestígio intocado junto às crianças. Não será porque, lá no fundo persiste a vontade de acreditar, por pouco que seja, numa generosidade irrestrita, numa generosidade desinteressada, num breve instante em que se suspende qualquer receio, qualquer inveja, qualquer amargura?

Claude Lévi-Strauss

In: O Suplício do Papai Noel
Tradução de Denise Bottmann
Editora Cosac Naify, 2008.



- Postado por: Rodrigo às 22h25
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Soneto de Natal

Um homem, - era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço no Nazareno, -
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto... A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
"Mudaria o Natal ou mudei eu?"

Machado de Assis

Texto extraído do livro "Poesias Completas - Ocidentais", 1901



- Postado por: Rodrigo às 10h38
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Poema de Natal

Para isso fomos feitos:
Para lembrar e ser lembrados,
Para chorar e fazer chorar,
Para enterrar os nossos mortos -
Por isso temos braços longos para os adeuses,
Mãos para colher o que foi dado,
Dedos para cavar a terra.
Assim será a nossa vida;
Uma tarde sempre a esquecer,
Uma estrela a se apagar na treva,
Um caminho entre dois túmulos -
Por isso precisamos velar,
Falar baixo, pisar leve, ver
A noite dormir em silêncio.
Não há muito que dizer:
Uma canção sôbre um berço,
Um verso, talvez, de amor,
Uma prece por quem se vai -
Mas que essa hora não esqueça
E que por ela os nossos corações
Se deixem, graves e simples.
Pois para isso fomos feitos:
Para a esperança no milagre,
Para a participação da poesia,
Para ver a face da morte -
De repente, nunca mais esperaremos...
Hoje a noite é jovem; da morte apenas
Nascemos, imensamente.

Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 10h19
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Paulo Camelo de Andrade Almeida: Recife, 22 de dezembro de 1947

Natal Sempre

O mundo explode.
Mil guerras, massacres,
saques, mortes, o homem
destruindo seus irmãos...

E todos os anos esses homens
festejam o Natal, a vinda
d'Aquele que se deu por nós.

Então nós vemos tréguas, festejos,
indultos, confraternização...

Sabemos que o Cristo morre todos os dias,
a cada momento, para nos perdoar.

Seria então a hora de nos perguntarmos:
Por que não lembrar todos os dias,
a cada momento, seu nascimento para que,
festejando sempre o Natal,
os homens se esqueçam das guerras?

Paulo Camelo

(12/12/1986)

Fonte: http://www.camelo.recantodasletras.com.br/visualizar.php?idt=80542



- Postado por: Rodrigo às 10h12
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Todos estão repletos de amor. Se não houver obstáculos, as fontes do amor começam a fluir em todas as direções, sem nenhum endereço.

Seja grato à existência, aprecie a beleza da vida que o circunda. Ame, pois amanhã não é certo.

Osho

In: Escute seu coração
Ed. Gente, 2006
p.17



- Postado por: Rodrigo às 11h34
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Nelson Falcão Rodrigues: 23 de agosto de 1912 — 21 de dezembro de 1980

"A mais tola das virtudes é a idade. Que significa ter quinze, dezessete, dezoito ou vinte anos? Há pulhas, há imbecis, há santos, há gênios de todas as idades."

* * *

"Tudo passa, menos a adúltera. Nos botecos e nos velórios, na esquina e nas farmácias, há sempre alguém falando nas senhoras que traem. O amor bem-sucedido não interessa a ninguém."

* * *

"Está se deteriorando a bondade brasileira. De quinze em quinze minutos, aumenta o desgaste da nossa delicadeza."

* * *

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico."

Nelson Rodrigues

In: Flor de Obsessão - As 1000 Melhores Frases de Nelson Rodrigues
Organização de Ruy Castro
Ed. Cia. das Letras - São Paulo, 1997
págs. diversas



- Postado por: Rodrigo às 00h49
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Bocage: 15 de Setembro de 1765 — 21 de Dezembro de 1805

Cartas de Olinda e Alzira

Epístola I

Olinda a Alzira
 
Que estranha agitação não sinto n'alma
Depois que te perdi, querida Alzira!
De meus olhos fugiu, sumiu-se o fogo,
Que a tua companhia incendiava!
Por uma vez se foi minha alegria,
Nem a mesma já sou, que outrora hei sido!
Minhas vistas ao céu lânguidas se erguem,
E a mim própria pergunto d'onde venha
Tão novo sentimento assoberbar-me?
Não se aquieta o coração no peito,
Não cabe nele, e viva chama no íntimo
Das entranhas ardente me devora,
Sem que eu possa atinar a causa, a origem.
Aqueles passatempos que na infância
Tão do peito queria, em ódio os tenho.
Das mesmas superioras a presença,
Que d'antes para mim era indif'rente,
Se me torna hoje dura, intolerável!
Aonde, aonde irão estes impulsos
Precipitar a malfadada Olinda?
Será, querida Alzira, a tua ausência,
Que me faz derramar tão agro pranto?
Debalde a largos passos solitária
Vago sem norte: ignoro o que procuro;
Ah! Minha cara! Os males que tolero
Expressá-los não posso, nem sofrê-los.

