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Perfil BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos |




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Se estou só, quero não estar
Se estou só, quero não estar,
Se não estou, quero estar só,
Enfim, quero sempre estar
Da maneira que não estou.
Ser feliz é ser aquele.
E aquele não é feliz,
Porque pensa dentro dele
E não dentro do que eu quis.
A gente faz o que quer
Daquilo que não é nada,
Mas falha se o não fizer,
Fica perdido na estrada.

Fernando Pessoa


“Uma certa Amy Lawrence desapareceu do seu coração sem deixar atrás de si o mais leve rastro. Pensara amá-la até a loucura, julgara a sua paixão uma espécie de idolatria, e agora via que não passava de uma simples inclinação. Levara meses a conquistá-la e, quando, uma semana antes, ela se decidira a aceitá-lo, julgara-se o menino mais feliz do mundo. Isso acontecera há uns escassos sete dias, e agora, ali, num instante, ela deixou de fazer parte da sua vida, como uma estranha que tivesse passado por ele”.

Mark Twain
In: As aventuras de Tom Sawyer
Trad. Luísa Derouet
Nova Cultural, 1a. edição
p. 24-25

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AUTONOMIA
É impossível nesta primavera, eu sei
Impossível pois longe estarei
Mas pensando em nosso amor
Amor sincero
Ai, se eu tivesse autonomia
Se eu pudesse gritaria
Não vou, não quero
Escravizaram assim um pobre coração
É necessária nova abolição
Pra trazer de volta a minha liberdade
Se eu pudesse gritaria, amor
Se eu pudesse brigaria, amor
Não vou, não quero.

Cartola


XXIX - Nem Sempre Sou Igual
Nem sempre sou igual no que digo e escrevo.
Mudo, mas não mudo muito.
A cor das flores não é a mesma ao sol
De que quando uma nuvem passa
Ou quando entra a noite
E as flores são cor da sombra.
Mas quem olha bem vê que são as mesmas flores.
Por isso quando pareço não concordar comigo,
Reparem bem para mim:
Se estava virado para a direita,
Voltei-me agora para a esquerda,
Mas sou sempre eu, assente sobre os mesmos pés —
O mesmo sempre, graças ao céu e à terra
E aos meus olhos e ouvidos atentos
E à minha clara simplicidade de alma...
Alberto Caeiro


Estes são os momentos, o intervalo. A noite se foi, o sol logo nascerá. Torne estes hiatos tão belos quanto possível — repletos de silêncio, de gratidão, gratidão à existência que lhe deu essa oportunidade, gratidão a todos os que auxiliaram. E espere. "Esperar" é uma palavra-chave. Você não pode forçar a existência a fazer coisas; você deve apenas esperar. No momento certo, as coisas acontecem. Você plantou as sementes, está aguando o jardim; agora espere. Toda pressa é perigosa. Tudo para crescer leva o seu tempo. Somente falsidades podem ser forjadas rapidamente, numa linha de produção. Mas as realidades crescem, e o crescimento necessita de tempo. E o crescimento interior é o maior crescimento de toda a existência.
Osho
In: Escute seu coração
Editora Gente, 2006
p. 11

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(...) "Desde o dia em que Leonardo fizera a sua declaração amorosa, uma mudança notável se começou a operar em Luisinha, a cada hora se tornava mais sensível a diferença tanto do seu físico como do seu moral. Seus contornos começavam a arredondar-se; seus braços, até aí finos e sempre caídos, engrossavam-se e tornavam-se mais ágeis; suas faces magras e pálidas, enchiam-se e tomavam essa cor que só sabe ter o rosto da mulher em certa época da vida; a cabeça, que trazia habitualmente baixa, erguia-se agora graciosamente; os olhos, até aqui amortecidos, começavam a despedir lampejos brilhantes; falava, movia-se, agitava-se.
A ordem de suas idéias alterava-se também; o seu mundo interior, até então acanhado, estreito, escuro, despovoado, começava a alargar os horizontes, a iluminar-se, a povoar-se de milhões de imagens, ora amenas, ora melancólicas, sempre porém belas.
Até então indiferente ao que se passava em torno de si, parecia agora participar da vida, de tudo que a cercava; gastava horas inteiras a contemplar o céu, como se só agora tivesse reparado que ele era azul e belo, que o sol o iluminava de dia, que se recamava* de estrelas à noite."
Manuel Antônio de Almeida
In: Memórias de um Sargento de Milícias
Tomo II , Capitulo III - Derrota
Ateliê Editorial, 2000
p.215
* recobria

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O grilo procura
no escuro
o mais puro diamante perdido.
O grilo
com suas frágeis britadeiras de vidro
perfura
as implacáveis solidões noturnas.
E se o que tanto buscas só existe
em tua límpida loucura
- que importa? -
isso
exatamente isso
é o teu diamante mais puro!

Mario Quintana
Mario Quintana - Poesia Completa
Apontamentos de História Sobrenatural
Editora Nova Aguilar
p. 399

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Amor Violeta
O amor me fere é debaixo do braço,
de um vão entre as costelas.
Atinge o meu coração é por esta via inclinada.
Eu ponho o amor no pilão com cinza
e grão de roxo e soco. Macero ele,
faço dele cataplasma
e ponho sobre a ferida.
Adélia Prado
In: Poesia Reunida
SP: Siciliano, 1991
p. 81

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"O tempo, o tempo é versátil, o tempo faz diabruras, o tempo brincava comigo, o tempo se espreguiçava provocadoramente, era um tempo só de esperas, me guardando na casa velha por dias inteiros; era um tempo também de sobressaltos, me embaralhando ruídos, confundindo minhas antenas, me levando a ouvir claramente acenos imaginários, me despertando com a gravidade de um julgamento mais áspero."
Raduan Nassar
In: Lavoura Arcaica (1975)


(...) "Sim, minha força está na solidão. Não tenho medo nem de chuvas tempestivas, nem de grandes ventanias soltas, pois eu também sou o escuro da noite. Embora não agüente bem ouvir um assovio no escuro, e passos. Escuridão? Lembro-me de uma namorada: era moça-mulher e que escuridão dentro de seu corpo nunca a esqueci: jamais se esquece a pessoa com quem se dormiu. O acontecimento fica tatuado em marca de fogo na carne viva e todos os que percebem o estigma fogem com horror." (Rodrigo S.M.)

