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Ary Barroso: 7 de novembro de 1903 — 9 de fevereiro de 1964

Canção do amor que não vem

Ah, soubesse eu te contar
Toda amargura
De não poder te dar
Tanta ternura
Ah, soubesse eu nunca te contar
Ah, pudesse eu te dizer
Toda tristeza
De estar sempre esperando
Uma incerteza
E nada poder
Nem desesperar

Oh, triste caminho do coração
Que ama sozinho
Que coisa triste
Amar sozinho
Quanta solidão
Ah, pudesses entrever
Minha ansiedade
Depois de um dia de saudade
De uma noite inteira a soluçar
Vem! Não tardes mais
Amor, que eu vivo procurando
Quando vais chegar?
Eu sei que chegarás

Ah, pudesse eu pôr a teus pés
A minha vida
Amor, por quem tu és
Oh, vem
Não tarde mais

Sim, por favor
Façam silêncio
Meu amor vem em silêncio
Quando ele por mim passar

Composição: Ary Barroso / Vinicius de Moraes



- Postado por: Rodrigo às 22h29
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Albert Camus: 7 de novembro de 1913 — 4 de janeiro de 1960

"Aprendi que a bola nunca vem até nós por onde a esperamos. Isso ajudou-me muito na vida, sobretudo nas grandes cidades, onde as pessoas não costumam ser aquilo que a gente acha que são as pessoas verticais..."

Albert Camus

In: Futebol: sol e sombra, de Eduardo Galeano, editado pela Livros de Areia, 2006. Edição original: El futbol a sol y sombra (1995).



- Postado por: Rodrigo às 22h20
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Cecília Meireles: 7 de novembro de 1901 — 9 de novembro de 1964

Romance LIII ou Das palavras aéreas

Ai, palavras, ai palavras,
que estranha potência, a vossa!
Ai, palavras, ai, palavras, 
sois de vento, ides no vento,
no vento que não retorna,
e, em tão rápida existência,
tudo se forma e transforma!

Sois de vento, ides no vento,
e quedais, com sorte nova!

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência a vossa!
Todo o sentido da vida
principia à vossa porta;
o mel do amor cristaliza
o seu perfume em vossa rosa;
sois o sonho e sois a audácia,
calúnia, fúria, derrota ...

A liberdade das almas,
ai! Com letra se elabora...
E dos venenos humanos
sois a mais fina retorta:
frágil, frágil como o vidro
e mais que  aço poderosa!
Reis, impérios, povos, tempos,
pelo vosso impulso rodam ...

Detrás de grossas paredes ,
de leve, quem vos desfolha?
Pareceis de tênue seda,
Sem peso de ação nem de hora ...
- e estais no bico das penas,
- e estais na tinta que as molha,
- e estais nas mãos dos juízes,
- e sois o ferro que arrocha,
- e sois o barco para o exílio,
- e sois Moçambique e Angola!

Ai, palavras, ai, palavras,
íeis pela estrada afora,
erguendo asas muito incertas,
entre verdade e galhofa,
desejos do tempo inquieto
promessas que o mundo sopra ...

Ai, palavras, ai, palavras,
mirai-vos: que sois, agora?

- Acusações, sentinelas,
bacamarte, algema, escolta;
- O olho ardente da perfídia,
a velar, na noite morta;
- a umidade dos presídios,
- a solidão pavorosa;
- duro ferro das perguntas,
com sangue  em cada resposta;
- e a sentença que caminha,
- e a esperança que não volta,
- e o coração que vacila,
- e o castigo que galopa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Perdão podíeis ter sido!
- sois madeira que se corta,
- sois vinte degraus de escada.
- sois um pedaço de corda...
- sois povo pelas janelas,
cortejo, bandeiras, tropa...

Ai, palavras, ai, palavras,
que estranha potência, a vossa!
Éreis um sopro na aragem...
- sois um homem que se enforca!

