Belas Mensagens
Ary Barroso: 7 de novembro de 1903 — 9 de fevereiro de 1964

Aquarela do Brasil

Brasil
Meu Brasil brasileiro
Meu mulato inzoneiro
Vou cantar-te nos meus versos
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ah, abre a cortina do passado
Tira a Mãe Preta,do serrado
Bota o Rei Congo, no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa, cantar de novo o trovador
A merencória luz da lua
Toda canção do meu amor
Quero ver a Sa Dona, caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Brasil
Terra boa e gostosa
Da morena sestrosa
De olhar indiscreto
Ô Brasil, samba que dá
Bamboleio, que faz gingar
Ô Brasil, do meu amor
Terra de Nosso Senhor
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Oh, esse coqueiro que dá coco
Onde eu amarro a minha rede
Nas noites claras de luar
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Ah, ouve essas fontes murmurantes
Aonde eu mato a minha sede
E onde a lua vem brincar
Ah, este Brasil lindo e trigueiro
É o meu Brasil, brasileiro
Terra de samba e pandeiro
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim

Ary Barroso - 1939

[Samba cena brasileira - Primeira audição de Aracy Cortes - Intérprete Francisco Alves com Radamés Gnattali e sua Orquestra - Odeon 11.768A e Odeon 11.768B - Revista "Joujoux e Balangandans" - Filme "Alo, amigos" - 1941]



09h29 |




Fiódor Dostoiévski: 11 de Novembro de 1821 — 9 de Fevereiro de 1881

“não temam o pecado, amem o homem mesmo no pecado, é isso a imagem do amor divino, um amor como não há maior na terra. Amem toda a criação no seu conjunto e nos seus elementos, cada folha, cada raio de luz, os animais, as plantas. Amando cada coisa, compreenderão o mistério divino nas coisas. Tendo-o compreendido uma vez, vocês o conhecerão sempre mais, a cada dia. E acabarão por amar o mundo inteiro com um amor universal... o amor é mestre, mas é preciso saber adquiri-lo, porque se adquire dificilmente, ao preço de um esforço prolongado; é preciso amar de fato, não por um instante, mas até o fim. Qualquer um, até mesmo um celerado, é capaz de um amor fortuito.”

Fiódor Dostoiévski

In: Os Irmãos Karamazóv
Ed. Ediouro
p. 320-321



09h15 |




Augusto Frederico Schmidt: 18 de abril de 1906 — 8 de fevereiro de 1965

O Grande Momento
 
A varanda era batida pelos ventos do mar 
As árvores tinham flores que desciam para a  
            morte, com a lentidão das lágrimas. 
Veleiros seguiam para crepúsculos com as  
       asas cansadas e brancas se despedindo, 
O tempo fugia com uma doçura jamais de  
                                   novo experimentada 
Mas o grande momento era quando os meus 
                                       olhos conseguiam 
      entrar pela noite fresca dos seus olhos... 

 
Augusto Frederico Schmidt



21h40 |




Jules Verne (Júlio Verne): 8 de Fevereiro de 1828 — 24 de Março de 1905

(...) "A refeição era composta por pratos de origem marinha e de outras iguarias cuja natureza e origem eu ignorava completamente. Eram todos bons, embora tivessem um sabor estranho. No entanto, habituei-me com facilidade a ele.

Para não fazermos toda a refeição em silêncio, provoquei-o com o seu assunto predileto:

- O capitão ama o mar - falei-lhe.

- Sim, amo-o. O mar é tudo. Cobre sete décimos do globo terrestre. O seu hálito é são e puro. É um imenso deserto onde o homem nunca está só. O mar é o veículo de uma existência sobrenatural e prodigiosa. É movimento e amor. É o infinito vivo, como afirmou um dos seus poetas. Nele reina a suprema tranqüilidade. O mar não pertence aos déspotas. Ah! o senhor professor deveria viver no seio dos mares! Só aí há independência. Aí não reconheço amos! Sou livre!"