Clarice Lispector
In: A Hora da Estrela
Ed. Rocco, 1998.
p. 18

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(...) Recuso-me a crer na liberdade e neste conceito filosófico. Eu não sou livre, e sim às vezes constrangido por pressões estranhas a mim, outras vezes por convicções íntimas. Ainda jovem, fiquei impressionado pela máxima de Schopenhauer: “O homem pode, é certo, fazer o que quer, mas não pode querer o que quer”; e hoje, diante do espetáculo aterrador das injustiças humanas, esta moral me tranquiliza e me educa. Aprendo a tolerar aquilo que me faz sofrer. Suporto então melhor meu sentimento de responsabilidade. Ele já não me esmaga e deixo de me levar, a mim ou aos outros, a sério demais. Vejo então o mundo com bom humor. Não posso me preocupar com o sentido ou a finalidade de minha existência, nem da dos outros, porque, do ponto de vista estritamente objetivo, é absurdo. E no entanto, como homem, alguns ideais dirigem minhas ações e orientam meus juízos. Porque jamais considerei o prazer e a felicidade como um fim em si e deixo este tipo de satisfação aos indivíduos reduzidos a instintos de grupo.

Albert Einstein
In: Como Vejo o Mundo - Mein Weltbild
Tradução de H. P. de Andrade.
Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1981.

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“Fiz um acordo de coexistência pacífica com o tempo:
nem ele me persegue, nem eu fujo dele.
Um dia a gente se encontra.”
Mário Lago
(última entrevista ao Jornal do Brasil)
* * *
ATIRE A PRIMEIRA PEDRA
Covarde, sei que me podem chamar
Porque não calo no peito esta dor
Atire a primeira pedra ai, ai, ai
Àquele que não sofreu por amor
Eu sei que vão censurar o meu proceder
Eu sei, mulher, que você mesma vai dizer
Que eu voltei pra me humilhar
Ai, mas não faz mal
Você pode até sorrir
Perdão foi feito pra gente pedir
Composição: Ataulfo Alves e Mário Lago
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=LGZQbEcHgPs


Ao mesmo Assunto e na Mesma Ocasião
Corrente, que do peito destilada
Sois por dois belos olhos despedida;
E por carmim correndo dividida
Deixais o ser, levais a cor mudada.
Não sei, quando caís precipitada,
Às flores que regais tão parecida,
Se sois neves por rosa derretida,
Ou se rosa por neve desfolhada.
Essa enchente gentil de prata fina,
Que de rubi por conchas se dilata,
Faz troca tão diversa peregrina,
Que no objeto, que mostra, ou que retrata,
Mesclando a cor púrpurea, à cristalina,
Não sei quando é rubi, ou quando é prata.
Gregório de Matos
In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p.18-19


Lucidez e Loucura
Adoro a lucidez da tua loucura,
imploro a insensatez de teu pensar.
Instiga e questiona o teu olhar,
Mastiga e aprisiona a alma impura.
Na paz em crise onde árdua segue a luta,
me apraz a triste fé no esperançar.
Avanço o passo manco ao caminhar,
me canso em ser mutante pela muta.
Te vejo no futuro que componho.
Meu beijo vem do puro encantamento,
suave e maleável, é cimento!
Tal ave, insuperável vôo noturno,
aos pés meu coração é taciturno.
Tu és a perdição em carne e sonho.
Cesar Veneziani
(escrito em 06/11/2008)
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

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"... tinha suspirado, tinha beijado o papel devotamente! Era a primeira vez que lhe escreviam aquelas sentimentalidades, e o seu orgulho dilatava-se ao calor amoroso que saía delas, como um corpo ressequido que se estira num banho tépido; sentia um acréscimo de estima por si mesma, e parecia-lhe que entrava enfim numa existência superiormente interessante, onde cada hora tinha o seu encanto diferente, cada passo condizia a um êxtase, e a alma se cobria de um luxo radioso de sensações!
Ergueu-se de um salto, passou rapidamente um roupão, veio levantar os transparentes da janela... Que linda manhã! Era um daqueles dias do fim de agosto em que o estio faz uma pausa; há prematuramente, no calor e na luz, uma certa tranqüilidade outonal; o sol cai largo, resplandecente, mas pousa de leve; o ar não tem o embaciado canicular, e o azul muito alto reluz com uma nitidez lavada; respira-se mais livremente; e já se não vê na gente que passa o abatimento mole da calma enfraquecedora. Veio-lhe uma alegria: sentia-se ligeira, tinha dormido a noite de um sono são, contínuo, e todas as agitações, as impaciências dos dias passados pareciam ter-se dissipado naquele repouso. Foi-se ver ao espelho"

Eça de Queirós
In: O Primo Basílio
Marisa Monte – Amor I love you:
http://www.youtube.com/watch?v=ni-tGSSYqyo

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Inventário
Ouço os sons da chuva
e de um carro que passa na rua.
Tudo me dá de ombros,
a mim e a meus escombros.
Sofro como se existisse de fato
tal esta casa e este sapato
em que, por descuido, habito
com meu vazio sem vínculos.
A noite me sonega o ser.
Pela manhã serei o homem que sai,
funcionário cumpridor de regras,
aquele que tem fome e sede
e por isso vai ao mercado
e se entusiasma com queijos,
vinho pão fresco cerveja,
fugindo de toda incerteza.
Não. Não é este o tipo
de alimento que me sustenta
e sim a sombra que me inquieta
e que, com sua mão, me inventa.
Gerado na dor e na dúvida
no duro exercício da descrença,
sou vento enchendo roupas no varal
num inventário da própria ausência.
Miguel Sanches Neto
O poema acima foi extraído do livro “Venho de um país obscuro”, Editora Bertrand-Brasil - Rio de Janeiro, 2005, pág. 77.