Cecília Meireles

In: Os melhores poemas de Cecília Meireles
Seleção de Maria Fernanda Meireles. 11ª edição.
São Paulo, Ed. Global, 1999.
p. 143-146



- Postado por: Rodrigo às 22h17
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Ana Maria Machado - Sonho de uma noite de verão

"Há quem diga que todas as noites são de sonhos. Mas há também quem garanta que nem todas, só as de verão. No fundo, isto não tem muita importância. O que interessa mesmo não é a noite em si, são os sonhos. Sonhos que o homem sonha sempre, em todos os lugares, em todas as épocas do ano, dormindo ou acordado. E, entre todos eles, talvez nenhum tenha ficado tão famoso quanto este, o Sonho de uma noite de verão." (...)

Ana Maria Machado

In: Sonho de uma noite de verão
Editora Scipione, 20ª edição, 2001,
p. 9



- Postado por: Rodrigo às 22h09
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Anita Catarina Malfatti: 2 de dezembro de 1889 — 6 de novembro de 1964

"Eu tinha 13 anos, e sofria porque não sabia que rumo tomar na vida. Nada ainda me revelara o fundo da minha sensibilidade[...] Resolvi, então, me submeter a uma estranha experiência: sofrer a sensação absorvente da morte. Achava que uma forte emoção, que me aproximasse violentamente do perigo, me daria a decifração definitiva da minha personalidade. E veja o que fiz. Nossa casa ficava próxima da educada estação da Barra Funda. Um dia saí de casa, amarrei fortemente as minhas tranças de menina, deitei-me debaixo dos dormentes e esperei o trem passar por cima de mim. Foi uma coisa horrível, indescritível. O barulho ensurdecedor, a deslocação de ar, a temperatura asfixiante deram-me uma impressão de delírio e de loucura. E eu via cores, cores e cores riscando o espaço, cores que eu desejaria fixar para sempre na retina assombrada. Foi a revelação: voltei decidida a me dedicar à pintura."

Anita Malfatti

(Arte: A estudante russa, 76 x 61 cm, 1915 - Anita Malfatti)



- Postado por: Rodrigo às 09h55
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Sofia Breyner Andresen: 6 de Novembro de 1919 — 2 de Julho de 2004

Para atravessar contigo o deserto do mundo
 
Para atravessar contigo o deserto do mundo
Para enfrentarmos juntos o terror da morte
Para ver a verdade para perder o medo
Ao lado dos teus passos caminhei

Por ti deixei meu reino meu segredo
Minha rápida noite meu silêncio
Minha pérola redonda e seu oriente
Meu espelho minha vida minha imagem
E abandonei os jardins do paraíso

Cá fora à luz sem véu do dia duro
Sem os espelhos vi que estava nua
E ao descampado se chamava tempo
Por isso com teus gestos me vestiste
E aprendi a viver em pleno vento

Sophia de Mello Breyner Andresen

In: Livro Sexto II
1962



- Postado por: Rodrigo às 09h45
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Amadeu Amaral: 6 de novembro de 1875 — 24 de outubro de 1929

SONETO

A terra é dura, o sol é bravo; a geada
destruidora; aves más e más formigas
assolam tudo, e a planta acarinhada
mal resiste a essas forças inimigas.

Que importa! Lavra sempre. Não maldigas
a terra ingrata. Não maldigas nada.
Talvez um dia o preço das fadigas
brote do sulco da robusta enxada.

Mas, quanto mais a terra é ingrata, e bravo
o sol e as aves são cruéis, e o resto,
mais valor mostrarás em continuar.

Que é gentileza não viver escravo
da ganância, e plantar só pelo gesto
religioso e sereno de plantar!

* * *

A VIDA

Eis a Vida: seguir umas quimeras vagas,
lançando a mão em sangue aos cardos e aos espinhos
rolar no pó; gemer; deixar pelos caminhos
mil farrapos de carne e o sangue de mil chagas;

sorver o horrendo fel que anda em todos os vinhos,
o veneno que jaz em todas as teriagas;
persistir, todavia, entre as chufas e as pragas
dos que vão, a ulular, por trilhos convizinhos;

chegar, enfim, exausto, ao fastígio da idade,
ver desfeito o jardim de encanto que sonhamos,
cair desfalecido e - supremo revés -

olhando para trás, ver que a felicidade
ficou além, no vale, onde, espectros, passamos,
ficou além, na flor que calcamos aos pés...

