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Perfil BRASIL, Homem, de 26 a 35 anos |




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37.
o tempo traz
o tempo tira
o tempo falta
o tempo vigora
o tempo voa
o tempo não passa
o tempo é a favor ou contra
conforme a hora
Martha Medeiros
In: Cartas Extraviadas e outros poemas
ed. L&PM, 2001 - Porto Alegre
p. 45


"Justamente daquilo que me induz ao silêncio é que é preciso falar, porque o silêncio não esvaziado da carga que as palavras contêm em si, em vez de aplacar o sofrimento, me estrangularia. Falando, sei que me exponho. No entanto, apego-me às palavras porque ainda constituem o meu único sustentáculo"
Elisa Lispector
In: A Última Porta
p. 111


Sou um evadido
Sou um evadido.
Logo que nasci
Fecharam-me em mim,
Ah, mas eu fugi.
Se a gente se cansa
Do mesmo lugar,
Do mesmo ser
Por que não se cansar?
Minha alma procura-me
Mas eu ando a monte,
Oxalá que ela
Nunca me encontre.
Ser um é cadeia,
Ser eu não é ser.
Viverei fugindo
Mas vivo a valer.
5-4-1931

Fernando Pessoa
In: Poesias Inéditas, (1930-1935).
Lisboa: Ática, 1955


Timidamente [...], com medo de que você se aproxime de mim, eu me mantenho bem longe.
[...] Então você vem, apesar de tudo, e eu não posso mais fugir, e a sua mão pega a minha mão inutilmente fugitiva, depois devagar e com ternura a acaricia. [...]
E você ficava de olhos baixos; eu tentava me desvencilhar, em vão, da sua mão obstinadamente terna.
E tudo isso era tão estranhamente doce que eu acordei como de um pesadelo.

André Gide
In: Les cahiers d'André Walter.
"Bibliothèque de la Pléiade".
Paris: Gallimard, 1986
p. 85-86


Versos Escritos n`Água
Os poucos versos que aí vão,
Em lugar de outros é que os ponho.
Tu que me lês, deixo ao teu sonho
Imaginar como serão.
Neles porás tua tristeza
Ou bem teu júbilo, e, talvez,
Lhes acharás, tu que me lês,
Alguma sombra de beleza...
Quem os ouviu não os amou.
Meus pobres versos comovidos!
Por isso fiquem esquecidos
Onde o mau vento os atirou.

Manuel Bandeira
In: Estrela da Vida Inteira – Poesias Reunidas,
7a. ed. - Livraria José Olympio Editora, 1979


ATRAÇÃO E REPULSÃO
Eu nada mais sonhava nem queria
Que de ti não viesse, ou não falasse;
E como a ti te amei, que alguém te amasse,
Coisa incrível até me parecia.
Uma estrela mais lúcida eu não via
Que nesta vida os passos me guiasse,
E tinha fé, cuidando que encontrasse,
Após tanta amargura, uma alegria.
Mas tão cedo extinguiste este risonho,
Este encantado e deleitoso engano,
Que o bem que achar supus, já não suponho.
Vejo, enfim, que és um peito desumano;
Se fui até junto a ti de sonho em sonho,
Voltei de desengano em desengano.
Adelino Fontoura
Fonte: http://www.academia.org.br/


Carrego o peso da lua,
Três paixôes mal curadas,
Uma saara de páginas
Essa infinita madrugada.
Viver de noite
Me faz senhor do fogo.
A vocês, eu deixo o sono.
O sonho, não.
Esse, eu mesmo carrego.