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Amor
Nas largas mutações perpétuas do universo
O amor é sempre o vinho enérgico, irritante...
Um lago de luar nervoso e palpitante...
Um sol dentro de tudo altivamente imerso.
Não há para o amor ridículos preâmbulos,
Nem mesmo as convenções as mais superiores;
E vamos pela vida assim como os noctâmbulos
à fresca exalação salúbrica das flores...
E somos uns completos, célebres artistas
Na obra racional do amor -- na heroicidade,
Com essa intrepidez dos sábios transformistas.
Cumprimos uma lei que a seiva nos dirige
E amamos com vigor e com vitalidade,
A cor, os tons, a luz que a natureza exige!
Cruz e Souza

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O HOMEM OBSERVADO
O pardal pousou na janela e ficou espiando o interior do quarto, onde havia muitos livros.
O homem, debruçado sobre a mesa, não percebeu a chegada do pardal.
Ao olhar distraidamente na direção da janela, viu o pássaro imóvel e observador.
O homem não se alterou. Prosseguiu no trabalho, que era o de tirar coisas invisíveis da cabeça e colocá-las no papel.
O pardal prestava atenção ao movimento do braço e da cabeça, que às vezes havia um sinal afirmativo, outras negativo. Também reparou que os lábios dele ora se contraíam ora esboçavam um sorriso.
Nisto passou bem meia hora. O pardal não tinha pressa, e o homem continuava na sua operação. De repente, o homem pegou do papel onde botava as coisas invisíveis que tirava do cérebro e, com um gesto brusco, fez dele uma bola e atirou-a ao chão.
- Diabo desse pardal que não me deixa escrever o que eu quero! – exclamou.
- Eu estava achando linda a brincadeira deste homem, e ele me assustou – queixou-se o pardal, batendo em retirada.

Carlos Drummond de Andrade
In: Carlos Drummond de Andrade - Prosa Completa
Contos Plausíveis
Editora Nova Aguilar
p. 142-3

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Corpo
De que vale tentar reconstruir com palavras
O que o verão levou
Entre nuvens e risos
Junto com o jornal velho pelos ares
O sonho na boca, o incêndio na cama,
o apelo da noite
Agora são apenas esta
contração (este clarão)
do maxilar dentro do rosto.
A poesia é o presente.

Ferreira Gullar
Fonte: http://literal.terra.com.br/ferreira_gullar/

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O teu riso
Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.
Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.
A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.
Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.
À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.
Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda
In: Os Versos do Capitão

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9. DANÇA LENTA
Não somos nem bons nem maus;
somos tristes. Plantados entre chão
e estrelas, lutamos com sangue,
pedras e paus, sonho
e arte.
Nem vida nem morte:
somos lúcida vertigem,
glória e danação. Somos gente:
dura tarefa.
Com sorte, aqui e ali a ternura faz parte.
Lya Luft
In: Para não dizer adeus
Record 2005
p. 31

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Timidamente [...], com medo de que você se aproxime de mim, eu me mantenho bem longe.
[...] Então você vem, apesar de tudo, e eu não posso mais fugir, e a sua mão pega a minha mão inutilmente fugitiva, depois devagar e com ternura a acaricia. [...]
E você ficava de olhos baixos; eu tentava me desvencilhar, em vão, da sua mão obstinadamente terna.
E tudo isso era tão estranhamente doce que eu acordei como de um pesadelo.

André Gide
In: Les cahiers d'André Walter.
"Bibliothèque de la Pléiade".
Paris: Gallimard, 1986
p. 85-86

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(...) Nós ainda somos moços podemos perder algum tempo sem perder a vida inteira. Mas olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceito o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que já não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficando do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gafe. Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingênuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer “pelo menos não fui tolo” e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. Mas eu escapei disso...(...)

Clarice Lispector
In: Uma Aprendizagem ou O Livro dos Prazeres
RJ: Nova Fronteira, 8a. ed. 1980
p. 49-50 (Romance)

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UMA CRIATURA
Sei de uma criatura antiga e formidável,
Que a si mesma devora os membros e as entranhas
Com a sofreguidão da fome insaciável.
Habita juntamente os vales e as montanhas;
E no mar, que se rasga, à maneira de abismo,
Espreguiça-se toda em convulsões estranhas.
Traz impresso na fronte o obscuro despotismo;
Cada olhar que despede, acerbo e mavioso,
Parece uma expansão de amor e de egoísmo.
Friamente contempla o desespero e o gozo,
Gosta do colibri, como gosta do verme,
E cinge ao coração o belo e o monstruoso.
Para ela o chacal é, como a rola, inerme;
E caminha na terra imperturbável, como
Pelo vasto areal um vasto paquiderme.
Na árvore que rebenta o seu primeiro gomo
Vem a folha, que lento e lento se desdobra,
Depois a flor, depois o suspirado pomo.
Pois essa criatura está em toda a obra:
Cresta o seio da flor e corrompe-lhe o fruto;
E é nesse destruir que as suas forças dobra.
Ama de igual amor o poluto e o impoluto;
Começa e recomeça uma perpétua lida,
E sorrindo obedece ao divino estatuto.
Tu dirás que é a Morte; eu direi que é a Vida.
Machado de Assis

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"Os voluptuosos careiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantém relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos."
Voltaire
In: Dicionário Filosófico.
São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.
p. 23

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(...) "Mesmo que o ser humano tenha conquistado avanços espetaculares na ciência e tecnologia, e ainda conquistará muito mais, algo básico está faltando neste mundo. Existe um tipo de pobreza de espírito que se mantém em contraposição à abundância científica e tecnológica. Quanto mais ricos ficamos materialmente, mais pobres nos tornamos moral e espiritualmente. Nós aprendemos a voar nos céus como os pássaros, a nadar no mar como os peixes, mas não aprendemos a simples arte de convivermos como irmãos..."

Martin Luther King Jr.
Trecho do discurso de M. L. King ao receber o Prêmio Nobel da Paz de 1964.


"Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça de petróleo e de carvão; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão... Porque até na cidade, a Primavera é Primavera."