Bocage



- Postado por: Rodrigo às 00h43
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Tem palavra

tem palavra
que não é de dizer
nem por bem
nem por mal
tem palavra
que não se conta
nem prum animal
tem palavra
louca pra ser dita
feia bonita
e não se fala
tem palavra
pra quem não diz
pra quem não cala
pra quem tem palavra
tem palavra
que a gente tem
e na hora H
falta

Alice Ruiz



- Postado por: Rodrigo às 16h08
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Sob os Ramos
 
É no Estio. A alma, aqui, vai-me sonora,
No meu cavalo - sob a loira poeira
Que chove o sol - e vai-me a vida inteira
No meu cavalo, pela estrada afora.

Ai! desta em que te escrevo alta mangueira
Sob a copada verde a gente mora.
E em vindo a noite, acende-se a fogueira
Que se fez cinza de fogueira agora.

Passa-me a vida pelo campo... E a vida
Levo-a cantando, pássaros no seio,
Qual se os levasse a minha mocidade...

Cada ilusão floresce renascida;
Flora, renasces ao primeiro anseio
Do teu amor... nas asas da Saudade!

Pedro Kilkerry



- Postado por: Rodrigo às 15h56
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Poemeu - A superstição é imortal

Quando eu era bem menino
Tinha fadas no jardim
No porão um monstro albino
E uma bruxa bem ruim.

Cada lâmpada tinha um gênio
Que virava ano em milênio
E, coisa bem mais perversa,
Sapo em rei e vice-versa.

Tinha Ciclope, Centauro,
Autósito, Hidra e megera,
Fênix, Grifo, Minotauro,
Magia, pasmo e quimera.

Mas aí surgiram no horizonte
Além de Custer e seus confederados
A tecnologia mastodonte
Com tecnologistas bem safados
Esses homens da ciência me provaram
Que duendes, bruxas e omacéfalos
Eram produtos imbecis de meu encéfalo.
Nunca existiram e nunca existirão:
uma decepção!

Mas continuo inocente, acho.
Ou burro, bobo, ou borracho.
Pois toda noite eu vejo todo dia
Tudo que é estranho, raro, ou anomalia:
Padres sibilas
Hidras estruturalistas
Ministros gorilas
Avis raras feministas
Políticos de duas cabeças
Unicórnios marxistas
Antropólogas travessas
Mactocerontes psicanalistas
Cisnes pretos arquitetos
Economistas sereias
Democratas por decreto
E beldades feias
Que invadem a minha caverna
E me matam de aflição
Saindo da lanterna
Da televisão.

Millôr Fernandes

In:"Millôr Fernandes - Poemas",
L&PM Editores; Porto Alegre, 1984,
pág. 92



- Postado por: Rodrigo às 15h52
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Exausto

Eu quero uma licença de dormir,
perdão pra descansar horas a fio,
sem ao menos sonhar
a leve palha de um pequeno sonho.
Quero o que antes da vida
foi o profundo sono das espécies,
a graça de um estado.
Semente.
Muito mais que raízes.

Adélia Prado

In: Poesia Reunida
São Paulo: Ed. Siciliano, 1991
p. 27



- Postado por: Rodrigo às 21h22
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DICAS PARA UM MUNDO MENOS HORROROSO

NÃO VEJA TV:

Qualquer tempo que você passe fora da influência dos raios catódicos é mais enriquecedor que ficar exposto às tramas requentadas dos chamados "roteiristas" de tv. Chutar cachorros, atirar em pombos ou beber no parque: qualquer coisa é mais produtiva que mofar e babar na frente de uma televisão.

LEIA LIVROS GROSSOS:

Só os (muito) idiotas acreditam nessa conversa de que o cachorro é o melhor amigo do homem. Bobagem. O livro é o melhor amigo de todas as horas. Pense em quanto tempo você passou discutindo a relação com a (o) namorada (o) baranga (caído). Convenhamos, há coisas melhores para se fazer na vida.

COMO COELHOS:

Esse mito do garoto certo ou da garota certa tem arruinado a vida sexual de muita gente. O melhor é - tomadas as devidas precauções - transar sem grandes idealizações românticas. Já falaram que sexo é bom até quando é ruim. E é verdade, quase sempre.

NÃO ACREDITE NO HYPE:

Um dia a onda é usar uma gravata na testa, no outro, a grande jogada é um boné idiota com a aba pra trás. Seja lá o que for, você sempre será mais um palhaço na turma dos palhaços vítimas da moda. E ser um palhaço não remunerado não tem muita graça. Mas se pagarem já é outra conversa.

GENTILEZA NÃO MATA:

Gentileza é uma palavra em desuso numa época em que os ídolos são caras com a mão no saco ou garotas que parecem ter saído de um filme pornô ruim. Inventaram um conceito de que ser grosso é cool. Não caiam nessa. A não ser que vocês achem legal tomar tijolada nos dentes.

PELA VOLTA DA ESCRITA:

Abreviações idiotas nos e-mails (chiunf, as cartas acabaram) só nos levarão de volta à época dos hieróglifos. Qual o problema de escrever as palavras com todas as letras? E por favor, sem simbolozinhos mongos de "estou rindo" ou "estou piscando". NÃO !!

