Belas Mensagens
Como eu amo você... Daia!

AMO-TE

a

aAmo-te de uma forma, que é forte, profundo
Quando sinto a alma correr em disparada,
Ultrapassando o corpo, cair bem fundo
Ver o sentimento sair de forma inesperada.

Amo-te como se eu fosse um moribundo
Como se a luz de mim fosse negada.
Em você eu encontrasse a cura num segundo,
E do seu lado, eu não precisasse de mais nada.

Amo-te com todo fervor, luto a duras penas,
Para viver esse amor, agradeço em prece,
Com você sou única, vencedora e forte.

Amo-te, livre, como anjo em formas terrenas.
Pelo infinito de uma vida, como se desfalece,
Levada pela imortalidade da alma, meu norte.

Betânia Uchôa
a
Publicado no Recanto das Letras em 04/11/2009
a



21h44 |




Manuel Camilo dos Santos: 9 de junho de 1905 — 9 de abril de 1987



(...) Deus a todos deu um
dom
para com ele viver.
quem logo acertar com o seu
vive bem e tem proazer
e o que não acertar
só leva a vida a sofrer.

Uns têm o dom para artes
outros para a agricultura.
já outros para a ciência
porém outros é pra leitura.
enquanto uns vivem da
música
outros exercem a pintura.

Alguns têm o dom profético
outros o dom da cirurgia
uns têm o dom de comércio
o meu dom é poesia.
e nele graças a Deus
vivo bem, tenho alegria.

Cada um para o que nasce
apoiado este dizer.
mas muitos deixam o seu
dom
pensando enriquecer.
vão procurar longe
onde só acham o sofrer.

Manuel Camilo dos Santos

Fonte: http://www.casaruibarbosa.gov.br/cordel/ManuelCamilo/manuelCamilo.html



21h03 |




Charles Baudelaire: 9 de Abril de 1821 — 31 de Agosto de 1867

Um Hemisfério numa Cabeleira

Deixa-me respirar muito, muito tempo, o aroma dos teus cabelos, aí mergulhar todo o meu rosto, como um homem alterado na água de uma nascente, e agitá-los com a minha mão como um lenço oloroso, para sacudir recordações no ar.

Se pudesses saber tudo o que vejo! Tudo o que sinto! Tudo o que escuto nos teus cabelos! A minha alma viaja no perfume como a alma dos outros homens na música.

Os teus cabelos contêm todo um sonho, pleno de velas e de mastros; contêm grandes mares cujas monções me transportam até climas deliciosos, onde o espaço é mais belo e mais profundo; onde a atmosfera é perfumada pelos frutos, pelas folhas e pela pele humana.

No oceano da tua cabeleira, entrevejo um porto enxameado de cantos melancólicos, de homens vigorosos de todas as nações e de navios de todas as formas recortando as suas arquitecturas finas e complicadas sobre um céu imenso onde se aloja o eterno calor.

Nas carícias da tua cabeleira, encontro os langores das longas horas passadas sobre um divã, na cabina de um belo navio, embalados pelo enrolar imperceptível do porto, entre os vasos de flores e os jarros de água refrescantes.

No lar ardente da tua cabeleira, respiro o aroma do tabaco misturado com o ópio e o açúcar; na noite da tua cabeleira, vejo resplandecer o infinito do azul escuro tropical; nas margens de penugem da tua cabeleira, embriago-me com os aromas combinados do algodão, do almiscar e do óleo de coco.

Deixa-me morder por longo tempo as tuas tranças pesadas e negras. Quando mordo os teus cabelos elásticos e rebeldes, tenho a impressão de comer saudades.

Charles Baudelaire

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Tradução: Renata Cordeiro (Ed. Landy, 2002)
p. 60-1



21h03 |




Afrânio Peixoto: 17 de dezembro de 1876 — 12 de janeiro de 1947


 

Sorriso da Sociedade

Não tenho motivos para modificar minha definição de Literatura... A Literatura, ou as belas-artes, comparei-as ao sorriso da sociedade porque só nas épocas felizes a gente sorri. Nas de apreensão e tortura não há sorriso. O erro dos que, sem atentarem bem para ela, combateram e combatem minha definição, está em que eles supõem que eu tenha dito "sorriso do homem", quando o que eu escrevi foi "sorriso da sociedade". Está claro que não poderia nunca dizer que a Literatura é o sorriso do homem: primeiro porque este, para mim, não existe, não passa de simples elo de uma cadeia infinita; e, segundo, porque não ignoro que toda grande obra é feita, com a gestação, na dor. Mas só um ambiente social tranqüilo e feliz permite o aparecimento de um livro notável. No tempo de Balzac, como havia abastança social, o autor de Père Goriot pôde dedicar-se a criar vida para gozo da sociedade. E só uma sociedade feliz aplaudiria Balzac. Das torturas de sua doença e de suas prisões na Sibéria, no cárcere e no hospital, Dostoiévski, através de seus livros, saía de si para a sociedade que o admirava.

Insisto que o equívoco está em imaginarem que eu tenha escrito que a Literatura é o sorriso do homem. Só um louco diria isso, pois, de acordo com semelhante conceito, apenas os soberanos, os ricos, os poderosos fariam letras. E é sabido que estes, em geral, nada produzem que se aproveite. Uma raiz atormentada, no fundo da terra, desabrocha nas flores de um vergel. A arte é o sorriso da sociedade. Pouco importa que o artista, pessoalmente, sofra. "De minhas penas fiz canções aladas", disse Henrique Heine, e a sociedade feliz, que o admirava, o aplaudiu. Agora, nem os ricos, os poderosos, os felizes conseguem realizar obra de arte, porque a sociedade sofredora não sorri... A Literatura não pode vir da indiferença ou da preocupação. A poesia já morreu, ao menos provisoriamente. Os romances são reportagens ou confissões. Quando muito, vidas romanceadas. Ensaios e mais ensaios... Em Bizâncio era gramática e teologia. Agora, no Brasil, política e ortografia. A volta da Literatura será prenúncio de bom tempo. Que venha!