Leon Tolstoi
In: Ressurreição (1899)

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Acontecimento
Haverá na face de todos um profundo assombro
E na face de alguns, risos sutis cheios de reserva
Muitos se reunirão em lugares desertos
E falarão em voz baixa em novos possíveis milagres
Como se o milagre tivesse realmente se realizado
Muitos sentirão alegria
Porque deles é o primeiro milagre
Muitos sentirão inveja
E darão o óbolo do fariseu com ares humildes
Muitos não compreenderão
Porque suas inteligências vão somente até os processos
E já existem nos processos tantas dificuldades...
Alguns verão e julgarão com a alma
Outros verão e julgarão com a alma que eles não têm
Ouvirão apenas dizer...
Será belo e será ridículo
Haverá quem mude como os ventos
E haverá quem permaneça na pureza dos rochedos.
No meio de todos eu ouvirei calado e atento, comovido e risonho
Escutando verdades e mentiras
Mas não dizendo nada.
Só a alegria de alguns compreenderem bastará
Porque tudo aconteceu para que eles compreendessem
Que as águas mais turvas contêm às vezes as pérolas mais belas.

Vinicius de Moraes
In: "Poesia completa e prosa: "Poesias coligidas"

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O CENTRO DA NOITE
Noite disforme
Se olhares o céu, o que vale a pena,
Verás que o brilho das estrelas é uma coisa inútil
E sentirás o frio da vida
Dante Milano
In: Melhores Poemas – Dante Milano
Global Editora, p. 86


Um chamado João
João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender? “
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Carlos Drummond de Andrade
Publicado no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1968.


A língua portuguesa, aqui no Brasil, está uma vergonha e uma miséria. Está descalça e despenteada; É preciso distendê-la, destorcê-la, obrigá-la a fazer ginástica, desenvolver-lhe músculos. Dar-lhe precisão, exatidão, agudeza, plasticidade, calado, motores. E é preciso refundi-la no tacho, mexendo muitas horas. A nossa literatura, com poucas exceções, é um valor negativo, um cocô de cachorro no tapete de um salão. Naturalmente palavrosos, piegas, sem imaginação criadora, imitadores, ocos, incultos, apressados, preguiçosos, vaidosos, impacientes, não cuidamos da exatidão. Quem pode, deve preparar-se, armar-se, e lutar contra esse estado de coisas. É uma revolução branca, uma série de golpes de estado. (Em carta de 11 de maio de 1947, para Vicente Guimarães)
*
"Quando escrevo, repito o que já vivi antes. E para estas duas vidas, um léxico só não é suficiente. Em outras palavras, gostaria de ser um crocodilo vivendo no rio São Francisco. Gostaria de ser um crocodilo porque amo os grandes rios, pois são profundos como a alma de um homem. Na superfície são muito vivazes e claros, mas nas profundezas são tranqüilos e escuros como o sofrimento dos homens."

João Guimarães Rosa

Der Dichter
Du entfernst dich von mir, du Stunde.
Wunden schlägt mir dein Flügelschlag.
Allein: was soll ich mit meinem Munde?
mit meiner Nacht? mit meinem Tag?
Ich habe keine Geliebte, kein Haus,
keine Stelle auf der ich lebe
Alle Dinge, an die ich mich gebe,
werden reich und geben mich aus.

Rainer Maria Rilke
*
O Poeta
Já te despedes de mim, Hora.
Teu golpe de asa é o meu açoite.
Só: da boca o que faço agora?
Que faço do dia, da noite?
Sem paz, sem amor, sem teto,
caminho pela vida afora.
Tudo aquilo em que ponho afeto
fica mais rico e me devora.

Rainer Maria Rilke
(Tradução: Augusto de Campos)
In: Coisas e Anjos de Rilke
Editora Perspectiva S.A.
p. 64-5


NUA
Nua és tão simples como uma de tuas mãos,
lisa, terrestre, mínima, redonda, transparente,
tens linhas de lua, caminhos de maçã,
nua és magra como o trigo nu.
Nua és azul como a noite em Cuba,
tens trepadeiras e estrelas no pêlo,
nua és enorme e amarela
como o verão numa igreja de ouro.
Nua és pequena como uma de tuas unhas,
curva, sutil, rosada até que nasça o dia
e te metes no subterrâneo do mundo
como num longo túnel de trajes e trabalhos:
tua claridade se apaga, se veste, se desfolha
e outra vez volta a ser uma mão nua.

Pablo Neruda


Quando o cinza de um dia taciturno bate dentro da gente, sentimos uma dor gostosa, como a melodia dos poetas.
Num instante sentimos um prazer calmo e solene.
Se isso ocorrer com você um dia qualquer, não faça por menos, curta esse dia minuto a minuto, não se envergonhe, nada é ruim se você se enquadra na sua felicidade.
Calce a poesia e ande.
Paulo Baleki


Ela canta, pobre ceifeira
Ela canta, pobre ceifeira,
Julgando-se feliz talvez;
Canta, e ceifa, e a sua voz, cheia
De alegre e anônima viuvez,
Ondula como um canto de ave
No ar limpo como um limiar,
E há curvas no enredo suave
Do som que ela tem a cantar.
Ouvi-la alegra e entristece,
Na sua voz há o campo e a lida,
E canta como se tivesse
Mais razões pra cantar que a vida.
Ah, canta, canta sem razão!
O que em mim sente 'stá pensando.
Derrama no meu coração a tua incerta voz ondeando!
Ah, poder ser tu, sendo eu!
Ter a tua alegre inconsciência,
E a consciência disso! Ó céu!
Ó campo! Ó canção! A ciência
Pesa tanto e a vida é tão breve!
Entrai por mim dentro! Tornai
Minha alma a vossa sombra leve!
Depois, levando-me, passai!

Fernando Pessoa


Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como
um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi
escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana
exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

Rachel de Queiroz
(Poesia feita em homenagem ao poema "Geometria dos Ventos" de Álvaro Pacheco)


Não me Peçam Razões...
Não me peçam razões, que não as tenho,
Ou darei quantas queiram: bem sabemos
Que razões são palavras, todas nascem
Da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
A força de maré que me enche o peito,
Este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
Deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
A cor de primavera que há-de vir.