(Poesias, 1931.)

* * *

VERSOS NEVOENTOS

Luta penosa e vã, esta em que vivo, imerso
Na ambição de alcançar a frase que me exprima,
onde o meu pensamento esplenda claro e terso,
como o bago reluz pronto para a vindima.

Como cristalizar tanta emoção no verso?
Como o sonho encerrar nos limites da rima?
Bruma ondulante e azul, fumo que erra disperso,
não se pode plasmar, não há mão que o comprima.

Não, eu não te darei a Expressão que rebrilha
na rija nitidez de áurea moeda sem uso,
acabado lavor de cunho e de serrilha:

só te posso ofertar estes versos nevoentos,
conchas em que ouvirás, indistinto e confuso,
um remoto fragor de vagas e de ventos.

(Espumas, 1917)

Amadeu Amaral



- Postado por: Rodrigo às 09h43
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Chico Buarque - Construção

Construção

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Por esse pão pra comer, por esse chão prá dormir
A certidão pra nascer e a concessão pra sorrir
Por me deixar respirar, por me deixar existir,
Deus lhe pague
Pela cachaça de graça que a gente tem que engolir
Pela fumaça e a desgraça, que a gente tem que tossir
Pelos andaimes pingentes que a gente tem que cair,
Deus lhe pague
Pela mulher carpideira pra nos louvar e cuspir
E pelas moscas bicheiras a nos beijar e cobrir
E pela paz derradeira que enfim vai nos redimir,
Deus lhe pague

Composição: Chico Buarque

 Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=xAUogmaP_PE



- Postado por: Rodrigo às 20h35
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MID-TERM BREAK - Seamus Heaney

Interrupção Letiva

Passei toda a manhã na enfermaria do colégio
Contando os sinos a repicarem o fim das aulas.
Às duas os vizinhos me levaram para casa.

Na varanda encontrei meu pai chorando —
Ele sempre enfrentara enterros sem se perturbar —
E Big Jim Evans dizendo que era um revés terrível.

O bebê rulava, ria e embalava o carrinho
Quando entrei, e fiquei desconcertado com os velhos
Que se levantavam para me apertar a mão

E falar que tinham "pena do meu penar".
Cochichava-se aos estranhos que eu era o mais velho,
Em colégio interno, e minha mãe segurava minha mão

Na dela, a tossir suspiros de cólera sem lágrimas.
Às dez horas a ambulância chegou
Com o corpo lavado e enfaixado pelos enfermeiros.

Na manhã seguinte subi ao quarto. Fura-neves
E velas serenavam a cabeceira; via-o
Pela primeira vez em seis semanas. Mais pálido.

Agora, com um calombo na têmpora esquerda,
Jazia no caixão de quatro pés como no berço.
Sem sinal que se visse, o pára-choque o pegou sem engano.

Caixão de quatro pés, um pé para cada ano.

Seamus Heaney

In: Poemas (1966-1987)
Tradução de José Antonio Arantes
São Paulo: Companhia das Letras, 1998
p. 39-40

Poema escrito em fevereiro de 1963 após a morte do irmão de Seamus Heaney, Christopher, num acidente de automóvel.



- Postado por: Rodrigo às 20h33
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Ruy Barbosa: 5 de novembro de 1849 — 1 de março de 1923

"[...] onde está a felicidade? No amor, ou na indiferença? Na obediência, ou no poder? No orgulho, ou na humildade? Na investigação, ou na fé? Na celebridade, ou no esquecimento? Na nudez, ou na prosperidade? Na ambição, ou no sacrifício? [...] A meu ver, a felicidade está na doçura do bem, distribuído sem idéia de remuneração. [...] Ou, por outra, sob uma fórmula mais precisa, a nossa felicidade consiste no sentimento da felicidade alheia, generosamente criada por um ato nosso. [...]"