Afrânio Peixoto

Fonte: http://www.academia.org.br/



21h15 |




Érico Veríssimo: 17 de dezembro de 1905 — 28 de novembro de 1975

Eu queria fazer um livro não da vida como ela é, mas como eu queria que ela fosse. Um livro para a gente pegar e ler quando quisesse esquecer a vida real... Eu entendo a Arte como sendo uma errata da vida. A página tal, onde se lê isto, leia-se aquilo... ("Um Lugar ao Sol")

* * *

Em geral quando termino um livro encontro-me numa confusão de sentimentos, um misto de alegria, alívio e vaga tristeza. Relendo a obra mais tarde, quase sempre penso ‘Não era bem isto o que queria dizer’. ("O escritor diante do espelho")

* * *

O meu amigo mais íntimo é o sujeito que vejo todas as manhãs no espelho do quarto de banho, à hora onírica em que passo pelo rosto o aparelho de barbear. Estabelecemos diálogos mudos, numa linguagem misteriosa feita de imagens, ecos de vozes, alheias ou nossas, antigas ou recentes, relâmpagos súbitos que iluminam faces e fatos remotos ou próximos, nos corredores do passado - e às vezes, inexplicavelmente, do futuro - enfim, uma conversa que, quando analisamos os sonhos da noite, parece processar-se fora do tempo e do espaço. Surpreendo-me quase sempre em perfeito acordo com o que o Outro diz ou pensa. Sinto, no entanto, um pálido e acanhado desconforto por saber que existe no mundo alguém que conhece tão bem os meus segredos e fraquezas, uns olhos assim tão familiarizados com a minha nudez de corpo e espírito. Talvez seja por isso que com certa freqüência entramos em conflito. Mas a ridícula e bela verdade é que no fundo, bem feitas as contas, nós nos queremos um grande bem. Estamos habituados um ao outro. Envelhecemos juntos. A face do Outro é o meu calendário implacável. "Os cabelos te fogem, homem" - murmuro-lhe às vezes - "Tuas carnes se tornas flácidas. Vejo a escrita do tempo no pergaminho do teu rosto". - "E como imaginas que estás?" - replica o meu reflexo. Acabamos consolando-nos mutuamente com a idéia de que conservamos a mocidade de espírito. Mas até onde isso é verdade? Encolhemos os ombros e passamos a outras considerações e devaneios, enquanto o barbeador elétrico zumbe, e o incansável calígrafo invisível continua no seu sutil trabalho de amanuense da Morte.

Érico Veríssimo

In: Solo de clarineta - Memórias
(1º volume) - 1973



21h13 |




Olavo Bilac: 16 de dezembro de 1865 - 28 de dezembro de 1918


 

Língua Portuguesa

Última flor do Lácio, inculta e bela,
És a um tempo, esplendor e sepultura:
Ouro nativo, que na ganga impura
A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,
Tuba de alto clangor, lira singela,
Que tens o trom e o silvo da procela,
E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma
De virgens selvas e de oceano largo!
Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

Em que da voz materna ouvi: "meu filho"!
E em que Camões chorou, exílio amargo,
O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Olavo Bilac

In: Clássicos da Poesia Brasileira
Seleção e Organização de Frederico Barbosa
Ed. Klick, 1999.
p.154-155



21h10 |




Silva Ramos: 6 de março de 1853 — 16 de dezembro de 1930

DESENCONTRO

Quantas vezes me viste sem te eu ver,
E quantas eu te vi que me não viste...
E só agora, ao ver que me fugiste,
Eu vejo o que perdi, em te perder.

Estranha condição do estranho ser
Que alegre vive nesta vida triste:
Que só saibamos em que o bem consiste,
Quando o bem só consiste no morrer.

Quão feliz eu seria, se, na hora
Em que te vi, te visse como agora,
Ideal, nos meus sonhos ideais!...

Se o que eu sinto por ti sentir pudera,
Então, sorrindo, eu te diria: Espera,
E hoje, chorando, não te espero mais.

Rio, 1886

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/

* * *

NÓS

(A Hilda ten Brink)

Eu e tu: a existência repartida
Por duas almas; duas almas numa
Só existência. Tu e eu: a vida
De duas vidas que uma só resuma.

Vida de dois, em cada um vivida,
Vida de um só vivida em dois; em suma:
A essência unida à essência, sem que alguma
Perca o ser una, sendo à outra unida.

Duplo egoísmo altruísta, a cujo enleio
No próprio coração cada qual sente
A chama que em si nutre o incêndio alheio.

O mistério do amor onipotente,
Que eternamente eu viva no teu seio,
E vivas no meu eternamente.

Rio, 1888

Silva Ramos

In: Pela vida fora, 1922

Fonte: http://www.academia.org.br/



21h10 |




Oscar Niemeyer: 15 de dezembro de 1907 - 5 de dezembro de 2012

Não é o ângulo reto que me atrai, nem a linha reta, dura, inflexível, criada pelo homem. O que me atrai é a curva livre e sensual, a curva que encontro nas montanhas do meu país, no curso sinuoso dos seus rios, nas ondas do mar, no corpo da mulher preferida. De curvas é feito todo o universo, o universo curvo de Einstein.

