Zélia Gattai Amado: 2 de julho de 1916 — 17 de maio de 2008

"(...) Na convivência com Jorge pude constatar ser verdadeira sua afirmação de que os personagens de ficção de seus romances não são pessoas da vida real, mas sim a mistura de muitas delas que ele conhecera no decorrer de sua vida. Ninguém era ninguém. Quando desejava homenagear um amigo, introduzindo-o na trama do romance, dava-lhe nome e sobrenome. Um dos exemplos encontra-se em Tereza Batista, quando ele descreve o casamento da moça com o padeiro Almério. Peço licença para reproduzir aqui essa passagem:
Sentada numa cadeira de braços de alto espaldar, Mãe Senhora rodeada pela corte dos obás... a mãe-pequena Creusa, figurando mãe Menininha do Gantois, Olga de Alaketu toda nos trinques... Os artistas para quem Tereza posara, Mário Cravo, Carybé, Genaro, Mirabeau e ainda outros esperando a ocasião: Emanuel, Fernando Coelho, Willys e Floriano Teixeira... Junto com os artistas, os literatos a gastar uísque, escolhendo marcas, uns perdulários, uns esnobes: João Ubaldo, Wilson Lins, James Amado, escutavam atentos, mestre Calá contar pela milésima vez a história verídica da baleia... Assim postos os nomes parece ter havido excesso de homens e falta de mulheres. Engano, pois cada um deles estava com a esposa, alguns com mais de uma. Em nome de Lalu, dona Zélia levou perfume para a noiva e no próprio nome um anel de fantasia...
Ao descobrir meu nome na lista de convidados, fiquei vaidosa mas em seguida não gostei do presente chinfrim que eu iria oferecer à noiva. Parei o trabalho:
“- Jorge, posso te pedir um favor? Me faça dar um presente melhorzinho à Tereza...” Jorge riu:
“- Que luxo é esse, Zélia! Tereza vai adorar o anel.”
Não atendeu ao meu pedido e eu continuo na história oferecendo um anel de fantasia à moça."
Zélia Gattai Amado
Fonte: http://www.academia.org.br/
Valentim Magalhães: 16 de janeiro de 1859 — 17 de maio de 1903

JURAMENTO
Oh! poeta, por que te deixaste encantar,
Se deviam roubar-te essa gentil criança,
E se o seu coração, cheio de confiança,
Não podia por ti viver a palpitar?
Que importa! Germinou à luz do seu olhar
Na minh’alma tristonha e que a existência cansa
O amor, que nos remoça e enche de esperança;
Por isso eu devo sempre a bendizer e amar.
Feliz ou infeliz, ser-lhe-ei fiel ainda!
Amarei minha dor, pois dela será vinda,
Dela por quem do seio os males arranquei.
Virgem, de cujo olhar cativam-me os encantos,
Se me fazes chorar, eu abençôo os prantos,
Se me deres a morte, - a morte abençoarei.
Dezembro - 1879
Valentim Magalhães
In: Rimário, 1900
Fonte: http://www.academia.org.br/
Gregório de Matos - Pintura admirável de uma beleza

Pintura admirável de uma beleza
Vês esse Sol de luzes coroado?
Em pérolas a Aurora convertida?
Vês a Lua de estrelas guarnecida?
Vês o Céu de Planetas adorado?
O Céu deixemos; vês naquele prado
A Rosa com razão desvanecida?
A Açucena por alva presumida?
O Cravo por galã lisonjeado?
Deixa o prado; vem cá, minha adorada,
Vês de esse mar a esfera cristalina
Em sucessivo aljôfar desatada?
Parece aos olhos ser de prata fina?
Vês tudo isto bem? Pois tudo é nada
À vista do teu rosto, Caterina.
Gregório de Matos
In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p.15-16
Carlos Drummond de Andrade - O que se diz

O QUE SE DIZ
Que frio! Que vento! Que calor! Que caro! Que absurdo! Que bacana! Que tristeza! Que tarde! Que amor! Que besteira! Que esperança! Que modos! Que noite! Que graça! Que horror! Que doçura! Que novidade! Que susto! Que pão! Que vexame! Que mentira! Que confusão! Que vida! Que talento! Que alívio! Que nada... Assim, em plena floresta de exclamações, vai-se tocando pra frente.
Carlos Drummond de Andrade
In: Poesia e prosa.
RJ, Nova Aguilar, 1983,
p. 1379
Ronald de Carvalho: 16 de maio de 1893 — 15 de fevereiro de 1935