Paulo Leminski


"Os voluptuosos careiam companheiros de devassidão. Os interesseiros reúnem sócios. Os políticos congregam partidários. O comum dos homens ociosos mantém relações. Os príncipes têm cortesãos. Só os virtuosos possuem amigos."
Voltaire
In: Dicionário Filosófico.
São Paulo: Editora Martin Claret, 2002.
p. 23


Olhos Nos Olhos
Quando você me deixou, meu bem
Me disse pra ser feliz e passar bem
Quis morrer de ciúme, quase enlouqueci
Mas depois, como era de costume, obedeci
Quando você me quiser rever
Já vai me encontrar refeita, pode crer
Olhos nos olhos
Quero ver o que você faz
Ao sentir que sem você eu passo bem demais
E que venho até remoçando
Me pego cantando, sem mais, nem por quê
Tantas águas rolaram
Quantos homens me amaram
Bem mais e melhor que você
Quando talvez precisar de mim
Cê sabe que a casa é sempre sua, venha sim
Olhos nos olhos
Quero ver o que você diz
Quero ver como suporta me ver tão feliz
Composição: Chico Buarque
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=tNe3HqZiyyw


Às vezes feliz
Hoje me peguei feliz,
me perdoem mas é verdade.
Às vezes isso acontece...
O colorido de uma flor,
as nuvens com o céu, com o Sol,
o sorriso de uma criança,
um objetivo alcançado,
um beijo/carinho de alguém especial...
Às vezes algum destes eventos
desencadeia um estado de alegria,
de satisfação,
de bem-estar,
que entorpece e transforma,
faz crer em coisas não críveis,
faz nascer um sentimento de euforia,
bolsões de esperança
que preenchem os interstícios que separam
a mediocridade dos dias...

Cesar Veneziani
In: Asas
Editora UTOPIA, 2009
p. 41
"Às vezes feliz" – Cesar Veneziani
http://www.youtube.com/watch?v=iSl3YKNWvZo
+ http://cesar.veneziani.zip.net/


"Em vão, centenas de milhares de homens, amontoados num pequeno espaço, se esforçavam por desfigurar a terra em que viviam. Em vão, a cobriam de pedras para que nada pudesse germinar; em vão arrancavam as ervas tenras que pugnavam por irromper; em vão impregnavam o ar de fumaça de petróleo e de carvão; em vão escorraçavam os animais e os pássaros - Em vão... Porque até na cidade, a Primavera é Primavera."

Leon Tolstoi
In: Ressurreição (1899)

"Amor perdido é amor que não foi achado: não-amor. Não o amor-mor, o mor amor. Mas falso amor, algum engano. O falso amor é um biombo, o mor-amor é um ribombo."

João Guimarães Rosa
In: Ave, Palavra.
Rio de Janeiro, José Olympio, 1978, 2ª ed.
p. 25


"Amor é mistério sem fim:
não existe o que explique".
Rabindranath Tagore
_________________
"Sionésio e Maria Exita - a meios-olhos, perante o refulgir, o todo branco. Acontecia o não-fato, o não-tempo, silêncio em sua imaginação. Só o um-e-outra, um em-si-juntos, o viver em ponto sem parar, coraçãomente: pensamento, pensamor. Alvor. Avançavam, parados, dentro da luz, como se fosse o dia de Todos os Pássaros."

João Guimarães Rosa
In: Primeiras Estórias.
Rio de janeiro, Nova Fronteira, 1995, 25ª ed.
p. 142


Um chamado João
João era fabulista
fabuloso
fábula?
Sertão místico disparando
no exílio da linguagem comum?
“Projetava na gravatinha
a quinta face das coisas
inenarrável narrada?
Um estranho chamado João
para disfarçar, para farçar
o que não ousamos compreender? “
Tinha pastos, buritis plantados
no apartamento?
no peito?
Vegetal ele era ou passarinho
sob a robusta ossatura com pinta
de boi risonho?
Era um teatro
e todos os artistas
no mesmo papel,
ciranda multívoca?
João era tudo?
tudo escondido, florindo
como flor é flor, mesmo não semeada?
Mapa com acidentes
deslizando para fora, falando?
Guardava rios no bolso
cada qual em sua cor de água
sem misturar, sem conflitar?
E de cada gota redigia
nome, curva, fim,
e no destinado geral
seu fado era saber
para contar sem desnudar
o que não deve ser desnudado
e por isso se veste de véus novos?
Mágico sem apetrechos,
civilmente mágico, apelador
de precípites prodígios acudindo
a chamado geral?
Embaixador do reino
que há por trás dos reinos,
dos poderes, das
supostas fórmulas
de abracadabra, sésamo?
Reino cercado
não de muros, chaves, códigos,
mas o reino-reino?
Por que João sorria
se lhe perguntavam
que mistério é esse?
E propondo desenhos figurava
menos a resposta que
outra questão ao perguntante?
Tinha parte com... (sei lá
o nome) ou ele mesmo era
a parte de gente
servindo de ponte
entre o sub e o sobre
que se arcabuzeiam
de antes do princípio,
que se entrelaçam
para melhor guerra,
para maior festa?
Ficamos sem saber o que era João
e se João existiu
de se pegar.