 

Oscar Niemeyer



21h09 |




Leonardo Boff: 14 de dezembro de 1938

"Hoje nos encontramos numa fase nova na humanidade. Todos estamos regressando à Casa Comum, à Terra: os povos, as sociedades, as culturas e as religiões. Todos trocamos experiências e valores. Todos nos enriquecemos e nos completamos mutuamente. (...)

(...) Vamos rir, chorar e aprender. Aprender especialmente como casar Céu e Terra, vale dizer, como combinar o cotidiano com o surpreendente, a imanência opaca dos dias com a transcendência radiosa do espírito, a vida na plena liberdade com a morte simbolizada como um unir-se com os ancestrais, a felicidade discreta nesse mundo com a grande promessa na eternidade. E, ao final, teremos descoberto mil razões para viver mais e melhor, todos juntos, como uma grande família, na mesma Aldeia Comum, generosa e bela, o planeta Terra."

Leonardo Boff

In: Casamento entre o céu e a terra.
Ed. Salamandra, Rio de Janeiro, 2001
p. 09



21h43 |




Adélia Prado (Divinópolis, 13 de dezembro de 1935)

"Adélia é lírica, bíblica, existencial, faz poesia como faz bom tempo: esta é a lei, não dos homens, mas de Deus. Adélia é fogo, fogo de Deus em Divinópolis".

Carlos Drummond de Andrade

* * *


Com licença poética

Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.

Adélia Prado



21h40 |




C. J. Heinrich Heine: 13 de dezembro de 1797 - 17 de fevereiro de 1856

Der Doppelgänger "O Duplo"

A noite é calma, a rua dorme,
Esteve na casa minha amada a habitar;
Ela deixou a cidade há tempo enorme,
A casa, porém, permanece em seu lugar.

Há também um homem, que mira o firmamento
E retorce as mãos, presa da amargura.
Contemplar sua face causa-me tormento,
A lua me desvela minha própria figura.

Tu, meu duplo! tu, pálido amigo!
Por que zombas da minha dor de amar,
Que me torturou neste lugar
Por tantas noites, em tempo ido?

Heinrich Heine

Tradução: Priscila Manhães Lerner e Carlos Eduardo Ortolan



21h39 |




Barbosa Lessa: 13 de dezembro de 1929 — 11 de março de 2002


O João-de-barro é um passarinho de nada.

Como deve ser brabo, para ele, o esforço de levar no bico, por dias a fio, pedacinhos de barro e pedacinhos de capim. Mas não afrouxa o tutano, ajeita daqui, ajeita dali, voa para cá, voa para lá, traz, põe terra, não cansa, voa de novo, empurra com o biquinho os grãozinhos de terra, bate as asinhas doloridas de cansaço, se agiganta, vem a chuva ameaçando por tudo abaixo, ele remenda o que a chuva estragou, recomeça, vem o gavião voando para acabar com a vidade dele, ele foge, quando gavião vai embora ele volta, segue em frente, traz mais barro, chega ao topo, dá os remates finais...

E olha lá, num amanhecer de primavera, o rancho todo construído e ele piando de felicidade ao lado da companheira. E agora podem vir chuvas, que isto não tem mais importância.

E pode vir o gavião de novo, que os filhos estão dormindo com toda a segurança numa caminha de penas. Que lindeza!

Se o joão-de-barro, que é um passarinho flaquito, pode fazer tudo isso com seu biquinho de nada, por que não poderá um homem construir sua felicidade? Basta querer!

* * *

Hino Tradicionalista

Eu agradeço à Salamanca do Jarau
por me ensinar o que aprendeu do "Velho" Blau:
com alma forte e sereno coração
achei meu rumo pra sair da escuridão.
Vi uma luz que se tornou fogo-de-chão,
sorvi a luz no ritual do chimarrão,
e hoje sei o que é a Cordialidade
que nos conduz á real felicidade.

Avante, cavaleiro mirim!
Em frente, veterano peão!
Lado a lado, prenda e prendinha,
todos juntos dando a mão.
Avante, seguindo os avós!
Em frente, trazendo os piás!
Coisa linda é se ver gerações
convivendo em santa paz.

E dá uma gana de sair dançando,
ou gritando com força juvenil:
"Viva a Tradição Gaúcha
dos campeiros do Brasil!
dos campeiros do Brasil!
dos campeiros do Brasil!"

Barbosa Lessa

Ouça esta música aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=jECilok1cU4&feature=related



21h37 |




Pedro Luís P. de Sousa: 13 de dezembro de 1839 — 16 de julho de 1884

O LEQUE DE MARFIM

Ela estava bonita a enlouquecer a gente!
Viva, fresca, feliz... gostei de vê-la assim!
Da música ao murmúrio estremecia ardente
E, rindo, machucava o leque de marfim.

Seus olhos eram negros, veludosos, puros...
Dois abismos! Dois céus! Fitei-os a tremer!
Costumado a trilhar caminhos sempre escuros,
Tenho medo da luz... Meu Deus, eu não quis ver.

Mas ela fascinava... Era um olhar, mais nada...
Rebelde, o coração nessa hora me traiu!
Aos dedos dessa virgem a ânfora sagrada
Entornando perfume à luz do sol se abriu.

Encostei-me ao piano. A chácara viçosa
Entoava das flores lânguida canção.
Eu cismava... - sei lá! - no céu, no mar, na rosa...
E minh'alma se foi nas asas da paixão.