Allan Sieber

In: Folhateen
Folha de S. Paulo (15/12/2008)
p. 12



- Postado por: Rodrigo às 21h04
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Érico Veríssimo: 17 de dezembro de 1905 — 28 de novembro de 1975

O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" - murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

Érico Veríssimo

In: Solo de clarineta - Memórias
(1º volume) - 1973



- Postado por: Rodrigo às 19h15
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A falta de Érico Veríssimo

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de sexta-feira.
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra.
Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo.
Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente.
Falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

Carlos Drummond de Andrade

 

(Foto: Leonid Streliaev)



- Postado por: Rodrigo às 19h08
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Olavo Bilac: 16 de dezembro de 1865 — 28 de dezembro de 1918

O Pássaro Cativo

Armas, num galho de árvore, o alçapão;
E, em breve, uma avezinha descuidada,
Batendo as asas cai na escravidão.

Dás-lhe então, por esplêndida morada,
A gaiola dourada;
Dás-lhe alpiste, e água fresca, e ovos, e tudo:
Porque é que, tendo tudo, há de ficar
O passarinho mudo,
Arrepiado e triste, sem cantar?

É que, crença, os pássaros não falam.
Só gorjeando a sua dor exalam,
Sem que os homens os possam entender;
Se os pássaros falassem,
Talvez os teus ouvidos escutassem
Este cativo pássaro dizer:

"Não quero o teu alpiste!
Gosto mais do alimento que procuro
Na mata livre em que a voar me viste;
Tenho água fresca num recanto escuro
Da selva em que nasci;
Da mata entre os verdores,
Tenho frutos e flores,
Sem precisar de ti!
Não quero a tua esplêndida gaiola!
Pois nenhuma riqueza me consola
De haver perdido aquilo que perdi ...
Prefiro o ninho humilde, construído
De folhas secas, plácido, e escondido
Entre os galhos das árvores amigas ...
Solta-me ao vento e ao sol!
Com que direito à escravidão me obrigas?
Quero saudar as pompas do arrebol!
Quero, ao cair da tarde,
Entoar minhas tristíssimas cantigas!
Por que me prendes? Solta-me covarde!
Deus me deu por gaiola a imensidade:
Não me roubes a minha liberdade...
Quero voar! voar!..."

Estas cousas o pássaro diria,
Se pudesse falar.
E a tua alma, criança, tremeria,
Vendo tanta aflição:
E a tua mão tremendo, lhe abriria
A porta da prisão...

Olavo Bilac

In: Poesias Infantis
Ed. Francisco Alves, 1929, RJ



- Postado por: Rodrigo às 20h21
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Soneto do Verso Romântico (Melado)

Se dizem que meu verso é tão melado
porque ele fala só de amor e vida,
que querem que ele diga? Dor? Ferida?
Prefiro então assim ficar calado...

Me culpam por meu verso ser rimado,
verdade que, feliz, é assumida.
Virtude como falha é atribuída:
meu pobre verso é metrificado.

Se querem que eu destrua o verso em sangue,
que exale odores fétidos tal mangue,
que diga coisas não inteligíveis,

perdoem que meu verso exalta o belo.
Se o belo embaça os olhos de quem vê-lo,
melhor olhar com olhos mais sensíveis!

Cesar Veneziani

(09/12/2008)

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



- Postado por: Rodrigo às 20h15
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O silêncio de deus [e a respectiva concordância]
 
Tenho a literatura entre os dedos
como se deles saíssem as pétalas
de uma flor encarnada que sem nome
se consumisse toda,
no texto apropriado, no contexto
da formação da escrita, revelassem
o mais pequeno pormenor, sentido
programático, útil.

Porém as coisas não são como são
as coisas impossíveis, porque estas
têm a lucidez dos lábios crus
na pronúncia da frase
quando a palavra queima um simples sopro
e um verso sai das asas de aves raras
na construção do livro corrompido
de formação estética.

A personagem que vai tendo forma
personaliza a dor na conclusão
do pensamento, quando se apetece
sair desta estrutura
onde a composição solidifica
o diálogo mais ou menos teatral
e a dor que vem de deus só se transforma
em pólipos na pele.

Religião da fala, não sei bem
onde leva a pronúncia que acontece
a dor tardia na imaginação
do acto pré-concebido.
São vozes de papel que se pressentem
guardadas nas profundas dos jarrões
que um dia as mãos descobrem na procura
da memória diluída.

Um dia saberei de toda a escrita
com o tal pormenor dos inocentes
ferindo a voz com a palavra viva
no domínio da morte.
A permanência do segredo tem
no desenho das mãos de sangue e água
a estrutura guardada, o compromisso
do silêncio de deus.

José Félix



- Postado por: Rodrigo às 20h18
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Memória

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 20h12
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Paulo Leminski



- Postado por: Rodrigo às 20h07
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"Não há vento favorável para quem não tem rumo..." (Sêneca)

Você pode perceber que um dia está comprimido entre duas noites, e também pode perceber dois belos dias comprimindo uma pequena noite. Escolha como você deseja se sentir - estar no céu ou no inferno. A escolha é sua.

Osho

In: Escute seu coração
Editora Gente, 2006
p. 13



- Postado por: Rodrigo às 09h22
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A vida é feita de escolhas...

A sepal, petal, and a thorn
Upon a common summers's morn -
A flask of Dew - A Bee or two -
A Breeze -
a caper in the trees-
And I'm a Rose!
(c. 1858)

* * *

Sépala, pétala e um espinho -
Nesta manhã radiosa -
Gota de Orvalho - Abelhas -
Brisa -
Folhas em remoinho -
Sou uma Rosa!