Júlio Verne

In: Vinte mil léguas submarinas (1870)



21h28 |




Paulo Coelho - Paz e atividade

Paz e atividade

No intervalo do combate, o guerreiro descansa.

Muitas vezes passa dias sem fazer nada, porque seu coração exige.

Mas sua intuição permanece alerta. Ele não comete o pecado capital da preguiça, porque sabe onde ela o pode conduzir: à sensação morna das tardes de domingo, onde o tempo passa – e nada mais.

Um guerreiro descansa e ri. Mas está sempre atento.

Postado em 07 de fevereiro de 2010

Paulo Coelho

Fonte: http://colunas.g1.com.br/paulocoelho/



11h59 |




Lawrence Sanders: 15 de março de 1920 – 7 de fevereiro de 1998

"Mas qual era a necessidade, ou o intenso desejo, de pôr tanto interesse e tanto engenho e energia no desenho, na fabricação de instrumentos de morte? O menino com o estilingue e o homem com o revólver, mostrando ambos um sombrio atavismo? Seria matar, então, uma paixão, desde a borra primeva, uma expressão tão válida da alma humana como o amor e o sacrifício?"

Lawrence Sanders

In: O Primeiro Pecado Mortal



11h40 |




Charles Dickens: 7 de Fevereiro de 1812 — 9 de Junho de 1870

"A verdadeira diferença entre a construção e a criação é esta: uma coisa construída só pode ser amada depois de construída, mas uma coisa criada ama-se mesmo antes de existir."

Charles Dickens



11h39 |




Auta de Souza: 12 de setembro de 1876 — 7 de fevereiro de 1901

Hoje estou gozando a vida na Redinha... Chega um choro, clarineta, violões, ganzá, numa série deliciosa de sambas, maxixes, valsas de origem pura, eu na rede, tempo passando sem dizer nada. Modinhas de Ferreira Itajubá e Auta de Souza... A boca da noite se abriu sem a gente sentir. (In: Um Turista Aprendiz, 1976, p. 255-6)

Mário de Andrade

* * *

Ao Cair da Noite

A Maria Emília Loureiro

Não sei que paz imensa
Envolve a Natureza,
N’ess’hora de tristeza,
De dor e de pesar.
Minh’alma, rindo, pensa
Que a sombra é um grande véu
Que a Virgem traz do Céu
Num raio de luar.

Eu junto as mãos, serena,
A murmurar contrita,
A saudação bendita
Do Anjo do Senhor;
Enquanto a lua plena
No azul, formosa e casta,
Um longo manto arrasta
De lúrido esplendor.

Minhas saudades todas
Se vão mudando em astros...
A mágoa vai de rastros
Morrer na escuridão...
As amarguras doidas
Fogem como um lamento
Longe do Pensamento,
Longe do Coração.

E a noite desce, desce
Como um sorriso doce,
Que em sonhos desfolhou-se
Na voz cheia de amor,
Da mãe que ensina a Prece
Ao filho pequenino,
De olhar meigo e divino
E lábio aberto em flor.

Ah! como a Noite encanta!
Parece um Santuário,
Com o lindo lampadário
De estrelas que ela tem!
Recorda-me a luz santa,
Imaculada e pura,
Da grande noite escura
Do olhar de minha mãe!

Ó noite embalsamada
De castas ambrósias...
No mar das harmonias
Meu ser deixa boiar.
Afasta, ó noite amada,
A dúvida e o receio,
Embala-me no seio
E deixa-me sonhar!

* * *

Ao Pé do Túmulo

Eis o descanso eterno, o doce abrigo
Das almas tristes e despedaçadas;
Eis o repouso, enfim; e o sono amigo
Já vem cerrar-me as pálpebras cansadas.

Amarguras da terra! eu me desligo
Para sempre de vós... Almas amadas
Que soluças por mim, eu vos bendigo,
Ó almas de minh’alma abençoadas.