Carlos Drummond de Andrade
Publicado no jornal Correio da Manhã, de 22.11.1967, e reproduzido em: Em Memória de João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro, José Olympio, 1968.


Mire e veja: o mais importante e bonito, do mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas - mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou.

João Guimarães Rosa
In: Grande Sertão: Veredas


The New Colossus
Not like the brazen giant of Greek fame,
With conquering limbs astride from land to land;
Here at our sea-washed, sunset gates shall stand
A mighty woman with a torch, whose flame
Is the imprisoned lightning, and her name
Mother of Exiles. From her beacon-hand
Glows world-wide welcome; her mild eyes command
The air-bridged harbor that twin cities frame.
"Keep, ancient lands, your storied pomp!" cries she
With silent lips. "Give me your tired, your poor,
Your huddled masses yearning to breathe free,
The wretched refuse of your teeming shore.
Send these, the homeless, tempest-tossed to me,
I lift my lamp beside the golden door!"
* * *
O Novo Colosso
Não como o gigante bronzeado de grega fama,
Com membros conquistadores a abarcar a terra
Aqui nos nossos portões banhados pelo mar e dourados pelo sol, se erguerá
Uma mulher majestosa, com uma tocha cuja chama
É o relâmpago aprisionado e seu nome
Mãe dos Exílios. Do farol de sua mão
Brilha um acolhedor abraço universal; Os seus suaves olhos
Comandam o porto unido por pontes que enquadram cidades gêmeas.
"Mantenham antigas terras sua pompa histórica!" grita ela
Com lábios silentes. "Dai-me os vossos fatigados, os vossos pobres,
As vossas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade
O miserável refugo das suas costas apinhadas.
Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,
Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado."
1883

Emma Lazarus


Sei lá... a vida tem sempre razão
Tem dias que eu fico pensando na vida
E sinceramente não vejo saída.
Como é, por exemplo, que dá pra entender:
A gente mal nasce, começa a morrer.
Depois da chegada vem sempre a partida,
Porque não há nada sem separação.
Sei lá, sei lá, a vida é uma grande ilusão.
Sei lá, sei lá, só sei que ela está com a razão.
A gente nem sabe que males se apronta.
Fazendo de conta, fingindo esquecer
Que nada renasce antes que se acabe,
E o sol que desponta tem que anoitecer.
De nada adianta ficar-se de fora.
A hora do sim é o descuido do não.
Sei lá, sei lá, só sei que é preciso paixão.
Sei lá, sei lá, a vida tem sempre razão.
Composição: Toquinho / Vinicius de Moraes
Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=bK1kgWp65IA


Muitas vezes não prestamos bastante atenção, no momento, em coisas que já então podiam parecer-nos importantes; não ouvimos bem uma frase, não notamos um gesto, ou senão os esquecemos. E quando, mais tarde, ávidos por descobrir a verdade, remontamos em dedução, folheando nossa memória como uma coleção de testemunhos, chegamos a essa frase, a esse gesto, é impossível nos lembrarmos; recomeçamos vinte vezes o mesmo trajeto, mas inutilmente: o caminho não vai mais adiante.