Emily Dickinson

In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp, 2008



- Postado por: Rodrigo às 09h06
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Leonardo Boff: 14 de dezembro de 1938

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."

Leonardo Boff

In: Casamento entre o céu e a terra.
Ed. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001
p. 09



- Postado por: Rodrigo às 08h49
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Adélia Prado: 13 de dezembro de 1935

Corridinho
 
O amor quer abraçar e não pode.
A multidão em volta,
com seus olhos cediços,
põe caco de vidro no muro
para o amor desistir.
O amor usa o correio,
o correio trapaceia,
a carta não chega,
o amor fica sem saber se é ou não é.
O amor pega o cavalo,
desembarca do trem,
chega na porta cansado
de tanto caminhar a pé.
Fala a palavra açucena,
pede água, bebe café,
dorme na sua presença,
chupa bala de hortelã.
Tudo manha, truque, engenho:
é descuidar, o amor te pega,
te come, te molha todo.
Mas água o amor não é.

Adélia Prado

In: "Adélia Prado - Poesia Reunida",
Siciliano - 1991, São Paulo,
pág. 181



- Postado por: Rodrigo às 09h07
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Adélia Prado: 13 de dezembro de 1935

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".

Carlos Drummond de Andrade

* * *


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado



- Postado por: Rodrigo às 09h00
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Heinrich Heine: 13 de dezembro de 1797 — 17 de fevereiro de 1856

Der Doppelgänger "O Duplo"

A noite é calma, a rua dorme,
Esteve na casa minha amada a habitar;
Ela deixou a cidade há tempo enorme,
A casa, porém, permanece em seu lugar.

Há também um homem, que mira o firmamento
E retorce as mãos, presa da amargura.
Contemplar sua face causa-me tormento,
A lua me desvela minha própria figura.

Tu, meu duplo! tu, pálido amigo!
Por que zombas da minha dor de amar,
Que me torturou neste lugar
Por tantas noites, em tempo ido?

Heinrich Heine

Tradução: Priscila Manhães Lerner e Carlos Eduardo Ortolan



- Postado por: Rodrigo às 08h52
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A consciência nunca é perdida. Ela simplesmente se enreda com o outro, com objetos.

Assim, a primeira coisa a ser lembrada: ela nunca é perdida, ela é sua natureza, mas você pode focá-la em qualquer coisa que desejar. Quando você ficar cansado de focá-la no dinheiro, no poder, no prestígio, e chegar aquele grande momento em sua vida em que você deseja fechar os olhos e focar sua consciência sobre sua própria fonte, sobre o lugar de onde ela vem, sobre as raízes - num milésimo de segundo sua vida será transformada.

Osho

In: Escute seu coração
Editora Gente, 2006
p. 12-13



- Postado por: Rodrigo às 20h47
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José de Alencar: 1 de maio de 1829 — 12 de dezembro de 1877

(...)" Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano nessa vida errante e nômade, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de música, de recordações históricas, de contemplações de arte.

Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus.

Trouxemos das nossas peregrinações um raio de sol do Oriente, um reflexo de lua de Nápoles, uma nesga do céu da Grécia, algumas flores, alguns perfumes, e com isto enchemos o nosso pequeno universo.

Depois, como as andorinhas que voltam com a primavera para fabri­car o seu ninho no campanário da capelinha em que nasceram, apenas ela recobrou a saúde e as suas belas cores, viemos procurar em nossa terra um cantinho para esconder esse mundo que havíamos criado.

Achamos na quebrada de uma montanha um lindo retiro, um verda­deiro berço de relva suspenso entre o céu e a terra por uma ponta de rochedo.

Aí abrigamos o nosso amor e vivemos tão felizes que só pedimos a Deus que nos conserve o que nos deu; a nossa existência é um longo dia, calmo e tranquilo, que começou ontem, mas que não tem amanhã."

José de Alencar

In: Cinco Minutos
Série Bom Livro. Editora Ática - São Paulo - 1995
p. 47



- Postado por: Rodrigo às 18h58
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Gustave Flaubert: 12 de dezembro de 1821 – 8 de maio de 1880

"Ah! é que te amo! - respondia ela - Amo-te a ponto de não poder passar sem ti, sabes? Tenho às vezes vontade de te ver, quando toda a força do amor me dilacera. E pergunto-me "Onde estará ele? Fala talvez com outras mulheres? Elas lhe sorriem, ele se aproxima..." ' Oh, não! Nenhuma te agrada, não é? Há mulheres mais belas, mas eu sei amar-te melhor! Sou tua serva e tua concubina! Tu és meu rei, meu ídolo! Tu és bom, és belo, és inteligente, és forte!"

Gustave Flaubert

In: Madame Bovary
Tradução de Araújo Nabuco
São Paulo: Martins editora, 1997



- Postado por: Rodrigo às 18h54
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Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho"!
E em que Camões chorou, exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999.
p.154-155



- Postado por: Rodrigo às 21h18
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Carlos Gardel: 11 de dezembro de 1890 — 24 de junho de 1935

Por una cabeza (Por uma cabeça)

Por uma cabeça
de um nobre potro,
que justamente na raia,
afrouxa na chegada,
e ao regressar,
parece dizer:
Não esqueças, irmão,
você sabe, não deve jogar.