Bem como o viajante em regiões polares
Que recorda chorando o seu torrão natal,
E avista de repente, incendiando os mares,
O divino esplendor da aurora boreal,

Assim eu triste, só, sem sombra d'esperança,
Dos gelos da descrença aonde vim parar
Sondei aquele riso! Amei essa criança,
Foi-me aurora de amor o negrejante olhar.

Brilhe embora uma vez... Banhou-me a luz divina
Vale uma eternidade um dia sempre assim...
Sempre hei de me lembrar da cândida menina
Que rindo machucava o leque de marfim.

9 de abril

Pedro Luís Pereira de Sousa

Fonte: http://www.academia.org.br

Arte: P. Picasso - "A Mulher com leque"



21h36 |




José de Alencar: 1 de maio de 1829 — 12 de dezembro de 1877

(...)" Percorremos a Alemanha, a França, a Itália e a Grécia; passamos um ano nessa vida errante e nômade, vivendo do nosso amor e alimentando-nos de música, de recordações históricas, de contemplações de arte.

Criamos assim um pequeno mundo, unicamente nosso; depositamos nele todas as belas reminiscências de nossas viagens, toda a poesia dessas ruínas seculares em que as gerações que morreram, falam ao futuro pela voz do silêncio; todo o enlevo dessas vastas e imensas solidões do mar, em que a alma, dilatando-se no infinito, sente-se mais perto de Deus.

Trouxemos das nossas peregrinações um raio de sol do Oriente, um reflexo de lua de Nápoles, uma nesga do céu da Grécia, algumas flores, alguns perfumes, e com isto enchemos o nosso pequeno universo.

Depois, como as andorinhas que voltam com a primavera para fabri­car o seu ninho no campanário da capelinha em que nasceram, apenas ela recobrou a saúde e as suas belas cores, viemos procurar em nossa terra um cantinho para esconder esse mundo que havíamos criado.

Achamos na quebrada de uma montanha um lindo retiro, um verda­deiro berço de relva suspenso entre o céu e a terra por uma ponta de rochedo.

Aí abrigamos o nosso amor e vivemos tão felizes que só pedimos a Deus que nos conserve o que nos deu; a nossa existência é um longo dia, calmo e tranquilo, que começou ontem, mas que não tem amanhã."

José de Alencar

In: Cinco Minutos
Série Bom Livro. Editora Ática - São Paulo - 1995
p. 47



21h35 |




Gustave Flaubert: 12 de dezembro de 1821 – 8 de maio de 1880



Ah! é que te amo! — respondia ela — Amo-te a ponto de não poder passar sem ti, sabes? Tenho às vezes vontade de te ver, quando toda a força do amor me dilacera. E pergunto-me “Onde estará ele? Fala talvez com outras mulheres? Elas lhe sorriem, ele se aproxima...” . Oh, não! Nenhuma te agrada, não é? Há mulheres mais belas, mas eu sei amar-te melhor! Sou tua serva e tua concubina! Tu és meu rei, meu ídolo! Tu és bom, és belo, és inteligente, és forte!

Gustave Flaubert

In: Madame Bovary
Tradução de Araújo Nabuco
São Paulo: Martins editora, 1997



21h34 |




Pagu / Patricia Rehder Galvão: 9 de junho de 1910 — 12 de dezembro de 1962

Canal

Nada mais sou que um canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal
Sabem vocês o que é ser um canal?
Apenas um canal?

Evidentemente um canal tem as suas nervuras
As suas nebulosidades
As suas algas
Nereidazinhas verdes, às vezes amarelas
Mas por favor
Não pensem que estou pretendendo falar
Em bandeiras
Isso não

Gosto de bandeiras alastradas ao vento
Bandeiras de navio
As ruas são as mesmas.
O asfalto com os mesmos buracos,
Os inferninhos acesos,
O que está acontecendo?
É verdade que está ventando noroeste,
Há garotos nos bares
Há, não sei mais o que há.
Digamos que seja a lua nova
Que seja esta plantinha voacejando na minha frente.
Lembranças dos meus amigos que morreram
Lembranças de todas as coisas ocorridas
Há coisas no ar…
Digamos que seja a lua nova
Iluminando o canal
Seria verde se fosse o caso
Mas estão mortas todas as esperanças
Sou um canal.

 

* * *

Um peixe

Um pedaço de trapo que fosse
Atirado numa estrada
Em que todos pisam
Um pouco de brisa
Uma gota de chuva
Uma lágrima
Um pedaço de livro
Uma letra ou um número
Um nada, pelo menos
Desesperadamente nada.

 

* * *

Nothing

Nada nada nada
Nada mais do que nada
Porque vocês querem que exista apenas o nada
Pois existe o só nada
Um pára-brisa partido uma perna quebrada
O nada
Fisionomias massacradas
Tipóias em meus amigos
Portas arrombadas
Abertas para o nada
Um choro de criança
Uma lágrima de mulher à-toa
Que quer dizer nada
Um quarto meio escuro
Com um abajur quebrado
Meninas que dançavam
Que conversavam
Nada
Um copo de conhaque
Um teatro
Um precipício
Talvez o precipício queira dizer nada
Uma carteirinha de travel’s check
Uma partida for two nada
Trouxeram-me camélias brancas e vermelhas
Uma linda criança sorriu-me quando eu a abraçava
Um cão rosnava na minha estrada
Um papagaio falava coisas tão engraçadas
Pastorinhas entraram em meu caminho
Num samba morenamente cadenciado
Abri o meu abraço aos amigos de sempre
Poetas compareceram
Alguns escritores
Gente de teatro
Birutas no aeroporto
E nada.