Brasil
A Fernando Haroldo
Nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
faíscas
cintilações
Eu ouço o canto enorme do Brasil!
(...)
Eu ouço todo o Brasil cantando, zumbindo, gritando,
[vociferando!
Redes que se balançam,
sereias que apitam,
usinas que rangem, martelam, arfam, estridulam, ululam e
[roncam,
tubos que explodem,
guindastes que giram,
rodas que batem,
trilhos que trepidam,
rumor de coxilhas e planaltos, campainhas, relinchos, aboiados
[e mugidos,
repiques de sinos, estouros de foguetes, Ouro-Preto, Bahia,
[Congonhas, Sabará,
vaias de Bolsas empinando números como papagaios,
tumulto de ruas que saracoteiam sob arranha-céus,
vozes de todas as raças que a maresia dos portos joga no sertão!
Nesta hora de sol puro eu ouço o Brasil.
Todas as tuas conversas, pátria morena, correm pelo ar...
a conversa dos fazendeiros nos cafezais,
a conversa dos mineiros nas galerias de ouro,
a conversa dos operários nos fornos de aço,
a conversa dos garimpeiros, peneirando as bateias
a conversa dos coronéis nas varandas das roças...
Mas o que eu ouço, antes de tudo, nesta hora de sol puro
palmas paradas
pedras polidas
claridades
brilhos
faíscas
cintilações
é o canto dos teus berços, Brasil, de todos esses teus berços,
[onde dorme, com a boca escorrendo leite,
[moreno, confiante,
o homem de amanhã!
Ronald de Carvalho
In: O espelho de Ariel e poemas escolhidos. Pref. Antônio Carlos Villaça. Rio de Janeiro: Nova Aguilar; Brasília: INL, 1976. p.188-190.
Paulo Coelho - O gênio e as rosas

a
O gênio e as rosas
a
Era uma vez três homens – um ingrato, um conformado e um generoso – que foram visitados por um gênio da lâmpada. Espantados perguntaram:
“Gênio, que nos trazes?”
“Rosas!”, disse o gênio. E abrindo seu manto mágico, dele retirou três lindos buquês de rosas, que ofereceu aos visitados, entregando um para cada.
Antes de partir, olhou-os fixamente e, percebendo algum desapontamento por conta da simplicidade de sua oferta, justificou-se:
“Rosas … porque elas são joias de Deus: deixam a vida mais rica e bela!”
Os homens se entreolharam surpresos e, após se despedirem, cada um seguiu seu destino, dando finalidade diferente ao presente recebido.
O ingrato maldizendo sua falta de sorte por haver encontrado um gênio e dele recebido apenas flores, jogou-as num rio próximo.
O conformado, embora entristecido com a singeleza dos presentes, levou-as para casa, depositando-as num jarro.
O generoso, feliz pela oportunidade que tinha em mãos, decidiu repartir seu presente com os outros. Foi visto pela cidade distribuindo rosas, de porta em porta, com um detalhe: quanto mais rosas ofertava, mais seu buquê crescia em tamanho, beleza e perfume. Ao final, retornou para casa com uma carruagem repleta de rosas.
No dia seguinte, no mesmo local e instante, os três homens se reencontraram e, de subido, ressurgiu o gênio da lâmpada.
“Gênio que desejas?”, disse um deles.
“Que as vossas rosas se transformem em joias!”, disse o gênio. “Porque quem aceita com alegria um presente da vida, merece receber outros”.
Dessa forma, o homem generoso encontrou em casa uma carruagem repleta de joias, extraordinariamente belas, tornando-se um rico comerciante.
O homem conformado, retornando imediatamente para seu lar, encontrou pendurado sobre o jarro onde depositara as rosas, um lindo e valioso colar de pérolas. Sem mais nada dizer, resignou-se e deu de presente para sua esposa.
O homem ingrato dirigiu-se ao lugar onde jogara o buquê de rosas e viu, refletindo sobre as águas, um brilho intenso, próprio de joias valiosas, que foram imediatamente carregadas pela correnteza.
Paulo Coelho
Fonte: http://g1.globo.com/platb/paulocoelho/2012/05/14/o-genio-e-as-rosas/
Carlos Fuentes: 11 de novembro de 1928 - 15 de maio de 2012