Por uma cabeça,
paquera de um dia,
daquela fútil
e falsa mulher,
que, ao jurar sorrindo
o amor que está mentindo,
queima numa fogueira
todo meu amor.

Por uma cabeça,
todas as loucuras.
Sua boca que beija,
apaga a tristeza,
acalma a amargura.

Por uma cabeça,
se ela me esquece,
que me importa perder
mil vezes a vida,
para que viver.

Quantos desenganos,
por uma cabeça.
Eu joguei mil vezes,
não volto a insistir.
Mas se um olhar
me atinge ao passar,
seus lábios de fogo
outra vez quero beijar

Chega de corridas,
acabou o tesão.
Um final renhido
não voltarei a ver.
Mas se algum matungo
é barbada para o domingo,
eu jogo tudo o que tenho.

Que se pode fazer...

Música de Carlos Gardel e Letra de Alfredo Le Pera

 Ouça esta música aqui:

1) http://www.youtube.com/watch?v=ZgcqijaUxdg

2) http://www.youtube.com/watch?v=8dStp5hq294



- Postado por: Rodrigo às 21h11
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Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando".

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.

O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.

Resultado: não funciona.

Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.

Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.

É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice  Lispector

In: Aprendendo a viver
EDITORA ROCCO, 2004
p. 166-8

 Ouça este texto na voz de Aracy Balabanian:

http://www.youtube.com/watch?v=8lSoxrWsnZw



- Postado por: Rodrigo às 18h20
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Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano."

Clarice Lispector

In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - 1969



- Postado por: Rodrigo às 18h13
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Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977




- Postado por: Rodrigo às 21h34
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Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977

Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Clarice Lispector

In: A descoberta do mundo

Editora Nova Fronteira
RJ: 1994
p. 144



- Postado por: Rodrigo às 19h10
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Aníbal Monteiro Machado: 9 de dezembro de 1894 — 20 de janeiro de 1964

"Eu adorava ficar ali. Acompanhava o movimento do jogo. Torcia. Metia-me no meio dos jogadores. Só faltava gritar. Não sei como ninguém dava pela minha presença. A bola saltava às vezes o muro e ia aninhar-se no capinzal de fora. Um dos jogadores cobria-se de uma capa escura e saía a buscá-la. O jogo então recomeçava forte. De repente, fora de propósito, parava.

- Que houve? quem apitou?

Ninguém apitara. Era eu que soprara no apito do juiz. Muitas e muitas vezes intervinha sem que ninguém soubesse, só para animar, só para mostrar que me achava ali, vendo, participando. Substituído o juiz, as marcações continuavam desencontradas. Ninguém desconfiava. Antes de raiar a madrugada, esvaziava-se o campo. Os "fantasmas" seguiam para o eito e eu ficava... Ficava..."

Aníbal Monteiro Machado

In: O defunto inaugural - Relato de um fantasma



- Postado por: Rodrigo às 19h04
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Maria de Arruda Müller: 9 de dezembro de 1898 — 4 de dezembro de 2003

Aspiração

Bojando a vela sobre o mar sem alma,
Vai, asa branca, ao ritmo do vento.
Circunfletindo, oscila e corta a espalma
Imensidão que espelha o firmamento.

No ar rarefeito treme a leve palma...
Se a tempestade vier, o oceano é cruento...
E ela não sente quando a tarde é calma,
Insídias de borrasca em céu sedento.

Quisera ver minha alma - neste instante -
Como a vela boiar, e se sumindo
No horizonte, indo além, bem mais distante...

E indo a vogar meu pensamento com ela,
Livre da ronda das paixões (que lindo!)
Como a alvura que aclara a branca vela.

Maria de Arruda Müller



- Postado por: Rodrigo às 19h01
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um bom poema
leva anos
cinco jogando bola,
mais cinco estudando sânscrito,
seis carregando pedra,
nove namorando a vizinha,
sete levando porrada,
quatro andando sozinho,
três mudando de cidade,
dez trocando de assunto,
uma eternidade, eu e você,
caminhando junto

Paulo Leminski



- Postado por: Rodrigo às 20h54
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Florbela Espanca: 8 de Dezembro de 1894 — 8 de Dezembro de 1930

Fanatismo

Minh'alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver!
Não és sequer razão de meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!

Não vejo nada assim enlouquecida...
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida!

"Tudo no mundo é frágil, tudo passa..."
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim!

E, olhos postos em ti, vivo de rastros:
"Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: princípio e fim!..."

Florbela Espanca

In: Livro de Soror Saudade

 

 Ouça este poema na voz de Fagner:

http://www.youtube.com/watch?v=EYxILyzDh24



- Postado por: Rodrigo às 20h41
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Florbela Espanca: 8 de Dezembro de 1894 — 8 de Dezembro de 1930

Errante

Meu coração da cor dos rubros vinhos
Rasga a mortalha do meu peito brando
E vai fugindo, e tonto vai andando
A perder-se nas brumas dos caminhos.

Meu coração o místico profeta,
O paladino audaz da desventura,
Que sonha ser um santo e um poeta,
Vai procurar o Paço da Ventura...

Meu coração não chega lá decerto...
Não conhece o caminho nem o trilho,
Nem há memória desse sítio incerto...