José Saramago
In: "Os Poemas Possíveis"
Editorial Caminho, Lisboa, 1985,
p. 116


Retrato do poeta quando jovem
Há na memória um rio onde navegam
Os barcos da infância, em arcadas
De ramos inquietos que despregam
Sobre as águas as folhas recurvadas.
Há um bater de remos compassado
No silêncio da lisa madrugada,
Ondas brancas se afastam para o lado
Com o rumor da seda amarrotada.
Há um nascer do sol no sítio exacto,
À hora que mais conta duma vida,
Um acordar dos olhos e do tacto,
Um ansiar de sede inextinguida.
Há um retrato de água e de quebranto
Que do fundo rompeu desta memória,
E tudo quanto é rio abre no canto
Que conta do retrato a velha história.

José Saramago
In: OS POEMAS POSSÍVEIS,
Editorial CAMINHO, Lisboa, 1981. 3ª edição


Preciso Me Encontrar
Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir prá não chorar...
Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver...
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar...
Depois, depois
Que eu me encontrar
Quando eu me encontrar
Composição: Candeia


Noturno
O apito do trem perfura a noite
As paredes do quarto se encolhem
O mundo fica mais vasto.
Tantos livros para ler
tantas ruas por andar
tantas mulheres a possuir...
Quando chega a madrugada
o adolescente adormece por fim
certo de que o dia vai nascer especialmente para ele.
José Paulo Paes (1926-1998)
In: Poesia Completa
Ed. Cia. das Letras (2008)
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'Das Beste' ('O Melhor') – Silbermond
Encontrei um tesouro
E ele tem o seu nome
Tão bonito e mais valioso
Que todo o dinheiro do mundo
Você adormece ao meu lado
Posso ficar a noite toda te olhando
Te ver dormir
Te ouvir respirar
Até que acordemos de manhã
Você conseguiu de novo
Tirar meu fôlego
Quando você se deita a meu lado
Eu mal posso acreditar
Que alguém como eu
Mereça alguém tão bonito como você
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu esqueço o resto do mundo
Quando você está comigo
Você é a melhor coisa que já me aconteceu
Me faz tão bem a maneira com que você me ama
Eu te digo muito pouco
Que é maravilhoso você existir
O seu sorriso vicia
Como se não fosse dessa Terra
Mesmo se ficar perto de você fosse um veneno
Eu ficaria ao seu lado até morrer
A sua partida destruiria mundos
Mas eu não quero pensar nisso
É lindo demais estar com você
Quando nos oferecemos o nosso amor
Me fortaleça
Tire as dúvidas de meus olhos
Conte-me mil mentiras
Eu acreditaria em todas
Ainda assim permanece uma dúvida
A de que eu mereça uma pessoa como você
Quando minha vida fica de pernas pro ar
Você é minha paz e refúgio
Porque tudo o que você me dá
Faz eu me sentir infinitamente bem
Quando estou inquieta
Você é a viagem sem fim
E por isso eu ponho este meu pequeno grande mundo
Nas suas mãos protetoras
Assista o vídeo de "Das beste" da banda Silbermond aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=43bkoVF5pX4
Trecho desta letra para Orkut:


Estranheza do Mundo
Olho a árvore e indago:
está aí para quê?
O mundo é sem sentido
quanto mais vasto é.
Esta pedra esta folha
este mar sem tamanho
fecham-se em si, me
repelem.
Pervago em um mundo estranho.
Mas em meio à estranheza
do mundo, descubro
uma nova beleza
com que me deslumbro:
é teu doce sorriso
é tua pele macia
são teus olhos brilhando
é essa tua alegria.
Olho a árvore e já
não pergunto "para quê"?
A estranheza do mundo
se dissipa em você.

Ferreira Gullar


14.
tinha quatorze anos, insegurança e nenhuma celulite
hoje tenho maturidade e um corpo que não alcança minha mente
tinha marido, filhos e veraneava numa praia onde chovia
hoje bate sol no sobrado em que me escondo
tinha cabelos, primos e uma música preferida
hoje a surdez me poupa do zumbido dos mosquitos
tinha certezas, verdades, princípios, rapazes
hoje tenho certeza de que não soube ser capaz
o futuro tão ansiado chegou mais cedo que devia
eu sonhava para frente, hoje sonho para trás
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 20


A atitude artística se distingue da atitude prática do desejo no sentido de que a arte deixa subsistir seu objeto em liberdade total, enquanto o desejo emprega seu objeto para seu próprio uso, destruindo-o.
Georg Wilhelm Friederich Hegel
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A vida eterna
Meio século.
O peso desta palavra ia me deixar de cama.
Não vai mais. Aprendo sabedorias.
Os alquimistas não são contraventores,
cândidos sim, às vezes, como os santos,
acreditando em pedra, em peixe de sonho,
em sinal escrito no céu.
Onde está Deus?
Abril renasce é do cosmos,
no mais perfeito silêncio.
É dentro e fora de mim.
Adélia Prado
In: Poesia reunida
Ed. Siliciano, p. 321


(...) “Dia a dia, com a moral e com o intelecto, aproximava-me a passos firmes dessa verdade, por cuja descoberta incompleta fui condenado a tão espantoso naufrágio: o homem não é autenticamente um, mas sim dois. E digo dois, porque o meu próprio conhecimento não foi mais além. Outros seguirão o meu exemplo, outros me superarão e atrevo-me a profetizar que no fim o homem será reconhecido como um ser habitado por seres múltiplos, incongruentes e autônomos. Da minha parte, e devido às características da minha existência, avançava forçosamente numa única direção. Aprendi a reconhecer a primitiva dualidade do homem na minha própria pessoa.”

Robert Louis Stevenson
In: "The Strange case of Dr. Jekyll and Mr.Hyde" (O Médico e o Monstro)


Inocência
Criança ingênua, o dia inteiro,
com os meus caniços de taquara,
ficava eu, ao sol de então,
junto dos tanques, no terreiro,
soprando a espuma, leve e clara,
fazendo bolhas de sabão.
Corando a roupa, entre cantigas,
as lavadeiras, que passavam,
interrompiam a canção...
Riam-se as pobres raparigas,
vendo as imagens que brilhavam,
nas minhas bolhas de sabão.
Cresci. Sofri. Sonhando vivo.
E, homem e artista, ainda agora,
me apraz aquela distração...
E fico, às vezes, pensativo,
fazendo versos, como outrora
fazia bolhas de sabão.
E velho, um dia, de repente,
sem ter, de fato, sido nada,
pois tudo é apenas ilusão,
há de extinguir-se a alma inocente
que em mim fulgura, evaporada
como uma bolha de sabão.
Martins Fontes


Amor – Eu Digo
Amor – eu digo. E Lyo responde – Amor.
Mas às vezes nem isto. O duplo olhar,
Em silêncio, repete com fervor
Toda a declinação do verbo amar.