A

Patricia Rehder Galvão

A

Fonte: http://www.pagu.com.br/blog/home



21h34 |




J. Antônio Camões: 10/11 de Dezembro de 1777 — 18 de Janeiro de 1827

O TESTAMENTO DE D. BURRO, PAI DOS ASNOS (Fragmentos)

(...)
Na pobre estrebaria em que me vejo,
cheio de pulgas, piolhos, percevejos,
eu D. Burro, pai dos asnos calcitrantes,
que o mundo vai deixar dentro de instantes,
vendo-me já tanto de anos carregado,
no mais triste e lastimoso estado,
sem abrigo de pai nem de parentes,
da cabeça já calvo, e já sem dentes,
do meu dono desprezado, e abatido,
ingrata satisfação de o ter servido;
vendo que neste mundo me não resta
coisa com que fazer a minha festa,
remédio não hei já senão prestar-me
fazer minha viagem, preparar-me:
essa viagem de todos tão temida,
pois os dias termina, acaba a vida.
É certo que minha alma irracional
não goza os privilégios de imortal,
mas como de cá vou pra não tornar,
e várias coisas tenho d'arranjar
- além de amigos meus e de parentes
(não que bem descendentes ou ascendentes);
por isso tomarei sequer urna hora,
na qual sem dúvidas e sem demora,
para exemplo a futuros e vindouros,
dispor eu possa bem de meus tesouros.
Como é fácil anular um testamento
o meu quero fazer com fundamento.
Por que o não posso fazer por minha mão,
impedido de angústia e de aflição,
ao Senhor Vigário eu peço mo escreva,
não porque ele favor algum me deva,
mas por ser sua letra mui par'cida
com a que eu escrevia em minha vida
quando pra amanuense seu me preparava,
pois só tal amanuense lhe quadrava.
(...)
Quarenta anos, pouco mais, tenho de idade:
sempre foram pra mim d'austeridade;
nunca neles senti barriga cheia
em almoço, jantar, merenda ou ceia.
Só quando era pequeno, lá no Corvo,
minha avó me frigiu um dia um ovo.
Estando pra o comer, eis de repente
meu avô chega, velho e impaciente,
e não só o papou ele dum bocado
mas até minha avó pôs em tal estado
que a pobre prometeu com juramento
não se embaraçar mais co'o meu sustento.
(...)
Meu corpo quero seja sepultado
aí no canto dum qualquer cerrado,
onde de mim lembrança mais não possa haver;
mas porquanto bem pode suceder
o almotacé pra o açougue me mande ir,
e à sua ordem ninguém pode resistir,
cada um de por si vá preparado
pra me levar de carne o seu cruzado.
Mas saiba quem a leve, lá por teimas:
comendo-a, morre cheio de almorreimas;
porque não pode ser que, em tal idade,
minha carne não cause enfermidade.

Herdeiros

Item. Precisando nomear testamenteiros,
o Capitão Silvestre é o primeiro;
Felipe António fique de segundo;
e suposto que me acho moribundo,
sempre nomeio terceiro aristocrácio,
meu compadre o Alferes Francisco Inácio.
P'lo trabalho de testamentaria,
peças lhes deixo da maior valia:
ao primeiro, meu óculo de alcançar,
um óculo tão distinto e singular
que com ele até mesmo observava
quantas cricas de burra encontrava.
(...)
Item. Ao segundo meu testamenteiro,
eu deixo quinze réis em bom dinheiro,
porém co'a obrigação, todos os anos,
de os pagar aos padres franciscanos
por mesada daquele pouco tempo
em que estive de estudante no convento.

Item. Ao terceiro, pouco tenho que deixar,
pois são muitos os que têm de me herdar,
e os meus bens, como sabem, poucos são.
Mas pra fugir a toda a ingratidão
as canelas lhe deixo duma perna
e meu terçado feito já pela moderna.
Em o tendo não mais use espadim,
pois é traste que nem servia a mim.

- Obrigações primeiras satisfeitas,
usemos com os outros às direitas.
(...)
Item. Ao Padre Tesoureiro mando dêem
meu couro pra chamarra que não tem;
pois se há de comprar baeta em loje,
faca uma cor de burro quando foge.
E depois, quando deste mundo eu for,
não quero mais ouvir que ante o Ouvidor
aparece com calças à maruja,
que é ação muito feia, muito suja.
Se o Ouvidor até 'qui dissimulou,
foi força de prudência de que usou;
pois eu se ouvidor fosse não sofria
uma tão temerária grosseria.
(...)
Item. Deixo ao Sr. Juiz por bem da lei
quantas lágrimas neste mundo eu chorei,
as quais ordeno sejam misturadas
co'aquelas que têm sido derramadas
por tanto pobre a quem sua mercê
cadeias, ferros manda que se dê.
(...)
Item. Meu contraparente João Bernardo,
pra ostentação maior de seu estado,
mando se dê depois da minha morte
meu rabo, que lhe sirva de chicote.
E se não se contentar com esta deixa,
pra que de mim não forme alguma queixa
dar-lhe-ão mais uma dúzia de bolotas
e couro das minhas pernas pra umas botas.

Item. A António Furtado Nunes, meu parente,
a quem Deus não fez como a outra gente,
deixo por minha morte duas pipas
do miolo que me saía pelas tripas.
(...)
Item. A minha prima Maria Joaquina
deixo dois gamelões da minha urina:
o caldo só, pois os cascos não,
porque estes meus também não são.
Com ela poderá dar uma calda
e alvejar quando quiser a sua fralda.
(...)
Item. A José Paciente e a Francisco Dente,
deixo em legado pio o meu pendente,
uma jóia de tanta estimação
que render não pode menos de um tostão.
(...)
Item. A João Castelo e sua irmã Isabel,
o meu sangue para um sarapatel;
mas com a rigorosa obrigação
que pelo olho do eu mo chuparão,
pois não quero se me faça anatomia
nem do corpo mo tirem por sangria.
(...)
O meu olho do eu já o deixei
a meu primo José, porém errei
em deixar-lho para ele assobiar,
pois nisso os beiços podem bem bastar.
Mando pois que embrulhado em um papel
o remetam a Alexandre Pimentel;
que o ponha no lugar do que não tem,
e só assim lhe pago o mal com bem.
(...)