Eu tecerei uns sonhos irreais...
Como essa mãe que viu partir o filho,
Como esse filho que não voltou mais!

Florbela Espanca

In: Trocando olhares - 23/04/1917



- Postado por: Rodrigo às 20h36
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Ary dos Santos: 7 de Dezembro de 1937 — 18 de Janeiro de 1984

Meu amor, meu amor

Meu amor meu amor
meu corpo em movimento
minha voz à procura
do seu próprio lamento.

Meu limão de amargura meu punhal a escrever
nós parámos o tempo não sabemos morrer
e nascemos nascemos
do nosso entristecer.

Meu amor meu amor
meu nó e sofrimento
minha mó de ternura
minha nau de tormento

este mar não tem cura este céu não tem ar
nós parámos o vento não sabemos nadar
e morremos morremos
devagar devagar.

José Carlos Ary dos Santos



- Postado por: Rodrigo às 13h38
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O interior e o exterior são partes de uma só realidade. Primeiro você precisa limpar o exterior, que foi distorcido por séculos. É uma sorte que ninguém possa distorcer sua realidade interior; ninguém pode entrar lá, exceto você. Você nem ao menos pode convidar seu amado, seu amigo. Exceto você, você não pode levar ninguém lá. Isso é uma sorte; do contrário, tudo seria espoliado de você, e a recuperação seria impossível. Somente o lado exterior está coberto da poeira de todos os tipos; uma pequena compreensão pode torná-lo livre dela. Porém, esta é uma parte essencial - a parte negativa - , conhecer o falso como falso, pois, no momento em que você sabe que ele é falso, ele cai, desaparece. E, depois disso, a jornada interior é muito leve, muito simples.

Osho

In: Escute seu coração
Editora Gente, São Paulo - 2006
p. 12



- Postado por: Rodrigo às 13h21
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Virtual

Sempre tão perto de você
E há tanto tempo sem te ver
Sinto você no vento
Vejo você por dentro
E eu sem você

O pensamento faz sentir
Pode criar e destruir
Pesadelo medonho
Ou inventar um sonho
Para seguir
Segui tanto sonho até acreditar
No instante maior que essa vida fugaz
Te ver é vertigem, pensar é miragem
Se o tempo parasse guardava essa imagem
Mas ele acabou de passar

Se existiu eu já não sei
Se foi real ou viajei
Se foi o meu desejo
Que viu e eu não vejo
Eu te inventei

Música: Zé Miguel Wisnik / Letra: Alice Ruiz



- Postado por: Rodrigo às 09h01
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Por onde for quero ser seu par...

Andança

Vim tanta areia andei
Da lua cheia eu sei, uma saudade imensa
Vagando em verso eu vim vestido de cetim
Na mão direita rosas vou levar

Olha a lua mansa a se derramar
Ao luar descansa meu caminhar
Meu olhar de festa se fez feliz
Lembrando a seresta que um dia eu fiz

Já me fiz a guerra por não saber
Que esta terra encerra meu bem querer
E jamais termina meu caminhar
Só o amor me ensina onde vou chegar

Rodei de roda andei, dança da moda eu sei
Cansei de ser sozinha
Verso encantado usei, meu namorado é rei
Nas lendas do caminho
Onde andei

No passo da estrada só faço andar
Tenho a minha amada a me acompanhar
Vim de longe léguas cantando eu vim
Já não faça tréguas, sou mesmo assim

Contracanto:
Me leva amor
Amor
Me leva amor
Por onde for quero ser seu par

Edmundo Souto, Paulinho Tapajós e Danilo Caymmi

 

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=7vYwKWxxPsQ



- Postado por: Rodrigo às 08h34
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Resposta a Arvers

Meu amigo, por que, de forma tão sentida
dizeis que o eterno amor nascido num momento
é uma dor sem remédio, e há de estar escondida,
e como supor que ela ignora esse tormento?

Vós não fostes jamais sombra despercebida,
nem deveis vos julgar num triste isolamento:
os mais amados vão, às vezes, pela vida
sem nada receber e sem um só lamento.

Deus, entanto, à mulher deu uma alma complacente
e ela por seu caminho irá mais docemente
se um murmúrio de amor a segue aonde ela vá.

Aquela que ao dever deseja ficar presa
os versos cheios dela, os sentiu com certeza,
e tudo compreendeu...  mas nunca ela o dirá!

Paráfrase de LOUIS AIGOIN

In: OS MAIS BELOS SONETOS QUE O AMOR INSPIROU
Tradução de Antonio Gabriel de Barros Vale
Editora Vecchi, Rio de Janeiro
p. 36



- Postado por: Rodrigo às 08h24
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Soneto

Na alma tenho um segredo e na vida um mistério
um grande e eterno amor num momento irrompido;
é um mal sem esperança, e assim, profundo e sério,
aquela que o causou nem sabe que é nascido.

Azar! Passo ao seu lado, em vão, despercebido,
portanto, sempre só, sem nenhum refrigério,
e hei de chegar ao fim, à campa, ao cemitério,
nada ousando pedir ou tendo recebido.

E ela que o céu criou boa e terna, hei de ver
seu caminho a seguir, e a ouvir sem entender
o murmúrio de amor que a seus pés se erguerá...

A um austero dever, piedosa, se desvela,
e dirá, quando ler meus versos cheios dela:
- "Que mulher será essa?".   E não compreenderá.