Marcel Proust
In: A Fugitiva (1925)
(Arte: Jeune homme à la fenêtre - G. Caillebotte)


Mãe
Renovadora e reveladora do mundo
A humanidade se renova no teu ventre.
Cria teus filhos,
não os entregues à creche.
Creche é fria, impessoal.
Nunca será um lar
para teu filho.
Ele, pequenino, precisa de ti.
Não o desligues da tua força maternal.
Que pretendes, mulher?
Independência, igualdade de condições...
Empregos fora do lar?
És superior àqueles
que procuras imitar.
Tens o dom divino
de ser mãe
Em ti está presente a humanidade.
Mulher, não te deixes castrar.
Serás um animal somente de prazer
e às vezes nem mais isso.
Frígida, bloqueada, teu orgulho te faz calar.
Tumultuada, fingindo ser o que não és.
Roendo o teu osso negro da amargura.

Cora Coralina


SINTA-SE À VONTADE POR NÃO SABER (76)
Existiu, certa vez, uma aldeia que contava, entre seus habitantes, com um velho homem muito sábio. Os aldeões contavam com a sabedoria desse homem para provê-los de respostas a suas perguntas e preocupações.
Um dia, um fazendeiro da aldeia foi ao homem sábio e disse, num tom frenético: "Homem sábio, me ajude. Uma coisa horrível me aconteceu. Meu boi morreu e eu não tenho outro animal para me ajudar a arar o campo! Esta não é a pior coisa que poderia me acontecer?" O homem sábio respondeu: "Talvez sim, talvez não." O homem correu de volta para a aldeia e contou a seus vizinhos que o homem sábio tinha ficado maluco. Estava claro que esta era a pior coisa que poderia lhe ter sucedido. Por que será que ele não via isso?
No dia seguinte, no entanto, um cavalo jovem e forte foi visto nas proximidades da fazenda do homem. Como ele não tivesse nenhum boi para ajudá-lo, ele teve a ideia de aproveitar o cavalo para o lugar do boi - e foi o que fez. Que felicidade para o fazendeiro! Nunca arar um campo tinha sido tão fácil. Ele voltou ao homem sábio, para se desculpar. "Você estava certo, homem sábio. Perder meu boi não foi a pior coisa que poderia me acontecer. Foi uma bênção disfarçada! Eu nunca poderia ter capturado meu novo cavalo se isso não me tivesse acontecido. Você há de concordar que esta é a melhor coisa que poderia ter ocorrido." O homem sábio tornou a dizer: "Talvez sim, talvez não." De novo, não, pensou o fazendeiro. Agora não havia dúvidas que o homem sábio estava enlouquecendo.
Mais uma vez, no entanto, o fazendeiro não sabia o que o aguardava. Alguns dias mais tarde, o filho do fazendeiro estava andando a cavalo e caiu. Quebrou a perna e não poderia mais ajudá-lo na colheita. Oh, não, pensou o fazendeiro. Agora, morreremos de fome. O fazendeiro foi de novo ao homem sábio. Desta vez ele disse: "Como é que você sabia que capturar o cavalo não foi uma coisa boa? Estava certo novamente. Meu filho se machucou e agora não poderá me ajudar na colheita. Estou certo de que esta foi a pior coisa que poderia ter me acontecido. Desta vez você será obrigado a concordar." Mas, da mesma maneira que nas vezes anteriores, o homem sábio olhou calmamente para o fazendeiro num tom compassivo e repetiu, "Talvez sim, talvez não". Enraivecido pelo fato do homem sábio ser tão ignorante, afinal, o fazendeiro voltou bufando para a aldeia.
No dia seguinte chegaram tropas ao vilarejo, para levar todos os homens jovens e saudáveis para uma guerra que tinha acabado de estourar. O filho do fazendeiro foi o único jovem da aldeia que não teve que ir. Ele viveria, onde os outros, com toda certeza, estavam fadados a morrer.
A moral que esta história nos traz é uma lição poderosa. A verdade é que nós não sabemos o que irá nos acontecer - apenas acreditamos saber. Muitas vezes criamos grandes casos a partir de coisas insignificantes. Montamos roteiros em nossas mentes de todas as coisas terríveis que podem nos acontecer. Na maior parte das vezes, estamos errados. Se não perdermos a tranquilidade e nos mantivermos abertos para as oportunidades, podemos estar certos que, eventualmente, tudo terminará bem. Lembre-se: talvez sim, talvez não.
Richard Carlson
In: Não faça tempestade em copo d'água... e tudo na vida são copos d'água... (Tradução de Joana Mosela)
Rio de Janeiro, Ed. Rocco, 1998
p. 207-9