Rui Barbosa

In: Obras Completas de Rui Barbosa.
V. 20, t. 1, 1893.
p. 32

Observações: Trecho do discurso "Homenagem dos Empregados de Fazenda da Bahia". Teatro São João. Salvador, BA. Não há original no Arquivo da FCRB



- Postado por: Rodrigo às 20h28
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Teófilo Dias - A Nuvem

A Nuvem

Sulcas o ar de um rastro perfumoso
Que os nervos me alvoroça e tantaliza,
Quando o teu corpo musical desliza
Ao hino do teu passo harmonioso.

A pressão do teu lábio saboroso
Verte-me na alma um vinho que eletriza,
Que os músculos me embebe, e os nectariza,
E afrouxa-os, num delíquio langoroso.

E quando junto a mim passas, criança,
Revolta a crespa, luxuosa trança,
Na espádua arfando em túrbidos negrumes,

Naufraga-me a razão em sombra densa,
Como se houvera sobre mim suspensa
Uma nuvem de cálidos perfumes!

Teófilo Dias

In: Poesias escolhidas.
Sel. introd. e notas Antonio Candido.
São Paulo: Conselho Estadual de Cultura, 1960.



- Postado por: Rodrigo às 18h13
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Adelino Fontoura Chaves - Celeste

CELESTE

É tão divina a angélica aparência
e a graça que ilumina o rosto dela,
que eu concebera o tipo de inocência
nessa criança imaculada e bela.
Peregrina do céu, pálida estrela,
exilada na etérea transparência,
sua origem não pode ser aquela
da nossa triste e mísera existência.
Tem a celeste e ingênua formosura
e a luminosa auréola sacrossanta
de uma visão do céu, cândida e pura.
E quando os olhos para o céu levanta,
inundados de mística doçura,
nem parece mulher - parece santa.

Adelino Fontoura Chaves



- Postado por: Rodrigo às 18h11
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C. Magalhães de Azeredo: 7 de setembro de 1872 — 4 de novembro de 1963

INVARIÁVEL

Não digas que uma estranha e imprevista mudança,
Notas em meu olhar; que, manso e amigo outrora,
Hoje lampejos de ira e de revolta lança,
E em chamas de rancor infernal te devora.

Não; ele é sempre igual - terno e devoto - embora
Não tenha a luz da fé, nem o ardor da esperança;
Sem crer no teu amor, o teu amor implora,
E de acariciar-te as formas não se cansa...

Quando de ti me vier a morte, quando um dia
Com tuas próprias mãos me abafares na boca
O suspiro final desta lenta agonia,

Inda no mesmo olhar de submisso respeito
Verás - rindo talvez! - alma leviana e louca,
O supremo perdão do mal que me tens feito...

(Procelária, 1898.)

Magalhães de Azeredo



- Postado por: Rodrigo às 18h08
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

OLHOS VERDES

Eles verdes são:
E têm por usança
Na cor esperança
E nas obras não.
Camões, Rimas.

São uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos de verde-mar,
Quando o tempo vai bonança;
Uns olhos cor de esperança
Uns olhos por que morri;
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como duas esmeraldas,
Iguais na forma e na cor,
Têm luz mais branda e mais forte.
Diz uma - vida, outra - morte;
Uma - loucura, outra - amor.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São verdes da cor do prado,
Exprimem qualquer paixão,
Tão facilmente se inflamam,
Tão meigamente derramam
Fogo e luz do coração;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

São uns olhos verdes, verdes,
Que pode também brilhar;
Não são de um verde embaçado,
Mas verdes da cor do padro,
Mas verdes da cor do mar.
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Como se lê num espelho
Pude ler nos olhos seus!
Os olhos mostram a alma,
Que as ondas postas em calma
Também refletem os céus;
Mas, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós, ó meus amigos
Se vos perguntam por mi,
Que eu vivo só da lembrança
De uns olhos da cor da esperança,
De uns olhos verdes que vi!
Que, ai de mi!
Nem já sei qual fiquei sendo
Depois que os vi!