Quando eu d’aqui me for, anjos da guarda,
Quando vier a morte que não tarda
Roubar-me a vida para nunca mais...

Em pranto escrevam sobre a minha lousa:
"Longe da mágoa, enfim, no céu repousa
Quem sofreu muito e quem amou demais".

Auta de Souza



11h36 |




Sebastião da Gama: 10 de Abril de 1924 - 7 de Fevereiro de 1952

 

Pequeno Poema


Quando eu nasci,
ficou tudo como estava.

Nem homens cortaram veias,
nem o Sol escureceu
nem houve estrelas a mais...
Somente,
esquecida das dores,
a minha Mãe sorriu e agradeceu.

Quando eu nasci,
não houve nada de novo
senão eu.
As nuvens não se espantaram,
não enlouqueceu ninguém...

para que o dia fosse enorme,
bastava
toda a ternura que olhava
nos olhos de minha mãe.

 

Sebastião da Gama



11h33 |




Adriano Eysen - Mulher no espelho

Mulher no espelho

Um vestido preto
escorre sobre tua pele

e teus seios brincam
à luz do candeeiro.

A noite inventa
um sabor silvestre

que se perde
na nudez de tuas coxas.

Imóvel, o espelho assiste
ao segredo do teu corpo.

Adriano Eysen

ADRIANO EYSEN Rego (1976), poeta, contista e crítico literário, é natural de Salvador. Licenciado em Letras Vernáculas pela UEFS, Especialista em Estudos Literários pela UNEB, professor de Literatura Portuguesa e Brasileira da UNEB – Campus XXII – Euclides da Cunha, Mestre em Literatura e Diversidade Cultural pela UEFS e membro do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia.



00h28 |




Henfil:
5 de fevereiro de 1944 — 4 de janeiro de 1988

São Paulo, 1º de setembro de 1978.


 "Eu nunca soube amar. Eu nunca soube amar a cada um. Eu nunca soube amá-los como indivíduos. Eu nunca soube aceitá-los como feios, fracos e lentos. Tragam-me um doente e não chorarei com ele. Mas me mostrem um hospital e derramarei rios e mares. Eu não sei falar e ouvir um homem, uma mulher ou uma criança. Eu só sei fazer coletivo, massa, povo, conjunto. Sou capaz de ser herói, mas não sou capaz de ser enfermeiro. Sou capaz de ser grande, mas não sou capaz de ser pequeno. Eu nunca dei uma flor. Nunca amei uma pessoa. E tenho amor. Dou desenhos, dou textos, escrevo cartas. Sem contato manual, sem intimidade, sem entregar. Por que desenho, por que escrevo cartas? Minha arte é fruto da minha importância de viver com vocês. Um dia, vou rasgar o papel que escrevo, rasgar o bloco que desenho, rasgar até esse recado covarde e vou me melar e besuntar com vocês, tudo com meu grande beijo. Vocês vão me reconhecer fácil: vou ser o mais feliz de vocês. Henfil"

In: Cartas da Mãe
Ed. Codecri, 1980.

 Assista aqui as três partes do documentário 'Cartas da mãe' (Fernando Kinas & Marina Willer - 2003) sobre o Brasil dos últimos 30 anos contada através das cartas que o cartunista Henfil escreveu para sua mãe, Dona Maria. Estas cartas, publicadas em livros e jornais, são lidas pelo ator e diretor Antônio Abujamra enquanto desfilam imagens do Brasil contemporâneo. Política, cultura, amigos e amor são alguns dos temas que elas evocam, criando um diálogo entre o passado recente do Brasil e nossa situação atual:

http://br.youtube.com/watch?v=VUgpEL9Cauo
http://br.youtube.com/watch?v=hU8tTMxKPMo
http://br.youtube.com/watch?v=3N0CQdK_6po



00h18 |




Osório Duque-Estrada:
29 de abril de 1870 — 5 de fevereiro de 1927

MINHA MUSA

Presa ao êxtase suave
De uma tristeza sem par,
Minha Musa é como uma ave
Que anseia apenas voar...