"Quem o viu um dia comandando o coro de quarenta mil vozes adolescentes, no estádio do Vasco da Gama, não pode esquecê-lo nunca. Era a fúria organizando-se em ritmo, tornando-se melodia e criando a comunhão mais generosa, ardente e purificadora que seria possível conceber".

Carlos Drummond de Andrade
* * *
"Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo".
"Não escrevo dissonante para ser moderno. De maneira nenhuma. O que escrevo é conseqüência cósmica dos estudos que fiz, da síntese a que cheguei para espelhar uma natureza como a do Brasil. Quando procurei formar a minha cultura, guiado pelo meu próprio instinto e tirocínio, verifiquei que só poderia chegar a uma conclusão de saber consciente, pesquisando, estudando obras que, à primeira vista, nada tinham de musicais. Assim, o meu primeiro livro foi o mapa do Brasil, o Brasil que eu palmilhei, cidade por cidade, estado por estado, floresta por floresta, perscrutando a alma de uma terra. Depois, o caráter dos homens dessa terra. Depois, as maravilhas naturais dessa terra. Prossegui, confrontando esses meus estudos com obras estrangeiras, e procurei um ponto de apoio para firmar o personalismo e a inalterabilidade das minhas idéias".

Heitor Villa-Lobos
Ouça aqui "Trenzinho Caipira":
http://www.youtube.com/watch?v=IZnQj9yWTlo


Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como
um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi
escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana
exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.

Rachel de Queiroz


(...) Tomou Vidinha uma viola, e cantou acompanhando-se em uma toada insípida hoje, porém de grande aceitação naquele tempo, o seguinte:
Se os meus suspiros pudessem
Aos teus ouvidos chegar,
Verias que uma paixão
Tem poder de assassinar.
Não são de zelos
Os meus queixumes,
Nem de ciúme
Abrasador;
São das saudades
Que me atormentam
Na dura ausência
De meu amor.
Manuel Antônio de Almeida
In: Memórias de um Sargento de Milícias
Capitulo VII, Tomo II – Remédio aos Males
Ateliê Editorial, 2000
p. 240


"A viagem não acaba nunca. Só os viajantes acabam. E mesmo estes podem prolongar-se em memória, em lembrança, em narrativa. Quando o viajante se sentou na areia da praia e disse: 'Não há mais que ver', sabia que não era assim. O fim duma viagem é apenas o começo doutra. É preciso ver o que não foi visto, ver outra vez o que se viu já, ver na Primavera o que se vira no Verão, ver de dia o que se viu de noite, com sol onde primeiramente a chuva caía, ver a seara verde, o fruto maduro, a pedra que mudou de lugar, a sombra que aqui não estava. É preciso voltar aos passos que foram dados, para os repetir, e para traçar caminhos novos ao lado deles. É preciso recomeçar a viagem. Sempre."

José Saramago
In: Viagem a Portugal
Ed. Companhia das Letras


Intimidade
No coração da mina mais secreta,
No interior do fruto mais distante,
Na vibração da nota mais discreta,
No búzio mais convolto e ressoante,
Na camada mais densa da pintura,
Na veia que no corpo mais nos sonde,
Na palavra que diga mais brandura,
Na raiz que mais desce, mais esconde,
No silêncio mais fundo desta pausa,
Em que a vida se fez perenidade,
Procuro a tua mão, decifro a causa
De querer e não crer, final, intimidade.

José Saramago
In: Os Poemas Possíveis