"... para mim Jesus disse: Anselmo, meu filho, não sejas um cristão acomodado, inferniza a vida da Igreja e do rei, eles adoram os católicos tranqüilos. Eu, por meu lado, adoro os cristãos revoltados, como tu: não ganhas nada sendo um católico sem problemas, um simples fiel, um homem de fé que nem sequer percebe que a fé é absurda e por isso é fé e não razão; a razão não pode ser ilógica, a fé tem de ser ilógica porque é preciso crer em Deus contra toda a evidência, e, se Eu fosse lógico, não seria Deus, não me teria sacrificado, teria aceito todas as tentações do Deserto e seria – estás Me ouvindo, filho Anselmo, estás me ouvindo, irmão Baltazar? – seria o mesmíssimo Diabo rabudo e mandinguento que inventou a frase “penso, logo existo...”. Quanta pretensão! Nem o meu pensamento é meu, nem a minha existência. Nem penso nem existo sozinho. Compartilho cada palavra, com Deus, contigo, Baltazar, e também cada batida do coração."
Carlos Fuentes
In: A Campanha (trecho) - Ed. Rocco, 1996
Emily Dickinson: 10 de Dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886

Senti um féretro em meu cérebro
Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar - a pisar - até eu sonhar
Meus sentidos fugindo -
E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício -
Bateu - bateu - até eu sentir
Inerte o meu juízo
E eu as ouvi - erguida a Tampa -
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço dobrou
Como se os Céus fossem um sino
E o Ser apenas um Ouvido
E eu e o silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui -
Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão -
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo - então -
Emily Dickinson
In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp
* * *
Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.
Emily Dickinson
José Santos Chocano: 14 de maio de 1875 - 13 de julho de 1934

BRASÃO
Sou o cantor da América autóctone e selvagem;
minha lira tem alma, meu canto um ideal.
Meu verso não balança pendido da ramagem,
com um vaivém pausado de rede tropical...
Quando me sinto um Inca, eu rendo vassalagem
ao Sol, que me dá o cetro de seu poder real;
quando hispano, evocando a colonial imagem,
são as minhas estrofes trombetas de cristal.
A fantasia vem-me de antepassado mouro:
os Andes são de prata, mas o Leão é de ouro;
e as duas castas fundo com épico fragor.
O sangue é espanhol e incaica sua batida;
e se não fora Poeta, talvez fosse na vida
um branco Aventureiro ou um índio Imperador!
José Santos Chocano
Tradução de Fernando Mendes Vianna
Adelmo Oliveira: 13 de maio de 1934

Soneto da última estação (Mitologia Marinha)
Esta que vem do mar por entre os ventos,
Sacudindo as espumas dos cabelos,
Vem molhada de azul nos pensamentos,
Seu corpo oculta a ilha dos segredos.
Vem e dança ao andar sobre as areias
Úmidas sob os passos e os desejos,
Onde as ancas são ondas em cadeias
Infinitas de luz contra os espelhos.
Nem precisa de flor nem de perfume,
Ela é a própria essência do ciúme,
Feita de mito e se fazendo estrela.
Vem – dança – e passa aos fogos do verão
– Fantasia da última estação.
Explodiu na vertigem da beleza.
Adelmo Oliveira
Adelmo José de Oliveira nasceu em 13 de maio de 1934, na cidade de Itabuna, na Bahia. Em 1962, sob um júri formado por nomes de expressão da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Austregésilo de Athayde, José Carlos Lisboa e Pio de Los Casares, recebeu o Prêmio Nacional Luis de Góngora com ensaio “Góngora e o Sofrimento da Linguagem”. Formado em Direito pela Universidade Federal da Bahia, 1966, participou do Movimento Cultural baiano escrevendo estudos, ensaios e poesias para os principais jornais e revistas de Salvador. Publicou entre outros títulos: Canto da Hora Indefinida, 1960; Três Poemas, 1966; O Som dos Cavalos Selvagens, 1971; Cântico Para o Deus dos Ventos e das Águas, 1987; Espelho das Horas, 1991; O Canto Mínimo, 2000, (Antologia Poética) Poemas da Vertigem, 2005. Participou de várias Antologias Poéticas editadas na Bahia, no Sul do País e no Exterior. Exerceu atividade política contra a Ditadura Militar, sendo preso por duas vezes e torturado. Foi eleito Deputado Estadual à Assembléia Legislativa do Estado da Bahia pelo antigo MDB em 1978.
Murilo Mendes: 13 de maio de 1901 — 13 de agosto de 1975