Dizei vós: Triste do bardo!
Deixou-se de amor finar!
Viu uns olhos verdes, verdes,
Uns olhos da cor do mar;
Eram verdes sem esp’rança,
Davam amor sem amar!
Dizei-o vós, meus amigos,
Que, ai de mi!
Não pertenço mais à vida
Depois que os vi!

Gonçalves Dias

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 21h10
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

CANÇÃO DO EXÍLIO

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossa, várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar - sozinho, à noite -
Mais prazer encontro eu lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que volte para lá;
Sem que desfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu’inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Coimbra, julho, 1843

Gonçalves Dias



- Postado por: Rodrigo às 21h06
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Antônio Gonçalves Dias: 10 de agosto de 1823 — 3 de novembro de 1864

Se se morre de amor!
 
Se se morre de amor! — Não, não se morre,
Quando é fascinação que nos surpreende
De ruidoso sarau entre os festejos;
Quando luzes, calor, orquestra e flores
Assomos de prazer nos raiam n'alma,
Que embelezada e solta em tal ambiente
No que ouve, e no que vê prazer alcança!
 
Simpáticas feições, cintura breve,
Graciosa postura, porte airoso,
Uma fita, uma flor entre os cabelos,
Um quê mal definido, acaso podem
Num engano d'amor arrebatar-nos.
Mas isso amor não é; isso é delírio,
Devaneio, ilusão, que se esvaece
Ao som final da orquestra, ao derradeiro
 
Clarão, que as luzes no morrer despedem:
Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,
D'amor igual ninguém sucumbe à perda.
Amor é vida; é ter constantemente
Alma, sentidos, coração — abertos
Ao grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,
D'altas virtudes, té capaz de crimes!
Compr'ender o infinito, a imensidade,
E a natureza e Deus; gostar dos campos,
D'aves, flores, murmúrios solitários;
Buscar tristeza, a soledade, o ermo,
E ter o coração em riso e festa;
E à branda festa, ao riso da nossa alma
Fontes de pranto intercalar sem custo;
Conhecer o prazer e a desventura
No mesmo tempo, e ser no mesmo ponto
O ditoso, o misérrimo dos entes;
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Amar, e não saber, não ter coragem
Para dizer que amor que em nós sentimos;
Temer qu'olhos profanos nos devassem
O templo, onde a melhor porção da vida
Se concentra; onde avaros recatamos
Essa fonte de amor, esses tesouros
Inesgotáveis, d'ilusões floridas;
Sentir, sem que se veja, a quem se adora,
Compr'ender, sem lhe ouvir, seus pensamentos,
Segui-la, sem poder fitar seus olhos,
Amá-la, sem ousar dizer que amamos,
E, temendo roçar os seus vestidos,
Arder por afogá-la em mil abraços:
Isso é amor, e desse amor se morre!
 
Se tal paixão porém enfim transborda,
Se tem na terra o galardão devido
Em recíproco afeto; e unidas, uma,
Dois seres, duas vidas se procuram,
Entendem-se, confundem-se e penetram
Juntas — em puro céu d'êxtases puros:
Se logo a mão do fado as torna estranhas,
Se os duplica e separa, quando unidos
A mesma vida circulava em ambos;
 
Que será do que fica, e do que longe
Serve às borrascas de ludíbrio e escárnio?
Pode o raio num píncaro caindo,
Torná-lo dois, e o mar correr entre ambos;
Pode rachar o tronco levantado
E dois cimos depois verem-se erguidos,
Sinais mostrando da aliança antiga;
Dois corações porém, que juntos batem,
Que juntos vivem, — se os separam, morrem;
Ou se entre o próprio estrago inda vegetam,
Se aparência de vida, em mal, conservam,
Ânsias cruas resumem do proscrito,
Que busca achar no berço a sepultura!
 