FELIX ARVERS (1806-1850)

In: OS MAIS BELOS SONETOS QUE O AMOR INSPIROU
Tradução de J. G. DE ARAÚJO JORGE (Inédita)
Editora Vecchi, Rio de Janeiro
p. 35



- Postado por: Rodrigo às 08h13
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Um instante

Aqui me tenho
como não me conheço
nem me quis
sem começo
nem fim
aqui me tenho
sem mim
nada lembro
nem sei
à luz presente
sou apenas um bicho
transparente

Ferreira Gullar

Fonte: http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/

 



- Postado por: Rodrigo às 20h51
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AMOR BASTANTE

quando vi você
tive uma idéia brilhante
foi como se eu olhasse
de dentro de um diamante
e meu olho ganhasse
mil faces num só instante
basta um instante
e você tem amor bastante

Paulo Leminski

In: LA VIE EN CLOSE
Editora Brasiliense
p. 95



- Postado por: Rodrigo às 18h28
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Alexandre Dumas: 24 de julho de 1802 - 5 de dezembro de 1870

"Mas também nunca dissestes que não me amáveis; e, com efeito, dizer-me tais palavras seria da parte de Vossa Majestade a maior das ingratidões. Pois, dizei-me, onde encontrareis um amor semelhante ao meu, um amor que nem o tempo, nem a ausência, nem o desespero lograram extinguir; um amor que se contenta com uma fita que caiu, um olhar perdido, uma palavra solta?"

Alexandre Dumas

In: Os Três Mosqueteiros (1844)

* * *

"Só tenho dois adversários; não direi dois vencedores, porque com persistência submeto-os: são a distância e o tempo. O terceiro, e o mais terrível, é a minha condição de homem mortal. É a única coisa que me pode deter no caminho que sigo e antes de atingir o alvo que busco; tudo o mais está previsto. Aquilo a que os homens chamam os caprichos do destino, isto é, a ruína, a mudança, as eventualidades, tenho-os todos previstos, e se alguns me podem atingir, nenhum me pode derrubar. A não ser que morra, serei sempre o que sou. Aqui tem porque lhe digo coisas que nunca ouviu, mesmo da boca dos reis, porque os reis necessitam de si e os outros homens temem-no. Quem é que não diz para consigo, numa sociedade tão ridiculamente organizada como a nossa"

Alexandre Dumas

In: O Conde de Monte Cristo



- Postado por: Rodrigo às 18h23
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Língua dos Versos

Língua:
língua da fala;
língua recebida lábio
a lábio; beijo
ou sílaba;
clara, leve, limpa;
língua
da água, da terra, da cal;
materna casa da alegria
e da mágoa;
dança do sol e do sal;
língua em que escrevo;
ou antes: falo.

Eugénio de Andrade

In: Rente ao Dizer
p. 130



- Postado por: Rodrigo às 18h25
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Rainer Maria Rilke: 4 de dezembro de 1875 — 29 de dezembro de 1926

O torso arcaico de Apolo

Não conhecemos sua cabeça inaudita
Onde as pupilas amadureciam. Mas
Seu torso brilha ainda como um candelabro
No qual o seu olhar, sobre si mesmo voltado

Detém-se e brilha. Do contrário não poderia
Seu mamilo cegar-te e nem à leve curva
Dos rins poderia chegar um sorriso
Até aquele centro, donde o sexo pendia.

De outro modo erger-se-ia esta pedra breve e mutilada
Sob a queda translúcida dos ombros.
E não tremeria assim, como pele selvagem.

E nem explodiria para além de todas as fronteiras
Tal como uma estrela. Pois nela não há lugar
Que não te mire: precisas mudar de vida.

Rainer Maria Rilke

(Tradução: Paulo Quintela)



- Postado por: Rodrigo às 18h19
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Rainer Maria Rilke: 4 de dezembro de 1875 — 29 de dezembro de 1926

O Anjo

Com um mover da fronte ele descarta
tudo o que obriga, tudo o que coarta,
pois em seu coração, quando ela o adentra,
a eterna Vinda os círculos concentra.

O céu com muitas formas lhe aparece
e cada qual demanda: vem, conhece -.
Não dês às suas mãos ligeiras nem
um só fardo; pois ele, à noite, vem

à tua casa conferir teu peso,
cheio de ira, e com a mão mais dura,
como se fosses sua criatura,
te arranca do teu molde com desprezo.

Rainer Maria Rilke

(Tradução: Augusto de Campos)



- Postado por: Rodrigo às 18h13
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Além da Terra, Além do Céu

Além da Terra, além do Céu,
no trampolim do sem-fim das estrelas,
no rastro dos astros,
na magnólia das nebulosas.
Além, muito além do sistema solar,
até onde alcançam o pensamento e o coração,
vamos!
vamos conjugar
o verbo fundamental essencial,
o verbo transcendente, acima das gramáticas
e do medo e da moeda e da política,
o verbo sempreamar,
o verbo pluriamar,
razão de ser e de viver.

Carlos Drummond de Andrade

In: Amar se Aprende Amando
Ed. Record, 2001



- Postado por: Rodrigo às 21h12
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16

Culpar o mundo do caos
se arestas de mim própria,
atritam-se às correntes de minhas asas?