Idéias Rosas
Minhas idéias abstratas,
De tanto as tocar, tornaram-se concretas:
São rosas familiares
Que o tempo traz ao alcance da mão,
Rosas que assistem à inauguração de era novas
No meu pensamento,
No pensamento do mundo em mim e nos outros:
De eras novas, mas ainda assim
Que o tempo conheceu, conhece e conhecerá.
Rosas! Rosas!
Quem me dera houvesse
Rosas abstratas para mim.
Murilo Mendes
In: Murilo Mendes - Poesia Completa
Poesia Liberdade
Editora Nova Aguilar, 1994
p. 434
Raimundo Correia: 13 de maio de 1859 – 13 de setembro de 1911

AS POMBAS
Vai-se a primeira pomba despertada...
Vai-se outra mais... mais outra... enfim dezenas
De pombas vão-se dos pombais, apenas
Raia sanguínea e fresca a madrugada...
E à tarde, quando a rígida nortada
Sopra, aos pombais de novo elas, serenas,
Ruflando as asas, sacudindo as penas,
Voltam todas em bando e em revoada...
Também dos corações onde abotoam,
Os sonhos, um por um, céleres voam,
Como voam as pombas dos pombais;
No azul da adolescência as asas soltam,
Fogem... Mas aos pombais as pombas voltam,
E eles aos corações não voltam mais...
Raimundo Correia
In: Sinfonias, 1883
Lima Barreto: 13 de maio de 1881 - 1 de novembro de 1922

"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."
Lima Barreto
In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)
Vinicius de Moraes - Minha mãe

Minha mãe
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Tenho medo da vida, minha mãe.
Canta a doce cantiga que cantavas
Quando eu corria doido ao teu regaço
Com medo dos fantasmas do telhado.
Nina o meu sono cheio de inquietude
Batendo de levinho no meu braço
Que estou com muito medo, minha mãe.
Repousa a luz amiga dos teus olhos
Nos meus olhos sem luz e sem repouso
Dize à dor que me espera eternamente
Para ir embora. Expulsa a angústia imensa
Do meu ser que não quer e que não pode
Dá-me um beijo na fronte dolorida
Que ela arde de febre, minha mãe.
Aninha-me em teu colo como outrora
Dize-me bem baixo assim: - Filho, não temas
Dorme em sossego, que tua mãe não dorme.
Dorme. Os que de há muito te esperavam
Cansados já se foram para longe.
Perto de ti está tua mãezinha
Teu irmão, que o estudo adormeceu
Tuas irmãs pisando de levinho
Para não despertar o sono teu.
Dorme, meu filho, dorme no meu peito
Sonha a felicidade. Velo eu.
Minha mãe, minha mãe, eu tenho medo
Me apavora a renúncia. Dize que eu fique
Dize que eu parta, ó mãe, para a saudade.
Afugenta este espaço que me prende
Afugenta o infinito que me chama
Que eu estou com muito medo, minha mãe.
Vinicius de Moraes
Fonte: http://www.viniciusdemoraes.com.br/site/article.php3?id_article=32
Auta de Souza - Mãe