José Antônio de Camões

In: Livro dos Poemas
Organização Sergio Faraco
Porto Alegre, Ed. L&PM, 2009
p. 254-8



21h41 |




Alfred de Musset: 11 de Dezembro de 1810 — 2 de Maio de 1857


À LAURA

Se não me amavas, ó mocinha ensandecida.
Que murmuravas tu nas noites tão fatais?
Era por tua língua a idéia escarnecida?
Que queriam o choro, a garganta oprimida.
Os clamores e os ais?

Ah! Se tão-só o prazer te arrancava ternuras,
Se era tão-só o prazer que no instante aflitivo
Nos meus lábios a arder, cobrias de branduras,
Qual amante exclusivo;

Se os sentidos com a alma, os beijos com os prantos
Vão dos lábios ao peito, assim, de par em par;
E se precisas para encontrar nisso encantos
Sobre o altar do prazer a dita profanar:

Ah! Laurinha, a quem amo idolatradamente,
Se o demônio feroz da noite insonolente
Sem a máscara a arder nem mesmo um passo dava,
Por que o invocavas, já que tu, tu não me amavas?

ALFRED DE MUSSET

In: Pequena Antologia de Poemas Franceses
Concepção e Tradução de Renata Cordeiro
São Paulo, Ed. Landy, 2002
p. 56



21h37 |




Noel Rosa: 11 de dezembro de 1910 — 4 de maio de 1937

Dê a quem você ama
asas para voar,
raízes para voltar,
motivos para ficar.

* * *

Até Amanhã

Até amanhã se Deus quiser
Se não chover, eu volto pra te ver, ó mulher
De ti gosto mais que outra qualquer
Não vou por gosto, o destino é quem quer

Adeus é pra quem deixa a vida
É sempre na certa que eu jogo
Três palavras vou gritar por despedida
Até amanhã, até já, até logo

O mundo é um samba em que eu danço
Sem nunca sair do meu trilho
Vou cantando o teu nome sem descanso
Pois do meu samba tu és o estribilho

Eu sei me livrar do perigo
Num golpe de azar eu não jogo
É por isso que risonho eu te digo
Até amanhã, até já, até logo

Composição: Noel Rosa



21h36 |




Carlos Gardel: 11 de dezembro de 1890 — 24 de junho de 1935

 

El día que me quieras

Acaricia meu sono
o suave murmúrio
do teu suspirar.
Como ri a vida
se os teus olhos negros
me querem olhar
E se é meu o amparo do teu riso leve
que é como um cantar
Ele aquieta minha ferida
e tudo se esquece

No dia que me quiseres
A rosa que enfeita
se vestirá de festa
com sua melhor cor
E ao vento os sinos
dirão que tu já és minha
E loucas as fontes cantarão teu amor

Na noite que me quiseres
desde o azul do céu às estrelas ciumentas
nos olharão passar
E um raio misterioso
se aninhará nos teus cabelos
vagalumes curiosos verão que tu és o
meu consolo

No dia que me quiseres
não haverá mais que harmonia
será clara a aurora
e alegre a nascente
Trará quieta a brisa
rumor de melodias
e nos darão as fontes
seu canto de cristal
No dia que me quiseres
adoçará suas cordas o pássaro cantor
florecerá a vida
não existirá mais a dor

Composição: Carlos Gardel / Alfredo Le Pera

Ouça esta música aqui por Luis Miguel (1994):
http://www.youtube.com/watch?v=QvyIG57knJI



21h35 |




Alexander Solzhenitsyn: 11 de Dezembro de 1918 — 3 de Agosto de 2008

“No fim da guerra civil, e como sua conseqüência natural, abateu-se sobre a região do Volga um ano de fome como nunca se tinha conhecido. Como isso não adorna muito a coroa de glória dos vencedores desta guerra, falam sobre ele entre os dentes e sem ir além de duas linhas. E no entanto essa fome chegou até ao canibalismo, até aos pais comerem os seus próprios filhos. Nunca uma fome assim tinha sido conhecida na Rússia, nem sequer no ‘Tempo dos Tumultos’ (então, como testemunham os historiadores, os cereais mantinham-se debaixo da neve durante vários anos, sem serem colhidos). Um só filme sobre essa fome poderia projetar uma luz nova sobre tudo o que vimos e tudo o que sabemos acerca da Revolução e da guerra civil. Mas não há nem filmes, nem romances, nem estudos estatísticos – é algo que se procura esquecer, que não embeleza”

Alexander Solzhenitsyn

In: Arquipélago Gulag, pg. 331-332



21h35 |




Clarice Lispector: 10 de dezembro de 1920 — 9 de dezembro de 1977

DAS VANTAGENS DE SER BOBO

O bobo, por não se ocupar com ambições, tem tempo para ver, ouvir, tocar no mundo.

O bobo é capaz de ficar sentado quase sem se mexer por duas horas. Se perguntado por que não faz alguma coisa, responde: "Estou fazendo, estou pensando".

Ser bobo às vezes oferece um mundo de saída porque os espertos só se lembram de sair por meio da esperteza, e o bobo tem originalidade, espontaneamente lhe vem a idéia.