Culpar a destruição dos sentimentos,
        a vida gastando-me a pele
                   e a alma,
se o lixo humano estende-se as mãos
              e sorri e sorri,
até que a pureza intacta de eu crer
              doe-me toda
à tanta máscara!...

Somar o mundo lá fora
a mim: - seu auto-retrato

Lília A. Pereira da Silva

In: 33 anos de Poesia - Volume 1
Editora João Scortecci - 1991 - São Paulo - 1a. edição
p. 26



- Postado por: Rodrigo às 21h02
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por que não me amas?

17.

se tenho os lábios bem desenhados e o seio esquerdo e direito
se falo com voz cristalina e o umbigo não é saltado
se o cabelo é alinhado e as orelhas estão sempre limpas
por que não me amas?

se tenho o pescoço longo e as emoções controladas
se sei responder as perguntas quase todas
se conheço a arte de sorrir com o rosto inteiro
por que não me amas?

se tenho sete vestidos para usar no sábado
se as pernas são rijas e as unhas não estão roídas
se leciono às quintas e a tristeza está bem escondida
por que não me amas?

se nado bem de costas e vivo bem de frente
se como pouco açúcar e bebo muita água
se a timidez que trago não atrapalha a dança
por que não me amas?

sei responder as perguntas quase todas

Martha Medeiros

In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 23



- Postado por: Rodrigo às 20h39
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Raro Cantar

Para Sylmara

Primeiro:

"Primeiro, a cidade nos escondia
sob os relógios do cotidiano.
Objetos sólidos nos disfarçavam:
paredes, fachadas, portas fechadas.

Alguns lugares privilegiados,
Como avenidas ou praças imensas,
ocultavam, em olhares dispersos,
nossa fome do outro, sonho adiado.

Ainda assim nos víamos: incapazes
de sim: de fugir do sono do longe.
Cheios de dedos dos medos passados,
nos perdíamos na diversidade.

Depois:

Depois, outra coragem nos desvia
dos desencontros, mar sutil de engano.
Miragens líqüidas nos resgatavam:
ondas, estradas, lembranças aladas.

Densa paisagem: sonho projetado
por olhos sem margens, poro que pensa.
Desejos, reflexos, nexos diversos
nos revelavam em gestos calados.

Agora sim víamos: capazes
de sim:de surgir no sono do longe.
Cheios de nós, cegos entrelaçados,
brotávamos luz, em meio à cidade.

Hoje:

Hoje, continuamos, dia a dia, 
Raro cantar de amor entre os escombros. 
Margens sólidas e escapes se cavam 
na tragédia impressa e apressada.

Em nosso canto íntimo, cercados 
de livros, brancas sombras, recompensas, 
Vivos esforços, às vezes um verso, 
tramamos nós ao vento, desatados.

Insistimos, como pouco tenazes, 
no sim: de fulgir no sono sem longe. 
Cheios do resto, sem certo traçado, 
plantamos planos de velhas idades".

Frederico Barbosa

In: Cantar de Amor entre os Escombros
Ed. Landy, 2002.
p. 63-65



- Postado por: Rodrigo às 18h57
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Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...


Manuel Bandeira

In: Libertinagem & Estrela da Manhã
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.
p. 54



- Postado por: Rodrigo às 18h46
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Mil e Uma Noites

No silêncio da minha solidão viajo léguas
e em busca das canções de Rapunzel navego as trevas
das mil e uma noites de sonhar brancas de neve,
Sininho, Peter Pan e ganchos de explosões alegres.
Só encontro os meus sonetos espalhados pelo chão...
E as mil e uma noites não são noites, são viagens
pelas luas de escrever paixão.

Na solidão do meu silêncio busco as madrugadas
no fundo de oceanos com dragões, duendes e fadas
das mil e uma noites de sonhar vinte mil léguas
e os quarenta ladrões da inspiração não me dão tréguas.
Só encontro os meus sonetos espalhados pelo chão...
E o meu submarino, esse menino das miragens,
conta estrelas de escrever paixão.

Nas ilhas-fantasia meu silêncio vê imagens
das mil e uma noites de buscar felicidades
e as minhas caravelas de escrever mar de bobagens
aportam meus piratas espalhados pelo chão.
O meu capitão Nemo afunda o barco das saudades...
E a onda, que arrebenta em minha praia, traz areias
de escrever castelos de paixão.

Nathan de Castro

In: 1001 noites de sonetos & rabiscos
Editora Scortecci, 2005, São Paulo
p. 11

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- Postado por: Rodrigo às 20h34
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A VIDA É SEMPRE VIDA

Se é bela a mocidade, a velhice eu digo
Que embora diferente, mas ainda é vida
Que sonha, que anseia e quer ser vivida
No convívio dos jovens ou de um velho amigo...

Mas o risco, porém, é viver ante o perigo
Daquele que não crê mais, e duvida
E acha que a velhice é uma ilusão perdida
E, que ao invés de ser um prémio é um castigo!

A vida é sempre vida por áspera que seja.
Embora não se alcance aquilo que deseja.
A vida é um grande bem: não é vaidade.

E cada dia que passa, uma lembrança deixa
De saudade, de mágoas ou de queixa...
Mas a vida é sempre vida pra qualquer idade.

José Bruno Linhares

In: O Melhor Jeito de Amar
Editora Physis, 1998
p. 11

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- Postado por: Rodrigo às 20h22
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