Chega às paragens secretas
Do desespero e da dor
E aonde vão as inquietas
Asas do beijo e do amor...

Faz um batel pequenino
De pandas, purpúreas, velas,
E, num clarão matutino,
Ascende ao céu e às estrelas!

Com elas fala e conversa
Da alcova dos arrebóis
E desce tranqüila, imersa
Na luz de todos os sóis.

Vive, filha, neste mundo,
Mas vai ao céu onde moras,
E mergulha no profundo
Mar Vermelho das auroras...

Osório Duque-Estrada

Fonte: http://www.academia.org.br/



00h10 |




Lou Andreas-Salomé:
12 de fevereiro de 1861 – 5 de fevereiro de 1937

"Só aquele que permanece inteiramente ele próprio pode, com o tempo, permanecer objeto do amor, porque só ele é capaz de simbolizar para o outro a vida, ser sentido como tal. Assim, nada há de mais inepto em amor do que se adaptar um ao outro, de se polir um contra o outro, e todo esse sistema interminável de concessões mútuas... e, quanto mais os seres chegam ao extremo do refinamento, tanto mais é funesto de se enxertar um sobre o outro, em nome do amor, de se transformar um em parasita do outro, quando cada um deles deve se enraizar robustamente em um solo particular, a fim de se tornar todo um mundo para o outro." (Os Sentidos da Paixão. Ed. Cia de Letras, 1987)

* * *

Ouse, ouse... ouse tudo!! Não tenha necessidade de nada! Não tente adequar sua vida a modelos, nem queira você mesmo ser um modelo para ninguém. Acredite: a vida lhe dará poucos presentes. Se você quer uma vida, aprenda ... a roubá-la! Ouse, ouse tudo! Seja na vida o que você é, aconteça o que acontecer. Não defenda nenhum princípio, mas algo de bem mais maravilhoso: algo que está em nós e que queima como o fogo da vida!!

Lou Andreas-Salomé



00h03 |




Almeida Garrett:
4 de Fevereiro de 1799 — 9 de Dezembro de 1854

Seus Olhos

Seus olhos - se eu sei pintar
o que os meus olhos cegou –
não tinham luz de brilhar,
era chama de queimar;
e o fogo que a ateou
vivaz, eterno, divino,
como o facho do Destino.

Divino, eterno! - e suave
ao mesmo tempo: mas grave
e de tão fatal poder,
que, num só momento que a vi,
queimar toda a alma senti...
Nem ficou mais do meu ser,
senão a cinza em que ardi.

Almeida Garrett

In: Livro dos Poemas
Organização de Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 141



00h55 |




Jacques Prévert:
4 de fevereiro de 1900 — 11 de abril de 1977

PARA PINTAR O RETRATO DE UM PÁSSARO

Para Elsa Henriquez

Primeiro pintar uma gaiola
com a porta aberta
pintar depois
algo de lindo
algo de simples
algo de belo
algo de útil
para o pássaro
depois dependurar a tela numa árvore
num jardim
num bosque
ou numa floresta
esconder-se atrás da árvore
sem nada dizer
sem se mexer…
Às vezes o pássaro chega logo
mas pode ser também que leve muitos anos
para se decidir
Não perder a esperança
esperar
esperar se preciso durante anos
a pressa ou a lentidão da chegada do pássaro
nada tendo a ver
com o sucesso do quadro
Quando o pássaro chegar
se chegar
guardar o mais profundo silêncio
esperar que o pássaro entre na gaiola
e quando já estiver lá dentro
fechar lentamente a porta com o pincel
depois
apagar uma a uma todas as grades
tendo o cuidado de não tocar numa única pena do pássaro
Fazer depois o desenho da árvore
escolhendo o mais belo galho
para o pássaro
pintar também a folhagem verde e a frescura do vento
a poeira do sol
e o barulho dos insectos pelo capim no calor do verão
e depois esperar que o pássaro queira cantar
Se o pássaro não cantar
mau sinal
sinal de que o quadro é ruim
mas se cantar bom sinal
sinal de que pode assiná-lo
Então você arranca delicadamente
uma das penas do pássaro
e escreve seu nome num canto do quadro.