MÃE
Ó minha santa mãe! Era bem certo,
Que entre as preces maternas estendias,
As tuas mãos sobre os meus tristes dias,
Quando na Terra – que era o meu deserto.
a
Nos instantes de dor, bem que eu sentia,
As tuas asas de Anjo de Ternura,
Pairando sobre a minha desventura,
Feita de prantos e melancolia.
a
Flor ressequida eu era, e tu o orvalho
Que eu nutria, pobre e empale cida;
Era a tua alma a luz da minha vida,
Meu tesouro, meu dúlcido agasalho!...
a
Ai de mim sem a tua alma bondosa,
Que me dava a promessa da esperança,
Raio de luz, e amor e de bonança,
Da escuridão da vida dolorosa.
a
E que felicidade doce e pura,
A que senti após a treva e a morte,
Findo o terror da minha negra sorte,
Quando vi teu sorriso de ventura!
a
Então senti que as Mães são mensageiras
De Maria, Mãe de anjos e de flores,
E mãe das nossas Mães cheias de amores,
Nossas meigas e eternas companheiras!...
a
Auta de Souza
a
In: Parnaso de Além-Túmulo – 12ª Edição - Psicografado por Francisco Candido Xavier, Ed. FEB, 1983, p.140-1
Irene Souza - Trovas de Mãe

Trovas de Mãe
Quem é mãe traz a contento,
Na glória de oculto enleio,
Os astros do firmamento
Aconchegados no seio.
*
Só Deus sabe como é doce
A luz dos divinos laços
De um filho que a vida trouxe
Ao ninho dos nossos braços.
*
Mãe viva - sublimes trilhos!
Mãe morta - quanta saudade!
Para querer-vos, meus filhos,
Como é curta a eternidade!...
*
Das lágrimas que choramos,
A mais triste, a mais sentida,
É aquela que derramamos
Na hora das despedida.
*
Céus na abóbada estrelada,
Sei que há céus em profusão,
Mas meu céu é a vossa estrada,
Filhos do meu coração!
Irene Souza (psicogr. Francisco Cândido Xavier)
In: Trovas do outro mundo
Trovadores Diversos
Rio de Janeiro, F.E.B., 1983
p. 66-7
Carlos Drummond de Andrade - Para Sempre

a
Para Sempre
a
Por que Deus permite
que as mães vão-se embora?
Mãe não tem limite,
é tempo sem hora,
luz que não apaga
quando sopra o vento
e chuva desaba,
veludo escondido
na pele enrugada,
água pura, ar puro,
puro pensamento.
Morrer acontece
com o que é breve e passa
sem deixar vestígio.
Mãe, na sua graça,
é eternidade.
Por que Deus se lembra
- mistério profundo -
de tirá-la um dia?
Fosse eu Rei do Mundo,
baixava uma lei:
Mãe não morre nunca,
mãe ficará sempre
junto de seu filho
e ele, velho embora,
será pequenino
feito grão de milho.
a
Carlos Drummond de Andrade
Mario Quintana - Mãe

Mãe
Mãe! São três letras apenas
As desse nome bendito:
Três letrinhas, nada mais...
E nelas cabe o Infinito.
E palavra tão pequena,
- confessam mesmo os ateus –
É do tamanho do Céu!
E apenas menor que Deus…
Mario Quintana
In: Mario Quintana - Poesia completa
Lili inventa o mundo
Editora Nova Aguilar, p. 941
Carlos Máximo - Mãe

MÃE
MÃE
... Nome expressivo
Que por ele vivo...
Mãe, broto do ventre
Da Santíssima Maria,
Olhar de vidro,
Semblante de límpidas águas!
Mãe, profundezas de um amor,
Existência suportável
Entre tantos filhos
Que choram,
Esteio de esperança,
Sonha como criança!
O tempo é maldoso
Em envelhecê-la
Mas do teu âmago
Flui a fertilidade
Da juventude espiritual:
Vida! Muitas vidas!
Um breve sorriso
E um espontâneo olhar
Debruçam no horizonte
De sua própria bondade!
Mãe não significa
Apenas amamentar
Ou aquela que dá à Luz;
Ser mãe muito mais
É muito mais
Além da própria existência!
Ser mãe é moldar
A própria imagem
Em uma nova figura,
É a poesia iniciada
No ventre
É a letra do poema pronto
Que doura o útero
Sob o sol
E no colo do luar!
Mãe, ato de expressão incomparável!
Ser mãe é o caminhão inverso
Do nascimento: regresso ao ventre
Um ventre idoso
Onde o amor é ouro
E o meu amor
Derrama-lhe fortemente!
CARLOS MÁXIMO
Antonio M. Abreu Sardenberg - Poeminha à Mãe