O bobo tem oportunidade de ver coisas que os espertos não vêem. Os espertos estão sempre tão atentos às espertezas alheias que se descontraem diante dos bobos, e estes os vêem como simples pessoas humanas.

O bobo ganha utilidade e sabedoria para viver.

O bobo parece nunca ter tido vez. No entanto, muitas vezes, o bobo é um Dostoievski.

Há desvantagem, obviamente. Uma boba, por exemplo, confiou na palavra de um desconhecido para a compra de um ar refrigerado de segunda mão: ele disse que o aparelho era novo, praticamente sem uso porque se mudara para a Gávea onde é fresco. Vai a boba e compra o aparelho sem vê-lo sequer.

Resultado: não funciona.

Chamado um técnico, a opinião deste era que o aparelho estava tão estragado que o concerto seria caríssimo: mais vale comprar outro.

Mas, em contrapartida, a vantagem de ser bobo é ter boa-fé, não desconfiar, e, portanto estar tranqüilo.

Enquanto o esperto não dorme à noite com medo de ser ludibriado. O esperto vence com úlcera no estômago. O bobo não percebe que venceu.

Aviso: não confundir bobos com burros.

Desvantagem: pode receber uma punhalada de quem menos espera. É uma das tristezas que o bobo não prevê. César terminou dizendo a célebre frase: "Até tu, Brutus?"

Bobo não reclama. Em compensação, como exclama!

Os bobos, com todas as suas palhaçadas, devem estar todos no céu.

Se Cristo tivesse sido esperto não teria morrido na cruz.

O bobo é sempre tão simpático que há espertos que se fazem passar por bobos.

Os espertos ganham dos outros. Em compensação, os bobos ganham a vida. Bem-aventurados os bobos porque sabem sem que ninguém desconfie. Aliás, não se importam que saibam que eles sabem.

Há lugares que facilitam mais as pessoas serem bobas (não confundir bobo com burro, com tolo, com fútil). Minas Gerais, por exemplo, facilita ser bobo. Ah, quantos perdem por não nascer em Minas!

Bobo é Chagall, que põe vaca no espaço, voando por cima das casas.

É quase impossível evitar excesso de amor que o bobo provoca.

É que só o bobo é capaz de excesso de amor. E só o amor faz o bobo.

Clarice Lispector

In: Aprendendo a viver
EDITORA ROCCO, 2004
p. 166-8

Ouça este texto na voz de Aracy Balabanian:

http://www.youtube.com/watch?v=8lSoxrWsnZw

* * *

"Meu Deus, me dê a coragem de viver trezentos e sessenta e cinco dias e noites, todos vazios de Tua presença. Me dê a coragem de considerar esse vazio como uma plenitude. Faça com que eu seja a Tua amante humilde, entrelaçada a Ti em êxtase. Faça com que eu possa falar com este vazio tremendo e receber como resposta o. amor materno que nutre e embala. Faça com que eu tenha a coragem de Te amar, sem odiar as Tuas ofensas à minha alma e ao meu corpo. Faça com que a solidão não me destrua. Faça com que minha solidão me sirva de companhia. Faça com que eu tenha a coragem de me enfrentar. Faça com que eu saiba ficar com o nada e mesmo assim me sentir como se estivesse plena de tudo. Receba em teus braços o meu pecado de pensar."

In: Um Sopro de Vida,
4. ed. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1978,
pp. 154-155

* * *

(...) O jade me permite a divindade. Seu verde trans­passável me santifica em bizantino ícone. Eu, de mãos postas e juntas diante de meu rosto sério e transpa­rente e meu diadema então são as tranças entrelaçadas de meus vigorosos e tranqüilos cabelos negros. O jade é a minha espada desembainhada pelo harakiri de minha humilde alma orgulhosa que se mata porque tem muito pouco de tudo, é paupérrima, mas tem o orgulho soberano da morte.
Mas — mas só o diamante corta o vidro.
E agora vou dizer uma coisa muito séria, preste atenção: caco de vidro é jóia rara. E o espatifo dele é som de se ouvir ajoelhado que nem som de sinos. Elegantes sinos que são coisas jóias também. Sinos são as jóias da igreja. E o badalo de sinos é um badalar de ouro que espatifa no ar brilhantes e pássaros azuis.
Cavalo de fogo é o rubi em que eu mergulho tão profundo que se me rompo toda.
E a esmeralda? Esmeralda é de se trincar com os dentes, e espatifá-la em mil trocinhos de verdes e miú­dos filhos de esmeralda.
Topázio é a transparência de teu olhar.
A pedra? pedra que está no chão? É jóia que veio do céu em turbilhão e ali parou até que eu viesse e a visse e a apanhasse e a apalpasse como coisa minha, coisa de meu coração.
E a safira? tem um reflexo que cega os olhos dos incautos que a compram como se fossem brilhantes. Eu nunca vi uma safira. Só sei por ouvir falar. Mas no dia em que eu me defrontar com uma safira — ah! vai ser espada contra espada e vamos ver se é de mim que o sangue há de jorrar.
A pulseira me escraviza, oh doce escravidão de mulher ao seu homem preferido.
Platina é a mais cara. Mas não te quero, és feroz na tua frieza branca. Prefiro jóia barata de mulher pobre que compra na feira seus brilhantes leivados da mais pura água dos esgotos turvos.
Ametista, eu não te beijo porque não sou a tua serva.
Ônix! príncipe negro das rosas, tu me amargas e nado nas águas — trevas da tua posse ferrenha, oh luto de rainha! aranha preta penugenta. Maldita sejas, pedra preta de sangue, coágulo de humores e miasmas.
Água-marinha? meu primeiro namoradinho tinha olhos azuis de água-marinha. Mas eu não chegava perto dele: tinha medo. Porque água quieta é água funda e me dava calafrios.