JACQUES PRÉVERT

Paroles (1945)

In: "Poemas de Jacques Prévert”,
Nova Fronteira: Rio de Janeiro, 2000
Seleção e tradução de Silviano Santiago

(Arte: Esther Batista da Silva http://www.esther.com.br/ )



00h25 |




Hilda Hilst:
21 de abril de 1930 — 4 de fevereiro de 2004

Aflição de ser eu e não ser outra

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.

Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha)

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel

Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst



00h17 |




Lúcia Santóri-Carneiro - Nas voltas do tempo...

Nas voltas do tempo nada se perdeu.
Não há tempo. Ontem, hoje, amanhã.
Há somente o sempre.
Eu, você, atravessando capítulos,
contínuos capítulos.

Lúcia Santóri-Carneiro



09h22 |




Cesar Veneziani - Sal

Sal

O choro é a alma que se desfaz
e que dos olhos rola, goteja,
e lá no sal que destila traz
a desventura de uma tristeza.
 
Sou só e só sempre a sina sigo
de estar fadado a chorar demais.
Agindo assim eu corro perigo
de não achar nunca minha paz.
 
E cai a lágrima, indiferente,
como se fosse assim natural.
E o sentimento se faz ausente,
como se bem fosse o que é mal!
 
Ah, e essa lágrima que não seca,
como quem paga mais do que peca...

28/01/2010

Cesar Veneziani

Fonte: http://cesar.veneziani.zip.net/



09h06 |




Georg Trakl: 3 de fevereiro de 1887 - 3 de novembro de 1914

CALMA E SILÊNCIO

Pastores enterraram o sol na floresta nua.
Um pescador puxou a lua
Do lago gelado em áspera rede.

No cristal azul
Mora o pálido Homem, o rosto apoiado nas suas estrelas;
Ou curva a cabeça em sono purpúreo.

Mas sempre comove o vôo negro dos pássaros
Ao observador, santidade de flores azuis.
O silêncio próximo pensa no esquecido, anjos apagados.

De novo a fronte anoitece em pedra lunar;
Um rapaz irradiante
Surge a irmã em outono e negra decomposição.

Georg Trakl

Tradução: Cláudia Cavalcante



08h59 |




Vinicius de Moraes - Canto de Iemanjá

Canto de Iemanjá

Iemanjá, lemanjá
lemanjá é dona Janaína que vem
Iemanjá, Iemanjá
lemanjá é muita tristeza que vem

Vem do luar no céu
Vem do luar
No mar coberto de flor, meu bem
De Iemanjá
De lemanjá a cantar o amor
E a se mirar
Na lua triste no céu, meu bem
Triste no mar

Se você quiser amar
Se você quiser amor
Vem comigo a Salvador
Para ouvir lemanjá

A cantar, na maré que vai
E na maré que vem
Do fim, mais do fim, do mar
Bem mais além
Bem mais além
Do que o fim do mar
Bem mais além

Vinicius de Moraes

In: Poesia completa e prosa: "Cancioneiro"



18h02 |




Roberval Pereyr - Trajeto

TRAJETO

Dirás que somente o coração.
Eu direi: não.
E porás a culpa toda em mim.
Eu direi: sim.
E todos concordarão.
Eu direi: não.