Carlos Drummond de Andrade
In: Poesia Errante
p. 1482


Vandalismo
Meu coração tem catedrais imensas,
Templos de priscas e longínquas datas,
Onde um nume de amor, em serenatas,
Canta a aleluia virginal das crenças.
Na ogiva fúlgida e nas colunatas
Vertem lustrais irradiações intensas
Cintilações de lâmpadas suspensas
E as ametistas e os florões e as pratas.
Como os velhos Templários medievais
Entrei um dia nessas catedrais
E nesses templos claros e risonhos ...
E erguendo os gládios e brandindo as hastas,
No desespero dos iconoclastas
Quebrei a imagem dos meus próprios sonhos!
Augusto dos Anjos
In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999.
p.177


O ESPÍRITO DA LETRA
Ao pé da letra agora, em minha vida
há a morte e uma mulher... E a letra dela,
a primeira, me busca e me martela
ouvido adentro a mesma despedida
outra vez e outra vez, sempre espremida
entre as vogais do amor... Mas como vê-la
sem exumar uma vez mais a estrela
que há anos-luz se esbate sem saída,
sem prazo de morrer na luz que treme?!
O monstro que eu matei deixou-me a marca
suas pernas abertas ante a Parca
aparecem-me em tudo: é a letra M
a da Medusa que eu amei, a barca
sem amarras, sem remos e sem leme...
Bruno Tolentino
In: A balada do cárcere
Rio de Janeiro: Topbooks, 1996

"O amor é mestre, mas é preciso saber adquirí-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar, de fato, não por um instante, mas até o fim."

Fiódor Dostoiévski
In: Os Irmãos Karamazóv
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TEATRO AMADOR
Tenho por máscaras
Um fascínio incontrolável.
Será que guardo
no meu mais profundo abismo
um desejo de teatro?
Ou será que a Verdade
amarga a minha imagem crua
e me mete medo?
O que quero eu revelar,
o que quero eu negar,
se a máscara que uso
é cópia fiel de meu rosto roto?
Oswaldo Antônio Begiato

"Mares e montanhas e horizontes separam
Os amantes, mas as almas se transportam
Do calabouço empoeirado e se encontram
no Paraíso do Amor." *
Friedrich von Schiller
* 'Meere und Berge und Horizonte zwischen den Liebenden — aber die Seelen versetzen sich aus dem staubigen Kerker und treffen sich im Paradiese der Liebe.'


Nenhuma Dor
Minha namorada tem segredos
Tem nos olhos mil brinquedos
De magoar o meu amor
Minha namorada muito amada
Não entende quase nada
Nunca vem de madrugada
Procurar por onde estou
É preciso, ó doce namorada
Seguirmos firmes na estrada
Que leva a nenhuma dor
Minha doce e triste namorada
Minha amada idolatrada
Salve-salve o nosso amor

Torquato Neto


Sinto-me orgulhoso, ao receber este prêmio especial, da minha querida amiga Elisete. Quando se recebe este prêmio, você tem que dizer 7 coisas, que você ama...
As 7 coisas que amo são...
1- Amo meus pais e meu irmão... minha tia e minha avó... o Juca também (cachorro pode, né !?)
2- Amo e agradeço a vida que recebi, seja lá quem foi o idealizador desta
3- Amo minhas várias pilhas de livros e cd's
4- Amo uma mulher extraordinária que talvez nunca perceba o quanto ela é especial para mim...
5- Amo meus grandes amigos reais e virtuais
6- Amo minha profissão, meu trabalho...
7- Amo atualizar meu blog e todas as pessoas que passam aqui diariamente!
Depois repassar este award, para até mais 7 amigos, que tenham blogger ou site. No momento, meus amigos(as) escolhidos são:
- Alinne (Finas Joias)
- Mayane (Gotas)
- Amanda (Mensagens Perfeitas)
- Elisete (Diario Tropikanna)


Cogito
eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível
eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora
eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim
eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranqüilamente
todas as horas do fim.

Torquato Neto
O poema acima foi publicado no livro "Os Últimos Dias de Paupéria", Max Limonad - Rio de Janeiro, 1973, e selecionado por Ítalo Moriconi para figurar no livro "Os cem melhores poemas brasileiros do século", Objetiva - Rio de Janeiro, 2001, pág. 269.


3.
o céu parecia cartolina cinza que havia sido mal dobrada
seus vincos, raios
choveu naquele final de tarde uma usina
abriram-se as comportas, as ruas viraram canais
choveu de cima pra baixo, de baixo pra cima e para os lados
a cartolina virou papel gessado, as nuances rarearam
eu vi um barco
mas o mar se comportou e permitiu que ele atracasse
choveu naquele final de tarde um niágara
dois rapazes atravessaram as águas em bicicletas
não sei se chegaram, havia um charco
o papel gessado virou celofane, trovoadas
água sobre os vidros escorreram, voltaram todos pra suas casas
choveu naquele final de tarde um atlântico
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 09


Se você for corajoso, escute o coração. Se for covarde, escute a cabeça. Mas para os covardes não há paraíso. O paraíso abre suas portas somente para os corajosos.
Osho
In: Escute seu coração
Ed. Gente, 2006
p. 17
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A Nuvem
Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.
A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.
E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,
Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!
Teófilo Dias
Do livro Fanfarras (1882).
Poema integrante da série Flores Funestas.
In: Poesias escolhidas. Sel. introd. e notas Antonio Candido.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960.