In: Um Sopro de Vida
RJ: Ed. Nova Fronteira, 1978
p. 120-122

* * *

"De Ulisses ela aprendera a ter coragem de ter fé - muita coragem, fé em quê? Na própria fé, que a fé pode ser um grande susto, pode significar cair no abismo, Lóri tinha medo de cair no abismo e segurava-se numa das mãos de Ulisses enquanto a outra mão de Ulisses empurrava-a para o abismo - em breve ela teria que soltar a mão menos forte do que a que a empurrava, e cair, a vida não é de se brincar porque em pleno dia se morre. A mais premente necessidade de um ser humano era tornar-se um ser Humano."

In: Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres - 1969

* * *

Saudade é um pouco como a fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

In: A descoberta do mundo

Editora Nova Fronteira
RJ: 1994
p. 144



20h24 |




Thomas Merton: 31 de Janeiro de 1915 - 10 de Dezembro de 1968

"A vida consiste em aprender a viver de maneira autônoma, espontânea e livremente: para isso é preciso reconhecer-se a si mesmo – estar familiarizado e à vontade consigo mesmo. Isso significa, basicamente, aprender quem somos e aprender o que temos para oferecer ao mundo contemporâneo e, depois, aprender como fazer para que essa oferta seja válida.

A finalidade da educação é mostrar a uma pessoa como se definir autêntica e espontaneamente em relação ao seu mundo – não é impor uma definição pré-fabricada do mundo e, menos ainda, uma definição arbitrária do próprio indivíduo. O mundo é feito de pessoas que estão plenamente vivas dentro dele: isto é, de pessoas que podem ser elas mesmas nele e podem nele estabelecer umas com as outras uma relação viva e frutífera. O mundo, portanto, é mais real na proporção em que as pessoas nele são capazes de ser mais plenamente e mais humanamente vivas: isto é, mais capazes de fazer um uso consciente e lúcido de sua liberdade. Basicamente, essa liberdade deve consistir, antes de tudo, na capacidade de escolherem suas próprias vidas, de se encontrarem no nível mais profundo possível. Uma liberdade superficial de vagar sem destino, ora aqui, ora ali, de experimentar isto e aquilo, de fazer uma escolha de distrações (…) é simplesmente um simulacro. Pretende ser uma liberdade de “escolha” ao passo que se esquiva da tarefa básica de descobrir quem é que escolhe. Não é livre porque não está querendo enfrentar o risco da autodescoberta.”

Thomas Merton

In: Amor e Vida
Ed. Martins Fontes Editora, S. Paulo, 2004.
p. 3-4



20h20 |




Celestino Alves: 6 de abril de 1929 - 10 de dezembro de 1991


"No meu entender, não há tempo para pensar duas vezes, é mobilizar a maior quantidade de tratores que se possa, com firmas empreiteiras, da União, dos Estados, dos municípios e mesmo das propriedades da região, localizá-los nas imediações da Barragem de Sobradinho, no Rio São Francisco, marcar o rumo do alto Piranhas, na Paraíba, passando pelo Alto Pajeú, no Pernambuco, escavando o chão e levando água. À proporção que a água for entrando pelo sertão adentro, vai gerando riquezas e dando mão-de-obra, tirando o homem da emergência e levando-o ao trabalho produtivo". ("O Nordeste e as secas", Brasília, Gráfica do Senado Federal, 1983, p. 10)

Celestino Alves



20h18 |




Emily Dickinson: 10 de Dezembro de 1830 - 15 de maio de 1886

Joyful - to whom the Sunrise
Precedes Enamored - Day -
Joyful - for whom the Meadow Bird
Has ought but Elegy!

*

Feliz daquele, que a enamorada
Aurora precede – o dia!
Feliz daquele para quem
O rouxinol canta, sem cantar elegias.

In: Emily Dickinson - Poemas Escolhidos
Tradução de Ivo Bender
Ed. L&M POCKET
p. 61

* * *

Senti um féretro em meu cérebro

Senti um Féretro em meu Cérebro
E Carpideiras indo e vindo
A pisar - a pisar - até eu sonhar
Meus sentidos fugindo -

E quando tudo se sentou,
O Tambor de um Ofício -
Bateu - bateu - até eu sentir
Inerte o meu juízo

E eu as ouvi - erguida a Tampa -
Rangerem por minha Alma com
Todo o Chumbo dos pés, de novo,
E o Espaço dobrou

Como se os Céus fossem um sino
E o Ser apenas um Ouvido
E eu e o silêncio estranha Raça
Só, naufragada, aqui -

Partiu-se a Tábua em minha Mente
E eu fui cair de Chão em Chão -
E em cada Chão achei um Mundo
E Terminei sabendo - então -

In: Emily Dickinson: Não sou ninguém - Poemas
Tradução e Organização: Augusto de Campos
Editora Unicamp

* * *

Alguns guardam o Domingo indo à Igreja
Eu o guardo ficando em casa
Tendo um Sabiá como cantor
E um Pomar por Santuário.
Alguns guardam o Domingo em vestes brancas
Mas eu só uso minhas Asas
E ao invés do repicar dos sinos na Igreja
Nosso pássaro canta na palmeira.
É Deus que está pregando, pregador admirável
E o seu sermão é sempre curto.
Assim, ao invés de chegar ao Céu, só no final
Eu o encontro o tempo todo no quintal.

Emily Dickinson



20h17 |




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