Esse, que sobrevive à própria ruína,
Ao seu viver do coração, — às gratas
Ilusões, quando em leito solitário,
Entre as sombras da noite, em larga insônia,
Devaneando, a futurar venturas,
Mostra-se e brinca a apetecida imagem;
Esse, que à dor tamanha não sucumbe,
Inveja a quem na sepultura encontra
Dos males seus o desejado termo!

Gonçalves Dias

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização: Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999
p. 67-68



- Postado por: Rodrigo às 21h03
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Clarice Lispector - Um sopro de Vida

(...) Minha vida é um único dia. E é assim que o passado me é presente e futuro. Tudo numa só vertigem. E a doçura é tanta que faz insuportável cócega na alma. Viver é mágico e inteiramente inexplicável. Eu compreendo melhor a morte. Ser cotidiano é um vício. O que sou? Sou um pensamento. Tenho em mim o sopro? tenho? mas quem é esse tem? quem é que fala por mim? tenho um corpo e espírito? eu sou um eu? "É exatamente isto, você é um eu”, responde-me o mundo terrivelmente. E fico horrorizado. Deus não deve ser pensando jamais senão Ele foge e eu fujo. Deus deve ser ignorado e sentido. Então Ele age. Pergunto-me porque Deus pede tanto que seja amado por nós? resposta possível: porque assim nós amamos a nós mesmos e em nos amando, nós nos perdoamos. E como precisamos de perdão. Porque a própria vida já vem mesclada ao erro.(...)

Clarice Lispector


In: Um sopro de Vida
Editora Nova Fronteira
p. 17-18



- Postado por: Rodrigo às 10h07
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Teixeira de Melo - Fascinação

FASCINAÇÃO

Se a mão te aperto trêmula, gelada,
Minh’alma inteira embebe-se na tua;
Quando me fitas teu olhar tranqüilo
Todo o meu sangue ao coração recua.

Quando te cravo os olhos meus, pudica
Baixas os teus com um olhar tão triste!...
Não devo amar-te; no entretanto eu te amo!
- E quem a tal fascinação resiste?...

Sinto em minh’alma comoções estranhas
Quando a descuido o teu olhar me lanças:
Creio-me outro, mais gentil, mais puro;
Sonho mil sonhos cheios de esperanças.

Na branca flor que no jardim floresce,
Na rola que soluça na folhagem,
Do céu no azul, no verde do cipestre:
Por toda a parte vejo a tua imagem.

Às vezes julgo surpreender-te um gesto
Que o ser me afoga em ondas de alegria;
Mas logo, pobre sonhador, conheço
Que o sonho mente e mente a fantasia.

Tu és a luz da minha vida, a crença
Que a minha morta mocidade chora;
Minh’alma adeja na amplidão, suspensa,
Quando não vejo o teu sorrir de aurora....

De aurora, sim! - pois a neblina imensa
Em que me envolvo - toda se adelgaça
Ao teu sorriso angelical e às vezes
Que ao pé de mim o teu vestido passa.

Sinto que te amo desse amor vertigem
Que num momento a vida nos consome:
Sinto ao teu nome estremecer-me o seio...
- Tem-me sido fatal teu doce nome!

Nunca disseste uma palavra, nunca
Um gesto só traiu teu pensamento:
Não sei como este amor me irrompeu n’alma!
Mas sei bem que ele faz o teu tormento.

Foi como o sutil fluido que evapora
A natureza em plena primavera:
Um nada que resume a vida inteira,
Um riso, um som que passa, uma quimera!

Eu sei que o nosso amor seria um crime
Perante o mundo e a própria consciência:
Seria atar o riso à desventura
O perturbar-te a angélica inocência.

Assim pois, meu amor, guarda os teus sonhos
E as castas ilusões da mocidade
Para o mortal que os fados te destinam:
Que ele te dê - por mim - a felicidade.

Que ele alcatife o teu passar de flores;
Que o sonho teu... Meu Deus! oh como o invejo
Que entenda, oh anjo, o teu menor sorriso
E que adivinhe o teu menor desejo...

Eu fugirei para remotas plagas,
Onde o não veja, pálido, a teu lado!...
Mas lá tão longe, em toda a parte e sempre
Hei de arrastar o meu grilhão pesado!