12. FILHOS SÃO COMO NAVIOS
O grande ensinamento educativo é que a criança não pode fazer simplesmente o que tem vontade, mas deve administrar essa vontade.
E tem de educar a vontade para se proteger e dar condições para que a criança cuide da própria segurança.
O lugar mais seguro para o navio ficar é no porto. Mas essa não é a finalidade para a qual foi construído. Para um navio bem construído, o mundo é pequeno.
Os pais são um porto seguro para os filhos até que eles se tornem independentes. Embora possam pensar que o lugar mais seguro para as crianças é junto deles, os filhos devem ser preparados para navegar mar adentro, enfrentando bom e mau tempo para atingir seus objetivos. A criança deve ser educada e preparada para ser seu próprio porto seguro. Assim, o mundo também será pequeno para ela, porque mais amplos serão seus horizontes...
Nem sempre os navios vão para o lugar que seus fabricantes imaginaram. Ninguém pode garantir que caminho o filho vai seguir, mas, seja para onde for, deve levar dentro dele valores como ética, humildade, humanidade, honestidade, disciplina e gratidão, dispondo-se a aprender sempre e a transmitir o que puder com vistas a estabelecer relacionamentos integrais com todas as pessoas, independentemente de sua origem, cor, credo e condições socioeconômicas e culturais.
O filho nasceu dos pais, mas é um cidadão do mundo.
Içami Tiba
In: QUEM AMA EDUCA
Editora Gente
p. 258


Apresentação
Aqui está minha vida. - esta areia tão clara
com desenhos de andar dedicados ao vento.
Aqui está minha voz - esta concha vazia,
sombra de som curtindo seu próprio lamento.
Aqui está minha dor - este coral quebrado,
sobrevivendo ao seu patético momento.
Aqui está minha herança - este mar solitário,
que de um lado era amor e, de outro, esquecimento.

Cecília Meireles


In Memoriam
I
Seus poemas desenhavam seu fino hastil
suas corolas vibrantes como pequeninas violas
(ou era a vibração incessante dos grilos?)
seus poemas floriam na tapeçaria ondulante dos
prados
onde os colhia a mão das eternamente amadas
(as que morreram jovens são eternamente amadas...)
II
Seus poemas,
dentre as páginas de um seu livro,
apareciam sempre de surpresa,
e era como se a gente descobrisse uma folha seca
um bilhete de outrora
uma dor esquecida
que têm agora o lento e evanescente odor do
tempo...
III
E seus poemas eram, de repente, como uma prece
jamais ouvida
que nossos lábios recitavam - ó temerosa delícia!
como se, numa língua desconhecida,
sem querer, falassem
da brevidade
e da
eternidade da vida...
IV
Ah, aquela a quem seguiam os versos ondulantes
como dóceis panteras
e deixava por todas as coisas o misterioso reflexo
do seu sorriso;
e que na concha de suas mãos, encantada e aflita
recebia
a prata das estrelas perdidas...
V
Nem tudo estará perdido
enquanto nossos lábios não esquecerem teu nome:
Cecília...

Mario Quintana
In: Mario Quintana - Poesia Completa
Apontamentos de História Sobrenatural (1976)
Editora Nova Aguilar
p. 455-6


"Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
(...) Em toda a vida, nunca me esforcei por ganhar nem me espantei por perder. A noção ou o sentimento da transitoriedade de tudo é o fundamento mesmo da minha personalidade.
(...) Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano."

Cecília Meireles


Leveza
adoro ler
mas ler com prazer
gosto quando a leitura me abre um sorriso
não quando me inunda em transpiração
porque leitura pra mim é isso
leveza, emoção
e não
esforço, sofrimento
se tenho um pensamento
linear e formal
menos mal
não me estresso
nem me canso
não leio pra malhar o corpo
perder a calma
e me sentir cansado, doído
frustrado e perdido
leio pra exercitar a alma
e me sentir aliviado, fluído
confortado e nutrido
de energia pra tocar adiante
aí sim
a dureza da vida
Cesar Veneziani
(Escrito em 22/10/2008)
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/


Porque
Porque os outros se mascaram mas tu não
Porque os outros usam a virtude
Para comprar o que não tem perdão.
Porque os outros têm medo mas tu não.
Porque os outros são os túmulos caiados
Onde germina calada a podridão.
Porque os outros se calam mas tu não.
Porque os outros se compram e se vendem
E os seus gestos dão sempre dividendo.
Porque os outros são hábeis mas tu não.
Porque os outros vão à sombra dos abrigos
E tu vais de mãos dadas com os perigos.
Porque os outros calculam mas tu não.
Sophia de Mello Breyner Andresen


"Ela compreendeu que só lhe restava alguns instantes. Então voltou a cabeça para o outro lado do abismo. Tentou enxergar na obscuridade. Mas só via a obscuridade. Então pensou : - Há com certeza alguém do outro lado do abismo. E começou a chamar".
Sophia de Mello Breyner Andresen
In: Contos Exemplares (1962)
Trad.: Contes exemplaires, "Le Voyage",
p. 29


Tão
"Há coisas muito estranhas nessa vida. E nessas horas é melhor nem tentar decifrá-las. É tão difícil pra mim fingir que nada acontece. É tão difícil fugir de um lembrança assim tão boa. E sofre. E insiste um pouco mais. E acredita. E fica olhando pro nada na esperança de ser preenchida. Parece que não há mesmo jeito de me mudar. Parece que já nasci com esse peso de viver até a última gota. E aproveitar com toda a sede do mundo uma efêmera leveza que de vez em quando vem. Às vezes em forma de outro ser humano. Tão leve. Tão denso. Tão como eu. Tão distraído e tão amável. E eu te conheço tanto que incomoda."
Mayane Eccard
(28.09.08)
Fonte: http://paraquandoeumedeixoler.blogspot.com/


"[...] onde está a felicidade? No amor, ou na indiferença? Na obediência, ou no poder? No orgulho, ou na humildade? Na investigação, ou na fé? Na celebridade, ou no esquecimento? Na nudez, ou na prosperidade? Na ambição, ou no sacrifício? [...] A meu ver, a felicidade está na doçura do bem, distribuído sem idéia de remuneração. [...] Ou, por outra, sob uma fórmula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso. [...]"
Rui Barbosa
In: Obras Completas de Rui Barbosa.
V. 20, t. 1, 1893.
p. 32
Observações: Trecho do discurso "Homenagem dos Empregados de Fazenda da Bahia". Teatro São João. Salvador, BA. Não há original no Arquivo da FCRB