Roberval Pereyr

Nasceu em Umburanas-BA, em 1953. Em 1964, mudou-se para Feira de Santana, onde vive. É poeta, ensaísta e professor universiutário. Tem Mestrado em Letras (UFBA) e faz atualmente Doutorado na Unicamp. Vencedor de vários prêmios literários, tem inéditos quatro novelas e a maior parte da sua produção poética. Publicou os livros de poesia: Iniciação ao estudo do um (com Antônio Brasileiro, em 1973); Cantos de sagitário, (1976); As roupas do nu (Coleção dos Novos, em 1981); Ocidentais (1987) e O súbito cenário (1996).Participou de: Poesia latino-americana. (Buenos Aires, 1976; Antologia - I Concurso Nacional de Poesia Vinicius de Morais, 1984; e Poemas fora da ordem - Concurso Nacional: Prêmio Caetano Veloso de Poesia (Antologia, 1993 - 10 lugar).Pubicou nas revistas: Tapume, Hera e Serial.



09h30 |




Chico Science: 13 de março de 1966 — 2 de fevereiro de 1997

A Cidade
 
O sol nasce e ilumina
As pedras evoluídas
Que cresceram com a força
De pedreiros suicidas
Cavaleiros circulam
Vigiando as pessoas
Não importa se são ruins
Nem importa se são boas

E a cidade se apresenta
Centro das ambições
Para mendigos ou ricos
E outras armações
Coletivos, automóveis,
Motos e metrôs
Trabalhadores, patrões,
Policiais, camelôs

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

A cidade se encontra
Prostituída
Por aqueles que a usaram
Em busca de uma saída
Ilusora de pessoas
De outros lugares,
A cidade e sua fama
Vai além dos mares

E no meio da esperteza
Internacional
A cidade até que não está tão mal
E a situação sempre mais ou menos
Sempre uns com mais e outros com menos

A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce
A cidade não pára
A cidade só cresce
O de cima sobe
E o de baixo desce

Eu vou fazer uma embolada,
Um samba, um maracatu
Tudo bem envenenado
Bom pra mim e bom pra tu
Pra gente sair da lama e enfrentar os urubus

Composição: Chico Science

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=UVab41Zn7Yc



09h17 |




James Joyce: 2 de fevereiro de 1882 - 13 de janeiro de 1941

A Pensão (trecho)

(...) Polly ficou sentada na cama, chorando. Passado algum tempo, enxugou os olhos e foi mirar-se no espelho. Molhou a ponta da toalha na jarra e refrescou os olhos. Contemplou-se de perfil e arrumou um grampo sobre a orelha. Voltou para a cama e sentou-se novamente. Ficou olhando os travesseiros que despertavam amáveis recordações. Recostou a nuca na grade fria da cama e caiu em devaneios. Já não havia em seu rosto a menor inquietação.

Esperou pacientemente, quase feliz, passando, pouco a pouco, de recordações a esperanças e visões do futuro. Imagens tão complicadas que ela já não enxergava os travesseiros, nem se lembrava de estar aguardando alguma coisa.

Finalmente, ouviu a mãe chamar. Levantou-se de um salto e correu para a escada.

- Polly! Polly!

- Sim, mamãe?

- Desce, querida. O senhor Doran quer falar com você.

Recordou-se então do que estava esperando.

James Joyce

In: Dublinenses
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1992. 4ª ed.
Trad. de Hamilton Trevisan.



09h05 |




Mario Quintana - Canção da garoa

Canção da garoa

Em cima do telhado
Pirulin lulin lulin,
Um anjo, todo molhado,
Soluça no seu flautim.

O relógio vai bater:
As molas rangem sem fim.
O retrato na parede
Fica olhando para mim.

E chove sem saber porquê
E tudo foi sempre assim!
Parece que vou sofrer:
Pirulin lulin lulin...

Mario Quintana



10h08 |




Anna Autran (1856-1933)

Sempre ideara um naufrágio
Nos embates d'alto mar!
Nunca pensei que olhos negros
Me fizessem naufragar!

Eu que via o céu e o monte,
Sem a luz deixar de ver,
Nunca pensei que nas trevas
Fosse meus olhos perder!...

Por ver meus olhos um dia
Hoje sinto mágoa e dor!
Não sabia que olhos negros
Tinham fé e luz de amor!

Anna Autran



09h43 |




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