(Miosótis, 1877)

Teixeira de Melo

Fonte: http://www.academia.org.br/



- Postado por: Rodrigo às 10h01
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Teixeira de Pascoaes: 02(?) / 11 / 1877 — 14 / 12 / 1952

REMORSOS

Onde comtigo, um dia, me zanguei,
É hoje um sitio escuro que aborreço;
E sempre que ali passo, eu anoiteço!...
Ah, foi um crime, sim, que pratiquei!

Quantas negras torturas eu padeço
Pelo pequeno mal que te causei!
Se, ao menos, presentisse o que hoje sei?
Mas não; fui mau; fui bruto; reconheço!

E sôffro mais, por isso, a tua morte,
E dou mais chôro amargo ao vento norte,
Mais trevas se acumulam no meu rôsto...

Ó vós que n'este mundo amaes alguem,
Seja linda creança ou pae ou mãe,
Não lhe causeis nem sombra de desgôsto!

Teixeira de Pascoaes

(Conservamos a ortografia original)

In: Elegias, 1912  



- Postado por: Rodrigo às 10h00
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Florbela Espanca - Amiga

Amiga

Deixa-me ser a tua amiga, Amor,
A tua amiga só, já que não queres
Que pelo teu amor seja a melhor,
A mais triste de todas as mulheres.

Que só, de ti, me venha mágoa e dor
O que me importa a mim?! O que quiseres
É sempre um sonho bom! Seja o que for,
Bendito sejas tu por mo dizeres!

Beija-me as mãos, Amor, devagarinho …
Como se os dois nascêssemos irmãos,
Aves cantando, ao sol, no mesmo ninho …

Beija-mas bem! … Que fantasia louca
Guardar assim, fechados, nestas mãos
Os beijos que sonhei prà minha boca! …

Florbela Espanca



- Postado por: Rodrigo às 10h26
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Ezra Pound: 30 de outubro de 1885 — 1 de novembro de 1972

ENVOI (1919)

Vai, livro natimudo,
E diz a ela
Que um dia me cantou essa canção de Lawes:
Houvesse em nós
Mais canção, menos temas,
Então se acabariam minhas penas,
Meus defeitos sanados em poemas
Para fazê-la eterna em minha voz

Diz a ela que espalha
Tais tesouros no ar,
Sem querer nada mais além de dar
Vida ao momento,
Que eu lhes ordenaria: vivam,
Quais rosas, no âmbar mágico, a compor,
Rubribordadas de ouro, só
Uma substância e cor
Desafiando o tempo.

Diz a ela que vai
Com a canção nos lábios
Mas não canta a canção e ignora
Quem a fez, que talvez uma outra boca
Tão bela quanto a dela
Em novas eras há de ter aos pés
Os que a adoram agora,
Quando os nossos dois pós
Com o de Waller se deponham, mudos,
No olvido que refina a todos nós,
Até que a mutação apague tudo
Salvo a Beleza, a sós.

Ezra Pound

Tradução de Augusto de Campos



- Postado por: Rodrigo às 10h21
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Lima Barreto: 13 de maio de 1881 - 1 de novembro de 1922

"O verdadeiro estado amoroso supõe um estado de semiloucura correspondente, de obsessão, determinando uma desordem emocional que vai da mais intensa alegria até à mais cruciante dor, que dá entusiasmo e abatimento, que encoraja e entibia; que faz esperar e desesperar, isto tudo, quase a um tempo, sem que a causa mude de qualquer forma."

Lima Barreto

In: Clara dos Anjos (1948 - póstumo)



- Postado por: Rodrigo às 10h12
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

PROCURO UMA ALEGRIA

Procuro uma alegria
na mala vazia
do final do ano
e eis que tenho na mão
- flor do cotidiano –
o vôo de um pássaro
e de uma canção.