Interrogação
Não sei se isto é amor. Procuro o teu olhar,
Se alguma dor me fere, em busca de um abrigo;
E apesar disso, crê! nunca pensei num lar
Onde fosses feliz, e eu feliz contigo.
Por ti nunca chorei nenhum ideal desfeito.
E nunca te escrevi nenhuns versos românticos.
Nem depois de acordar te procurei no leito
Como a esposa sensual do Cântico dos Cânticos.
Se é amar-te não sei. Não sei se te idealizo
A tua cor sadia, o teu sorriso terno...
Mas sinto-me sorrir de ver esse sorriso
Que me penetra bem, como este sol de Inverno.
Passo contigo a tarde e sempre sem receio
Da luz crepuscular, que enerva, que provoca.
Eu não demoro o olhar na curva do teu seio
Nem me lembrei jamais de te beijar na boca.
Eu não sei se é amor. Será talvez começo...
Eu não sei que mudança a minha alma pressente...
Amor não sei se o é, mas sei que te estremeço,
Que adoecia talvez de te saber doente.
Camilo Pessanha

13.
te amei
como nunca amei nessa vida
e do final deste amor
restou uma mulher tão fria
que nem por ti mesmo
conseguiria sentir
o amor que senti um dia
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 19
Esta Mensagem para Orkut:


A MEDIDA DO SER
No princípio era o Verso
E o Verso se fez mistério
Fez-se brisa e menina
Estivador e artista;
Fez-se mulher fez-se velho
E esperança peregrina,
Fez-se musa assombrada
alienada e futurista.
Ah! Esse verde insolente!
Ainda ontem eu via
Na entreaberta gelosia
Raios de um Sol atrevido
Invadir a minha sala
Aquecendo a manhã fria;
E no bico, um passarinho
Pra celebrar a alvorada
Trouxe uma flor encarnada.
As tardes que eu inventei
Recendiam a jasmim;
Em tapetes de nenúfares
Sobre as águas caminhei;
Morfeu me beijou a face
E em seus braços me aninhei;
Escutei doces acordes:
Alguém tocava pra mim
Uma flauta encantada,
Vi estrelas em revoada
E anjos de lábios carmim.
Ouço agora os sons de um fado;
Suas notas anunciam
Que já é noite em Lisboa
Tragam o copo e o vinho
Pois anoitece em Lisboa
Aqui, desse meu recanto
Ergo um brinde a Lisboa.
No teu olhar de remanso
Vi meu rosto traduzido
O Vento beijou-me a face
Fez bailado em minha pele
Revoou os meus cabelos
(Prazeres que eu tanto quis)
E despojada de tudo,
Eu soube o que é ser feliz
Tão depressa quanto veio
O instante diluiu-se
Nos silêncios dos poetas
Ou no adeus dos lírios tristes
Que nunca fogem ao destino
Se eu nada possuía
Também de nada era dona...
Oh, liberta madrugada!
Não há mais visões de outrora
Sequer restou a saudade
Ou a voz de um violino.
Carrego comigo, agora
Pálida sombra de mim;
A obstinada poesia
Vai comigo pela estrada...
Vou despir-me do efêmero
Depois, não pensar em nada.
Maria das Neves Alves Braga


Id
Sou anjo,
e nem mesmo tenho asas.
Me perdi,
no início da estrada.
O vento,
secou minhas lágrimas.
De poesias,
construi minha casa.
Nayara Alves

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Se se morre de amor!
Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!
Gonçalves Dias
In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 67-68

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A Larissa Loures
Vem comigo, Lári,
vou a uma cidade sem estrela,
o fauno é bisonte,
o Anjo, de pedra.
Vou pra lá refeita
das flechas do sol,
de minha espada-musgo
e orvalho de sombras.
Vou pra lá sonhando
ser gaivota e escrava:
sempre-viva aos olhos,
madrugada brava.
Vou pra lá sabendo:
caveira de luz,
desamor-amor,
na cidade enorme.
Carambola, a lua.
Bale o sol, no rosto.
A chuva é de estopa,
granizo, o castelo...
Vou pra lá chagada,
sendo primavera.
Vou pra lá aguardando
outono e inverno.
Mas vou até ela.
"Preciso" - é a senha.
Vem comigo, Lári,
lá não há estrela
e só você sabe:
eu que levo a minha!...
Lília A. Pereira da Silva
In: 33 anos de Poesia - Volume 1
Ed. João Scortecci, 1a. Edição, São Paulo, 1991
p. 23-4

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REMORSOS
Onde comtigo, um dia, me zanguei,
É hoje um sitio escuro que aborreço;
E sempre que ali passo, eu anoiteço!...
Ah, foi um crime, sim, que pratiquei!
Quantas negras torturas eu padeço
Pelo pequeno mal que te causei!
Se, ao menos, presentisse o que hoje sei?
Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço!
E sôffro mais, por isso, a tua morte,
E dou mais chôro amargo ao vento norte,
Mais trevas se acumulam no meu rôsto...
Ó vós que n'este mundo amaes alguem,
Seja linda creança ou pae ou mãe,
Não lhe causeis nem sombra de desgôsto!
Teixeira de Pascoaes
(Conservamos a ortografia original)
In: Elegias, 1912

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Saudade de ti
De ti não dói a saudade:
é sentimento gostoso.
Luz de raio luminoso,
que clareia quando invade.
Emociona sem alarde.
É um momento virtuoso
que me deixa orgulhoso.
Falo sério, é verdade!
Teu toque é por mãos sedosas,
teu beijo sopro divino,
teus olhos doce expressão.
Misto de anjo e de rosas
és meu sonho de menino,
saudade que não dói não!
Cesar Veneziani
(Escrito em 09/10/2008)
Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/

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"A palavra é metade de quem a pronuncia,
metade de quem a ouve."
Michel Montaigne
Esta Mensagem para Orkut:


11.
um quase silêncio, o dia nublado
reflexo dos meus olhos em vidros embaçados
repentina clareza, vejo de ambos os lados
somos duas pessoas sentindo tudo errado
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 17

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"Não somos nada nessa vida"
__________________
"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."
Lima Barreto
In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)