Poeminha à Mãe
Amor, carinho, ternura,
Afeto, afago, apego,
Meiguice, entrega, doçura,
O mais ardente aconchego.
Sentimento mais profundo,
Geratriz: razão da vida.
Concebeu, foi concebida...
Tu és MÃE, o próprio mundo!
Antonio Manoel Abreu Sardenberg
Coelho Neto - Ser Mãe

Ser Mãe
Ser mãe é desdobrar fibra por fibra
o coração! Ser mãe é ter no alheio
lábio que suga, o pedestal do seio,
onde a vida, onde o amor, cantando, vibra.
Ser mãe é ser um anjo que se libra
sobre um berço dormindo! É ser anseio,
é ser temeridade, é ser receio,
é ser força que os males equilibra!
Todo o bem que a mãe goza é bem do filho,
espelho em que se mira afortunada,
Luz que lhe põe nos olhos novo brilho!
Ser mãe é andar chorando num sorriso!
Ser mãe é ter um mundo e não ter nada!
Ser mãe é padecer num paraíso!
Coelho Neto
Jamelão: 12 de maio de 1913 — 14 de junho de 2008

Torre de Babel
Quando nos conhecemos
numa festa que estivemos
nos gostamos e juramos
um ao outro ser fiel
Depois continuando
nos querendo nos gostando
nosso amor foi aumentando
qual a torre de babel
E a construção foi indo
foi crescendo foi subindo
lá no céu quase atingindo
aos domínios do senhor
E agora se aproximando o nosso
maior momento
este desentendimento
quer parar o nosso amor
Mas eu não acredito isso não há de acontecer
porque eu continuo lhe adorando
e hei de arranjar um meio de lhe convencer
que volte meu amor seu bem está chamando
Por um capricho seu não há de ser
que essa amizade vá ter esse desfecho tão cruel
que tiveram por que se desentenderam
aqueles que pretenderam fazer a torre de babel.
José Bispo dos Santos
Alberto V. da Costa e Silva: 12 de maio de 1931

Flumen, Fluminis
Ouçamos o fluir deste curso de rio
entre velhos muros imóveis de fadiga
não apenas meras lajes limitadas e cinzentas
mas pedras tristes e calmas
entre as quais escorre o límpido silêncio
da água que flui sobre a nudez
pura da morte
em nenhuma outra fonte, o cansaço
de ser manhã quando a noite se debruça
sobre nós, sofreremos
pois tão estranhos seremos ao murmúrio
de suas águas veladas
à música que nada anuncia a não ser primaveras
como agora sôfregos, nos reclinamos
sobre o líquido móvel deste rio que leva
para o mar distante e irrevelado
estas formas maduras e tranqüilas
este sopro perfeito
daquilo que foi apenas o fugidio e precário pó.
Alberto da Costa e Silva
Manuel Alegre de Melo Duarte: 12 de Maio de 1936

Coisa Amar
Contar-te longamente as perigosas
coisas do mar. Contar-te o amor ardente
e as ilhas que só há no verbo amar.
Contar-te longamente longamente.
Amor ardente. Amor ardente. E mar.
Contar-te longamente as misteriosas
maravilhas do verbo navegar.
E mar. Amar: as coisas perigosas.
Contar-te longamente que já foi
num tempo doce coisa amar. E mar.
Contar-te longamente como doi
desembarcar nas ilhas misteriosas.
Contar-te o mar ardente e o verbo amar.
E longamente as coisas perigosas.
Manuel Alegre
Bebel Gilberto: 12 de maio de 1966

Preciso dizer que te amo
Quando a gente conversa
Contando casos, besteiras
Tanta coisa em comum
Deixando escapar segredos
E eu não sei que hora dizer
Me dá um medo, que medo
Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo
Tanto
E até o tempo passa arrastado
Só pr’eu ficar do teu lado
Você me chora dores de outro amor
Se abre e acaba comigo
E nessa novela eu não quero
Ser seu amigo
É que eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto
Eu já nem sei se eu tô misturando
Eu perco o sono
Lembrando cada gesto teu
Qualquer bandeira
Fechando e abrindo a geladeira
A noite inteira
Eu preciso dizer que eu te amo
Te ganhar ou perder sem engano
Eu preciso dizer que eu te amo, tanto
Composição: Cazuza / Dé / Bebel Gilberto
Fonte: http://www.bebelgilberto.com/
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=VudS00JZH2c
[ página principal ]