Carlos Drummond de Andrade

In: Poesia Errante
7ª. ed., Editora Record 1996
p. 81



- Postado por: Rodrigo às 09h48
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Consideração do poema
 
Não rimarei a palavra sono
com a incorrespondente palavra outono.
Rimarei com a palavra carne
ou qualquer outra, que todas me convêm.
As palavras não nascem amarradas,
elas saltam, se beijam, se dissolvem,
no céu livre por vezes um desenho,
são puras, largas, autênticas, indevassáveis.

Uma pedra no meio do caminho
ou apenas um rastro, não importa.
Estes poetas são meus. De todo o orgulho,
de toda a precisão se incorporam
ao fatal meu lado esquerdo. Furto a Vinicius
sua mais límpida elegia. Bebo em Murilo.
Que Neruda me dê sua gravata
chamejante. Me perco em Apollinaire. Adeus, Maiakovski.
São todos meus irmãos, não são jornais
nem deslizar de lancha entre camélias:
é toda a minha vida que joguei.

Estes poemas são meus. É minha terra
e é ainda mais do que ela. É qualquer homem
ao meio-dia em qualquer praça. É a lanterna
em qualquer estalagem, se ainda as há.
– Há mortos? há mercados? há doenças?
É tudo meu. Ser explosivo, sem fronteiras,
por que falsa mesquinhez me rasgaria?
Que se depositem os beijos na face branca, nas principiantes rugas.
O beijo ainda é um sinal, perdido embora,
da ausência de comércio,
boiando em tempos sujos.

Poeta do finito e da matéria,
cantor sem piedade, sim, sem frágeis lágrimas,
boca tão seca, mas ardor tão casto.
Dar tudo pela presença dos longínquos,
sentir que há ecos, poucos, mas cristal,
não rocha apenas, peixes circulando
sob o navio que leva esta mensagem,
e aves de bico longo conferindo
sua derrota, e dois ou três faróis,
últimos! esperança do mar negro.
Essa viagem é mortal, e começa-la.
Saber que há tudo. E mover-se em meio
a milhões e milhões de formas raras,
secretas, duras. Eis aí meu canto.

Ele é tão baixo que sequer o escuta
ouvido rente ao chão. Mas é tão alto
que as pedras o absorvem. Está na mesa
aberta em livros, cartas e remédios.
Na parede infiltrou-se. O bonde, a rua,
o uniforme de colégio se transformam,
são ondas de carinho te envolvendo.

Como fugir ao mínimo objeto
ou recusar-se ao grande? Os temas passam,
eu sei que passarão, mas tu resistes,
e cresces como fogo, como casa,
como orvalho entre dedos,
na grama, que repousam.

Já agora te sigo a toda parte,
e te desejo e te perco, estou completo,
me destino, me faço tão sublime,
tão natural e cheio de segredos,
tão firme, tão fiel... Tal uma lâmina,
o povo, meu poema, te atravessa.

Carlos Drummond de Andrade

In: Carlos Drummond de Andrade – Poesia Completa
A Rosa do Povo
Editora Nova Aguilar
p. 115-6



- Postado por: Rodrigo às 09h24
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Drummond: 31 de outubro de 1902 — 17 de agosto de 1987

Amar

Que pode uma criatura senão,
senão entre criaturas, amar?
amar e esquecer,
amar e malamar,
amar, desamar, amar?
sempre, e até de olhos vidrados, amar?

Que pode, pergunto, o ser amoroso
sozinho, em rotação universal, senão
rodar também, e amar?
amar o que o mar traz à praia,
o que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
é sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?

Amar solenemente as palmas do deserto,
o que é entrega ou adoração expectante,
e amar o inóspito, o áspero,
um vaso sem flor, um chão de ferro,
e o peito inerte, e a rua vista em sonho, e uma ave de rapina.

Este o nosso destino: amor sem conta,
distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
doação ilimitada a uma completa ingratidão,
e na concha vazia do amor a procura medrosa,
paciente, de mais e mais amor.

Amar a nossa falta mesma de amor, e na secura nossa
amar a água implícita, e o beijo tácito, e a sede infinita.

Carlos Drummond de Andrade



- Postado por: Rodrigo às 09h23
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